Conte Sua História de São Paulo – 464 anos: minha primeira decepção de criança ao fim da II Grande Guerra

 

Por Aldo Bertolucci
Ouvinte da rádio CBN

 

 

No Conte Sua História de São Paulo, para comemorar os 464 anos da nossa cidade, o texto do ouvinte da CBN Aldo Bertolucci, que completa 78 anos de vida e de São Paulo:
 

 

Meus pais eram italianos e morávamos na Alameda Ribeirão Preto, paralela a Paulista. De nossa casa, afinal o bairro era Bela Vista, víamos os prédios Martinelli e do Banespa, com toda uma várzea e casas pequenas aos nossos pés. Nossa rua era de paralelepípedos por onde todos os dias passava a velha Amulari – uma portuguesa que ficou assim conhecida porque ao trazer suas cabras para vender o leite sempre se desculpava que estava ali para “amulari as pessoas” ou incomodar as pessoas. Soube-se depois que ela, andrajosa e maltrata, era dona de várias casas de aluguel no bairro.

 

Do outro lado do vale havia um campo de futebol, ali perto da Rua dos Ingleses, onde os times do bairro jogavam peladas nos fins de semana. Durante a guerra, os poucos automóveis a gasogênio não nos incomodavam e jogávamos futebol na rua mesmo. Às vezes, éramos interrompidos pelo Salomão, o verdureiro, que vinha com sua carroça puxada pelo Caxambu, um cavalo alazão que estacionava à espera dos clientes. Quando o cavalo fazia cocô, meu avô saia correndo de casa para catar o esterco que ele punha nas suas plantas. Alguns meninos mais corajosos de nossa rua entravam em um bueiro de um lado da rua, passavam pelo cano que ia até o outro lado e saiam pelo outro bueiro.
 

 

Em frente de casa havia um convento de freiras de clausura, cercado de muros muito altos, que ocupava todo o quarteirão desde a Ribeirão Preto até a São Carlos do Pinhal, a Rua Pamplona a Alameda Campinas. Parte desse espaço é ocupado agora pelo Hotel Maksoud. Nós garotos subíamos até o segundo andar de nossas casas para espiar alguns movimentos das freiras que mantinham uma horta. Havia uma capela onde íamos à missa. Mas era construída em duas asas. Nós ficávamos em uma e as freiras em outra sem que pudéssemos vê-las.

 

Um dos passeios mais esperados era atravessar a Paulista em direção aos Jardins – que não tinham ainda se consolidado – e chegar ao ponto final do bonde 40 – Jardim Paulista, na Rua Veneza. Do ponto final seguíamos a pé em direção ao que é hoje o Itaim Bibi, andando no meio do mato e do brejo para chegar aos sítios onde se criavam os cavalos que corriam no Jóquei. Hoje a Avenida São Gabriel substituiu as chácaras.
 

 

Lembro o fim da guerra mundial com as rádios festejando a paz e meu pai com uma bomba manual enchendo os pneus de seu Chevrolet 1938, que estava parado havia vários anos, para ir comprar gasolina e darmos uma primeira volta. Ficamos decepcionados, meu irmão e eu, porque nossa mãe se apoderou do assento da frente que achávamos ser de nosso direito.

 

Lembro também que, naquela época, a Cruz Vermelha abriu um posto ao lado do Correio Central para receber doações para vários países europeus. Fomos com minha mãe levar um saco de roupas para nossos avós e tios que tinham sobrevivido ao conflito, na Itália.
  

 

Aldo Bertolucci é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Venha comemorar os 464 anos da nossa cidade: escreva o seu texto para milton@cbn.com.br.

Conte Sua História de SP: meu tempo nessa cidade

 

Por Caubi Dias

 

 

Meu tempo nessa cidade
Foi um tempo sem conquista
Tempo sem “privacidade”
Com tempo assaz pessimista
Pois daquele tempo eu sei
Que era mau tempo e morei
Algum tempo, em Bela Vista.

 

Se era tempo de Bexiga
No meu tempo eu só sabia
Que o tempo era só de briga
Em todo o tempo que havia
E em tempo de confusão
Pedi, ao meu tempo, opção
De tempo em Vila Maria.

 

Mas lá fiquei pouco tempo
Pois em tempo de agonia
Eu, de tanto perder tempo
Sem tempo de mordomia
Troquei de tempo e cidade
Por mais um tempo à vontade
E, a tempo, como eu queria.

 

Sou nordestino.
Me adaptei bem em GuarUhos
Estou passando através do tempo que não passa,
porém muda e faz barulho.

 

Caubi Dias é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. O programa vai ao ar, aos sábados, no CBN São Paulo, logo após às 10 e meia da manhã. Para participar, envie seu texto para milton@cbn.com.br ou agende entrevista em áudio e vídeo no Museu da Pessoa pela e-mail contesuahistoria@museudapessoa.net.

Foto-ouvinte: Santo Antônio agradece

 

R. Santo Antonio

A bela foto do nosso colaborador Marcos Paulo Dias se não sensibilizou ao menos mobilizou a prefeitura de São Paulo que decidiu enviar uma equipe até a rua Santo Antônio, na Bela Vista, e fechar a cratera que ocupa o espaço dos carros e pedestres. A foto do conserto – enviada pela subprefeitura da Sé – não ficou tão bonita quanto a do buraco, mas aqui não era a estética que importava.

Foto-ouvinte: Arte no buraco

 

Buraco na Santo Antonio

Tem um buraco no caminho. Um buraco a atrapalhar pedestres e automóveis. Mas que diante da lente da câmera do colaborador do Blog do Mílton Jung Marcos Paulo Dias ganha cores diferentes. A bela imagem captada por ele na rua Santo Antonio, no bairro da Bela Vista, região central de São Paulo, não é suficiente para nos fazer esquecer a falta de cuidado com a cidade.

Conte Sua História de São Paulo: Festa da cidade

 

Entrevista_10Filha de ex-fazendeira do café e comerciante na capital, Maria Rosa Ascar chegou menininha em São Paulo carregada pelas mãos da mãe, após o pai ter morrido. Vieram mais oito dos 14 irmãos que viviam na mineira Nova Rezende e todos aqui foram estudar. Viveu com entusiasmo a festa dos 400 anos, comemorou ao lado de autoridades como o presidente Getúlio Vargas e assistiu a chegada da modernidade à capita: a escada rolante e o computador.

No depoimento gravado pelo Museu da Pessoa, durante a festa de aniversário de São Paulo, em janeiro deste ano, Maria Rosa lembrou de um dos primeiros bairros onde morou, a Bela Vista, e não conteve: cantarolou o amor pela capital.

Ouça o depoimento de Maria Rosa Ascar, sonorizado pelo João do Amaral

Você também pode participar. Agende seu depoimento ao Museu da Pessoa pelo telefone 011 2144-7150 ou pelo site www.museudapessoa.net. O Conte Sua História de São Paulo vai ao ar aos sábados, às 10 e meia da manhã.

Meu carro, nossa vida !

 

Por Devanir Amâncio
Da ONG EducaSP

A casa é um carro

“Ô cidadão, este carro tem dono!”. Foi assim que o paulistano Juarez José da Silva, 52, popular ‘Moranguinho’, reagiu ao perceber que seu GOL 83, estava sendo fotografado. O mecânico entendeu com simpatia o motivo da visita e até fez uma demonstração de como dorme no carro, ao lado de uma caixinha de ferramentas, e de sua companheira ‘Moranguinha’, Maria José da Silva, 23, uma sorridente pernambucana, que o ajuda no dia-a-dia. “Dividimos juntos o carro e a vida. Estamos aqui há quatro anos” – Rua Santo Antonio, 914, Bela Vista – Centro.

“O nosso maior sonho é conseguir uma casa do Governo…não queremos nada de graça, podemos pagar até R$ 100,00 por mês. Os meus clientes são todos do Centro. O ideal seria ter a moradia próximo ao trabalho. E, além do mais, temos muitos amigos aqui, afinal, são mais de 20 anos que moro na Bela Vista. Já trabalhei 14 anos em uma oficina. Um dia ainda vou ter a minha”, argumenta com empolgação, Moranguinho.