Avalanche Tricolor: vergonha!

Vasco 2×1 Grêmio

Brasileiro – São Januário, Rio de Janeiro (RJ)  

Pênalti! Não para o árbitro. Foto: reprodução da TV Globo

“É uma vergonha. é muito ruim. Tivemos uma palestra com a arbitragem falando da regra e na primeira rodada acontece isso. Uma vergonha”

Mathías Villasanti

Com a braçadeira amarela de capitão no braço esquerdo, ao lado do campo, minutos depois de encerrado o primeiro tempo, Mathías Villasanti, em seu portunhol, recorreu a palavra que estava presa na garganta do torcedor gremista.

Vergonha!

Era esse o sentimento em relação a atuação do time até aquele momento. Totalmente dominado. Havia espaço no meio de campo. Marcação frouxa na frente da área. E perdendo sempre o rebote, por onde saíram mais dois gols de nossos adversários. O mesmo havia ocorrido no meio da semana, na Libertadores.

A renúncia ao jogo também era evidente no setor ofensivo. Somente trocamos passes depois do duplo revés que havíamos tido. Mesmo assim, não havia intensidade na troca de bola e, com isso, pouco chegávamos na área ao menos para ameaçar o gol adversário. Os dribles eram lentos facilitando a marcação. As bolas lançadas em direção a área geralmente não tinha destino certo.

Vergonha!

A despeito de tudo isso que incomoda o torcedor, afinal fomos acostumados a assistir a um time competitivo, e sabemos que estes jogadores que aí estão têm total capacidade de nos oferecer esse futebol que demandamos, haveria uma vergonha ainda maior sendo forjada em campo. 

Aos 42 minutos do primeiro tempo, dentro da área, Diego Costa tentou dominar e deixou a bola escapar em direção ao gol. Seu marcador travou a bola entre o braço direito e o corpo, antes de despachá-la para frente. O árbitro Flávio Rodriguez de Souza estava de frente para o lance e não assinalou o pênalti. O VAR lhe deu a oportunidade de corrigir o erro. Mesmo assistindo à jogada com detalhe na tela, persistiu. 

Diante do novo procedimento em que o árbitro é obrigado a explicar sua decisão nos lances em que é chamado pelo VAR, a emenda ficou pior que o soneto. Disse em voz alta que foi acidental, portanto não houve a intencionalidade do jogador em impedir a trajetória da bola Meu Deus! A maior parte dos pênaltis assinalados no futebol não é cometida porque o marcador tem a intenção: é imprudência, incompetência, desleixo, falta de jeito, é acidental! A intenção do jogador não estava em julgamento. Estava, sim, o movimento que fez dentro da área. 

Vergonha!

O prejuízo ao não assinalar o pênalti claro foi ainda maior porque percebemos que o Grêmio encontraria poder de reação no segundo tempo, mesmo voltando a campo sem seu principal artilheiro, Diego Costa. Sob o comando de Villasanti, acuou o adversário. Variou as jogadas. Driblou e trocou passes com mais velocidade e precisão. A entrada de Gustavo Nunes e Nathan Fernandes tornou o time mais perigoso no ataque. E, aos 22 do segundo tempo, chegou ao gol depois de um escanteio curto, com participação de Cristaldo e Cuiabano, que encontrou Gustavo Martins dentro da pequena área.

A derrota gremista não se traduz no erro crasso do árbitro. Erramos muito na partida de estreia do Campeonato Brasileiro. Será preciso consertar as falhas que tendemos a repetir jogo após jogo e refinar nosso potencial ofensivo para recuperar os pontos perdidos. A melhor notícia: os dois próximos jogos serão na Arena do Grêmio.

Em tempo: “ahim, mas você não falou do pênalti para o Vasco!”. Não falei mesmo, até porque aqui falo do Grêmio. Foi lance no segundo tempo que só reforça: uma vergonha!.

Avalanche Tricolor: Luis Suárez, o Imortal!

Grêmio 1×0 Vasco

Brasileiro – Arena do Grêmio, Porto Alegre RS

Luis Suárez comemora o gol na despedida da Arena, em foto de Lucas Uebel/GrêmioFBPA

Eu vi Anchieta e Tarciso. 

Vi Iura e André Catimba.

Eu vi Danrlei e Baltazar.

Vi Jardel e Paulo Nunes.

Eu vi Renato jogar.

Vi o Grêmio campeão gaúcho de 1977. Brasileiro, em 1981 e 1996. Vi a Batalha dos Aflitos; os cinco títulos da Copa do Brasil, os três da Libertadores e o Mundial de 1983.

Quando imaginava já ter visto muito mais do que mereceria ver, eis que deparo com 2023: o Ano de Suárez! Por onze meses, me permiti sonhar assistindo a um dos maiores jogadores do futebol mundial em atividade vestindo a camisa do meu Grêmio. 

Na estreia, um hat-trike como cartão de visita. Repetiria o feito no Campeonato Brasileiro. Nas duas finais que disputou, a confirmação da nossa hegemonia regional. Em três Gre-nais, marcou duas vezes. Da primeira, um gol que ficará para sempre na nossa lembrança. O movimento do corpo, o forjar do passe que ludibriou seus marcadores e um chute à distância no ângulo do goleiro adversário. 

A cada partida, a identificação de Suárez com a torcida e com o time só se fazia maior. A luta para fazer do Grêmio o melhor que poderia ser feito, o esforço para superar as dores no joelho, a irritação com a jogada desperdiçada e o incentivo ao colega que sofria algum revés, se somaram a gols e assistências. Participou de quase metade dos gols marcados pelo Grêmio, nesta temporada. E não foram poucos. 

Nos momentos mais difíceis, Suárez chamou para si a responsabilidade. Liderou o Grêmio em algumas viradas expressivas. Arrancou gols de onde sequer se esperava que pudesse surgir. E graças a sua dedicação manteve o Grêmio competitivo por toda a temporada nos devolvendo a Libertadores.

Sempre a altura de sua história, não se contentou em apenas receber as homenagens em sua despedida da Arena do Grêmio. Queria retribuir a tudo e a todos. Como se ainda fosse preciso fazer mais.

Fez mais um gol. E um daqueles gols que os mortais não seriam capazes de fazer. Com a frente tomada de jogadores, pouco espaço para a bola passar e o ângulo fechado pelos zagueiros e goleiro. Foi lá, de fora da área, com um toque refinado, assim como seu futebol, que Suárez encontrou o caminho para mais uma vitória gremista, que nos coloca no G4 a uma rodada do fim do campeonato brasileiro.

Para todo e sempre, vamos lembrar de 2023, o Ano de Luis Suárez, o Imortal!

Avalanche Tricolor: Loco por ti, América

Grêmio 2×1 Goiás

Brasileiro – Arena do Grêmio, Porto Alegre/RS

Foto de Lucas Uebel/Gremio FBPA

Diga o que quiser. Reclame de onde vier. Lamente o quanto puder. Ah, se não fosse aquele ponto perdido ali, aquele gol desperdiçado lá, aquela defesa vazada acolá. Que me importa o que não aconteceu? Hoje, só quero sorrir e vibrar. Comemorar!  O Grêmio está de volta a Libertadores! É isso que me interessa. 

Tem quem ainda faça conta para um título quase impossível. Há quem queira as vitórias finais para a vaga direta à América. Quero, também! E quero muito conquistar tudo o que estiver ao nosso alcance. Agora, a alegria de reencontrar a coisa mais linda do mundo que é a Libertadores, essa pulsa no meu coração desde o apito estridente que sinalizou o fim da partida desta noite.

Fomos mal no primeiro tempo. Irreconhecíveis. De vaia, passíveis! Sofremos mais um gol daqueles de dar raiva. Foram 54 até agora, apenas neste campeonato. Não há goleiro que persista. Nem torcedor que resista. Que me importa todos esses reveses? Se levamos muitos, mais fizemos. Aliás, ninguém fez mais do que nós até agora: 59 gols marcados. Hoje, foram mais dois.

Se não vimos gol de Suarez, vimos Suarez ensinar o caminho do gol. No  de empate, tabelou com um toque sutil e preciso que deixou Ferreirinha, dentro da área, em condições de driblar o zagueiro, cortar para dentro e chutar sem perdão. 

No gol da virada, foi Suárez, depois de receber de Ferreira, quem lançou a bola para a entrada da área, em direção a Nathan Fernandes —- esse craque em formação. O guri com um toque provocou a trapalhada dos zagueiros e permitiu que a bola fosse cair nos pés de Franco Cristaldo. Sem deixar que a bola tocasse o gramado, o argentino mostrou porque é o segundo goleador do elenco gremista. 

O gol de Cristaldo foi o gol da vitória. O gol libertador! Que nos alçou a Libertadores! E dizer que a menos de um ano disputávamos as agruras da Série B. Um feito que só eu e você, caro e raro torcedor que lê esta Avalanche, sabemos o que significa na nossa história. Deixamos para trás o rebaixamento, mantivemos a hegemonia regional, sobrevivemos aos revéses e lutamos bravamente pelas conquistas. Fraquejamos e nos recuperamos. Mais vencemos do que perdemos. Empatamos poucas vezes. Para ao fim de tudo isso e à alegria geral da nação tricolor, cá estarmos mais uma vez a Caetanear e cantarolar: 

“Loco por ti, América

Soy loco por ti de amores

Soy loco por ti, América

Loco por ti de amores”

Avalanche Tricolor: paciência!

Grêmio 0x1 Corinthians

Brasileiro – Arena do Grêmio, Porto Alegre/RS

Foto de Lucas Uebel/GrêmioFBPA

O melhor mandante contra um dos piores visitantes. A possibilidade de ser líder contra quem só quer fugir do rebaixamento. A formação tática ofensiva enfrentando um sistema puramente defensivo. A oportunidade de ter um jogador a mais a partir dos 10 minutos de partida. E a superioridade na posse de bola. Tudo isso empurrado por mais de 51 mil torcedores que não desistem jamais de sonhar. 

Qual a chance dessa conjugação de fatores favoráveis conspirar contra você? Todas! Sim, todas! Porque o jogo jogado é o futebol e este esporte, talvez mais do que qualquer outro que conheço razoavelmente bem, permite que o pior vença. Desde que esse tenha disciplina, um pitaco de sorte, um tanto de acaso e alguns descuidos do adversário. 

Pior pode soar como um adjetivo exagerado para o time que enfrentamos hoje, apesar de estar na metade de baixo da tabela toda a competição. Porque afinal se considerarmos que o sucesso em uma partida são os três pontos conquistados, quem os leva alcançou o objetivo e tem ainda mais méritos se o alcançou cumprindo a risca a estratégia traçada no vestiário. Isso o faz um vencedor, mesmo que circunstancialmente.

Ao Grêmio: paciência! Depois de uma sequência de vitórias, algumas conquistadas com raça e talento, nas quais alcançou resultados que mesmo o seu torcedor tinha alguma dúvida, não surpreende o revés. Aconteceu hoje e aconteceu em rodadas anteriores, em situações até mais favoráveis e contra equipes bem menos cascudas. 

Ainda nos faltam quatro jogos a serem disputados, dois em casa e dois fora. O título segue logo ali em cima, apesar de haver um congestionamento maior pelo caminho. É difícil, muito difícil! Não é impossível!

Agora, caro e cada vez mais raro leitor desta Avalanche, você haverá de convir: havia torcedores preparados para uma temporada medíocre; os otimistas acreditávamos na disputa por vaga na Libertadores e esse objetivo segue nas nossas mãos. Bastam duas coisas: não deixar que a frustração de um título quase inalcançável influencie o grupo de jogadores e paciência, muita paciência (especialmente para este escrevinhador que amanhã desde cedo terá de suportar os corintianos que me cercam aqui em São Paulo). 

Avalanche Tricolor: Meu Deus Suárez!

Botafogo 3×4 Grêmio
Brasileiro — São Januário, Rio de Janeiro/RJ

Suárez comemora o terceiro gol em foto de Alexandre Durão / Grêmio FBPA

Foi pura magia. Do desencanto ao encantamento. Do revés à reação. Do time que sabe onde pode chegar a um craque que joga uma bola descomunal. Cada nuance da partida desta noite, em São Januário, foi parte de um roteiro forjado pelo sofrimento e êxtase, na típica narrativa da jornada do herói, desde a passagem pelo tempo comum até a ressurreição, da travessia do primeiro limiar ao elixir da conquista.

E se havia um personagem a ser o herói, claro, só poderia ter sido Luis Suárez, o atacante que aceitou a missão de recuperar a história do Grêmio nos gramados brasileiros e nos devolver a Libertadores. Mais do que isso: resgatou o orgulho de um torcedor ferido nos percalços das duas últimas temporadas. Um torcedor que tem levado seu grito a todos os estádios onde o Grêmio joga. Que canta satisfeito por seu próprio valor.

Luis Suárez foi gigante no gramado de São Januário. E no instante em que o Grêmio mais precisava dele, quando estávamos perdendo por 3 a 1. Em que parecíamos vencidos pelas circunstâncias, resignados por aquilo que o destino havia nos reservado, sermos coadjuvantes nesta competição. O maior atacante que já vestiu nossa camisa nos devolveu o direito de sonhar. De acreditar que não é impossível. Ele foi o responsável pela virada de um placar que parecia definitivo, dadas as condições do jogo e a pressão da torcida adversária.

Heróis como Luizito não se entregam jamais. Acreditou e lutou enquanto pôde. Foi auxiliado por um endiabrado Ferreirinha, que entrou no segundo tempo e infernizou quem se atreveu a marcá-lo. Em um dos primeiros lances, cruzou e, com o desvio do zagueiro, fez a bola chegar aos pés de Suárez, que diminuiu o placar. Na segunda, o cruzamento foi na medida certa e nosso atacante não perdoou, fazendo o gol de empate. A virada foi obra dele novamente, que buscou a bola na intermediária, tabelou e recebeu em condições de passar no meio dos zagueiros e estufar a rede.

Diante da obra construída por Suárez, só restava agradecer àquele que me deu a oportunidade de vivenciar esse momento. Levantei as mãos aos céus e agradeci: obrigado, Meu Deus Suárez!

Avalanche Tricolor: orgulho de ser Tricolor!

Grêmio 1×0 Bahia
Brasileiro – Arena do Grêmio, Porto Alegre/RS

Foto Lucas Uebel/GrêmioFBPA

Maratonei diante da televisão neste sábado. Comecei com a disputa da Libertadores, Copa para a qual não precisamos de apresentação, somos apaixonados por ela e já vencemos três vezes. Ao contrário do que costumo fazer quando não é o meu Tricolor que está em campo, não me contentei em apenas assistir à partida. Torci pelo Tricolor carioca. Não vou dizer que sofri, porque tendo a acreditar que só sofremos por amor. Mas torci muito!

Havia uma memória afetiva em campo.

A grená, branca e verde foi a primeira camiseta de jogador de futebol que ganhei. Após um Grêmio e Fluminense, no saudoso estádio Olímpico, o pai apareceu em casa com esse presente em mãos, obtido por um dos repórteres da rádio Guaíba e me entregou. Tinha o número 11 nas costas e ainda estava molhada de suor. Infelizmente, não lembro quem era o ponta esquerda da época. Era pesada, feita com um tecido grosso e costuras salientes. Antigamente, as camisetas não tinham a tecnologia atual nem a mesma qualidade. No primeiro banho, as listras brancas verticais ganharam manchas grená.

Aquele “troféu” se manteve no meu armário por muitos anos ao lado de uma do América do Rio, com o número 3 do zagueiro gaúcho Alex nas costas — outro “troféu” que me foi entregue pelo pai. Ambas, infelizmente, se perderam em uma dessas mudanças que fazemos na vida. A lembrança permaneceu, e até hoje, quando vejo aquela Tricolor em campo, a memória reacende. Portanto, era natural de minha parte querer muito a vitória do Fluminense na final desta Libertadores. E fiquei feliz pela conquista. Merecida conquista!

Sabemos como poucos neste Brasil o significado desta Copa na vida do torcedor e do clube. Fomos forjados na busca deste troféu, que vencemos pela primeira vez em 1983, época em que meu armário já estava dominado pela nossa Tricolor azul, preta e branca. Gostamos tanto de Libertadores que, apesar do sonho de ser campeão ainda existir, garantir a vaga direta à maior competição sul-americana valerá festa e muita cantoria (Libertadores vamos vencer / Por essa Copa / Eu te daria minha vida, campeão).

A vitória, mesmo difícil da segunda partida que assisti neste sábado, nos mantém na disputa pelo título, mas muito mais ainda dentro da Libertadores, e essa classificação terá sabor especial. Primeiro, porque poucos apostavam nas possibilidades de o Grêmio disputar vaga no topo da tabela após recém-subir da Série B. Mais do que essa reversão de expectativa, porém, é assistir em campo a Luis Suárez com a Tricolor. Essa imagem ficará para a história e na memória afetiva de todos nós torcedores gremistas.

Hoje, mais uma vez, Suárez decidiu na única bola que lhe chegou aos pés em condições de chutar a gol. Mérito também de Lucas Besozzi, esse garoto argentino que, se permanecer no time, tenderá a crescer na próxima temporada. Foi dele a jogada pela esquerda pouco depois de entrar no segundo tempo, com dribles curtos e um passe na medida para nosso atacante.

O gol fortaleceu o grito de “Fica Suárez” que já estava na garganta de todos os torcedores. E ecoou nas arquibancadas da Arena na comemoração da vitória. Sabemos que esse é um desejo quase impossível de ser cumprido. Mas o torcedor não está preocupado com isso. “Fica Suárez” é muito mais do que um pedido, é um grito de orgulho que temos por saber que um dos maiores nomes do futebol mundial veste a nossa Tricolor.

Avalanche Tricolor: estão deixando o torcedor sonhar

Coritiba 1×2 Grêmio

Brasileiro – Couto Pereira, Curitiba/PR

Festa do primeiro gol em foto de Richard Ducker/GrêmioFBPA

Toco tem 11 anos. Batizado Antonio, nasceu em Campinas e mora por lá. Os pais torcem para o Guarani e o irmão para o São Paulo. Um dia qualquer desses, ele avisou: eu tenho time, também, e meu time se chama Grêmio. De lá até hoje, nada foi capaz de demover seu desejo de ser gremista, que virou obsessão e hoje é paixão. 

Conheci a história do Toco pela mãe dele, a Bianca Rosa, jornalista na EPTV,  onde estive na manhã desta quarta-feira para conferir o investimento que a empresa faz em rádio e comemorar os 32 anos da CBN Campinas. Ela me mostrou a foto do menino vestindo a camisa tricolor, com a réplica do troféu da Libertadores em mãos e um enorme sorriso. Daquele tipo de sorriso que guardamos para a vida, como tantos que o Grêmio me permitiu ter pelas oportunidades que me ofereceu.

Essa coisa do futebol é curiosa. Nem sempre há uma razão lógica para a escolha que fazemos. O pai é verde, a mãe é preto e branco e, de repente, o filho se diz amarelo. Mais inexplicável é quando todos se apresentam vermelho e o piá teima que o melhor é ser azul. Quando se nasce na terra do time, a decisão parece fazer sentido. Quando se é um desterrado, como explicar? Afeição, simpatia, química, vi um dia e apaixonei. As mesmas justificativas que oferecemos quando alguém quer saber porque casamos com o companheiro ou a companheira amada. De verdade, não tem explicação. Acontece!

Foi assim na vida do Toco, na minha e na sua, caro e cada vez mais raro torcedor desta Avalanche. De repente você se percebe vibrando pelo gol marcado e sofrendo pelo gol sofrido. Acreditando no time mal treinado; se iludindo com a constelação de craque; sempre a espera de um milagre, mesmo quando você sabe que não se fez por merecer; ou frustrando-se pelas injustiças que a bola comete quando a vitória era tudo que seu time fazia jus. Ser fanático por um time de futebol é torcer para que ele não caia para a segunda divisão em uma rodada, é vibrar porque subiu para a primeira e, sem nenhuma razão, é acreditar que dá para ser campeão na seguinte. 

Nós, gremistas, passamos por todos esses estágios nesses últimos tempos. Poucos dias atrás, maldizíamos a sexta colocação no campeonato; ontem, após mais uma vitória fora de casa — parece que aprendemos a lição ou será só ilusão? —, já comemorávamos a vaga a Libertadores; e, hoje, acordamos sonhando que é possível até ser campeão brasileiro. Já imaginou, Toco? Que loucura!

Avalanche Tricolor: Grêmio vira duas vezes e vence com ‘futebol entretenimento’

América-MG 3×4 Grêmio

Brasileiro – Arena Independência, BH/MG

Suárez comemora gol 550 na carreira, em foto de Lucas Uebel/GrêmioFBPA

O Grêmio está de volta ao jogo. Não que tenha ficado longe dele em algum momento no campeonato. Mas havia perdido tração e corria o risco de deixar os principais adversários desgarrarem à frente na briga por vaga direta da Libertadores. As duas últimas vitórias nos devolveram à disputa — e é a esse jogo que me refiro na primeira frase desta Avalanche: o da classificação para a Libertadores.

Novamente, o Grêmio foi buscar o resultado depois de tomar o revés. No meio da semana, o feito foi muito mais difícil, considerando o potencial do adversário. Mas a vitória no início da noite deste sábado não deve ser desdenhada, mesmo que tenha sido contra o lanterna do Brasileiro. Por duas vezes atrás do placar, o Grêmio teve calma, brio e talento suficientes para chegar aos gols necessários. Um detalhe nada desprezível para a jornada gremista: duas viradas no mesmo jogo, disputado fora de casa, onde nosso desempenho tem sido pífio.

Diante da vitória em uma partida com sete gols e três viradas de placar, o comentarista Henrique Fernandes, da SporTV, foi perspicaz ao dizer que o Grêmio joga o “futebol entretenimento”. Na visão dele, fazemos a alegria dos apreciadores do jogo da bola, com a quantidade de gols que marcamos e levamos em uma só partida. Lembrou do 4 a 4 contra o Corinthians e do 3 a 2 contra o Flamengo. 

Por curiosidade, conferi o placar das 30 rodadas em que o Grêmio participou no Campeonato Brasileiro. Em 19 delas foram assinalados três gols ou mais; em ao menos sete dessas, o resultado final teve cinco ou mais gols. As duas em que a rede mais balançou foram no empate contra o Corinthians, em São Paulo, oito gols no total, e na vitória por 5 a 1 contra o Coritiba, na Arena. Nessas estatísticas, também está registrada a goleada que sofremos do Palmeiras (4 a 1) no primeiro turno. Não por acaso o Grêmio tem o melhor ataque da competição (50 gols) e uma das piores defesas (45).

O que é entretenimento para os admiradores do futebol, é, na verdade, sofrimento para o torcedor gremista. O jogo de hoje foi uma montanha russa de emoções e sentimentos. Da certeza dos três pontos ao desespero por estar sendo superado por um dos adversários teoricamente mais fáceis da competição; da alegria de ver Suárez alcançar a marca de 550 gols na sua carreira, enquanto veste a camisa do Grêmio, à indignação pela facilidade com que os atacantes penetram na nossa área; do prazer da vitória à tensão pelo risco constante da derrota. 

Ainda nos faltam oito partidas e quase dois meses até o fim da temporada, tempo suficiente para vivenciarmos os mais diversos sentimentos até garantirmos nosso retorno a Libertadores. O Henrique Fernandes, que foi meu colega no Sistema Globo de Rádio, quando fez parte da equipe de esportes da Globo/CBN BH — aliás, um ótimo comentarista —, e todos os demais admiradores do futebol terão muito para se divertir, assistindo ao Grêmio de Suárez e companhia. Quanto a nós, torcedores, resta lembrar de outro craque do microfone, Galvão Bueno: haja coração!

Avalanche Tricolor: muito mais do que uma vitória!

Grêmio 3×2 Flamengo

Brasileiro – Arena do Grêmio, Porto Alegre/ RS

Há momentos que fazem a história de um time. Há outros que os colocam em seu devido lugar. O Grêmio esteve nesse limiar, nesta noite de quarta-feira, em Porto Alegre. No seu pior momento no campeonato, deparou-se com seu maior algoz dos últimos anos. Em campo, não contava com toda sua força, começando pela ausência do principal reforço e quarto maior goleador do mundo, Luis Suárez. Nas arquibancadas, enfrentava um torcedor desconfiado.

Mais do que a performance em campo, a vitória era essencial para mostrar ao Brasil a grandeza do nosso futebol. Uma derrota nos relegaria ao oitavo lugar da competição, além do risco de entrar em uma espiral descendente sem retorno. E foi diante dessa iminência que se desencadeou uma reação surpreendente para quem vinha observando o time perder força, principalmente na segunda metade do Brasileiro.

Em 10 minutos, jogadores que vieram do banco, ainda muito jovens e sem a experiência das estrelas que brilhavam pelo adversário, revitalizaram o futebol gremista. Demonstraram uma desenvoltura que não se via durante quase toda a partida, muito menos nas anteriores.

O gol de empate veio dos pés de Ferreirinha, alvo de reclamações da torcida há algum tempo. O da virada foi de Nathan Fernandes, que, com apenas 18 anos, teve a audácia de enfrentar os grandalhões dentro da área e chutar cruzado para marcar. O gol da vitória veio de André, com apenas 21 anos, através de um chute seco e certeiro. Em todos os gols, a presença marcante de Villasanti, que lutou incansavelmente e se posicionou à frente para colocar seus companheiros em condições de marcar.

O resultado de hoje representa muito mais do que uma simples vitória. Mais do que apenas interromper uma incômoda sequência de derrotas para o mesmo adversário. Mais do que o fim de uma série de deslizes que nos afastaram do topo da tabela. O 3 a 2 desta noite evidencia que o Grêmio reconhece sua grandiosidade na história do futebol e honra a marca que o consagrou: a da Imortalidade!

Avalanche Tricolor: obrigado, Senhor Suàrez!

Inter 3×2 Grêmio

Brasileiro – Beira Rio, Porto Alegre/RS

Suárez comemora segundo gol em Gre-Nal. foto: Lucas Uebel/GrêmioFBPA

Padre José Bertolini é gremista de Bento. Vive em São Paulo há muitos anos. E, por essas felizes coincidências que a vida proporciona, reza missa na capela próxima de casa. O caro e cada vez mais raro leitor desta Avalanche o conhece de crônicas passadas. Esteve por aqui no emblemático Gre-Nal do 5 x 0, em agosto de 2015, e em outras tantas passagens que o futebol nos proporcionou. 

Hoje cedo, era Padre José quem estava escalado para rezar a missa, na Capela da Imaculada. Antes de encerrar a homilia, inspirada na parábola da Vinha do Senhor (se estiver interessado leia aqui), entrelaçou suas reflexões com memórias do seminário. Lembrou-se de um colega gremista que, enquanto ouvia os jogos em um pequeno rádio colado no ouvido, segurava um santo rosário na outra mão, avançando na reza do terço à medida que a partida progredia. Bertolini questionou: “Acredita realmente que o Senhor vai interferir?”

Antes que o considerem descrente, esclareço que Padre José foi preciso em sua fala pois sabe, a partir de seus estudos aprofundados da religião, que não é neste campo que a intervenção divina se realiza. Já escrevi vez passada que lá onde a bola rola, nossos deuses são profanos e nossas atitudes nem sempre são santas. 

No futebol, quem intercede por nós é o goleiro realizando milagres; são os zagueiros, nossos guardiões inabaláveis, que precisam contar com a ajuda dos santos protetores que atuam na frente da área; os meio-campistas, que manejam a bola com a devoção com que um fiel avança nas contas do terço até completar a reza; são os atacantes e seus gols salvadores. Se nada disso funciona, pouco adianta pedir aos céus.

Mesmo diante do resultado negativo desta tarde de domingo, há razões para o Grêmio expressar gratidão. Graças ao esforço sobre-humano de Luís Suaréz que voltou a marcar gol no clássico, desta vez de falta — coisa rara na história recente do Grêmio — os torcedores deixaram o Gre-Nal com um sabor menos amargo, lembrando-nos das uvas verdes e azedas da parábola evocada por Padre José.