Conte Sua História de SP: minha namorada de revista

 


Por Raul Ferreira Gomes
Ouvinte-internauta da CBN

 

Ouvi a narrativa da ouvinte-internauta Júnia Lopes contando a história dela ligada a uma revista, isto me animou a também contar minha história intrinsecamente ligada a uma revista dos anos 60: “Sétimo Céu”:

 

 

No fim de dezembro de 1960, eu, com 19 anos, trabalhava com meu pai no armazém de secos e molhados da família, quando meu amigo Antonio Carlos me mostrou essa revista que era muito apreciada pela mãe dele que adorava as fotonovelas e na qual havia a seção “Clube dos Correspondentes”, em que rapazes e moças procuravam amizades e namoros. Informava-se o tipo físico, gostos, e o desejo de se corresponder. A principio relutei em mandar uma correspondência, mas devido a insistência de meu amigo, acabamos os dois redigindo cartas para a revista com os nossos dados, embora acreditasse que nada seria publicado. Para minha surpresa, no início de janeiro de 1961 começaram a chegar cartas de garotas do Brasil inteiro em resposta ao meu anúncio. Corri à banca comprei a edição nº 57 da primeira quinzena de janeiro e efetivamente lá estava. Foram centenas de cartas suficientes para encher 5 caixas de sapato. Li quase todas, mas poucas delas foram respondidas por mim, pois achava aquilo tudo uma grande brincadeira. Por volta do dia 25, entre várias cartas recebidas, uma me chamou a atenção: era de uma menina de 16 anos que morava no bairro, descrevia seu tipo físico, seu endereço e finalizava com um p.s “Se quiser me conhecer, estou às ordens” 

 

Em 30 de janeiro, enviei-lhe uma carta da qual não obtive resposta. Quis o destino que passados 15 dias, numa manhã de domingo de sol, estava eu e meu amigo Antonio Carlos, dando uma volta pelo bairro com o carro do meu pai, um Pontiac 1963, quando passamos por uma rua que reconheci pelo nome como sendo a que a tal menina morava. Por não lembrar o número da casa, batemos palmas na primeira que encontramos, perguntando se conheciam a Jane. O morador nos disse que ela morava um pouco mais abaixo no nº 36 e como era próprio da juventude tomei a decisão de ir lá conhecer a “figura”. Fui atendido por uma loirinha linda, cabelos compridos, olhos azuis. Me identifiquei e num misto de surpresa e curiosidade, conversamos e resolvemos nos conhecer melhor, como um “pré-namoro”. Saímos juntos naquela mesma tarde e os encontros foram se sucedendo. Era a época de namoros inocentes, passeios pela Praça Sílvio Romero, matinês no Cine Leste, bailinhos em casa de família, tudo isto com a concordância de seus pais. Passeávamos juntos sem qualquer contato físico. Para segurar sua mão e andar de braços dados foram quatro meses. O primeiro beijo demorou mais seis longos meses. Encontros só aos sábados e domingos e até nove da noite no portão da casa dela e com uma tremenda luz acesa para facilitar a vigilância pelos pais. São Paulo, na época, contava, creio eu, com menos de quatro milhões de habitantes. Curtíamos os discos de Elvis Presley, as baladas românticas italianas e não perdíamos o programa “Jovem Guarda”  nas tardes de domingo.

 

O mais curioso dos detalhes desta aventura que se iniciou nas páginas da revista Sétimo Céu: descobrimos que já havíamos brincado juntos nos anos de 1948/1949, quando eu estava com 7 ou 8 anos. Nos fundos do nosso armazém, havia uma pequena vila de casas que pertencia ao meu avô. Em uma dessas casas morava o Senhor José com Dona Antônia, a esposa dele. Seu José era um gentil sapateiro muito querido por mim, adorava ficar ao lado dele enquanto consertava sapatos, ouvindo e me deliciando com suas histórias. Eles eram os tios da Jane, visitados por ela a cada 15 dias. Nós brincávamos naquele grande quintal sem que ninguém pudesse imaginar que dali sairia um casamento que se transformou em 46 anos de felicidade e do qual nasceram três belas meninas.

 

Raul Ferreira Gomes é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antônio. Você pode contar mais um capítulo da nossa cidade. Agende entrevista em áudio e vídeo no Museu da Pessoa pelo e-mail contesuahistoria@museudapessoa.net. Pode também mandar um texto para mim: milton@cbn.com.br

Por uma maçã: R$ 1,28

 

Por Rafael Castellar das Neves
Ouvinte-internauta do CBN SP

Ontem, ao sair do metrô, no caminho de volta do trabalho para casa, fui ao mercadinho de bairro para comprar pó de café – desses mercadinhos que lembram os antigos armazéns, as “vendas”, e que são rapidamente engolidos pelos grandes supermercados de rede. Justamente pela falta de opções, peguei um pacote de pó de café menor do que costumo comprar, já que era de um tipo que até me agrada, mas não era o meu preferido.

Apenas com o pacote de pó de café à mão, fui ao caixa pagar minha conta e ir logo para casa. A hora era avançada e já estava esfriando. Ao me aproximar, mapeei os demais clientes e me posicionei onde pensei ser o fim de uma das filas, bem ao lado de um cliente indeciso que estava plantado entre os dois caixas sem saber o fazer, apenas esperando que o dissessem. Seria minha vez, mas, enquanto aguardava o cliente que empacotava suas compras já pagas, a “moça do caixa” pediu que outro cliente, também indeciso, passasse à diante dos demais. A forma delicada e gentil que a “moça do caixa” fez o pedido denunciou que se tratava de um atendimento preferencial. Abri espaço e aguardei. Não tão logo, passou por mim uma senhora de idade muito avançada, andando com dificuldades e deixando um cheiro forte e nauseante, semelhante àqueles que se sente debaixo dos viadutos, mas em uma intensidade menor.

A senhora era baixa, não apenas por ser tão arqueada, mas por sua natureza. Suas roupas eram farrapos encardidos e fedidos, amarrados e enroscados uns aos outros. Suas pernas tinham as juntas rijas e estavam cobertas por grosseiras meias velhas, terminando em sapatinhos pretos e furados, daqueles típicos das vovozinhas. Na cabeça, usava um lenço que provavelmente um dia teve cores e formas definidas e que cobria longos cabelos aglomerados e completamente brancos pela natureza e amarelados pela situação. As unhas eram enormes e causavam um aspecto assustador. Aos braços e pescoço, sacolas e trapos estavam dependurados carregando tudo aquilo que, provavelmente, ela definiria como seu patrimônio. A imagem dela me lembrou muito daquelas senhoras russas que, depois da queda, passavam os dias em longas filas frias para ganhar um prato de sopa, e me lembrou também que já a tinha visto pelas redondezas, principalmente jantando, a altas horas da noite, na padaria na saída do metrô, onde costumo parar para um último lambisco após longas noites de diversão.

À “moça do caixa” a senhora entregou, com o braço atrofiado, um saquinho com uma única maçã vermelha, a qual foi pesada e precificada a R$ 1,28. O anúncio do valor deve ter retumbado nos ouvidos da senhora que se pôs a vasculhar freneticamente cada farrapo, cada vão, e a esvaziar cada sacola em busca dos R$ 1,28, enquanto praguejava – sem ofensas ou aspereza – contra a situação que se encontrava. Vendo que a situação se prolongaria, a “moça do caixa” fez um sinal com a cabeça e pediu que eu passasse à frente. Entreguei meu pacote de pó de café e ela me informou o valor. Paguei-o junto com a maçã e tentei me agilizar, mas foi inevitável presenciar o anúncio feito pausadamente pela “moça do caixa” à senhora: “O moço está pagando a maçã da senhora”. Peguei meu saquinho com o pacote de pó de café e tentei me virar e sair o mais rápido possível, mas a senhora já se dirigia a mim rogando em voz alta pela minha saúde e fortuna, agradecendo aos santos pela minha ajuda e coisas do tipo. Virei-me para ela a fim de receber e permitir seu agradecimento, mas não sei bem o que resmunguei engasgado e saí a caminho de casa.

É fato que esse não é um caso isolado nem único, mas fico aqui, hoje, com meu café do tipo que até me agrada, mas não é o meu preferido, pensando em tudo isso: passar por uma vida inteira, com tantas coisas, tantos acontecimentos, tantos infortúnios, tantas alegrias, tantos momentos – cujos adjetivos não vêm ao caso – e ter que sobreviver sozinha em um mundo em que apenas lutar não é suficiente, nem mesmo permitido, e ter que se esgueirar por tantos eventos, por tantas dificultadas, por tantas variáveis e improbabilidades para simplesmente conseguir um jantar sem nenhum sabor de dignidade, mas que, ao menos, permita que o dia seguinte aconteça: uma maçã a R$ 1,28.