Celulares fora da sala de aula. E da mesa do jantar?

O psicólogo e escritor Jonathan Haidt, autor do best-seller A Geração Ansiosa, não poupa palavras: estamos diante de uma crise de saúde mental provocada pelo uso precoce e excessivo de celulares e redes sociais. Em visita ao Brasil, ele alertou que até mesmo alunos das melhores universidades já não conseguem mais ler. Isso mesmo: não conseguem manter a atenção em um único texto. “Abrem um livro, leem uma frase, fecham e vão para o TikTok”, descreve. A leitura profunda, a reflexão e a concentração foram corroídas por estímulos curtos, constantes e viciantes.

A constatação é mais do que acadêmica — é política. Haidt tem atuado diretamente com congressistas nos Estados Unidos e, agora, no Brasil, para defender duas medidas urgentes: a proibição do uso de celulares nas escolas e a restrição do acesso de menores de 16 anos às redes sociais. A seu ver, estamos pagando um preço alto por ter deixado que a infância fosse sequestrada pela lógica da monetização da atenção promovida pelas Big Techs.

Os dados o apoiam. Desde 2015, ano que ele chama de “ruptura da humanidade”, houve uma explosão nos índices de ansiedade, depressão e automutilação entre adolescentes. As curvas crescem em sincronia com a chegada dos smartphones e da cultura das redes. Os ambientes digitais passaram a ser o lugar onde meninos e meninas buscam validação, enfrentam comparações e, muitas vezes, sofrem em silêncio.

Haidt elogiou o Brasil por debater leis que banem celulares nas escolas e defendeu que o país pode se tornar referência mundial nessa agenda. Mas foi além. Propôs que os governos invistam em playgrounds e espaços de convivência real, onde o corpo volte a ocupar o espaço que a tela roubou. “Precisamos dar às crianças oportunidades para serem humanas novamente”, disse.

É nesse ponto que a conversa sai das salas de aula e entra nas salas de jantar.

Se o poder público pode e deve legislar sobre o uso de celulares nas escolas, quem vai estabelecer regras no ambiente doméstico? Quem vai dizer “basta” à presença de smartphones durante as refeições? Que autoridade terá coragem de afirmar aos filhos que a mesa do jantar é lugar de escuta e de presença, não de rolagem infinita?

A provocação é inevitável: estaremos caminhando para um ponto em que o Estado precisará legislar também sobre o uso de telas dentro de casa? Parece absurdo, mas não mais do que ver pais e filhos em silêncio, lado a lado no sofá, cada um imerso em seu próprio universo digital. A dificuldade de desconectar já não é mais só dos jovens — é dos adultos também.

Haidt nos alerta para uma geração que perdeu habilidades sociais, não sabe iniciar uma conversa, fazer um amigo, ouvir um não. Mas como desenvolver essas competências se o exemplo dentro de casa é o do silêncio digital consentido?

A escola, claro, tem papel fundamental. Mas a formação emocional e os vínculos sociais não se resolvem apenas com leis. Começam no cotidiano, no olhar trocado, no tempo partilhado, na conversa sem tela. Se quisermos reverter a curva da ansiedade, talvez tenhamos que começar pela mais simples — e mais difícil — das mudanças: guardar o celular na gaveta durante o jantar.

Não por imposição legal. Mas por amor.

Dezembrite: o peso emocional das festas de fim de ano

Por Juliana Leonel

@profa.julianaleonel

Dezembro é, para muitas pessoas, o mês mais aguardado do ano: celebrações, reencontros e descanso marcam a época. No entanto, para quem enfrenta transtornos mentais, este período pode ser marcado pela intensificação das dificuldades emocionais e aumento do estresse. 

O fim do ano evidencia seus problemas de relacionamento, desamparo familiar e negligência, especialmente em momentos de confraternização. O impacto emocional provocado pela pressão social e pela expectativa de comemoração agrava o quadro psicológico, resultando em desequilíbrios emocionais significativos.

De acordo com um estudo da National Alliance on Mental Illness (NAMI), entre 24% e 40% das pessoas com transtornos mentais relatam uma piora nos sintomas durante o fim do ano.


São comuns, entre aqueles que vivenciam dificuldades emocionais nesta época, frases como:


“A vida está sem cor, como comemorar?”
“Fui abandonado pela minha família…”
“As pessoas se afastaram quando souberam do meu transtorno…”
“Eles não me querem por perto, dizem que eu estrago as festas…”
“Ainda tenho tantas demandas a cumprir…”

Nesse contexto, os ambulatórios de saúde mental intensificam seus esforços preventivos, considerando o alto índice de piora nos quadros psicológicos e o aumento dos casos de suicídio nesse período. Sentimentos de medo, culpa, ressentimento, ansiedade e depressão podem se tornar mais intensos, transformando dezembro em uma fase de sofrimento emocional.

Outro fator agravante é o balanço anual de realizações e planos para o futuro. Frustrações por metas não atingidas, comparações entre progresso e estagnação, e a pressão por novos objetivos e cobranças são grandes gatilhos de ansiedade. A cobrança por mudanças imediatas, especialmente após um ano repleto de desafios, gera insegurança e medo.

Algumas práticas são indispensáveis para proteger o bem-estar psicológico:

  1. Evite o abuso de bebidas alcoólicas e substâncias – Elas podem agravar o quadro emocional e aumentar a sensação de vulnerabilidade.
  2. Controle o excesso de consumo (alimentar, financeiro, etc.) – A pressão para “consumir mais” pode gerar frustração e estresse.
  3. Fique atento ao isolamento social e aos sinais de tristeza, solidão ou desesperança – O afastamento das pessoas pode aumentar a sensação de desconexão.
  4. Estabeleça metas realistas e valorize pequenas conquistas – Evite criar expectativas irreais e pressionar-se de forma exagerada.
  5. Converse se estiver triste ou ansioso – Falar sobre seus sentimentos ajuda a aliviar a tensão emocional.
  6. Pratique a empatia consigo e com os outros – Lembre-se de que todos têm suas batalhas; a compreensão mútua é um importante alicerce emocional.
  7. Acolha quem está em sofrimento ou luto – Se souber de alguém enfrentando uma doença ou perda, ofereça apoio e presença.

Dezembrite pode, sim, ser uma fase desafiadora. No entanto, com atenção, apoio adequado e práticas conscientes, é possível atravessar este período com mais leveza e menos desgaste emocional. Reconhecer as próprias necessidades e as dos outros torna-se essencial para que todos encontrem um espaço de acolhimento e  compreensão.

Juliana Leonel, psicóloga pela Universidade Paulista, mestre em Psiquiatria e Psicologia Médica pela Universidade Federal de São Paulo e professora universitária em tempo integral. Escreve a convite do Blog do Mílton Jung

Perdi o controle. Alguém encontrou?

Dra. Nina Ferreira

@psiquiatrialeve

Imagem gerada por Dall-E

Previsibilidade. Saber o que vai acontecer. Preparar-se para o futuro.

Ter o controle sobre os acontecimentos da vida é um sonho desejado por todos nós. Sentir a segurança de que “as coisas darão certo”, “estarei preparado pra tudo”, “não corro riscos” – realmente, seria nosso mundo ideal. Nele, não precisaríamos sentir medo ou ansiedade ou insegurança… teríamos controle.

Na busca de se aproximar desse cenário, é comum que as pessoas façam planejamentos cautelosos, tentem antecipar qualquer risco e “resolvê-lo”, vigiem o comportamento dos outros e dêem comandos de como eles devem agir, não aceitem mudar os planos, ocupem a cabeça com muitas e muitas preocupações – tudo para “evitar o pior”.

E nesse cenário, essas pessoas ficam presas, hipervigilantes, tensas, com um sentimento frequente de que algo ruim acontecerá a qualquer momento – não pode relaxar!

A ansiedade vira um estado constante e o corpo sofre com cansaço e dores; a mente sofre com irritação e desatenção; a alma sofre com angústia sem fim.

Não perdemos o controle… porque, no fundo, nunca o tivemos. Mudanças são umas das poucas certezas da vida – tudo muda e sem previsões exatas.

Saída melhor é treinar a flexibilidade e a adaptação; saída melhor é admitir essa verdade e se fortalecer emocional e mentalmente, para lidar com os reveses da vida.

Ninguém tem o controle – mas todos têm habilidades para sobreviver e bem viver. Coragem.

A Dra. Nina Ferreira (@psiquiatrialeve) é médica psiquiatra, especialista em terapia do esquema, neurociências e neuropsicologia. Escreve a convite do Blog do Mílton Jung.

A difícil arte de não ser perfeita

Abigail Costa

@abigailcosta

Foto de Ramakant Sharda

Esse assunto vira e mexe está nos meus pensamentos, nas sessões de terapia, nas conversas com os amigos mais pacientes. Ninguém nunca de disse de forma direta: “você tem que ser ótima para ser aceita!”. Mas eu, sim, já disse para mim mesma várias vezes. Não com todas essas palavras “VOCÊ TEM QUE SER ÓTIMA” — talvez com quase todas.

Percebi  essa autopressão quando resolvi voltar à faculdade para um MBA,  anos atrás. Era pra ser um curso leve, gostoso, diferente: Gestão do Luxo, com duração de dois anos. Em três meses, os primeiros sintomas apareceram de forma tão dura e doída que fui parar no pronto-socorro. As dores no estômago eram persistentes tanto quanto a vontade em ser a melhor aluna do curso. 

Depois de muitas conversas com o Gastro e alguns dias de internação no hospital, me lembro do Dr Arthur Ricca ter sentado ao meu lado na cama e dito” “você não tem nada além de uma gastrite xexelenta; para de querer ser perfeita e vai cuidar da sua cabeça!”. 1×0 para o médico. Não entendi nada, mas fiquei feliz em não ter algo grave. Terminei o MBA com nota máxima e muitas cartelas de ansiolíticos.

Passados anos desse episódio, volto outra vez às cadeiras da faculdade para uma segunda graduação. Mal sabia que retornaria ao inferno já no primeiro mês de estudo.

São cinco anos para o curso de Psicologia, e logo percebi que novos sintomas estavam se instalando — insônia, aperto no peito e um medo terrível de ser desmascarada. Do quê? De não ser boa o suficiente!

Por causa dos meus cabelos grisalhos, já no primeiro dia de aula, de passagem no corredor, alguém me perguntou, você é professora? Bastou para ascender todas as luzes do “preciso ser perfeita”. Todas as disciplinas eram minuciosamente transcritas para o caderno (sim, eu gravava as aulas), além das anotações em sala de aula — inclusive, os suspiros dos professores… vai que eles sinalizavam alguma palavra não dita.

Me recordo de ter terminado um dia com as costas travadas. Fui parar na maca de uma massagista brilhante que não precisou de muita conversa para que ela me perguntasse: “por que você quer competir com você mesma? Qual a necessidade disso?”.

De novo tinha consciência do abismo em que eu despencava em queda livre mas não tinha a mínima ideia de como acessar o manual do paraquedas e voltar ao curso normal do voo.

Veio o isolamento social e o que estava ruim, degringolou. Pensava e dizia: “Não preciso provar nada pra ninguém!”. Ok! Mas ninguém me cobrava nada. O problema é que não conseguia ser eu mesma, tinha que ser a melhor, tinha de usar um personagem e personagem representa, é cansativo. Nesse meio tempo, conversava com amigos mais próximos ou não, com irmãs e terapeutas e descobri que essa necessidade de perfeição não vinha só com os  estudos, era no trabalho, em casa, na vida!

Pra começar, precisei de ajuda para reconhecer essa tarefa impossível de querer estar sempre em primeiro, da necessidade em sempre ser a primeira. Verdade que a parte mais fácil é reconhecer, aceitar — na prática tem sido um dia de cada vez. E confesso que embora seja difícil chega a ser engraçado. 

Agora, por exemplo, faço uma pós-graduação em Gerontologia (a ciência que estuda o envelhecimento). Não vou esconder que ainda transcrevo minhas aulas para o caderno. Estou melhorando, já não gravo mais! Pois bem, em um daqueles testes odiosos de “assinale a opção incorreta”, não prestei atenção e errei uma questão.  Fiquei sem a nota 10. Quando percebi ali o gatilho para desencadear um sofrimento e acabar com a minha tarde de férias, falei em voz alta (eu tenho essa mania): “Big, por favor, deixa disso, é só uma avaliação! Isso é perfeccionismo!”. 

Ao falar comigo mesmo, voltei para o meu “só por hoje”.  Sou boa! Só por hoje, eu não preciso ser perfeita!

E você? É perfeita? 

Abigail Costa é jornalista, tem MBA em Gestão de Luxo, é estudante de Psicologia na FMU, faz pós-graduação em Gerontologia, no Hospital Albert Einstein, e escreve como colaboradora a convite do Blog do Mílton Jung.

Mundo Corporativo: Gustavo Arns ensina que uma vida mais feliz no trabalho não é uma vida sem estresse

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“Se eu tento buscar a felicidade diretamente, eu corro o grave risco de me sentir ainda mais ansioso e angustiado”

Gustavo Arns, empreendedor

Tem uma parte da felicidade que é humana, portanto vale para todos os seres humanos do planeta. Tem uma parte que é cultural e por assim ser dependerá de fatores como a região e o meio em que você vive. Uma pequena parcela é individual ou seja subjetiva e vai se diferenciar de uma pessoa para outra. Quer um exemplo? Ao fazer atividade física você vai produzir hormônios como a dopamina e a endorfina que oferecem uma sensação de satisfação. Isso é humano! É do coletivo! Agora, se a atividade que vai lhe oferecer felicidade é a musculação na academia, o futebol com os colegas, a sessão de alongamento ou o yoga em casa, dependerá de uma escolha individual, daquilo que atenderá melhor suas expectativas.

Compreender as diferentes camadas que nos levam à felicidade é um dos papeis da psicologia positiva, tema para o qual se dedica Gustavo Arns, idealizador do Congresso Internacional da Felicidade. Na entrevista que fiz com ele no Mundo Corporativo da CBN, olhamos para dentro das organizações para entender se é possível ser feliz no trabalho. Antes de chegar a essa resposta, Gustavo recorre a definição de felicidade descrita por Tal Ben-Shahar, professor de Harvard e uma das maiores referências internacionais no tema. Para ele, a felicidade é a combinação de cinco elementos: o bem-estar físico, emocional, intelectual, relacional e espiritual.

“A gente pode levar esses mesmos conceitos para dentro das organizações e nós podemos, também, olhar com um pouco mais de calma para essa questão, também importante, do sentido do significado, do propósito, das realizações que são uma parte bastante tangível no trabalho”. 

O professor de pós-graduação de psicologia positiva da PUC do Rio Grande do Sul, com base em pesquisas científicas, diz que o investimento no bem-estar do colaborador tem relação direta com dois aspectos: a produtividade e a satisfação do cliente, que são fundamentais para o sucesso da empresa. Além disso, há redução do absenteísmo, maior retenção de talentos, cresce o engajamento e diminui o gasto com plano de saúde. entre muitas outras vantagens. O desafio é alcançar esse estágio conjugando vida pessoal e profissional diante da aceleração dos processos, da pressão por resultados e da comunicação instantânea que não respeita mais hora de expediente. 

É difícil ser feliz em um cenário desses? Sem dúvida! A tendência é depararmos com o estresse, a ansiedade e as angústias. Nessas situações, vale ressaltar que a ciência da felicidade não surge para encobrir esses problemas: 

“Muitas pessoas acreditam que uma vida mais feliz seria uma vida livre de tristeza ou livre de estresse ou livre de ansiedade. Isso é humanamente impossível. Todas essas emoções fazem parte da vida humana e vão nos acompanhar a vida toda. O que a ciência da felicidade nos mostra é que o bem-estar emocional está na forma como nós lidamos com cada uma dessas emoções”. 

Para tanto, Gustavo sugere que sejamos educados emocionalmente porque apenas assim saberemos lidar com essas situações complexas, caso contrário estaremos fadados a trocar de emprego diante de cada frustração na ilusão de que a felicidade está sempre na outra empresa. Ou no salário maior. Eis aqui outro aspecto que precisa ser mais bem entendido: reajuste salarial é bom mas não é a razão de ser da felicidade.  

“Aquelas pessoas que vão mudando de trabalho esperando encontrar menos ansiedade e menos estresse é pouco provável que isso aconteça, porque este é um trabalho que deve ser feito interno. Isso é um trabalho de autoconhecimento. Isso é um trabalho de autodesenvolvimento e que as empresas de alguma forma podem auxiliar os seus colaboradores”.

O papel dos líderes é fundamental para que se crie um ambiente saudável dentro das organizações, refletindo no bem-estar dos profissionais. No entanto, percebe-se que lideranças tóxicas persistem no comando de muitas empresas. Uma das opções seria trocar de chefe, possibilidade que não está à disposição de todos os profissionais. Nesses casos, Gustavo sugere que as pessoas se fortaleçam internamente de forma que a toxicidade do líder cause doença e desequilíbrio emocional:

“Você vai cuidando das condições básicas, físicas, sono, alimentação, exercícios que vão te dando disposição, vitalidade, energia pra gerir melhor essas emoções”.

Para entender outros aspectos da busca pela felicidade na vida —- incluindo a profissional — assista ao programa completo do Mundo Corporativo da CBN, com Gustavo Arns:

Colaboram com o Mundo Corporativo: Priscila Gubiotti, Rafael Furugen, Bruno Teixeira e Renato Barcellos.

Fome de quê?

Por Simone Domingues

@simonedominguespsicologa

Foto de Gioele Fazzeri no Pexels

“A gente não quer só comida
A gente quer comida, diversão e arte
A gente não quer só comida
A gente quer saída para qualquer parte”

Marcelo Fromer, Arnaldo Antunes e Sergio Britto

Outro dia, zapeando pelas redes sociais, uma postagem despertou a minha atenção e me fez curiosa. A influenciadora digital contava para os seus seguidores como um prato com uma hortaliça específica, em diferentes versões – crua, refogada, em folhas fatiadas fininhas ou enrolada como pétalas de flores – era tudo o que alguém precisaria em uma única refeição.

Sem a pretensão de fazer qualquer análise nutricional sobre isso, até porque me faltariam competências técnicas, aquilo me gerou uma enorme inquietude e preocupação, tendo em vista que alguns transtornos mentais ainda são pouco conhecidos ou negligenciados.

Numa sociedade que valoriza padrões de beleza e a “cultura da magreza”, alguns comportamentos disfuncionais, que geram sofrimento e prejuízos significativos, são até mesmo incentivados. 

Todos os anos, milhares de pessoas sofrem com transtornos alimentares. Segundo a Organização Mundial da Saúde, esses transtornos atingem cerca de 4,7% da população brasileira, podendo chegar a 10% entre os adolescentes, com alta taxa de mortalidade.

Esses transtornos são caracterizados por alterações nos hábitos alimentares e em comportamentos relacionados à alimentação, resultando em danos físicos, psíquicos e sociais. Em geral, há uma conexão doentia da pessoa com o alimento, num sentimento de amor e ódio com a comida, resultando em agressões ao próprio corpo. 

As pessoas que sofrem com os transtornos alimentares, na maioria das vezes, apresentam distorções sobre o próprio peso, sobre o formato do corpo, sobre o ato de comer e, especialmente, sobre o valor de si mesmas.

Dentre os transtornos de alimentação mais prevalentes estão a anorexia nervosa e a bulimia nervosa. 

O que é anorexia nervosa?

A anorexia nervosa é caracterizada por um medo intenso de ganhar peso, o que leva a pessoa a restringir o consumo de alimentos, através de dietas rígidas e/ou jejuns prolongados, podendo fazer uso de métodos que auxiliem na perda de peso, como laxantes, diuréticos, indução de vômitos ou prática excessiva de atividade física. 

Em geral, apesar da perda acentuada de peso, essas pessoas continuam insatisfeitas com o corpo ou com o peso, tendo uma preocupação exagerada por essa temática, o que favorece o isolamento social, gera prejuízos nas atividades acadêmicas ou de trabalho, bem como nas relações afetivas.

O que a bulimia nervosa?

Semelhante à anorexia, na bulimia nervosa há uma importante insatisfação com a imagem corporal e uma preocupação com o ganho de peso, entretanto, as restrições alimentares são seguidas por um descontrole na ingestão de alimentos, geralmente consumidos em grandes quantidades, caracterizando episódios de compulsão alimentar. 

Após os episódios de compulsão, há um sentimento de culpa pela perda de controle e pelos alimentos consumidos, levando a comportamentos compensatórios e disfuncionais para evitar o ganho de peso, como uso de laxantes, indução de vômitos e prática de atividade física intensa.

Quais as causas dos transtornos alimentares?

Não há uma causa específica para os transtornos alimentares, mas os estudos sugerem a participação de fatores biológicos, psicológicos, para os quais se destaca a baixa autoestima, e fatores sociais, especialmente a influência da mídia e das redes sociais.

Nos transtornos alimentares há uma crença de que o corpo pode ser completamente transformado e de que seguir dietas restritivas ou praticar exercícios são escolhas e dependem apenas do esforço pessoal. Além disso, há uma ideia de que alcançar o “corpo ideal” será o passaporte para o sucesso, valorização ou resolução de outros problemas da vida.

Desse modo, essas pessoas são mais vulneráveis às postagens que indicam jejuns prolongados, dietas restritivas ou exibição de corpos “perfeitos”, como situações fáceis de serem atingidas, exigindo apenas força de vontade. Isso gera um enorme sofrimento.

Suas comparações são injustas. Excluem aspectos individuais relacionados ao biotipo e aumentam a autocrítica, reforçando o sentimento de fracasso, de perda de controle e incompetência. Como num círculo vicioso (e perverso), essa frustração piora os sentimentos de tristeza e ansiedade, levando a uma intensificação dos comportamentos disfuncionais.

Outro dia, eu tive conhecimento de um aplicativo de jejum no qual a pessoa é “premiada” pela quantidade de horas que está sem se alimentar, e toda a comunidade que está “firme” como ela é quantitativamente descrita, como um incentivo para a sua não desistência.

Fiquei imaginando o que seria do mundo se houvesse um aplicativo capaz de indicar, numa situação de intenso sofrimento emocional, como uma comunidade estaria “firme”, quantitativamente descrita, como apoio às necessidades do outro, como incentivo para a sua não desistência da vida, de si mesmo. 

Promover a saúde mental é um dever coletivo, mas, infelizmente, nossa sociedade está adoecida, não apenas pelos transtornos mentais — especialmente pela falta de empatia, numa busca exagerada por uma vida “perfeita”, retratada num clique e capaz de obter uma curtida a mais.

Estamos famintos! Nos falta diversão, nos falta arte, nos faltam saídas para muitas partes… Porque na balança da vida, o que deveria contar é quem se é e não o peso corporal que se tem.

Assista ao “Dez Por cento Mais” sobre “Transtornos Alimentares”

Simone Domingues é Psicóloga especialista em Neuropsicologia, tem Pós-Doutorado em Neurociências pela Universidade de Lille/França, é uma das autoras do canal @dezporcentomais no Youtube. Escreveu este artigo a convite do Blog do Mílton Jung

De sofrimento ao perdão, da falta de controle à resiliência: filmes, livros e histórias de um fim de semana

Reprodução do documentário Unrest

Acachapado no sofá, com o corpo imóvel diante da TV e a mente impressionada, passei pouco mais de uma hora e meia desse domingo assistindo ao americano Unrest, no Netflix. É um documentário dirigido, roteirizado e elencado por Jennifer Brea, estudante de doutorado em Harvard, que aos 28 anos, após uma febre, iniciou uma jornada incrível para descobrir que sofria da Síndrome da Fadiga Crônica.

É uma doença neurológica, segundo a Organização Mundial de Saúde, que pode se desenvolver após infecções virais —- aliás, por isso mesmo, voltou ao noticiário com a pandemia da Covid-19. Das pessoas afetadas, 75% ficam incapazes de trabalhar e 25% ficam presas à cama. Calcula-se que de 15 a 30 milhões de pessoas sofram deste mal, no mundo. As causas ainda são incertas, e o desconhecimento se expressa em crueldade e preconceitos de familiares, comunidades e médicos, como fica escancarado em Unrest. . 

Jennifer realiza quase todo o documentário de sua cama de onde mal consegue levantar, e quando o faz é por períodos curtos. Entrevista médicos, conversa com outros pacientes, mobiliza pessoas, chora, sofre e nos faz sofrer com ela e com as histórias que são contadas. 

Uma das mais chocantes é a da jovem dinamarquesa que é retirada da casa dos pais pela polícia para receber tratamento em uma clínica comandada por um médico que acredita que a doença é psicológica e a pessoa precisa ser afastada de seu habitat natural e das pessoas que supostamente realimentaram o mal que mantém o paciente doente. Sim, isso acontece na Dinamarca.

Sabe-se pelo documentário do triste fim de algumas pessoas que não suportaram a si mesmo e por não se compreenderem nem serem compreendidas desistiram de viver. 

De outro lado, vê-se a ação dedicada e generosa de pais, irmãos, amigos, médicos e maridos. Um deles é o de Jennifer que está boa parte das vezes ao lado dela nas filmagens e aceitou expor suas fragilidades, dúvidas e dramas, nos permitindo vivenciar a intimidade deles através da câmera que os acompanha —- um dos efeitos é nos deixar prostrados enquanto a história se desenvolve, como se tivéssemos sido acometidos pela fadiga (que fique claro, é apenas uma sensação que tive, porque nada, nada se compara ao que essas pessoas sofrem no cotidiano).

No coquetel de emoções  gerados por Unrest, chorei ao ouvir o marido de uma das pacientes acometidas pela síndrome revelar seu arrependimento por ter deixado a esposa na cama e as duas filhas sozinhas em casa. Abandonou a família e diz que o fez por acreditar que ele seria o motivo daquela reação da mulher. Não entendia o sofrimento dela. E sequer entendeu seu papel na relação. A dúvida que expôs, de volta ao lado da cama da esposa, era se conseguiria se redimir do tempo em que ficou afastado. Queria perdão! A medida que a luz do conhecimento se fez, os dois recasaram.

Arrependimento e perdão. Temas que também me acompanharam no fim de semana por outros caminhos. 

José Carlos De Lucca,  juiz de direito, escritor e espírita, entrevistado no canal Dez Por Cento Mais, no Youtube — que revi no sábado —- ensinou que não existe nenhum processo de desenvolvimento espiritual que não seja feito em função do amor. Ao próximo, claro, mas começando com você mesmo. E sem a pretensão de idealização. De Lucca lembra que travamos uma briga constante com o perfeccionismo:

“Querem ser um Jesus Cristo, uma Irmã Dulce, uma Madre Tereza de Calcutá, embora todos esses, à exceção de Cristo, tenham sido figuras humanas que tiveram suas rachaduras, mas que a despeito delas não se deixaram contaminar pela revolta, pelo desamor à vida” 

José Carlos De Lucca

Sugere que saibamos nos aceitar como somos, sejamos mais amigos de nós mesmos, mais pacientes. Sejamos melhores, mas não perfeitos. É na tensão que a perfeição exige de nós que se cancela o direito ao perdão. A si e aos outros. Motivo de doenças, como escreve o dr. Cláudio Domênico, no livro “Em suas mãos”, que tive oportunidade de ler também nessa folga de Corpus Christi. 

Domênico é profeta da medicina da qualidade de vida —- aquela que trata pessoas de forma preventiva, e não apenas a doença.  Há um instante em que o doutor e escritor se pergunta: “como ajudar nossos pacientes a lidar com emoções negativas, como a culpa, o arrependimento, a angústia, o medo, o egoísmo, a mágoa?”.

Fatores psicológicos negativos, escreve, com base em estudos da Associação Americana de Cardiologia, podem estar relacionados a uma série de problemas de saúde. O pessimismo aumenta a mortalidade por doença coronária em duas vezes, enquanto a ansiedade faz crescer em até cinco vezes a chance de espasmo das artérias do coração.

De acordo com pesquisadores do Centro Internacional de Saúde e Sociedade, no Reino Unido, a principal diferença entre pessoas muito ou pouco estressadas não consiste em fatores genéticos ou psíquicos, mas na sensação do indivíduo se sentir dono do próprio destino. 

E como sofremos quando estamos diante de situações que não dependem de nós. Não estão sob nosso controle.

Vivo essa experiência diariamente. Porque são esses os desafios do ser humano na sociedade contemporânea. Deparamos com diversas situações —- de nossa responsabilidade ou não —- em que a solução independe de nós. Ao mesmo tempo, assumimos riscos e fazemos escolhas, muitas erradas, que nos tornam mais vulneráveis do que somos e o destino tão incerto quanto esse mundo pode ser.

Se não nos perdoamos pelo que fizemos, não podemos pedir que sejamos perdoados. Se não aceitamos quem somos, não é justo cobrar que sejamos aceitos. Exercitar a resiliência é talvez o que esteja em nossas mãos. E para isso, convido que você assista ao TED da Dra Lucy Hone, psicóloga, do Instituto do Bem-Estar e Resiliência da Nova Zelândia, que enumera três estratégias que podem nos ajudar nessa batalha da vida e pela vida:

  1. Entender que o sofrimento faz parte da vida humana
  2. Buscar o lado bom na situação adversa
  3. Compreender se a atitude que está tomando frente ao problema está ajudando ou piorando ainda mais a situação.

Que venha o próximo fim de semana!

Ansiedade: a antecipação exagerada pelo futuro nos rouba o momento presente.

Por Simone Domingues

@simonedominguespsicologa

Foto: Pixabay

Na sociedade contemporânea, aprendemos a viver correndo com falta de tempo, estresse, agitação e quase nos vangloriamos ao dizer: “sou muito ansioso!”. Será que a ansiedade pode ser uma aliada para atingirmos nossos objetivos ou será que serve apenas para nos causar sofrimento? A ansiedade é uma resposta adaptativa que o nosso organismo apresenta diante de ameaças ou perigos reais, como forma de proteção. 

Ao nos depararmos com situações que oferecem riscos, o sistema nervoso simpático entra em ação e produz reações para podermos, por exemplo, fugir e sobreviver. Imagine-se diante de um animal selvagem com potencial de ataque. Numa condição como essa, algumas substâncias são liberada — cortisol e adrenalina, por exemplo — aumentando os batimentos cardíacos, a contração muscular e a frequência respiratória. 

A ansiedade, de certo modo, também nos permite criar estratégias para resolvermos problemas ou enfrentarmos situações desafiadoras. Isso acontece, apenas para ilustrar, quando estudamos para uma prova ou nos preparamos para uma entrevista de emprego. Nesses casos, percebemos os efeitos motivadores da ansiedade.

Entretanto, nem sempre a ansiedade é essa força que nos impulsiona ou nos auxilia a superar desafios. Em alguns casos, pode se tornar um problema, muitas vezes de saúde mental, como nos transtornos de ansiedade.

 

Os transtornos de ansiedade são os transtornos psiquiátricos mais prevalentes na população, atingindo aproximadamente 28% dos adultos ao longo da vida.

Esses transtornos são caracterizados por preocupação excessiva, persistente e incontrolável, inquietação, irritabilidade, tensão muscular e insônia; geram sofrimento intenso e grande impacto na funcionalidade, isto é, na capacidade de realizar as atividades cotidianas como estudar, trabalhar ou se relacionar socialmente.

 A preocupação excessiva e os medos, especialmente para situações que não oferecem risco potencial, geram pensamentos catastróficos e desencadeiam as reações físicas que são extremamente desagradáveis, como taquicardia, sudorese e tontura.

Diante disso, é muito comum o comportamento que chamamos em psicologia de esquiva: o afastamento do que nos causa a ansiedade. Como num círculo vicioso, quanto mais nos afastamos, mais reforçamos a ideia de que, possivelmente, não somos aptos a lidar com aquela condição, e isso aumenta a percepção de ameaça, potencializando os sintomas da ansiedade. 

Se por um lado a ansiedade nos protege, em excesso nos aprisiona pela preocupação excessiva, pelos pensamentos catastróficos e pela percepção de impotência diante das incertezas da vida. A dificuldade em tolerar o que não podemos controlar nos torna menos confiantes, e isso impacta diretamente a nossa capacidade de ser produtivo ou atingir objetivos.

Em decorrência da pandemia, diversos estudos têm apontado um aumento dos transtornos de ansiedade em todo o mundo. Dentre os principais fatores que contribuem para esse aumento estão o medo do adoecimento, as incertezas sociais e financeiras e o isolamento social. 

 Algumas medidas podem ser adotadas para reduzir os níveis de ansiedade: lidar com os pensamentos como hipóteses e não como fatos; realizar atividades prazerosas e relaxantes, como atividade física e meditação; praticar a atenção plena.

 A atenção plena ou mindfulness é caracterizada pela manutenção da atenção na experiência presente. Significa sair do piloto automático e realizar as atividades mantendo o foco, a consciência no que se realiza aqui e agora.

Nossas preocupações em geral nos levam para o futuro. Perdemos muito tempo e energia elaborando estratégias e resolvendo problemas que ainda não existem. Talvez, inclusive, nunca venham a existir. E se existirem? Não tem preparo prévio para enfrentarmos as durezas da vida. Um dia por vez. Uma atividade por vez. A antecipação exagerada pelo futuro nos rouba o momento presente. É só por hoje.

Saiba mais sobre saúde mental e comportamento no canal 10porcentomais

Simone Domingues é Psicóloga especialista em Neuropsicologia, tem Pós-Doutorado em Neurociências pela Universidade de Lille/França, é uma das autoras do perfil @dezporcentomais no Instagram. Escreveu este artigo a convite do Blog do Mílton Jung

Mantenha o foco, sem perder a ternura!

Por Simone Domingues

@simonedominguespsicologa

Imagem de @anapaula_feriani por Pixabay

 

Permita-me começar esse texto apresentando três situações: você está indo da sala para a cozinha e quando chega lá percebe que não se recorda o que foi fazer; está trabalhando online e quando se dá conta tem várias janelas abertas no computador e se vê entretido com um produto em promoção e esquece a tabela que estava fazendo para entregar para o seu chefe; se propõe a arrumar o seu armário, encontra umas fotos antigas, começa a vê-las… e o armário? Puxa! A hora passou depressa e você percebe que não dá mais tempo para arrumá-lo.

Alguma dessas situações lhe parece familiar?

Se essas experiências não ocorrem com frequência e não causam prejuízos significativos no dia a dia, como no trabalho ou nos estudos, na maioria das vezes não indicam uma falha no funcionamento cerebral, apenas uma dificuldade esporádica da memória de trabalho.

A memória de trabalho refere-se à capacidade de reter informações que serão usadas em ações que estão em curso ou que acontecerão num futuro próximo, mantendo essa informação enquanto ela é útil. Isso acontece, por exemplo, enquanto você lê esse texto. Você não memoriza cada uma das palavras na ordem que estão escritas, como uma lista de palavras que deva decorar, mas armazena cada uma delas até chegar ao fim da frase, de modo que consiga compreender o sentido do texto.

A memória de trabalho não se limita ao armazenamento temporário de informações; também envolve o controle atencional, como manter o foco numa tarefa e inibição do comportamento. 

Para a maioria das pessoas, as falhas na memória de trabalho serão casuais, podendo ser decorrentes do aumento do estresse, ansiedade ou uso de bebidas alcóolicas, e não caracterizam um problema persistente. Entretanto, prejuízos na memória de trabalho podem estar associados a algumas condições clínicas, como esquizofrenia, síndromes demenciais e Transtorno de Déficit de Atenção/Hiperatividade (TDAH).

O Transtorno de Déficit Atencional com Hiperatividade (TDAH) é um transtorno neurobiológico, com início na infância, caracterizado por níveis prejudiciais de desatenção, desorganização e/ou hiperatividade-impulsividade. 

A desatenção e desorganização envolvem, entre outras coisas, a dificuldade de prestar atenção a detalhes, cometer erros por descuido, iniciar tarefas e não concluir, dificuldades no manejo do tempo, relutância em atividades que exijam esforço mental prolongado e esquecimentos relacionados a atividades cotidianas. 

A hiperatividade e impulsividade envolvem, por exemplo, dificuldades em permanecer sentado, remexer ou batucar mãos e pés, inquietude, responder antes que uma pergunta tenha sido concluída e dificuldades para aguardar sua vez, como numa fila.

Diversos estudos têm sido publicados mostrando os efeitos da pandemia de COVID-19 sobre a saúde mental de crianças e adolescentes, indicando um aumento da irritabilidade, da desatenção e agitação, independentemente da faixa etária, exigindo desafios que podem ser mais acentuados para os que têm TDAH.

Crianças e adolescentes com TDAH parecem mais vulneráveis ao confinamento, possivelmente pelas dificuldades no estabelecimento de rotina, organização e conclusão das tarefas, com tendência à procrastinação.

Adolescentes mais ansiosos, entediados ou apáticos, podem apresentar alterações comportamentais, aumentando a probabilidade de conflitos familiares, como as brigas. 

Quando olhamos para esse cenário, percebemos que mesmo adultos que não apresentam TDAH, em decorrência do isolamento social e das mudanças provocadas pela COVID-19, também têm experimentado sintomas semelhantes, seja na capacidade atencional, na memória de trabalho ou nos comportamentos, mais ansiosos ou com aumento da irritabilidade.

Se por um lado corremos o risco de patologizar todas as características cognitivas ou comportamentais apresentadas na pandemia, por outro lado, corremos o risco de negligenciar sintomas que podem sugerir condições clínicas que demandam tratamento especializado. Na dúvida, uma avaliação médica ou psicológica deve ser feita. Porém, se algumas falhas forem corriqueiras e não trouxerem maiores prejuízos, talvez seja o momento de aproveitar aquela liquidação — numa das muitas abas abertas no seu computador — ou resgatar boas memórias naquelas fotos que você encontrou!  

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Simone Domingues é Psicóloga especialista em Neuropsicologia, tem Pós-Doutorado em Neurociências pela Universidade de Lille/França, é uma das autoras do perfil @dezporcentomais no Instagram. Escreveu este artigo a convite do Blog do Mílton Jung

A volta à escola e o desafio de proteger os sonhos e a esperança dos jovens do poder destruidor do coronavírus

Por Simone Domingues

@simonedominguespsicologa 

Foto: Pixabay

 

A pandemia de COVID-19 tem promovido mudanças em todas as esferas — sociais, educacionais e econômicas — com consequências que ultrapassam os impactos provocados pela infecção. Recentemente, a Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) alertou que a pandemia pode aumentar os fatores de risco para suicídio, convocando ações efetivas para sua prevenção. Isso se torna urgente, uma vez que os dados da Organização Mundial de Saúde (OMS) apontam o suicídio como a segunda causa de morte entre pessoas jovens.

Estudos iniciais sugerem que apesar de crianças e adolescentes serem menos propensos à infecção pelo coronavírus e permanecerem assintomáticos ou com sintomas mais leves da doença, sofrem diretamente seus impactos psicológicos, podendo apresentar ansiedade, depressão e Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT), com consequências que podem se estender mesmo após o término do isolamento social.

Se por um lado as medidas de distanciamento tornaram-se necessárias, com evidências de eficácia na contenção da doença, reduzindo a propagação do vírus; por outro lado, têm sido associadas com piora nos sentimentos de solidão, desencadeando quadros de depressão e ansiedade. Isso se torna mais acentuado especialmente entre os jovens, tendo em vista a importância das interações sociais nessa fase da vida.

Diversos fatores são apontados como aqueles que impactam a saúde mental durante a pandemia, dentre os quais: incertezas em relação à doença, medidas rígidas de distanciamento social, perda de entes queridos e o fechamento prolongado das escolas.

Atualmente, a escola é considerada uma das principais instituições sociais, uma condição que começou a ser ocupada lá atrás, após a Idade Média. Até aquela época, o meio social, em seu conjunto, era o contexto educativo e todos os adultos eram responsáveis por promover a aprendizagem a partir das experiências pessoais. 

O desenvolvimento da industrialização trouxe mudanças significativas nos séculos XIX e XX, alterando o local de trabalho das residências para as fábricas. As casas passaram a ser locais privativos, com espaços individuais, como quartos e áreas de estudo, e o trabalho passou a fazer parte da vida pública, deslocado para lugares na cidade, exigindo nova organização urbana. 

Isso gerou mudanças na família, que não conseguia mais preparar as crianças para as novas exigências de trabalho, diferente de como era feito anteriormente, muitas vezes em ofícios transmitidos de pais para filhos. Além de preparar o indivíduo para o trabalho, a escola passou a ter uma função social, à medida que possibilitou o convívio com outros indivíduos, além dos familiares, favorecendo as interações e preparando para a vida em sociedade. 

Com a inserção da mulher no mercado de trabalho, novas mudanças aconteceram, como o aumento no tempo de permanecia dos alunos no ambiente escolar.

Considerando a importância atual que a escola representa nos processos de socialização e o impacto do isolamento social na saúde mental de crianças e adolescentes, a OMS tem alertado aos governantes que analisem com cautela o período pelo qual as escolas permanecerão fechadas. 

Pensar em políticas públicas que envolvam crianças e adolescentes durante a pandemia exige maturidade dos governantes e da sociedade. Impõe afastamento de ideias simplistas, amadoras ou partidárias. Exige ponderação e decisão séria, tendo em vista os perigos desse vírus, que ainda conhecemos tão pouco, e suas consequências nas diversas esferas da vida. 

A COVID-19 já matou quase um milhão de pessoas. Paralelamente, os estudos mostram que a pandemia gerou um aumento de depressão e de TEPT em crianças e adolescentes, considerados fatores de risco para o suicídio.

Como tantos desafios já impostos pelo coronavírus, não parece haver uma resposta fácil sobre a abertura ou manutenção do fechamento das escolas. 

Pais, professores, governantes… somos todos responsáveis pela promoção do bem estar físico, psíquico e social de nossos jovens. Penso no poder devastador do coronavírus nas vidas e na saúde mental… e sem a presunção de propor uma solução definitiva, torço para que as medidas adotadas impeçam que o poder destruidor desse vírus atinja ainda mais os jovens, quer seja em sua saúde física quer seja em sua saúde mental, permitindo seus sonhos e esperanças.

Simone Domingues é Psicóloga especialista em Neuropsicologia, tem Pós-Doutorado em Neurociências pela Universidade de Lille/França, é uma das autoras do perfil @dezporcentomais no Instagram. Escreveu este artigo a convite do Blog do Mílton Jung