A ilusão da fronteira e a miopia do amor

Por Caio Luizetto

Biblia - Salmo 24
Biblía Foto: Enoc Valenzuela Flickr

O desafio de amar comumente vem atrelado a um pressuposto espacial: a premissa de que o amor seria um exercício natural no ambiente da fé e um fardo reservado exclusivamente ao espaço público. Essa demarcação geográfica — a tentativa de definir onde o amor é trivial e onde ele se torna heroico — é uma das miopias conceituais mais crônicas da religiosidade.

Uma miopia que, na verdade, opera em camadas.

A primeira delas é a esterilização maniqueísta da realidade. Constrói-se a tese de dois mundos estanques: o “mundo de dentro”, sacralizado, seguro e iluminado; e o “mundo de fora”, hostil, decaído e ameaçador. Disso decorre a presunção ingênua de que o ecossistema religioso é um reduto de virtude cuja única relação cabível com a alteridade é a profilaxia ou a contaminação colonial — santificar o que está corrompido, mantendo as mãos limpas e as fronteiras vigiadas.

A segunda camada dessa miopia é ainda mais dissimulada: acreditar que o território institucional é intrinsecamente imune ao que denuncia no exterior. Ao consagrar aprioristicamente o espaço comunitário como puro, confunde-se comunhão com mera conveniência estética e espelhamento social. O que se toma por facilidade de convívio muitas vezes nada mais é do que o conforto de partilhar ritos com quem valida certezas e repete jargões. O ego, a omissão e o descarte não respeitam portões eclesiásticos; apenas se adaptam à linguagem sagrada.

Essa fricção artificial sabota o cerne da encarnação. Em Cristo, desmoronam todas as trincheiras identitárias e geográficas: não há judeu nem grego, escravo nem livre, homem nem mulher, nem os de dentro nem os de fora. Não existe um “eles” para servir de contraste à nossa pretensa pureza; no horizonte do Reino, resta apenas o “nós”.

Se o amor exige coordenadas territoriais ou um perímetro de segurança para se sustentar, ele já deixou de ser graça para se tornar mero pacto de conveniência grupal.

A experiência máxima e definitiva do Evangelho é o amor. Um amor que não cabe em delimitações espaciais, não pede salvo-conduto moral e recusa o conforto do isolamento. Ele é o próprio escândalo de Deus que se faz vulnerável onde quer que a vida pulse, desarmando cercas e desnudando a vaidade dos nossos santuários exclusivos. Onde o amor não é o centro, a religião não passa de trincheira. Onde ele transborda, todo solo se torna sagrado e todo outro, irrevogavelmente, irmão.

Caio Luizetto é teólogo e cientista da religião, pós-graduado em Missão Integral em contexto urbano. Sua produção aborda as relações entre fé, dor, sentido e maturidade espiritual na vida contemporânea. Escreve a convite do Blog do Mílton Jung.

O Dom e a Ferramenta: a ontologia dos talentos na Era da Técnica

Por Caio Luizetto

A Parábola dos Talentos sofreu, na modernidade, um sequestro utilitarista. Sob a ótica de uma sociedade obcecada por métricas de produtividade, a palavra “talento” foi esvaziada de sua profundidade e reduzida a sinônimo de competência profissional, eficiência ou sucesso financeiro.

Contudo, há um mal-entendido abissal nessa interpretação. As escrituras não operam na lógica do fazer, mas na dimensão da ontologia: o texto bíblico é sobre o ser. Quando o texto ilustra o chamado dos primeiros discípulos, homens que exerciam a ocupação de pescadores, a promessa subsequente não visa o aprimoramento técnico de seu ofício, mas uma transfiguração de suas identidades. O fazer é circunstancial e utilitário; o ser é intrínseco e perene. Multiplicar o talento, portanto, não significa acumular conquistas externas, mas expandir a própria capacidade de manifestar a essência da vida.

Na antiguidade, a distância entre o ser e o instrumento era quase inexistente, pois o artífice imprimia sua própria alma diretamente na matéria que moldava. Hoje, vivemos uma assincronia profunda.

As possibilidades contemporâneas de amplificar o dom são virtualmente infindáveis. Se a essência de um indivíduo reside na capacidade de estruturar o caos, de projetar conexões ou de arquitetar conceitos complexos, a tecnologia moderna oferece ferramentas exponenciais que funcionam como megafones para o ser. Os instrumentos atuais expandiram as fronteiras da multiplicação, permitindo que o dom ecoe com um alcance outrora inimaginável.

Todavia, essa abundância instrumental esconde uma armadilha sutil e perigosa: a ferramenta pode se transformar na prisão do dom. Diante de sistemas altamente complexos, algoritmos rígidos ou estruturas corporativas sedutoras, corre-se o risco de inverter a hierarquia natural, fazendo com que a essência sirva ao instrumento. É o fenômeno em que a visão criativa original acaba sendo deformada para se adequar às limitações de um software, ou quando o indivíduo confunde sua identidade real com o cargo técnico que ocupa.

Quando o instrumento limita o dom, a humanidade retrocede ao erro de confundir o que faz com o que é. Enterrar o talento, sob essa perspectiva contemporânea, não significa necessariamente a inércia, mas a covardia de se deixar anestesiar pela técnica, permitindo que a ferramenta domestique a alma. A verdadeira fidelidade ao talento exige a lucidez de dominar o instrumento sem nunca ser dominado por ele, garantindo que as infinitas possibilidades do presente permaneçam como vias de libertação e expressão do ser, e não como engrenagens de nossa própria limitação existencial.

Caio Luizetto é teólogo e cientista da religião, pós-graduado em Missão Integral em contexto urbano. Sua produção aborda as relações entre fé, dor, sentido e maturidade espiritual na vida contemporânea. Escreve a convite do Blog do Mílton Jung.

Avalanche Tricolores: a esperança tem limites

Grêmio 2×2 Palmeiras

Brasileiro – Alfredo Jaconi, Caxias do Sul/RS

Sinceridade? A expectativa era zero. A esperança, essa, sim, sempre bate forte no ritmo de nosso coração e não me falta. Esperança que se fortaleceu no serelepe Gustavo Nunes, que serviu Pavón para abrir o placar em pouco mais de dois minutos de partida. 

Esperança era o que movia nossos defensores, a cada ataque adversário. De que o drible saísse errado, de que o passe fosse desviado, de que nos anteciparíamos a cada jogada e, se nada disso funcionasse, que Deus nos salvasse. 

Rodrigo Ely e Kannemann juntos levaram nossa esperança ao extremo, enquanto estiveram lado a lado no gramado. Marchesin também se encheu deste sentimento nas bolas que desviou com o olhar, e nas que, com agilidade, impediu de entrar. 

Quando parecíamos perder força, a esperança voltou a jogar. Nos proporcionou um pênalti que, até hoje, só aceito comemorar após ver o gol no placar. Com a bola de um lado e o goleiro de outro, Cristaldo me fez sonhar. 

Mas houve quem quisesse esgarçar nossa esperança. E acreditar em alguém que sequer acredita em si mesmo. 

Diante das escolhas de nosso treinador, só esperançar não é suficiente. Às vezes, por mais que a torcida acredite, que os cânticos ecoem pelo estádio, a realidade se impõe. Há limites para a esperança, e eles são traçados pelo esforço, pela preparação e pela competência. Pune quem detém a prepotência de desafiá-la.

Não se pode esperar vitória eterna se não houver dedicação e melhoria constante. A esperança pode nos levar longe, mas não pode nos carregar sozinha até o final.

Só não vale sofrer além da conta

Por Abigail Costa

Diferenças. Elas revelam  nosso comportamento. E  sempre dão uma forcinha a mais pra que a gente pense: Campo ou cidade? Estresse ou relax? Ficar ou seguir em frente? Interessante com as pessoas discorrem sobre o assunto com métodos variados de ação e reação.

Sereno e tranquilo como alguém que medita todos os dias, esse meu amigo sempre tem uma visão mais espiritual:

– Nada foge aos olhos do nosso criador.

A voz pausada mas forte mostra segurança:

– Tudo o que acontecer tem um por quê.

– Dos nossos atos dependerá nosso futuro .

E mais  outras tantas palavras tiradas da escritura.

Claro que ele tem uma religião. Uma crença  tão forte que chega a pertencer a uma casta. Sempre aceitar com conforto o que acontece pela frente.

Já para um outro conhecido,  professor, doutor e curioso nas histórias de vida de seus pacientes. Para ele é:

– É você quem faz acontecer. Errando daqui, derrubando um obstáculo ali.

Sem a crença  divina. A auto-confiança aqui ganha um tom racional.

Quem está certo? O que busca consolo na crença? Ou o doutor,  que busca respostas nos livros?

Arrisco a dizer os dois.  Cada um com  suas diferenças, numa busca parecida. Transformar o difícil em algo novo. Que pode ser resolvido, não sofrido. E pra isso vale a leitura do livro, da bíblia. Só não vale sofrer além da conta.

Abigail Costa é jornalista e toda quinta-feira, aqui no Blog do Milton Jung fala da vida (dela e dos outros)
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