Avalanche Tricolor: quero falar sobre Geromel

Fortaleza 1×1 Grêmio

Brasileiro — Arena Castelão, Fortaleza, CE

Geromel em foto de Lucas Uebel/GrêmioFBPA

Na última partida antes do Gre-nal, assuntos não faltam para os que gostam de falar do Grêmio —- gostem bem ou gostem mal. Pode-se falar da qualidade da assistência de Reinaldo, que serviu Suárez com um passe em curva nas costas dos marcadores e permitiu que o uruguaio marcasse o gol de empate. 

Claro, pode-se falar de Suárez, também, que sempre é um bom motivo para puxar conversa, mesmo com torcedores contrários. O gringo mais uma vez se entregou em campo como quase nenhum outro. E nos premiou com aquela corrida por trás dos zagueiros e a precisão do chute, apesar da pressão do goleiro que saiu em sua direção e parecia ter fechado todos os espaços. Até a reclamação de que ele não marcava gols fora de casa cai por terra: ele fez dois nas duas últimas partidas em que jogamos como visitantes

Há os que andam por aí reclamando da dificuldade que temos de impor nosso futebol na casa dos adversários — e têm motivos para tal; ou do desperdício de pontos que nos afasta cada vez mais do título, apesar de estarmos na luta pelas primeiras colocações há muitas rodadas; ou das perdas sucessivas de cobranças de pênaltis — esquecendo-se de que foi nos pênaltis que avançamos até a semifinal da Copa do Brasil.. 

Apesar de tudo, ter o melhor ataque, com 40 gols marcados e o segundo maior número de vitórias, 13 no total, no Campeonato Brasileiro, ao menos até o instante em que publico esta Avalanche, talvez também fosse razão de um bom bate-papo no boteco.

Todos são temas pertinentes! 

Eu me reservo o direito de falar do que mais me chamou atenção na partida dessa tarde de sábado: a performance de Geromel. Ver nosso zagueiro de volta com a faixa de capitão e, pela primeira vez no ano, disputando uma partida completa, após a cirurgia no joelho e o problema muscular, já seria motivo de alegria para mim. Vê-lo com a segurança e empenho que vi —  imagino que você, caro e cada vez mais raro leitor dessa Avalanche, também tenha visto — é mais do que motivo para minha satisfação.

Geromel está com 38 anos, completados há cerca de uma semana — aos crentes nas coisas alheias, ele é virginiano como o Grêmio. Resiliente e paciencioso, nosso zagueiro superou a distância dos gramados e a dureza do período de reabilitação. Para quem foi atleta e passou por isso, sabe o drama que é cada dia de fisioterapia, exercícios doloridos e avanços limitados, expectativas para voltar aos treinos e medos de que a lesão volte a incomodar.

Enquanto alguns reclamariam da falta de ritmo de jogo, na volta ao time, Geromel  demonstrou estar em plena forma física e técnica. Em campo, mostrou que mantém o reflexo que o fez dos maiores zagueiros que já vestiram nossa camisa. Deu o bote na hora certa e impediu o drible do atacante. Antecipou-se às jogadas e abortou as tentativas do adversário. Dentro da área manifestou seu gigantismo despachando a bola pelo alto e por baixo. Independentemente de como ela viesse.. 

Nos deu ainda a satisfação de assisti-lo novamente ao lado de Kannemann com quem forma a dupla de zaga mais vitoriosa dos últimos tempos. Geromel traz tanta segurança à defesa que seu colega de área pode se expor menos e completou uma partida sem tomar cartão amarelo, coisa rara nesta temporada. 

Ao fim ainda expressou a humildade que marca sua trajetória. Ao repórter de campo que o elogiou, respondeu que não poderia ser diferente depois de tanto tempo que teve para treinar. Como se voltar a campo após meses recuperando-se de lesão e jogar da forma como jogou fosse a coisa mais natural do mundo. Não o é! Geromel é simplesmente sobrenatural !

Avalanche Tricolor: a vitória do Grêmio Copeiro!

Grêmio 1×0 Palmeiras

Brasileiro — Arena do Grêmio, Porto Alegre/RS

Foto de Lucas Uebel/GrêmioFBPA

Era jogo de Brasileiro e o Grêmio o transformou em jogo de Copa. Tipo mata-mata. Em que se não mata morre. Que não interessa o quanto se joga mas o quanto se sabe sofrer. Do pragmatismo e da bola para o mato. Do suor correndo no peito e o sangue lavando a testa. 

Era uma partida daquelas que não se busca a melhor performance, o que se quer é o resultado. E o resultado se fez logo cedo, aos 10 minutos do primeiro tempo, na clássica jogada da bola passando de pé em pé até estufar a rede. E foi o pé direito de João Pedro que marcou aquele que seria o único gol do jogo após receber o toque precioso de Luis Suárez, o goleador e mais talentoso garçom da nossa equipe.

Villasanti também fez parte da triangulação do gol. Fez muito mais do que isso. Foi gigante na marcação, fechou todos os espaços e não perdeu dividida de bola. Encarou a cara feia do adversário. Irritou o atacante e se sacrificou em campo quando percebeu que o risco do empate era iminente. Deu a vida, foi expulso e saiu aplaudido pelo torcedor que encontrou no desempenho de nosso volante o Grêmio copeiro que andava escondido em algum armário no vestiário.

O Grêmio não foi melhor. Foi apenas maior. E era isso que eu mais esperava do meu time, há algum tempo, para que o coração resignado que me batia fraco no peito voltasse a pulsar no ritmo da raça de um Imortal.

Ao tomar a frente do placar, o Grêmio que assistimos hoje na Arena decretou que ninguém mais seria capaz de nos roubar a conquista alcançada. E em nome dela assumiu a postura do guerreiro que não teme o tranco do adversário, não tem vergonha do chutão e faz da catimba estratégia de jogo. Foi assim que chegamos às maiores das nossas vitórias nos 120 anos de vida e foi assim que superamos depois de sete anos, em casa, o adversário desta noite. 

O Grêmio, desta vez, foi Copeiro em pleno Campeonato Brasileiro! Que assim seja para todo e sempre.

Avalanche Tricolor: alguma coisa acontece no meu coração!

Corinthians 4×4 Grêmio

Brasileiro — Neo Química Arena, SP/SP

Suárez comemora o quarto gol em foto de Lucas Uebel/GrêmioFBPA

Um jogo maluco! Um jogo incrível! Um jogo histórico! É o que ouço na transmissão da partida desta noite. O narrador, o comentarista e o repórter repetem essas expressões aos borbotões. O jogador entra na onda e usufrui do adjetivo alheio para explicar o placar de oitos gols e dois vira-viras. Nas redes sociais, não faltarão torcedores repetindo os elogios a esse confronto fora de data — imagine que a partida desta noite se refere a décima-quinta rodada do campeonato quando a competição já está na sua vigésima-terceira. 

Há quem queira animar o público e arrisque a pergunta que será feita no futuro: “onde você estava naquele empate de 4 a 4?”. Eu responderei, se a memória ainda me permitir: sentado no sofá, diante da televisão e resignado. 

Alguma coisa acontece no meu coração!

No passado, estaria alucinado diante de uma partida como esta que se encerrou agora há pouco. Nesses últimos tempos, porém, tenho assistido aos jogos do Grêmio sem a ilusão dos apaixonados que sempre me moveu como torcedor. 

Perdi o êxtase do gol. Comemoro desconfiado. Seja porque imagino que o árbitro vai anular seja porque temo a sensação da frustração a seguir. Fazemos um, fazemos dois gols. E ainda assim ponho em dúvida a vitória. 

A dinâmica da partida de hoje certifica esse sentimento. Vejo o adversário avançar e tenho certeza de que o revés se aproxima. A virada que tomamos no primeiro tempo apenas reafirma meu temor.

O segundo tempo começou e o que veio na sequência confirmou minha intuição, a despeito de no peito bater o desejo de que eu estivesse profundamente enganado. Mesmo que a bola role de pé em pé; o talento surja no passe, no toque e no chute a gol; e nos mostremos capazes de recuperar a vitória que havia sido perdida, ainda assim desconfio. 

Temo o resultado tanto quanto temo estar sendo injusto com quem sempre me seduziu. E lá vem a realidade acolher meus maus presságios. Para que não reste dúvidas, não basta ver o empate se realizar depois de estar duas vezes a frente do placar, ainda sou obrigado a assistir a mais um lance de pênalti crasso não marcado pelo árbitro e sequer alertado pelo VAR.

Um jogo maluco! Um jogo incrível! Um jogo histórico! Repetirão por aí. Para mim, mais um jogo em que desperdiçamos a oportunidade de conquistar três pontos e fomos prejudicados pela falta de critério e coragem dos árbitros brasileiros. 

Que tudo isso que sinto hoje seja breve e o Grêmio reascenda a paixão enrustida em algum lugar do meu coração e acabe com essa minha resignação! 

Avalanche Tricolor: a magia que veste a camisa do Grêmio

Grêmio 2×0 Cuiabá

Brasileiro – Arena do Grêmio, Porto Alegre/RS

Suarez comemora o primeiro gol da partida em foto de Lucas Uebel/GremioFBPA

(NE: este post teria de ter sido publicado no domingo, mas fiquei sem acesso ao Blog nesses dias)

No domingo que iniciou a semana de folga no trabalho, visitei os parques da Universal, na Flórida. Apesar de todas as atrações com personagens dos meus tempos de criança — lá estavam o Popeye e o Recruta Zero — ou de super-heróis como o Homem Aranha e Hulk, o centro das atenções é Harry Potter. O guri, que estuda na escola de Hogwarts, faz magias e além de encarar todo tipo de fera ainda depara com com dilemas morais e riscos de cancelamento, esses provocados pela opinião e comportamento discutível de sua autora, a britânica J.K.Rowling.

Foi lá na estação de trem que leva à escola — de verdade, nos permite trocar de uma parque para outro da Universal — que um outro guri me chamou atenção: estava na fila, a espera de embarcar e vestindo a camisa do Grêmio. Naquele momento, nosso time já vencia por um a zero o adversário que nos serviram no café da manhã deste domingo, em Porto Alegre. E com um gol de Luis Suárez que conferi na transmissão em tempo real do site do GE. 

Já disse aqui nesta Avalanche que desde a chegada do terceiro maior artilheiro em atividade no mundo os torcedores gremistas não se contentam mais com gols. Queremos que os gols sejam marcados por Suárez, especialmente depois que soubemos que sua passagem no Grêmio deve expirar ao fim do ano. Vê-lo balançando a rede nos oferece a sensação de que estamos diante de algo realmente mágico, daquelas coisas que poucos fãs do futebol mundial têm o direito de saborear. Nós temos!

Vi nos melhores momentos ao menos outros dois lances geniais de Suárez. O mais lindo no segundo tempo quando deu um chapéu no marcador e completou de perna direita para a defesa do goleiro. Imagino que os privilegiados que assistiram ao jogo devem ter se deliciado com sua movimentação, participação nas tabelas no ataque e dedicação ao time. É mágico!

Foi nas imagens editadas e compartilhadas na internet que vi a tabela que deu início ao segundo gol que o árbitro assinalou contra, mas poderia ter colocado em nome do combo Ferreirinha, Reinaldo e Galdino, fazendo justiça a forma como os três se deslocaram, trocaram passes com precisão e deixaram a defesa adversária enfeitiçada. Minha imaginação me faz acreditar que outros movimentos como aquele ocorreram durante a partida, porque quando o Grêmio decide jogar seu melhor futebol, é irresistível! 

A vitória nos mantém entre os melhores times do Brasil, mesmo que muitos ainda não tenham percebido esse fenômeno que alcançamos em tão pouco tempo desde que subimos da divisão aquela-cujo-nome-não-deve-ser-pronunciado’ … (melhor não dizer seu nome porque corremos o risco de sermos amaldiçoados como ao repetirmos o nome de Voldemort, ops, por você-sabe-quem). Apesar da distância que existe entre o líder e seus perseguidores, é importante ressaltar que o que tem mais chances de lhe tirar o título tem nome e sobrenome: é o Grêmio Foot-Ball Porto Alegrense. 

A partida ainda não havia se encerrado quando perdi de vista o guri com a camisa do Grêmio que passeava no parque da Universal. Queria ter tido oportunidade de chamá-lo e perguntado: “você viu o gol do nosso bruxo?”. E ele responderia, bem humorado: Wingardium Leviosa!

ResponderEncaminhar

Avalanche Tricolor: um jogo para matar a saudade!

Grêmio 3×0 Cruzeiro

Brasileiro – Arena do Grêmio, Porto Alegre/RS

Jogadores comemoram gol em foto de Lucas Uebel/Grêmio FBPA

Teve Geromel de volta. E com a braçadeira de capitão. Mais do que isso, com Kannemann também recuperado, tivemos o retorno da melhor dupla de zaga que já vestiu a camisa do Grêmio, neste século. Que enquanto esteve em campo não perdeu uma só disputa de bola. Adiantou-se ao marcador para impedir a sequência da jogada. Despachou o perigo quando o lançamento chegou a nossa área. E nos fez relembrar a imagem clássica deles levantando todos os troféus que conquistamos na última década. 

Teve Luan no meio de campo vestindo a camisa 7, mesmo que apenas nos 15 minutos finais. Ouvir a torcida gritando seu nome, pedindo para que entrasse, já valia o ingresso. Diferentemente da primeira vez em que retornou ao time, foi mais acionado. Tocou a bola com leveza. Tabelou com seus colegas. Cadenciou o jogo. Esforçou-se na marcação. E acionou na mente de cada um de nós — caros e raros gremistas que leem esta Avalanche — uma série de cenas inesquecíveis de quando fomos campeões da Libertadores e  Luan, o Rei da América.

Foi um jogo para, também, matar a saudade recente de Suárez que estava há oito partidas sem marcar o seu, coisa rara na jornada esportiva do terceiro maior goleador em atividade no mundo. Registre-se: não ter feito gols diz muito mais de como atuamos nas últimas partidas do que propriamente do desempenho do atacante; assim como não diminuiu sua importância no elenco a medida que nos faz muito maior sempre que está em campo. Agora, em 36 partidas, Suárez marcou 14 gols e deu 11 assistências. Um prazer que poucos torcedores no mundo terão para contar.

O jogo deste fim de domingo, que nos elevou a terceira posição do Campeonato Brasileiro, mexeu com essa emoção nem sempre fácil de definir: a saudade. Até o toque de bola no meio de campo que se sobrepôs ao do adversário nos remeteu às glórias mais recentes. A começar pelo talento de Pepê que comparam com o de Michael, outro genial que vestiu nossa camisa e nos levou aos últimos grandes títulos. Foi dele, Pepê, o terceiro gol em uma jogada que nos fez lembrar os bons tempos de triangulação, aproximação e forte movimentação no ataque.

A categoria de Pepê fez fluir melhor o futebol de Villasanti, Carballo e Cristaldo — os dois últimos com participações decisivas nos gols da vitória. Cristaldo foi quem, no primeiro gol, roubou a bola no ataque e serviu Suárez; e quem, no segundo, bateu a falta com rapidez, encontrou Suárez que de calcanhar entregou para Carballo colocar com categoria nas redes.

O Grêmio, hoje, foi um time que matou a minha saudade! 

Avalanche Tricolor: um recado ao grupo de WhatsApp

Santos 2×1 Grêmio

Brasileiro – Vila Belmiro, Santos/SP

Foto de Lucas Uebal GrêmioFBPA

Quem me conhece bem sabe que quase não abro espaço a grupos de WhastApp em meu celular. É estratégia para preservar a sanidade. Uma forma de silenciar o barulho das redes sociais e ser menos impactado pelo contágio emocional que a vida em bando provoca. Quando uma pessoa expressa uma emoção forte como medo, empolgação ou raiva tende a insuflar esse mesmo estado psicológico em seus pares. Pessoas aparentemente tranquilas podem ter reações extemporâneas e radicais se envolvidas por um coletivo que reforça suas convicções e pensamentos. É em parte o que acontece em um estádio de futebol no instante em que cidadãos pacíficos fazem coro aos torcedores que ofendem o árbitro, o adversário ou o jogador que pisa na bola (ou esquece que ela está em jogo).

Mesmo que não acredite em grupos de WhastApp que eles existem, existem. Poucos, mas estão lá no meu celular e se movimentam ativamente conforme a situação. Hoje, minha tela não parava de piscar com as notificações de um desses grupos — claro, aquele formado por gremistas –, especialmente após os 17 minutos do segundo tempo quando se iniciou a “contra virada” (será que posso chamar assim quando meu time sai na frente e entrega o jogo depois?). Aos 44 do segundo tempo, após a pataquada dos nossos jogadores, o que era pisca-pisca virou luz estroboscópica. A prudência me fez virar o celular com a tela para baixo e me calar diante do que haveria de acontecer ao fim desta primeira rodada do returno do campeonato.

Preferi deixar que a turma do WhatsApp expressasse no silêncio do meu celular sua indignação perante a iminência da derrota que nos afastaria do líder e nos deixaria momentaneamente fora do G4 — grupo que almejamos ocupar para garantir vaga direta na Libertadores e ganhar um respiro no início da próxima temporada com uma preparação mais longa para a competição sul-americana. Não queria ser influenciado pelas opiniões catastróficas e as teorias de conspiração que costumam florescer nesses momentos de forte emoção. A bronca, a opinião exarcebada e a frase sangrada pela raiva se justificam por humanos que somos. Tanto quanto mais apaixonado, mais sensível se torna o nosso coração. Não pense que sou santo — ops, melhor não usar hoje esse adjetivo. Não pense que sou calmo mediante os acontecimentos do futebol. Assim como qualquer torcedor, alterno o vibrar e o esbravejar conforme o lance. Reclamo do árbitro nas marcações contra o meu time — mesmo que tenha de me redimir ao conferir o acerto dele no replay. 

Minha estratégia, porém, é clara. Jamais permitir que o movimento de bando me impulsione a dizer o que a razão não concorda. Da mesma forma que não faço cálculos antecipados que “provam” que seremos campeões após uma vitória incrível sobre um adversário de peso, me nego a ter previsões trágicas por causa de uma derrota impossível de admitir como a deste domingo. Mesmo porque, nesta altura do campeonato, o destino de cada time ainda não está traçado. Alguns até flertam desde o início com o rebaixamento e outros estão se aproximando cada vez mais desta faixa — sem nenhuma provocação, tá!?! Assim como há os que miram o topo da tabela e têm feito por merecer o lugar lá no alto. 

O Grêmio, que voltou a ter revés contra times da parte de baixo da competição, ainda tem muito a fazer para que possamos dizer com certeza qual será nosso lugar neste campeonato. Aquele elenco que nos colocou na vice-liderança foi reforçado para o returno com as novas contratações e a recuperação de lesionados. Acertá-lo e fazê-lo jogar de maneira coordenada mesmo quando há necessidade de substituições ao longo da partida é responsabilidade do comando técnico. Teremos mais tempo para fazer esse arranjo a medida que estamos agora dedicados ao Brasileiro, por força da desclassificação da Copa do Brasil, no meio da semana passada.

Quanto a você que por ventura esteja  gritando “Fora Renato” ou “desse jeito nem Libertadores” ou “o campeonato acabou para nós” ou “tem que botar todos estes que aí estão no banco” —- juro que não li meu grupo depois que a bola parou —, tenho certeza que vestirá a camisa tricolor no próximo domingo, vai correr para frente da televisão, ligar o rádio ou ocupar uma cadeira na Arena, e ressuscitará sua esperança logo que a bola começar a rolar, devolvendo ao nosso grupo de WhatsApp aquele clima saudável e de confiança que nos entusiasma a entrar logo cedo e desejar: “Bom dia, gremistada!”

Avalanche Tricolor: os “guri” estão de volta!

Grêmio 2×1 Fluminense

Brasileiro – Arena Grêmio, Porto Alegre/RS

A festa do gol da virada em foto de Lucas Uebel/GrêmioFBPA

Os “guri” voltam ao protagonismo. Da defesa ao ataque, foram eles os destaques desta vitória que nos repõe no G4 — enquanto escrevo esse texto, ainda somos vice-líder e com um jogo a menos do que os concorrentes diretos. Eles foram importantes tanto evitando como marcando gols. 

Gabriel Gandro, mesmo que ainda tenha seu nome visto com ressalva por parcela do torcedor, demonstra competência a cada partida. Fez defesas difíceis embaixo dos paus quando fomos pressionado e despachou a bola da área com segurança quando esta era a única opção. 

Nos dois gols que tomou — um deles salvo pelo VAR — foi mais vítima do que algoz. Saiu de campo com o troféu de “Craque da Partida” o que não é pouca coisa se considerarmos que tivemos um jogo de alto nível com jogadores demonstrando talento em diversos fundamentos e nos dois times. 

Tem confirmado a escolha da comissão técnica diante da crise de goleiros que sofremos recentemente, com casos de indisciplina e queda de produção de algumas das nossas principais promessas para a posição. Na conta de Gandro, claro, tem ainda a classificação para a semifinal da Copa do Brasil na defesa de pênaltis.

Guri que voltou a se destacar, após uma sequência de partidas abaixo da sua capacidade, foi Bitello que apareceu bem dentro da área para receber o passe preciso de Suárez e chutar cruzado no gol de empate. Mesmo que ainda não tenha retomado o futebol que o levou a ser titular indiscutível, ocupando uma posição no meio de campo ou no ataque, conforme o esquema escolhido pelo técnico, hoje foi bastante útil na marcação e nas arrancadas para o campo do adversário. 

(Em tempo, se alguém entre os raros e caros leitores desta Avalanche tiver o WhastApp do Bitello, por favor, passe esse recado para ele: em qualquer situação, sempre que partir para o ataque, mesmo que um companheiro esteja mais bem posicionado, mete a bola no Luis Suárez. Você nunca vai estar errado, guri!)

Da base, também, Ferreirinha tem se mostrado essencial para a retomada dos bons resultados nas duas competições que estão em jogo. Nesta tarde de domingo, marcou pela primeira vez desde que voltou de lesão. Até então aparecia bem na assistência e hoje completou na rede um belo chute dentro da área após troca de passe com Fábio, pela direita. Firma-se como titular e tem competência para desequilibrar a marcação e ser a “válvula de escape” nos contra-ataques. Não tem medo de decidir e isso faz diferença.

De todos os guris, o que provocou maior comoção não marcou nem evitou gols. Estava no banco e pouco tocou na bola nos minutos em que esteve em campo. Refiro-me a Luan, que já jogou futebol suficiente para ser tratado como “Rei da América” e retorna ao Grêmio após uma série de percalços na carreira. 

A torcida gritou o nome de Luan quando ainda estava prestes a substituir Bitello como para lembrá-lo de quem ele foi e de quem queremos que ele volte a ser um dia. Vê-lo recuperado e prestando bons serviços à camisa tricolor será o “estado da arte” de um personagem que fez história no Grêmio. A história dos “guri” do Grêmio!

Avalanche Tricolor: Lumumba tinha razão!

Vasco 1×0 Grêmio

Brasileiro – São Januário, RJ/RJ

Paulo Lumumba foi dessas figuras que marcaram sua vida com a camisa do Grêmio, mesmo que tenha passado por outros dois grandes tricolores brasileiros, São Paulo e Fluminense. Nascido no Sergipe, onde começou a jogar pelo Confiança, foi no Rio Grande do Sul que se estabeleceu e fez história. Batizado Paulo Otacílio de Souza ganhou apelido do líder político Patrice Lumumba que libertou o Congo da dominação belga, nos anos de 1960. Morreu em Porto Alegre, em 2010, quando estava com 74 anos.

Leia também a Avalanche Tricolor: se inspirem em Lumumba

Foi atacante de um dos maiores times que o Grêmio já formou, quase campeão da Taça Brasil de 1963 — só o Santos de Pelé foi capaz de nos parar na final — e heptacampeão estadual. Nas lembranças que tenho, conheci Lumumba já como auxiliar técnico de um dos muitos treinadores que passaram pelo Olímpico. Eu era apenas um guri levado pelo pai quase que diariamente ao estádio. 

Um das coisas que me chamavam atenção em Lumumba era a elegância com que ele caminhava pelas calçadas gremistas. Aquele negro retinto quase sempre com roupa esportiva, fazia do passeio pelos arredores do  Monumental um desfile. No gramado, entrava com pompa de majestade, como se revivesse a cada passada suas glórias. Tinha orgulho do que fez e das lutas que venceu em vida — não lhe faltavam motivos para tal. 

Com base na sua trajetória, foi conselheiro e ajudou muitos jovens jogadores e recém-chegados ao clube. Era minucioso ao orientar qual a melhor forma de bater na bola, o movimento para o passe preciso e, principalmente, de como se comportar. O que eu mais admirava era a maneira como Lumumba contava suas histórias e expressava seu conhecimento sobre as mais diversas coisas da vida.

Um dos ensinamentos que guardei — e certamente Lumumba ensinou fatos bem mais relevantes àqueles que puderam conviver com ele dentro do clube —- foi sobre um comportamento dos clubes do interior do Rio Grande do Sul. Dizia que esses times passavam uma temporada inteira se preparando para ganhar da dupla Gre-Nal e se esqueciam que havia outros adversário no meio do caminho. Para ele, geralmente esses times perdiam as competição estaduais não para o Grêmio ou para o Inter, mas naquelas partidas contra os clubes mais frágeis — onde os dois pontos (naquele tempo era apenas dois) deveriam ser garantidos.

O nome de Paulo Lumumba fez parte da conversa que tive com João Antônio, campeão brasileiro e da Copa do Brasil, nos anos de 1990, pelo Grêmio, há duas semanas, ao visitar Porto Alegre. No fim da tarde deste domingo, após ver o Grêmio em São Januário, voltei a relembrar daquele gremista histórico e seu ensinamento sobre o momento em que se costuma perder os campeonatos. Lumumba tinha razão!

Avalanche Tricolor: vamos falar de André, o 77

Goiás 1×1 Grêmio

Brasileiro – Serrinha, Goiânia/GO

André recebe o abraço de Suárez em foto de Lucas Uebel/GrêmioFBPA

Tem nome de goleador. E não foi qualquer goleador. Vamos lembrar: André, sobrenome Catimba, foi quem marcou o gol histórico que nos deu o Campeonato Gaúcho de 1977. Rememorar aquela competição é voltar ao instante em que, ainda adolescente, tive a maior alegria que o Grêmio poderia me dar naqueles tempos. 

Aos gremistas, caros e raros que visitam esta Avalanche, é desnecessário descrever o que representou o título estadual, após amargarmos sete anos de perdas. Hoje, é óbvio, os tempos são outros. Não apenas porque passou como sempre o tempo passa, mas porque as pretensões do Grêmio são muito maiores do que apenas manter a hegemonia estadual.

O André de hoje é bem diferente daquele, também. Quando Catimba entrou para nossa história, tinha idade avançada, 31 anos. Era experiente. Rodado, como se fiz no futebol. Seu apelido era autoexplicativo. De estatura mediana, conseguia furar bloqueios com talento, raça e muita malandragem. Encarava qualquer grandalhão que se atravessasse no seu caminho.  

O de agora é um guri. Apenas 21 anos. Nem apelido tem (ao menos não que valha destaque quando está em campo). Quando muito é lembrado pelo nome composto: André Henrique. Tinha apenas passagem em clubes de pequena expressão: Capivariano, do interior de São Paulo, e os catarinenses Marcílio Dias e Hercílio Luz, onde estava quando foi surpreendido com um convite para jogar na Arena. 

”Caraca, o Grêmio, clube gigante de A” — pensou consigo mesmo, como confessou na primeira entrevista já vestindo a camisa tricolor, em abril deste ano. Até aquele momento, André analisava convites de clubes da série B, lá por Santa Catarina mesmo. 

Se jogar na A era sonho distante, imagine ser o jogador reverenciado e abraçado por um dos maiores artilheiros da história do futebol mundial. Hoje, ao marcar de cabeça, após cobrança de escanteio de Ferreirinha, aos 48 do segundo tempo, foi de Luis Suárez o primeiro e efusivo abraço que recebeu na comemoração do gol que impediu que o Grêmio fosse derrotado, no fim da rodada deste domingo. 

Para marcar seu segundo gol com a camisa do Grêmio —- para mim o terceiro e mais à frente explico o motivo —, André primeiro disputou pelo alto com o zagueiro adversário e forçou o escanteio. Na cobrança que veio da direita, estava bem colocado e subiu muito para se safar da marcação e girar a cabeça em direção a bola, em movimento clássico de quem sabe o que está fazendo, que entende do riscado. 

A primeira vez em que havia comemorado seu gol com o Grêmio foi em jogo já decidido, uma goleada contra o Coritiba, na décima segunda rodada do Campeonato Brasileiro. Bem mais importante do que esse gol, porém, foi o que marcou nas cobranças de pênalti que nos valeram uma vaga à semifinal da Copa do Brasil — e esse não entra nas estatísticas, erroneamente. Depois do empate no jogo corrido e na primeira série de pênaltis, coube a André abrir a cobrança alternada. Teve segurança e categoria para superar o goleiro, estufar a rede, colocar o Grêmio à frente e jogar a pressão para o adversário. Como você deve lembrar, Gandro defendeu a última cobrança e o Grêmio está na semifinal.

André jogou pouco até aqui. Em raras partidas saiu como titular. Na maioria das vezes, entra nos minutos finais. Hoje, foi a campo aos 38 do segundo tempo quando já estávamos atrás do marcador e o empate parecia difícil diante da falta de criatividade do time. Seu esforço e talento no cabeceio nos renderam um ponto importante na disputa acirrada pelas vagas da Libertadores. 

Se alcançará os feitos de seu xará dos anos de 1970 é muito cedo para afirmar. O fato é que aos poucos parece estar se sentindo cada vez mais à vontade e confiante com a camisa do Grêmio, o “clube gigante da A”. E leva nas costas uma feliz coincidência. O número 77 do ano em que o pai dele nasceu (e essa foi a razão da escolha que fez) e do ano em que André Catimba entrou para a história do Imortal. 

Avalanche Tricolor: eu vim ver o Grêmio e venci!

Grêmio 1×0 Atlético MG

Brasileiro – Arena Grêmio

Ronald comemora o gol da vitória em foto de Lucas Uebel/GrêmioFBPA

Estar em Porto Alegre é estar em família. É reviver o passado. É relembrar a vida que se foi e me trouxe até aqui. É homenagear os que me legaram a carreira que percorri e reencontrar o principal protagonista da minha história nas casas que frequentei quando criança, nas ruas pelas quais passei na adolescência e nas esquinas que me provocavam a escolher um caminho em busca do amadurecimento — eu mesmo.

Todas essas sensações percorrem as veias e mexem com as emoções quando chego à cidade. Estando aqui não há como esquecer o quanto minha história com o Grêmio foi importante — mais do que o time de futebol, aquele espaço que hoje é ruínas, muito próximo da casa em que vivi e me abriga sempre que visito a capital gaúcha foi meu palco de vida, onde forjei parte da personalidade que me representa, construí relações familiares e fraternais e aprendi a valorizar tanto vitórias quanto derrotas.

Estar na Arena, na noite desse sábado, ao lado do Christian, meu irmão, e da Jacque, minha irmã, é evocar aos céus a presença daquele que me fez gente e gremista — meu pai, que nos deixou há quatro anos em um 28 de julho. Por isso, mais do que o resultado, o que me importava era a solenidade do ato: vestir a camisa do Grêmio, sair de casa em direção ao estádio com meus irmãos, sentar-me em uma cadeira e ao lado deles torcer pelo que desse e viesse.

Veio uma vitória que nos projetou à vice-liderança do Campeonato Brasileiro. Vitória sofrida! Nem tanto pela forma como se construiu. O gol chegou cedo em uma cobrança de escanteio que foi concluída nas redes por Ronald, de apenas 20 anos, que está no clube desde pequeno e estreou hoje realizando o sonho de todos nós que já fomos um guri gremista.

O sofrimento deu-se na sequência quando o adversário se adonou da bola. Mesmo que não tenha sido capaz de transformar esse ato em superioridade técnica, exigiu uma atenção redobrada dos nossos marcadores. Nesse quesito, Walter Kannemann foi a referência do torcedor, foi gigante ao anular toda e qualquer tentativa de ataque. Nas vezes em que as ações passavam distante da intervenção de nosso zagueiro, Grando voltou a ser grande. Defendeu as bolas que por ventura não eram interceptadas por nossos defensores. E o fez mesmo naquelas em que o nível de dificuldade exigia rapidez e habilidade.

Saber sofrer é preciso. E o gremista ontem aprendeu mais um pouco. Entendeu o momento da equipe, apoiou do início ao fim, e comemorou de gol marcado a bola despachada pela lateral; de gol anulado a cartão amarelo para o adversário —- foi a primeira vez que assisti à revisão do VAR no estádio, e gostei, especialmente porque foi providencial. Sabia que os três pontos se faziam necessários e a torcida esteve ao lado do time — uma prévia do que acontecerá na quarta-feira, na Copa do Brasil. 

Nenhuma ausência no gramado me fez frustrar a expectativa de estar na Arena, porque vim a Porto Alegre, vi o Grêmio e venci (dentro e fora do campo)!