Avalanche Tricolor: sofrer é preciso e acreditar é nosso delírio

Atlético Goianense 2×0 Grêmio

Brasileiro – Castelo do Dragão, Goiania/GO

Kannemann em foto de Lucas Uebel/Grêmio FBPA

“A única certeza, pai, é que, esteja onde estiver, estarei torcendo pelo Grêmio”. 

Foi o que me disse, em tom de consolo, ao fim de mais uma derrota, o filho mais velho, que, nesta segunda (toc-toc-toc), completou 25 anos de vida. Gregório forjou-se gremista na insistência do pai, na Batalha dos Aflitos, nas Copas conquistadas, nas goleadas sofridas, nas imagens do passado e nas histórias contadas pelo avô.

Por mais gremista que seja, tenho sempre a impressão de que se senta ao meu lado para assistir aos jogos por solidariedade. A despeito do que esteja acontecendo, segue firme nesta missão de acompanhar o pai. Pode ser no cimento do Canindé, aqui em São Paulo, no calor de Humaitá, lá em Porto Alegre, ou nas cadeiras do Zayed Sports City, em Abu Dhabi. Esteve quase sempre comigo – quando não pode, pediu desculpas, como se isso fosse necessário.

Ao certificar-me de seu pensamento, imagino, é como se ele quisesse me dizer que, aconteça o que acontecer, eu não ficarei sozinho. Terei um companheiro para segurar na mão e a me oferecer o ombro, se for o caso de chorar – razões não faltam. Uma forma de amenizar a tristeza que assistir ao Grêmio em campo tem nos causado nesta temporada — exceção a um ou outro lampejo, e ao campeonato gaúcho, onde seremos hegemônico enquanto nossa hegemonia durar.

Há duas ou três rodadas, Gregório tem ensaiado esse discurso. E mesmo que faltem apenas 12 para encerrar o campeonato, não pense — caro e raro leitor desta Avalanche — que ele jogou a toalha. Isso nunca acontecerá porque sabe que sofrer é preciso, e acreditar é o nosso delírio. Está sintonizando com a ilusão que construi recentemente de que estamos fadados a disputar, neste fim de ano, uma espécie de batalha dos Aflitos estendida. 

Queria ter podido lhe dar essa vitória de presente. Mas, infelizmente, isso estava fora do meu controle e, pelo que assistimos, do nosso time, também. Consola-me saber que lhe dei um legado maior do que os três pontos que poderíamos ter conquistado nesta noite. O legado de ser um gremista de verdade — como revela a crença que expôs ao fim do jogo.

Avalanche Tricolor: por Geromel e Kannemann

 

Atlético GO 1×1 Grêmio

Brasileiro – Estádio Olímpico/Goiânia-GO

 

Kannemann é gigante na área; foto de LUCAS UEBEL/GRÊMIOFBPA

 

Antes de o domingo acabar, convido você a fazer comigo um exercício de imaginação. Faz de conta que o time para o qual você torce tenha disputado sete partidas em um campeonato de pontos corridos e só tenha perdido uma delas. Você olha os demais adversários e descobre que apenas um deles perdeu menos; três perderam tanto quanto; e os demais 15 perderam mais do que o seu time.

 

Isso não seria motivo de otimismo para você?

 

Depende. 

 

E depende porque no futebol não basta não perder. É preciso ganhar. Mais do que ganhar. É preciso jogar bom futebol. Especialmente se o seu time o acostumou a ver a bola sendo rolada com maestria no gramado, e os jogadores se movimentando em uma coreografia capaz de encher os olhos do torcedor e atrapalhar a visão dos marcadores. 

 

Assim tem sido desde 2016 com o Grêmio. Nosso time entra em campo e, independentemente do resultado, o futebol jogado é de alta qualidade —- com as exceções de praxe. Muitas vezes a perfomance era capaz de nos deixar satisfeitos apesar do revés no placar. Competições foram perdidas, mas nosso time deixava o gramado com a certeza de que enfrentou o bom combate; e de cabeça erguida se preparava para o confronto seguinte.

 

O futebol do Grêmio pós-Covid tem se revelado muito abaixo daquilo que nos acostumamos e do que somos capazes de fazer, levando em consideração os jogadores que integram o elenco. Esse desempenho tem dado espaço a críticas, estimulado teorias de conspiração e levado a escolhas precipitadas — dentro e fora de campo. 

 

Se a você —- caro e raro leitor desta Avalanche —-, no primeiro parágrafo deste texto, convidei a fazer um exercício de imaginação; faço agora um pedido à diretoria gremista, comissão técnica e seus jogadores: um exercício de humildade. 

 

Deixemos as conquistas recentes em seu devido lugar —- na memória e no passado. Encaremos a realidade. Saibamos ouvir uns aos outros. Identificar as fragilidades. Corrigir nossas fraquezas. Solucionar nossa escassez. Fortalecer nossos méritos —- e se há mérito e motivo que ainda me fazem felizes quando assisto ao Grêmio em campo, é saber que Pedro Geromel e Walter Kannemann vestem nossa camisa.

 

Os dois seguem sendo a maior dupla de zaga do futebol latino americano. Jogadores que se diferenciam pela maneira de se portar em campo. Ao contrário da maior parte dos zagueiros brasileiros, não têm medo de atacar o adversário, de dar o bote — como se diz no jargão do futebol. E o fazem com precisão, na maior parte das vezes. Se necessário for, dão a vida pelo time. Foi o que fizeram neste domingo de futebol muito mal jogado em Goiânia.

 

Geromel entregou-se a uma rara expulsão em sua carreira para evitar o mal maior. Kannemann sacrificou seus músculos. Os dois foram gigantes para manter vivo o desejo de vermos o Grêmio ser o time que admirávamos — aquele Grêmio que já jogou o melhor futebol do Brasil e da América do Sul. Que um dia haverá de voltar aos estádios.

 

Avalanche Tricolor: obrigado por mais este presente!

 

Atlético-GO 0x1 Grêmio
Brasileiro – Estádio Olímpico/Goiânia-GO

 

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No aniversário da gente os presentes dizem muito sobre nós mesmos. Ou sobre o que os amigos pensam da gente. O meu foi nesta semana, terça-feira, dia 1º de agosto, oportunidade em que a gentileza dos ouvintes da rádio foi enorme e entusiasmante. Dos mais próximos, que frequentam minha casa, livros não faltaram, o que é sempre um bom sinal. Ganhei garrafas de cerveja, de vinho e de café, também – muito apropriada para quem madrugada no trabalho. Os amigos da onça aproveitam para se divertir: um deles me entregou em mãos o CD do grupo Molejo. Coletânea com os clássicos do grupo. Diversão pura.

 

Foi, no entanto, na manhã desta quarta-feira, que me chegou o presente definitivo, aquele que toca diretamente seu coração: uma camisa do Grêmio, oficial e celeste. A mesma que vestia nosso time na noite em Goiânia. Essa já tem lugar garantido no memorial que mantenho em casa: uma parede com camisas emolduradas, das quais a mais significativa é uma de goleiro, autografada por Danrley. Tem a minha, com o número 13 em destaque, dos tempos em que era jogador de basquete do Grêmio. Nem todas as camisas que coleciono têm espaço entre os quadros, mas todas são devidamente armazenadas com o devido carinho e destaque.

 

A celeste com golas e barras da manga pretas, do uniforme número 2, vai para o memorial mesmo antes de qualquer título que se ganhe na temporada. Independentemente do que venha a acontecer – e tenho a expectativa de que muita coisa boa aconteça ainda -, o ano de 2017 está marcado pelo futebol de qualidade que chama atenção do Brasil. Aqui em São Paulo, não há um só torcedor que não me aborde para falar do desempenho gremista na temporada, mesmo aqueles que estão à nossa frente no Brasileiro. Elogios que recebo como se fossem um presente.

 

Esse futebol está sendo testando a cada semana que passa, pois somos reféns da maratona de jogos e do bom desempenho em todas as competições que disputamos. Manter o futebol qualificado no Brasileiro, na Copa do Brasil, na Libertadores – e hoje ainda me lembraram da Primeira Liga – é um desafio tremendo para Renato e seus jogadores. Fazer rodízio na escalação torna-se obrigatório e isso nos cobra um preço às vezes muito alto.

 

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Na noite desta quarta-feira, mesmo contra a equipe de pior desempenho na competição, tivemos dificuldade para impor o futebol que nos dá destaque no Brasil. Renato se redobrou ao lado do gramado e no vestiário para tirar dos jogadores à disposição o melhor possível. A mudança de postura do time no segundo tempo teve claramente o olhar do técnico, seja pela conversa seja pelas mudanças. Uma delas crucial: a entrada de Léo Moura em uma espécie de articulador no meio de campo. Não foram necessários muitos minutos para ele mostrar que era só o que nos faltava para garantir os três pontos: alguém para passar e entregar a bola como se oferecesse um presente aos seus colegas.

 

Léo cumpriu o seu papel com maestria e encontrou Lincoln, que também havia entrado no segundo tempo, no único espaço livre dentro da área congestionada pelo adversário. O resto ficou por conta do futebol que estamos acostumados a assistir neste temporada: a chegada de vários dos nossos jogadores, inclusive os volantes, em condições de marcar o gol. No caso, o gol de Michel.

 

Vitória que considerei mais um presente nesta semana de aniversário!

Avalanche Tricolor: Os guris da Azenha

 

Atlético-GO 0 x 0 Grêmio
Brasileiro – Goiânia-GO

Mithyuê é um dos guris da Azenha

No primeiro olhar, a Azenha parece seu uma rua meio sem graça, em Porto Alegre. Na era pré-shopping seu comércio era fundamental. Morávamos quase ao lado, no bairro do Menino Deus, e lá minha mãe comprava lã para nossos agasalhos, sapato pra gente ir a escola, uma o ou outra traquitana pra casa. Até a lotérica ficava logo ali na esquina. Precisava de alguma coisa, resolvia na Azenha.

Hoje, só passo de carro e tenho a impressão de que a rua não evoluiu. Apesar disso, tem uma importante função na cidade: é nossa passarela a caminho do Olímpico Monumental. Muita gente segue por ela com camisetas tricolores, bandeiras em punho, almofadinha com distintivo do clube embaixo do braço. Os bonés azul, preto e branco também podem ser visto entre as calçadas e os carros, estes quase sempre presos no congestionamento, em dia de jogo.

Poucas ruas incorporam tão bem o refrão consagrado do hino do Grêmio: “Até a pé nós iremos”.

Durante a semana, é pela Azenha que muitos guris seguem a caminho dos campos da escolinha de futebol. Vestindo camisa não-oficial, calção preto e meião até o joelho – às vezes furado, outras, renovado -, poupam as chuteiras do calçamento irregular jogando-as amarradas sobre os ombros. E levam a esperança de se transformarem em ídolos do time da paixão. Poucos terão a oportunidade esperada, passarão pelas peneiras e olhares críticos dos “professores” e serão convidados a voltar no dia seguinte, seguir treinando, sonhando.

Dos 14 jogadores que estiveram em campo na estreia do Campeonato Brasileiro, Neuton, Bruno, Mithyuê, Maylson, William Magrão, Adílson, Bergson e Roberson saíram das categorias de base para vestir a camisa profissional. Talvez tenham tido mais sorte e não precisaram enfrentar o ritual da Azenha para chegar até o Olímpico.

Na próxima quarta-feira à noite, no mais importante compromisso até aqui desta temporada, porém, qualquer um desses guris – mais o zagueiro-ala Mário Fernandes – têm de ter a consciência de que a cada bola dividida, bola roubada, bola passada ou bola chutada estarão levando com eles a história, a esperança e o sonho desses Guris da Azenha – aos quais um dia me juntei na tentativa de ser jogador de futebol.

Em tempo: O Campeonato Brasileiro começou. Que cada um faça sua parte. Não nos venham mendigar pontos no fim da competição.