Avalanche Tricolor: O nosso Top 10

 

Atlético MG 1 x 2 Grêmio
Brasileiro – Sete Lagoas (MG)


Terminado o jogo, a televisão já mostrava a tabela de classificação ao fim da 25a rodada. E o nome do Grêmio aparecia na primeira tela, raro nesta temporada atribulada. É o décimo colocado, ou seja, estamos na metade de cima da competição. Longe do que pretendemos. Muito além do que havia até bem pouco tempo.

Mais importante, porém, para quem está sempre atento aos pequenos gestos que possam ter grandes significados, ao fim da partida, foi a maneira como o grupo de jogadores se comportou. O abraço coletivo e o cumprimento sincero entre eles demonstraram o quanto estão convictos neste instante de que têm potencial para ir ainda mais longe.

E os resultados mostram isso.

Neste segundo turno, temos a melhor campanha dentre todos os demais concorrentes e com três vitórias seguidas fora de casa, uma mudança que impressiona mesmo os mais deslumbrados torcedores.

Quando me referi ao Top 10 no título desta Avalanche, no entanto, não tinha a intenção de falar sobre nosso lugar na tabela, mas sobre o nosso número 10. Douglas é diferenciado e conseguiu driblar a aparente falta de compromisso com a bola e o preparo físico. Tem um pé esquerdo de dar inveja e experiência suficiente para manter o time no seu lugar.

Enquanto todos estão correndo, querendo se livrar da bola o mais rapidamente possível, ele está em busca de um espaço livre no campo, com o braço em pé, querendo recebê-la. E quando esta chega nele, costuma sair redonda até um companheiro melhor colocado, como fez no segundo gol, o de Gabriel.

Sua transformação com o time é tal que hoje foi capaz de correr para marcar e roubar bolas. Foi dele pelo menos duas das 40 roubadas feitas pelo Grêmio nesta partida.

Douglas não se esforça para ser simpático. Tem cara de galã de novela mexicana. Usa um topete que lhe oferece um ar de desleixo. Está sempre com a barba mal-feita. Parece não reconhecer a história do clube que representa. Mas é um grande jogador.

Mesmo com Vitor mais uma vez sendo um gigante no gol – e penso o que será de nós com ele na seleção – e Jonas seguindo sua caminhada para além do topo da tabela de goleadores, não poderia deixar de registrar, em mais esta sofrida vitória, a importância do nosso TOP 10.

Avalanche Tricolor: E tudo começou com um carrinho

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Grêmio 2 x 2 Flamengo
Brasileiro – Olímpico Monumental

No grupo de jornalistas esportivo, um deles era gremista de quatro costados. E na roda o tema era o Grêmio, lógico. Assim que me aproximei, meu conterrâneo foi definitivo: “É consenso, Douglas e Souza não podem jogar juntos”.

Como entendo muito pouco das estratégias de jogo, das formações táticas, do estilo de cada um em campo e das combinações possíveis, e enxergo as partidas de meu time pelo coração, neguei-me a compactuar com aquela conspiração: “Não vejo problema nenhum – desde que joguem”, complementei.

O toque rápido de Souza que deixou Douglas em condições de marcar o primeiro gol do Grêmio me fez lembrar o diálogo de ontem à noite. O que devem ter pensado aqueles especialistas em futebol. Talvez preferissem outro qualquer em campo, como se estivéssemos com gente sobrando no elenco.

Douglas e Souza podem jogar juntos, sim, desde que joguem.

Hoje, enquanto os dois estiveram no time, estávamos na frente, graças, aliás, a outra bola de Souza que encontrou André Lima e rebateu nos pés do goleador Jonas. Aliás, André e Jonas também podem jogar juntos desde que façam os gols necessários. Nem sempre conseguem.

A propósito, depois que Souza saiu, Douglas não conseguiu jogar mais.

Conto toda está história, mas não posso deixar de citar o mais importante. A TV pouco destaque deu, na vez que mostrou parece ter sido sem querer, pretendia chamar atenção para outra coisa. Mas a crônica deste jogo começou com um carrinho de Adílson na intermediária que não se limitou a roubar a bola do adversário, serviu-a para Souza e o resto você já sabe.

Vamos precisar de muitos carrinhos de Adílson e companhia para seguir em frente.

Avalanche Tricolor: Por estes nossos feitos

 

Avaí 0 x 3 Grêmio
Brasileiro – Florianópolis (SC)

Bandeira do RS e do Grêmio

É momento de comemorar. Desfilar orgulhoso por nossos feitos. Andar pelas ruas – seja na capital, Porto Alegre, seja nas cidades do interior, seja onde você estiver – com a cabeça erguida de quem nunca desistiu mesmo quando a derrota parecia definitiva, de quem sempre viveu na busca da vitória.

O Rio Grande do Sul vai parar. E está decretado feriado. para que se possa fazer festa para todos os lados.

Calma lá, caro e raro leitor. Não me considere um alucinado pelos parágrafos que abrem este post.

Você deve achar que é deslumbramento demais para apenas uma vitória gremista. Bem verdade que esta não é uma vitória simples. O Grêmio goleou na casa do adversário. E que goleada !

Uma vitória que se iniciou nas mãos de Vítor em dois momentos que poderiam ser decisivos no primeiro tempo. Que passou pelo desarme (e armação, também) de dois volantes que tomaram conta do jogo, Rochemback e Adílson – mais uma vez Adílson foi grande em campo. Que teve a qualidade do passe de Douglas para fazer diferença. E que se completou no talento e oportunismo de nossos atacantes, em especial Jonas.

Vá ver o primeiro gol dele, o drible que deu em seus marcadores, a maneira como deixou um deles caído no chão, o olhar voltado para o gol e o chute certeiro. No segundo, valeu o desejo de ser goleador. Deslocou-se para receber dentro da área e mesmo marcado abriu espaço para chegar a artilharia do Campeonato Brasileiro.

Foi muito bom, também, ver André Lima raspar a bola de cabeça em direção ao gol, em meio a uma montoeira de marcadores, depois de ser lançado lá da intermediária, ao velho estilo gremista. Quem sabe nosso atacante não desencanta !

Apesar de todos estes feitos e minha alegria em fechar este domingo respirando aliviado ao olhar a tabela de classificação, as palavras que marcam a abertura deste post se referem a outro momento significativo para quem nasceu no Rio Grande do Sul.

É que amanhã, dia 20 de setembro, é o Dia do Gaúcho, quando se realiza desfile para lembrar as batalhas da Revolução Farroupilha, das mais extensas rebeliões que o País já teve. Uma guerra que não tinha na sua origem o caráter separatista mas, sem dúvida, uma indignação contra injustiças do poder central.

Sendo assim, parabéns a todos os gaúchos – em especial aos gaúchos gremistas.

Avalanche Tricolor: Um time dos sonhos

 

Grêmio 1 x 2 Palmeiras
Brasileiro – Olímpico Monumental

bandeira-gremio-preto-branco

– O que é ser gremista ?

– É ser imortal – e ser imortal não é não perder, é nunca desistir.

A pergunta me foi feita pelo jornalista Rafael Alaby da rede social KiGol no fim da tarde de hoje, que preparava reportagem especial em homenagem aos 107 anos do Grêmio, completados neste dia 15.

Antes, pediu para que eu relacionasse o melhor Grêmio de todos os tempos. Foi daí que lembrei de lista que tinha preparado há alguns anos encomendada pela Revista Placar, baseada única e exclusivamente na minha paixão, nunca na razão. Alguns nomes se não são unânimes, se encaixam sem dor em qualquer dos times preferidos do torcedor gremista. Outros, certamente serão relegados. Azar de quem não gosta, como este é um time dos sonhos, nos meus estes jogadores eram craques, cada um a seu modo

No gol, Lara – lenda não se discute, se admira

Dentro da área, Airton – prova de que há vida inteligente na terra dos zagueiros; e Ancheta – para fazer justiça a quem a história não foi justa.

Nas laterais, Eurico – autor do carrinho ético, rapava a bola com elegância; e Everaldo – único jogador a se transformar em estrela de uma bandeira.

O meio de campo é ocupado por Vitor Hugo – pois volante de conteção que se preza marca bem e não marca gol; Iúra – nenhum outro chorou abraçado comigo por uma derrota tricolor; e Ronaldinho – genial, magnífico, espetacular, o melhor do mundo, etecetera e tal

O ataque tem Renato – pelo Mundial alcançado; André Catimba – dei cambalhota com ele para comemorar meu primeiro título gremista; e Loivo – o Coração de Leão foi o melhor ponteiro esquerdo do mundo no meu imaginário infantil.

Para comandar esta seleção, Ênio Andrade – estrategista, inteligente, ético e meu padrinho.

Completando a enquete, o repórter quis saber qual o jogo marcante e não titubiei ao dizer que foi a final do Campeonato Gaúcho de 1977, que assisti em um Olímpico completamente tomado pelo mesmo amor que levou a torcida a lotar as arquibancadas na noite desta quarta-feira.

Aliás, enquanto assistia ao jogo de hoje imaginava se ali haveria alguém capaz de desbancar algum dos ídolos do meu time ideal. Tínhamos Vítor no gol que impressiona e motiva, mas está na função de alguém insubstituível. Renato estava lá, porém com um papel que não lhe cabe muito bem. Felipão também estava, mas, infelizmente, no lado errado.

De verdade mesmo, do meu time sonhado apenas a torcida e a nossa Imortalidade, testada toda vez que esta equipe entra em campo.

Avalanche Tricolor: Carta à Dona Dirma

 

 

Corinthians 0 x 1 Grêmio

Brasileiro – Pacaembu (SP)

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Dona Dirma,

Como está a senhora ? Imagino que tenha tido um sábado bastante agradável, apesar da chuva forte em Porto Alegre.

Confesso que eu andava preocupado com a senhora, desde que seu filho me encontrou há pouco mais de uma semana e falou de um telefonema que a senhora havia feito para ele. Disse que não estava muito bem, voz baixa, um pouco triste, incomodada com o desempenho do nosso time.

Seu filho também não parecia muito legal. O baixo astral da mãe e os resultados do time dele – que não é o mesmo que o nosso – estavam deixando-o cabisbaixo, apesar do sucesso no trabalho que realiza aqui em São Paulo.

Em meio a um encontro de autoridades e especialistas, ele interrompeu o almoço e veio até minha mesa. Pegou-me pelo braço e me perguntou: “O que eu digo pra minha mãe ? O que está acontecendo com o Grêmio ?”. Nem tanto pela surpresa da pergunta, muito mais pelas coisas que aconteciam em campo (e fora dele), fiquei sem resposta. Ao menos, sem resposta convincente.

Lembro que ensaiei algumas possibilidades como a falta de organização do time, jogadores pouco engajados, gente não muito preparada para tomar as decisões e crença de mais na mística de nossa camisa. Nenhuma delas, porém, foi apresentada com a segurança que o momento solene exigia.

Saí daquele encontro pensando na senhora e no seu filho. É triste a gente não ter uma palavra de consolo para a mãe, ou um pensamento animador, ou um gesto capaz de oferecer esperanças de melhora.

Cheguei a começar uma carta para lhe explicar o que vinha acontecendo. Ou o que eu achava que vinha acontecendo. Deletei antes do primeiro parágrafo nas duas vezes. É Dona Dirma, agora as cartas são deletadas, não mais rasgadas como antigamente.

Pensei comigo: tem que haver algum sinal, um momento mágico capaz de virar as coisas a nosso favor; quem sabe um lance que me anime a escrever para a senhora sem que meus olhos fujam dos seus como fazem os meninos que contam lorota.

Fim de semana passado, quando fizemos o gol de empate contra o Botafogo no finzinho do jogo, cheguei a me entusiasmar. Mas resolvi esperar um pouco mais. Nesse meio de semana quando vencemos o Guarani em casa, achei que estava bom, mas ainda não era o ideal.

Hoje, Dona Dirma, a magia se realizou diante de nós. E logo aqui em São Paulo, onde seu filho trabalha há tanto tempo. Bem pertinho dele, para que tivesse oportunidade de pegar o telefone e contar à senhora de viva voz: “Mãe, eu vi !”. Sei lá se ele já teve tempo para ligar para sua casa nesta noite de sábado. Ou vai esperar o Palmeiras dele jogar amanhã.

Mas eu não tive dúvida de que o momento para lhe escrever era esse.

E comecei a pensar nestas linhas no momento em que Douglas carregou a bola em direção a defesa corintiana. A forma como ele conduziu a jogada, a maneira como se deslocou e apareceu diante do gol adversário, o movimento que fez para chutar longe do alcance do goleiro e a rede estufando no estádio do Pacaembu foram demais para mim.

Comemorei como nos tempos de menino, sozinho no meu quarto, com uma satisfação quase rídicula, distante de todos da casa, mas pensando na forma como a senhora deveria estar feliz, também, aí em Porto Alegre. Repeti os gestos e sentimentos ao assistir ao Vitor se esticar todo naquele cobrança de penâlti. E guardada suas dimensões, festejei cada despachada de bola de nossa área para segurar um time centenário e forte como é o Corinthians com apenas 10 em campo.

No apito final de um jogo interminável corri para o computador para lhe escrever. Hoje eu teria algo verdadeiro para lhe dizer. Uma resposta sincera, encorajadora, que a levasse a continuar acreditando no nosso Grêmio.

Pois agora que estou diante do computador fico pensando se ainda preciso lhe dar alguma explicação ou se seu filho precisa telefonar para lhe contar como foi esta vitória heróica, depois de tudo que o rádio já contou.

A senhora e seus 87 anos de torcedora gremista sabem mais do que ninguém o que acontece com o nosso time, o que nos leva a sofrer tanto um dia e vibrarmos como loucos no outro. Sabe quantos momentos de provação tivemos de enfrentar nestes 107 anos de história.

Dona Dirma, como a senhora mesmo já deve ter dito para tantas outras pessoas – inclusive para seu filho – isto só acontece com a gente porque somos o Imortal Tricolor!

Com carinho e respeito,

Mílton Jung

Avalanche Tricolor: Palmas para ele !

 

Grêmio 2 x 0 Atlético – GO
Brasileiro – Olímpico Monumental

Adílson sobe e evita mais um ataque, como sempre (Foto: Gremio.Net)

Adílson sobe e evita mais um ataque, como sempre (Foto: Gremio.Net)

Douglas fez um golaço e descubro que foi o primeiro. Borges escapou com velocidade e bateu seco para marcar o seu e vejo que é apenas o terceiro. Os dois, porém, terão sua imagem reproduzida nesta noite e amanhã em todos os programas de esporte. Afinal, o gol é alma do negócio. E quem o faz tem méritos.

Longe de mim reduzir a importância dos dois gols marcados em mais uma vitória que nos empurra à frente neste campeonato e confirma a previsão de que a retomada se iniciou e vamos para apenas quando a vaga da Libertadores estiver garantida. Dedico, porém, esta Avalanche a um jogador que poucos lembrarão de entrevistar no vestiário e, amanhã, talvez sequer apareça no compacto dos melhores lances (melhores para quem, Cara Pálida?).

Adílson tem apenas 23 anos de idade. E uma personalidade surpreendente. É volante, posição para qual muitos torcem o nariz e, hoje, foi o único de ofício a segurar a onda no nosso meio de campo. Chegou a vestir a 5 em lugar da tradicional 11 que sempre me faz lembrar de meu ídolo do passado, Loivo – mas isto era na época em que o número cabia ao ponteiro esquerdo.

E com a 5, Adílson parece que ficou ainda mais poderoso na função. Pura impressão, claro. Pois ele sempre mantém a mesma forma de jogar. É sério, dá o bote na hora certa, interrompe o ataque adversário (quando não o contra-ataque), fala pouco, atua sem espalhafato e sai jogando bem. É um sinal de tranquilidade.

Logo que chegou aos profissionais, em 2007, sofreu lesões que o afastaram de boa parte da temporada. Voltou em 2008, fez boas partidas como de costume, mas não se firmou. Foi em 2009 que ganhou posição de titular, apesar de às vezes ser sacado do time, como ocorreu neste ano. Discreto, seu estilo não muda quando vai para o banco. E quando deixa a reserva parece que nunca havia saído de campo.

Hoje, a torcida reconheceu parte do mérito deste volante de estilo moderno que não é apenas mais uma promessa do time de guris. No segundo tempo, depois de ter contido, outra vez, a jogada adversária, partiu para o ataque com a cabeça em pé e a bola bem dominada. Passou por um marcador e a entregou para que um colega brilhasse mais adiante. Os torcedores o aplaudiram e gritaram seu nome. Adílson voltou para marcar.

Ele sabe seu papel. E eu sei admirá-lo por isso.

Avalanche Tricolor: Estamos de volta

 

Botafogo 2 x 2 Grêmio
Brasileiro – Rio de Janeiro

Jonas em Imagem do Gremio. Net

Cansei de tomar gol no último minuto, cansei de jogar melhor e perder, cansei de ver chute certo parar no lugar errado, cansei de torcer por promessa que não desabrocha, cansei de esperar a solução que não veio. Cansei deste sofrimento absurdo que nos acompanhou toda a primeira etapa deste Brasileiro.

Acabou, daqui pra frente tudo será diferente – escrevo com Roberto Carlos nos ouvidos. O passe longo vai cair no pé correto, o cruzamento vai encontrar a cabeça do goleador, o drible será para adiante e além, o chute vai estufar a rede, e o nosso goleiro vai segurar tudo – bem, este já segura tudo mesmo.

Estou certo disto. Uma certeza que me abateu bem no jogo em que começamos mal, desconsertado e desconcentrado. No qual, em lugar de um time havia apenas um amontoado de jogadores a caminho de uma desgraça retumbante.

A mudança na história do Imortal Tricolor começou após meia hora de partida, na qual nosso destino parecia traçado. Como nos tempos de jogador em que surpreendia o adversário com uma jogada inusitada, Renato Gaúcho rasgou sua fantasia, desfez-se da prepotência que marcou sua carreira, admitiu o erro e teve coragem de mexer no time. Uma mudança substancial, pois colocou em campo, em sua posição original – pela primeira vez desde que veste a camisa gremista – Roberson, um garoto com cara ingênua ainda, mas com futebol para aparecer.

O Grêmio assumiu o comando da partida, mesmo contra um adversário apoiado por 20 mil torcedores em seu estádio. Pôs a bola em seus pés e ditou o ritmo do jogo – às vezes muito lento para o meu gosto. Mas deixou de ser uma presa fácil. Correu riscos, é claro. Mas isto só ocorre com aqueles que são arrojados.

Foi, então, que Jonas, o Salvador, voltou a aparecer. Assim como havia feito contra o Guarani, assim como fez dezenas e dezenas de vezes desde que voltou ao Grêmio, buscou ele próprio a chance do gol.

No primeiro, insistindo contra um defensor assustado, roubando-lhe a bola e chutando corajosamente. No segundo, tramando a armadilha com seu companheiro Lúcio: “faz ela cair perto do goleiro que eu vou fazer o gol”.

Soube do diálogo apenas após a partida, mas sabia que o gol sairia no momento em que a bola foi lançada para dentro da área. Ali, aos 40 minutos do 2º tempo, com aquele Grêmio que conhecemos, que não desiste nunca; que se joga sem medir riscos, como se jogaram Jonas e mais quatro companheiros na mesma bola; não sabia apenas que faríamos o gol do empate, mas que nossa história neste campeonato começaria a mudar.

Preparem-se, o Imortal voltou.

Avalanche Tricolor: Nem que seja no grito

 

Grêmio 1 x 0 Guarani
Brasileiro – Olímpico Monumental

gremio-torcida-2

O centenário do Corinthians tomou conta do noticiário esportivo, nesta quarta-feira. A festa preparada pelo clube à sua torcida encheu o Vale do Anhangabau, na noite passada e virou a meia-noite. As emissoras de Tv, em especial os canais especializados, entrevistaram corintianos ilustres, remexeram em seus arquivos e prepararam programas especiais. Poucos gols foram tão repetidos como o de Basílio, em 1977.

E aqui começa a explicação pelo parágrafo acima estar dedicado a um outro clube que não o Imortal Tricolor.

Foi em 1977, também, que assisti ao primeiro título do Grêmio em sã consciência. A última conquista havia sido em 1968 e eu, muito menino, ainda não tinha o futebol entre minhas prioridades. Se em São Paulo, o Corinthians encarava 23 anos sem vencer o campeonato estadual, no Rio Grande do Sul, estávamos há oito anos na fila. E sempre perdendo para o mesmo adversário – mesmo quando jogávamos melhor. Tempos difíceis aqueles.

Alguém dirá que difícil é a fase que enfrentamos atualmente. Desde a derrota na semi-final da Copa do Brasil, o time perdeu o rumo, se distanciou de sua história, ficou pequeno apesar de seu elenco. As más línguas e o olho gordo chegaram a desenhar uma queda para a segunda divisão, apesar de faltarem tantos jogos até o encerramento do Brasileiro.

A situação realmente não é simples. Mesmo este espaço que costuma encontrar em pequenos casos grandes histórias para enaltecer o Grêmio tem andado desconfiado do desarranjo que o time vem enfrentando. Problemas que não se resumem aos jogadores e ao comando técnico. Que se iniciam na administração do clube com repetidos erros de decisões.

Nada se compara, porém, aqueles anos que antecederam 1977. O Grêmio era um time de poucas pretensões, por maior que fosse a alegria de vencer um Gauchão. Contentava-se em derrotar o adversário mais próximo e assistir aos jogos do Campeonato Brasileiro com jeito de quem era apenas um coadjuvante.

Nossa história começou a mudar naquele ano. Ali começamos a construir a consciência de que éramos muito maior do que imaginávamos. Que nossas fronteiras teriam de ir além da bacia do rio Uruguai. E se iniciou a trajetória a caminho da conquista do Mundo.

Toda vez que o gol de Basílio era repetido na tela da TV ou a sua narração era reproduzida no rádio, hoje, eu teimava em lembrar do gol de André Catimba, no estádio Olímpico.

Agora à noite, quando assisti ao Grêmio vencer por apenas um a zero tentei encontrar em campo resquícios daquele time, quem sabe em mais um exercício da minha alucinação revelada na Avalanche Tricolor do domingo passado.

Se entre os jogadores que se esforçaram para alcançar este resultado não tive sucesso nas minhas pretensões, ao menos a torcida me ofereceu uma bela oportunidade ao tomar boa parte das arquibancadas e gritar pelo seu time independentemente da apresentação que este fazia.

E foi nela que encontrei não apenas uma relação com aquele título de 1977 mas a certeza de que nós seremos capazes de superar mais esta fase. Nem que seja no grito.

Avalanche Tricolor: Alucinações em campo

 

Atlético PR 1 x 1 Grêmio
Brasileiro – Curitiba (PR)

Ancheta e Vilson

Vou cometer um heresia. Responsabilizem meu saudosismo, meu desejo de rever ídolos, minha vontade de reencontrar atletas que tornaram o Grêmio grande e vestiram com orgulho a camisa do Imortal Tricolor. Sei o quanto soara absurdo para você gremista o que direi no parágrafo seguinte, mas dadas as circunstâncias e o sofrimento que nos impingem estes jogadores que aí estão, tenho mesmo tido alguns delírios ao assistir aos jogos do nosso time.

Desde a primeira vez que vi este zagueiro Vilson em campo – e isto foi na partida contra o Santos – me vem a memória a imagem de Ancheta, zagueiro que deu elegância à camisa 3, nos anos de 1970. Mesmo com poucos títulos, numa era difícil para o tricolor, foi escolhido o melhor zagueiro em atividade no Brasil, em 1973, e conquistou o campeonato que marcou minha vida como torcedor apaixonado, o Gaúcho de 1977, que interromperia a série seguida de vitórias do adversário.

Capitão da Celeste, comandou o time Uruguaio na Copa de 1970, Ancheta marcava os atacantes com precisão, sem botinadas – o que lhe rendeu muito nariz torcido da própria torcida. Com sua história ganhou o respeito e a admiração dos torcedores, muitos do quais o incluem na lista do melhor Grêmio de todos os tempos.

Com tantos atributos e importância, por que lembro de Ancheta desde que Vilson assumiu a posição de titular no Grêmio ? Talvez o cabelo grande e ondulado; talvez o nariz longo e empinado – de quem olha mais a frente -; talvez o jeito de pisar no gramado. Tudo isso mais o acaso de vestir a camisa 3, provavelmente mexam com a memória deste gremista em busca de uma esperança.

Hoje, quando Vilson foi para a área adversária e subiu muito mais alto do que todos podiam imaginar, cabeceou a bola com a intenção de jogá-la lá onde ela parou, e fez o gol de empate, achei graça da minha comparação. E gostei de pensar que ali estava Ancheta de volta ao time, disposto a dar um rumo para um time sem prumo e a nos colocar no lugar que a nossa história merece.

Claro, era apenas uma brincadeira oriunda na alucinação que me ronda nestes últimos meses. Que Ancheta me desculpe, mas a lembrança dele me ajuda a encarar a fase de provação pela qual passamos.

Avalanche Tricolor: Obrigado, Vitor ! E nos desculpe

 

Grêmio 1 x 2 Santos
Brasileiro – Olímpico

ESPECIAL+VICTOR

Vítor é majestoso com seu rosto tranquilo e gestos calculados. Gigante ao abrir os braços. Ágil para mudar o corpo de direção quando a bola tenta enganá-lo. Impõe respeito aos mais atrevidos atacantes do futebol brasileiro, mesmo diante da desvantagem de uma cobrança de pênalti. E apenas confirma o acerto de Mano Menezes de convocá-lo como titular da seleção brasileira. Deve ter enchido o técnico de orgulho na noite dessa quarta-feira com as defesas inacreditáveis que fez. Que seja feliz ao menos por lá, ele merece.

A nós, cabe pensar que um grande time começa por um grande goleiro. E entender que se este time não está grande, a necessidade é que o goleiro seja ainda maior.

Obrigado, Vítor !