Por uma maçã: R$ 1,28

 

Por Rafael Castellar das Neves
Ouvinte-internauta do CBN SP

Ontem, ao sair do metrô, no caminho de volta do trabalho para casa, fui ao mercadinho de bairro para comprar pó de café – desses mercadinhos que lembram os antigos armazéns, as “vendas”, e que são rapidamente engolidos pelos grandes supermercados de rede. Justamente pela falta de opções, peguei um pacote de pó de café menor do que costumo comprar, já que era de um tipo que até me agrada, mas não era o meu preferido.

Apenas com o pacote de pó de café à mão, fui ao caixa pagar minha conta e ir logo para casa. A hora era avançada e já estava esfriando. Ao me aproximar, mapeei os demais clientes e me posicionei onde pensei ser o fim de uma das filas, bem ao lado de um cliente indeciso que estava plantado entre os dois caixas sem saber o fazer, apenas esperando que o dissessem. Seria minha vez, mas, enquanto aguardava o cliente que empacotava suas compras já pagas, a “moça do caixa” pediu que outro cliente, também indeciso, passasse à diante dos demais. A forma delicada e gentil que a “moça do caixa” fez o pedido denunciou que se tratava de um atendimento preferencial. Abri espaço e aguardei. Não tão logo, passou por mim uma senhora de idade muito avançada, andando com dificuldades e deixando um cheiro forte e nauseante, semelhante àqueles que se sente debaixo dos viadutos, mas em uma intensidade menor.

A senhora era baixa, não apenas por ser tão arqueada, mas por sua natureza. Suas roupas eram farrapos encardidos e fedidos, amarrados e enroscados uns aos outros. Suas pernas tinham as juntas rijas e estavam cobertas por grosseiras meias velhas, terminando em sapatinhos pretos e furados, daqueles típicos das vovozinhas. Na cabeça, usava um lenço que provavelmente um dia teve cores e formas definidas e que cobria longos cabelos aglomerados e completamente brancos pela natureza e amarelados pela situação. As unhas eram enormes e causavam um aspecto assustador. Aos braços e pescoço, sacolas e trapos estavam dependurados carregando tudo aquilo que, provavelmente, ela definiria como seu patrimônio. A imagem dela me lembrou muito daquelas senhoras russas que, depois da queda, passavam os dias em longas filas frias para ganhar um prato de sopa, e me lembrou também que já a tinha visto pelas redondezas, principalmente jantando, a altas horas da noite, na padaria na saída do metrô, onde costumo parar para um último lambisco após longas noites de diversão.

À “moça do caixa” a senhora entregou, com o braço atrofiado, um saquinho com uma única maçã vermelha, a qual foi pesada e precificada a R$ 1,28. O anúncio do valor deve ter retumbado nos ouvidos da senhora que se pôs a vasculhar freneticamente cada farrapo, cada vão, e a esvaziar cada sacola em busca dos R$ 1,28, enquanto praguejava – sem ofensas ou aspereza – contra a situação que se encontrava. Vendo que a situação se prolongaria, a “moça do caixa” fez um sinal com a cabeça e pediu que eu passasse à frente. Entreguei meu pacote de pó de café e ela me informou o valor. Paguei-o junto com a maçã e tentei me agilizar, mas foi inevitável presenciar o anúncio feito pausadamente pela “moça do caixa” à senhora: “O moço está pagando a maçã da senhora”. Peguei meu saquinho com o pacote de pó de café e tentei me virar e sair o mais rápido possível, mas a senhora já se dirigia a mim rogando em voz alta pela minha saúde e fortuna, agradecendo aos santos pela minha ajuda e coisas do tipo. Virei-me para ela a fim de receber e permitir seu agradecimento, mas não sei bem o que resmunguei engasgado e saí a caminho de casa.

É fato que esse não é um caso isolado nem único, mas fico aqui, hoje, com meu café do tipo que até me agrada, mas não é o meu preferido, pensando em tudo isso: passar por uma vida inteira, com tantas coisas, tantos acontecimentos, tantos infortúnios, tantas alegrias, tantos momentos – cujos adjetivos não vêm ao caso – e ter que sobreviver sozinha em um mundo em que apenas lutar não é suficiente, nem mesmo permitido, e ter que se esgueirar por tantos eventos, por tantas dificultadas, por tantas variáveis e improbabilidades para simplesmente conseguir um jantar sem nenhum sabor de dignidade, mas que, ao menos, permita que o dia seguinte aconteça: uma maçã a R$ 1,28.

18 comentários sobre “Por uma maçã: R$ 1,28

  1. Rafael,

    hoje acordei mais tarde e senti aquela sensação de aperto no coração, na garganta e no plexus solar; sabe como é? Cansaço inexplicável depois de uma noite de sono. Acordar sem disposição para continuar.

    No espelho vi um rosto escurecido por olheiras fundas.

    Antes do café resolvi abrir meu computador e encontrei teu texto.

    Um retrato da vida despretensioso, claro, parente chegado da poesia, sem retoques de fotoshop.

    Retrato de uma paisagem para o qual a gente só olha quando não tem outra opção. Mas assim é a escala da vida. A dor de viver é igual em todos nós.

    Parabéns pela fotografia do momento e por tua sensibilidade. Parabéns ao Milton Jung por postar o teu texto.

    Abraço,
    ml

  2. Um belo texto, elaborado com muita sensibilidade, por sinal nos dias de hoje, ítem que falta para a maioria das pessoas.
    Textos a exemplo deste só nos fazem encher os nossos olhos e nossas vida de esperança de dias melhores.
    Parabéns Rafael e seja muito bbem vindo
    Armando Italo

  3. É muito gratificante ler textos como este também. Todos os dias vivendo aquilo que a vida nos coloca a frente de forma repedida, torna-se a nossa rotina. Acostumamos com algumas coisas , mesmo que estejam erradas e inaceitáveis, mas pela rotina que se apresentam, as aceitamos em nossas vidas. Esquecemos que , diante de certas dificuldades consideradas insignificantes para nós, muitas vezes trata-se de um enorme obstáculo na vida de outros . Para alguns, R$ 1,28 é algo que se perde em meio a gavetas, bolsos, etc… para outros é o que falta para a oportunidade de se alimentar e sobreviver até um próximo momento. Eu vejo e convivo com muitas pessoas cegas e que não dão mais importância a fatos como este. São pessoas que ao decorrer do tempo tornam-se cada vez mais secas, ásperas, arrogantes e sempre pensando de forma individual. Mas também conheço pessoas que sentem e veem o que acontece em sua volta, e que, conseguem contribuir de alguma forma para o bem estar do próximo que está em um momento muito difícil como este. R$ 1,28 é o preço deste nobre gesto , e o que torna este valor em uma nobre quantia. Obrigado Rafael. Alan

  4. Hello Rafael..
    Because of winning a vacation, I’m so far, but I read another of yours great texts! Body, you’re getting betther and betther.
    “Por uma maçã: R$ 1,28” has shown that hard reality for us and read your context definitively it isn’t a pet peeve! One day I hope somebody takes that bull by the horns.
    Congratulations my friend. Going thinking out of the box and willing to bend over backwards…

  5. Estou sempre presente no Blog do Rafael. Os textos são lindos, fruto de uma imaginação verdadeira, de um ser humano que relata fatos que a grande maioria procura esconder, evitar , ignorar e até mesmo fugir.
    Parabéns ao Rafa, prosperidade querido!

    Cris.

  6. Rafael … mais uma vez vc consegue tocar aos leitores com um assunto do cotidiano da vida de muitos brasileiros … meus parabéns !!
    um abraço Ivan Martinez

  7. Olá a todos!!

    Gostaria de agradecer o carinho e apoio de todos que passaram por aqui. É muito gratificante ter os amigos me acompanhando por aqui e tendo a grande oportunidade de ter novos leitores conhecendo meu trabalho e me contando das reações e sensações que lhes foram rendidas.

    Este está sendo um grande momento para mim e agradeço a todos vocês e por isso e especialmente ao Mílton por me permitir esta grande oportunidade de divulgação do meu trabalho.

    Obrigado e um grande abraço a todos!

    Rafael

  8. Rafael,
    O seu olhar especial transformou o cotidiano destruidor em uma profunda reflexão de valores. Obrigada pela oportunidade. E…. continue sua viagem….
    Xêro,
    Jane Motta

  9. Olá Rafael. Como já fomos colegas de trabalho e ombro a ombro já atuamos no mesmo local, lembro-me desta senhora a qual vc se refere. Ela está sempre nas andanças pelo bairro e já cruzou meu canhinho. Dei-lhe um frasco de “água com gosto” bem conhecida e um salgado. Coisas do meu lanche da tarde, mas pela situação até me comove. Como vc diz: Somente lutar não é suficiente. Gostaria de indagar aos futuros postulantes a um cargo público: Se não fosse a boa vontade de pessoas que querem ajudar, o quê seria destas pobres senhoras? Fica a pergunta. Forte abraço.

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