Avalanche Tricolor: um gol, um protesto e um campeão

 

Grêmio 1 x 0 Vasco
Brasileiro – Arena Grêmio

 

 

Foram sete jogos sem vitória e seis e meio sem gols até que a bola saiu dos pés talentosos de Zé Roberto, na cobrança de escanteio, encontrou a enorme testa de Rhodolfo dentro da área, e caiu no fundo da rede adversária. Longe de ter sido o mais belo gol dessa competição, o mais emocionante ou mais importante. Mas era desse gol que precisávamos para tirar o peso do retrospecto ruim das últimas rodadas do Brasileiro em momento crucial do campeonato. Era fundamental vencermos essa partida diante da disputa acirrada pela segunda vaga para a Libertadores que será decidida nos quatro jogos finais. O gol não foi suficiente para esconder nossas deficiências e impaciências, que ficaram claras na troca de passe, na falta de chutes a gol e mesmo na dificuldade para afastar os riscos impostos pelo adversário. A intranquilidade se refletiu na reação da torcida que vaiou Renato pela primeira vez desde que me conheço por gremista, mesmo depois de já estarmos à frente no placar. A substituição do Zé da Galera por Maxi Rodríguez foi arriscada, mas teve resultado com o time jogando melhor, apesar de continuar a cometer erros de acabamento nas jogadas. E nos oferece mais uma opção de jogo para a reta final.

 

Apesar da relevância do resultado em rodada que nos mantém entre os três melhores times do campeonato, aconteça o que acontecer até amanhã, não quero dedicar toda esta Avalanche ao desempenho gremista. É preciso que se destaque o que considero o fato mais importante da história recente do futebol brasileiro: a reação dos jogadores à desordem da CBF e dos cartolas. O Bom Senso Futebol Clube conseguiu mobilizar os atletas profissionais de forma nunca antes vista no Brasil. Jogadores de Grêmio e Vasco entraram lado a lado com faixa nas mãos que pedia: “Por um futebol melhor para todos”. Ato que antecedeu ao gesto mais marcante da noite. Todos de braços cruzados durante um minuto logo após o árbitro apitar o início da partida, em uma demonstração de que são capazes de parar por muito mais tempo, provocando uma inédita greve dos jogadores nos campos brasileiros, se a Confederação e seus dirigentes insistirem em fechar os ouvidos para as reivindicações deles. Foi emocionante (mais do que o futebol mostrado nos gramados).

 

Resignado

 

Vencer todos seus adversários, conquistar o título com quatro rodadas de antecedência e jogando futebol de extrema qualidade. Além de aprender com o Cruzeiro, nos resta parabenizar o time mineiro e se contentar com o fato de que ao menos o campeão é azul.

Avalanche Tricolor: Grêmio vence e comemora 30 anos da Libertadores

 

Grêmio 2 x 0 Fluminense
Brasileiro – Arena Grêmio

 

Gremio x Fluminense

 

Há 30 anos estava no velho Estádio Olímpico, que deve ser tombado nos próximos meses, já sem voz e suado de emoção, comemorando a primeira conquista da Libertadores. Era uma quinta-feira à noite, fria como eram as noites de inverno no Rio Grande do Sul, naquela época. Atualmente, a meteorologia sempre nos prega algumas peças com calor fora de época, apesar de que a última semana fez vingar a tradição. Naquele 28 de junho, nenhum frio, porém, levaria mais cedo para casa os 80 mil gremistas que foram ao Monumental, pois acabávamos de ser testemunha de uma conquista inédita para o futebol gaúcho alcançada por jogadores forjados à posição de heróis a cada batalha vencida na temporada sul-americana. Confesso que, ao contrário do primeiro título que festejei como torcedor gremista, o Gaúcho de 1977, não consigo lembrar bem de onde assisti àquela final. Poderia estar nas cadeiras cativas, que ficavam no anel superior do estádio, ou na cabine de transmissão da TV Guaíba, ao lado de meu pai que narrava a final contra o Penãrol. Certo era minha satisfação em ter participado de um momento histórico relembrado nessa tarde de domingo em um novo estádio, a Arena do Grêmio.

 

Gremio x Fluminense

 

Tarcísio, Baidek, Paulo Roberto, Mazaropi e Valdir Espinosa foram alguns dos ídolos, campeões de 1983, que enxerguei na homenagem feita antes da partida contra o Fluminense, pela nona rodada do Campeonato Brasileiro. Sempre que os vejo me emociono pela alegria que ofereceram a todos os torcedores. Daquele tempo, além das lembranças, ficamos com o legado de uma história que nos concedeu a imortalidade. E com Renato Portaluppi, nosso ponteiro direito, fundamental pelo talento e valentia na vitória final (o que se repetiria meses depois no Mundial), agora travestido de treinador. Quis o destino que ele estivesse no comando do Grêmio na partida em que comemoraríamos os 30 anos da primeira Libertadores. Entramos em campo com a camisa tricolor e o calção branco, como em 1983, mas, apesar da importância da data, REnato sabia que o cenário desse domingo era bastante diferente daquele que comemoramos o título sul-americano, e não apenas por estarmos em outro estádio. Por isso, respeitosamente, apenas cumprimentou seus velhos colegas, deixou a festa para os torcedores na arquibancada e foi trabalhar.

 

O Grêmio, com a responsabilidade de seu técnico, trabalhou sério, marcou com valentia, despachou bola quando necessário, trocou passe quando possível e driblou como alternativa. Ainda houve algumas trapalhadas e jogadas arriscadas, nada que compromete-se. Assisti ao jogo, como de costume, na minha casa aqui em São Paulo, pela televisão. Não gritei a ponto de perder a voz nem fiz escorrer gotas de suor como em 1983, mas, guardadas as devidas proporções, também saí deste jogo satisfeito. Em especial com o desempenho do paraguaio Riveros que fez sua estreia. Apareceu bem na frente, marcou o gol que abriu o placar e mostrou que tem lugar certo na equipe.

 


As imagens deste post são do site do Gremio. Ao clicar nelas você visitará a página do clube no Flickr

Corinthians, devolve minha alma roubada

 

Sou torcedor forjado a sofrimento e lágrimas, acostumado a lutar sempre e não aceitar a derrota mesmo quando esta é inevitável e a vitória, injustificável. Estou sempre disposto a mais uma conquista sabendo que esta somente será alcançada após driblar todos os percalços e no último minuto do jogo, se preciso for que seja no tempo extra. Foi assim que aprendi a me contorcer nas arquibancadas do Olímpico Monumental – no início apenas Olímpico -, empurrando a bola pela linha de fundo para impedir o ataque advesário, chutando o encosto da cadeira da frente para ajudar o volante a despachar o perigo e de bico enfiar a bola onde o goleiro não alcançará jamais. Nunca me iludi com os elogios ao futebol-maravilha, arma preferida de comentaristas e “especialistas” contra o futebol de verdade, aquele que rende títulos e emoção. Desdenham do time viril, bravo e competitivo que alcança sua meta, seja esta qual for, quando deveriam compreender que em campo não há mais espaço para firulas, lances rebuscados e goleadas – e na me venha com as exceções, estão aí apenas para confirmar a regra. Reclamam de jogadores limitados e placares espremidos. E daí ? Futebol é sangue, suor e camisa rasgada.

Chega-se a mais um título brasileiro nestas condições. Não se tem futebol de sobra nem jogador para ser chamado de craque. Tem-se um grupo de guerreiros dentro de campo e uma torcida alucinada do outro lado do alambrado. No banco, o técnico xinga, esbraveja, esmaga o rosto com as mãos, faz substituições para enfeiar a partida se isto for necessário no caminho da vitória. Sabe que todo drible será esquecido se esta não for alcançada e gol do título só serve para agradar programa de televisão. Por isso, se precisar que se vença de 0 a 0.

Caro e raro leitor deste blog (cada vez mais raro), estou feliz pela conquista que a Alma Tricolor alcançou nesta temporada de 2011. Aprendi seu significado e como esta contamina jogadores, técnicos e torcedores transformando-os em campeões lendo o filósofo do futebol Eduardo Bueno, o Peninha, no livro “Grêmio: nada pode ser maior”. É lá que se descobre que esta Alma foi campeã Mundial em 1950 vencendo o iluminado Brasil, no Maracanã; destroçou a Holanda em 1974 e 1978; conquistou a Copa de 2002 contra os badalados alemães; foi a maior e mais forte – nunca a mais talentosa – nas Libertadores de 1983 e 1995, no Mundial de Tóquio, em 1983 e nas muitas Copas do Brasil, em especial a de 2001, que tive oportunidade de comemorar no microfone com os gritos de gol no 3 a 1 contra o Corinthians, no Morumbi – estas últimas todas vestindo a sua tradicional camisa azul, preto e branco.

Neste ano, a Alma Tricolor, sabe-se lá porque os Deuses do futebol assim quiseram, fardou-se de corintiana e acaba de se transformar Campeã Brasileira, sem marcar gols, brigando com o adversário, reclamando do juiz mesmo que ele esteja certo, sofrendo ataques no poste e no travessão, e comemorando ao fim de tudo sob a batuta de um maestro que construiu sua imagem no Monumental, Tite. Fim de temporada, me cabe apenas um pedido ao Corinthinas que festeja merecido título: devolva-me a alma roubada – está fazendo uma falta danada para a turma da Azenha.

N.B: O futebol jogado, a vitória do Corinthians e a temporada de lamentos gremistas nada mais importam diante do minuto eterno de respeito que devemos a Sócrates e sua família. Um jogador que incluiu o calcanhar no vocabulário do futebol e a política no vestiário da bola. Ele também tinha Alma Tricolor.

Avalanche Tricolor: Eu sou campeão !

 

Grêmio 2 (0) x 1 (1) Inter
Gaúcho – Olímpico Monumental

Gremio campeão

Um guri de meia com os punhos cerrados e os braços esticados canta o hino do Grêmio sobre o travessão da goleira que fica do lado do campo em que está a torcida Da Geral. Ele acabara de jogar sua terceira partida vestindo a camisa do Imortal Tricolor consagrando um sonho de criança e se sagrando Campeão Gaúcho. Neuton – que aceita ser chamado Nilton – já havia comemorado roubadas de bola, gesticulado com raiva chutes para a lateral e feito a torcida vibrar com uma escapada pela linha de fundo e um cruzamento que lhe renderam o escanteio e o nocaute ao adversário.

Incorporou naquele momento minha vontade neste domingo. Estar lá no alto, cantar com todo gás e perder a voz com o grito de campeão. Muitas vezes foi isso mesmo que fiz, pulei ao lado de todos os torcedores, o suor escorreu pelos cabelos – era um tempo em que eles eram fartos -, a garganta parecia explodir junto com a emoção e cantei o hino repetidas vezes sem jamais cansar.

Placar 1987Comemorei como um torcedor alucinado na arquibancada até o fim da minha adolescência, mas festejei também na época em que repórter de campo me ofereciam a chance de participar da jornada final, como na foto que aparece neste post, feita em 1987. Fui campeão, ainda, narrando pela televisão a decisão da Copa do Brasil, em 2001. E nestes anos todos que estou em São Paulo, diante da TV, sentado – às vezes, em pé – no sofá de casa, vibrei com gritos contidos para não assustar a vizinhança.

Por isso, me emocionei ao ver a felicidade de Neuton na imagem fechada da televisão. Poderia ter me fixado na alegria de Jonas e na brincadeira de Hugo, na corrida pelo gramado de Leandro, na satisfação do primeiro título do capião Vitor, no sorriso do atacante Borges.

Mas em um futebol de jogadores ciganos que perambulam de um clube para o outro, sem tempo de construir sua paixão, são estes guris que nasceram ali na redondeza do Olímpico Monumental é que conseguem revelar quanto pode ser sincero o beijo no escudo de seu time. Eles sabem o valor de uma vitória sobre o rival de sempre.

Jovens que há pouco brincavam de futebol na várzea, batiam bola no meio da rua e narravam suas próprias jogadas, são estes que comemoram como sempre comemorei os títulos de meu time. Sem esperar nada em troca, sem imaginar para onde aquela conquista me levará. Apenas, única e exclusivamente, pelo prazer de gritar:

“O meu Grêmio é campeão !”

Avalanche Tricolor: A Taça é nossa

 

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Grêmio 1 x 0 Novo Hamburgo
Gaúcho – Olímpico Monumental

Minutos antes de confirmar o título, havia apenas um atacante no time. Assim mesmo, foi ele quem estava disputando a bola na intermediária. Tínhamos cinco defensores, entre zagueiros e alas; seis com Vitor, o melhor goleiro do Brasil, que é nosso ponto de equilíbrio. Diante deles, três volantes em campo – e foi dos pés de um, Ferdinando, que surgiu o único gol da partida, feito lá no primeiro tempo e de bola parada como gostam de desmerecer os comentaristas esportivos.

A falta era distante da goleira, mas de frente para ela. Tinha uma barreira enorme para atrapalhar o ataque gremista. Foi então que Ferdinando fez aquilo que a gente costuma fazer em campo de várzea: dá uma bica na bola, daquelas de espalhar jogador adversário pra todo lado. Foi um chutão, também, nas muitas críticas que se voltam contra ele.

É que Ferdinando caiu na antipatia do torcedor no primeiro minuto de jogo. Não deste, mas o da sua estreia na temporada. A bronca mais amena: é o “queridinho” do Silas – como destacou em manchete o portal Terra agora há pouco -, só porque esteve com ele por dois anos no Avaí (SC). Mesmo sendo um destruidor de jogadas (do adversário, lógico) é vaiado quase sempre. Talvez pela dificuldade em resolver o que vai fazer com a bola depois que a tira dos pés inimigos.

Tinha de ser dele o gol nesta decisão em que as jogadas mais emocionantes foram carrinhos com dois pés no alto, um deles cometido por Rochemback, corridas intermináveis de Hugo e Fábio Santos para evitar que a bola saísse pela lateral e uma despachada de Maylson para jogá-la bem além da lateral. Talvez seja um pouco de exagero meu: houve dribles do Mário Fernandes, também, e poucos chutes em direção ao gol, mas gostei mesmo foram dos carrinhos e chutões – até porque embalados pelo canto do hino rio-grandense que ecoava nas arquibancadas do Olímpico Monumental.

Você que lê esta Avalanche deve imaginar que a partida que decidiu a Taça Fernando Carvalho (sim, é o nome do ex-presidente do co-irmão), que vale o 1o. turno do Campeonato Gaúcho, com tantos jogadores para destruir e quase nenhum para criar, foi feia e mal-jogada. Tem toda razão, foi mesmo. E quem disse que para ser campeão tem de jogar bonito ? Pra ser campeão tem de chegar à frente do adversário, seja em pontos, em gols ou na divida da bola.

E o Grêmio cumpriu seu papel e por isso é campeão.