Minhas férias (lá se foram)

 

Volta às aulas era sempre assim. A professora pedia uma redação na qual teríamos de contar como foram as férias escolares. Nem sempre tínhamos coisas interessantes para escrever, mas o número de linhas era pré-estabelecido. Aí, era aquele enorme esforço para preenchê-las com algo legal e sem muitos erros de gramática. Lembrei disso ao pensar neste post que marca meu retorno ao trabalho depois de 15 dias de férias e uma semana inteira de folga devido ao Natal. Vamos à lição de casa:

 

Dique em Porto Madero

Buenos Aires, na Argentina, e Colonia del Sacramento, no Uruguai, foram meus portos seguros nestas férias de dezembro. As duas cidades que estão em margens opostas e próximas do Rio da Prata se completam. Um barco, cerca de R$ 150, alguma burocracia de fronteira e uma hora separam a capital argentina fundada em 1536 da mais antiga cidade uruguaia, que surgiu no século seguinte, em 1679.

A primeira, uma metrópole caótica com comércio de qualidade e tradição preservada em alguns de seus bairros. A segunda se contrapõe oferecendo tranquilidade excessiva e ruas e prédios históricos a vista de todos. Interessante casar o passeio pela riqueza de elementos e preços bastante atrativos, seja para comprar, se alimentar ou se hospedar. Cruzar o extenso Rio da Prata deveria ser programa obrigatório para quem vai a Buenos Aires, tanto quanto visitar a Ricoleta, o Boca e o Porto Madero.

Os portugueses, sob o comando de Manuel Lobo, tinham mesmo a pretensão de criar no pedaço de terra mais próximo da Argentina uma base que lhes permitissem chegar ao território dominado pelos espanhóis. Estes logo entenderam as más intenções lusitanas e botaram seus navios do outro lado, expulsaram os recém-chegados e tomaram o território, só o devolvendo muitos tratados depois.

Centro de Colonia del Sacramento

Aliás, esta mistura portuguesa e espanhola é possível de se perceber em Colonia del Sacramento com casas de tijolo e pedra que se avizinham, todas ao longo de ruas calçadas como antigamente, sem um só pingo de asfalto. Por ali passam poucos carros e a preferência é para lambretas e carrinhos de golfe, alugados com facilidade para quem não quer caminhar.

A cidade não tem mais de 21 mil moradores, dos quais apenas dois são brasileiros – outro contraste com Buenos Aires que, sozinha, tem quase a mesma população que o Uruguai inteiro. Há quem a compare com Parati, no litoral fluminense. A mim lembrou Embu das Artes, na região metropolitana de São Paulo (sem o rio, é lógico).

Não vá até lá esperando luxo e requinte nem mesmo uma farmácia com produtos básicos para a higiene pessoal. Nas lojas, a aposta é pelo artesanato. Esteja preparado para a conversão, pois eles aceitam dinheiro de qualquer nacionalidade e origem – não deve ser uma coincidência que o Uruguai é visto como uma espécie de paraíso fiscal sulamericano.

Carros da metade do século passado desfilam pelas ruas mais “modernas” ou fazem pose estacionados no centro antigo. Novos apenas os da frota de táxi que ajuda no deslocamento dos hotéis para os pontos turísticos.

Aproveite para relaxar, refletir e fotografar.

Patins em Buenos Aires

Se em Colonia há poucos brasileiros, em Buenos Aires nós estamos saindo pelo ladrão (sem trocadilho, por favor). As lojas estão tomadas pelos conterrâneos com carteira recheada de real forte. Os restaurantes, também. Em ambos, produtos de qualidade enchem os olhos e o estômago. Tive de me conter em um caso e em outro, pois vinha de um dieta programada para o fim do ano.

Confesso que sinto inveja do que os argentinos foram capazes de fazer em Porto Madero, principalmente após ter visitado, logo no início das férias, o cais de Porto Alegre, no Rio Grande do Sul – grande desperdício. Fiquei hospedado ali perto e da sacada do apartamento enxerguei coisas muito agradáveis. Saudáveis, em especial.

Ciclofaixas se estendiam por boa parte do trajeto que fiz em Buenos Aires e muita gente de patins brincava em grupo. Passear na cidade me faz pensar como seria agradável São Paulo com este espaço para pedalar e patinar.

O que não dá saudade é o trânsito, mesmo porque estamos falando da segunda maior área metropolitana depois de São Paulo. Principalmente durante a semana, dirigir por lá me pareceu uma ação tresloucada.

Na região próxima do Aeroparque (o Congonhas portenho), os carros se misturam aos enormes caminhões que transportam carga no porto e ônibus coloridos que levam passageiros para os bairros da cidade. Os “marronzinhos” que vestem jalecos amarelos dão a impressão de que são apenas figuras decorativas tamanho o desrespeito às leis.

Ainda bem que bares, restaurantes e boas vistas não faltam para amenizar este estresse que, diga-se, é dos motoristas, apenas, não deste turista. Afinal, férias é para se divertir, conhecer e viver. E isto fiz muito durante estes dias todos.


Veja mais imagens de Buenos Aires e Colonia del Sacramento feitas por este fotógrafo amador

Conte Sua História de São Paulo: Que confusão, QSL !

 

Jorge Petras
Ouvinte-internauta

Ouça o texto “Que confusão, QSL” sonorizado por Cláudio Antônio

Entre muitas histórias, esta pode se falar que é radiofônica. Na época do relato não existia celular, era o primórdio de enlaces por microondas.

Faziam três meses que tinha chegado de Buenos Aires (ano 1976) com toda a documentação em ordem como engenheiro em eletrônica especializado em telecomunicações, mas estava sem emprego por acreditar em um conhecido “patrício” que me tinha garantido colocação em uma multinacional a um salário irreal (exorbitante para a época, o que só consegui saber a posteriore). Assim sendo em todas as entrevistas que comparecia pedia o mesmo valor ou ou mais.

Já sem dinheiro para o sustento e após 86 dias a noticia “bomba”: a empresa citada pelo patrício não poderia me contratar por que eu não conhecia, ao nível de conversação, o idioma alemão. Totalmente desorientado entrei em um ônibus e pensei: pegarei o primeiro pedido de emprego de eletricista de obra que encontrar. Quando avistei uma placa de técnico eletrônico, corri e desci do ônibus.

O Recursos Humanos me encaminhou para o gerente de assistência técnica. Trêmulo, me apresentei ao Sr. Renato Olandin, pessoa de cabelos brancos, carismático, tentando falar espanhol, em um lapso de sinceridade falei meu problema. Ele com a serenidade de quem esta de bem com a vida, me explicou a faixa salarial, o CREA, e muitos detalhes do primeiro emprego. Terminou fazendo, além de uma oferta, um conselho de pessoa experiente. Imediatamente aceitei e ao dia seguinte comecei a trabalhar.

A alegria e o entusiasmo do primeiro emprego no Brasil era tão grande que “transbordava em todo meu ser”. Já na semana, o Sr. Renato me chama e pergunta: tem registro de condutor ? E com afirmativa pedante da juventude respondo: minha carta é internacional. OK, responde.

Na manhã seguinte me entrega as chaves de um fusca 0 km e me fala para fazer um conserto aqui perto. Mais que feliz eu sai. Quando vi a distância, quase tive um colapso (primeiro serviço externo = Ilha solteira) A viagem foi uma odissea, mas isto é outra história.

Posterior ao batismo, o serviço externo virou uma rotina, quando uma noite, quase oito horas (eu sempre ficava mais tempo após o expediente normal), o meu gerente me chama gentilmente e pede um favor. Se posso fazer um atendimento urgente na repetidora situada na torre da TV Gazeta.

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Dona Lola

Por Fernando Gallo
Blog Miradouro

Agora que começa a passar o luto da morte do marido, companheiro da vida toda dos tempos de Barcelona, Espanha, onde nasceram, e de Córdoba, Argentina, onde foram viver, dona Lola, avó da minha amiga Soledad Miralles, começa a sair de casa novamente.

Tem buscado em um centro de convivência para aposentados, gerenciado pelo governo de Córdoba, algo que preencha o novo vazio de seus dias.

Sim, porque mesmo que a ela, como à maioria dos amigos que fez, falte dinheiro, a província não deixará que lhe falte um mínimo de dignidade para levar os dias que lhe restam.

Para isso, não paga mais do que 10 pesos mensais, algo em torno de 7 reais, e nesse centro, além da companhia, que vem espantar os fantasmas, encontra um cabeleireiro que lhe põe os ralos brancos cabelos em dia, uma manicura que lhe corta as unhas e um clínico geral que cuida para que chegue ao último suspiro com a melhor saúde de que seu organismo disponha.

Também lá, pode comprar – e tem comprado, uma vez por mês, ao menos – por 40 ou 50 pesos, pacotes de viagens para cidades da própria província, ficando às vezes um final de semana, às vezes até 4 dias fora.

– Claro, são quartos coletivos, a comida muito simples e o banheiro às vezes fica fora, e nós temos que caminhar uns 50 metros para chegar até ele. Mas é tudo limpo e organizado e ninguém reclama. Todos têm a opção de não ir, mas está sempre cheio – conta ela.

Dona Lola têm sido verdadeiramente cuidada pelos seus governantes agora que, aos 78 anos, a potência e as possibilidades vão se esvaindo, e tudo o que ela agora mais precisa é justamente disso, cuidado.

Fernando Gallo é repórter da CBN e escreve com mais quatro amigos para o Blog Miradouro. Vá até lá e conheça outros textos desta turma.

Paseo del Buen Pastor ou como revitalizar o centro

Por Fernando Gallo 

Se o amigo leitor um dia decidir visitar a aprazível cidade de Córdoba, na Argentina, recomendo veementemente que, além de provar os deliciosos sorvetes locais, vá a um lugar chamado Paseo del Buen Pastor.

Desde 4 de agosto de 2007 o Buen Pastor é um complexo comercial, cultural e recreativo na região central da cidade, uma espécie de bulevar, com restaurantes, sorveterias, lojas, espaços para exposições, palestras, mostras, e também uma bela fonte, que à noite, de hora em hora, dança, num espetáculo de som, luz e cor. É bastante freqüentado durante o dia, mas principalmente à noite, sobretudo pelos jovens do bairro universitário de Nueva Córdoba, que depois das aulas vão até ali para conversar, tocar violão, dar risadas e aproveitar a agradável atmosfera do lugar.

Dois anos atrás, no entanto, eu não sugeriria que alguém fosse conhecê-lo. À época o nome do lugar era o mesmo, mas sua função social muito diferente: Paseo del Buen Pastor era o presídio feminino da cidade, com seus muros altos, suas grades, sua iluminação escassa e aquele ar carregado que costuma circundar os presídios. Durante a ditadura militar (1976-83), a prisão guardava presas políticas, que sofriam violentas torturas e privações. Nove delas sumiram misteriosamente e nunca mais apareceram.

É possível que quem passasse por ali antes da demolição do presídio sentisse algum medo e um certo frio correr-lhe a espinha, porque desses lugares que não acolhiam boas energias.

Pois então veio a transformação, numa brilhante aula de urbanismo.

Em 4 de abril de 2007, cerca de 20 milhões de pesos depois – aproximadamente 10 milhões de reais à época -, (e se falamos em “cerca de” é porque na Argentina, como aqui, às vezes falta um milhãozinho aqui, outro ali…) enfim, 20 milhões de pesos depois era inaugurado o moderno complexo arquitetônico-urbanístico que hoje está lá.

A agradável área motivou os cordobeses a reocuparem o local, fosse para ir às compras, às freqüentes exposições e outras atividades culturais, fosse para tomar um sorvete ou apenas para sentar nos bancos e ver a noite cair ou o dia passar. A região valorizou-se, o que animou empresários a abrir por ali lojas, cafés, restaurantes e afins. Numa espécie de efeito dominó, quase todo o entorno do Paseo del Buen Pastor foi revitalizado pela iniciativa privada.

A umas 10 quadras dali, ainda no centro, também é possível encontrar, às 11 da noite de uma terça-feira qualquer, dois calçadões movimentados, com alguns poucos bares, artesãos-vendedores (que são cadastrados pela prefeitura para poderem estar ali), aspirantes a astrônomos que observam a Lua por meio de uma luneta, e pessoas que andam despreocupadas apesar do adiantado da hora porque as ruas são bem iluminadas, limpas e porque há policiais circulando por ali.

Em 28 de abril último li no Estadão que a Associação Imobiliária Brasileira (AIB) contratou o ex-prefeito de Curitiba e ex-governador do Paraná, Jaime Lerner, arquiteto renomado e consultor da ONU para assuntos de urbanismo, para que fizesse um projeto de revitalização da Nova Luz (Nova Luz se o amigo leitor preferir o eufemismo; Cracolândia se optar pela dura realidade).

De acordo com o repórter Bruno Paes Manso, estão entre as propostas de Lerner uma torre de 200 metros e 80 andares, um bulevar na Avenida Rio Branco com edifícios altos e 16 quadras com prédios de uso misto e altura máxima de 8 pavimentos.

Vejo a idéia com otimismo e ceticismo. No primeiro caso porque exemplos como o do Paseo del Buen Pastor nos mostram que toda uma região pode ser revitalizada a partir de um único complexo. No segundo, por vários motivos, a saber: porque creio ser um dos trunfos do bulevar cordobês a estrutura aconchegante e convidativa do complexo, que no seu ponto máximo deve ter uns 10, 12 metros; porque desde há muuuuito tempo ouço falar em “revitalização do centro de São Paulo” e “revitalização da ‘Nova Luz’” e nada vi de concreto acontecer; porque tenho dúvidas da capacidade da prefeitura manter a região limpa e segura; porque pairam dúvidas sobre a lisura das intenções da AIB desde o recente escândalo das doações irregulares a mais da metade dos vereadores de São Paulo.

Certa vez, não faz muito, conversando com Álvaro Aoás, simpático dono do Bar Brahma, perguntei quantas vezes ele ouvira falar em “revitalização do centro”, e se ele, por bem relacionado, nunca conversara sobre isso com quem de direito. Ao que ele me respondeu que vira e mexe eles aparecem lá no bar, dizem muitas coisas… mas nada acontece.

– O segredo – disse ele – é água, sabão e segurança. Nada mais. Se você fizer isso, os empresários vêm. E o resto das pessoas vêm também.

Água, sabão e segurança. E iluminação, acrescentei eu, ao que o Álvaro concordou.

Funciona. Principalmente se o poder público fizer a sua parte.

O Paseo del Buen Pastor é um excelente exemplo disso.

Fernando Gallo é jornalista da CBN e escreve no Blog Miradouro