Conte Sua História de São Paulo 465 anos: até o último bonde que passou em Santo Amaro

 

Por Rubens Cano de Medeiros
Ouvinte da CBN

rcm.rhda.sp@gmail.com

 

 

Eu, um anônimo passageiro

 

Entro no túnel do meu tempo. E retrocedo de uns 60 anos. Eis-me, então, moleque de dez! Quando minha mãe dizia que, eu, molequinho de colo, dedinho esticado apontando para um deles, na rua… dizia que a primeira palavra que balbuciei foi um substantivo que rolava pesadão nos trilhos, rangendo ferragens e madeira, soltando azuis faíscas da roldana contra o fio trólei; e embaixo, entre as rodas dos truques.

 

“Bon-de” —- foi o que disse.

 

Lembro, sim! Vinha um adulto e dizia. Ah, que os bondes, anterior à cê-eme-tê-cê, eles tinham sido da Light: –- “Você sabia, menino?”. Eu? Sabia… que da Light –- meu pai era lighteano do Cambuci – eram postes e lâmpadas. Postes de ferro, de cimento e uns remanescentes de toras de eucalipto. Lâmpadas de filamento, e que acendiam em série, notava-se fácil, iluminando ruas de paralelepípedos, as asfaltadas e as ruas de terra que – claro! – sob chuva, eram de lama!

 

Ah,eu adorava bondes e ônibus! E a própria Companhia Municipal de Transportes Coletivos – aquela, de entre os anos 1950 e 1960. Nossa! Quantas garagens! Que enorme frota! Quantos muitos funcionários! Diziam, lembro, “a CMTC é da Prefeitura”, referindo que a municipalidade a gerenciava – instituída que houvera sido em 1947. Eu gostava do vermelhão dos bondes e ônibus, embelezado por singular e indefectível logotipo, que eu chamava “emblema”.

 

Eu? Ora, nunca trabalhei na CMTC – que pena! Fui somente um anônimo passageiro. De bondes que circularam nas minhas infância e adolescência; de ônibus como os sacolejantes ACLO, de mecânica inglesa e que davam tranquinhos mudando marchas “semiautomáticas” –- nas linhas 11, 12 e 13. Ou 47 e 48. Que saudadizinha!

 

Quando, em 1961 – lembro bem – Adhemar de Barros cedeu lugar para Prestes Maia, então o vigoroso vermelho da CMTC virou – bondes e ônibus – um apático laranja clarinho… anêmico.

 

Os velhos bondes – obsoletos, de há muito – a cor laranja lhes era a da própria agonia. Pois, sabemos, o último camarão deu seu suspiro final em Santo Amaro, em 1968, numa viagem ironicamente festiva. Nela, o prefeito Faria Lima, que tornou de um azul escuro a cor da “Nova CMTC”.

 

Olha, bem melhor que eu… que o diga um ex-ceemeteceano: quão imponente, a CMTC! Que reformava bondes, na Araguaia; montava carrocerias de ônibus na colossal Santa Rita e mantinha uma Escola Senai, na Ponte Pequena! Oficinas e garagens? Eram muitas: Jabaquara, Santo Amaro e Lapa; Sumaré, Barra Funda, Cambuci. Depois, enorme, Vila Leopoldina. Uma, exclusiva de ônibus elétrico, na Machado de Assis. Era pouco? Era muito!

 

Os bondes? Lembro, igual. Três gares – herdadas da Light – curiosamente denominadas de “estações de bondes”: Vila Mariana, Brás e Alameda Glete. Exagero, dizer da CMTC, “imponente”?

 

Que o amanhecer de 25 de janeiro, em que Piratininga soprará 465 velinhas … que a efeméride traga consigo, tal qual um ônibus traz um passageiro, uma lembrança! Ao mesmo tempo, reconhecimento e gratidão de nós, concidadãos. Enfim, uma homenagem à CMTC, digo melhor, às gerações de paulistanos que por meio século a conduziram! E, assim, nos conduziram! A CMTC é uma história de São Paulo: nada é mais paulistano que ela! Uma nostalgia vermelhona.

 

Rubens Cano de Medeiros é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Participe desta homenagem a nossa cidade: envie seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br

Conte Sua História de São Paulo: a lição que recebi quando saltei do bonde

 

Por Adalberto Miguel Pedromônico

 

 

Tenho centenas de histórias para contar sobre São Paulo. Nessa magnífica cidade vivi minha infância e minha adolescência. Mais precisamente no bairro do Cambuci.

 

Meus pais se mudaram de Guaratinguetá para São Paulo, nunca soube as razões, em 1946, quando eu tinha dois anos. Foram morar na Rua Silveira da Mota onde ficamos até 1953, quando nos mudamos para a Rua Backer.

 

Estudei os meus quatro primeiros anos no Grupo Escolar Oscar Thompson e o ginásio no Liceu Siqueira Campos, durante quatro mal aproveitados anos. Do Liceu ficou muito marcada a convivência com o Ubiratã, irmão do Biriba, que era um mesa-tenista de renome e que se sagrara campeão sul-americano. Joguei muito contra o Ubiratã no União Mútua, do Ipiranga.

 

Muitas lembranças me vêm à mente quando me ponho a rever o passado e muitas foram determinantes para a formação de meu caráter.

 

Recordo-me com clareza de minhas idas e vindas ao centro da cidade, quando eu pegava o bonde Vila Prudente-Praça João Mendes e saltava do bonde andando sempre que o cobrador se aproximava. Cobrador esse que, como os demais, puxava a cordinha recitando: “tlin, tlin, dois prá Light e um pra mim”.

 

Certo dia um senhor de cabeça branca, mas muito lúcido, se acercou de mim que acabara de aterrisar na confluência da Rua da Glória com Lavapés, e com muita simplicidade e generosidade me recomendou que não mais fizesse aquilo. Que talvez eu não soubesse, mas que algumas personalidades públicas, como Adhemar de Barros, Jânio e outros, faziam a mesma coisa que eu quando tratavam dos recursos do povo.

 

A conversa, em princípio soou como “coisa de véio”. No entanto, “degavarinho” o recado foi deixando sua marca e eu passei a me preocupar um pouco mais com meu comportamento. Voltei a pagar a passagem.

 

Morando na Backer, minha saudosa mãe Angelina era freguesa de carteirinha do seu Joaquim, um padeiro que passava, diariamente sem falhar, desde a Lins até o final da Backer, vendendo pão e leite. Anotava os pedidos das freguesas e trazia os pães por volta das 7 horas. O mais espantoso é que ele passava antes, cerca de 5 horas, deixando uma garrafa de leite nos portões das casas que haviam feito o pedido. E o muito mais espantoso é que ao acordarmos nosso leite estava lá, no mesmo lugar onde havia sido deixado pelo burruga!

 

Outra história que costumo contar às pessoas com quem convivo, com certa riqueza de detalhes, tem a ver com meu primeiro emprego.

 

Já com 14 anos e me revelando um estudante de pouco futuro, Dona Angelina me mandou trabalhar “prá ver quanto dói uma saudade…”. Meu pai me arranjou uma vaga de contínuo, no escritório de três advogados, que ficava na Benjamim Constant, esquina com Quintino Bocaiúva, em cima das lojas Garbo. Por lá estive durante uns oito ou nove meses e aprendi muito da vida cotidiana.

 

O fato é que os três advogados tinham conta bancária na Caixa Econômica Federal, que ficava na Praça da Sé.

 

Bem, de vez em quando cada um deles — Dr. Mario Jorge, Dr. Herminio Costabile e Dr. Portugal Gouvê — preenchia, assinava e me dava um cheque de valores diversos para sacar.

 

Lá por volta das 9 horas, ia eu despreocupado da puta da vida. Pegava uma das filas de caixa e, ao chegar minha vez, entregava os cheques para o funcionário que me dava em troca um medalhão de cobre ou latão com um número gravado, que servia de senha.

 

Muito bem! Primeira parte do serviço concluída.

 

Voltava para o escritório munido de três medalhões e muita vontade de lá encontrar a filha do Dr. Mario Jorge que era um “piteuzinho” — um ou dois anos mais velha que eu. Vontade muitas vezes frustrada.

 

Passadas duas horas, voltava à agência e apresentava ao mesmo caixa os medalhões. O caixa perguntava a cada medalha: “qual o valor?”. E eu dizia certinho, uma vez que havia anotado. O funcionário tirava maços de notas da gaveta e separava cada valor, que me era entregue. Via de regra eu pedia elastiquinhos e formava três pacotes que eram enfiados nos bolsos de minha caça Rancheira, tendo identificado cada um. Atravessava a Praça da Sé, voltava para o escritório e entregava o dinheiro quando desse certo.

 

Foram muitas essas idas à Caixa e nunca tive nenhum problema.

 

Daí, quando eu digo que a vida era melhor, tudo que sabem fazer é me recriminarem e rotularem de saudosista. Ninguém é capaz de me dizer se poderemos, um dia, voltar a criar nossas crianças num ambiente desse tipo.

 

Como as histórias que aqui rememorei, tenho muitas outras. Tanto que estou escrevendo minhas memórias, antes que eu acabe.

Adalberto Miguel Pedromônico é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. E a locução de Mílton Jung. Envie a sua história para milton@cbn.com.br

Conte Sua História de São Paulo: o bonde da Casa Verde

 

Pedro Vitorino
Ouvinte-internauta da CBN

 

 

Plim, plim, plim, lá vem o bonde
Plim, plim, plim, lá vai o bonde.
De onde vem, pra onde se destina?
– Vem do Centro, Rubino de Oliveira,
Da Vila Maria, Vila Sabrina,
Como bólido, espalhando faíscas incandescentes
Sobre os trilhos e dormentes
Tortuosamente fincados nesta Terra de Piratininga.

 

Em cada parada um vaivém de pessoas aprumadas
Subindo ou descendo, soberbas, aceleradas,
Rumo ao trabalho ou sua triunfante volta ao lar:
– São paulistanos, paulistas, mineiros, baianos,
Brasileiro do sul, do norte, do leste e do oeste
E de além mar: portugueses, espanhóis, japoneses,
E muitos outros que nesta terra aportaram
E a escolheram para aqui fincarem suas raízes.

 

É quase madrugada, ainda ruas escuras,
Luzes ofuscadas pela fria e incessante garoa paulistana;
Na Praça Centenário, rostos sonolentos aguardam a vez do embarque…
Lá vem o bonde, trepidante, com seu condutor – o motorneiro –
Em seu traje de gala, triunfante!
E mais uma jornada se inicia, no seu pinga-pinga,
Em ziguezagues pelas ruas da cidade, ainda adormecida,
Mas pronta a cumprir seu destino, sem fadiga.

 

Homens, mulheres e garotos imberbes ali estão:
Gorros à cabeça, cachecóis e capas a cobrir-lhes os corpos
–  A proteção indispensável contra a garoa e o frio-
Em cada mochila, a marmita, a garantir-lhes a sustentação no trabalho.
E lá vai o bonde, descendo a Rua Inhaúma,
Ponte da Casa Verde à vista, com seus muitos campos de futebol – ladeados –
Silenciosos agora, mas repleto de vida, aos domingos,
Em sublimes momentos de intensa glória!

 

Barra Funda, Bom Retiro – o centro está logo ali;
Lá vai o bonde, no seu plim, plim, plim insistente.
Em cada curva um solavanco – um vai pra lá, vem pra cá
Despertando aqueles heróicos trabalhadores anônimos
Símbolos da grandeza desta terra que é de luta e esperança;
Ouve-se o plim, plim, plim da última passagem registrada
– “Fim da linha”, diz o cobrador, mais uma vez,
Porém, diziam as más línguas: !Não a última cobrada”!

 

Anoitece, e toda aquela gente sonolenta desse mesmo dia – no seu amanhecer –
Ali está, todos atentos ao Casa Verde,
Estampado na “testa” daquele monstro de madeira e ferro
Que logo surge, como um dragão, expelindo fogo,
Entre os trilhos e suas “patas” barulhentas
Agora em direção ao aconchego do lar,
Embalados pela sonoridade – e habilidades – do cobrador:
Plim, plim, plim, um pra Light, dois pra mim…
Plim, plim, plim, um pra Light, dois pra mim…
Plim, plim, plim…

 

Pedro Vitorino é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Claudio Antonio. Conte mais um capitulo da nossa cidade. Escreva para milton@cbn.com.br.

Conte Sua História de SP:”chocar” no bonde era a minha diversão, na Penha

 

Por André D’Elia Neto
Ouvinte-internauta da CBN

 

 

Na Penha de antigamente, o modo mais barato de se chegar era de bonde. Tinha o bonde aberto e o bonde camarão (todo fechado).

 

Meus avós moravam na rua Comendador Cantinho que, para chegar no Largo da Penha, tinha um forte aclive e uma curva.

 

Na época, por volta de 1954, eu tinha 11 anos e minha distração preferida quando ia visitar meus avós era ficar no inicio da curva, quando a velocidade era reduzir para “chocar” – isto é, pegar o  bonde andando e ir até o Largo da Penha.

 

Como você vê, não tínhamos noção dos perigos que nos causar. Mas era muito gostoso e rendeu esta história para contar.

 

Saudade dos bondes!

 

O Conte Sua História de São Paulo vai ao ar, aos sábados, no CBN SP, tem a sonorização do Cláudio Antonio e narração de Mílton Jung

Conte Sua História de São Paulo: o bonde passava na rua da Glória

 

 

Por Elza de Oliveira Reis

 

Último veículo da era dos românticos, o bonde, além de deixar descendentes importantes – o trolebus e o metrô – deixou também muita saudade.

 

Pela rua onde eu morava, lá vinha ele, com seus passageiros, na Pauliceia desvairada do poeta, com destino ao Cambuci, Vila Prudente e Ipiranga. E a Rua da Glória se enchia do ruído de suas rodas de aço sobre trilho e o som de sua buzina – o bater de um sino – a lembrar ao pedestre distraído – o perigo.

 

Eu, criança ainda, gostava de vê-los da janela de minha casa. Eles passavam com destino à Praça João Mendes ou se dirigiam aos bairros com a calma que a nossa cidade de então podia propiciar. Iam e vinham, com seus ilustres passageiros, belos tipos faceiros, salvos ou por salvar de bronquites, pelo Rhum Creosotado como apregoava o anúncio:

 

“Veja ilustre passageiro
O belo tipo faceiro
Que o senhor tem a seu lado.
No entanto, acredite, quase morreu de bronquite.
Salvou-o o Rhun Creosotado”

 

Era ainda o tempo do cavalheirismo: às mulheres, a primazia dos acentos nos bancos de madeira; aos homens, na falta de lugares para todos, a coragem de viajar de pé no estribo,de onde podiam saltar, quando havia lentidão na marcha do veículo. O cobrador passava por eles exercendo o seu ofício: cobrava e registrava o recebimento da passagem, utilizando dispositivo especial para esse fim. Ouvia-se, então, o dim-dim, dim-dim, acusando o recebimento da tarifa.

 

O Conte Sua História de São Paulo vai ao ar aos sábados, logo após às 10h30, no CBN SP. A interpretação é de Mílton Jung e a sonorização é de Cláudio Antonio.

Conte Sua História de SP: os passeios de bicicleta na pista do aeroporto de Congonhas

 

Por Walter Whitton Harris

 

 

Na minha juventude, morava no bairro de Campo Belo, e as ruas eram de terra batida e não havia calçadas.

 

As ruas principais do bairro (Rua Prudente de Moraes, hoje Rua Antonio de Macedo Soares, e a Rua Vieira de Morais) que cruzavam com as outras, eram as únicas cobertas com paralelepípedos, alguns quarteirões com calçadas, outros não.

 

O movimento de automóveis era pequeno, com trânsito maior de caminhões e ônibus. Dependíamos destes ônibus e dos bondes para ir e vir do centro.

 

Andar de bonde, então, era uma aventura. No trajeto que ia da Praça João Mendes até Socorro, o bonde levava quase duas horas. Depois de descer a Rua Conselheiro Rodrigues Alves e passar pelo Instituto Biológico, entrava numa longa reta, com trilhos à semelhança de uma estrada de ferro.

 

Da mesma forma que uma ferrovia, as paradas tinham os nomes em placas presas entre dois postes com a identificação pintada em letras pretas sob fundo branco, cuja sequência até chegar em Santo Amaro eram: Ipê, Monte Líbano, Moema, Indianópolis, Vila Helena, Rodrigues Alves, Campo Belo, Piraquara, Frei Gaspar, Volta Redonda, Brooklin Paulista, Petrópolis, Floriano, Alto da Boa Vista e Deodoro.

 

Daí por diante, os trilhos voltavam a ficar embutidos nos paralelepípedos e viam-se muitas casas e lojas comerciais.

 

Pois o fato é que durante todo o trajeto desde o Biológico, havia grande número de chácaras e poucas casas, estas últimas se aglomerando junto às paradas dos bondes. Do Largo 13 de Maio, centrão de Santo Amaro, o bonde, que era fechado, descia até a Praça São Benedito. Quem quisesse atravessar a ponte sobre o rio Pinheiros e chegar à Praça de Socorro, fazia a baldeação para um bonde aberto. Pergunto-me até hoje o motivo disso. Será que a ponte não suportava o peso de um bonde maior, ou não havia passageiros suficientes e era vantagem retornar logo para a cidade com o bonde maior?

 

Íamos de bonde para o Colégio Estadual que ficava em Santo Amaro. Muitas vezes os nossos professores nos faziam companhia, pois poucos tinham seus próprios carros.

 

Lembro-me bem de uma ocasião em que os bondes pararam no Brooklin, um atrás do outro e tivemos de ir a pé até a escola, uma pernada e tanto. Os meus colegas e eu passamos em frente à fábrica de chocolates Lacta. Logo adiante, vimos o motivo. Na parada Petrópolis, um bonde em alta velocidade havia colhido um caminhão distribuidor de água da Fonte Petrópolis (que existe ainda hoje), arrastando-o por vários metros. Não me lembro se alguém saiu ferido. Havia garrafas de água e cacos de vidro por todo lado. Será que o motorneiro desceu o declive existente em frente à Lacta à toda e não conseguiu parar em tempo e pegou o caminhão que estava atravessando a linha?

 

A vida, na adolescência, era bastante pacata e singela. As andanças de bicicleta com um grupo de coleguinhas era uma delícia. Dois quarteirões depois de nossa rua, começavam as chácaras onde eram plantadas hortaliças que abasteciam a cidade de São Paulo. Havia estreitas passagens nas chácaras pelas quais íamos com nossas bicicletas até chegarmos ao Aeroporto de Congonhas. Naquele tempo, o aeroporto não era cercado e íamos até a cabeceira da pista e lá ficávamos observando os aviões passar por cima de nossas cabeças para pousar. Nem imaginávamos o perigo pela qual passávamos, porém a gente sabia que estávamos errados pois, vez ou outra, saíamos correndo de lá quando um jipe vinha em nossa direção, piscando os faróis. Era apenas um incentivo para ousarmos voltar. Será que cercaram o aeroporto por nossa causa?

 

A nossa rua de terra era um convite para se jogar “taco”, uma modalidade brasileira simplificada do “cricket”. A finalidade era derrubar, com uma bola (geralmente de tênis), uma casinha em formato de tripé feita com alguns finos galhos de árvore e que era defendida por quem estivesse com o taco. No jogo inglês, há três pequenos postes, unidos por travessas pequenas no seu topo que precisam ser derrubadas. Meu pai esculpiu um lindo taco para mim, que era invejado por todos os jogadores. Está guardado como lembrança daqueles tempos.

 

Outro jogo bastante gostoso era com bolinhas de gude. Fazíamos três buracos equidistantes alinhados na terra e um quarto buraco em ângulo reto com o buraco da ponta. Tínhamos de alcançar aquele último, mas também precisávamos afastar os adversários, atingindo suas bolinhas com a nossa.

 

Depois de fazer nossas lições de casa, ficávamos jogando até o anoitecer, quando nossos pais nos chamavam para jantar e dormir. É desnecessário dizer que voltávamos para casa resmungando e de mau humor.

 

Os dias passam céleres e eis que estamos retratando fatos de mais de cinquenta anos atrás! Como era bom não ter responsabilidades, não ficar preso dentro de casa em frente a uma televisão, que poucos tinham naquele tempo. Não havia computadores, nem éramos escravos de celulares, tablets etc. Eram outros tempos. Ah, tempos idos, que não voltam nunca mais…

 

O Conte Sua História de São Paulo tem sonorização do Cláudio Antonio e narração de Mílton Jung. O quadro vai ao ar, aos sábados, no CBN SP, logo após às 10h30 da manhã.

Conte Sua História de SP:encontrei minha namorada platônica

 

Por José Geraldo Barbosa Duarte Junior

 

 

Eu morava em Moema e estudava em Santo Amaro, na escola estadual Alberto Conte. Onde hoje está a Avenida Ibirapuera e a Vereador José Diniz havia uma linha de bonde. Era de bonde que seguia para a escola.

 

Tinha uns 14 anos e estava apaixonado pela colega de ginásio, mas não tinha coragem de revelar isso a ela. Era muito tímido. Ela virou minha namorada platônica. Morava no Brooklin e preferia o ônibus para ir a escola. Apenas algumas vezes, pegava o bonde.

 

Amigas em comum, que sabiam da minha paixão pela menina, resolveram agir como cupido. Quando a minha namorada platônica entrou no bonde, que naquele dia estava vazio, todas elas se afastaram de nós, deixando-nos sozinhos para conversar. Fiquei atônito.Não consegui nem cumprimentá-la. Sumiram todas as palavras da minha boca.

 

Talvez por não entender o que acontecia, a menina ficou na dela. Eu fiquei mudo até Santo Amaro. e minhas amigas ficaram desapontadas comigo.

 

O fato é que naqueles tempos nunca tive coragem de me aproximar dela e revelar minha paixão.

 

Os tempos passaram e essa coisa mal resolvida estava guardada em minha lembrança.

 

Hoje estou casado, com filhos e netos.

 

Não para viver um momento que nunca tive, mas como curiosidade, sei lá, queria encontrar aquela minha namorada platônica e saber como foi a vida dela.  Queria contar a ela a minha paixão.

 

E foi graças ao advento do Facebook que a encontrei.

 

Ela não se lembrava da minha existência, mas aquiesceu a amizade.

 

Foi quando, então, pude revelar aquela paixão juvenil. Mas não fique pensando outra coisa, não: hoje, somos apenas amigos e eu me senti liberto da paixão que me remoía.

 

O Conte Sua História de São Paulo vai ao ar aos sábados, no CBN SP, logo após às 10h30. O quadro é sonorizado por Claudio Antonio e tem narração de Mílton Jung.

Conte Sua História de SP: caipira, pujante e provinciana

 

Por Roberto Moreira da Silva

 

 

Nasci em 1959, em uma São Paulo portuguesa, caipira, pujante e provinciana ao mesmo tempo.

 

Nos anos de 1960, havia os carros elegantes, as carroças entregando leite na garrafa de vidro e verduras frescas; e o fim do saudoso bonde.

 

Tinham o toque da garoa, o cheiro de macarrão e chocolate aos domingos, da pizza às sextas-feiras, dos cafés e chás no centro da cidade, das sorveterias, dos restaurantes … árabes, italianos, portugueses.

 

Havia as escolas e seus uniformes, os bailes do clube, e o recato assanhado do trânsito provocado pela paquera na Rua Augusta, e da Brunela, na Gabriel Monteiro da Silva, aos domingos.

 

São Paulo sempre misturou o poder das grandes metrópoles e foi acolhedora com as deliciosas cidades do interior.

 

Hoje, mesmo morando na Granja Viana, em Cotia, não larguei essa cidade. Vou ao menos duas vezes na semana. E um dia no fim de semana. Levado pelo cheiro de família que me faz sentir conforto no coração já na chegada a cada visita se seu eterno filho apaixonado.

 

O Conte Sua História de São Paulo vai ao ar, aos sábados, logo após às 10h30, no CBN SP, e tem a sonorização do Claudio Antonio. Os textos dos ouvintes podem ser enviados para o e-mail milton@cbn.com.br

Conte Sua História de SP: o cinema foi a minha moradia

 

Por José Carlos Valle
Ouvinte da Rádio CBN

 

 

Nasci no Brás em 1946.

 

O inicio da minha infância, foi ter morado dentro de um cinema. O Cine Iris, na Av Celso Garcia, 1558. Desde pequeno já gostava muito de assistir aos filmes na matinê de domingo. A fila virava a esquina. Na época era esta a única diversão. Assistir aos seriados que todo domingo tinham continuidade: o Zorro, cujo parceiro era o Tonto; o Super Homem, o Cavaleiro Negro, entre outros. 

 

Na época não tinha geladeira, então todos os dias entregavam o gelo com a carrocinha puxada a cavalos. Os filmes vinham em rolo de latas de 35 mm bem pesados que o Rafael entregava com sua carroça puxada por ele mesmo.

 

Ah, os bondes! Eram o “must” da época. Eles iam para o Parque São Jorge, bem frente ao estádio. E para a Penha. Ao lado do cinema tinha um jornaleiro que se chamava Caieira, que me deixava ver as histórias em quadrinhos sem pagar.

 

Depois de alguns anos, o cinema  fechou. E hoje ele tem 400 familias morando lá dentro. O Belenzinho de hoje dá dó. Praticamente todos amigos já se foram.

 

Depois fui morar mais longe, na Ponte Rasa. Passei dois anos da minha vida bem legais. Jogava pião, bola de gude, empinava pipas, carrinho de rolimã, mãe da rua, box, esconde-esconde. Na época não tinha maldade, drogas, era uma pureza.

 

Depois voltei a morar no Belenzinho, no Largo São José. O Grupo Escolar Amadeu Amaral existe até hoje; a Igreja; o cine Teatro São José era antigamente o charme da praça. 

 

Foi uma época boa. Eu lembro que um dia fui com minha mãe ao Hospital da Beneficência Portuguesa. Para ir ao hospital tinha uma ponte de madeira entre a rua Vergueiro e o hospital, tudo rodeado de mata e com o riacho embaixo.

 

Tinham vários cinemas na época: o cine São Luiz, na Celso Garcia, o Brás Politeama, o cine Universo, que o teto abria nos dias de calor. Ali assisti ao filme Lawrence da Arábia. O Cine Piratininga, que era considerado o maior do Brasil. Perto do lago da Concórdia.

 

Andar de bonde era muito gostoso.

 

Eu sou muito feliz por ter tido uma infância gostosa, e curto cada momento que lembro.

 

Bom tenho muito que contar, mas, hoje, tirei este temp para falar um pouco da minha vida em São Paulo.

 

José Carlos Valle é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Você participa deste quadro enviando textos sobre a cidade de São Paulo para milton@cbn.com.br.

Conte Sua História de São Paulo: no cortiço, os melhores dias da minha infância

 

No Conte Sua História de São Paulo, o texto de Mariza Christina, de 60 anos, moradora da Água Funda, que preferiu escrever uma carta à mão em lugar de nos enviar um e-mail, pois assim se sente mais próxima das pessoas:

 

 

Em 1961, eu estava com 7 anos e minha irmã, 5. Meus pais passavam por dificuldades financeiras, não podiam pagar mais o aluguel da casa onde morávamos, no bairro da Ponte Rasa, onde nasci, por isso decidiram que iríamos morar com a minha avó materna até a situação melhorar. Ela morava na Rua da Glória, entre a Rua Conselheiro Furtado e a Rua Lava-pés, bem no centro de São Paulo. Era um terreno longo e estreito com vários quartos. Imagine seis pessoas num quarto 6×3, mais ou menos, era um aperto danado, bem diferente da casa grande e confortável que vivíamos, mas para mim e minha irmã era novidade e nos divertíamos muito.

 

Naquela época era comum quartos como aquele por serem baratos e fáceis de alugar, eram popularmente chamados de ‘cortiços’. E foi nesse quarto tão simples e apertado que passei os melhores dias da minha infância. Moramos lá um ano, mas o suficiente para deixar muitas lembranças.

 

Fiquei encanada quando vi pela primeira vez o bonde, aquele carro grande que andava sobre trilhos carregando pessoas, e fiquei intrigada como elas não se molhavam quando chovia, pois não tinham portas! Será que elas abriram o guarda-chuvas?! Corri para contar à minha avó, tão curiosa e ofegante que mal podia falar. Assim que pude, a enchi de perguntas. Quanto ela me disse que os bondes iriam acabar, pois estavam sendo substituídos por ônibus, fiquei muito triste: eles eram tão bonitos! Às vezes, ficava horas no portão só para vê-lo passar, queria gravar aquela imagem na memória.

 

Todos os dias, as duas horas da tarde, saía uma fornada de pão da padaria que havia em frente a nossa casa, o cheiro era inebriante e tão delicioso que até hoje quando me lembro posso sentir aquele cheirinho maravilhoso. É inesquecível!

 

O Carnaval estava próximo. A ansiedade era grande, eu nunca tinha assistido a um desfile. Ao lado da nossa casa tinha uma lojinha que vendia de tudo; fantasias, plumas, máscaras, adereços, etc … O movimento na loja era enorme, pessoas que entravam e saíam alegres com fantasias que iriam vestir. Meus olhos brilhavam com tantas coisas bonitas e coloridas. Meus pais também iam desfilar e deixaram que eu ajudasse a escolher suas fantasias. Compraram ainda confetes, serpentinas e bisnagas de água, para mim e minha irmã.

 

Ainda não existiam blocos ou escolas de samba, eram cordões. As fantasias simples, sem luxo, porém, muito bonitas e criativas. Os cordões se concentravam na Rua Lava-pés e de lá saíam cantando marchinhas que até hoje são lembradas, subiam a rua da Glória e outras ruas do bairro. Quem não desfilava acompanhava jogando confetes e serpentinas. No ar, exalava um perfume delicioso de lança-perfume. Ao fim do desfile ia-se atrás do cordão preferido.

 

Apesar das dificuldades foram os dias mais felizes das nossas vidas e, com certeza, deixou muitas saudades em todos nós.

 

Mariza Christina é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você também mais um capítulo da nossa cidade. Escreva para milton@cbn.com.br. Ou mande um carta como fez dona Mariza.