Avalanche Tricolor: Luan voltou a sorrir

 

Grêmio 2×1 Athletico PR
Brasileiro — Arena Grêmio

 

 

Gremio x Athletico-PR

Luan comemora, em foto de LUCASUEBEL/GRÊMIOFBPA

 

Eita, coisa estranha esse campeonato! Dia desses falei com você, caro e raro leitor desta Avalanche, que ainda me acostumava com o fato de ter de assistir a alguns jogos em horários diferentes, como o do sábado passado que foi às nove da noite, além de termos partidas disputadas quase todos os dias da semana. Não é que nesta 16a rodada do Brasileiro, descobri que também passamos a ter jogos sábado pela manhã?!? Ainda bem que não era o do Grêmio.

 

A rodada mal começou e deparei com outra novidade: jogo de bola só na internet —- exclusiva no site GloboEsporte.com. Por falta de atenção minha, passei a correr as centenas de canais disponíveis na televisão e nada de aparecer a partida do Grêmio. Clica aqui, corre canal ali, acessa o PPV —- aquele que eu pago para ver, mas não tive direito de ver —- e só depois de a bola já ter começado a correr na Arena lembrei que o adversário dessa tarde tem um imbróglio qualquer com a emissora que detém os direitos de transmissão (ou quase todos) do campeonato.

 

Corri no computador e conectei na TV tão rápido quanto pude. E logo descobri que o ataque do Grêmio foi bem mais rápido do que eu e em três minutos já havia aberto o placar, depois de pressionar a defesa adversária, provocar o erro, Luciano roubar a bola e deixar Luan na cara do gol. Ainda bem que a mesma internet logo tinha à disposição o gol gremista para ver e rever quantas vezes eu quisesse. E gostei muito de ver Luan marcando e comemorando aquele gol que o consolida como goleador da Arena e o coloca na privilegiada posição de já ter mais gols com a camisa do Grêmio do que o próprio Renato.

 

Dizem que Luan pode ir embora. Dizia-se o mesmo há exatos dois anos quando o meio-campista estava no auge de sua performance. Ele preferiu ficar, mesmo com as ótimas propostas que surgiam. Quis ser campeão mais vezes pelo Grêmio, conquistar a Libertadores, ser o Rei da América, disputar o Mundial e deixar seu nome na história. Luan conseguiu.

 

Neste ano, seu desempenho ficou abaixo de sua capacidade. Foi para o banco, entendeu que o momento não era dele. Treinou muito, recuperou-se fisicamente e tem se esforçado além da conta em toda a oportunidade que recebe. “Titular” do time alternativo, Luan enfrenta a dificuldade imposta por uma equipe que não tem o mesmo entrosamento da principal. Mas sabe que precisa passar por esse momento para voltar a ser o jogador que aprendemos a admirar em campo.

 

Se esses serão os últimos dias de Luan com a camisa do Grêmio, saberemos em breve. Se realmente o forem, o jogo deste sábado já valeu a pena, pois fiquei feliz em ver o sorriso dele na festa que fez pelo gol marcado e na festa que recebeu da torcida pelo jogo jogado. E mais uma vez Renato foi genial ao sacá-lo do time minutos antes de a partida se encerrar dando-lhe o direito de ouvir seu nome ser gritado pelos torcedores enquanto deixava o gramado.

 

Valeu, Luan!

Avalanche Tricolor: David Braz é o tipo do cara que gosta de jogar bola sábado à noite

 

Grêmio 1×1 Palmeiras
Brasileiro — Arena Grêmio

Gremio x Palmeiras

David Braz comemora em foto de Lucas Uebel/GREMIOFBPA

 

 

Lá no Nonoai, bem em frente ao prédio onde o pai morou nos seus últimos dias, tem um mini-campo de futebol com grama rala, goleiras posicionadas e muito bem cercado — foi a forma que os donos do campinho encontraram para impedir que chutes desajeitados façam a bola se perder no riacho que passa atrás de um dos gols, no pátio da paróquia  que fica do lado contrário ou na rua Santa Flora, que corre por uma das laterais, onde os carros costumam andar em velocidade acima da necessária.

 

Nas últimas visitas que fiz ao local, ao estacionar o meu carro em frente ao campinho, chamava-me atenção o fato de todo dia ter gente para jogar. Alguns times mais organizados. Com uniforme e tudo mais. Com direito a resenha na porta do vestiário e ritual ecumênico antes da partida — aquela corrente pra frente que às vezes assistimos nos gramados oficiais. Parece que cada jogo ali jogado era uma decisão.

 

O que mais me intrigava era a turma dos sábados à noite. Isso é hora de jogar bola? Essa gente não tem família para visitar, amigos para badalar ou namorada para … namorar? Sei que essa cena, em Porto Alegre, não deveria me causar estranheza, especialmente depois de já ter assistido muitos times se engalfinhando  nas madrugadas do Rio de Janeiro, lá no Aterro do Flamengo. Afinal, futebol  é para ser jogado quando e onde quisermos. Basta a bola, um adversário que seja e nosso desejo está atendido. Diversão em campo. 

 

Meu incômodo talvez esteja ligado ao meu passado. Quando comecei a frequentar estádios de futebol, jogo de verdade se assistia aos domingos à tarde. Quarta-feira à noite também era aceitável — especialmente depois que meu time passou a visitar as competições sul-americanas, e as copas nacionais ganharam espaço no calendário do futebol brasileiro. 

 

Hoje em dia (e à noite), tem futebol a toda hora. Sábado de tarde, sábado no fim da tarde, sábado no fim da noite. Domingo de manhã, de tarde e de noite. Às segundas, também. Terça, quarta, quinta, não pode faltar. Seja para atender as múltiplas competições que alguns dos nossos times disputam seja para vender todos os jogos à televisão, a bola rola a todo momento aqui no Brasil.

 

Neste sábado à noite — NOVE HORAS DA NOITE — foi a vez do Grêmio e sua torcida comparecem no bairro do Humaitá para mais uma partida pelo Campeonato Brasileiro. Aquele que eu já havia decidido em minha intimidade que só voltaria a tratar aqui nesta Avalanche quando o Grêmio resolvesse disputar de verdade, com time titular, resenha motivacional no vestiário, ritual ecumênico antes da partida  e o desejo da conquista maior a qualquer custo.

 

Quem joga bola sábado à noite? Foi a pergunta que me fiz antes de me ajeitar no sofá e ligar a televisão para ver o Grêmio — sim, caro e raro leitor desta Avalanche, eu tenho família, filhos para cuidar e namorada para namorar, mas neste sábado os compromissos profissionais e pessoais começaram muito cedo e tinham se estendido por todo o dia, então resolvemos descansar em casa em lugar de sair com os amigos. E descansei no sofá assistindo ao Grêmio.

 

Quase me arrependi do programa reservado para esse sábado à noite . Fui salvo pelo bom vinho que saboreei enquanto a bola rolava na Arena e por aquele chute do David Braz, aos 44 minutos do segundo tempo. Assim que bateu na bola, lembrei-me do chutão que costumava partir dos pés daquela turma do campinho do Nonoai que só não alcançava a torre da Igreja ou a profundeza do riacho por causa da cerca. A diferença é que o chute do nosso zagueiro em lugar de ser desajeitado tinha um destino bem melhor: o ângulo do goleiro adversário.

 

Foi, então, que me dei conta: se tem alguém que gosta de jogar sábado à noite, este alguém é o David Braz, especialmente quando o pai dele, Seu David, faz aniversário.

 

Valeu, seu David. O senhor salvou o meu sábado!

 

Avalanche Tricolor: gol-gol-gol-goooool de Luan!

 

 

 

Inter 1×1 Grêmio
Brasileiro — Beira Rio/Porto Alegre-RS

 

 

O sábado começou com ótimas lembranças do clássico. Pelo e-mail soube que Edu Cesar, responsável pelo canal Papo de Bola, havia publicado imagens de um Gre-Nal disputado, em 1983, no Beira-Rio. O jogo em destaque terminou empatado depois de o Grêmio sair atrás no placar, muito parecido com o que aconteceu neste noite —- confira o vídeo alguns parágrafos abaixo.

 

Pelos jogadores que passaram na tela, desconfio que também entramos com time reserva. O jogo era válido pelo Campeonato Gaúcho e disputado em novembro. Vamos lembrar que naquele momento estávamos muito mais dedicados ao Mundial, que haveríamos de vencer em dezembro, no Japão.

 

De qualquer forma, foi bom ver em cena ao menos um dos nossos craques do passado, caso de Paulo Bonamigo que deu início a jogada do segundo gol com um passe de três dedos para a ponta esquerda. Era um volante que combinava muito bem a boa qualidade técnica para sair jogando e a força na marcação.

 

Puxei na memória, mas não consigo lembrar de ter estado no estádio naquele domingo. Seja como for nem o resultado nem os jogadores em campo foram o motivo da alegria que o vídeo me proporcionou. O que mais me tocou foi o fato de que a narração do jogo era do pai, na época em que trabalhou na TV Guaíba.

 

Se você é leitor de primeira viagem nesta Avalanche, esclareço: sou filho de Milton Ferretti Jung —- sim, sou o Júnior —-, que dedicou 60 anos de sua vida ao rádio e por algum tempo ao jornal e à televisão. Foi locutor do principal noticiário do rádio gaúcho e narrador esportivo. Com a inauguração da TV Guaíba, passou a transmitir os jogos pela emissora.

 

 

O pai adaptou sua forma de narrar os jogos quando se transferiu para televisão. Fazia uma descrição mais comedida dos lances e reduziu o grito de gol que havia criado no rádio. Manteve o gol-gol-gol — sua marca registrada —- mas abriu mão do grito mais longo e alto de gol ao final. Entendia que a imagem era suficiente para oferecer ao telespectador a emoção necessária. Foi um craque nessa arte da narração, assim como no jornalismo esportivo de uma forma geral.

 

Ouvi-lo no sábado pela manhã, bateu fundo no coração. Deu saudade não apenas da sua voz, mas da sua presença ao meu lado. Assistimos a muitos jogos juntos. Comemoramos abraçados os gols mais importantes da história do Grêmio. Quando eu assistia aos jogos na cabine da rádio Guaíba, o grito de gol dele sempre vinha acompanhando de um sorriso que era compartilhado comigo, como se quisesse se desvencilhar das amarras que o papel de narrador lhe impunha para me abraçar como torcedores gremistas que sempre fomos. Muitas vezes passei meus braços no entorno da cintura dele para comemorar enquanto cumpria sua função diante do microfone.

 

O pai hoje encara os desafios que a doença o impõe, em Porto Alegre — sequer pode ter a alegria de assistir ao Gre-Nal pela televisão. E se tivesse condições, talvez ficasse frustrado com o futebol jogado nesta noite. Eu estava aqui em São Paulo e assisti à bola ser maltratada de pé em pé, em um jogo no qual as duas equipes entraram com forças medianas, devido aos compromissos mais importantes no meio da semana. Mas juro que ao ver a bola estufar a rede colorada após Luan completar de cabeça o cruzamento de Juninho Capixaba parecia estar ouvindo a voz dele em alto e bom som gritando aos quatro cantos do Rio Grande do Sul: gol-gol-gol- gooooooooool de Luan, o Rei da América!

 

Saudade do seu grito, pai.

Avalanche Tricolor: Pepê é mais um talento com direito a nome próprio

 

Grêmio 2×1 Vasco
Brasileiro — Arena Grêmio

Atacantes

 

Faz pouco tempo que assistimos à ascensão de Everton. Lembrei parte dessa história na Avalanche anterior, ao escrever sobre nosso empate na Copa do Brasil. O atacante, hoje cobiçado por alguns dos mais importantes clubes da Europa, até se firmar entre os titulares, tinha de esperar as substituições que Renato fazia no segundo tempo, geralmente em lugar de Pedro Rocha. No Mundial de Clubes, Rocha assistiu àquele jogo quase ao meu lado na arquibancada — ele já havia sido vendido ao exterior, onde ficou pouco tempo para retornar ao Cruzeiro. Mesmo assim, Everton ainda era um reserva de luxo. Fernandinho era o preferido do treinador.

 

Na época do entra e sai no time, Everton oscilava em suas apresentações. Quando encarava os marcadores já cansados no segundo tempo, levava vantagem com sua velocidade e habilidade com a bola. Fez gols importantes na campanha vitoriosa da Copa do Brasil, em 2016. Porém, sempre que saía jogando, seu futebol era colocado em dúvida, pois a excelência que se esperava dele não costumava aparecer da mesma maneira. Repetia assim o mesmo que já havia ocorrido com Pedro Rocha —— inclusive nas críticas, injustas, a imprecisão nas finalizações a gol. 

 

Rocha também demorou para se firmar entre os titulares. Havia torcedores que arrancavam os cabelos todas às vezes que assistiam ao nosso atacante disparar em direção ao gol e desperdiçar suas oportunidades com chutes sem precisão. Até que, com a confiança demonstrada pelo técnico, seu futebol amadureceu, ganhou personalidade, transformou-se em titular reverenciado por todos os torcedores e valorizado a ponto de ser a maior transação gremista de todos os tempos: foi negociado por 12 milhões de euros —- 45,2 milhões de reais —- para o Spartak Moscou, da Rússia.

 

Mesmo depois do gol que nos levou à final do Mundial, em 2017, Everton voltou a ocupar o banco de reservas, ao menos mais uma vez. Na partida decisiva, em Abu Dhabi, só entrou no segundo tempo. Com apenas 21 anos, trilhava o mesmo caminho de seu antecessor e sabia que sua hora estava para chegar.

 

Foi no ano seguinte, 2018, que Everton se notabilizou, tornou-se titular absoluto e um dos maiores goleadores da Arena Grêmio, tendo seu nome cogitado para a seleção brasileira. Neste 2019, após a consagração na seleção campeão da Copa América, mantê-lo no elenco virou missão impossível e estamos aqui apenas contando os dias que faltam para o jogador anunciar sua despedida do clube.

 

Nós torcedores já estamos resignados com essa situação: todo ano, dar adeus ao menos a um dos nossos jovens craques. Já não nos indignamos mais com a saída precoce deles e nos consolamos com as cifras absurdas que os estrangeiros pagam para contratá-los, nos contentando com uma espécie de competição paralela com os nossos rivais na qual quem consegue vender seu talento por uma preço maior é o vencedor.

 

Aos gremistas nos resta a satisfação de saber que a fábrica que produz jogadores com a qualidade e velocidade de Pedro Rocha e Everton dá sinas de estar em plena atividade. Haja vista, o crescimento de Pepê a cada partida que disputa. Ele jogou na base do Athletico Paranaense, foi para o Foz do Iguaçu —- na cidade natal —, passou rapidamente pelo Coritiba e chegou nas nossas bandas em 2016, após uma operação sigilosa da diretoria gremista que temia perder o jogador para os concorrentes mais próximos.

 

Fez sua estreia no time profissional em 2017 e, veja como a história é cíclica, substituindo Everton. Fez seu primeiro gol já na terceira partida que disputou e sempre que chamado por Renato apresenta-se com uma vitalidade incrível que lembra …. bem, lembra Everton.

 

Foi assim, nesse sábado quando o Grêmio venceu de virada com dois gols do nosso jovem atacante. O primeiro entrando em velocidade pelo lado direito da área e aproveitando passe preciso de Luan; e o segundo, pasmem, de cabeça após um cruzamento-passe de Leo Moura — sim, ele tem no máximo 1,75 de altura, mas estava dentro da área e muito bem colocado. Pepê cabeceou de olhos abertos e com o movimento clássico que esperamos dos atacantes sempre que a bola é alçada para a área. Já é um dos nossos goleadores do Campeonato Brasileiro. Sim …. ao lado de Everton.

 

Ontem mesmo já havia quem estivesse chamando-o de Novo Everton.

 

Vamos combinar o seguinte, assim como aprendemos a respeitar o futebol de Everton com a saída de Pedro Rocha, vamos aprender a admirar o futebol de Pepê com a saída de Everton. E dar a ele direito a nome próprio: Pepê, o novo craque!

Avalanche Tricolor: Jean Pyerre tem futebol e sobrenome de craque

 

Grêmio 1×0 Fortaleza
Brasileiro — Centenário, Caxias do Sul/RS

 

Gremio x Fortaleza

O talento de Jean Pyerre em foto de LUCASUEBEL/GRÊMIOFBPA

 

Recorri ao VAR aqui de casa para entender a dimensão da jogada de Jean Pyerre que nos levou a marcar o único e decisivo gol da partida desse sábado à noite. Como já tínhamos 44 do segundo tempo e apenas mais alguns minutos de acréscimo, no momento em que Pepê desviava a bola para rede eu já não conseguia prestar atenção em mais nada do que acontecia no gramado do Centenário —- sim, tivemos de jogar lá em Caxias do Sul, onde o frio é mais frio e a chuva, mais gelada, porque a Arena está reservada à Copa América.

 

Naquele momento, só me passava pela cabeça o risco de ficarmos mais um jogo sem vitória, mesmo tento atacado muito e mantido a bola sob nosso domínio por muito mais tempo do que o adversário; imaginava o constrangimento de mais uma segunda-feira de trabalho dando explicações dos motivos que nos faziam ocupar o Z4; e, pior ainda, saber que estaríamos alimentando por mais tempo os teóricos da conspiração durante toda a parada para a Copa América.

 

Foi, então, que de repetente vi Jean Pyerre metendo a bola pelo meio da área para encontrar lá do outro lado Pepê, que com um chute cruzado fez o gol da vitória. Demorei para comemorar. Queria ter certeza de que a bola seguiria o seu destino. E a impressão que tive é que ela demorou para se decidir, também: entro ou não entro? Entrou.

 

Na comemoração já tinha ideia da beleza do lance, mas, como disse, a visão estava embasada pela tensão do empate que se realizava em mais uma partida em casa, ou melhor, em que tínhamos o mando de campo. Por isso, antes de começar a escrever esta Avalanche fiz questão de ver e rever o lance na tela do computador. Vi em velocidade normal, revi em câmera lenta, congelei a cena e repeti tudo de novo por mais algumas vezes.

 

Meu VAR ajudou-me a entender como tudo se iniciou e como o futebol nos reserva surpresas. Sabe-se que Jean Pyerre tem talento superior a média, mas muitos o consideram lento de mais nas jogadas. Há os que reclamam da dificuldade dele em desarmar o adversário. E os que entendem que lhe falta fôlego para aguentar o tranco dos jogos mais duros, por isso acaba sendo substituído ao longo do segundo tempo.

 

Eis que já tínhamos um jogo inteiro em disputa, com desgaste de lado a lado, e foi exatamente Jean Pyerre quem apareceu para desarmar a tentativa de ataque do adversário. Interceptou a jogada no meio de campo e olhou para frente em busca de um companheiro. Percebendo o espaço que a marcação lhe oferecia, deu velocidade ao ataque com quatro passadas longas e domínio preciso da bola. Qualquer jogador comum não teria encontrado outra solução senão arriscar o chute.

 

Jean Pyerre está distante de ser um jogador comum. Tem talento, tem elegância e não tem medo de criar. Não bastasse ter sobrenome de craque: é Casagrande. 

 

Com a confiança que lhe é peculiar, o nosso meio-campista enfiou a bola rasteira entre quatro jogadores adversários. Fez a bola cruzar em diagonal e fora do alcance deles. Colocou-a no que no passado chamávamos de “ponto futuro”, onde haveria de aparecer Pepê, que fez a leitura certa da jogada de seu companheiro, correu por trás dos zagueiros, se antecipou a marcação e encontrou força suficiente para marcar o gol.

 

Um golaço que revela quantos talentos — como Jean Pyerre e Pepê — ainda temos sendo forjados para as novas conquistas e para substituir aqueles que por obra do destino se vão embora. E que nos garantiu três pontos importantes para nos dar ânimo para o período de preparação que teremos pela frente, assim que cumprirmos o compromisso desse meio de semana pelo Brasileiro.

Avalanche Tricolor: ao menos tricolor

 

 

Bahia 1×0 Grêmio
Brasileiro — Estádio Municipal do Pituaçu/BA

 

 

Vivemos uma noite tricolor, nesse sábado, aqui em São Paulo. Monumentos importantes, como o em homenagem aos Bandeirantes, que fica em frente ao Parque do Ibirapuera, receberam as cores verde, branca e vermelha, para marcar os 73 anos da República italiana. A “Tricolor” — como os italianos se referem à bandeira do país —- se fez presente na fachada da sede da prefeitura e da Fiesp, e na Ponte Estaiada, por obra e inspiração do cônsul-geral italiano na capital paulista, Filippo La Rosa.

 

O prédio do Terraço Itália, no centro da cidade, também foi iluminado pelas três cores em imagem que se destacou na noite chuvosa da capital. Eu estive logo ali ao lado, onde fica a sede do Circolo Italiano, que recebeu convidados para aplaudir meu amigo e colega Walter Fanganiello Maierovitch, juiz reformado, importante no auxílio ao combate a máfia e ao crime organizado, homem de discurso transparente e equilibrado, sempre atuante em defesa da justiça e uma voz forte em favor dos injustiçados. É palmeirense, fazer o quê, né!?! Ao menos torce hoje por um dos nossos ídolos, Luis Felipe Scolari.

 

Na mesa que estava reservada fiquei ao lado de gente boa como o narrador Oscar Ulisses, o comentarista Mário Marra e o âncora Roberto Nonato —- todos admiradores do bom futebol, assim como eu. Foi o Mário quem me sinalizou o placar final da partida que havia se realizado em Salvador. Era o mesmo que eu havia ouvido no aplicativo do rádio pouco antes de chegar ao local da festa.

 

Estava para estacionar o carro quando o locutor descreveu o lance que culminaria no gol adversário. Perdemos a bola no ataque, tomamos o contra-ataque e Geromel, na tentativa de evitar o gol, viu a bola bater no braço dele dentro da área. Cheguei a torcer por mais um milagre de Paulo Victor. Em vão. Subi para festa com o 1×0 nos ouvidos que, no fim, seria o placar fatal.

 

Além das ótimas companhias na noite que vivi nesta que é a maior cidade italiana fora da Itália, da boa mesa servida aos convivas e do orgulho de ver um amigo ser merecidamente reverenciado pela colônia tricolor, restou-me ouvir o consolo de um dos garçons que servia o vinho e me reconheceu como jornalista e torcedor do Grêmio: “ao menos quem ganhou foi um tricolor, seu Mílton!”.

 

E comandado por Roger Machado, que também é um dos nossos, pensei cá com minha gravata.

 

É, pode ser! Se tiver de ser alguém, que seja ao menos tricolor! Viva a Itália!

Avalanche Tricolor: de volta ao jogo

 

Grêmio 1×0 Atlético MG
Brasileiro — Arena Grêmio Porto Alegre/RS

 

 

Gremio x Atletico-MG

Vizeu agradece pelo gol marcado, em foto de LUCASUEBEL/GRÊMIOFBPA

 

 

Foi forte, foi com raiva e foi fundamental. Foi assim o chute de Felipe Vizeu que levou o Grêmio a marcar o único e necessário gol da partida, na noite de sábado. Esqueci de dizer também que foi com o dedo de Renato — e que a turma do VAR não anule o gol após ler essa minha afirmação.

 

Neste tempo todo em que está no comando do Grêmio poucas vezes se viu nosso técnico substituir jogadores no intervalo —- a não ser por lesão. Prefere fortalecer seus comandados — e graças a essas apostas já recuperou muitas gente que andava sem norte no gramado.

 

Desta vez, não perdoou. Voltou para o segundo tempo com duas substituições. Uma por lesão: Diego Tardelli entrou no lugar de Alisson. Outra por questões técnicas: Vizeu assumiu o posto que era de André. Nosso atacante havia perdido um pênalti pouco antes de se encerrar o primeiro tempo e a impressão que ficou é que o chute fraco e para fora tirou a paciência de Renato. Soube-se depois que Renato estava apenas sendo Renato: poupou André da vaia do torcedor que prejudicaria a ele e ao time.

 

Enfim, Renato sabe o que faz. E fez certo.

 

Dois minutos depois das mudanças, em uma das muitas cobranças de escanteio que tivemos direito ao longo de toda a partida, a bola foi desviada pelo zagueiro estreante Rodriguez e parou nos pés de Vizeu que não desperdiçou sua oportunidade.

 

Dadas as circunstâncias no campeonato, imagino que a maioria de nós torcedores já estaríamos satisfeitos com os três pontos. Vencer a primeira no Brasileiro seria importante para qualquer pretensão na competição e na temporada. Um novo revés aumentaria e muito a pressão e atrapalharia o ambiente para a partida decisiva do meio de semana pela Copa do Brasil.

 

O Grêmio de Renato foi além. Venceu, sim. Voltou a marcar. E teve competência para suportar a pressão adversária, especialmente no segundo tempo. Mais do que isso: venceu fazendo uma baita partida, especialmente no primeiro tempo, quando voltou a ser o Grêmio que conhecemos, com domínio total do jogo, bola de pé em pé, passe bem apurado, jogadores se movimentando e marcando com intensidade, e chutando muito a gol.

 

Apenas não marcamos mais cedo porque o árbitro fez uma trapalhada daquelas ao sinalizar falta de ataque, quando o que havia ocorrido era um toque de mão na bola. Como errou, impediu a sequência da jogada que foi concluída no gol por Geromel. Já que não havia visto o pênalti e a falta de ataque não ocorreu, já teríamos saído na frente no primeiro tempo.

 

Vencemos e jogamos bem. Vizeu deu as caras e Tardelli, também. Rodriguez jogou sério e cumpriu as ordens do chefe. A luz de Renato brilhou mais uma vez. O Imortal voltou!

Avalanche Tricolor: tempos estranhos

 

 

Ceará 2×1 Grêmio
Brasileiro — Castelão/Fortaleza-CE

 

 

EVERTON

Everton comemora (reprodução SporTV)

 

 
Campeão da Copa do Brasil, em 2016
Campeão da Libertadores e vice-Mundial, em 2017
Campeão Gaúcho e da Recopa Sul-Americana, em 2018
Campeão Gaúcho e da Recopa Gaúcha, em 2019

 

 
Comecei a fazer a lista acima pouco antes do fim da partida desta noite de domingo. Não que o jogo não estivesse interessante. Até que estava, apesar de o placar desfavorável — especialmente no segundo tempo quando jogamos o tempo todo no campo do adversário. Mas entre um cruzamento sem finalização e uma troca de passe interrompida, resolvi listar nossos títulos nos últimos anos porque muitas vezes a foto do dia esconde a beleza do álbum de fotografias.

 

 
Ao folhá-lo, relembrei os momentos lindos que vivemos juntos, o sorriso bonito no rosto do atacante que acabara de marcar seu gol e o brilho do troféu que nossos jogadores ofereceram aos torcedores no palco dos campeões. A foto mais marcante desta temporada, aliás, nem era da comemoração de nosso último título estadual, mas da classificação às oitavas-de-final da Libertadores, que —- não se perca no tempo — aconteceu agora há pouco, há dez dias para ser mais preciso.

 

 
A camisa, o técnico, o time que aparece no meu álbum de fotografias são os mesmos —- ou quase —- que estiveram em campo, neste domingo. Lá no Ceará, via-se a tentativa de trocar passe com aquela precisão que nos levou a vitórias incríveis. Esboçava-se uma movimentação triangular entre os jogadores do meio de campo e os atacantes. Arriscava-se alguns dribles para superar a marcação forte do adversário. Mas o resultado final não era o mesmo de “antigamente”.

 

 
Com um erro aqui e outro acolá, com uma falha atrás e um defeito na frente, com vacilos e tropeços, somamos erros em vez de somarmos pontos. Patinamos na grama molhada tanto quanto na classificação — a ponto de eu ter comemorado o empate do concorrente que nos acompanha no pé da tabela. E, confesso, achei isso muito estranho de minha parte. Por isso, voltei a olhar a lista de títulos recentes e a folhear na memória as imagens de nossas conquistas.

 

 
Sei que vivemos tempos estranhos e estamos muito mal acostumados com o revés, mas deixar de confiar no time e no grupo que nos fez tão felizes no futebol é desmerecer nossa capacidade de recuperação. E se tem um coisa que já aprendi há algum tempo torcendo pelo Grêmio é que aqueles que apostam pelo pior tendem a se dar muito mal com a gente.

 

 
Paciência, cabeça no lugar e bola no pé! Eis o caminho para a retomada das vitórias no Campeonato Brasileiro.

Avalanche Tricolor: respeito é bom e eu gosto

 

Corinthians 0x0 Grêmio
Brasileiro — Arena Itaquera

 

Gremio x Corinthians

Everton em mais uma arrancada, em foto de LUCASUEBEL/GREMIOSFBPA

 

O Grêmio e Corinthians mais importante da minha vida foi em 2001. Fomos campeões da Copa do Brasil. E antes que você pense que exagero, levando em consideração que as duas equipes já se enfrentaram em outras grandes decisões, preciso lembrar que na partida final, disputada no estádio do Morumbi, apresentava-me ao público na versão narrador de futebol.

 

Sim, já narrei jogos de futebol —- e de tênis, também —- em uma experiência que vivenciei na Rede TV!, nos anos de 2000 e 2001. Foi uma oportunidade incrível, proporcionada pelo colega e amigo Juca Kfouri — agradeço a ele até hoje essa chance, lamento apenas não ter sido capaz de retribuir tudo que ele merece. Juca me convidou para transmitir partidas de futebol, na época em que a emissora estava começando.

 

O convite foi resultado de conversas que já havíamos tido sobre modelos de transmissão de jogos pela TV, das quais meu pai também chegou a participar. Acreditávamos na ideia de que o narrador deveria ter uma interferência menor no espetáculo já bastante valorizado pela qualidade tecnológica à disposição e a quantidade de imagens disponíveis. Podemos falar sobre isso em outra oportunidade se assim você pedir, caro e raro leitor desta Avalanche.

 

Vamos ao que interessa —- ao menos ao que me interessa agora: imagine que desde pequeno assistia a meu pai narrar jogos no rádio e na TV; arriscava alguns gritos de gol ao lado da mesa de botão, no quarto de casa; e de repente passo a ter a chance de narrar partidas, ao vivo, pela TV, como gente grande. Era um sonho de criança se realizando.

 

Para esse sonho ficar ainda mais maravilhoso, depois de narrar partidas pela Champions League e Campeonato Paulista — além de uma final de Grande Slam, no Torneio de Wimbledon —-, a Rede TV! teve o direito de transmitir a Copa do Brasil de 2001. E exatamente naquele ano, a equipe, então treinada por Tite, chegou à final contra o Corinthians.

 

O primeiro jogo foi em Porto Alegre e empatamos em 2 a 2. A disputa do título seria em São Paulo, diante da torcida adversária que lotava o Morumbi e tendo o adversário como favorito —- era o que diziam os críticos da crônica esportiva. Escalado para narrar o jogo, tive de controlar a ansiedade e a torcida pelo Grêmio, em respeito ao telespectador.

 

Aos poucos, porém, o Grêmio dominou a partida. Terminou o primeiro tempo na frente e quando mal se iniciava o segundo já ampliava a vantagem. Fechou a conquista do título com um 3×1 que calou o estádio e levou este locutor ao delírio —- possível de se identificar no grito desafinado de alguns gols gremistas.

 

Aquele foi sem dúvida o Grêmio x Corinthians mais importante da vida —- não bastasse ter sido a última partida de futebol que narrei.

 

Independentemente dos fatos relacionados à minha carreira —- de profissional e de torcedor —-, a verdade é que os dois times já protagonizaram momentos memoráveis no futebol brasileiro. Com vitórias de um lado, vitórias de outro e muitos empates, semelhantes ao desta noite, em Itaquera.

 

Tenho a impressão de que existe entre os dois times um respeito mútuo que os faz comemorar quando saem de campo sem serem derrotados, estejam jogando em casa ou não. Respeito, aliás, foi a palavra usada por um dos jogadores corintianos ouvidos pela TV ao fim da partida. Revelou que o importante era não ter tomado gol e conseguido somar ao menos um ponto contra um adversário do tamanho do Grêmio.

 

Sempre bom saber o quanto nossas conquistas e nossa dimensão são respeitadas pelos adversários.

 

Melhor se conseguíssemos transformar esse excesso de respeito deles em vitórias para nós, mas sair de Itaquera com um ponto ganho não é ruim, não — mesmo com a insistência de alguns em lembrar que já estamos na quarta rodada e ainda não vencemos um só jogo neste Campeonato Brasileiro. A esses — entre os quais alguns dos nossos torcedores que se expressam nas redes sociais —, quero apenas fazer um pedido: respeitem a nossa história, parem de fazer projeções desesperadas e se lembrem que até um mês atrás muitos de vocês estavam apostando que estaríamos fora da Libertadores.

 

Às vezes, tenho a impressão de que a turma não aprende a lição. Respeitem, apenas respeitem. 

Avalanche Tricolor: chega pra lá, bruxa!

 

Grêmio 4×5 Fluminense
Brasileiro – Arena Grêmio

 

Gremio x Fluminense

Kannemann comemora um dos gols em foto de LUCASUEBEL/GRÊMIOFBPA

 

“No creo en brujas, pero que las hay, las hay” diz o ditado espanhol que ouvi meu pai repetir algumas centenas de vezes, geralmente quando revelava ceticismo em relação a alguma coisa da vida. Lembrei-me dele não apenas pela oportunidade de estar ao lado do pai nestes últimos cinco dias, em visita a Porto Alegre. Mas pelos fatos que se sucederam desde que fui embarcar em um avião de volta a São Paulo.

 

O atraso do voo, por motivos jamais explicado pela companhia aérea, nos fez embarcar no avião quase 40 minutos depois do combinado — o que já seria suficiente para atrapalhar minha agenda desta noite de domingo: assistir ao jogo do Grêmio pela televisão.

 

Como desgraça pouca é bobagem — perdão, hoje esta Avalanche está cheia de ditados —-, assim que as portas do avião fecharam, o céu em Porto Alegre fechou junto, e um temporal de vento passou a balançar a aeronave na pista do aeroporto Salgado Filho. A torre cancelou decolagens e aterrisagens. E lá ficamos todos presos a espera da liberação.

 

Costumo não ser ansioso nessas horas, mesmo porque a segurança é a prioridade. Mas estava na cara que meus planos tinham ido por água abaixo —- opa, lá foi mais um lugar-comum. Na melhor das hipóteses assistiria ao segundo tempo da partida. A chuva só se acalmou depois de uma hora e 45 de atraso.

 

Assim que desembarquei no aeroporto de Congonhas, liguei meu “radinho de pilha” do celular e fui surpreendido com um 3×0 acachapante, conquistado em 21 minutos, como exaltava o locutor esportivo. Feliz com aquela que seria a primeira vitória gremista no Campeonato Brasileiro me dirigi para o estacionamento onde um carro me aguardava.

 

Nem bem havia chegado ao estacionamento, ouvi o primeiro e o segundo gols adversários. No caminho para a casa veio o terceiro. E quando me sentei diante da televisão, pude ver o 3×4, o 4×4 e o 4×5. E tudo que consegui pensar era que “la bruja” no caso era eu, pois enquanto não acompanhava a partida estava tudo bem. Bastou começar a ouvir o jogo e o meu time desandou.

 

A me apaziguar o coração o fato de “el diablo saber más de viejo que por diablo” —- outro ditado que meu pai repetia à exaustão ao se referir à experiência que só o tempo nos oferece. Pois de tanto assistir ao futebol também sei que nem sempre é o nosso pé frio que muda o placar da partida. Às vezes “la bruja está suelta” no pé de um goleiro desastrado, de um atacante atabalhoado, de um time desconcentrado ou no apito de um juiz mal-intencionado (longe de mim levantar suspeita contra qualquer um dos personagens dessa última frase).

 

Independentemente onde “la bruja” tenha pousado, terminei o fim de semana com o desejo que ela já tenha feito todos os seus feitiços em campo e vá voar para bem longe da Arena, porque na quarta-feira, não pode haver espaço para o azar: “arriba y avante porque la Libertadores viene adelante“.