De borborleta

 

Por Maria Lucia Solla

 

 

Todo mundo que fala português usa, usou ou vai usar, a expressão matar a saudade. Pois eu, que tenho precisado dar conta dela em muitos dos seus nuances, de diferentes ângulos, me dou conta de que matar a saudade não traduz realidade, mas sonho.

 

saudade é impalpável
invisível incontrolável
imortal
não há como
matar

 

saudade
é o não perceber
presença
na
ausência

 

Bom seria não sentir saudade, para não ter que ficar espantando a danada o tempo todo. Ela chega chegando e entra em atrito com os pensamentos da gente e manda fagulhas ao contrário, do telhado para a fornalha, da cabeça para o estômago. Não dá para evitar a saudade, mas também não dá para resistir a chocolate, e a gente até resiste de vez em quando. O bom seria não sofrer com ela, mas ouvir o que tem a dizer e para que caminho aponta. Apesar de que noventa e nove por cento das vezes ela aponta para o caminho errado, do passado, do previsível matematicamente, sem saída. De qualquer modo, decidi mudar a expressão para espantar a saudade, em vez de matar. Nem que seja só para diminuir a violência expressa no pacote.

 

a gente
cai na real
e entende
finalmente
que ela é imortal
e que
não adianta
tentar
a saudade matar

 

E seguindo a pista do matar a saudade, encontro matar a sede e matar o tempo. Nesses casos vou manter o matar.

 

não vejo razão nenhuma
para
da sede arrancar
a morte
é evitar
que cresça
firme
e forte

 

quanto ao tempo
quem sou eu
para emitir opinião
nem sei
se
sou eu que vivo nele
ou
ele é que vive em mim

 


Maria Lucia Solla é professora de idiomas, terapeuta, e realiza oficinas de Desenvolvimento do Pensamento Criativo e de Arte e Criação. Aos domingos escreve no Blog do Mílton Jung

Vida na cidade: devagar com o andor porque o santo é de barro

 

Texto publicado originalmente no Blog Adote São Paulo, da revista Época São Paulo

 

Plataforma no metro Barra Funda

 

Há uma semana, véspera de feriado de Nossa Senhora Aparecida, quando milhares de pessoas voltavam para casa um homem sacou arma em um túnel da Estação da Luz do metrô, no centro de São Paulo, e causou confusão generalizada. Em pleno horário de pico, passageiros correram nos corredores superlotados, caíram nas escadas, abandonaram bolsas, sapatos e celulares. Na confusão, grades que servem para organizar o fluxo de passageiros caíram no chão e provocavam estampidos que lembravam tiros. O som ecoava na estação e passava a ideia de que ocorria um tiroteio no local o que aumentou o pânico. Passageiros caíram nos trilhos, o que obrigou o metrô a parar as operações por mais de meia hora. Programas de televisão assim que receberam os primeiros relatos de dentro da estação passaram a noticiar o suposto tiroteio, o que gerou outra onda de boatos, pois usuários que estavam na estação e não sabiam o que acontece recebiam ligação telefônica de parentes que assistiam às emissoras. E o terror aumentava.

 

Apenas depois da intervenção policial e dos ânimos se acalmarem pode-se ter ideia do que havia acontecido dentro da estação mais movimentada do sistema de transporte de trilhos de São Paulo. Um homem esbarrou em uma mulher, em meio a pressa de um sem-número de passageiros que buscavam seu destino ao fim de mais de um dia de trabalho. A cena deve se repetir a todo momento, pois é praticamente impossível caminhar nos túneis da Estação ou quando se aguarda a chegada dos trens nas plataformas. Conforme relato de um policial, publicado no jornal O Estado de São Paulo, “um homem tentou defender a mulher e deu um soco no rapaz que começou a briga. Uma quarta pessoa sacou uma arma. Aí, todo mundo tentou correr no túnel lotado”.

 

Nenhum tiro chegou a ser disparado, mas a desavença foi suficiente para que os boatos e o desespero se disseminassem. O acontecimento me chocou, mesmo que mortes não tenham ocorrido, pois expôs o risco que estamos expostos por vivermos em bandos na cidade. Cenas do cotidiano, como um esbarrão em outra pessoa, uma freada mais brusca no ônibus ou a buzinada de alerta do carro podem provocar o que a cultura popular chama de efeito borboleta, no qual o bater de asas de uma frágil borboleta poderia influenciar o curso natural das coisas e provocar um tufão do outro lado do mundo. Um movimento brusco na estação de metrô causou pânico e por pouco não se transformou em tragédia devido a nossa intolerância, impaciência e pressa que nos impede de agir com consciência.

 

Numa hora como essa lembro de minha mãe tentando falar mais alto do que eu e meus irmãos envolvidos em uma algazarra qualquer: “devagar com o andor porque o santo é de barro”.