Avalanche Tricolor: Pavón é um exemplo a ser seguido

Grêmio 2×0 Palestino
Sul-Americana — Arena do Grêmio, Porto Alegre (RS)

Conmebol Sul-Americana - Grêmio x Palestino-CHI - 20/05/2026
Pavón foi o destaque do jogo. Foto: Lucas Uebel/GrêmioFBPA

Até a Copa, havia quatro jogos a vencer. O primeiro foi superado nesta noite. Com os três pontos conquistados, decidiremos em casa, na semana que vem, o primeiro lugar do Grupo F da Sul-Americana. Se persistirem os sintomas, o Grêmio está prestes a cumprir mais uma meta da temporada. A primeira, vale lembrar, foi a reconquista do Campeonato Gaúcho.

Para um time ainda em construção, apesar das dificuldades enfrentadas e das fragilidades já expostas, alcançar objetivos iniciais traz algum respiro ao treinador e à comissão técnica. E o que Luis Castro mais precisa neste momento é tranquilidade para ajustar a equipe. A parada para a Copa será ideal para esse trabalho.

O Grêmio desta noite mostrou alguns dos méritos que podem levá-lo a uma performance melhor no pós-Copa. Jogadores jovens, como Viery, Luis Eduardo e Pedro Gabriel; talentos como Gabriel Mec e Amuzu; atacantes com fome de gol, como Braithwaite e Carlos Vinícius; além de um goleiro gigante: Weverton.

Nada, porém, foi mais importante nesta partida do que a atuação de Pavón. Com todas as restrições que o torcedor já teve em relação a ele, jamais se poderia criticá-lo por falta de entrega. Poucos jogadores se dedicam tanto quanto o argentino. Aceitou recuar para a lateral e, diante da falta de alternativas, acabou se firmando na posição. As dificuldades técnicas de posicionamento foram compensadas pela disposição na marcação.

Hoje, Pavón foi decisivo na vitória. No primeiro tempo, partiu dele o chute que provocou o rebote do goleiro e permitiu a conclusão de Braithwaite para as redes. O segundo gol foi praticamente todo obra do argentino. Um chutaço de fora da área, com uma precisão que há muito tempo ele não alcançava. Foi seu primeiro gol desde 11 de fevereiro de 2025 — comemorado com todo merecimento.

Ver jogadores como Pavón terem o esforço recompensado sempre me provoca uma alegria particular. Serve também como exemplo aos colegas. Mostra que o torcedor sabe respeitar quem demonstra vontade de melhorar, mesmo quando o melhor ainda não aparece por completo.

Para nos deixar ainda mais satisfeitos, tivemos o privilégio de assistir a um lance que relembrou os velhos e inesquecíveis tempos de Kannemann. Nosso zagueiro, já em fase de despedida, salvou um gol em cima da linha e repetiu uma cena que o consagrou ao lado de Geromel — resultado do esforço típico de quem jamais desiste.

E, no fim das contas, é isso que o torcedor quer enxergar no seu time. Ver, em cada jogada, nas bolas divididas, na marcação, na arrancada para o ataque, na tentativa de drible ou no chute a gol, jogadores comprometidos em fazer o melhor possível com as condições que têm — enquanto trabalham para alcançar condições ainda melhores.

Avalanche Tricolor: nem sorte, nem juízo

Grêmio 0x1 Flamengo
Brasileiro – Arena do Grêmio, Porto Alegre RS

Brasileirão - Grêmio x Flamengo - 10/05/2026
Noriega disputa a bola. Foto Lucas Uebel/GrêmioFBPA

Dona Ruth costumava dizer que eu tinha mais sorte do que juízo, sempre que me encontrava diante de uma daquelas situações em que a enrascada teria sido grande não fosse alguma ocorrência fortuita que me livrasse da tragédia. Neste domingo de Dia das Mães lembrei dela, lógico. Não pela frase em si, mas por tudo que representou na minha vida, mesmo tendo tido a oportunidade de conviver com ela muito menos do que gostaria. Esteve na minha memória na missa matinal, no almoço em família e nas conversas com os parentes que se reuniram nesta data.

A frase, por sua vez, me veio à mente durante a partida desta noite, na Arena. À medida que o adversário acumulava passes, dribles, cruzamentos e chutes a gol, a máxima da Dona Ruth se fazia presente. Por sorte, uma bola deu no travessão; a outra foi chutada para o alto. Em seguida, foi nosso goleiro quem nos safou de um placar aberto ainda nos primeiros minutos. O primeiro tempo inteiro foi assim. Por sorte.

A ausência de juízo nos fez dar espaço para um dos times mais talentosos do campeonato. Permitimos que seus armadores tocassem a bola com maestria, sem a marcação aguerrida que o jogo exigia. Mesmo com três zagueiros na área, dois volantes diante dela e alas mais recuados, faltavam harmonia e ajustes. E isso oferecia ao adversário um espaço privilegiado. Nas poucas vezes em que a bola esteve nos nossos pés, faltou discernimento para chegar com perigo ao gol.

Voltamos para o segundo tempo sem tirar nem pôr. Nem na escalação nem no comportamento. E, para tamanha falta de juízo, não haveria sorte capaz de nos salvar. Aos 23 minutos da etapa final, levamos o único gol de uma partida que tinha tudo para se transformar em goleada a favor do adversário. Não bastasse isso, ainda amargamos uma combinação de resultados que nos deixa naquela zona-você-sabe-qual.

Ah, Dona Ruth! Depois de tudo, volto a lembrar da senhora. Que falta me fará amanhã cedo, quando estarei de volta ao trabalho. Nos nossos tempos em família, lá em Porto Alegre, eu acordava nas segundas-feiras pós-derrota e, ao sentar para o café da manhã, alegava dor de barriga, algum mal-estar, talvez um princípio de gripe. E a senhora, compreensiva, me permitia voltar para a cama, ficar embaixo das cobertas para não precisar encarar a flauta dos adversários na escola.

Avalanche Tricolor: no limite!

Grêmio 1×0 Coritiba
Brasileiro – Arena do Grêmio, Porto Alegre RS

Gabriel Mec marcou o primeiro gol como profissional Foto: Lucas Uebel/Grêmio FBPA

O Grêmio começou a partida neste domingo no limite daquela zona-que-você-sabe-qual-é. Precisava pontuar. Mais do que isso, precisava conquistar os três pontos, diante dos maus resultados fora de casa. A vitória era uma necessidade.

A despeito de tudo que o torcedor mais exigente esteja pensando — e já li alguns usarem adjetivos como “aterrorizante”, o que considero um tanto exagerado —, terminamos a rodada no limite da zona de classificação para a Copa Sul-Americana. A conquista desta tarde de domingo deixou ao menos cinco adversários próximos da degola — além dos quatro que já estão lá embaixo. Ou seja, passamos a olhar para cima da tabela.

O placar minguado, diante de um adversário que ficou com um a menos ainda no primeiro tempo, não me pareceu justo diante da força ofensiva que apresentamos. Tivemos três gols anulados no ajuste da linha traçada pelo VAR: primeiro com Carlos Vinícius, depois com Wagner Leonardo e, no fim, com Nardoni. Uma goleada iminente, não fossem nossos jogadores estarem milímetros além do limite legal. Sei que gol anulado não conta. O fato, no entanto, de estarmos lá na frente, criando e chutando a gol, é uma demonstração de evolução. Quantos jogos sofremos pela falta de ambição no ataque?

Dizer que o time esteve desorganizado é outro sinal de má vontade de alguns críticos. O Grêmio tinha uma lógica na partida de hoje. Havia uma movimentação mais interessante. A maneira de chegar à frente fazia sentido, aproveitando um meio de campo mais técnico no passe e ponteiros agudos e dribladores. A chegada dos alas à frente também foi importante, sobretudo Pedro Gabriel, que tem ensaiado chutes perigosos de fora da área.

Gabriel Mec, na função de camisa 10, foi o principal destaque do time. Havia escrito na Avalanche anterior que a presença dele no meio de campo cobra de seus companheiros maior esforço na marcação. Ele, no entanto, compensa essa fragilidade no desarme com velocidade, dribles corajosos e passes de qualidade. Hoje, foi além: marcou o primeiro gol com a camisa profissional. Não por acaso, escorando dentro da área o cruzamento feito por Enamorado, outro dos nossos destaques em campo.

Gostei muito de Viery, que foi preciso nos desarmes todas as vezes que o adversário pressionou — isso sim é uma preocupação: o fato de termos permitido tanta pressão de um time em inferioridade numérica. Nosso jovem zagueiro tem tudo para se transformar em um grande nome do setor defensivo do Grêmio. E, se formos capazes de segurá-lo por aqui, pode entrar no rol de ídolos do Imortal.

Wagner Leonardo dá sinais de que poderá recuperar o futebol que o fez ser contratado pelo Grêmio no ano passado. Apareceu mais firme e equilibrado lá atrás, em condições de dar tranquilidade ao torcedor desconfiado após duas expulsões desnecessárias. Enquanto isso, Weverton foi seguro sempre que exigido, como tem sido partida após partida. E pensar que houve quem já o criticasse nas primeiras atuações com a camisa do Grêmio.

A vitória do Grêmio foi no limite. Mas era a vitória que precisávamos.

Agora é recuperar os pontos perdidos na Sul-Americana, na quarta-feira, e, no próximo fim de semana, vencer a primeira partida fora de casa no Brasileiro.

Porque, se o time aprendeu a jogar no limite, chegou a hora de mostrar até onde esse limite pode nos levar.

Avalanche Tricolor: foi um baile!

Grêmio 3×0 Internacional
Gaúcho – Arena do Grêmio, Porto Alegre RS

Final Gauchão Ida - Grêmio x Internacional - 01/03/2026
Enamorado comemora o primeiro gol Foto: Lucas Uebel/GrêmioFBPA

Eu não teria pedido tanto. Queria um time jogando melhor do que no Gre-Nal passado. Imaginava uma equipe aguerrida, como tem se mostrado nas últimas partidas. Acreditava no resultado positivo, empurrado pela torcida. O Grêmio me deu muito mais. Deu um baile!

No Gre-Nal 450, foi superior ao longo de toda a partida, antes mesmo de ter se beneficiado da expulsão do adversário. Aliás, é importante que se diga: a expulsão foi resultado dessa imposição tricolor. Marcação lá em cima. Pouco espaço para o adversário. Saídas para o ataque com velocidade. Arriscando dribles pelas pontas.

A defesa dos guris Gustavo Martins e Viery deu pouca chance aos atacantes colorados. E não se limitou a marcar dentro da área. Saiu para o bote. Ganhou nas divididas. E foi numa dessas que Viery, vencendo duas disputas, desarmou o adversário e serviu Amuzu no segundo gol.

Pavon, improvisado na lateral direita mais uma vez, foi preciso na função. Em vez de escolher um dos laterais de ofício, Luis Castro aposta na velocidade do argentino, que consegue acompanhar o ponteiro adversário e aparecer na frente. Um achado. Marlon jogou com a segurança que se espera na esquerda

O meio de campo teve Arthur como maestro, conduzindo a bola para um lado e para o outro, fazendo seus marcadores perderem a passada — só foi parado com faltas (sem que nenhuma tenha sido punida).

Noriega atuou como um “batedor de carteira”, e Monsalve foi a surpresa de Luis Castro. Mais uma demonstração de que o técnico valoriza o que vê nos treinamentos e o que os jogadores entregam em campo. O colombiano vinha bem, se machucou e, recuperado, voltou a ser titular.

Por falar em baile, Enamorado pelo lado direito e Amuzu pelo esquerdo tiraram os marcadores para dançar. E não queriam saber de valsa. Foi em ritmo de rock and roll — ou teria diso reggaeton latino. Impuseram velocidade, driblaram, deram caneta, chegaram à área, fizeram assistência e marcaram os gols que abriram o placar e nocautearam o adversário.

Enamorado fez o seu primeiro gol desde que chegou ao Grêmio, minutos depois de o time ficar em superioridade numérica em campo, com um chute da entrada da área. O colombiano até aqui havia mostrado talento com a bola no pé, mas vinha concluindo mal a gol. Desta vez, estufou a rede.

Amuzu foi protagonista no lance da expulsão, marcou o segundo gol em mais uma escapada veloz e deu assistência para Carlos Vinícius fazer o terceiro. O belga ainda se deu ao luxo de arriscar um cruzamento de letra para desestabilizar de vez o adversário.

Nosso centroavante pode até não ficar com a autoria do gol — é preciso ver o que o árbitro colocará na súmula —, mas teve participação importante dentro da área, venceu todas as disputas com os zagueiros e completou sua atuação com um toque por cobertura sobre o goleiro, que proporcionou o gol definitivo da partida.

O Grêmio bailou na Arena como há muito tempo não víamos. E a torcida embalou com seu grito de “olé”. Luis Castro está de parabéns por ter encontrado a fórmula necessária para fazer o Grêmio jogar bola com harmonia.

A história mostra que raramente o time que sai na frente na decisão perde a taça no Campeonato Gaúcho. Nunca houve uma virada com três gols de diferença. Ainda assim, cautela. Não é hora de cantar vitória. É hora de repetir a intensidade, sustentar a vantagem e só transformar confiança em festa quando o árbitro encerrar a decisão.

Avalanche Tricolor: do inferno astral ao céu tricolor

Grêmio 3×1 Vitória
Brasileiro – Arena do Grêmio, Porto Alegre RS

André comemora o primeiro gol Foto: Lucas Uebel/GrêmioFBPA

De repente, o que parecia um destino cruel começou a se desenhar em cores mais vivas. Sorte? Astros? Ou apenas futebol jogado com alma? O caro e cada vez mais raro leitor desta Avalanche deve se lembrar que, às vésperas do aniversário gremista, eu falava de um tal “inferno astral”. Era tanto tropeço, tanta desclassificação e tanto perrengue que nem a astrologia parecia capaz de explicar.

Pois não é que, depois da festa, vencemos um Gre-Nal nas circunstâncias que vencemos, arrancamos um ponto improvável contra o atual campeão brasileiro e agora somamos mais três, dando um salto na tabela? Obra dos céus ou da bola?

Sem nunca esquecer que somos “imortais tricolores”, prefiro deixar de lado as explicações celestes. As razões estão aqui mesmo, no gramado. Uma delas atende pelo nome de Arthur, o filho pródigo. Ao voltar para casa, trouxe talento, cadência e ordem ao nosso meio-campo. Seja recuado, ajudando a defesa, seja avançado, ditando passes no ataque, ele nos lembra que quando há qualidade, a bola sempre encontra o melhor caminho.

Outro nome que se impõe é Marcos Rocha. Líder, dono de bom passe e especialista em transformar um arremesso lateral em estratégia de ataque. Foi assim que nasceu o primeiro gol, concluído pelo jovem André Henrique.

Também pesa a experiência de Mano Menezes. Mesmo sob críticas constantes, ele observa o cotidiano dos treinos e arrisca soluções que nem sempre agradam ao torcedor. Depois do empate sofrido, foram justamente suas mudanças que nos levaram à vitória. Trouxe de volta Cristaldo e Amuzu, nomes em quem poucos ainda acreditavam. E os dois corresponderam: Cristaldo com visão de jogo, Amuzu com drible e coragem. O belga fez o segundo gol e ainda serviu Aravena para o terceiro – atacante chileno que escolhido por Mano ao perceber que André Henrique não tinha mais fôlego para permanecer em campo. 

Seja pela lógica da bola ou pela magia dos céus, o torcedor voltou a sorrir. E se a tabela começa a nos mostrar caminhos para a Libertadores, que assim seja: sonhar é, afinal, parte da alma tricolor.

Avalanche Tricolor: a ilusão interrompida

Grêmio 0x0 Ceará
Brasileiro – Arena do Grêmio, Porto Alegre RS

Alysson parte para o ataque. Foto: Lucas Uebel/GrêmioFBPA

A única coisa que buscava na noite deste sábado era a ilusão de emendar uma segunda vitória seguida no Campeonato Brasileiro. Depois dos três pontos fora de casa, da maneira como foram conquistados semana passada, a expectativa de mais três era até natural. O adversário estava no meio da tabela e o jogo era na Arena, diante da torcida. A vitória, mesmo com sabor de “me engana que eu gosto”, saciaria meus desejos.

O Grêmio atual, porém, não me deixa iludir. A todo instante faz questão de mostrar a que veio nesta temporada. Joga na cara o que não queremos acreditar. Na troca de passes sem convicção, na transição claudicante para o ataque, nos cruzamentos sem destino e nos raros chutes a gol, expõe suas fragilidades.

Nesta fase, o reforço que chega com cara de solução sofre lesão — vide o ocorrido com Balbuena. Os jovens que se anunciam com talento não conseguem ir além de alguns momentos de lucidez — como no futebol esforçado de Alysson e Riquelme. A bola que se apresenta para o gol é desperdiçada, como aquela que André Henrique perdeu quase dentro da pequena área. Somos uma sucessão de lances fortuitos e bolas sem rumo.

Como me disse um amigo confidente — gremista, gaúcho e jornalista como eu, parceiro de tantas pitangas tricolores —, o Grêmio apenas resgatou o seu “verdadeiro futebol”.

Avalanche Tricolor: uma carta ao guri do Hepta de 68

Grêmio 3×1 Juventude

Gaúcho – Arena do Grêmio, Porto Alegre/RS

João Severiano entrega o troféu do Hepta a Geromel Foto: Lucas Uebel/GrêmioFBPA

Meu Guri,

Vivi emoções que poucos vivenciaram, neste sábado. Comemorar o Heptacampeonato gaúcho é coisa rara de se sentir. Tu ainda eras guri de calça curta lá em Porto Alegre, tinhas cinco anos, quando ganhamos nosso primeiro Hepta. Vivias na Saldanha, pertinho do Olímpico. Não existia a perimetral nem a praça do Papa. Tu sujarias teus sapatos ortopédicos de pó e lama para passar pelo beco entre nossa casa e o estádio.

Escrevo para ti porque quando o sábado amanheceu pensava comigo aqui em São Paulo se ainda havia lembranças na sua memória daquele 1968 em que o Grêmio empatara com o mesmo adversário de agora para conquistar o título inédito. Remoí o pensamento e vasculhei o coração sem encontrar nada por lá.

Curioso é que na volta ao tempo, consegui retroagir minhas lembranças sobre ti apenas até o ano seguinte ao Hepta. E a gente sabe o motivo. Não posso dizer que só nós dois sabemos porque, desculpe-me, já confidenciei aquela história para os caros e cada vez mais raros viventes desta Avalanche. Foi quando fomos forjados gremistas pela mão disciplinadora do pai, após uma brincadeira ingrata de um dos primos que usurpou da sua ingenuidade e o induziu a tremular a bandeirinha encarnada e cantarolar uma música que não tinhas ideia do que significava — e tu pensando que era só uma homenagem ao (nosso) papai que era maior.

Alguns anos antes de morrer, o pai até disse que se arrependia daquele gesto mais ríspido. Sabendo que é nas derrotas que aprendemos, eu o agradeci em teu nome. Foi lição para a vida! Se hoje me emociono com o título conquistado da forma como me emociono tem muito a ver com aquele passado, em 1969, um ano após o Hepta inédito. 

Dos anos anteriores, porém, o vazio é preenchido pelas muitas histórias que o pai contava e pelos jogadores que ele fazia questão de te apresentar nos anos seguintes, quando a presença no estádio passou a ser  frequente. Cruzavas pelo Áureo e o pai lembrava: “foi Hepta!”. Encontravas o Altemir: “o lateral do Hepta”. Alcindo? “Goleador do Hepta”. Joãozinho, que ele fazia questão de chamar com nome e sobrenome: “esse é o João Severiano, tu tinhas que ver o que jogava  essa rapaz do Hepta!”. 

Bah, guri! E não é que o João Severiano estava em campo neste sábado?!? Que homenagem linda que o Grêmio fez ao tê-lo na cerimônia de entrega do troféu deste segundo Hepta que conquistamos na história. Chorei emocionado porque tu me fizeste lembrar de todas aquelas referências que o pai fazia desses jogadores que vestiram nossa camisa. Para coisa ficar ainda mais sentimental, Joãozinho passou a taça às mãos de Geromel. 

E aí, me dá licença guri: a partir daqui as lembranças são todas minhas.

Por amadurecido que estou, assisti à trajetória do Hepta, desde o campeonato de 2018. E essa memória levarei para sempre comigo até o dia de partir. O privilégio de ver Geromel e Kannemann erguendo cada um dos oito troféus gaúchos é incrível. Como espero aquele beijo duplo que virou clássico de nossas conquistas. Por estarem em campo desde o primeiro título da série, são o símbolo maior desse Hepta. 

Injustiça não citar outros tantos que estiveram com a gente nesses tempos recentes de vitórias. E para não esquecer nenhum deles, os torno redivivos na imagem de Luan, dos maiores craques que vestiram nossa camisa. Sem contar que seremos únicos neste Brasil todo a lembrar que na caminhada do Hepta tivemos Luiz Suárez a fazer gols decisivos.

Do time atual, além da dupla Geromel e Kannemann, há Villasanti, volante incontestável e incansável na arte de desarmar e de armar nossos ataques. Tem Cristaldo, com um talento que passa despercebido por muitos e se expressa de forma contundente no instante decisivo da jogada; tem Gustavo Nunes e Pavón com dribles que desconsertam a marcação; e tem Diego Costa, nosso Alcindo dos tempos modernos. 

Tem tanta outra gente que mereceria ser lembrada nestes sete anos de hegemonia, mas quero mesmo é focar na lembrança que tenho de ti, meu guri. Para te agradecer pelo que fostes e passastes naqueles anos iniciais de nossas vidas. Graças a ti sou o que sou hoje. E te agradeço, oferecendo a memória eterna deste Hepta de 2024!

Com carinho e saudades,

Mílton Jung, o ex-guri

Avalanche Tricolor: dia de festa

Grêmio 4×1 São José

Gaúcho – Arena do Grêmio, Porto Alegre/RS

Soteldo é destaque em foto de Lucas Uebel/Grêmio FBPA

No dia em que escrevo esta Avalanche é feriado em São Paulo. 25 de Janeiro é a data de fundação da cidade que completa 470 anos. Vivi aqui meus últimos 33 anos e agradeço sempre pelas oportunidades que recebi. Sinto-me paulistano e digo isso sem nenhum demérito à cidade em que nasci. Porto Alegre é parte crucial de minha história. Nela tenho os registros da infância e da adolescência, as marcas do início da carreira, parte da família e, claro, o clube do coração. Foi lá que o meu “gremismo” foi forjado. É do Grêmio, aliás, que falo neste espaço como bem sabe o caro e cada vez mais raro leitor desta Avalanche.

Ontem, dia 24 de Janeiro, foi dia de muita festa para o torcedor gremista. À noite, reencontrou-se com o time na Arena, pela primeira vez nesta temporada. Depois do revés na estreia do Campeonato Gaúcho, jogando fora, o Grêmio se impôs e goleou seu adversário em casa. Quem mas se divertiu foi o venezuelano Soteldo que, a persistirem os sintomas, tende a ser o ponto forte da equipe. Driblou como poucas vezes vimos, fez a festa com a bola no pé para desespero de seus marcadores, deu assistência para o gol que abriu a goleada e marcou pela primeira vez com a nossa camisa.

Agustin Marchesín, goleiro argentino contratado este ano, também fez boa estreia, apesar de o lance do pênalti, mal sinalizado pelo árbitro, ter sido motivado por uma falha dele. Foi seguro em todas as demais oportunidades em que o adversário ameaçou nosso gol e demonstrou personalidade forte para comandar o setor defensivo que precisa evoluir muito neste ano de 2024. Aliás, no que se refere à defesa, que alegria ver Geromel e Kannemann lado a lado mais uma vez. 

Nessa quarta-feira, havia gremistas com motivos ainda mais especial para festejar. O paraguaio Mathias Villasanti, um dos melhores volantes em atividade no futebol brasileiro, completou 27 anos com mais uma atuação segura. 24 de Janeiro também é aniversário do uruguaio Luis Suárez, que pelo que fez em um ano com a camisa tricolor será nosso eterno craque. 

Aliás, os astros merecem ser investigados porque todas as vezes que se alinharam nesta data nos ofereceram grandes nomes. Foi o que fizeram, por exemplo, em 1945, quando lá na pequena Brochier, interior do Rio Grande do Sul, nascia Loivo Ivan Johann, que anos depois se consagraria como o “Coração de Leão” pela forma valente e impetuosa com que jogava com a camisa 11 do Grêmio. Ponta esquerda raiz, com chute forte e ídolo de todos nós torcedores, Loivo completou ontem 79 anos de vida muito bem vivida.

O aniversário de Loivo, ontem, me levou a escrever texto em que compartilhei a experiência que o craque me proporcionou quando eu ainda era um guri de calção curto e camisa tricolor esturricada: o dia em que entrei de mãos dadas com ele no gramado do Olímpico. O relato que, com outras palavras, havia sido contado nesta Avalanche publiquei em grupo de WhatsApp no qual gremistas ilustres participam, dentre eles o próprio Loivo. 

Foi então que a minha festa particular se iniciou: o celular tocou e do outro lado era o craque a falar e a agradecer pela história que contei. Imagine a emoção deste escrevinhador que teve de controlar a batida do coração, a lágrima no rosto e a voz que fraquejava. O jornalista voltou a ser o guri do Olímpico,  comemorou o feito com a mesma alegria infantil daqueles tempos e com o desejo de abrir a janela do apartamento e gritar: “Gol, gol, gol, gooool de Loivo, o Coração de Leão!”.