A pressa ainda é inimiga da perfeição?

 


Por Carlos Magno Gibrail

 

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Poucos se importaram com a pressa com que as árvores foram cortadas ….

 

Aparentemente, a pressa nas cerimonias oficiais de posse do governador eleito de São Paulo não afetou as solenidades. Tanto na Assembleia Legislativa, no Ibirapuera, como no Palácio dos Bandeirantes, no Morumbi. Entretanto, se no aspecto operacional e protocolar não houve falhas, há uma tônica de velocidade e mudanças a ser considerada, como característica da personalidade de João Doria.

 

Na campanha à Prefeitura, garantiu que cumpriria o mandato e a sua administração não imprimiria o estilo do político, mas, de gestor. Em 15 meses, descumpriu o prazo e o estilo. Adotou a dinâmica convencional do político e se candidatou ao governo do Estado de São Paulo.

 

Ao ganhar a eleição, teve o aval dos eleitores, que tecnicamente aprovaram a transformação. Daí a decisão de dar prioridade a ida à posse do novo presidente, estar de acordo com o perfil estabelecido e aprovado — e nada mais a declarar: é um político e vitorioso.

 

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… até o fogo aparecer e os Bombeiros, apressados, surgirem para acabar com o incêndio.

 

A não ser um pequeno episódio na quadra da “Revolta dos Eucaliptos”, distante 200m do Palácio. Na antevéspera da posse, o corte de árvores avançou até a noite e também na calçada, onde deixaram troncos e galhos — ao mesmo tempo em que repórteres mostravam os preparativos, sem nenhum deles ter percebido o trecho com o impedimento da calçada. As reportagens envolviam apenas o Palácio, sem o entorno. Talvez por pressa.

 

Na véspera, começou um incêndio no mato deixado impunemente pela empresa executora do corte de árvores e o Corpo de Bombeiros teve que intervir. No local, os bombeiros me informaram que o chamado de socorro foi feito pelos moradores.

 

O pessoal do Palácio ignora o entorno. Talvez por pressa em executar as tarefas internas.

 

Carlos Magno Gibrail, Consultor e autor do livro “Arquitetura do Varejo”, é mestre em Administração, Organização e Recursos Humanos. Escreve no Blog do Mílton Jung

Um minuto de silêncio e o barulho autofágico

 

Por Carlos Magno Gibrail

 

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O silêncio, assim como um som de qualidade, é uma situação altamente apreciável e prazeirosa. É, sem dúvida, o cenário recomendável para uma vida confortável e saudável — e propício até para o seu prolongamento. Seu oposto, ou seja, o barulho, pode tornar a existência conturbada. Além do que, a concentração, elemento fundamental na realização de importantes tarefas mentais e físicas, necessita essencialmente do silêncio.

 

O artigo “Um minuto de silêncio” de Mílton Jung, aborda de forma descontraída, a difícil busca pelo silêncio e a sua luta para encontrar um momento real sem interferência de som. Por coincidência, eis que, ao ler a mensagem de Mílton, estou encurralado com o pior som nesta São Paulo, deste Brasil, outrora chamado de Terra do Pau Brasil: o som de serra elétrica cortando árvores.

 

Há três dias, com intervalo no Natal, na mesma área geográfica da “Revolta dos Eucaliptos”, eis que em dois lotes — 121/122, quadras 168 CEP 047703-004 — na Av. Morumbi, serras elétricas agem com o objetivo de derrubar todas as árvores do terreno. Defronte da ex-mansão de Baby Pignatari, onde ficou com a Princesa Ira de Fürstenberg, e a uma quadra do Palácio dos Bandeirantes.

 

Por infelicidade, dois ícones que correm riscos. O terreno da ex-mansão, feericamente arborizado está a venda. O Palácio dos Bandeirantes, inserido em belo espaço verde, de tempos em tempos enfrenta governadores que não querem viver ali ou que desejam mudar a sede do governo.

 

Voltando ao som das motos serras, já foram derrubadas aproximadamente 50 árvores cujo terreno ostenta placa autorizando ação da empresa “Everaldo Andrade Freire Poda de Árvores ME” pelo TAC 247/2018.

 

Insuflado pelo agressivo som do corte de árvores, não é difícil pensar imediatamente no conflito entre o meio ambiente e a ocupação adensada do solo. Enquanto o mais equilibrado seria o racional, respeitando os limites de cada posição, o incongruente protagoniza o conflito. Nesse caso, por exemplo, o interesse daqueles que virão a ocupar este terreno certamente foi despertado pelo verde que o bairro do Morumbi ainda oferece. E a primeira coisa que faz ao chegar é derrubar todas as árvores.

 

É um sistema autofágico. Assim como todas a ações que levam às motos serras. A ponto de, no futuro, atraírem sons muito piores que aqueles que emitem. Pois, se continuarem neste ritmo e nesta expansão por todo o país, teremos em breve no Brasil os sons de tornados e maremotos, atraídos pelas acentuações climáticas.

 

Carlos Magno Gibrail, Consultor e autor do livro “Arquitetura do Varejo”, é mestre em Administração, Organização e Recursos Humanos. Escreve no Blog do Mílton Jung

A “Revolta dos Eucaliptos” gera caos e indagações urbanas, no Morumbi

 

Por Carlos Magno Gibrail

 

 

Um eucalipto de 38 metros e 50 anos, ao ser desbastado a pedido dos moradores do condomínio horizontal que o abrigava, causou transtorno, quando parte do seu tronco ao ser removido tombou o guindaste e a carreta que o transportaria — além de atingir a rede de alta tensão.

 

Caos suficiente para atrair as TVs, as rádios e os helicópteros. Afinal, o porte da árvore, as dúvidas quanto a derrubada e o erro operacional contribuíram para a espetacularização ocorrida. Inclusive a proximidade ao Palácio dos Bandeirantes.

 

Visitando o local durante a operação, iniciada na quarta-feira, ouvimos dos moradores que lideraram o pedido à Regional do Butantã os motivos:

 

“Estávamos correndo risco com os galhos que poderiam cair nas crianças”

“Um galho destruiu meu telhado”

“Frequentemente tenho despesa com a limpeza do telhado cheio de folhas”

“A árvore é um para raio intenso, atraindo enorme quantidade de raios”

“Os raios que atraem se espalham pelas árvores vizinhas menores causando a morte delas”

“Não dá para regar as árvores vizinhas, tal a quantidade de água que absorve”

“Este porte de árvore não é condizente com o urbano”

 

É importante ressaltar o clima beligerante que observamos dos moradores em contenda com o Eucalipto. Talvez o momento agressivo que vivemos deva ser considerado, mais do que as recentes chuvas.

 

O histórico do local em termos de preservação já vinha demonstrando uma certa animosidade.

 

É o 14º lote da Rua Comissário Gastão Moutinho, originalmente ocupado por uma residência que foi vendida e demolida para o lançamento de 12 casas. Como a urbanização original não permitia tal adensamento, houve embargo por ação da entidade representativa dos moradores do Morumbi — bairro onde “habita” o Eucalipto. Houve um processo rápido em função do apoio da mídia, principalmente da TV Globo e do Estadão. Foram então construídas apenas seis casas, no formato de condomínio, cujos moradores, tempo depois solicitaram a derrubada do Eucalipto, alegando infestação de cupim.

 

A regional do Butantã enviou equipe para o corte. Com o apoio da rádio CBN, uma ação da entidade dos moradores do Morumbi conseguiu a retratação do engenheiro agrônomo que tinha assinado a autorização do corte da árvore. E a equipe foi dispensada. E os cupins não apareceram.

 

Surge agora, década e meia depois, essa autorização para a derrubada, expedida pela Regional e gerada pela solicitação dos condôminos, possibilitando uma série de interpretações e reflexões — dependentes da orientação social, cultural e comportamental de cada cidadão.

 

De nossa parte é clara a responsabilidade de quem procura uma região com as características do Morumbiem mantê-las. Não é lógico usufruir dos benefícios das árvores sem dar a elas a contra partida.

 

E para quem acredita que as árvores também têm alma, é bom saber que, com a reação do Eucalipto, os moradores foram castigados por 24 horas com barulho, lama e falta de energia.

 

Carlos Magno Gibrail é mestre em Administração, Organização e Recursos Humanos. Escreve no Blog do Mílton Jung

Conte Sua História de São Paulo – 464 anos: a praça com o nome do meu pai

 

Por Natanael Boldo

 

 

Sou o filho mais novo de uma família de sete irmãos: seis homens e uma mulher. Meu pai, Sr. João Boldo, veio de Itapira, no interior de São Paulo. Filho de imigrantes italianos, instalou-se na Freguesia do Ó, acolhido pelo cunhado dele, irmão da minha mãe, o Tio Paulino. Foi na Freguesia que trabalhou como almoxarife por 35 anos até se aposentar. Foi seu único emprego aqui em São Paulo.

 

Passados alguns anos da sua chegada, comprou terreno no Jardim Cidade Pirituba, na rua Silvino de Godoy, onde construiu a casa que moro até hoje com minha mãe, Dona Teresinha, que está com 89 anos. Meu pai foi um dos primeiros moradores do lugar, chegou ao bairro em 1966. Eu tinha apenas um mês de vida. Era uma casa humilde, com dois quartos, cozinha, sala e banheiro. No quintal, tínhamos galinheiro e várias arvores frutíferas. Da porta de casa, tínhamos uma vista privilegiada do Pico do Jaraguá, lugar onde passeávamos com frequência. Juntava toda a molecada da rua. As mães faziam lanches de mortadela e suco. E por lá passávamos o dia.

 

Criou os filhos com muita dificuldade. Éramos muito humildes. E sempre nos cobrou que fossemos pessoas honradas, honestas … e exigiu que estudássemos. Ao lado da minha mãe, que também é uma mulher guerreira, que nunca frequentou os bancos da escola, puderam nos orientar pelo melhor caminho que a vida tinha a oferecer. Como recompensa, viram seus filhos se formarem.

 

Meu pai também era um músico dos bons, tocava bandolim como ninguém. Aos sábados bem cedo, íamos a Praça da República passear pela feira de artesanato e depois passávamos na loja de instrumentos Del Vecchio, na Rua Aurora. Ali se encontrava com Evandro do Bandolim e seu regional. Não tinha hora pra sair, pois a música rolava solta.

 

Eu ainda era muito criança, mas lembro que aos domingos depois da missa meu pai reunia a família antes do almoço para tocar. Era maravilhoso, música de qualidade e família reunida. Era um autodidata, estudou bem pouco, mas sabia de coisas que doutores não tinham conhecimento. Era um homem que lia muito e estava sempre à frente do seu tempo.

 

Perto de casa havia um brejo onde começou a plantar árvores. Hoje, este mesmo local foi transformado em um parque municipal, o Rodrigo de Gaspari. Fez o mesmo na rua onde moro, a Silvino de Godoy. No terreno que chegou a ter um campo de futebol, passou a plantar todo tipo de árvore: ipês, paineiras, jambo. De tão verde que ficou, transformou-se em praça: a Praça João Boldo, em Pirituba, bairro considerado o segundo mais arborizado de São Paulo.

 

Natanael Boldo é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Vamos comemorar os 464 anos da nossa cidade juntos: escreva o seu texto para milton@cbn.com.br.

Cuide bem do seu jardim: escolhas erradas podem piorar a seca

 

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A falta de água voltou ao Jornal, nesta segunda-feira, a partir das medidas duras adotadas pelo Governo da Califórnia, estado americano que está enfrentando período ainda mais rigoroso de escassez. A seca não é uma novidade para os moradores desta região dos Estados Unidos e as ações de combate a crise hídrica fazem parte do cotidiano deles. A discussão, que se estendeu para o quadro Liberdade de Expressão, levou a arquiteta paisagista Amanda Sales, ouvinte da CBN, escrever e-mail para nos alertar sobre o risco de se querer importar a estratégia californiana para o Brasil. Um dos investimentos por lá é a substituição da vegetação por plantas mais resistentes a falta d’’água. Sales lembra que, na Califórnia, a vegetação desértica é nativa e o uso desta vegetação é de fato muito adequada, mas, aqui, a abolição de jardins ou o plantio disseminado de vegetação desértica somente contribuirá para agravar a redução de chuvas.

 

Na mensagem, Sales recomenda a leitura do blog Árvores de São Paulo, escrito por Ricardo Cardim, no qual escreve:

Nesse tempo de escassez de água, cada vez mais são publicadas matérias em diferentes mídias de como criar jardins que “gastam pouca água” e são portanto, mais sustentáveis no quesito. Listas das “5 espécies de plantas que não gastam água” estão em todos os lugares da internet trazendo uma sucessão de cactos e plantas suculentas, principalmente o sedum (Sedum sp.).
Aparentemente essa tendência não representa problema algum, mas na verdade não é bem assim. Primeiramente, “muitas das plantas de deserto vendidas (para não falar todas) são de origem estrangeira, exóticas, e algumas invasoras agressivas dos remanescentes de vegetação nativa, como a agave, que podem provocar perda severa da biodiversidade no Cerrado e Restinga, e a kalanchoe tubiflora, comum nas capoeiras urbanas.
Mas a principal questão é a água. Essas plantas geralmente apresentam um tipo diferente de fotossíntese, a CAM (Metabolismo Ácido das Crassuláceas), adaptada para ambientes áridos como desertos e rochas nuas. Nesse caso, gastam pouca água mesmo, mas podem liberar menos ainda, não contribuindo para o que mais precisamos da vegetação urbana nessa época de seca: liberação de água pela evapotranspiração das plantas que vai umidificar o ar e ajudar na formação de mais chuvas na cidade.

Para entender mais sobre o tema, leia o restante do texto no blog e aproveite outros posts com informações interessantes sobre a importância de conservarmos o verde nos centros urbanos.

 


Aproveite e ouça a entrevista que fiz com Albano Araújo, da The Nature Conservancy, no Jornal da CBN

Conte Sua História de SP: pássaros, cheiros e sabores da cidade

 

Por Elisabeth Cury

 

 

Nasci em São Paulo e aqui estou até hoje. São anos e anos!

 

Vou puxar pela memória, buscar acontecimentos. Mas não vou puxar muito, não. Drummond dizia que o que for preciso de esforço para lembrar é que não foi importante.

 

Sei de uma coisa: desde muito cedo me deixei impressionar pelos sentidos. Foi meu jeito de captar o mundo, a vida, esta cidade. Então vai ser fácil.

 

Eu morava na periferia, quando ainda havia trechos de mata – a Atlântica – no caminho para o centro, para a “cidade” como se dizia.. Procurava ver, ouvir, sorver os aromas, saborear, pegar, vendo tudo que podia com minhas próprias mãos. – sentir.

 

Que céu! O ar transparente: de dia, quando havia sol, nuvens espetaculares, sobre azul, com formatos que eu queria sempre associar a bichos, gente, coisas, como fazem as crianças. À noite, estrelas no azul-marinho. Nessa hora, meu pai, que fora pescador marítimo em sua terra, me dava aula de céu – o que era estrela, o que era planeta, constelações e o nosso Cruzeiro do Sul.

 

O cheiro da terra molhada, quando chovia. Delícia! Natureza. Nas trovoadas, minha mãe punha-nos, a mim e a meu irmão, debaixo de uma mesa, embrulhava a tesoura que usava nas costuras em um pano, toda a casa ficava fechada. Ninguém podia fazer nada, até que o mau tempo passasse. Então podíamos sair. Era hora de ver a enxurrada em ruas e terrenos de bairro que principiava.. Era pôr o pé na água, sem ninguém falar às crianças que podia dar leptospirose. Era muito divertido molhar os pés, soltar barquinhos de papel.

 

Revoada de pardais no amanhecer e no entardecer. É que nos fundos do meu quintal havia um riozinho, ainda limpo naquele tempo, e, na beirada, uma touceira de bambu, opulenta. Era dormitório de um sem número de pardais. O dia acordava com uma cantoria inesquecível. À tardinha, eles iam chegando. O movimento deles nessa hora era curioso: não chegavam e iam quietinhos para o abrigo noturno. Não. Em bandos incontáveis, pousavam e logo saíam em revoada, descreviam um círculo e voltavam. Outro bando partia. Assim ia até ir escurecendo e eles se aquietando em seus lugarezinhos.

 

Os parentes que iam em casa – nesse tempo usava-se receber e fazer visitas – desfrutavam desse acontecimento. Era até uma atração turística da minha casa. Além dos pardais, os bem-te-vis, os sabiás, as rolinhas e o arrulho dos pombos da comadre, vizinha, que mantinha um pombal.
Perfumes. Principalmente o de gardênia, que minha mãe chamava de jasmim-do-cabo e que ela conservou em nosso jardim por muito tempo, quase sempre.

 

Sabores: de uva, azedíssima e de mexerica, já que havia nove pés no quintal. Eu só tinha uma pena: eu queria que elas dessem no verão, que eu ia aproveitar mais. Elas ficavam prontas no outono, quando já estava frio.

 

Era a São Paulo da garoa, muitos meses do ano em cinza. Que frio!… Acho que é por isso que eu estou sempre pronta para o inverno, foi meu princípio, foi como conheci o meu lugar no mundo.

 

Saudades dessa São Paulo!

 

O Conte Sua História de São Paulo vai ao ar aos sábados, logo após às 10 e meia da manhã, no CBN SP. A sonorização é do Cláudio Antonio. Você pode contar outros capítulos da nossa cidade, escrevendo seu texto e enviando para milton@cbn.com.br

Não culpem as árvores

 

Por Carlos Magno Gibrail

 

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Na cidade de São Paulo, as chuvas tão esperadas causaram a queda de 509 árvores nos últimos três dias do ano. Tal concentração potencializou o problema, ocasionando um efeito emocional generalizado. Acirraram-se os ânimos. Tanto daqueles que entendem a função das árvores quanto dos que, por comodidade ou por interesses comerciais, não gostam de árvores.

 

Se aos efeitos não cabe discussão, pois a danificação do sistema elétrico aéreo, a interrupção do tráfego e alguma morte foram visíveis, a causa desta desastrosa queda de árvores não se restringe aos ventos de 90 km/h. Ela está na origem, quando se deveriam escolher espécies adequadas à função específica a ser utilizad, e dentro das características de cada local. E, tem mais, o controle é essencial, para que não haja interferências deixando, por exemplo, pintar o tronco de cal, ou diminuir a área do solo, ou cimentar com mureta, ou podar errado, ou demasiado, ou mesmo não podar. Cupins, formigas, lagartas e demais pragas ficaram evidenciadas em várias árvores que tombaram.

 

Entretanto há mais causa. O entrave mais significativo é o sistema elétrico com linhas aéreas. As linhas subterrâneas, mesmo com seus altos preços, resolveriam o problema definitivamente. De acordo com matéria de 2012 da Revista Planeta, de Elisa França, a engenheira Giuliana Velasco da ESALQ informou que a implantação da rede convencional custa entre R$ 54 mil e R$ 67 mil por quilômetro, a aérea compacta entre R$ 36 mil e R$ 62 mil, e a subterrânea cerca de R$ 436 mil por quilômetro.

 

A solução subterrânea, se considerarmos a redução nos custos de manutenção e as vantagens advindas quanto à liberdade e estética, pode ser viável. Pois estará liberando a plenitude das vantagens da arborização urbana, que não são poucas:

 

– Purificação do ar pela absorção de poeiras e gases tóxicos.
– Melhoria do clima, retendo a umidade do solo e do ar.
– Ajuda no sistema hídrico ao favorecer a infiltração da água no solo.
– Amortecimento de ruídos.

 

Se o curto prazo e a superficialidade predominarem também neste caso pelo menos não culpem as árvores.

 


Carlos Magno Gibrail é mestre em Administração, Organização e Recursos Humanos. Escreve no Blog do Milton Jung, às quartas-feiras.

Conte Sua História de SP: as árvores do vovô no Ibirapuera

 


Por Mônica Santos
Ouvinte-internauta da CBN

 

 

Gostaria muito poder compartilhar com todos os paulistanos sobre a riqueza de conhecimento do meu Nono, Henrique Margulhano, nascido em 1922 na cidade de Mogi Mirim – São Paulo. Após se casar, aos 20 anos, se instalou no Jaçanã onde vive até hoje, ainda é bem conhecido na comunidade, mas era muito mais quando minha Nona era viva e os dois presidiam o curso de Noivos na Paróquia São Benedito. Eles foram casados por longos e amorosos 63 anos e o testemunho de vida serviu de inspiração para muitos casais. O Nono tem uma trajetória brilhante, completamente lúcido, carismático, lembra de todas as fases do dinheiro (do “réis” até o cruzeiro atual), da Revolução de 1932, dos desafios de comprar um imóvel em São Paulo, de como era a saúde, o Viaduto do Chá quando era uma plantação de chá, a chegada do Metrô.

 

Lembro que, enquanto eu entrava na 1ª série do 1º Grau, meu Nono estava fazendo “Mobral”. Talvez poucos lembrem desse trabalho que trouxe educação aos brasileiros que não puderam frequentar uma escola e foram trabalhadores braçais por longos anos. Depois que saiu da “roça”, como ele mesmo diz, e veio para São Paulo, trabalhou em vários locais desde limpeza de terreno, ajudante geral, linha do trem e, como sempre, amou a natureza, a terra, as plantações. As árvores sempre foram seu encanto, então,  conseguiu trabalho no Parque do Ibirapuera e teve o prazer de conviver com Niemayer. Esse capítulo da vida do Nono é fascinante. Conta que ele e o irmão plantaram praticamente todas árvores no Ibirapuera e, semanalmente, eram agraciados com abraço do Oscar Niemayer que, com sua simplicidade, fazia o Sr. Henrique mostrar, uma a uma, quais árvores havia plantando naquela semana.  É de brilhar os olhos.

 

Depois desse trabalho, o Nono entrou na Prefeitura de São Paulo, especificamente no Gabinete do Prefeito. Ele saiu em várias fotos na época porque ficava de terno azul marinho, alinhadíssimo,  exatamente em frente a porta de entrada da sala do Prefeito. Como é de se imaginar, o Nono foi muito querido por todos que trabalharam com ele, pela sua humildade e grande sabedoria adquirida durante a vida. Hoje, aos quase 91 anos, sonha ainda em ganhar na Mega Sena e comprar uma chácara, além de ajudar os cinco filhos, netos e bisnetos.

 

O texto é de Mônica Santos, mas o personagem desta história é o avô dela, Seu Henrique. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você também mais um capítulo da nossa cidade. Agende uma entrevista em áudio e vídeo no Museu da Pessoa, pelo e-mail contesuahistoria@museudapessoa.net. Ou me envie seu texto: milton@cbn.com.br

A batalha da sustentabilidade: SP X RJ

 

Texto publicado originalmente no Blog Adote São Paulo, da Época São Paulo.

 

Guarapiranga, a represa

 

Sou do Rio Grande do Sul como já deve estar cansado de saber o caro e raro leitor deste blog. Os gaúchos somos bairristas, ao menos é a fama que temos desde que na Guerra dos Farrapos grupos rebelados pediam a independência do Estado Farroupilha. Mas bairrista mesmo é você, independentemente de onde tenha nascido. Tenho certeza de que se falarem mal de sua terra natal, você será o primeiro a sair em defesa do seu Estado, a despeito de reconhecer todos os problemas que existam por lá (ou por aqui). Dia desses, minha colega de Jornal da CBN Viviane Mosé comentou sobre a violência em São Paulo. Foi o que bastou para alguns paulistas mandarem mensagens desaforadas para minha caixa de correio. Como aquela moça, nascida no Espírito Santo e vivida no Rio de Janeiro, se atreve a reclamar da falta de segurança em São Paulo? Questionavam alguns, como se o assunto não fosse uma preocupação enorme dos paulistanos. Eu mesmo já ouvi desaforos deste tipo porque me meto a pedir melhorias para a capital paulista.

 

Hoje, em sua coluna Economia Verde, em O Globo, o jornalista Agostinho Vieira, meteu sua colher nesta disputa regional ao comparar as cidades do Rio e de São Paulo do ponto de vista da sustentabilidade. Sabia bem o risco que corria, pois já na abertura do texto lembrava que “para alguns cariocas, a melhor parte de uma viagem a São Paulo é a hora de voltar para o Rio. Já certos paulistas acham que este é um balneário decadente e caro, onde não vale mais a pena nem um fim de semana”. Vieira é craque no assunto – não do bairrismo, mas no da sustentabilidade – por isso trago algumas das comparações pertinentes que estão na edição desta quinta-feira do jornal. Acompanhe comigo:

 

Trânsito

 

SP – 11 milhões de moradores/5 milhões de carros (2,2 pessoas p/carro); 30% viajam de carro; da casa ao trabalho gastam 44min42seg em média
RJ – 6 milhões de moradores/2,6 milhões de carros (2,3 pessoas p/carro) 13% viajam de carro; da casa ao trabalho gastam 44min18seg

 

Metrô

 

SP – 74,3Km
RJ – 42km

 

Ciclovias

 

SP – 36km
RJ – 300km

 

Mortes no trânsito

 

SP – 12,1 morrem p/100 mil habitantes
RJ – 5,4 morrem p/100 mil habitantes

 

Poluição

 

SP- 38 microgramas de poluentes por metro cúbico
RJ- 64 microgramas de poluentes por metro cúbico

 

Emissão de gases de efeito estufa

 

SP- 15,7 milhões de toneladas de CO2 (2005)
RJ- 11,3 milhões de toneladas de CO2 (2005)

 

(neste ítem, os dados de 2011 devem mostra empate técnico)

 

Árvores

 

SP- 12,5 metros quadrados p/habitante
RJ- 56,8 metros quadrados p/habitante

 

Lixo

 

SP- 18 mil toneladas/dia
RJ- 9 mil toneladas/dia

 

Lixeira

 

SP- 1 para cada 58 habitantes
RJ- 1 para cada 213 habitantes

 

Reciclagem

 

SP – 2% do lixo gerado
RJ – 1% do lixo gerado

 

Fornecimento de água

 

SP- 100% das casas
RJ- 91% das casas

 

Esgoto coletado/tratado

 

SP- 96% das casas/54% das casas
RJ- 70% das casas/53% das casas

 

Uma ganha aqui, outro acolá. As duas, na maior parte dos itens, estão bem distante das recomendações internacionais. Mas, como escreveu Agostinho Vieira, “esta é uma boa e saudável disputa. Do tipo que deveríamos fazer questão de ganhar em 2016”. Todos nós, bairristas: paulistas, cariocas, gaúchos, pernambucanos …