Avalanche Tricolor: fim da quaresma antecipada. Que venha a Páscoa!

Vasco 2×1 Grêmio
Brasileiro – São Januário, RJ/RJ

Gremio x Vasco
Arthur articula no meio de campo. Foto: Lucas Uebel/Grêmio FBPA

O Grêmio encerrou seu período de quaresma. Estava prestes a completar 40 dias sem ser derrotado, em uma sequência de três vitórias, cinco empates e um título gaúcho. Mesmo na partida desta tarde, no Rio de Janeiro, teve chances — poucas, é verdade — de estender essa fase de triunfo até as vésperas da Páscoa. Infelizmente, não conseguiu.

Pagou, sobretudo, por um primeiro tempo muito abaixo do que vinha apresentando. Erros repetidos permitiram que o adversário, em pouco mais de meia hora, estivesse com o placar nas mãos. O time escolhido por Luis Castro para iniciar a partida não funcionou. O gol gremista, ainda na etapa inicial, nasceu mais da força e da precisão de Carlos Vinícius do que de méritos coletivos.

A defesa esteve lenta e espaçada — sem a ajuda dos atacantes que jogam pelos lados. O meio de campo não articulava. Arthur, isolado, tentava segurar a bola e organizar o jogo. Os pontas encontravam dificuldade para superar os marcadores. E os alas chegavam à frente sem intensidade. Pavón foi exceção em alguns momentos, tentando compensar no ataque o que não conseguia entregar na defesa.

Luis Castro enxergou os problemas, mexeu no time no intervalo e conseguiu conter mais o adversário. O Grêmio passou a ter mais posse de bola. Faltou transformar domínio em perigo. Falhas de execução, às vezes em passes simples, impediram que o time avançasse com qualidade.

A melhor chance surgiu quase como um presente. No retorno após seis meses afastado por lesão, Braithwaite aproveitou um erro da defesa, roubou a bola e finalizou forte. Parou no goleiro.

Os três pontos que ficaram no Rio pesam mais quando lembramos dos empates recentes, um deles jogando em casa. Após oito rodadas, o Grêmio segue na primeira página da tabela antes da pausa para os jogos da seleção. Não é um cenário ruim. Exige atenção. A sequência será exigente, com retomada do Brasileiro e início da Copa Sul-Americana.

A despeito da derrota de hoje, o fato é que o Grêmio evoluiu em relação ao início da temporada. Luis Castro dá forma a uma ideia de jogo. Para o treinador, a parada será um período de ajustes e afirmações.

Está evidente que, neste momento, a dupla de zaga titular tem de ter os dois guris, Gustavo Martins e Viery. Nas laterais, ainda será preciso encontrar soluções definitivas, especialmente para substituir Marlon, que ficará fora de três a cinco meses.

No meio, o desafio é encontrar o companheiro ideal que divida com Arthur a responsabilidade de organizar e acelerar o jogo. Nardoni e Léo Perez terão tempo para se adaptar. Noriega voltará. William e Monsalve poderão aprimorar a parte física.

No ataque, Enamorado e Amuzu, por enquanto, são os titulares nas pontas. Tetê ainda carece de adaptação e precisará entender que a forma de o Grêmio jogar exige recomposição rápida. Gabriel Mec é uma alternativa interessante, principalmente se ganhar força para resistir em pé à marcação pesada que sofre. Ainda teremos a opção de testar Carlos Vinícius e Braithwaite juntos, especialmente em momentos de maior pressão ofensiva.

A derrota interrompe a sequência. Não o processo. O Grêmio mostra caminhos. E terá tempo para ajustá-los. Quem sabe, antes mesmo de a Páscoa chegar.

Avalanche Tricolor: mais que vitória, um grito por Marlon

Grêmio 2×0 Vitória

Brasileiro – Arena do Grêmio, Porto Alegre RS

Gremio x Vitoria
Antes da lesão, Marlon participou da comemoração do segundo gol Foto: Lucas Uebel/Grêmio FBPA

A vitória do Grêmio, nesta noite de quinta-feira, era obrigação. O contexto pedia mais do que três pontos. Pedia resposta. O Grêmio entregou. E entregou bem. O time de Luis Castro não apenas venceu. Levou ao gramado da Arena um futebol qualificado, dominante.

A ideia que o treinador tem para esta temporada fica cada vez mais clara. Há sinais evidentes de um modelo em construção. A bola esticada pelas pontas, a tentativa constante de acelerar o jogo, a crença no poder do drible, a marcação alta que distribui responsabilidade a todos. Não é um desenho pronto, mas já tem traços reconhecíveis. E isso, no futebol, costuma ser meio caminho andado.

O resultado, no entanto, perdeu tamanho diante de uma cena que chocou a Arena – e todos nós apaixonados por futebol. Aos 25 minutos do segundo tempo, Marlon caiu. Não foi uma queda qualquer. Foi daquelas que fazem o estádio inteiro prender a respiração antes mesmo de entender o que aconteceu.

A imagem é difícil de esquecer. Preso entre dois adversários, tentando escapar em direção ao ataque, ele teve a perna retida no gramado, o corpo por cima, o pé em posição que não deveria existir. Há lances que dispensam laudo médico. O olhar já antecipa a gravidade.

Marlon é gremista de coração. É daqueles que carregam história junto com a camisa. Chegou aos 28 anos para viver o que muitos chamam de sonho. E tratou esse sonho com a seriedade de quem sabe o peso que ele tem.

Foi voz quando o silêncio seria mais confortável. Questionou arbitragem, assumiu responsabilidades em momentos difíceis, não se escondeu em uma temporada irregular. Dentro de campo, cresceu. Fora dele, se posicionou. Assim se constrói liderança — não com braçadeira, mas com atitude. A faixa, aliás, que carregava na noite de hoje, foi apenas um detalhe coerente com o papel que já exercia.

O estádio reagiu como se espera de quem reconhece os seus. Houve mãos na cabeça, olhos fechados, lágrimas soltas na arquibancada. Willian tentou esconder o choro sob a camisa. Cada um lidou à sua maneira com a cena. Nenhum de nós, no entanto, alcança a dor que ficou ali, naquele gramado.

A resposta veio em forma de canto. O nome de Marlon ecoou nas arquibancadas, transformando angústia em apoio. Um gesto simples, direto, que o futebol ainda sabe produzir quando tudo mais parece pequeno. E então, mesmo na dor, ele respondeu. Quando era levado para a ambulância, encontrou força, ergueu o corpo na maca, e com palmas agradeceu. Um gesto curto, mas cheio de significado. Há momentos em que o caráter se revela sem precisar de discurso.

A vitória fica registrada. O desempenho também. A noite, porém, será lembrada por outra razão.

Que Marlon encontre força para atravessar esse capítulo. O Grêmio e a sua gente estarão à espera. Não apenas pelo jogador. Pelo líder que fez da camisa algo maior do que um uniforme.

Avalanche Tricolor: há futebol além do empate

Chapecoense 1×1 Grêmio
Brasileiro — Arena Condá, Chapecó SC

Gremio x Chapecoense
Nardoni fez seu primeiro gol pelo Grêmio. Foto: Lucas Uebel/GrêmioFBPA

Ponto fora de casa se comemora. Ao menos esse é o comportamento padrão no futebol, principalmente em uma competição de longo alcance como o Brasileiro. Apesar dessa máxima, o torcedor do Grêmio não saiu satisfeito da partida desta segunda-feira à noite.

Especialmente depois de ter desperdiçado dois pontos na rodada anterior dentro de casa — jogo sobre o qual decidi não desperdiçar minha escrita —, o Grêmio precisava recuperar terreno em relação àqueles que estão na parte mais alta da tabela. Não foi capaz.

Apesar de ter sido superior na maior parte do tempo, o time de Luis Castro não conseguiu transformar esse domínio em vitória. Não fosse uma falha grosseira do goleiro adversário talvez estivéssemos até agora tentando marcar um gol.

O curioso é que, se olharmos momentos específicos da partida, encontraremos motivos para acreditar no potencial deste time.

Ao contrário de outras jornadas nas quais nada se via de produtivo, o Grêmio dá sinais de que pode encontrar boas soluções dentro do próprio elenco. Há um esboço de futebol que permite imaginar uma caminhada mais consistente neste ano de 2026.

Que Arthur, lesionado, faz tremenda falta ao time é inquestionável. Nosso volante mais ofensivo tem uma capacidade de organizar as jogadas acima da média. O meio de campo perde muito na ausência dele. Não significa, porém, que o trio Nardoni, Noriega e Monsalve não possa apresentar qualidade. Em alguns instantes houve troca de passes interessante. Faltou a conclusão.

Nossos ponteiros são atrevidos. Amuzu, Tetê e Enamorado arriscam dribles, encaram os marcadores e chegam perto da área. Precisam caprichar mais nos cruzamentos. Carlos Vinícius, por mais perdigueiro de gols que seja, depende da ajuda deles para transformar presença na área em bola na rede.

William, que tem entrado no segundo tempo, aparece tanto pelo meio quanto pelos lados do campo. Tem um toque de bola diferenciado. Falta acertar a definição das jogadas.

Temos carências nas laterais. Marlon é o melhor deles e fez muita falta na partida de hoje. Pavón me comove pelo esforço, mas não é da posição. Também tem demonstrado dificuldade no toque final para os companheiros dentro da área — o que já acontecia quando atuava como atacante.

O Grêmio não perde há sete jogos. Destes, porém, venceu apenas dois — é verdade que um deles valeu o título do Campeonato Gaúcho. Ainda assim, para quem quer subir na tabela do Brasileiro, empatar virou pouco.

Empate fora de casa pode ser motivo de comemoração. Mas também pode ser o sinal de que ainda falta ao time transformar promessas de futebol em vitórias de verdade.

Avalanche Tricolor: ganhar confiança é importante na Semana Gre-Nal

Grêmio 2×1 Atlético MG

Brasileiro – Arena do Grêmio, Porto Alegre RS

Gremio x Atletico-MG
Marlon comemora o gol da vitória Foto: Lucas Uebel/Grêmio FBPA

Foi-se o tempo em que eu me esforçava para entregar esta mal-traçada Avalanche no apito final do árbitro. Era um compromisso de início de jornada que fui abandonando por uma série de circunstâncias — especialmente a incompatibilidade entre a hora em que as partidas começam e a hora em que preciso madrugar para apresentar o Jornal da CBN. Às vezes, os resultados me tiram o ânimo da escrita; em outras, falta inspiração mesmo.

Houve um tempo, também, em que semanas como esta que estamos vivendo, à espera do Gre-Nal, eram cobertas pelos jornalistas esportivos no Rio Grande do Sul com a tensão e a solenidade dos grandes eventos. Reportagens de terno e gravata, cartola na cabeça e perfis dos protagonistas da bola. As análises técnicas e táticas recebiam tratamento esmerado. Não faltava espaço para as polêmicas — afinal, sempre gostamos de uma boa fofoca. Os treinos eram secretos, e descobrir a escalação de domingo era tarefa árdua, conduzida com o apuro do mais puro jornalismo investigativo.

A Semana Gre-Nal perdeu espaço no noticiário. Como concentrar forças no clássico que decide o Campeonato Gaúcho no domingo se, na quarta à noite, houve compromisso pelo Campeonato Brasileiro? O olhar do jornalista se dispersa. A atenção do torcedor, efêmera. Se os jogadores mal têm tempo para treinar, ajustar o passe, calibrar o chute e sincronizar movimentos, tampouco o repórter esportivo consegue aprofundar os temas.

Da minha parte, embora o clássico esteja a três dias de distância, ainda encontrei tempo para pensar no resultado da noite passada. Tivemos uma vitória que, se não foi consagradora, ao menos nos trouxe a alegria dos pontos conquistados e algumas revelações. Está claro, por exemplo, o modelo de meritocracia imposto pelo técnico Luís Castro. Jogador que entrega em um jogo é recompensado no seguinte. Viery na zaga, Pavón na lateral, Gabriel Mec no meio e Enamorado na ponta direita são exemplos dessa estratégia.

É verdade que Castro foi compelido a agir assim. Escalou um time com o fim de semana em mente. Precisava poupar fisicamente atletas considerados titulares, sem abrir mão da vitória em casa. Ao mesmo tempo, ganhou a oportunidade de observar como alguns jogadores reagem à titularidade. Se a atuação no meio da semana garantirá presença no time do clássico, só saberemos no domingo.

O importante é que a vitória no Brasileiro, somada à classificação para a final do Gaúcho, fortalece a reconstrução em curso. O time começa a forjar personalidade, a desenhar uma maneira própria de se portar em campo. Vencer reduz a pressão sobre comissão técnica e elenco. Oferece confiança — ativo indispensável numa temporada longa. O gol da vitória, marcado por Marlon, é sinal de quem acredita no seu potencial.

E confiança, em semana de Gre-Nal, vale tanto quanto talento. Talvez até mais.

Avalanche Tricolor: só me deixa ser feliz

Grêmio 5×3 Botafogo
Brasileiro – Arena do Grêmio, Porto Alegre (RS)

Gremio x Botafogo
Carlos Vinícius comemora seu terceiro gol Foto: Lucas Uebel/GrêmioFBPA

O que vier depois pode esperar. Nesta noite, eu só quero ser feliz. Dúvidas e tropeços existirão — outras dúvidas e tropeços ainda virão. Para o gremista, porém, é dia de comemorar. Queríamos ao menos uma vitória. O Grêmio de Luis Castro entregou mais do que se podia esperar.

Antes da bola rolar, me agradou a decisão do treinador. Foi a campo com o que havia funcionado melhor até aqui. Evitou insistir no que não rendia. Colocou Noriega como volante, Monsalve mais adiantado. No ataque, voltou a apostar em Pavón pela esquerda, coerente com o que ele havia mostrado na partida anterior.

Curiosamente, o caminho da vitória apareceu nas mudanças do segundo tempo. William entrou no lugar de Monsalve, que saiu lesionado ainda no fim da primeira etapa. A virada de chave veio, sobretudo, com Amuzu pela esquerda. O belga soltou a perna, partiu para o drible, incomodou os marcadores e encontrou Carlos Vinícius dentro da área — o seu habitat.

Vini da Pose fez um, fez dois, fez três. Gols que colocaram o Grêmio em vantagem. A bola procura Carlos Vinícius. Ele responde com faro e presença. Forte no corpo a corpo, cria espaço onde parece não existir. Diante do gol, decide. Neste início de temporada, é o atacante que mais balançou a rede no Brasil.

Carlos Vinícius faz gols, faz pose e contagia. O sorriso largo denuncia a alegria de quem ama o que faz. E nos faz felizes também. Tetê, com o primeiro gol com a camisa tricolor, e Edmílson, incansável, completaram uma vitória importante no Campeonato Brasileiro. Daquelas que dão confiança e personalidade. Daquelas que ajudam a afirmar um time ainda em construção.

Há ajustes a fazer. Reforços seguem necessários. Luis Castro precisa de tempo para implantar sua estratégia. Tropeços e dúvidas nos esperam. Hoje, porém, só me deixa ser feliz. Com Grêmio vencendo o Botafogo.

Avalanche Tricolor: correndo contra o tempo — de novo

Fluminense 2×1 Grêmio
Brasileiro – Maracanã, Rio de Janeiro (RJ)

Gremio x Fluminense
Pavón foi destaque positivo. Foto: Lucas Uebel/GrêmioFBPA

O mais longo Campeonato Brasileiro da história já começou. Janeiro ainda nem fechou as malas e os times que sequer definiram seus destinos nos estaduais já são chamados a disputar pontos no torneio nacional. O calendário esticado do futebol brasileiro cobra seu preço desde a largada. E os três pontos de hoje valem exatamente o mesmo que aqueles que estarão em jogo na última rodada de dezembro.

Essa constatação torna a derrota do Grêmio na estreia algo ainda mais incômodo, mesmo fora de casa. O revés maltrata um torcedor que ainda digeria a frustração do clássico do fim de semana, no Gaúcho. Não pela dimensão do resultado, mas pela sensação de reincidência.

Sem transformar o episódio em crise, cabe a Luís Castro e à sua comissão técnica entender — e enfrentar — as falhas defensivas que têm acompanhado o Grêmio nas últimas temporadas. Fui buscar os números desde o retorno à Série A: 56 gols sofridos em 2023, 50 em 2024 e outros 50 no ano passado. São 156 gols em 114 partidas. É muito. Exige um poder ofensivo quase sobre-humano para compensar tamanha fragilidade atrás.

Às vezes penso que esse seja o preço pago aos deuses do futebol por termos assistido, durante oito temporadas, à maior dupla de zaga que já vestiu a camisa gremista: Geromel e Kannemann. Misticismo à parte, a realidade é objetiva e urgente. A defesa precisa ser corrigida, seja com reposicionamento de peças, seja com mudança no sistema de marcação. O problema não é novo e tampouco invisível.

Apesar disso, seria um erro iniciar uma caça às bruxas desenfreada em tão poucos dias de jornada. Luís Castro precisa de tempo — e o torcedor, de paciência — para ajustar o modelo de jogo que pretende implantar. Há caminhos claros a explorar: a qualidade de Arthur na saída de bola, a força dos atacantes pelos lados e a presença física e finalizadora de Carlos Vinícius dentro da área. O centroavante voltou a marcar num jogo em que recebeu poucas bolas em condição real de conclusão. Um sintoma, não um detalhe.

Faz falta, também, um camisa 10 que organize o meio-campo e dê fluidez às transições. William, que tem entrado no segundo tempo, além de não ser especialista na função, ainda é um esboço do que pode oferecer ao time. A engrenagem funciona, mas gira com dificuldade.

Um mérito de Luís Castro na partida foi apostar em Pavón, apesar das ressalvas e críticas da torcida. Provavelmente respaldado pelo que observa nos treinos, lançou o atacante argentino no segundo tempo. A entrada mudou a forma de o Grêmio atacar. O gol marcado por Carlos Vinícius nasceu de uma jogada construída por Pavón. O empate, que Gustavo Martins desperdiçou dentro da área, também passou por ele. Mais atitude do que brilho, talvez. Mas atitude faz diferença.

No fim de semana, o Grêmio volta a campo já com a cabeça dividida entre o Campeonato Gaúcho e o Brasileiro. A tendência é de uma equipe bastante modificada, até porque, na próxima semana, o calendário volta a apertar. Os três pontos desperdiçados agora precisarão ser recuperados em casa, independentemente do adversário.

O campeonato é longo. O tempo para errar, não.

Avalanche Tricolor: tão longe e tão perto de ti

Guarany 0x2 Grêmio

Gaúcho – Estrela D’Alva, Bagé RS

Gremio x Guarany
Carlos Vinícius comeora quarto gol no Gaúcho Foto: Lucas Uebel/GrêmioFBPA

Comecei a Avalanche passada falando da minha distância em relação ao Grêmio. Distância física, claro, porque de alma e coração estamos sempre próximos. Estava, como ainda estou, em João Pessoa, na Paraíba, enquanto o Grêmio disputava uma partida em Porto Alegre. A distância volta à nossa crônica, porque na noite de quarta-feira o Grêmio foi para mais distante ainda ao jogar em Bagé, cidade gaúcha tradicional de muitas histórias e personagens.

Na fronteira com o Uruguai, o futebol gremista também esteve tecnicamente distante do que havíamos assistido na rodada anterior, na Arena. É preciso considerar que o time não era aquele que entendemos ser o titular. Ressalvas ainda para  palco da partida: estádio acanhado, vestiários precários, gramado ruim e, como se viu, infraestrutura frágil. O jogo começou com 40 minutos de atraso por problemas no fornecimento de energia na subestação do Estrela D’Alva, segundo informou a companhia elétrica. 

Apesar de a falta de criatividade e coletividade, três nomes se destacaram no primeiro tempo: os jovens Luis Eduardo, na zaga, e Roger e Enamorado, no ataque. No segundo tempo, o time voltou a ter dificuldades para chegar ao gol. O cenário mudou pouco mesmo com a expulsão justa de um dos adversários, aos cinco minutos — pô, Serginho, esperava que ao menos você gritasse na hora que era caso de expulsão (desculpa aí, caro e raro leitor, foi só recado para um dos amigos que mais admiro na crônica esportiva).

Cansado de esperar um desempenho melhor, Luis Castro fez as mudanças necessárias para o time chegar ao gol. Gabriel Meck entrou bem na direita e foi dele o cruzamento para que Carlos Vinícius marcasse o gol que abriu o placar. Vini da Pose precisou de poucos minutos para mostrar a André Henrique como se posicionar corretamente entre os zagueiros e cabecear de maneira certeira no gol. Em lance parecido, no primeiro tempo, André havia desperdiçado uma das poucas oportunidades que tivemos.

O jogo ficou mais fácil com a necessidade de o adversário sair para o ataque e a presença no meio de campo de outro guri da base, Jefferson. O time ganhou em intensidade e criatividade, chegando ao segundo gol em lance que também teve participação de Carlos Vinícius e foi concluído por Edenílson. Uma nota positiva ainda para o goleiro Weverton que fez uma estreia segura nas poucas vezes que foi acionado. 

Domingo tem Gre-Nal. É o dia em que retorno das férias. Estarei um pouquinho mais próximo do Grêmio. E, espero, que o Grêmio esteja muito próximo de mais uma vitória no clássico.

Avalanche Tricolor: foi muito bom reencontrar os amigos

Avenida 0x4 Grêmio
Gaúcho – Estádio dos Eucaliptos, Santa Cruz do Sul (RS)

Gremio x Avenida
Roger comemora o terceiro gol. Foto: Lucas Uebel/GrêmioFBPA

Aproveitei o primeiro fim de semana “útil” do ano para visitar amigos no interior de São Paulo. Não nos víamos havia alguns meses. No Natal, eles estavam fora do país, enquanto eu cumpria plantão. No Ano Novo, fui à minha cidade natal, justo quando retornavam ao Brasil. E durante o ano… bem, você sabe como a vida corre, atropela e afasta.

Ao longo do tempo, trocamos mensagens esporádicas. Reencontros, porém, servem para outra coisa: saber das novidades e recontar histórias antigas. Muitas já conhecidas. Mesmo assim, irresistíveis. Falamos também do que acreditamos que pode acontecer em 2026 — projetos de vida, viagens, possibilidades. E lamentamos a insanidade daqueles que insistem em atrasar nossas vidas.

Voltar é reencontrar. Não foi o poeta quem disse. Foi uma frase que me veio à cabeça quando estive em Porto Alegre. Em pastas antigas, usadas como guarda-arquivo, encontrei dezenas de papéis datilografados. Eram crônicas escritas por meu pai, Milton Ferretti Jung, lidas nos primeiros programas de rádio que apresentou, ainda na Rádio Canoas. Assinava como diretor de jornalismo — ao que sei, diretor dele mesmo. Havia poucos profissionais na emissora e menos ainda no departamento.

Entre os papéis guardados por meu irmão, dentro de um baú, descobri também uma coleção de cartas trocadas entre meu pai e o vô Romualdo, quando ele estudava em um internato, na cidade de Farroupilha. Chamou atenção a formalidade da escrita do meu avô. Mais ainda: referências ao futebol. Não me lembro de tê-lo ouvido falar de esporte com os netos, tampouco com meu pai. Ainda assim, lá estava o registro de uma partida do Grêmio a que assistiu no estádio — o que, pela época, deve ter sido no saudoso Fortim da Baixada, no Moinhos de Vento.

Caro e cada vez mais raro leitor, jamais imaginei que esta Avalanche, escrita desde janeiro de 2008, pudesse ser resultado de uma paixão e de um hábito passados de pai para filho desde os anos 1950.

Mas eu falava de reencontros. E, no sábado à noite, havia mais um marcado.

O Grêmio voltava aos gramados pouco tempo depois da despedida de dezembro. Reencontrá-lo, agora sob nova direção, foi uma surpresa agradável. Mesmo levando em conta o curto período de treinos e a fragilidade do adversário, a goleada na estreia fez bem. Aliás, placar semelhante ao da partida que encerrou o ano passado.

Assim como na conversa com os amigos, o Grêmio também apresentou novidades e reacendeu esperanças para 2026.

A presença de Roger e Tiaguinho, ambos com 17 anos, foi a principal delas. Os dois participaram de gols, mostraram personalidade forte, e Roger ainda fechou sua atuação com o terceiro gol. Mais do que o desempenho, o gesto de Luís Castro ao escalá-los como titulares alimenta uma expectativa antiga: investir, de fato, nos talentos da base. Confesso que já não suporto ver nossos protótipos de craques serem vendidos antes mesmo de estrearem no profissional.

É cedo para qualquer projeção. Uma partida não define uma temporada. Ainda assim, reencontrar o Grêmio com uma goleada e algumas boas notícias é muito melhor do que começar o ano apenas relembrando velhas glórias do passado — como aquelas que meu avô contava ao meu pai, nas cartas encardidas que pretendo ler com calma nos próximos dias.

Talvez a Avalanche nunca tenha sido só futebol. Talvez sempre tenha sido, antes de tudo, uma forma de reencontro. Com a família, com os amigos, com você, caro e cada vez mais raro leitor.

Avalanche Tricolor: pela volta às manchetes 

Sport 0x4 Grêmio
Brasileiro – Ilha do Retiro, Recife/PE

Foto de Rafael Vieira/GrêmioFBPA

Os jornais do dia, que insistem em sobreviver na banca do Vilela, na Vicente da Fontoura, ou na do Largo dos Medeiros, mais ao centro de Porto Alegre, vão estampar na manchete principal o livramento do co-irmão. Escapou do rebaixamento na rodada final e teve de contar com o revés dos adversários diretos. Ao Grêmio, com sua vaga garantida na Copa Sul-Americana, restará a segunda dobra da primeira página. Ao Juventude, quiçá uma linha fina. Ao descrever esse cenário, não faço crítica alguma à hierarquia construída pelos editores; fosse eu o responsável pelo jornal, faria o mesmo.

Muitos porto-alegrenses que ainda preservam o ritual da leitura do impresso talvez sigam ao trabalho, nesta segunda-feira, com a camisa do clube. Nós, gremistas, celebrando a goleada que encerrou a temporada — mesmo sabendo da fragilidade do adversário — e o fato de terminarmos o campeonato na primeira página da tabela, com um lugar assegurado em competição sul-americana.

Outros torcedores comemorando como se fosse épico escapar na rodada final, passando 90 minutos de ouvido colado no que acontecia nos estádios alheios. Devem ter chegado em casa aliviados e repetido a velha frase: “time grande não cai”. Esquecem que já caíram, assim como tantos outros.

Não critico editores, tampouco os excessos de paixão. O futebol nos empurra para um território em que todos os sentimentos sobem ao topo da tabela, enquanto a razão amarga uma vaga cativa no banco de reservas.

O fato é que aquilo que testemunhamos no fim desta temporada deveria preocupar quem acompanha o futebol do Rio Grande do Sul. A rivalidade que, durante décadas, nos impulsionou para cima perdeu o fôlego. Ganhar campeonatos estaduais deixou de ser medida de grandeza. Diante do tricampeonato brasileiro do adversário, o Grêmio apontou para horizontes maiores: tornou-se tricampeão da Libertadores, conquistou o mundo. A contratação de um craque de um lado exigia resposta imediata do outro. Um estádio mais moderno chamava outro ainda mais robusto. Era uma disputa que elevava o nível.

Nos últimos anos, e neste em particular, deixamos a ambição escorregar e adotamos a mediocridade como parâmetro. A tabela do Brasileiro e a ausência de clubes gaúchos nas decisões das competições relevantes dizem por si.

O futebol do Rio Grande do Sul não nasceu para ser nota de rodapé. Nesta última Avalanche do ano, deixo o desejo de que voltemos a ocupar a parte mais nobre das manchetes — não pelas circunstâncias, mas pelos feitos.

Avalanche Tricolor: essas mal traçadas linhas

Grêmio 1×2 Fluminense
Brasileiro – Arena do Grêmio, Porto Alegre (RS)

Era para sair de campo com os três pontos, manter viva a fantasia da Libertadores e encerrar a temporada ao lado do torcedor com algum alento. Talvez até encontrar uma trégua nessa relação instável, cheia de tropeços, que sustentamos com o futebol gremista ao longo do ano. Uma vitória ajudaria a apagar, ainda que por alguns instantes, os reveses causados por nossas próprias falhas, pelos azares que cruzaram o caminho e pelas arbitragens que nos tomaram pontos valiosos — especialmente, embora não exclusivamente, neste Campeonato Brasileiro.

Acreditava, com uma boa dose de teimosia, que esta Avalanche — escrita tarde da noite, para desespero de quem madruga — pudesse trazer linhas firmes, bem desenhadas, celebrando o renascimento de um time e a promessa de um ano novo mais generoso. A temporada, porém, insiste em esfregar no rosto a realidade que temos evitado encarar. E ironicamente me faz lembrar Lulu Santos, como aquele amigo que aparece na hora errada com uma verdade desconfortável: “nada do que foi será, de novo do jeito que já foi um dia”. Sigo acreditando que será, sim. Só não será agora.

O Grêmio mostrou lampejos de um futebol mais organizado na segunda metade do campeonato. Redescobriu o talento impressionante de Arthur, que precisa ser mantido no elenco se quisermos, em 2026, voltar a ser competitivos. Encontrou também um centroavante eficiente, Carlos Vinícius, cuja ausência por suspensão pesou demais neste jogo.

Há outros jogadores que, recuperados fisicamente, podem contribuir nas competições que começam já em janeiro. E existe a expectativa — sempre ela — de contratações capazes de elevar o nível do time e do grupo.

O placar desta noite, no entanto, praticamente fechou a porta por onde ainda passava uma réstia de sonho: uma combinação improvável de resultados até a última rodada que nos levasse a Liberadores, esperança demais para quem produziu de menos ao longo do ano. A atuação, hoje, nem foi ruim, embora tenhamos sucumbido a um adversário mais consistente na temporada. E ainda apareceram os acasos, sempre prontos para cumprir seu papel de protagonistas — como aquelas mal traçadas linhas que validaram o primeiro gol do Fluminense.

De minha parte, quem sou eu para julgá-las? Se já me vejo às voltas com a dificuldade de desenhar melhor as próprias linhas desta Avalanche, imagine querer analisar as linhas traçadas pelo VAR.