De vó Clélia

 

Por Maria Lucia Solla

 

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Hoje, 22 de dezembro de 2014, nasceu para uma nova vida, a minha mãe, a Dona Clélia Calò Solla. Eu sentia ter duas mães, a minha verdadeira e a minha sogra, e as duas resolveram partir quase quase juntas.

 

Dona Ruth, minha sogra, que se foi há dois dias, era uma mulher de estrutura e estatura grande e forte, decidida e independente. Ao contrário dela, minha mãe sempre foi recatada, de estrutura e estatura delicadas, e de fala mansa. Artista e cozinheira de mão cheia.

 

Tenho quase quase certeza de que a vó Ruth se desligou do corpo que a prendia ao leito e foi, como vão as almas quando se soltam da prisão do corpo, até onde estava a mamãe. Já chegou lá animada, chamou a mamãe e disse: segura na minha mão, Clélia, e vem comigo para a liberdade.

 

A mamãe, que pouca intimidade teve com a liberdade, durante toda a vida, sorriu ao rever a amiga distante, em quem confiava, deu a ela a mão, e se foram. Soltaram as amarras que ainda as prendiam a este planeta e saíram voejando, como voejam as almas.

 

A mamãe faria, em 28 de março, 88 anos. Casou-se aos dezoito, com seu primeiro e grande amor, e foi a ele e à família que dedicou cada dia da sua vida. Começaram a namorar num baile, dançando ‘ Eu sonhei que tu estavas tão linda, de Altemar Dutra. A mamãe era muito bonita: olhos verdes, com os quais presenteou meu filho mais novo, alourada, pele branquinha e muito, muito delicada. Falava baixinho e era discretíssima. Nem poderia ser diferente, com meu pai sempre controlando cada detalhe da vida.

 

A mamãe casou menina, e eu nasci quando ela ainda não tinha deixado a meninice. Deve ter cortado um doze comigo, que sempre fui, como dizer, um pouco diferente da maioria das meninas da minha idade. Ela encarou o desafio. E qual seria a outra alternativa? Depois, bem depois, 14 anos depois chegou meu irmão Oswaldo, mesmo nome do meu pai, e foi aí que se deu o encontro de duas almas gêmeas. Ela e meu irmão.

 

Desde o primeiro contato foram unidos, cúmplices, apoio um para o outro. Sempre! E meu irmão foi dedicado a ela, sem trégua, até o derradeiro momento.

 

Obrigada, mãe, pela minha vida, por seus cuidados e pelo exemplo de generosidade, humildade e o trato amoroso a todos que passaram por tua vida.

 

Paz, Luz, Amor de verdade e muita alegria junto ao vovô Vito Calò, à vovó Grazia, ao papai e todos os que formarão o teu novo mundo.

 

Gratidão! Amor!

 


Maria Lucia Solla é professora de idiomas, terapeuta, e realiza oficinas de Desenvolvimento do Pensamento Criativo e de Arte e Criação. Aos domingos escreve no Blog do Mílton Jung

Malévola: um filme para ver sempre e curtir Angelina, sua arte e maquiagem

 

Por Biba Mello

 

FILME DA SEMANA:
“Maleficent”
Um filme de Robert Stromberg .
Gênero: Ficção.
País: U.S.A.

 

 

Malévola é uma fada lindinha, pura e poderosa, até que conhece o amor. Este amor cresce e então o rapaz desaparece. Após alguns anos, o amado volta e é perdoado, mas é ai que as coisas ficam feias…Malévola é traída e se transforma em um ser cheio de ódio e desejo de vingança. O rapaz se torna rei e tem uma filha, então Malévola, que acompanha sua vida, usa a filha recém nascida do rei para se vingar. Um filme onde os mocinhos são vilões e os vilões mocinhos, sob a perspectiva da história da vilã…

 

Por que ver: Não sei se vocês perceberam, mas sou apaixonada por boas atuações, e sem dúvida alguma, Angelina Jolie simplesmente arrebenta!!!! Criou uma personagem forte sem ser “cafajeste”; na medida! O restante do elenco também é muito coeso e passa credibilidade às cenas. Os efeitos especiais muito bem feitos e a direção de arte impressiona. Enfim, um bom entretenimento. Hum! Para as fãs de maquiagem, não deixem de olhar a cor “MARA”do batom da Angelina…É o True Love’s Kiss, da MAC Cosmetics.

 

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Como ver: Sempre e em qualquer ocasião!! Até meus amigos mais cults vão gostar…Mas pode vir a calhar logo após uma “dor de corno… dor de cotovelo”…Você vai pensar: “é, podia ser pior”.

 

Quando não ver: Meu filhinho de 3 anos se assustou bastante com os efeitos e a caracterização da Angelina Jolie…Bom, não foi boa ideia deixá-lo assistir…Após 10 minutos de filme, estava em seu quarto vendo a Peppa…Mais adequado…Crianças podem assistir quando distinguirem melhor ficção e realidade.

 

WELL, WELL, WELL, curta o trailler lá no alto da página

 

Biba Mello, diretora de cinema, blogger e apaixonada por assuntos femininos. Todas as semanas, escreve no Blog do Mílton Jung

De graça e agradecimento (revisitado)

 

Por Maria Lucia Solla

 

 

O fim do ano chega e bate indiscriminadamente na porta do bom e na porta do não tão bom, do amigo e do não tão amigo assim. Vem arrastando um balaio cheio de lembrança bordada com emoções que fazem sorrir outra vez, e trazendo outras que a gente prefere esquecer. Não há como fugir. É encarar e selecionar, acalentando e nutrindo as que têm um doce sabor e espantando e tentando evitar aquelas que atacam e viram do avesso o fígado e arredores. 

 

Presente de Natal então assombra grego e troiano. É um sufoco que evito porque vem com tarja de compulsório. Todo ano penso em me organizar e criar o presente certo para cada um, só que dezembro chega, me pega de surpresa, me passa uma rasteira certeira, e acabo não fazendo nada nesse sentido. Na verdade não gosto da ideia de presente de Natal.

 

Pois é nesse emaranhado de emoções que procuro aquietar corpo e mente, e agradeço. Agradeço e agradeço mais uma vez vez.

 

Agradeço ao Arquiteto de Tudo e a seus auxiliares. Agradeço aos mestres aprisionados em corpos mortais e aos que não posso ver com os olhos do corpo. 

 

Agradeço a meu pai e minha mãe, e a seus antepassados, pela oportunidade da vida. 

 

Agradeço ao pai dos meus filhos e a seus pais e antepassados, a vida dos meus tesouros mais preciosos. 

 

Agradeço aos amores que passaram pela minha vida e que me enriqueceram e me ensinaram a amar cada vez mais, quando achava que já sabia tudo sobre amor, respeito e admiração, prazer e dor. 

 

Agradeço aos companheiros de trabalho, superiores, pares e subordinados, que passaram e ainda passam pela minha vida, com quem aprendi e aprendo muito. 

 

Agradeço aos anjos em forma de gente, que me impulsionam no caminho do aprendizado e da abertura da minha consciência. 

 

Agradeço à minha tia Inês, que é a minha família presente, cuidadosa e carinhosa em todos os momentos, com quem divido alegrias, tristezas, vitórias e frustrações, e que me ouve com um amor que só ela sabe oferecer. 

 

Agradeço aos que eram amigos e deixaram de ser, pelos mais diversos motivos. Enquanto tinham amor para dar, me inundaram com ele; quando o amor secou, bateram em retirada, deixando lições que se eu souber aproveitar, cresço ainda mais. 

 

Agradeço aos professores, pelas descobertas fascinantes de um mundo cada vez maior e fascinante.

 

Se decidisse listar as bênçãos recebidas inesperadamente e as cultivadas com determinação, preencheria páginas e páginas. 

 

Se por outro lado listasse as desventuras e frustrações, não conseguiria preencher uma só.

 

Vou domando meu ego cheio de manha, e reconhecendo que sei ainda muito pouco da vida, e que há muito para aprender, mas é exatamente isso que me dá o impulso necessário para continuar vivendo. Quero mais.

 

E você?

 

Pense nisso, ou não, e até a semana que vem.

 

(Este texto foi postado, originalmente, neste blog, em 16.12.2007)

 


Maria Lucia Solla é professora de idiomas, terapeuta, e realiza oficinas de Desenvolvimento do Pensamento Criativo e de Arte e Criação. Aos domingos escreve no Blog do Mílton Jung

"Bote fé, bote esperança e bote amor"

 

Por Milton Ferretti Jung

 

Costumo escrever nas terças-feiras os textos que produzo para este blog, mas esses são postados somente dois dias depois. Como não poderia deixar de ser, escolhi, como assunto, a visita do Papa Francisco. Afinal, não era necessário ser adivinho para saber que nada poderia ser mais importante. Deus me livre de fazer pouco dos Papas que estiveram no Brasil antes do atual Pontífice. Todos os três que aqui vieram foram bem-vindos. João Paulo II, recordista de estadas em nosso País, teve rápida passagem, em 1979, pelo Rio de Janeiro. Depois, em 1980, visitou treze 13 cidades brasileiras em doze dias. Uma delas foi Porto Alegre. Nessa, porque é onde moro desde a mais tenra idade, deixou muito bem marcada a sua presença. Lembro-me, especialmente, da Santa Missa, que oficiou ao ar livre, bem pertinho da minha casa e do Estádio Olímpico, do Grêmio. O local passou a ser chamado de Largo do Papa. Em visita do Palácio Piratini, sede do governo gaúcho, se não me engano, pronunciou, em português, esta pequena, mas inesquecível frase: “O Papa é gaúcho!”. João Paulo II fez ainda mais duas visitas ao Brasil: uma em 1991, outra em 1997, essa já com a saúde debilitada.

 

Bento XVI, esteve aqui em 2007. Na semana passada, o Papa Francisco assombrou o Brasil desde a sua chegada. Creio que não exagero. Seus primeiros movimentos no Rio de Janeiro foram, simplemente, fantásticos, a começar pelos episódios vistos pelas tevês que cobriram o trajeto dele, do Galeão até o Palácio da Guanabara, durante o qual, no modesto Fiat Idea que o conduzia, acabou cercado por multidão de pedestres, para pasmo e medo dos telespectadores e responsáveis por sua segurança. Quem não viu os primeiros movimentos do Papa Francisco, perdeu uma das suas mágicas. Houve outras que nem preciso relembrar, especialmente, as que ocorreram na praia de Copacabana, com o seu público de mais de três milhões de, na sua maioria, jovens católicos cheios de entusiasmo. Entre as frases que Francisco – o Modesto – pronunciou – todas profundas, uma das que mais gostei foi esta, dirigida aos participantes da Jornada Mundial da Juventude: “Bote mais amor na sua vida, assim, você encontrará muitos amigos que caminham com você. Bote fé, bote esperança, bote amor”. Para mim,o Papa Francisco foi o Homem do Ano de 2013.

 


Milton Ferretti Jung é jornalista, radialista e meu pai. Às quintas-feiras, escreve no Blog do Mílton Jung (o filho dele)

De condicional

 

Por Maria Lucia Solla

 

 

Ah se eu pudesse…

 

…me consertaria todinha, voltaria a fita e desfaria os males que causei, mesmo aqueles dos quais nem conta me dei. De mim isso aliviaria o fardo, mesmo que fosse muito, muito difícil, eu o faria sorrindo e de bom grado.

 

Pediria desculpas a quem magoei, mas jamais engoliria as lágrimas que chorei. Choraria ainda mais, até que o engasgo desengasgasse, até que meu coração desafogasse.

 

Ah se eu pudesse…

 

…seria melhor mãe do que tenho sido, desataria os nós que atei, faria de novo, e faria bem, tudo aquilo em que falhei.

 

Beijaria mais, abraçaria abraços apaixonados, apertados e compridos, enxugaria as lágrimas dos sofridos e dos desesperançados, muito mais, mas muito mais do que até hoje enxuguei.

 

Ah se eu pudesse…

 

…confessaria meu amor sem pudor, acariciaria o corpo do homem amado com muito, mas muito amor, sem recato, e não mais aceitaria o vazio do abstrato.

 

Curaria as feridas dos corações dos meus filhos, uma a uma, sem medo nenhum de facilitar-lhes a vida, e recolheria cada pétala de cada dor por eles sentida.

 

Ah se eu pudesse…

 

…diria todos os dias, a todos os meus amigos, o quanto eu quero tê-los sempre comigo, lhes ofereceria abrigo, mesmo que seus queixumes não fizessem, para ninguém mais no mundo, nenhum sentido.

 

Continuaria a andar, feliz, pela estrada do sonho e por aquela da realidade, viajaria e cantaria, sem medo de desafinar. E mesmo não conhecendo os caminhos, para todo canto eu iria, pelo simples prazer de andar. Sem rumo, sem idade, para pôr minhas energias no prumo.

 

Ah se eu pudesse…

 

…não abandonaria jamais o banco da escola, daria aula de graça porque essa sempre foi minha cachaça.

 

Dançaria mais, muito, mas muito mais. Todo dia rodopiaria, de noite e de dia, num crescente espiral que me transportasse em transe e me colocasse frente a frente com o plano espiritual.

 

Ah se eu pudesse…

 

…adoçaria os corações amargos, desarmaria os armados, acalentaria os desesperados, animaria os desanimados, resgataria suas almas perdidas, cicatrizaria suas feridas, uma a uma, sem hesitação nenhuma.

 

Escreveria a história da minha vida e contaria ao mundo cada momento vivido, aqueles dos quais me orgulho e aqueles inverossímeis, dos quais mesmo eu duvido. Despiria meu êxtase, meus suspiros, meus gritos mais aflitos meus impulsos contidos, meus desejos proibidos. Um a um; não mascararia nenhum.

 

Ah se eu pudesse…

 

Maria Lucia Solla é professora de idiomas, terapeuta, e realiza oficinas de Desenvolvimento do Pensamento Criativo e de Arte e Criação. Aos domingos escreve no Blog do Mílton Jung

De Santo Antonio

 

Por Maria Lucia Solla

 

 

Olá,

 

Somos cercados por energias conflitantes, de todo tipo e matiz. Sempre estivemos, acredito, mas o número de humanos vem crescendo e, onde há aglomeração há confusão. A competitividade aumenta, a avidez galopa, o ódio partidário e preconceituoso arreganha os dentes, a solidariedade mingua, a honestidade se limita a termo no dicionário, e você pode aumentar a lista, se quiser, de tudo que está faltando e de tudo que está sobrando. Vai chegar a uma equação que aponta para o desequilíbrio. Esquecemos que somos um só corpo, separados ilusoriamente, e que tirando do outro, tiramos de nós, e vice-versa.

 

Por outro lado, acabamos de viver o dia de Santo Antonio, santo casamenteiro, santo do amor. E amor, sozinho, equilibra qualquer tipo de energia. Do amor brotam todas as benesses. Por isso, neste papo com você, em vez de enumerar erros do lado de fora e do lado de dentro, vou trazer de volta, em homenagem ao amor, meu primeiro poema publicado neste blog em dezoito de maio de 2008.

Maria Lucia Solla é professora de idiomas, terapeuta, e realiza oficinas de Desenvolvimento do Pensamento Criativo e de Arte e Criação. Aos domingos escreve no Blog do Mílton Jung

SP: Metrópole mal-amada

 

Por Carlos Magno Gibrail

 

 

Não bastasse o desejo de fuga da maioria dos seus habitantes, comprovado através de recente pesquisa, eis que um novo levantamento de opinião revela que mais de 60% dos moradores de São Paulo acreditam que José Serra irá abandonar novamente o cargo de Prefeito, se eleito. E, ainda assim o tucano lidera as intenções de voto.

 

Provavelmente é a expansão da síndrome de Estocolmo, já detectada na assimilação dos efeitos nefastos do trânsito congestionado quando há uma inexplicável inércia e, simplesmente, não há reação por parte da população paulistana.

 

As antigas manifestações do poeta Paulo Bonfim, as notas compostas por Caetano Veloso, as letras de Billy Blanco, as músicas de Adoniram e Rita Lee até as atuais manifestações de Gilberto Dimenstein, todas declarando de algum modo o bem querer pela maior cidade da América Latina, não foram suficientes para sensibilizar esta gente que aqui vive.

 

Tudo indica que a usam como Serra e Kassab fizeram. Serra abandonou a Prefeitura negando a própria palavra verbal e escrita. Deixou Kassab como herança, que conseguiu o feito de montar o quarto maior partido do país sem precisar de nenhum voto. Feito e tanto, pois, além disso, seu conceito é não ter conceito. Fato que acaba de ser provado ao desmanchar o noivado com o PT e cair nos braços de José Serra.

 

Muito se tem comparado São Paulo a New York, mas é bem provável que nem que Frank Sinatra cantasse a cidade ou Woody Allen a filmasse o amor apareceria.

 

Certamente a sina paulistana não vem da brasilidade. Provavelmente da falta de identidade e de má civilidade. Observemos que dentre os dez motivos mais citados para não morar em São Paulo, todos eles seriam administráveis através de boa cidadania:

 

1. Trânsito. 2. Pessoas mal-educadas. 3. Rios poluídos. 4. Pedintes, drogados. 5. Impostos elevados. 6. Fila para tudo. 7. Motoboys, buracos, obras. 8. Assaltos e violência. 9. Prioridades erradas do governo, como proibir bicicleta em parque, proibir feirante de gritar, proibir outdoor. 10. Poluição do ar.

 

E, lembremos-nos do recado de Billy Blanco em “Capital do Tempo”:

 

Paulista é quem vem e fica!

 


Plantando família e chão!

 


Fazendo a terra, mais rica!


 

Dinheiro e calo na mão!…

 

Carlos Magno Gibrail é doutor em marketin de moda e escreve, às quartas-feiras, no Blog do Mílton Jung

De simplicidade

 

Por Maria Lucia Solla

Salada

A dança da simplicidade não tem volteio; vai de um ponto a outro e pronto. Soa fácil? Rá!A simplicidade é sofisticada até não poder; mora na verdade e no real, de onde a gente insiste em fugir. Nos afogamos na elucubração que enche nossa mente e confunde nosso coração.

Focada na tal da simplicidade, aprendi que quanto mais a persigo, mais longe ela fica de mim. Como tudo na vida, nada deve ser perseguido como se fosse tábua de salvação. O caminho das pedras é decidir a proposta e deixar que o resto vem por si. De todo modo vejo a simplicidade como algo que mais se aproxima da perfeição, e inevitavelmente caio no binômio de aparência impossível: como é que alguma coisa pode ser simples e perfeita ao mesmo tempo? O nó é que é difícil encontrar bom-senso no emaranhado de condicionamento que somos, para arriscar uma resposta à pergunta. Somos um emaranhado de nós apertados pelo tempo, pelo esforço de sermos vistos e reconhecidos pelo outro; pela insegurança, pelo egoísmo, pelo impulso de nos sobre-sairmos, e isso tudo de simplicidade não tem nada. Talvez porque não sejamos treinados para sermos simples. Somos treinados para termos razão e sem simplicidade nos afastamos cada vez mais da felicidade; do bem-estar.

No amor, onde está o bem-estar, se cada um tenta aprisionar o outro? se os casais vivem de mentiras, na maior parte do tempo, o tempo todo? Na maioria dos relacionamentos, a simplicidade não tem espaço, é preciso mentir, é preciso fingir, é preciso seduzir para podermos acreditar que possuímos o impossuível: o outro.

Na moda, o estilista que alcança a harmonia da simplicidade de conceito e de linhas, faz sucesso que dura, dura por gerações. Vem modismo vai modismo, o simples volta e fica, chega e arrasa em qualquer situação. Na música, a harmonia descomplicada é eterna. Acalenta.

Sempre que me sento no banco da praça onde chego depois da escolha de uma estrada na minha vida, me dou conta da confusão. Olho em volto e vejo que tenho mais do que preciso, escondo mais do que externo, pretendo mais do que ajo. Sem drama. Tudo sempre dá certo no fim; e se ainda não deu certo é porque… …você conhece o final.

Que tal pensar nisso e dar uma revisada, cada um no seu tanto de emaranhado? É sempre um bom começo.

Maria Lucia Solla é terapeuta, professora de língua estrangeira, realiza curso de comunicação e expressão. Aos domingos, escreve no Blog do Mílton Jung.

Avalanche Tricolor: Por amor

 

São Paulo 3 x 1 Grêmio
Brasileiro – Morumbi (SP)

Morumbi

Por ser casado com uma ex-repórter de esportes e eu ser muito ligado ao futebol – ao Grêmio, para ser honesto -, era de se imaginar que os estádios fossem lugares comuns à família. Porém, desde que ela trocou de pauta e passou a ser repórter de geral – como chamamos os jornalistas que cobrem uma variedade de temas, da política à polícia, da moda à educação – nunca mais fez questão de passar próximo de um campo. Nem assistir aos jogos na TV tem vontade.

De minha parte, a falta de conforto e insegurança me transformaram em torcedor de pay-per-view. Desde que cheguei em São Paulo, em 1991, raras foram as vezes em que fui ao campo. Com pouco esforço de memória sou capaz de lembrar das partidas de futebol que acompanhei na arquibancada como torcedor – a época em que narrei jogos pela Rede TV! não conta, pois era pago para ir ao estádio. A primeira foi a final de um Copa São Paulo de futebol júnior, na qual Dener, que morreu precocemente, jogou de maneira tão brilhante que o aplaudi mesmo tendo sido responsável pela vitória arrasadora da Portuguesa sobre meu time de coração.

Assim, quando comentei que havia recebido dois convites para assistir ao jogo da noite de sábado, em um camarote do Morumbi, foi uma gratificante surpresa ouvi-la dizer que me faria companhia, se este fosse meu desejo. Sem titubear nem esconder meu prazer, aceitei a proposta.

Até momentos antes do horário marcado para seguirmos ao estádio, confesso, tive dúvidas se a disposição dela persistiria. O recuo seria razoável e compreensível. Esse sábado prometia temperatura baixa e era a sua folga na redação, fatores que combinam com ficar debaixo das cobertas, ler um bom livro, assistir a um filme divertido de locadora, beber vinho ou, simplesmente, dormir.

Devidamente paramentada, boné de lã, casaco elegante fazendo par com as botas de couro e o cabelo realçado pelo brilho dos cremes que costuma usar, lá estava ela, , na hora marcada, a minha espera. Havia ainda os brincos e o colar que me chamavam atenção no rosto levemente maquiado. Singelamente maquiado.

De mãos dadas e abordo de um táxi seguimos para o Morumbi, estádio que fica a poucos minutos de casa. Nem mesmo o fato de o motorista ter pensado que eu era são-paulino, me tirou o humor: “esse é jogo bom de ver porque é jogo de uma torcida só e o São Paulo é lider”- disse ele sem perceber meu sorriso amarelo no retrovisor.

A bola começou a ser tocada de pé em pé – na maior parte das vezes para o pé errado – e nós sentados um do lado do outro em uma confortável cadeira vermelha (por que se importar com a cor?). O frio aumentava a medida que a noite avançava e isto a fez mais próxima de mim. Encostou a cabeça no meu ombro, pegou minha mão com mais força ainda. Nos separávamos apenas para um gole de bebida ou saborear os petiscos oferecidos. Tudo muito rápido e devidamente compensado com um beijo, uma bochecha sorridente, um carinho.

As coisas aconteciam no gramado, jogadores tropeçavam na qualidade, sacrificavam o bom-senso com suas escolhas e, de vez em quando, conseguiam um drible decente, um passe interessante e um chute em gol. Um gol, dois gols, três gols. Chegaram a marcar quatro gols. Dois do lado de cá do campo, dois do lado de lá. A maioria tive de conferir na tela da TV, pois enxergar o jogo dos camarotes não é tarefa tão bem definida assim.

Nada do que ocorria lá dentro, de bom e de ruim, a fez mudar de postura. Foi, aliás, nos piores momentos que se fez mais presente. Cúmplice do meu sofrimento, usava de subterfúgios para desviar minha atenção, me fazer sentir melhor. Dava sinais de que estava preocupada com os meus sentimentos futebolísticos, dado o desenrolar da partida. Tentou disfarçar com a leitura de faz-de-conta de uma revista de variedades.

Mal sabia ela que nada daquilo que ocorria lá adiante me incomodava. A falta de talento à disposição do técnico, a insistência dele em escalar jogadores fora de posição, a defesa incapaz de impedir o assédio adversário, o passe desleixado do suposto craque e a ineficiência dos atacantes (ou do atacante) não eram suficientemente importantes diante daquele momento que eu vivia.

A paixão que o sacrifício dela me despertou fez superficiais o futebol jogado pelo meu time e o resultado final. Seu gesto e presença ratificaram compromisso que assumimos há pouco mais de 17 anos – não que estes fossem necessários para tal, afinal tantas outros coisas muito mais legais vivemos juntos até aqui. Mas, com certeza, a presença dela ao meu lado era a melhor das sensações que eu poderia ter em um jogo de futebol em uma fria noite paulistana, véspera do Dia dos Namorados.

De vida e a Deus

 

Por Maria Lucia Solla


Cantando, sofrendo, chorando, amando detestando.
Enfrentando.
Escrevendo letras, calando palavras, sonhando, esperando, satisfazendo, frustrando. Vou levando.
Isso é vida! diria a mamãe.

mas isso é vida mãe
pra quem não a vive adormecida temerosa
pra quem mesmo com alma em polvorosa e carne dolorida
reconhece nela beleza grandeza
e lhe dedica gratidão no amor e na dor

em constante desequilíbrio
me pondo em pé na nave
destemida
sou louca tagarela destrambelhada
mas ponho pra fora a dualidade escancarada
e sou equilibrada e contida

Tem vezes que passo mal, de um jeito ou de outro, e meu único medo não é o de morrer, mas de deixar de viver.

mais recebo do que ofereço
mas rio mais do que me entristeço

só eu sei de mim
novelo sem fim

minha dor é só minha
por mais que os amigos queiram
que eu a divida em pedaços e lhes dê um tanto
no entanto nem tentando

posso despertar no outro
a dor de me ver doendo
mas jamais um vai poder sentir do outro
da dor nem do amor
o sabor

E curtindo ou sofrendo, me agarro à vida, que é forma visível e palpável de Deus, que decide se mereço ou não mereço; e eu, loucamente, continuo sendo a mais religiosa sem religião que conheço.

Maria Lucia Solla é terapeuta, professora de língua estrangeira e realiza curso de comunicação e expressão. Aos domingos, escreve no Blog do Mílton Jung