Ansiedade: a antecipação exagerada pelo futuro nos rouba o momento presente.

Por Simone Domingues

@simonedominguespsicologa

Foto: Pixabay

Na sociedade contemporânea, aprendemos a viver correndo com falta de tempo, estresse, agitação e quase nos vangloriamos ao dizer: “sou muito ansioso!”. Será que a ansiedade pode ser uma aliada para atingirmos nossos objetivos ou será que serve apenas para nos causar sofrimento? A ansiedade é uma resposta adaptativa que o nosso organismo apresenta diante de ameaças ou perigos reais, como forma de proteção. 

Ao nos depararmos com situações que oferecem riscos, o sistema nervoso simpático entra em ação e produz reações para podermos, por exemplo, fugir e sobreviver. Imagine-se diante de um animal selvagem com potencial de ataque. Numa condição como essa, algumas substâncias são liberada — cortisol e adrenalina, por exemplo — aumentando os batimentos cardíacos, a contração muscular e a frequência respiratória. 

A ansiedade, de certo modo, também nos permite criar estratégias para resolvermos problemas ou enfrentarmos situações desafiadoras. Isso acontece, apenas para ilustrar, quando estudamos para uma prova ou nos preparamos para uma entrevista de emprego. Nesses casos, percebemos os efeitos motivadores da ansiedade.

Entretanto, nem sempre a ansiedade é essa força que nos impulsiona ou nos auxilia a superar desafios. Em alguns casos, pode se tornar um problema, muitas vezes de saúde mental, como nos transtornos de ansiedade.

 

Os transtornos de ansiedade são os transtornos psiquiátricos mais prevalentes na população, atingindo aproximadamente 28% dos adultos ao longo da vida.

Esses transtornos são caracterizados por preocupação excessiva, persistente e incontrolável, inquietação, irritabilidade, tensão muscular e insônia; geram sofrimento intenso e grande impacto na funcionalidade, isto é, na capacidade de realizar as atividades cotidianas como estudar, trabalhar ou se relacionar socialmente.

 A preocupação excessiva e os medos, especialmente para situações que não oferecem risco potencial, geram pensamentos catastróficos e desencadeiam as reações físicas que são extremamente desagradáveis, como taquicardia, sudorese e tontura.

Diante disso, é muito comum o comportamento que chamamos em psicologia de esquiva: o afastamento do que nos causa a ansiedade. Como num círculo vicioso, quanto mais nos afastamos, mais reforçamos a ideia de que, possivelmente, não somos aptos a lidar com aquela condição, e isso aumenta a percepção de ameaça, potencializando os sintomas da ansiedade. 

Se por um lado a ansiedade nos protege, em excesso nos aprisiona pela preocupação excessiva, pelos pensamentos catastróficos e pela percepção de impotência diante das incertezas da vida. A dificuldade em tolerar o que não podemos controlar nos torna menos confiantes, e isso impacta diretamente a nossa capacidade de ser produtivo ou atingir objetivos.

Em decorrência da pandemia, diversos estudos têm apontado um aumento dos transtornos de ansiedade em todo o mundo. Dentre os principais fatores que contribuem para esse aumento estão o medo do adoecimento, as incertezas sociais e financeiras e o isolamento social. 

 Algumas medidas podem ser adotadas para reduzir os níveis de ansiedade: lidar com os pensamentos como hipóteses e não como fatos; realizar atividades prazerosas e relaxantes, como atividade física e meditação; praticar a atenção plena.

 A atenção plena ou mindfulness é caracterizada pela manutenção da atenção na experiência presente. Significa sair do piloto automático e realizar as atividades mantendo o foco, a consciência no que se realiza aqui e agora.

Nossas preocupações em geral nos levam para o futuro. Perdemos muito tempo e energia elaborando estratégias e resolvendo problemas que ainda não existem. Talvez, inclusive, nunca venham a existir. E se existirem? Não tem preparo prévio para enfrentarmos as durezas da vida. Um dia por vez. Uma atividade por vez. A antecipação exagerada pelo futuro nos rouba o momento presente. É só por hoje.

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Simone Domingues é Psicóloga especialista em Neuropsicologia, tem Pós-Doutorado em Neurociências pela Universidade de Lille/França, é uma das autoras do perfil @dezporcentomais no Instagram. Escreveu este artigo a convite do Blog do Mílton Jung

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