Avalanche Tricolor: a ilusão interrompida

Grêmio 0x0 Ceará
Brasileiro – Arena do Grêmio, Porto Alegre RS

Alysson parte para o ataque. Foto: Lucas Uebel/GrêmioFBPA

A única coisa que buscava na noite deste sábado era a ilusão de emendar uma segunda vitória seguida no Campeonato Brasileiro. Depois dos três pontos fora de casa, da maneira como foram conquistados semana passada, a expectativa de mais três era até natural. O adversário estava no meio da tabela e o jogo era na Arena, diante da torcida. A vitória, mesmo com sabor de “me engana que eu gosto”, saciaria meus desejos.

O Grêmio atual, porém, não me deixa iludir. A todo instante faz questão de mostrar a que veio nesta temporada. Joga na cara o que não queremos acreditar. Na troca de passes sem convicção, na transição claudicante para o ataque, nos cruzamentos sem destino e nos raros chutes a gol, expõe suas fragilidades.

Nesta fase, o reforço que chega com cara de solução sofre lesão — vide o ocorrido com Balbuena. Os jovens que se anunciam com talento não conseguem ir além de alguns momentos de lucidez — como no futebol esforçado de Alysson e Riquelme. A bola que se apresenta para o gol é desperdiçada, como aquela que André Henrique perdeu quase dentro da pequena área. Somos uma sucessão de lances fortuitos e bolas sem rumo.

Como me disse um amigo confidente — gremista, gaúcho e jornalista como eu, parceiro de tantas pitangas tricolores —, o Grêmio apenas resgatou o seu “verdadeiro futebol”.

Avalanche Tricolor: uma vitória a Fernandão

Atlético MG 1×3 Grêmio
Brasileiro – Arena MRV, Belo Horizonte MG

Balbuena comemora o gol da virada. Foto: Lucas Uebel/GrêmioFBPA

17 de agosto de 2025. Guarde essa data, torcedor gremista! Tende a ser definitiva nos destinos do Grêmio, nesta titubeante temporada que estamos encarando. Para o calendário futebolístico, é o início da metade final do Campeonato Brasileiro. Um momento crucial para as pretensões de qualquer clube, em especial daqueles que, como nós, estão na parte de baixo da tabela. Se há um momento de reação, a hora é agora. E o Grêmio reagiu!

Lá em Minas, em momento de extrema tensão e pressão, superou-se e venceu de virada o adversário que contava com o apoio maciço de sua torcida. O Grêmio foi a campo depois de ter sido alvo de injustificáveis agressões por parte de um grupo violento de pessoas que se identifica como gremista. Esses trogloditas, que têm de ser expulsos da Arena e do clube, se sócios forem, invadiram a área reservada à delegação no aeroporto Salgado Filho, antes do embarque para Belo Horizonte. Atacaram o ônibus, ameaçaram agredir os jogadores e feriram Luis Fernando Cardoso, conhecido como Fernandão, segurança do Grêmio e da seleção brasileira.

Fernandão é uma dessas personagens que surgem no futebol e ganham destaque sem precisar entrar em campo ou jogar bola. Seu caráter e a excelência do seu trabalho se expressaram ao longo do tempo. Está onde o Grêmio estiver — menos neste fim de semana, quando precisou ficar em Porto Alegre, afastado pela violência da qual foi vítima. Seguidamente é visto na beira do gramado na saída dos jogadores; sempre que aparece alguma treta no caminho para os vestiários, lá está ele para proteger a todos. Ao contrário do que possa estar no imaginário de qualquer um de nós, é o tipo de segurança que está lá para cuidar das pessoas, não para agredir.

Lembro do carinho com que Fernandão tratou meu pai quando fomos à Arena do Grêmio comemorar seus 80 anos de vida. No fim da partida, estávamos a caminho do vestiário, onde o pai receberia de presente uma camiseta do tricolor, das mãos da diretoria e da comissão técnica. Fomos parados em uma das barreiras necessárias para controlar a movimentação de pessoas. E, sem que precisássemos dizer uma só palavra, assim que ele percebeu a presença do pai fez questão de se dirigir até nós e pedir licença a todos para que dessem passagem ao que ele tratou como uma lenda do jornalismo esportivo: “este é o grande Milton Ferretti Jung”. Um ato singelo que ficou no coração de todos nós.

Fernandão já deverá estar de volta à ativa para receber a delegação que chegará em Porto Alegre com uma rara vitória fora de casa na bagagem. Rara e muito importante, especialmente pela maneira como foi construída. Havia uma aparente consistência defensiva quando tomamos o primeiro gol — e como temos levado golaços nestes últimos tempos.

Parecia que estávamos prestes a assistir a mais uma derrota. Porém, sem desistir, conseguimos o empate ainda no primeiro tempo, com Edenilson cabeceando para as redes depois de uma cobrança de escanteio. No segundo tempo, mais uma vez, de uma bola que veio do escanteio, Balbuena aproveitou a sobra e virou o placar a nosso favor. Receosos — gato escaldado tem medo de água fria — só acreditamos que a vitória seria nossa após Aravena completar nas redes uma assistência de André Henrique, a partir de jogada iniciada por Riquelme no meio de campo.

Essa vitória — e por isso convido você, caro e cada vez mais raro leitor desta Avalanche, a registrar a data de hoje — pode ser o ponto de inflexão que o Grêmio precisava para se recuperar de uma temporada ruim. Que seja também uma vitória dedicada ao Fernandão, símbolo de proteção, caráter e resistência gremista.

Avalanche Tricolor: com os olhos mais velhos e abertos

Fluminense 1×0 Grêmio
Brasileiro – Maracanã, RJ/RJ

Foto: Lucas Uebel/GrêmioFBPA

Foi um fim de semana de reencontro, abraços e presença da família. Completei 62 anos, na sexta-feira, e recebi a visita dos meus parentes de Porto Alegre. Um deles, meu irmão, ainda mora na casa da Saldanha, onde praticamente nasci. É o endereço vizinho ao saudoso estádio Olímpico, ambos parte de um território afetivo que ainda pulsa em mim — cenário de muitas das minhas histórias da infância e adolescência, algumas já confessadas nesse espaço.

Brinquei nas calçadas da Saldanha, joguei taco, bola de gude e futebol; andei de bicicleta, pulei corda (sempre desajeitado) e fiz mais um monte dessas coisas comuns para a época. O trajeto até o estádio, sem precisar da companhia dos pais, era sinal de autonomia, mesmo que a distância não fosse grande. Considerando que no início nem atravessar a rua era permitido, quando fui autorizado a ir ao Olímpico sozinho era como se tivessem expedido minha carteirinha de “gente grande”.

No Olímpico, vivenciei momentos marcantes. E não estou falando apenas das emoções dos dias de futebol. Fiz amizades, tive aprendizados, amadureci nas perdas e me lambuzei nas conquistas. Uma série de situações com as quais me deparei jogando futebol e basquete, mas, também, conversando com pessoas mais velhas, compartilhando confidências com mais jovens e observando o comportamento humano.

Parcela do que sou depois de mais de seis décadas de vida foi construída por lá. Isso explica por que o Grêmio se tornou tão importante para mim. Por outro lado, o tempo me fez trocar o fanatismo insano pela paixão racional. Gritava com o juiz antes mesmo do apito, encontrava um culpado externo para cada tropeço em campo e acreditava que bastava vestir a camisa para vencer. Hoje, continuo fanático — não perco um jogo, sofro a cada passe errado, vibro com cada gol. Mas minha paixão ganhou um contorno mais racional. Passei a entender melhor o que somos capazes de entregar, a reconhecer as limitações do time e a aceitar que, muitas vezes, a culpa não está lá fora, mas dentro de casa. Sigo acreditando, mas com os pés no chão e os olhos abertos.

E o que vi na noite de sábado, no Maracanã, me deixou pouco confiante em relação ao que podemos alcançar nas próximas rodadas do Campeonato Brasileiro — que as mudanças ocorram o mais breve possível. Consola saber que, na sala de casa, aqui em São Paulo, de onde assisti ao Grêmio, eu estava cercado pela família que veio comemorar meu aniversário.

Avalanche Tricolor: vitória a se comemorar!


Grêmio 2 x 1 Fortaleza
Brasileiro – Arena do Grêmio, Porto Alegre RS

Braithwaite comemora em foto de Lucas Uebel/GrêmioFBPA

Vitória é bom. E eu gosto!

Se veio no sufoco, contra um time da parte de baixo da tabela… que diferença faz? Não estamos em posição de escolher adversário nem estilo de jogo. O Grêmio precisava pontuar — e pontuou. Três pontos na conta, o suficiente para afastar, ao menos por ora, aquele fantasma que ninguém quer nomear.

Pelo jeito, vai ser assim mesmo: jogo a jogo, com o coração na mão. Até que os reforços cheguem e o time encontre algum encaixe, vale a velha máxima: se der pra ganhar, ganhe; se não der, empata. E se perder… levanta, sacode a poeira e tenta de novo.

Houve quem lembrasse dos dois pênaltis logo no início, mas foram fruto de jogadas construídas com velocidade, inteligência e precisão — algo que andava em falta por aqui. Mérito de quem armou, mérito de quem correu, e mais ainda de Braithwaite, que cobrou com a frieza dos artilheiros de verdade.

Levamos um gol, sim, mais uma vez pelo alto. E isso já virou trauma. Mas desta vez não desabamos. Houve equilíbrio na marcação — apesar das trapalhadas de sempre, que insistem em colocar à prova o nosso coração tricolor.

Jogamos com o que temos. E com o que temos, fomos suficientes.

Quando virá a próxima vitória? Ninguém sabe. Por isso mesmo, hoje, a gente comemora.

Avalanche Tricolor: triste resignação


Palmeiras 1×0 Grêmio

Brasileiro – Allianz Parque, São Paulo SP

Foto: Lucas Uebel/GrêmioFBPA

Levamos o gol aos três minutos. Três. Era como se o destino quisesse deixar tudo às claras desde o início. Nenhuma surpresa, nenhum suspense — apenas a exposição cruel da nossa fragilidade. O adversário nem precisou se esforçar tanto. Nós nos entregamos cedo demais, como quem esqueceu como se luta.

E, ainda assim, o que se viu depois foi um desastre controlado. A derrota por apenas 1 a 0, diante do que se desenhava, quase soou aceitável. E isso é lamentável. Porque quando passamos a tratar a derrota como alívio, é sinal de que algo se partiu por dentro — e nem ouvimos o estalo. Não fui forjado gremista para me sentir assim.

A noite teve cheiro de resignação. E ela pesa mais do que a própria derrota. Se arrasta, silenciosa, e ocupa os espaços antes preenchidos por fé, por brio, por teimosia. E, convenhamos, torcer pelo Grêmio sempre exigiu um pouco de teimosia. Uma dose de esperança irracional, dessas que desafiam a lógica mesmo nos momentos mais sombrios.

Preocupante é ver jovens como Riquelme, Igor, Alysson e Jardiel nesse campo minado. Eles carregam talento, energia, vontade — mas enfrentam um ambiente que, em vez de impulsioná-los, ameaça engoli-los. Um clube fragilizado pode afundar até o que tem de mais promissor. A história está cheia de promessas que não resistiram ao caos.

Mas talvez — talvez — seja justamente nesses nomes que more nossa esperança. Se não forem amparados agora, correm o risco de sucumbir. Mas se forem fortalecidos, protegidos e colocados no centro de um projeto real de reconstrução, podem representar não só o futuro, mas o presente do Grêmio. Talvez seja hora de parar de esperar que os veteranos resolvam o que já não sabem mais resolver — e apostar na coragem de começar de novo, de baixo, com quem ainda tem fome e futuro.

Aceitar as fraquezas não significa se conformar com elas. Reconhecer que estamos frágeis é o primeiro passo para reconstruir. E se há algo que não podemos perder, é a teimosia de acreditar. Porque teimar também é amar.

Avalanche Tricolor: que os deuses nos perdoem

Vasco 1×1 Grêmio
Brasileiro – São Januário, Rio de Janeiro/RJ

Gustavo Martins comemora gol, em foto de Lucas Uebel/GrêmioFBPA

Havia depositado minhas esperanças na interrupção das partidas devido à Copa do Mundo de Futebol da Fifa. Imaginei que seria a oportunidade de o time se reorganizar, recuperar fisicamente seus jogadores e permitir que Mano Menezes descobrisse uma fórmula que fizesse os escalados oferecerem o que tivessem de melhor. Porém, desde que o calendário foi retomado, com exceção daquela vitória na Recopa Gaúcha, estamos em dívida com o futebol.

Goleado na volta do Campeonato Brasileiro e tendo colocado em risco a sequência na Sul-Americana, depois de perder a primeira partida do play-off por 2 a 0, cheguei a imaginar que hoje teríamos alguma felicidade à disposição. Apesar de estarmos jogando fora, tínhamos um adversário também fragilizado e poderíamos tirar vantagem da tensão que vinha das arquibancadas. Ledo engano!

Tivemos de contar com o excelente desempenho de Tiago Volpi — que evitou mais um desastre —, com a visão milimétrica do VAR — que anulou um gol ainda no primeiro tempo —, e com o voluntarismo de Gustavo Martins.

O guri, que está prestes a completar 23 anos (11/08), é zagueiro de origem e tem sido improvisado para resolver a ausência de nossos laterais direitos. Geralmente se destaca dentro da área adversária nas cobranças de escanteio e de falta. Foi dele o gol que nos levou à final do Campeonato Gaúcho, resultado de uma bicicleta já nos acréscimos. Hoje, no início da partida, Martins havia arriscado lance semelhante, mas a bola foi por cima da goleira.

Quando já estávamos perdendo e sob o risco de vermos o placar se ampliar, foi novamente Gustavo Martins quem apareceu para nos salvar (e veja só: uso o verbo “salvar” para um gol de empate). Depois de uma cobrança de falta do lado esquerdo, afastada pela defesa, Pavon ficou com o rebote e cruzou para dentro da área, encontrando nosso zagueiro-lateral entre os marcadores. Gustavo Martins fez de cabeça o gol que evitou a derrota.

André Henrique, que entrou no segundo tempo, quase conseguiu o gol da virada ao aproveitar um lançamento da nossa defesa que acabou batendo no travessão. Para um time que ofereceu tão pouco e foi dominado na maior parte do jogo, seria um prêmio imerecido (apesar de que eu ando aceitando qualquer coisa positiva que venha do campo).

No meio da semana, o torcedor gremista haverá de fazer sua parte enchendo as arquibancadas para comemorar a nova relação do clube com o seu estádio. Quero crer que o time entenderá a relevância deste momento e o que significará iniciar esse capítulo da nossa história com uma vitória capaz de nos levar à próxima fase da Sul-Americana.

Que os deuses do futebol nos perdoem pela escassez de talento e, ainda assim, nos abençoem neste encontro com a “Arena, verdadeiramente, do Grêmio”.

Avalanche Tricolor: amor que empata, mas não esfria

Grêmio 1×1 Corinthians

Brasileiro – Arena Grêmio, Porto Alegre RS

Foi no Dia dos Namorados que o Grêmio entrou em campo para enfrentar o Corinthians. Um a um, placar final. Um empate que, à primeira vista, parece pouco para quem jogou em casa. Mas quem ama sabe: nem todo encontro precisa ser vitória esmagadora. Às vezes, o que vale mesmo é não sair derrotado.

Essa partida foi mais do que futebol. Foi quase um jantar a dois, daqueles em que os dois lados evitam discussões maiores, escorregam num ou outro erro, mas permanecem sentados à mesa. O Grêmio, que vinha tropeçando muito no Campeonato Brasileiro, resistiu. E resistência, numa fase dessas, é mais do que suficiente para manter acesa a chama.

Sim, tem quem diga que empatar em casa é tropeço. Pode até ser, tecnicamente falando. Mas para quem, como eu, vive esse relacionamento de décadas com o tricolor gaúcho, há algo mais profundo. Quando a maré anda brava, o que importa é não deixar o barco virar. E o Grêmio não virou. Manteve a invencibilidade dos últimos jogos — há cinco partidas não perdemos . E isso já é uma forma de cuidado, de reencontro com um pouco de estabilidade.

Mano Menezes agora terá tempo com a parada para a Copa do Mundo de Clubes. E tempo, todo casal sabe, é matéria-prima do recomeço. Com tempo, ajeita-se a defesa, melhora-se o entrosamento, encontra-se o tom certo da conversa entre meio-campo e ataque. Com tempo, o amor reencontra seu jeito de jogar.

Amar um time é como viver um relacionamento longo. Há momentos de paixão arrebatadora, títulos levantados como declarações públicas de afeto. E há fases de silêncio, de desentendimentos, de expectativas frustradas. Mas a gente permanece. Não por teimosia, mas por compromisso. Por memória. Por promessa.

No Dia dos Namorados, o Grêmio me presenteou com um empate. Não foi buquê nem bombom. Foi apenas o sinal de que, apesar das falhas e da fase, ainda estamos juntos. E isso, convenhamos, também é uma forma de amor.

Avalanche Tricolor: o Grêmio está estranho — e isso é bom

Juventude 0x2 Grêmio
Brasileiro – Alfredo Jaconi, Caxias do Sul RS

Cristian Olivera fez o 2º gol. Foto: Lucas Uebel/GrêmioFBPA

Um domingo estranho para os padrões gremistas dos últimos meses. Uma vitória por dois gols de diferença não acontecia desde o início de abril; a última vez que ganhamos três partidas consecutivas foi em janeiro; e agora completamos quatro jogos sem tomar gols — somados os resultados do Brasileiro, Copa do Brasil e Sul-Americana.

A sorte também esteve ao nosso lado, o que não víamos há algum tempo. O pênalti infantil cometido pelo goleiro adversário, ainda nos primeiros minutos, tornou o caminho da vitória mais fácil — e contou com o auxílio do VAR. O mesmo VAR que evitou que fôssemos prejudicados com o pênalti assinalado contra nós, quando ainda vencíamos por apenas um a zero — e parecia que a história de não sabermos segurar o placar favorável se repetiria.

Alguém pode dizer que o recurso do VAR não é questão de sorte. É auxílio técnico usado para ajudar os árbitros em lances difíceis e polêmicos. Primeiro: se você, caro e cada vez mais raro leitor desta Avalanche, pensa assim, convido-o a puxar a “ficha corrida” dos lances de arbitragem em rodadas anteriores (com exceção do jogo contra o Bahia). Segundo: que um dos jogadores adversários estivesse em posição irregular no instante da jogada em que derrubamos o atacante deles na área é sorte, sim.

Ao falar de sorte, não estou reclamando. Fico bem feliz em saber quando ela decide trocar de lado. Porque, geralmente, quando isso acontece, é sinal de que o time começa a fazer por merecer. E hoje, fizemos.

Mesmo que o adversário estivesse fragilizado, é preciso considerar que continuava sendo uma fortaleza dentro do seu estádio. Mais do que isso, o Grêmio fez sua melhor partida dos tempos recentes, a começar por um sistema defensivo mais coeso. Houve intensidade na marcação, com a participação dos jogadores de ataque. Na maior parte do jogo, preferiu-se a troca de passes e, sempre que se chegava pelas alas, nossos atacantes foram atrevidos ao driblar. O meio de campo também participou ativamente, com destaques para Villasanti e Cristaldo.

Se o que assistimos foi circunstancial ou se estamos vendo o início de uma reação gremista, sob nova direção, teremos de esperar pela resposta que o tempo nos oferecerá. O Grêmio joga mais uma partida antes da longa parada para o Mundial de Clubes — tempo em que Mano poderá, se tudo correr bem, ganhar os reforços necessários e organizar melhor seu grupo. Com isso, quem sabe vitórias seguidas, defesa mais firme e boas arbitragens deixem de causar estranheza a este escrivinhador e torcedor.

Avalanche Tricolor: o Grêmio venceu!

Grêmio 1×0 Bahia — Campeonato Brasileiro
Arena do Grêmio, Porto Alegre (RS)

Kannemann é um dos nossos méritos. Foto: Lucas Uebel/GremioFBPA

Fazia tanto tempo que eu não via um árbitro marcar pênalti para o Grêmio que, no primeiro momento, nem reconheci o lance como tal — entenda como quiser essa frase. A verdade é que não temos o luxo de discutir as circunstâncias de uma vitória — elas têm sido raras demais. Esta foi apenas a segunda nas últimas treze partidas.

Apesar das limitações repetidas e dos riscos desnecessários de sempre, o Grêmio teve alguns méritos neste início de domingo. A resiliência diante de um adversário mais organizado e com talento no meio-campo foi um deles. E não dá para reclamar da entrega dos nossos jogadores que, visivelmente, têm redobrado esforços para impedir qualquer triunfo adversário. Surpreendentemente, hoje, não tomamos gol. Mesmo aqueles que, ao receberem a bola, parecem não saber exatamente para que serve aquele objeto, correm intensamente no gramado — registre-se: o mais feio da Série A do Campeonato Brasileiro.

Christian Oliveira, pelo lado direito, também está na restrita lista de méritos gremistas. Pena que não tenhamos sido competentes para transformar seus dribles e cruzamentos em finalizações. Ao lado dele, Kannemann. Apesar das duas cirurgias recentes e dos 34 anos, continua um exemplo de dedicação. Vê-lo protagonizando jogadas ofensivas — hoje, deu chapéu, cruzou para a área e ainda deu assistência — revela tanto o destemor do nosso zagueiro quanto o grau de desorganização que ainda nos define. Tem ainda a cobrança de pênalti certeira nas redes de Braithwait — um surpresa se pensarmos que nossos jogadores não têm tido o costume de ver árbitros apitando pênalti a nosso favor.

Por fim, é claro, os três pontos. Conquistados a despeito de todas as condições, são o que temos a comemorar, por enquanto. O Grêmio venceu! Portanto, que comemoremos!

Avalanche Tricolor: luto, lamentos e lágrimas

São Paulo 2×1 Grêmio
Brasileiro – Morumbi, São Paulo (SP)

O luto na braçadeira dos jogadores. Foto: Lucas Uebel/GrêmioFBPA

É tarde da noite, neste sábado, e não me arrependo da decisão de não ter ido ao Morumbi — que fica próximo de onde moro desde que vim para São Paulo. Ao longo do dia, considerei algumas vezes a ideia de assistir ao jogo no estádio, experiência que sempre me trouxe prazer, mesmo quando o resultado não colaborava.

Ver o Grêmio apenas se defendendo desde o primeiro minuto, sem demonstrar qualquer vontade ou possibilidade de atacar, foi o suficiente para me convencer de que tinha feito a escolha certa ao permanecer diante da televisão. Evitei o desconforto de chegar ao estádio, o ingresso sempre mais caro do que o espetáculo merece, a arquibancada descoberta e fria, e a insegurança de voltar para casa no fim da noite.

Foi, então, que em um raro contra-ataque, Aravena balançou as redes. Já passava da meia hora de jogo quando, pela primeira vez, o time entrou na área adversária e chutou em direção ao gol — e ao fim da partida, saberíamos que isso só se repetiria outras duas vezes, sem o mesmo sucesso.

O gol, aos 36 minutos, foi o único instante em que minha memória afetiva me fez questionar a ausência no estádio. Que saudade de poder pular na arquibancada, comemorar uma conquista, abraçar quem estivesse ao lado com aquela intimidade que só os torcedores sabem exercer. Uma sensação fugaz.

Infelizmente, os fatos que se seguiram confirmaram que a alegria seria momentânea, e a ausência no estádio, longe de ser lamentada. Abdicamos da posse de bola, insistimos em apenas nos defender e repetimos os vacilos na marcação que têm sido frequentes nas últimas três temporadas. Sim, há três anos o Grêmio sofre uma quantidade absurda de gols, e essa sangria parece não ter fim — seja quem for o técnico na casamata.

O pênalti marcado — e, como sempre, discutido — além de irritação, deveria provocar reflexão. Independentemente da qualidade dos árbitros e dos erros do VAR, é preciso admitir: o Grêmio se expõe a esses riscos por conta das circunstâncias do seu jogo. Um time que vive com a bola sendo jogada dentro ou ao redor da própria área está sempre à beira do desastre, seja por trapalhadas do juiz, seja pelas próprias falhas defensivas.

Lamento pelo futebol mal jogado e por estarmos de volta àquela zona que você sabe qual é. Mas esse é o tipo de lamento que se dissolve no jogo seguinte. Sempre há espaço para recuperação, seja daqui uma semana, seja algumas rodadas à frente.

Confesso, porém, que me envergonha ficar desanimado com as coisas do futebol quando a vida impõe tragédias reais, como a enfrentada por Mano Menezes. A morte de dois de seus ‘netos de coração’ em um acidente automobilístico é uma dor infinita, que eterniza uma cicatriz na alma. A ele e a todos os familiares que choram por essas duas crianças, nossa solidariedade e nossas lágrimas de tristeza e consternação.