Arquivo Guaíba faz homenagem a Milton Ferretti Jung, que completaria 85 anos

De uma crônica que jamais havia ouvido, de gritos de gols inesquecíveis, de narrações que contam a história da humanidade e de histórias que foram contadas na minha intimidade —- o programa Arquivo Guaíba, que foi ao no sábado, dia 31 de outubro, me fez reviver as mais diversas passagens do pai pelo rádio brasileiro —- foram 60 anos dedicados e respeitando o microfone, dos quais quatro na rádio Canoas e os demais 56 na Guaíba.

A homenagem se deu pela passagem do aniversário de Milton Ferretti Jung que completaria 85 anos, no dia 29 de outubro. Como você sabe, caro e raro leitor deste blog, o pai morreu no ano passado, no dia 28 de julho. Assim, aproveito a generosidade de Luis Magno e da equipe de profissionais da rádio Guaíba que relembraram alguns dos momentos da carreira dele para reproduzir o programa aqui entre nós,, nesta segunda-feira, dia 2 de novembro, dia que dedicamos aos mortos que permanecem na nossa memória.

Antes de clicar no arquivo para ouvir o programa, me permita dizer muito obrigado aos profissionais que se dedicaram a fazer esta homenagem e aos ouvintes que sempre se referem ao pai com muito respeito e carinho:

O programa apresentado pelo jornalista Luis Magno foi criado em maio deste ano e explora o rico arquivo de áudio que a rádio Guaíba ainda preserva no prédio da rua Caldas Junior, centro de Porto Alegre. Vai ao ar aos sábados à noite, tem produção de Pedro Alt, edição de Davis Rodrigues, com José Moacir Bittencourt responsável pelos arquivos.

De móveis

Por Maria Lucia Solla

Móveis, mesa e refeição

Ouça este texto na voz e sonorizado pela autora

Noutro dia, falando com um amigo, sobre um evento de 1982, me dei conta de que os móveis falam. Não falam como fala o carrinho no filme Se o Meu Fusca Falasse; móveis, assim como os ambientes onde moram, gravam acontecimentos, registram tudo: imagem, som, emoção, colorido, o tempo todo e depois repetem tudo, inaudível mas claramente, se você se dispuser a ouvir. Vou mais longe: além de falar são discretos a toda prova, só se abrem para aqueles que viveram os momentos em que registrou os fatos. São aliados; não espiões.

Minha mesa de jantar morreu não faz muito tempo. Essa sim, manteve um arquivo expressivo e impressionante; tão impressionante que basta que eu me conecte com ela em pensamento, que ela desfia o seu rosário de histórias. Quando veio morar comigo já era bem antiga. Foi amada por todos, os de casa e os de fora. Vestida das mais lindas flores, portava dignamente vinhos e queijos, e farelos de pão. Em volta dela, em mais de um endereço, comia-se bem e principalmente comia-se junto na maioria das vezes. Era grande, e ainda assim se desdobrava para acolher com conforto família e amigos. Acolhia grupos dos bons, e chegou a acolher inimigos declarados, com a sabedoria diplomática de sempre. E se mantinha firme, oferecendo tudo e exigindo muito pouco. Teve discussão, em volta daquela mesa, que acabava neutralizada por amor, por amizade, e cumplicidade regada de muita risada.

A morte da mesa da sala me pegou de surpresa, mas na verdade foi morrendo pouco a pouco, e eu não queria ver. Uma mudança aqui, um armazenamento acolá, um marceneiro intervinha com um parafuso maior do que a encomenda, o outro, preguiçoso, incompetente, cravava nela um prego assassino. E eu, envolvida com idas e vindas, a lida e a vida, dava por certa a sua imortalidade. Amarga ilusão. Ela arriou aos meus pés. Esperou um momento em que estava vazia, a fiel companheira, e não quebrou um prato, não desperdiçou uma folha de alface. Fez ginástica para não me machucar fisicamente, e caiu tão elegantemente quanto se manteve em pé.

Maria Lucia Solla é terapeuta, professora de língua estrangeira e realiza curso de comunicação e expressão. Aos domingos escreve no Blog do Mílton Jung. Este artigo foi escrito durante as férias do Blog, por isso está sendo publicado apenas hoje.