Conte Sua História de São Paulo: fé e crença de que as coisas podem mudar

Foto de arquivo: Arsenal da Esperança

Neste último sábado de Julho, o Conte Sua História de São Paulo completa a série de textos selecionados, de um total de 66 escritos por pessoas acolhidas durante a pandemia no Arsenal da Esperança, onde funcionava a Hospedaria dos Imigrantes, na Mooca. Nossa ideia foi chamar atenção para a existência de pessoas que vivem em situação de rua e precisam da nossa ajuda. Leia o texto esrito por Anderson Francisco:

Nunca diga nunca. Essa é uma frase que eu escutava muito quando eu era pequeno. Você nunca pode desacreditar das coisas. Porquê? Você nunca sabe se isso pode realmente acontecer com você.

Às vezes, me pergunto o que Deus tem planejado para minha vida, e qual será o propósito disso tudo. Nós seres humanos, chegamos a um ponto que não temos mente alguma para compreender tamanho poder.

Antes de eu ouvir falar sobre a pandemia ou me falarem sobre o Arsenal da Esperança, passei por muitas turbulências conturbadas durante minha vida. Um pai alcoólatra e uma mãe doméstica por destino. Pequenos filhos, com um péssimo ensino e uma baixa renda que, de tão baixa, uma anã é gigantesca perto dela.

Apesar disso tudo, tive uma boa educação dada por eles, me amaram e me deram boas surras … que nós aprontávamos! E também nunca deixaram faltar nada dentro de casa. Meu pai era pedreiro, saiu do nordeste de Pernambuco, bem novo, com quatorze anos de idade.

Veio a São Paulo a procura de serviço, começou bem cedo na roça, ajudando os pais com as tarefas da roça, junto com o resto dos irmãos. Veio embora ao rumo de São Paulo se queixando de surras constantes que levava de outros irmãos mais velhos. Minha mãe saiu de Goiás, era bem mais velha que meu pai. Tinha dezessete anos de idade e saiu de casa pelos mesmos motivos que meu pai, surras diárias que não aguentava.

Se encontraram em São Paulo, se conheceram e tiveram três filhos, uma menina e dois meninos.

O tempo passou, nós crescemos, alguns se foram e outros ficaram e a vida continuou.

Eu me envolvi com drogas, morei nas ruas, filho pequeno. Aí entra o Arsenal da Esperança. Estou acolhido aqui fez quatro meses, no dia 18 de junho de 2021.

Arrumei uma namorada branca, ah, vocês não sabiam… eu sou negro! Mãe branca e pai negro.

Aí chega a pandemia, devastando tudo o que tem, matando milhares de vidas no mundo. Mas o que a pandemia trouxe de bom foi mais empatia com as pessoas. Saber dar valor às coisas simples da vida. A união das pessoas um com os outros, mais fé e acreditar que as coisas podem mudar mesmo.

Sei que minhas escolhas me impediram fazer certas coisas boas e (escolhas certas) que me encaminhei para um caminho bem melhor. 

E digo mais, peço desculpas pelos meus erros de ortografia, por quê? Eu não tenho me dedicado aos estudos, mas tudo que eu estou vivendo e os desafios de uma pandemia, é isso. É se esforçar ao máximo, é acreditar que você realmente pode alcançar os seus objetivos.

E sempre Deus em primeiro lugar em tudo. Abençoando os caminhos árduos que teremos de trilhar. Nunca fui bom com histórias, mais tentei fazer o melhor do possível para vocês tentarem me entender e me escutarem. Usem máscara, se cuidem assim. Mas por quê? Com a saúde não se brinca.

E com simples palavras descrevi tudo aquilo que eu senti. Por quê? Essa é mais uma história que ninguém conta.

Anderson Francisco do Arsenal da Esperança, é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva você também o seu texto e envie agora para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite agora o meu blog miltonjung.com.br ou o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Conte Sua História de São Paulo: a esperança chegou na primeira semana do Arsenal

No Conte Sua História de São Paulo, você acompanha a série de textos escritos por pessoas em situação de rua acolhidas no Arsenal da Esperança, antiga Hospedaria dos Imigrantes, durante a pandemia. O texto de hoje é de Wilson Luis

Foto: Mílton Jung

Olho para os acontecimentos sem dar importância, como todos, pensando somente “mais um vírus que não vai me afetar”. Muito menos o Brasil. Esse passará longe.

Quando os noticiários ficaram mais longos e mostrando a chegada do vírus no Brasil e como já estava a Itália e a China, me preocupei, mas sem ter a dimensão do que o vírus causaria.

Quando uma orientadora do abrigo onde eu estava convocou uma assembleia dizendo que não poderíamos mais sair de lá, somente nos dias estipulado pela direção, somente para comprar, como cigarro, e médico, pois o Brasil estava fechado por 14 dias, me senti numa zona de guerra.

No abrigo, passei a conviver 24 horas com todos. Os noticiários não pararam de falar do aumento de mortos. Lembro de sair para comprar cigarro e ver a cidade deserta, somente ambulância e carro funerário na rua. Logo fiquei preocupado com minha família. Falava com eles constantemente.

O convívio no abrigo não era fácil nem pros funcionários, nem pra nós, conviventes, pois a rotina estava mudada, todos ali tinham que almoçar no abrigo, não era mais obrigado a sair e nem podia sair para resolver problemas pessoais: parei meus projetos.

Passei a criar uma rotina, passei a ler mais, conhecer mais pessoas no abrigo e me apeguei mais na fé e em Deus.

Logo, quando cheguei no Arsenal da Esperança, a esperança chegou na primeira semana, pois tomaria a vacina.

Apesar da vacina andar a passos curtos, posso notar a diferença, o comércio abrindo, as pessoas voltando ao trabalho, pessoas sorrindo novamente, revendo seus parentes, meus projetos voltando.

Não foi fácil, ainda tem um longo caminho a ser perseguido para a volta da normalidade, mas a vacina nos trouxe esperança e ver nossos filhos abraçando a mãe após um ano, nos traz a esperança.

Temos que tirar lição de tudo que a pandemia nos causou como …

Aprendizado. E o maior aprendizado para mim se chamou saudade.

Wilson Luís do Arsenal da Esperança, é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva você também o seu texto e envie agora para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite agora o meu blog miltonjung.com.br ou o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Conte Sua História de São Paulo: meu Brás, oh, meu Brás!

No Conte Sua História de São Paulo, você acompanha a série de textos escritos por pessoas em situação de rua acolhidas no Arsenal da Esperança, antiga Hospedaria dos Imigrantes. O autor de hoje se identificou apenas como Fábio e escreve um poema sobre um dos mais tradicionais bairros da cidade:

Reprodução de foto do livro “Os desafios de uma pandemia”, do Arsenal da Esperança

Quando voltei, foi difícil acreditar.

Me bateu desespero.

Deu até vontade de chorar.

Confesso, chorei… não deu para suportar.

O que antes era um grande curral social

Hoje, chora em prantos

Ruas desertas, portas fechadas

Mais parecia faroeste, cidade fantasma

Meu Brás, oh, meu Brás!

Nas ruas onde me criei; aprendi a arte do comércio.

A comercializar, comercializo.

Devido às circunstâncias, por algum momento

Até mesmo manguear, mangueei

Meu Brás, oh, meu Brás!

Não vejo a hora disso tudo acabar.

Os que nesse genocídio

Junto com Deus, esteja a vos olhar.

E quando acabar…

Sacolas cheias novamente

Compra, vende, movimentação de gente

Das gentes, povos e etnias

Temos um arsenal de costura

Bolivianos, quem diria!

Pretos, Brancos, Pardos e Índios.

Somos o maior polo comercial.

Da América Latina.

Meu Brás, oh, meu Brás!

Coração de São Paulo.

Hoje bate por aparelhos.

A esperança renasce, no vagão do trem.

No soar da voz, de mais um marreteiro

Meu Brás, oh, meu Brás!

A metrópole comercial da América Latina.

A cidade do comércio, que antes não dormia.

Hoje descanse em paz, feitos da pandemia. 

Fábio, do Arsenal da Esperança, é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva você também o seu texto e envie agora para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite agora o meu blog miltonjung.com.br ou o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Conte Sua História de São Paulo: a pandemia tirou o caminhão, o emprego e a família

Reprodução de foto do livro “Os desafios de uma pandemia”, do Arsenal da Esperança

No Conte Sua História de São Paulo, você acompanha a série de textos escritos por pessoas acolhidas no Arsenal da Esperança, antiga Hospedaria dos Imigrantes. O autor de hoje é Marcelo José

Em primeiro lugar queria falar sobre o antes e o depois da pandemia. Como era minha vida! Eu possuía um ótimo emprego como motorista de caminhão que entregava cerveja artesanal numa das regiões mais chiques do Rio de Janeiro, pois esta cerveja era muito cara, nem todo mundo podia consumir a não ser os grandes magnatas.

O caminhão que eu trabalhava era zerado, muito bonito; claro, porque fazia parte do padrão da empresa. Para você ter ideia, os uniformes eram lavados na própria empresa. Tinha teste de bafômetro todo dia pela manhã para motorista e ajudante. Todos tinham que estar com cabelos e barba feitos.

Todas as sextas-feiras tinha um jogo de futebol que a própria empresa patrocinava, com direito a carne de qualidade e, claro, muita cerveja. Os funcionários que quisessem podiam levar mulheres e filhos. Como era bom este ambiente familiar. Tínhamos, também, todos os benefícios de uma grande empresa.

Mas um dia pela manhã, fomos pego de surpresa por uma grande catástrofe que assolava a todo mundo – a grande pandemia. Na primeira semana pensei que era uma coisa passageira, mas infelizmente a coisa era muitíssimo séria.

Havia rumores na empresa que haveria cortes. Eu me lembro bem que todos estavam muito tensos, mas eu, muito otimista, pensei que logo, logo, esta tempestade iria passar.

Mas, infelizmente, depois de três anos de empresa, um dos sócios chamou a todos pela manhã e começou a conversar no pátio com todos. Eu me lembro muito bem suas primeiras palavras, que dizia que do faxineiro ao presidente geral, todos eram importantíssimos para a empresa e para que ele não fosse injusto com ninguém as demissões seriam feitas por sorteio, claro cada um na sua função. E infelizmente eu fui um dos sorteados. A empresa honrou com todos os compromissos comigo, sem faltar nada.

Cheguei na minha casa e falei para minha esposa que eu tinha sido uns dos sorteados. Nós choramos muito por que tínhamos que nos adequar à realidade. Reduzir gastos em todas as áreas das nossas vidas, como ir à pizzaria, churrascaria, ao shopping, compras do mês. Chegamos a ficar sem luz por duas semanas, tínhamos que ficar enclausurados na nossa própria casa. O nível de estresse era tão grande que começamos a discutir por coisas banais e, infelizmente, um casamento de 20 anos foi por água abaixo. Isto foi, infelizmente, o que a pandemia me causou.

Que Deus Abençoe a todos nós. 

Que dias melhores virão. 

Amém. 

Marcelo José, do Arsenal da Esperança, é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva você também o seu texto e envie agora para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite agora o meu blog miltonjung.com.br ou o podcast do Conte Sua História de São Paulo.