Rebobinar, cair a ficha e virar o disco: expressões que ficaram no tempo

 

A Bel Pesce, com seu papo serelepe, logo pela manhã, no Jornal da CBN, propôs que você aproveitasse o fim do expediente para rebobinar a fita e refletir sobre as coisas que aprendeu e sentiu durante o dia. É uma maneira muito legal de reviver tudo o que passou, não esquecer bons momentos e, se algum assunto estiver pendente, quem sabe tentar uma solução ou enviar um e-mail. O desafio proposto por ela acabou provocando outras memórias, a medida que lembrei, no nosso bate-papo, que a expressão rebobinar, apesar de apropriada, não fizesse mais parte da vida de muitas pessoas. Comum na época em que alugávamos fitas de vídeo e éramos obrigados a rebobiná-la sob o risco de sermos multados pela locadora, a expressão surgiu muito antes: está relacionada às fitas de rolo que eram usadas em estúdios de gravação e emissoras de rádio, como, aliás, citaram alguns ouvintes em mensagens enviadas ao programa.

 

Pelo e-mail, Twitter e WhatsApp surgiram muitas outras expressões datadas, algumas que persistem apesar de parecerem sem sentido para novas gerações, outras que ficaram para trás. Aproveito a participação dos ouvintes-intenautas para fazer uma relação destes termos:

 

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Caiu a ficha, usado quando você entendeu ou percebeu algo, e tem relação ao fato de os telefones públicos, no passado, usarem fichas que caíam quando a ligação era completada. Com o sucesso dos celulares, em breve, talvez nem tenhamos mais telefones públicos ou orelhões.

 

Disca pra mim era um convite para que a pessoa telefonasse para você, em uma época na qual os aparelhos telefônicos (que eram fixos) em lugar de teclas tinham um disco. O telefone discado enviava pulsos elétricos através do giro do número correspondente em um painel em formato de disco. Hoje, apesar de muitos apostarem na aposentadoria dos telefones fixos ainda tem serviço de entrega que usa o termo “disque” ou “disk” (pra ficar mais chic), mesmo que os pedidos cheguem pela internet.

 

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Tá tudo Magiclick significa que está tudo ótimo, deu tudo certo; e nasceu de jargão publicitário de um tipo de acendedor automático de forno e fogão que substituía com maestria (esta palavra é mais antiga ainda) os fósforos. O acendedor da marca Magiclick, foi criado pelo argentino Hugo Kogan, em 1963, e facilitava a vida das donas de casa – sim, naquela época só elas tinham o direito de atuar na cozinha – pois acendia o fogo apenas com um clique no equipamento. Alguns tinham chama própria e outros apenas geravam uma faísca que, em contato com o gás, produzia a chama. Nos anúncios, o fabricante garantia que o Magiclik tinha capacidade de funcionar de forma autônoma por até 104 anos. Ou seja, ainda tem muito tempo pela frente.

 

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Deu tilt entrega a idade, também; principalmente se você usar o termo para dizer que alguma coisa deu errado. A expressão se popularizou com as máquinas de fliperama ou pinball que nasceram na pré-história dos jogos eletrônicos. Para a bola de metal correr na mesa por mais tempo, somando pontos na partida, usávamos duas palhetas e, às vezes, em jogadas mais bruscas, sacudíamos a máquina a ponto de incliná-la. Quando isso ocorria éramos punidos e a palavra tilt surgia na tela. Tilt é palavra em inglês que pode ser usada como verbo ou substantivo e significa, em português, inclinar ou inclinação.

 

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Pegar o bonde andando acontece sempre que você entra em uma reunião de trabalho sem saber quais os assuntos que foram discutidos antes ou quando pega uma conversa no meio do caminho. Tinha a ver com os passageiros que subiam no bonde quando ainda estava em movimento, o que, apesar de perigoso, era possível pela velocidade com que andava pelas ruas. Vai me dizer que nunca ouviu falar em bonde? Era um tipo de transporte público comum que começou a rodar entre nós no século 19. Circulava sobre trilhos e era movido à eletricidade (chegou a ter tração animal e por meio de vapor), ou seja muito mais amigável do meio ambiente do que os ônibus à diesel que os substituíram. Algumas cidades ainda mantém este tipo de transporte. Eu só andei em um, aqui no Brasil, quando minha mãe me levou para fazer a última viagem de um bonde, em Porto Alegre.

 

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Vira o disco é o que costumávamos pedir para aquele colega que insistia em falar do mesmo assunto e, claro, a expressão está ligada aos tempos do vinil que tinha faixas musicais dos dois lados. Como ouvir disco em eletrola virou cult, a expressão vai perdurar – até porque gente chata que não troca de assunto está cheia nestes tempos de rede social. E como não quero estar nesta lista, termino a conversa por aqui lembrando apenas mais algumas expressões que me foram enviadas: chato de galocha, fazer a caveira da pessoa, tirar o chapéu, tirar o cavalo da chuva, beber na fonte, dar nó em pingo d’água, a casa caiu e tomei um pifão.

 

Fiquem à vontade para colaborar com esta lista.

Mais uma viagem de bonde pelo passado

 

Por Milton Ferretti Jung

 

No texto que digitei para este blog,na última quinta-feira,dia 1º de maio,os bondes de Porto Alegre foram o meu tema. Cheguei a imaginar que tivesse esgotado o assunto. Ao buscar algo para preencher o espaço de hoje,porém,dei-me conta de que estava enganado. Esses veículos, que saíram de moda há muito tempo, foram protagonistas de variados e saudosos episódios que começaram na minha adolescência e se estenderam até eu ter atingido a idade adulta.

 

No texto anterior sobre os bondes,quase chegando à conclusão,assinalei que os meus filhos,por iniciativa da Ruth,a falecida mãe deles,levou-os a passear no último que rodou nos trilhos do Menino Deus. Se não estou enganado, Jacqueline, Mílton e Christian,especialmente este – o caçula – talvez somente tiveram aquela última chance de viajar em um desses veículos. A data da despedida foi 8 de março de 1970. Os três,naquele tempo,iam para os respectivos colégios de Kombi.

 

Viajei vários anos de bonde no tempo em que estudei no Colégio Anchieta,então situado na Avenida Duque de Caxias. Quando passei para o Colégio Nossa Senhora do Rosário,ía de carro com o meu pai. Em 1954,com 18 anos,ainda estudante,fiz um teste na Rádio Canoas. Eram muitos os candidatos,mas só três foram aprovados pelos inesquecíveis examinadores,o Léo Ramos e o Hélio Assis. A emissora montou o seu primeiro estúdio em uma casa de madeira,que ficava na frente da torre de transmissão. A Canoas,depois,mudou-se para a Rua Moura Azevedo e,a seguir,estabeleceu-se na Avenida Eduardo,hoje Franklin Roosvelt. Aí,os bondes já não circulavam mais.

 

Bem antes disso,entretanto,comecei a namorar Ruth. O namoro começou em uma quermesse da paróquia do Sagrado Coração de Jesus. Eu era um dos locutores na Voz Alegre da Colina,serviço de alto-falantes graças ao qual animávamos as festas de uma igreja que começava a ser construída. Se é que alguém está lendo este texto,informo que,no meu namoro,os bondes voltaram a aparecer. Os pais da Ruth deixaram as proximidades da casa onde eu morava,mudando-se para a Rua do Parque. Era,então,o bonde São João que me levava,ida e volta,à casa da minha futura mulher. A linha era servida pelos “gaiolas”,bondes de tamanho menor do que os demais. Como eles se sacudiam muito,não era raro que descarrilassem. Uns e outros percorriam a Rua do Parque em toda a sua extensão e iam até o fim da linha.Eu viajava neles para ir da casa dos meus pais,onde morei até pouco antes de casar,até a da Ruth.

 

Eu usava esses bondes também para ir trabalhar na Rádio Canoas. Em 1958,fiz dois testes na Rádio Guaíba. Passei em ambos,mas não gostei do salário que Mendes Ribeiro,diretor de broadcasting,me ofereceu quando passei no primeiro. Pouco tempo depois,voltei à Guaíba. Aden Rossi,chefe dos locutores dessa emissora,testou-me novamente. Passei no exame e continuei a usar os bondes da linha São João para ir da 16 de Julho,onde vivi boa parte da minha existência,até a casa da Rua do Parque. Ruth e eu casamos em 1961 e,ainda sem ser proprietário de automóvel,ia e voltava num Floresta até o meu sonhado emprego em uma rádio de porte. O último bonde que usei foi o Menino Deus. Os ônibus,se comparados com os bondes,serviram-me muito pouco. Por isso,vou continuar tendo saudade dos bondes e lamentando que tenham ficado apenas na lembrança neste país em que a mobilidade urbana é cada dia mais precária.

 


Milton Ferretti Jung é radialista, jornalista e meu pai. Às quintas-feiras, escreve no Blog do Mílton Jung (o filho dele)

Um passeio de bonde

 

Por Milton Ferretti Jung

 

Há várias semanas,não mais que de repente,deu-me uma saudade danada do primeiro veículo de transporte público que conheci:o bonde. Quando,com bem menos de um ano de vida meus pais alugaram uma casa em Porto Alegre,na Rua Conselheiro Travassos,onde nós três,eles e eu,recém nascido,passamos morar,esta cidade já era servida por bondes. Não cheguei a conhecer esses veículos que,no início da sua existência eram tracionados por mulas, rodavam sobre trilhos de madeira que, mal sedimentados, produziam barulho insuportável e,pior do que isso,descarrilavam com frequência. Nasci em 1935. Somente em 1908 iniciou-se o tráfego dos bondes elétricos. Os primeiros bairros que percorreram foram Menino Deus,Glória,Teresópolis e Partenon. Até estar em idade de viajar sozinho nos que faziam,já então,as linhas Floresta e São João,passaram-se muitos anos.

 

Os dois primeiros nos quais me desloquei foram os que percorriam as duas linhas que acabei de citar. Ambas me levavam ao Colégio Anchieta,no qual estudei vários anos. O Floresta,quando chegava à parada que ficava na Rua Benjamin Constant,quase na esquina da São Pedro,em geral,estava lotado.O remédio era viajar,perigosamente,no estribo. É evidente que eu e os guris da minha idade,não nos importávamos de correr riscos. Cada viagem com bonde cheio era uma aventura apreciada por nós. O Anchieta ficava na Rua Duque de Caxias. Eu desembarcava do Floresta, na Praça 15 de Novembro,subia a Borges de Medeiros e a escada do viaduto. Na volta,fazia o caminho inverso. Era uma pernada e tanto.Com 11 anos,porém,ou pouco mais que isso,a gente resiste a muito mais.

 

Ao retornar para casa,muitas vezes dava preferência ao bonde São João,que tinha o terminal na Praça Parobé. Esse,tinha,no entanto,uma particularidade:ia do centro até a Rua São Pedro,esquina com a Farrapos. Dali em diante,havia apenas um trilho. Se existia um bonde na São Pedro com Floresta,o que visava seguir,tinha de esperar o retorno do outro veículo. Seja lá como fosse,quando o bonde acabava chegando ao fim da linha,os guris que viajavam nele corriam para trocar o engate desse ao cabo que o ligava ao fio que eletrificava a máquina.Os cobradores de passagens,de tanto ver a gente,ficavam amigos e nos deixavam fazer o serviço do qual eles eram os responsáveis.Outra coisa que fazíamos,era fazer de conta que estávamos no controle do bonde. A gente disputava a permanência na roda,que ficava ao lado dos controles do motorneiro e cuja função era frear o veículo em caso de emergência. Nunca fiquei sabendo que fosse necessário esse tipo de freio.

 

Os bondes da minha saudade,no distante ano de 1926,chegaram a alcançar mais de uma centena em circulação.Eles seguiram em operação durante décadas. Passaram,então,a ser substituídos por empresas de ônibus. Essas,na base do devagar se vai ao longe,foram tomando conta do promissor mercado que para elas se abriu. Porto Alegre chegou a aturar os Trolebus, ônibus elétricos que,entretanto, não deram certo. Problemas de voltagem e defeitos nos freios,desaconselharam. Convém lembrar que,na Europa,os bondes continuam rodando – e silenciosamente – facilitando a mobilidade urbana.

 

Jamais,imagino com pesar,voltarão a atividade. No dia 8 de março de 1970,o último deles circulou,com direito à solenidade de despedida. Por iniciativa de Ruth Muller Jung,a mãe dos meus filhos,esses viajaram,de graça,no último bonde de Porto Alegre.Vou encerrar o meu texto desta quinta-feira com um anúncio que a gente não podia deixar de ler nos nossos bondes.Que os meus netos não se espantem com o arcaico português da propaganda:

 

Veja illustre passageiro
O bello tipo faceiro
Que o senhor tem a seu lado…
E,no entretanto,acredite
Quase morreu de bronquite,
Salvou-o o RHUM CREOSOTADO.

 

Milton Ferretti Jung é radialista, jornalista e meu pai. Às quintas-feiras, escreve no Blog do Mílton Jung (o filho dele)

Conte Sua História de SP 460: o bonde que levava à zona do meretrício

Por Antonio Favano Neto

 

 

Estudava no Liceu Coração de Jesus, nos Campos Elíseos, e morava no Alto da Mooca. Para estudar, ia de de ônibus cujo ponto inicial era na rua do Oratório com Fernando Falcão e o ponto final, na praça Clóvis Bevilacqua. Caminhava até o Largo do Tesouro e tomava o bonde Júlio Conceição, próximo do Liceu, porém muito mais perto da zona do meretrício, que existia oficialmente em São Paulo: as famosas ruas Iaboca e Aimorés, hoje o maior centro comercial de confecções do Brasil. O mais curioso é que o bonde saía do Largo do Tesouro apinhado de homens nos estribos, completamente lotado, e ao chegar no segundo ponto de parada, na rua José Paulino, parecia que a tropa de choque da antiga Força Pública com seus meganhas prenderia a todos. Não ficava um passageiro nos estribos, desciam correndo como crianças para dentro da zona.

 

Quando o dinheiro dava, eu pegava o ônibus Estações que fazia o rodízio das estações do Norte, Sorocabana e Luz, fazendo um contorno por todo o centro expandido de São Paulo da época. Defronte a Caixa Econômica Federal, ao lado do relógio da Praça da Sé, saía o ônibus circular Linha 1, que passava pelo Largo São Bento, Paissandu, Viaduto do Chá, Largo São Francisco, Praça João Mendes e Sé. Eram ônibus americanos de última geração, Thin Coach, com breque a ar que fazia barulho ao ser acionado, que mais parecia um aviso aos pedestres: estou perto, cuidado.

 

Das coisas mais pitorescas, eram as mães que acordavam de madrugada para levar os filhos na rua do Gasômetro para as crianças respirarem a fumaça do gás que saía dos bueiros. Na rua Santa Rosa existia o trenzinho da Companhia de Gás de São Paulo com cinco vagões, que partia do Largo do Pari com destino à rua da Figueira para descarregar o carvão que chegava da Europa, via Porto de Santos. Isto tudo na contra-mão do trânsito.

 

Antonio Favano Neto é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você também mais um capítulo da nossa cidade, mande seu texto para milton@cbn.com.br ou agende entrevista no Museu da Pessoa pelo e-mail contesuahistoria@museudapessoa.net. Outras histórias de São Paulo você encontra no meu blog, o Blog do Mílton Jung

 
 
 
 

Conte Sua História de SP: do cheiro de café na padaria à serração

 

Lia Araujo
Ouvinte-internauta da CBN

 

 

 

Tenho muito carinho em falar sobre a São Paulo querida dos paulistanos! Sempre que penso sobre minha cidade natal tenho um sentimento relacionado à infância. Acordando cedinho em casa, sentia o cheirinho  do café de coador e do filão de fresquinho da padaria mais próxima. Acompanhando minha mãe à feira livre, abarrotada de pessoas apressadas e feirantes animados. Parando na banca de pastel com garapa. Aos domingos, vendiam até frangos e pintinhos vivos.

 

Sou do tempo que era possível atravessar tranquilamente a praça da Sé ou o Vale do Anhangabaú ou a Praça do Patriarca, mesmo em altas horas da noite sem medo. Sim, São Paulo já foi uma cidade tranqüila durante à noite. Antes do metrô, os ônibus eram seguros e em número suficientes, também. A população era apenas a metade da atual.

 

Todas as manhãs e no inverno à noite, por conta da densa vegetação,  havia serração, às vezes acompanhada de garoa, a famosa garoa que caiu no esquecimento, após o advento da poluição proveniente de tantas indústrias e veículos. As indústrias já estão se diluindo pelo interior; enquanto os carros aumentam cada vez mais em número e modelos variados. Até o bonde agora é motivo de folclore na lembrança dos cinqüentões.

 

Impossível lembrar-se de São Paulo sem falar dos inúmeros migrantes e descendentes de imigrantes. Havia o bairro dos italianos, dos japoneses, dos árabes, dos judeus, dos libaneses, dos portugueses. Muito interessante como essa gente miscigenou-se e transformou São Paulo nesta terra tão pródiga para todos. A megalópole de milhões de habitantes. A cidade que não pára, não dorme, não cala.

 

Prezo em manter esta memória que passo para os jovens, divido com eles todo o encanto que um dia me proporcionou esta São Paulo.

 

Lia Araujo é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você também mais um capítulo da nossa cidade: agende entrevista em áudio e vídeo no Museu da Pessoa pelo e-mail contesuahistoria@museudapessoa.net. Ou envie seu texto para milton@cbn.com.br.

Conte Sua História de SP: Os bondes elétricos

 

Os bondes elétricos eram grandes atrações nos anos de 1940, em São Paulo, e incentivaram Manoel Rodrigues da Cruz a trocar a roça pelo sonho de ser motorneiro. No depoimento gravado pelo Museu da Pessoa e que fez parte da série do Conte Sua História de São Paulo, em homenagem aos 458 anos da cidade, Manoel relembra este momento. Ele nasceu em Pernambuco de Triunfo, em 1926.

 

Ouça o depoimento de Manoel rodrigues da Cruz, sonorizado pelo Cláudio Antônio

 

O Conte Sua História de São Paulo vai ao ar no CBN São Paulo, logo após às dez e meia da manhã. Para você participar deste quadro, mande seu texto para milton@cbn.com.br ou agende uma entrevista em áudio e vídeo no Museu da Pessoa.

Conte Sua História de SP: Piquenique na Vila Galvão

 

No Conte Sua História de São Paulo, o texto do ouvinte-internauta Mauro de Souza Praça:

Ouça este texto sonorizado pelo Cláudio Antônio

Nasci no dia 3 de janeiro de 1920 no bairro da Luz, cidade de São Paulo, na rua Benedita Sá Barbosa, que fica localizada perto da rua São Caetano e de quartéis da ex-Força Pública do Estado de São Paulo, hoje Polícia Militar.

Na segunda metade da década de 1930, os clubes Tietê, Espéria e Floresta ficavam no mesmo local de hoje. Só que o Tietê era um rio de água limpinha, e em suas margens havia centenas de abrigos onde os associados desses clubes guardavam seus barcos. Aos sábados e domingos, rapazes e moças colocavam os barcos na água e passeavam pelo rio afora na maior alegria. O povão que não tinha esse privilégio conformava-se em apenas apreciar. Mas que era bonito isso era. Ver os barcos todos pintados de cores bem vivas, cheios de rapazes e moças. Ficávamos a tarde toda os apreciando. Quando recolhiam, três ou quatro rapazes traziam os barcos nos braços e os penduravam no abrigo correspondente. Só quem tinha esse privilégio eram pessoas da classe alta, porque era muito cara a matrícula e a mensalidade dos clubes. Nós só os olhávamos “com os olhos e lambíamos com a testa”, aquele prazer impossível para nós pobres mortais.

O rio Tietê também oferecia peixes. Suas margens ficavam cheias de pescadores sentados nos barrancos, e havia, no rio, muito lambari, cará e traíra. Ali onde hoje passa a linha do metrô, havia uma grande ponte de ferro que atravessava o rio de um lado a outro, por onde passava o trenzinho da Cantareira que fazia o trajeto do bairro do Tucuruvi à Rua João Teodoro (bairro da Luz). Era um trem tocado a carvão e seus usuários eram identificados porque tinham paletó todo furadinho nos ombros e no peito. Isso porque, ao tomar o trem, muitas vezes não era possível entrar no vagão, portanto ficava-se na plataforma, então, quando o trem acelerava um pouco mais para se locomover, caía “chuva” de brazinhas em cima de quem estava na plataforma e a roupa ficava como uma peneira. Para quem usava chapéu a coisa era pior, porque este durava no máximo um mês.

Falando em trem, o fato me fez lembrar que, aos domingos, o passeio da maioria dos paulistanos era ir a Santos de trem, ou embarcar no trenzinho da Cantareira para fazer piquenique em Vila Galvão. Falo trenzinho porque, de fato, era um trem pequeno mesmo. Eu participei de muitos desses piqueniques. Aos domingos, na parte da manhã, os trens saíam lotados. O maior número de passageiros era de rapazes e moças. Eu sempre estava com um ou dois amigos.

Nossa tática era a seguinte: fazíamos uma pesquisa ao ver passarem as famílias carregando a cesta de guloseimas. Íam famílias inteiras: mãe, pai, avós, criançada. Então, nós escolhíamos uma família com muitos membros, porque estas levavam grandes provisões. Também considerávamos a presença de garotas entre elas. Dava-se um jeitinho, já no trem, de iniciar amizade com as garotas. Descíamos em Vila Galvão que era um lindo lugar cheio de árvores floridas, de mesinhas e bancos próprios para piquenique. Havia também um belo lago de águas cristalinas onde as pessoas podiam nadar à vontade, enfim era um paraíso.

Como ia dizendo, pegávamos amizade com as mocinhas de determinada família e ficávamos por ali conversando. Sempre havia um rádio de pilha para nos animar. Às vezes até ocorriam bailes sobre a grama. Quando chegava a hora do almoço, as moças nos convidavam para tomar parte do lanche junto com a família. A dona do lanche estendia um grande pano branco sobre o chão e colocava sobre ele cuscus, coxinhas, bolinhos, etc… assim, nós passávamos um pouco melhor aos domingos. Isso era todo domingo, nunca deu p’ra repetir as garotas e suas famílias.

Para participar do Conte Sua História de São Paulo, envie um texto para milton@cbn.com.br ou marque uma entrevista que será gravada em áudio e vídeo no site do Museu da Pessoa. O Conte Sua História de São Paulo vai ao ar, aos sábados, às 10 e meia da manhã, no CBN SP.

Conte Sua História de São Paulo: O frappé do Jeca

 

Maria Aparecida Aggio

Com dois anos de idade, Maria Aparecida Aggio chegou a São Paulo e foi morar no bairro de Higienópolis, na zona oeste. Veio de Pirassununga no interior e conheceu alguns dos melhores sabores da cidade, a começar pelo frappé do bar do Jeca, na avenida São João. Do bonde às enchentes, Dona Aggio viveu de tudo um pouco na capital e não se cansa de contar suas histórias. Ela gravou seu depoimento para o Museu da Pessoa, durante a festa de aniversário de São Paulo promovida pelo CBN SP, no Pátio do Colégio.

Ouça o depoimento dela, sonorizado pelo João Amaral e editado pela Juliana Paiva

O Conte Sua História de São Paulo vai ao ar, aos sábados, às 10 e meia da manhã, dentro do CBN SP. Você pode gravar seu depoimento em áudio e vídeo agendando uma entrevista no site do Museu da Pessoa. Se preferir, mande um texto e conte mais um capítulo da nossa cidade.

A Independência do Brasil e o ônibus no País

 

Revista de 1962, coloca o primeiro auto ônibus nacional e o primeiro trólebus brasileiro numa mostra de evolução dos transportes coletivos

Por Adamo Bazani

Cópia de Revista Quatro Rodas - 07 1962Apesar das grandes dificuldades e problemas que envolvem o setor de transportes no Brasil, uma coisa é inegável: a produção e os serviços de ônibus no Brasil evoluíram muito. Os primeiros ônibus brasileiros eram puxados por animais. Isso mesmo. Não eram os ônibus como são conhecidos agora, mas já eram veículos de transportes coletivos, chamados de OMNIBUS, termo que significa Paratodos e que resume bem o papel destes veículos que não são apenas automóveis, mas agentes sociais, de integração econômica e, com boa imagem ou não, fazem parte do cotidiano de milhões e milhões de pessoas há mais de um século.

E a história dos ônibus no Brasil tem tudo a ver com a Independência do País, proclamada por D. Pedro I, em 7 de setembro de 1822. É que com a vinda da família real portuguesa ao Brasil, que trouxe consigo 25 navios mercantes, fugindo em 1808 das ameaças de invasão francesa, milhares de pessoas que trabalhavam para os portugueses desembarcaram no Brasil.

Com a cultura e modo de vida mais urbano, a vinda dessas pessoas significou uma transformação na paisagem dos povoamentos e cidades. Novas atividades econômicas para manter o padrão de vida da realeza e atender os funcionários surgiam no Brasil e as necessidades de deslocamentos de cargas e mercadorias também. Mesmo com o retorno de parte da família real para Portugal, uma máquina estatal e econômica que compreendia serviços, comércio e manufaturas já estava instalada.

Com a Independência, essa nova realidade urbana brasileira se torna mais forte.

Tanto os súditos de D. Pedro como os plebeus e primeiros comerciais e industriais (para os padrões da época) viviam em áreas que aumentavam de tamanho com atividades econômicas mais intensas.

Transportar era preciso, principalmente no Rio de Janeiro, onde toda essa novidade social e econômica aflorava.

E foi justamente no Rio de Janeiro que se tem o primeiro registro oficial do serviço de ônibus no Brasil. Em 1837, Jean Lecoq importou de Paris um Omnibus, que veio com esta nomenclatura. As dimensões do veículo impressionavam: uma estrutura de madeira grande, com 4 rodas de borracha com dois andares. Tudo puxado pro 4 cavalos. O serviço agradou tanto que em 14 de setembro de 1837 D. Pedro I criou um decreto real autorizando o funcionamento de Omnibus.

Nasce então, a primeira empresa de ônibus do Brasil “Companhia de Ônibus”, criada por Aureliano de Sousa e Oliveira Coutinho, Paulo Barbosa da Silva, José Ribeiro da Silva, Manoel Odorico Mendes e Carlos Augusto Taunay, este último, agente e negociador da empresa.

A primeira viagem aconteceu em julho de 1838. Os primeiros serviços ligaram a região central da cidade do Rio de Janeiro a Botafogo, Engenho Novo e São Cristóvão. Mais tarde os ônibus entraram em declínio por causa do surgimento dos transportes por trilhos: bonde e trens.

Em 1908, na ocasião dos festejos dos 100 anos da vinda da família real portuguesa,  o empresário Octávio da Rocha Miranda aproveita a demanda maior de pessoas que precisavam de deslocamento no Rio de Janeiro e importa um ônibus a gasolina de mecânica Daimler  e carroceria francesa. Foi o primeiro ônibus com motor no Brasil.

As cidades crescem e os bondes não dão conta do número de passageiros. Nos anos de 1920, iniciam-se os maiores negócios com ônibus. Em 1924, a Grassi faz a primeira carroceria brasileira produzida em linha: chamada de Mamãe Me Leva. Os ônibus elétricos começam a ser produzidos no Brasil em 1958, também pela Grassi.

Uma reportagem da Revista Quatro Rodas, de 1962, consegue um feito, não mais possível hoje, colocando lado a lado o primeiro trólebus nacional ao lado do primeiro ônibus (veja acima).

Uma imagem a ser eternizada.

Adamo Bazani é jornalista da rádio CBN, busólogo e escreve no Blog do Mílton Jung

Santo André, 457 anos contados a bordo do ônibus

 

Neste 8 de abril, a cidade de Santo André, no ABC Paulista, completa 457 anos, e o “Ponto de ônibus” inicia uma série de reportagens sobre a influência do transporte de passageiros para o desenvolvimento desta região, uma história que começa no trilho do trem, em 1867.

FOTO 2 - Paranapiacaba no final dos anos de 1890

Por Ádamo Bazani

O ABC Paulista não se tornaria um gigante populacional e econômico não fosse o sistema de transporte público. Até a segunda metade do século 19, a região tinha pequenos núcleos de moradias tipicamente agrícolas com áreas plantadas e criação de animais. Época em que o cultivo de café reinava absoluto na economia do estado de São Paulo.

A grande dificuldade dos produtores, também exportadores, era escoar a produção para o Porto de Santos, no litoral paulista. Problema solucionado com a construção da ferrovia Santos-Jundiaí, linha que passava pela Capital e ABC. Interligação ferroviária que nasceu com Irineu Evangelista de Sousa, o Barão de Mauá, em 1859.

Após convencer o governo imperial, o Barão levou o projeto a um dos maiores especialistas em ferrovia do mundo, o engenheiro britânico Jaime Brunlee, que veio ao Brasil e constatou a viabilidade da proposta. Era necessário, porém, encontrar uma pessoa disposta a desenvolver tecnicamente o traçado e a forma de operação desta ferrovia. Encontraram o engenheiro Daniel Makinson Fox que já tinha experiência em implementação de ferrovias em áreas de serra – importante pois a partir de Paranapiacaba a linha enfrentava pedaço íngreme da Serra do Mar. Desafio aceito, foi criada The São Paulo Railway Company Ltda (SPR) e as obras se iniciaram a todo vapor.

No alto da serra, a Vila de Paranapiacaba servia de acampamento para os operários. A ferrovia foi feita pelas mãos de milhares de trabalhadores, muitos perderam a vida devido às instabilidades do terreno. As rochas eram abertas com cunhas e pregos. Encostas desabaram e para evitar desastres maiores foram levantados paredões de até 20 metros de altura.

Depois de muita luta e de uma engenharia inovadora para os padrões da época – e surpreendente até os dias de hoje -, a linha Santos-Jundiaí foi inaugurada, em 16 de fevereiro de 1867.

A alta demanda de transportes gerada pelo café fez com que em 1895 se iniciasse a construção de uma nova linha, paralela a antiga. E foi nesta época que a região ainda não batizada de ABC Paulista começava a mudar. A ferrovia, além de levar café, atraiu estrutura e desenvolvimento urbano. O governo provincial criou colônis agrícolas nas áreas servidas pela estrada de ferro. Com os agricultores vieram comerciantes, loteadores, artesãos e operários.

A freguesia de São Bernardo, que correspondia a quase toda área atual do ABC, é elevada a município, pelo Governo Republicano, entre 1889 e 1890. Empreendimentos industriais passaram a ocupar a região mudando o perfil rural. Em 1890, perto do córrego Ypiranguinha, na área de Santo André, é inaugurada a tecelagem Silva Seabra e Co. Logo em seguida, veio a Streiff, fabricante de móveis, na região da Rua Coronel Oliveira Lima.

As indústrias também cresciam na Capital. Os terrenos próximos das fábricas se valorizavam muito e a maioria das pessoas que chegava a São Paulo e vizinhança não tinha dinheiro para comprar lotes perto dos pólos geradores de renda. A opção foi buscar cidades no entorno da Capital.

As áreas atendidas pelos trens, como a estação de São Bernardo (hoje, estação Prefeito Celso Daniel, de Santo André), recebiam uma estrutura diferente da época predominantemente agrícola. Tais locais também se valorizavam e somente empresas ou famílias ricas conseguiam comprar os terrenos. Os núcleos populacionais tipicamente urbanos se afastavam das linhas do trem. Os bairros surgiam cada vez mais distantes da Villa e da estação de São Bernardo. A necessidade de transporte ligando estes bairros ao centro, às linhas de trem e à capital era um fato.

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