Sou explosivamente Grêmio!

 

 

Por Cao Hering

 

 

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Acompanhe outras imagens do Grêmio no site http://www.ducker.com.br

 

 

Já me perguntaram se eu sou gaúcho. Não, não sou. Está na cara, repare no meu jeito “catarina”. Sou gremista por osmose, ou sei lá como se chamam essas coisas do futebol. Amor gratuito à primeira vista? Pode ser. Saí de Blumenau torcendo pelo Grêmio Esportivo Olímpico, quem sabe esteja aí o elo. Torcer por um time é uma caixinha de surpresas, diz a filosofia. Torcer por um time é se apegar simplesmente a um escudo, pois todo o resto é volátil. Jogadores, técnico, ídolos, estilo de jogo, o corte da gola e das mangas, o estádio, até as cores, tudo em algum momento pode se desfazer, e você fica com seu escudo providencialmente no lado esquerdo do peito.

 

 

Pus os pés em Porto Alegre quando Falcão, Batista, Figueroa e outros tantos imbatíveis colorados botaram o tricolor da Azenha na roda por longos anos. Sem TV, na companhia do radinho de pilha, no silêncio das tardes de domingo meu quarto era preenchido pela narração vibrante, quase visível, de Armindo Antônio Ranzolin, os comentários de Lauro Quadros e Ruy Carlos Ostermann. O longo grito de goooooooooool era quase sempre para o Inter.

 

 

Nas discussões, puxávamos antigas derrotas do rival que em nada adiantavam para aplacar a frustração e as gozações nos almoços e aulas da faculdade nas segundas-feiras. Mas é aí mesmo que a gente se apega ao time do peito. Virei gremista de raiz, sem me meter em loucuras, fanatismo ou descer pela avalanche no estádio. Em Blumenau, sou torcedor à distância, não pego ônibus ou avião pra ver o Grêmio jogar na Cochinchina ou no Alegrete. Não me perguntes onde fica, não sei explicar direito.

 

 

Tivemos nossas redenções no Campeonato Brasileiro, Copa do Brasil, Libertadores da América e um mundial no Japão. Há uma longa lista de feitos em ambos os lados, administrada atabalhoadamente pelos deuses do futebol. Não cabem aqui. Nos últimos anos, no entanto, é nossa vez. E na quarta-feira passada o apaixonado planeta azul pôde explodir novamente, agora em hostil território argentino. E também dentro de sua própria arena frente aos telões. “Soy loco por tri, America!”, dizia a faixa na arquibancada. É orgástico, é ver de novo e de novo e de novo Cícero, Fernandinho e Luan metendo a bola na rede do Lanús. Olha o gol! Olha o gol! Olha o gol! Ah, e os milagres do Grohe! É o mundial mais uma vez na porta. E seja lá o que os deuses do futebol programarem daqui pra frente, já tá tudo de bom tamanho.

 

 

É só futebol, mas é o Grêmio. Não sou gaúcho, assim como os flamenguistas da minha turma não são cariocas e muitos corintianos nem saberiam chegar a Itaquera. Não me acostumei à carne mal passada e o chimarrão é amargo demais. Música gauchesca, nem pensar. Não digo “tchê” e nem usaria uniforme gremista na rua. Mas sou explosivamente Grêmio! Grêmio, o Imortal!

 

O Cao Hering, que autorizou a publicação deste texto no Blog, é gremista, publicitário e colunista do Jornal de Santa Catarina.

 

Avalanche Tricolor: Eu sou TRI da América, pai! Obrigado!

 

Lanús 1×2 Grêmio
Libertadores – La Fortaleza/Lanús-ARG

 

 

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Pai,

 

Mesmo distantes, eu aqui em São Paulo e você em Porto Alegre, nunca estive tão próximo de você como nesta noite de decisão. E desde que ela começou a ser escrita, semana passada, naquele gol de Cícero, na reta final da primeira partida, têm sido frequentes as lembranças de nossos muitos momentos juntos e em torno do Grêmio.

 

Você não tem ideia, pai, foi uma avalanche de emoções antes mesmo de a bola começar a rolar na Argentina. E a cada lembrança, aumentava a vontade de ligar para você e dizer muito obrigado por tudo que você fez por mim. Na louca escapada de Fernandinho; na molecagem de Luan que saçaricou com a bola dentro da área; na defesa de Marcelo Grohe; em todo momento gigante que vivemos nesta noite até o apito final, lembrei de você pai! Queria abraçar você! Porque se eu sou TRI da América, e sou TRI por sua causa!

 

Foi você que me fez gremista! E por isso eu agradeço.

 

Obrigado, pai, por sua intervenção em 1969 quando um primo engraçadinho aproveitou-se da minha ingenuidade, vestiu-me com o uniforme daquele outro time, me deu uma bandeira e me ensinou a cantar “papai é o maior”. Imaginava ser uma homenagem para você. Descobri que era uma provocação barata. Dizem os parentes que apanhei com a bandeira. Sempre pensei que essa era uma piada em família até o dia em que você confessou, constrangido, o ocorrido. Sem constrangimento, pai. Foi pedagógico e definitivo. Aprendi a lição. Comecei ali a ser forjado gremista. E eu só tenho a agradecer.

 

Obrigado, pai, por me comprar a primeira camisa do Grêmio, daquelas com um tecido meio grosseiro, que encolhia e desbotava sempre que a mãe lavava no tanque. Foi com ela que você me levou para a escolhinha de futebol em um campo de terra que ficava atrás do Olímpico. Como você sofria me vendo tentar jogar bola, despachando os atacantes a pontapé, brigando com o adversário e discutindo com o juiz. Quantas vezes você veio brigar junto comigo. Nós dois formávamos um só time. Lembra, pai?

 

Foi assim no basquete do Grêmio, também. Puxa, você aceitou até virar cartola pra sentar no banco e estar ainda mais perto de mim. E aguentava o meu choro a cada derrota, e era capaz de justificar até minha mediocridade. Obrigado, pai, era você me fazendo gremista!

 

E quantas vezes, fomos ao Olímpico assistir aos jogos do Grêmio de mãos dadas – mãos que passaram a se soltar a medida que a adolescência surgia. Mas lá estava você, ao meu lado, sempre. Comemorando gols, esbravejando as jogadas mal jogadas, justificando os erros dos nossos craques, me ensinando a ser gremista. Sendo campeão!

 

Pai, obrigado! Foi no Olímpico, que construi minha personalidade. Foi lá que você me apresentou algumas das pessoas mais marcantes da minha vida. Lembra quando eu “rodei” na escola e não tinha coragem de contar para você? Você usou o Seu Ênio Andrade para chegar até mim e me mostrar que não deveria ter medo, afinal você era meu pai, era meu amigo. E eu contei e você me acolheu com um abraço.

 

Lá dentro do Olímpico você me colocou ao lado de Telê Santana que me deu puxão de orelha porque inventei de passar a bola com o lado de fora do pé; do Seu Ênio que me fez parte do time ao me convidar para ser gandula e transmitir suas instruções à equipe; de Loivo que me mostrou como apaixonante era jogar pelo Grêmio; de Iura que chorou comigo dentro do vestiário porque perdemos um campeonato. Obrigado, pai!

 

Se sofri a pressão argentina, se levei medo quando eles reagiram e nós perdemos um jogador. Se sorri a cada gol, cada defesa, cada bola bem tocada, cada drible desconcertante;  se chorei hoje à noite abraçado nos meninos aqui em casa; se sou TRI da América;  sou porque você me fez gremista.

 

Obrigado, pai!

Avalanche Tricolor: como nos velhos tempos

 

Grêmio 1×0 Lanus-ARG
Libertadores – Arena Grêmio

 

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Festa do gol em foto de LUCAS UEBEL/Grêmio FBPA

 

 

O destino me quis longe de Porto Alegre nesta noite memorável. Pior, me levou para distante da televisão. E o rádio voltou a ser meu companheiro de sofrimento, como nos velhos tempos em que ficava na casa do Menino Deus, bem pertinho do saudoso Olímpico Monumental. Escutava a voz daqueles incríveis narradores da Rádio Guaíba – a do pai fazia parte deste elenco – que nos levavam a enxergar cada lance, movimento, chute, defesa e emoção. A precisão na descrição dos fatos transformava palavras em imagens.

 

Hoje, Oscar Ulisses, da Globo/CBN, foi quem me levou a vivenciar esses momentos até quase os minutos finais desta primeira parte da decisão final da Libertadores. Vi o Grêmio em uma partida equilibrada no primeiro tempo, trocando passes para encontrar espaço na retranca adversária. Vi Marcelo Grohe em uma defesa espetacular salvar a lavoura em raro ataque dos argentinos. Vi a volta para o segundo tempo com o sufoco sobre a defesa deles. Chutes a longa distância. Pressão com bola aérea. Jogadas duras e ríspidas. Um árbitro leniente.  E vi Renato tirar Everton, Jael e Cícero do banco e  entrarem no time para furar o ferrolho montado por eles. 

 

Quando a preocupação com o empate já aflorava na torcida, encontrei um aparelho de televisão no meu caminho. E foi na tela da TV que assisti a Edílson lançar a bola para dentro da área, Jael saltar mais alto e escorar para Cícero que passou entre os zagueiros e resvalou na bola, em um movimento mais do que suficiente para marcar o seu primeiro gol com a camisa do Grêmio. E talvez o mais importante de sua história. Dos mais importantes da nossa história.

 

Demorou mas a vitória chegou, aos 37 minutos do segundo tempo. Foi na raça, disputando cada bola, encarando o adversário, discutindo com o árbitro, brigando pelos seus direitos, lutando contra tudo e contra todos. Como nos velhos tempos. Eu vi o Grêmio Copero em campo. 

 

 

 

Avalanche Tricolor: os “Heróis de 1977” voltam a campo!

 

 

Santos 1×0 Grêmio
Brasileiro – Vila Belmiro/Santos-SP

 

 

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O gol do título de 1977 em foto de Armênio Abascal Meireles

 

 

Havia futebol no fim de semana. E quase todos os jogos estavam marcados para domingo porque o Campeonato está na reta final. Verdade seja dita: pra maioria de nós já terminou. O que esperávamos levar no Brasileiro já levamos. Daqui pra frente é envergar nossa camisa tricolor e chegar até a última rodada com dignidade e com a força que tivermos à disposição – se ficarmos com o vice campeonato, melhor, pois assim embolsaremos alguns milhões a mais. Claro que insisto em querer ganhar cada partida que disputamos e me irrito com a falta de gols quando esses não aparecem, mas enxergo com clareza a dimensão de cada momento. E nosso momento hoje é outro, distante do Brasileiro.

 

 

Além de futebol, havia um feriado estendido aqui em São Paulo, que se iniciou no sábado e se encerra nesta segunda-feira quando é comemorado o Dia da Consciência Negra. Aproveitei esses três dias, quatro se contar a sexta-feira, para ler um livro que comprei no feriado anterior, no Dia da República.

 

 

Estive em Porto Alegre e visitei a Feira do Livro por razão já suficientemente explorada nesta Avalanche. Lá o professor Paulo Ledur, ao me levar até a banca da AGE, editora que ele mantém como um competente militante da literatura, apresentou-me “Heróis de 77 – a história do maior campeonato gaúcho de todos os tempos”, escrito pelo gremistão Daniel Sperb Rubin. Dito isso, você, caro e raro leitor desta Avalanche, começa a entender porque escolhi para ilustrar este texto a imagem eternizada pelo fotógrafo Armênio Abascal Meireles, que morreu precocemente em um acidente de carro.

 

 

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Rubin foi minucioso ao contar a história daquele título regional que transformou nossa história. Pesquisou em jornais e revistas, leu cada reportagem e crônica esportiva produzida na época. Vasculhou sua memória e a de dezenas de outras testemunhas daquele feito. E como todo gremista que se preza pintou cada momento de azul, preto e branco.

 

 

O “Gaúcho de 1977” foi o primeiro título que ganhei como gremista. Ao menos o primeiro que participei como tal. Antes dele, havíamos vencido em 1968, mas eu tinha apenas cinco anos. Curiosamente, a primeira lembrança que tenho relacionada a futebol é de um ano depois, em 1969, quando meu pai protagonizou uma cena que foi definitiva para minha paixão pelo Grêmio – sobre essa, porém, falaremos em outra oportunidade se assim você quiser, caro e raro leitor.

 

 

Vínhamos de uma sequência de oito campeonatos perdidos, de uma descrença que já começava a marcar nossa alma. Vencer era preciso, contra tudo e contra todos, como nos lembra cada capítulo do livro de Rubin. A medida que folheava “Heróis de 77” fui relembrando de lances que assisti ao vivo, dos jogadores que admirava, das polêmicas que marcaram aquela conquista, dos pênaltis não sinalizados e dos clássicos disputados na bola e na porrada.

 

 

Eu estava no Olímpico, sentado ao lado de meu pai, nas cadeiras azuis e de ferro frio que formavam o anel superior do estádio, naquele diz 25 de setembro de 1977. Rubin estava como o pai dele no anel de baixo, onde ficava a social do Grêmio. Por coincidência, sentamos do lado esquerdo das cabines de rádio, ao lado da goleira em que André Catimba marcou o gol do título e protagonizou o salto “imortal” registrado por Armênio. Como se sabe, André não completou a comemoração, sentiu uma lesão e caiu ou caiu e sentiu uma lesão. Teve de ser substituído por Alcindo, mas conquistara para sempre lugar entre os titulares do nosso coração.

 

 

Diante da conquista do Mundial, das Libertadores já comemoradas, dos Brasileiros vencidos e das Copas do Brasil enfileiradas, pode causar estranheza para você, caro e raro leitor, um autor dedicar 285 páginas de um livro para o “Gaúcho de 1977”. Assim como pode parecer distante as façanhas de 40 anos atrás para ilustrarem essa última Avalanche antes da final da Libertadores de 2017, que se inicia na quarta, dia 22 de novembro.

 

 

Saiba, porém, que, como o próprio Rubin muito bem descreve na introdução do livro, não haveria Mundial, Libertadores, Brasileiros e Copas do Brasil não houvesse aqueles “Heróis de 77”: “… foi um divisor de águas, que forjou a personalidade do clube a ferro e fogo, lançando-o para o futuro cheio de glórias, conquistas e façanhas quase impossíveis”.

 

 

Só se tornou possível Marcelo Grohe, Edílson, Geromel, Kannemann e Cortez; Jailson, Arthur, Ramiro; Luan, Fernandinho e Barrios entrarem em campo, nesta quarta-feira, na Arena Grêmio, para buscar o Tri da Libertadores, porque existiram Walter Corbo, Eurico, Oberdan, Anchieta, Ladinho; Vitor Hugo, Iura e Tadeu Ricci; Tarciso, André e Éder.

 

 
Vai ser muito bom ver todos aqueles “Heróis de 77” em busca de mais uma façanha!

Avalanche Tricolor: haja paciência!

 

Ponte Preta 0x1 Grêmio
Brasileiro – Moisés Lucarelli/Campinas-SP

 

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foto de arquivo

 

 

Meu Deus do Céu! A coisa tá pior do que eu imaginava. A ansiedade tá matando com minha razão e me levando ao delírio. Se ontem foi dia 8 de novembro e as finais serão dias 22 e 29 de novembro, evidentemente que faltavam 14 dias e não 7 como este escriba registrou na Avalanche publicada logo após a partida da Ponte Preta. Como tenho caros, raros e bons leitores, foram eles, Nelson Zambrano e Moacir Carvalho, quem me alertaram para o absurdo da minha matemática. Diante dos fatos, além de agradecer o carinho deles e pedir desculpas, resta me internar até lá ou buscar ajuda para controlar a ansiedade da final. Vou até ali e já volto, gente ….(publicado em 9 de novembro)

 

 

1, 2, 3, 4, 5, 6, … 7 (e mais 8, 9, 10, 11, 12, 13, 14) dias ainda nos faltam até o início da decisão da Libertadores. Somente daqui uma duas semanas, o Grêmio que queremos ver, voluntarioso, preciso, veloz e sufocante estará em campo. Aquele Grêmio que nos capacitou a ser o melhor time brasileiro na competição e um dos mais encantadores da temporada, na visão dos próprios críticos. Um time que é capaz de manter uma fortaleza na defesa sem abrir mão do jogo ofensivo. Firme na marcação e talentoso no ataque.

 

A espera para que esse momento se realize exige paciência de cada um dos seus torcedores. E de seus jogadores, também. Já escrevi sobre isto no domingo, após a vitória incontestável na Arena Grêmio. Não seria diferente depois do jogo desta noite, em Campinas, de onde também saímos com uma vitória, apesar de neste caso não se aplicar o mesmo adjetivo. Houve muita contestação por parte do adversário: Marcelo Grohe que o diga. O nível de exigência foi impressionante. E a performance de nosso goleiro, inquestionável.

 

Na partida desta quarta-feira, fomos apenas o esboço daquele time ideal. Nem poderia ser diferente, haja vista a escalação que Renato levou a campo. Sei que poderíamos esperar um pouco mais, afinal tinha gente ali com capacidade de se apresentar melhor. Agora confesso a você, quando comecei a perceber a força com que o adversário entrava em cada jogada, principalmente após o lance sobre Ramiro, que resultou na expulsão, já estava achando melhor terminar a partida por ali mesmo. Perder um jogador a esta altura da temporada é de tirar a tranquilidade de qualquer um. Imagine o que se passava na cabeça desses jogadores.

 

De positivo, ficou a capacidade de resistência do time e a agilidade de Grohe, diante de um adversário que se lançou de forma desesperada para o ataque. Na partida anterior já havíamos sido suficientemente maduros para buscar a vitória mesmo saindo atrás no placar. E esses serão fatores que podem desequilibrar a decisão da Libertadores a nosso favor se assim formos exigidos.

 

No fim de semana ainda teremos mais um jogo pelo Campeonato Brasileiro. Lá estarão nossos jogadores, sendo cobrados porque vestem a camisa do tricolor e porque a expectativa em torno do Grêmio é sempre grande. A vitória é sempre uma demanda. Mas tudo bem, porque agora só é preciso um pouco mais de paciência. A final está logo ali … pensando bem, ainda faltam  7  14 dias, não é mesmo? 

 

Haja paciência!

Avalanche Tricolor: o dia em que redescobri aquele guri do Olímpico

 

Grêmio 0 (3) x (1) 1 Barcelona Guayaquil
Libertadores – Arena Grêmio

 

 


 

 

Escrevo de dentro do avião que me leva de volta a São Paulo. Da janela vejo do lado direito a imponência da arquitetura que dá desenho a Arena do Grêmio. Exuberante, pulsante. Imagem que dá ponto final (ou quase) a incrível experiência vivida por mim nestas últimas 24 horas.

 

Ainda sinto no corpo e na alma (na voz, também) as emoções as quais fui submetido desde que cheguei neste mesmo aeroporto, na tarde de quarta-feira. Do Salgado Filho fui, acompanhado de meu irmão, até a Arena. Melhor nas cercanias da Arena. Fui recepcionado por uma quantidade enorme de torcedores que já se reuniam à frente da casa batizada Largo dos Campeões, nome do coletivo de gremistas que aluga e mantém o espaço a uma quadra do estádio.

 

Lá dentro, em uma pequena sala, a decoração é carregada de adereços, relíquias e memórias do Grêmio. O espaço recebe também alguns barris de chopp, devidamente gelados, e um DJ que no comando de sua picape toca rock and roll pra animar a festa.

 

Lá fora, embaixo de um toldo com as cores do Grêmio, do lado e ao longo da praça, um amontoado de torcedores a espera da costela que assa em fogo de chão, no mais típico dos churrascos gaúchos. A fumaça toma conta do local quando o vento bate para refrescar a turma – trago o cheiro entranhado na mala de viagem. O som alto da música se mistura a uma série de sotaques do Brasil: Mato Grosso, Santa Catarina, Ceará, Distrito Federal e São Paulo estão representados. O gauchês prevalece. Nem poderia ser diferente.

 

Foi no “Largo dos Campeões” – nome que relembra o espaço onde estavam os arcos dos portões de entrada do saudoso estádio Olímpico -, que participei do esquenta para a partida que garantiria a presença do Grêmio na sua quinta final de Libertadores. Fui a convite de um amigo de infância: Marcelo Quadros. Somos filhos de jornalistas, que foram colegas de rádio, e desde muito pequeno assistíamos às partidas do Grêmio no Olímpico ou por onde o Grêmio estivesse, no interior do Rio Grande do Sul.

 

Fazia mais de 30 anos que não nos víamos, apesar da troca constante de mensagens no último ano, desde que ele se mudou de Buenos Aires para São Paulo. Finalmente nos encontramos e o momento não poderia ser mais especial.

 

Cercado de gremistas. De entusiasmados gremistas. Cada um contava um pouco de sua história, todos relembravam momentos vividos, jogos inesquecíveis, jogadores memoráveis. Muitos faziam reverência ao meu pai, Milton Gol-Gol-Gol Jung, que narrava futebol com precisão e emoção e jamais escondeu sua torcida pelo Grêmio. E ao Lauro, pai do Marcelo.

 

Somos de uma época em que as conquistas regionais eram o ápice de nossa satisfação. Somente mais tarde passamos a nos acostumar com as vitórias nacionais. Foi, também, quando o sonho da Libertadores se iniciou. Já eram os anos de 1980.

 

Tanto tempo depois de nosso último encontro, lá estávamos nós de volta.

 

Camisa do Grêmio vestida, bandeira nas costas, sorriso no rosto, confiança exagerada. Um quase deslumbramento. Semelhante aos dos tempos em que éramos guris e das cadeiras de ferro azuis do Olímpico transmitíamos nossa certeza na vitória – nem sempre atendida com o desempenho em campo, o que, inevitavelmente, me levava às lágrimas. Chorei muito quando era criança, no Olímpico.

 

As lágrimas voltaram a correr no rosto quando entramos na Arena. Éramos, Marcelo, eu e mais 51 mil gremistas alucinados com a possibilidade de estarmos mais uma vez em uma final de Libertadores, esta competição pela qual aprendemos a jogar e nos apaixonar. O choro viria a se revelar novamente no fim da partida quando a classificação estava garantida e a torcida cantava alto seu orgulho de ser gremista.

 

Ao longo do jogo, sofri com o gol adversário, aplaudi o carrinho bem dado, a roubada de bola inesperada, o drible encantador e os ataques frustrados. Xinguei o juiz. Xinguei quando ele não tinha razão e muitas vezes quando ele tinha, também. Desculpe-me, seu juiz, mas estava vivendo um momento muito especial da minha vida: voltava a ser aquele guri gremista do estádio Olímpico.

 

Assistí à partida no círculo mais alto da Arena, nas cadeiras sobre a Geral, atrás do gol defendido por Marcelo Grohe no segundo tempo, aquele em que a bola deles tocou o poste – e eu tenho certeza que ajudei a desviá-la para fora. Ouvi torcedor reclamando de Cícero, lamentando que Cortez não chegou à linha de fundo, que o drible de Fernandinho não deu certo, que Luan poderia ter entrado mais duro, batido mais forte, feito o gol de empate, da virada, o da goleada … pô, Luan! Vi esses mesmos torcedores aplaudindo a todos eles.

 

A gente quando torce é assim mesmo. Distorce as coisas. Não relativiza.

 

Em campo, o Grêmio foi “copero” como só os grandes times sulamericanos sabem ser. Mesmo diante da pressão de um adversário precisando descontar os gols tomados no Equador soube cadenciar, catimbar, chutar a bola para fora, segurar a bola do lado de fora quando necessário. Valorizava a trombada recebida, esticava o tempo de recuperação caído no gramado e chegava forte sempre que exigido. Deu-se o direito de fazer o jogo da desconstrução já que havia construído o resultado na casa do adversário, uma semana antes. Porque assim é a Libertadores. E poucos no Brasil sabem jogá-la tão bem quanto nós.

 

Retorno a São Paulo e foi ter de me recompor. Voltar a ser o adulto que deixe para trás quando desembarquei na cidade. O cara responsável que a profissão exige e a família precisa. Chego com a garganta arranhada, com dores nas costas e pernas cansadas. Essas coisas que amanhã ou depois estarão recuperadas e esquecidas. O que nunca mais sairá do meu corpo e da minha memória foi a experiência vivida nessas 24 horas, em Porto Alegre.

 

Valeu, Marcelo! Valeu, Grêmio! Até a final!

Avalanche Tricolor: melhor do que a encomenda

 

Barcelona-EQU 0x3 Grêmio
Libertadores – Monumental Isidro Romero Carbo, Guaiaquil

 

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Os poucos que me conhecem sabem das minhas crenças em relação ao Grêmio. Talvez a mais alucinada de todas é a certeza de que não existem placares irreversíveis. Somos capazes das maiores façanhas; e não precisamos exercitar muito a memória para entender porque é assim que penso.

 

Diante de tantas vitórias consideradas impossíveis ao longo de nossa história, forjei a máxima: “até três em casa a gente vira”. E a uso sempre que estamos frente a um mata-mata. A usei na manhã desta quarta-feira em conversa pelo Twitter com Seu Algoz, que sempre me dá uma colher de chá e publica essa Avalanche no seu blog.

 

Havia um diálogo entre gremistas, os crentes e os descrentes – sim, é incrível, eles existem. Discutiam qual o melhor resultado para esta noite. Palpitavam e se dividiam entre otimistas e pessimistas. Dentre os últimos, a maioria contaminada pela performance mais recente, uma turma que parece ainda não ter entendido o grande poder de superação do Grêmio.

 

Poucos, muito poucos, seriam capazes de arriscar um placar como o construído no Equador. Perdão, um placar construído no planejamento de Renato e comissão técnica; na paciência deste grupo que suportou a pressão dos próprios torcedores (e dos críticos, também); na humildade de um clube que entendeu ter diante de si uma missão que seria a de reconquistar a América, e para vencer esta guerra teria de ceder em algumas batalhas.

 

Cedeu até onde pode e hoje estava inteiro em campo, com o que havia de melhor e mais bem preparado. Com Marcelo Grohe, protagonista de uma das mais belas defesas já assistidas no futebol mundial; com Geromel e Kannemann, senhores da área; com o petardo de Edílson explodindo no gol adversário; e Luan, o craque que ressurge após 56 dias recuperando-se de lesão.

 

Nosso camisa 7 é raro, disse Grohe ao fim da partida. É raro, genial e goleador. Com a bola nos pés convidou os equatorianos a dançarem com ele. E levaram um baile. Diante do gol foi matador nas oportunidades que teve. Uma logo no início do jogo, contendo o ímpeto adversário. Outra, para fechar o placar no instante em que ensaiavam uma reação.

 

O 3×0 desta noite foi melhor do que a encomenda, mas para a entrega ficar completa ainda faltam os 90 minutos na Arena, semana que vem. Que estejamos todos lá, crentes e descrentes, loucos e racionais, gremistas e imortais, pois agora falta muito pouco para estarmos novamente na final da Libertadores.

Avalanche Tricolor: ‘Sirvam nossas façanhas de modelo a toda Terra’

 

 

Grêmio 1×0 Botafogo
Libertadores – Arena Grêmio

 

 

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Neste 20 de Setembro havia três brasileiros disputando a Libertadores da América. Apenas um deles sobreviveu em campo na luta pelo título: o único que é Imortal. Diante de mais este feito, só me resta cantar, daqui de Belo Horizonte, onde me encontro nesta noite, para que todos ouçam por toda a América:

 

Como a aurora precursora
Do farol da divindade
Foi o 20 de Setembro
O precursor da liberdade

 

 

Mostremos valor constância
Nesta ímpia e injusta guerra
Sirvam nossas façanhas
De modelo a toda Terra

 

 

 

De modelo a toda Terra
Sirvam nossas façanhas
De modelo a toda Terra

Avalanche Tricolor: as marcas do futebol gremista, na Libertadores

 

Botafogo 0x0 Grêmio
Libertadores – Estádio Nilton Santos RJ

 

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Arthur deixa a sua marca (reprodução SporTV)

 

Personalidade e maturidade foram marcas do futebol gremista na noite desta quarta-feira, no Rio de Janeiro. Típicas de um time copeiro, experiente em competições sul-americanas e consciente do seu potencial. Não por acaso estamos em nossa décima-sétima Libertadores, já fomos quatro vezes à final e buscamos o Tri.

 

O Grêmio de Renato soube reduzir os riscos contra um adversário empurrado por sua entusiasmada e confiante torcida, que acabara de vir de uma vitória em clássico, no Campeonato Brasileiro. Sabia da pressão que poderia sofrer e soube trabalhar diante deste desafio.

 

Fez questão de ficar com a bola no pé e trocar passes sem precipitação, com precisão – esta que, aliás, é outra de nossas marcas, desde a temporada passada. Jogou com inteligência, tendo Arthur mais uma vez demonstrado talento acima da média na condução da bola.

 

Marcou com firmeza, expondo-se pouco ao perigo e contando com a experiência de jogadores como Kannemann, Edílson, Leo Moura e Fernandinho. 

 

Soube aproveitar o talento de seus jogadores, mesmo sem ter em campo dois de seus melhores: Geromel e Luan.

 

Nosso zagueiro mitológico mais uma vez foi substituído pela segurança de Bressan.

 

Já Luan não tem substituto em solo brasileiro, portanto não havia como esperar que alguém reproduzisse suas qualidades.

 

Nada está decidido, mas a decisão será na Arena, com a torcida a se somar aos nossos talentos. Sem contar que Renato terá de volta – é o que se espera – Geromel e Luan, marcas importantes desta equipe.

 

Por mais difícil que seja o confronto da próxima quarta-feira ou por mais que empate com gols seja favorável ao adversário, o Grêmio está firme e forte a caminho de deixar mais uma marca na Taça Libertadores.

 

 

Avalanche Tricolor: que o futebol de talento prevaleça

 

 

Vasco 1×0 Grêmio
Brasileiro – São Januário RJ/RJ

 

 

Gremio

(imagem de arquivo)


 

 

Era futebol, era o Grêmio e era no Rio de Janeiro. Mas ainda era sábado, era em São Januário e no Brasileiro. E assim como eu, imagino que você, caro e raro leitor gremista desta Avalanche, – talvez parte de nosso time, também – estávamos com a cabeça a 10 quilômetros dali. É no Nilton Santos, lá no Rio mas na quarta-feira, que nossa temporada de futebol bem jogado pode ser validada. É lá que sinalizaremos o quanto o jeito de tocar na bola, trocar de posição e surpreender o adversário valeram a pena neste ano. E devem ser mantidos.
 

 

O futebol tem dessas coisas. Por mais que um time seja reverenciado pelo tipo de jogo implantado, pela genialidade de seu esquema tático e pelo poder de solução que alguns de seus talentos individuais oferecem, se não tiver um título para ilustrar todas essas qualidades, provavelmente terá sua história esquecida. Lembraremos nós, ao menos uns e outros de nós, o ano em que Renato conseguiu dar um padrão de jogo capaz de espantar críticos no Brasil, que Luan jogava o futebol mais bonito do país, que tivemos o ataque mais vigoroso e equilibrado da temporada. E sempre haveremos de ouvir um “mas ….”. Estaremos sempre condenados a esta conjunção adversativa.
 

 

Não bastasse ser uma obsessão desta torcida que descobriu ainda na década de 1980 que conquistar a América nos colocaria acima de qualquer vitória nacional do arqui-adversário, a Libertadores tem função ainda maior nesta temporada, especialmente após o desperdício dos títulos Gaúcho e da Copa do Brasil. Será o certificado que o Grêmio busca para corroborar suas escolhas seja na forma de jogar, seja na de reter talentos, seja na de contratar reforços, seja na de se comportar em campo e fora dele.
 

 

Longe de mim desmerecer nossas qualidades reveladas até aqui, independentemente do que venha a acontecer. Você que me acompanha neste espaço sabe do quanto tenho me deslumbrado com alguns dos momentos vividos em campo pelo Grêmio. Mesmo em alguns jogos nos quais o resultado não era o esperado, sinto orgulho de torcer por este time – como se já não bastasse o orgulho que tenho de ser gremista. Mas … e lá vem a conjunção adversativa mais uma vez … o futebol é ingrato. Exige vitória após vitória. Reivindica títulos, a qualquer preço. Precisa de uma faixa no peito e uma taça no armário para ser lembrado.
 

 

O futebol de talento merece este título. E o Grêmio haverá de provar isso na quarta-feira, no Nilton Santos, na Libertadores.