Avalanche Tricolor: do inferno astral ao céu tricolor

Grêmio 3×1 Vitória
Brasileiro – Arena do Grêmio, Porto Alegre RS

André comemora o primeiro gol Foto: Lucas Uebel/GrêmioFBPA

De repente, o que parecia um destino cruel começou a se desenhar em cores mais vivas. Sorte? Astros? Ou apenas futebol jogado com alma? O caro e cada vez mais raro leitor desta Avalanche deve se lembrar que, às vésperas do aniversário gremista, eu falava de um tal “inferno astral”. Era tanto tropeço, tanta desclassificação e tanto perrengue que nem a astrologia parecia capaz de explicar.

Pois não é que, depois da festa, vencemos um Gre-Nal nas circunstâncias que vencemos, arrancamos um ponto improvável contra o atual campeão brasileiro e agora somamos mais três, dando um salto na tabela? Obra dos céus ou da bola?

Sem nunca esquecer que somos “imortais tricolores”, prefiro deixar de lado as explicações celestes. As razões estão aqui mesmo, no gramado. Uma delas atende pelo nome de Arthur, o filho pródigo. Ao voltar para casa, trouxe talento, cadência e ordem ao nosso meio-campo. Seja recuado, ajudando a defesa, seja avançado, ditando passes no ataque, ele nos lembra que quando há qualidade, a bola sempre encontra o melhor caminho.

Outro nome que se impõe é Marcos Rocha. Líder, dono de bom passe e especialista em transformar um arremesso lateral em estratégia de ataque. Foi assim que nasceu o primeiro gol, concluído pelo jovem André Henrique.

Também pesa a experiência de Mano Menezes. Mesmo sob críticas constantes, ele observa o cotidiano dos treinos e arrisca soluções que nem sempre agradam ao torcedor. Depois do empate sofrido, foram justamente suas mudanças que nos levaram à vitória. Trouxe de volta Cristaldo e Amuzu, nomes em quem poucos ainda acreditavam. E os dois corresponderam: Cristaldo com visão de jogo, Amuzu com drible e coragem. O belga fez o segundo gol e ainda serviu Aravena para o terceiro – atacante chileno que escolhido por Mano ao perceber que André Henrique não tinha mais fôlego para permanecer em campo. 

Seja pela lógica da bola ou pela magia dos céus, o torcedor voltou a sorrir. E se a tabela começa a nos mostrar caminhos para a Libertadores, que assim seja: sonhar é, afinal, parte da alma tricolor.

Avalanche Tricolor: a ilusão interrompida

Grêmio 0x0 Ceará
Brasileiro – Arena do Grêmio, Porto Alegre RS

Alysson parte para o ataque. Foto: Lucas Uebel/GrêmioFBPA

A única coisa que buscava na noite deste sábado era a ilusão de emendar uma segunda vitória seguida no Campeonato Brasileiro. Depois dos três pontos fora de casa, da maneira como foram conquistados semana passada, a expectativa de mais três era até natural. O adversário estava no meio da tabela e o jogo era na Arena, diante da torcida. A vitória, mesmo com sabor de “me engana que eu gosto”, saciaria meus desejos.

O Grêmio atual, porém, não me deixa iludir. A todo instante faz questão de mostrar a que veio nesta temporada. Joga na cara o que não queremos acreditar. Na troca de passes sem convicção, na transição claudicante para o ataque, nos cruzamentos sem destino e nos raros chutes a gol, expõe suas fragilidades.

Nesta fase, o reforço que chega com cara de solução sofre lesão — vide o ocorrido com Balbuena. Os jovens que se anunciam com talento não conseguem ir além de alguns momentos de lucidez — como no futebol esforçado de Alysson e Riquelme. A bola que se apresenta para o gol é desperdiçada, como aquela que André Henrique perdeu quase dentro da pequena área. Somos uma sucessão de lances fortuitos e bolas sem rumo.

Como me disse um amigo confidente — gremista, gaúcho e jornalista como eu, parceiro de tantas pitangas tricolores —, o Grêmio apenas resgatou o seu “verdadeiro futebol”.

Avalanche Tricolor: uma carta ao guri do Hepta de 68

Grêmio 3×1 Juventude

Gaúcho – Arena do Grêmio, Porto Alegre/RS

João Severiano entrega o troféu do Hepta a Geromel Foto: Lucas Uebel/GrêmioFBPA

Meu Guri,

Vivi emoções que poucos vivenciaram, neste sábado. Comemorar o Heptacampeonato gaúcho é coisa rara de se sentir. Tu ainda eras guri de calça curta lá em Porto Alegre, tinhas cinco anos, quando ganhamos nosso primeiro Hepta. Vivias na Saldanha, pertinho do Olímpico. Não existia a perimetral nem a praça do Papa. Tu sujarias teus sapatos ortopédicos de pó e lama para passar pelo beco entre nossa casa e o estádio.

Escrevo para ti porque quando o sábado amanheceu pensava comigo aqui em São Paulo se ainda havia lembranças na sua memória daquele 1968 em que o Grêmio empatara com o mesmo adversário de agora para conquistar o título inédito. Remoí o pensamento e vasculhei o coração sem encontrar nada por lá.

Curioso é que na volta ao tempo, consegui retroagir minhas lembranças sobre ti apenas até o ano seguinte ao Hepta. E a gente sabe o motivo. Não posso dizer que só nós dois sabemos porque, desculpe-me, já confidenciei aquela história para os caros e cada vez mais raros viventes desta Avalanche. Foi quando fomos forjados gremistas pela mão disciplinadora do pai, após uma brincadeira ingrata de um dos primos que usurpou da sua ingenuidade e o induziu a tremular a bandeirinha encarnada e cantarolar uma música que não tinhas ideia do que significava — e tu pensando que era só uma homenagem ao (nosso) papai que era maior.

Alguns anos antes de morrer, o pai até disse que se arrependia daquele gesto mais ríspido. Sabendo que é nas derrotas que aprendemos, eu o agradeci em teu nome. Foi lição para a vida! Se hoje me emociono com o título conquistado da forma como me emociono tem muito a ver com aquele passado, em 1969, um ano após o Hepta inédito. 

Dos anos anteriores, porém, o vazio é preenchido pelas muitas histórias que o pai contava e pelos jogadores que ele fazia questão de te apresentar nos anos seguintes, quando a presença no estádio passou a ser  frequente. Cruzavas pelo Áureo e o pai lembrava: “foi Hepta!”. Encontravas o Altemir: “o lateral do Hepta”. Alcindo? “Goleador do Hepta”. Joãozinho, que ele fazia questão de chamar com nome e sobrenome: “esse é o João Severiano, tu tinhas que ver o que jogava  essa rapaz do Hepta!”. 

Bah, guri! E não é que o João Severiano estava em campo neste sábado?!? Que homenagem linda que o Grêmio fez ao tê-lo na cerimônia de entrega do troféu deste segundo Hepta que conquistamos na história. Chorei emocionado porque tu me fizeste lembrar de todas aquelas referências que o pai fazia desses jogadores que vestiram nossa camisa. Para coisa ficar ainda mais sentimental, Joãozinho passou a taça às mãos de Geromel. 

E aí, me dá licença guri: a partir daqui as lembranças são todas minhas.

Por amadurecido que estou, assisti à trajetória do Hepta, desde o campeonato de 2018. E essa memória levarei para sempre comigo até o dia de partir. O privilégio de ver Geromel e Kannemann erguendo cada um dos oito troféus gaúchos é incrível. Como espero aquele beijo duplo que virou clássico de nossas conquistas. Por estarem em campo desde o primeiro título da série, são o símbolo maior desse Hepta. 

Injustiça não citar outros tantos que estiveram com a gente nesses tempos recentes de vitórias. E para não esquecer nenhum deles, os torno redivivos na imagem de Luan, dos maiores craques que vestiram nossa camisa. Sem contar que seremos únicos neste Brasil todo a lembrar que na caminhada do Hepta tivemos Luiz Suárez a fazer gols decisivos.

Do time atual, além da dupla Geromel e Kannemann, há Villasanti, volante incontestável e incansável na arte de desarmar e de armar nossos ataques. Tem Cristaldo, com um talento que passa despercebido por muitos e se expressa de forma contundente no instante decisivo da jogada; tem Gustavo Nunes e Pavón com dribles que desconsertam a marcação; e tem Diego Costa, nosso Alcindo dos tempos modernos. 

Tem tanta outra gente que mereceria ser lembrada nestes sete anos de hegemonia, mas quero mesmo é focar na lembrança que tenho de ti, meu guri. Para te agradecer pelo que fostes e passastes naqueles anos iniciais de nossas vidas. Graças a ti sou o que sou hoje. E te agradeço, oferecendo a memória eterna deste Hepta de 2024!

Com carinho e saudades,

Mílton Jung, o ex-guri

Avalanche Tricolor: dia de festa

Grêmio 4×1 São José

Gaúcho – Arena do Grêmio, Porto Alegre/RS

Soteldo é destaque em foto de Lucas Uebel/Grêmio FBPA

No dia em que escrevo esta Avalanche é feriado em São Paulo. 25 de Janeiro é a data de fundação da cidade que completa 470 anos. Vivi aqui meus últimos 33 anos e agradeço sempre pelas oportunidades que recebi. Sinto-me paulistano e digo isso sem nenhum demérito à cidade em que nasci. Porto Alegre é parte crucial de minha história. Nela tenho os registros da infância e da adolescência, as marcas do início da carreira, parte da família e, claro, o clube do coração. Foi lá que o meu “gremismo” foi forjado. É do Grêmio, aliás, que falo neste espaço como bem sabe o caro e cada vez mais raro leitor desta Avalanche.

Ontem, dia 24 de Janeiro, foi dia de muita festa para o torcedor gremista. À noite, reencontrou-se com o time na Arena, pela primeira vez nesta temporada. Depois do revés na estreia do Campeonato Gaúcho, jogando fora, o Grêmio se impôs e goleou seu adversário em casa. Quem mas se divertiu foi o venezuelano Soteldo que, a persistirem os sintomas, tende a ser o ponto forte da equipe. Driblou como poucas vezes vimos, fez a festa com a bola no pé para desespero de seus marcadores, deu assistência para o gol que abriu a goleada e marcou pela primeira vez com a nossa camisa.

Agustin Marchesín, goleiro argentino contratado este ano, também fez boa estreia, apesar de o lance do pênalti, mal sinalizado pelo árbitro, ter sido motivado por uma falha dele. Foi seguro em todas as demais oportunidades em que o adversário ameaçou nosso gol e demonstrou personalidade forte para comandar o setor defensivo que precisa evoluir muito neste ano de 2024. Aliás, no que se refere à defesa, que alegria ver Geromel e Kannemann lado a lado mais uma vez. 

Nessa quarta-feira, havia gremistas com motivos ainda mais especial para festejar. O paraguaio Mathias Villasanti, um dos melhores volantes em atividade no futebol brasileiro, completou 27 anos com mais uma atuação segura. 24 de Janeiro também é aniversário do uruguaio Luis Suárez, que pelo que fez em um ano com a camisa tricolor será nosso eterno craque. 

Aliás, os astros merecem ser investigados porque todas as vezes que se alinharam nesta data nos ofereceram grandes nomes. Foi o que fizeram, por exemplo, em 1945, quando lá na pequena Brochier, interior do Rio Grande do Sul, nascia Loivo Ivan Johann, que anos depois se consagraria como o “Coração de Leão” pela forma valente e impetuosa com que jogava com a camisa 11 do Grêmio. Ponta esquerda raiz, com chute forte e ídolo de todos nós torcedores, Loivo completou ontem 79 anos de vida muito bem vivida.

O aniversário de Loivo, ontem, me levou a escrever texto em que compartilhei a experiência que o craque me proporcionou quando eu ainda era um guri de calção curto e camisa tricolor esturricada: o dia em que entrei de mãos dadas com ele no gramado do Olímpico. O relato que, com outras palavras, havia sido contado nesta Avalanche publiquei em grupo de WhatsApp no qual gremistas ilustres participam, dentre eles o próprio Loivo. 

Foi então que a minha festa particular se iniciou: o celular tocou e do outro lado era o craque a falar e a agradecer pela história que contei. Imagine a emoção deste escrevinhador que teve de controlar a batida do coração, a lágrima no rosto e a voz que fraquejava. O jornalista voltou a ser o guri do Olímpico,  comemorou o feito com a mesma alegria infantil daqueles tempos e com o desejo de abrir a janela do apartamento e gritar: “Gol, gol, gol, gooool de Loivo, o Coração de Leão!”.