Avalanche Tricolor: na vida, tem de saber perder

Grêmio 1×2 Independiente del Valle

Libertadores – Arena Grêmio

Jean Pyerre em foto de Lucas Uebel/Grêmio FBPA

“A questão não é quantas vezes você cai mas quantas vezes você levanta”

Ouvi essa adaptação da frase de Rocky Balboa, personagem das lutas de boxes do cinema, de um dos meus filhos, no bate-papo do café da tarde, Sei lá porque surgiu o assunto, talvez premonição para o que aconteceria à noite. Provavelmente apenas coincidência. Com certeza, inspiração para essa nossa conversa marcada pela frustração de estarmos fora da Libertadores 2021 — fato raro na história gremista, especialmente nesta última década em que  fomos campeões, em 2017, e por oito vezes disputamos a mais importante competição das Américas.

A queda não veio em um lance, por mais que os algozes de plantão queiram apontar o dedo para um ou outro jogador. Ela ocorre aos poucos.  E é coletiva. Em um gol marcado e mal anulado —- refiro-me ao da primeira partida, lá no Paraguai. Em um, dois e três gols perdidos na cara do goleiro —- claro, que falo do que assistimos na partida de hoje. Na ausência de jogadores importantes ou na presença de outros tão importantes quanto mas sem a necessária condição física. Na dificuldade para montar um time com o talento que necessitamos.

Perde-se uma classificação até mesmo antes disso. A obra de hoje começou a ser construída na campanha claudicante do ano passado (que se encerrou apenas neste 2021). Na perda de pontos que nos colocariam facilmente na Libertadores, sem precisar passar por essa fase preliminar e perigosa, em que tivemos de disputar uma “final” em começo de temporada. 

A derrota somente não será maior, se for pedagógica. 

Semana passada escrevi que “na Libertadores é preciso até saber perder”. E o Grêmio, com todas as dificuldades (e, repito, um gol muito mal anulado) soube perder na medida certa — inclusive marcando fora de casa, o que lhe daria a classificação com uma vitória simples. Na Arena, começou na frente, dominando e superior em campo — mas não soube vencer. Jogou fora a vantagem que tinha e sucumbiu a qualidade técnica do adversário. E eis aqui mais uma lição a ser aprendida: admitir quando do outro lado havia uma força maior.

É preciso aprender com o revés deste início de temporada e lembrar que surge uma oportunidade rara que é a de ganhar tempo para treinar e se dedicar àquela que é a principal competição nacional, o Campeonato Brasileiro, vencido pela última vez, em 1996. Para isso, Renato terá de reestruturar o time, rever jogadores, investir em novos talentos, acreditar na juventude e encaixar as peças para que o futebol de 2017, que encantou o Brasil, volte a ser praticado em campo.

A tentação de zerar o jogo e começar tudo de novo, como se o que foi feito até aqui tivesse de ser esquecido é enorme. Ao mesmo tempo que perigosa. A ideia de terra arrasada só serve para satisfazer o fogo amigo, geralmente instigado por frustrações pessoais ou visão limitada diante da necessidade de um trabalho de longo prazo. Mudar tudo e todos tornará a derrota desta noite muito pior.

Cair, sentir o cheiro da lona, embrulhar o estômago com o sabor azedo da derrota faz parte da vida. Saber levantar-se e voltar a lutar à altura dos desafios que se impõe na jornada é para poucos. É para os Imortais. E nossa história já provou que somos. Vamos nos erguer!

Avalanche Tricolor: na Libertadores é preciso até saber perder

Independiente del Vale 2×1 Grêmio

Libertadores –  Assunção, Paraguai

Diego Souza comemora o gol em foto de Lucas Uebel/GrêmioFBPA

Libertadores tem de saber jogar. É uma competição com características próprias. Aguerrida por natureza. Com sabor de rivalidade que extrapola o campo do jogo. Que contrapõe raízes, culturas e valores. Disputada nos bastidores, nos vestiários, nas arquibancadas (quando essas eram ocupadas por torcedores) e em cada centímetro do gramado, mesmo antes de a bola rolar —- lembre-se, já jogamos partida em que jogador foi expulso antes do apito inicial. 

O Grêmio sabe que essa é um Copa diferente —- não por acaso somos tri-respeitados por nossos adversários (desculpe-me pelo trocadilho). Que se ganha na bola, no toque e no talento, como fizemos em 2017. Que também se alcança sem tirar o pé da dividida, dando bico para fora do estádio e na catimba malemolente, que impede a dinâmica do jogo. É do jogo. 

Em 1983, quando forjamos nossa fama sulamericana, para sobreviver em campo. no sentido literal da expressão, tivemos de ceder um empate impossível de ser alcançado em situação normal —- e aqui, claro, me refiro a Batalha de La Plata na qual empatamos com o Estudiantes, da Argentina, por 3 a 3.

Em 1995, chegamos ao título mais uma vez com um empate fora de casa, após uma vitória retumbante no saudoso Olímpico Monumental. Antes disso, já havíamos provado nossa capacidade de sofrer, resistir e sobreviver, quando soubemos impedir que uma goleada nos tirasse das semifinais da competição.

Hoje à noite, no Paraguai, lamento informar aos torcedores equatorianos e secadores: não souberam nos derrotar. Saímos de campo vivos para a decisão que nos levará à fase de grupos da Libertadores.

E o fizemos a despeito de erro grotesco de arbitragem que anulou aquele que seria nosso segundo gol, ainda no primeiro tempo. Um lance de Alisson, Diego Souza e Ferreira, que vai entrar na lista dos mais belos gols anulados do futebol sulamericano. 

Não bastassem todas as dificuldades de enfrentar um time bem montado e de futebol qualificado além do gol erroneamente anulado, antes mesmo de a bola rolar, fomos vitimados pela Covid-19 que tirou quatro jogadores do elenco e deixou longe da casamata o técnico Renato. Fomos impedidos de treinar no meio da semana. Tivemos deslocamento extra com a transferência do jogo de Quito, no Equador, para Assunção, no Paraguai. E mais uma série de jogadores afastados por lesões — sequelas da temporada passada que se encerrou somente neste ano.

Em campo, via-se claramente um time sofrido pelas ocorrências e disposto a resistir. E o fez muito bem até o fim do primeiro tempo quando, como disse, deveria ter saído para o vestiários com 2 a 0 no placar. Enquanto lá na frente Diego Souza foi preciso na finalização para marcar o primeiro gol de cabeça, em raro lance de ataque; Brenno se expressou com segurança lá atrás nas várias bolas disparadas contra o nosso gol.

Foi no segundo tempo que o revés se construiu. Faltaram pernas e posicionamento para segurar a velocidade e toque de bola do adversário que virou o placar — mas não o suficiente para nos tirar da disputa. Resistimos às nossas limitações, aos problemas físicos, a expulsão de um dos nossos zagueiros e a superioridade do time equatoriano. Além de ter um a menos em campo, terminamos a partida sem o principal atacante, com um zagueiro improvisado na lateral direita e um lateral esquerdo improvisado na zaga. Tínhamos ainda um goleiro e um homem de frente com problemas físicos.

Sobrevivemos. E quem conhece a relação do Grêmio com a Libertadores sabe que isso costuma ser fatal para o adversário. Quarta-feira que vem voltaremos à Arena para confirmar nossa presença na Libertadores.

Avalanche Tricolor: quero ver o WhatsApp do Teco bombando neste ano

Grêmio 6×1 Ayacucho

Libertadores – Arena Grêmio, POA/RS

Diego Souza em foto de Lucas Uebel/Grêmio FBPA

“Vai dormir” foi a resposta de meu amigo Luiz Gustavo Medina, o Teco, à terceira imagem de Diego Souza que enviei para ele pelo WhatsApp, nesta noite de quarta-feira. Claro que não fui. A começar pelo fato de que sequer nos piores momentos da nossa equipe dormi antes do apito final. É questão de honra acompanhar meu time até o fim

Jamais fui torcedor modinha — aquele que só aparece na hora do bem bom. Sofro, choro e me despedaço, seja qual for o resultado. Sou torcedor de todas as horas. Imagine se não o serei diante de uma goleada como a que marcou nossa estreia na Libertadores 2021. Fiquei acordado até o minuto final —- no caso, até os cinco minutos extras finais, assim determinados pelo árbitro da partida.

Você, caro e raro leitor desta Avalanche, deve estar se perguntando: o que o Teco tem a ver com isso? Eu explico. Desde que soube que o filho dele, o Gu, o mais jovem e o que mais números de gols marcou na família, era fã de Diego Souza, adotei o hábito de enviar pelo WhatsApp uma imagem de nosso atacante sempre que ele marcasse um gol com a camisa do Grêmio. Na temporada 2020, que se encerrou domingo passado, em pleno março de 2021, foram 28 ou 29, se não me falha a memória (confirma aí PVC).

Hoje, mandei a primeira imagem na cobrança de pênalti. A segunda, em uma bola que Diego Souza finalizou após atropelar os marcadores. E a terceira, já no segundo tempo, resultado da força e talento para concluir nas redes.  Foi após esse último gol que Teco me mandou para cama. Claro que não fui. Jamais desperdiçaria essa oportunidade de assistir ao Grêmio golear seu adversário. Nesta noite, repetimos o mesmo placar da maior goleada que havíamos alcançado, em Libertadores — contra o Universidad Los Andes, da Venezuela, em 1984.

Confesso que fiquei cabreiro com a forma como ele comemorou cada um dos gols. Acostumado a vê-lo dançando dentro das redes, me pareceu comedido. Quase como se estivesse ali fazendo apenas a sua obrigação. Como se o resultado nada representasse aos gremistas, afinal estamos acostumados mesmo a começar na fase de grupos da Libertadores e não nesta tal pré-Libertadores. Fiquei mais tranquilo quando o vi, no fim do jogo, pedindo a bola da partida para levar para a casa. Foi sinal claro da importância que Diego Souza deu ao seu desempenho — e a de seu time — afinal marcar três gols em jogos de Libertadores é pouco. Fazer 6 a 1, é ainda mais raro.

Além de Diego, marcaram David Braz — da velha guarda —, Ferreirinha e Gui Azevedo — dos novos talentos. Tivemos, também, excelente presença em campo de Pinares, o chileno que começa a ganhar espaço na equipe principal com passes precisos e uma entrega de causar orgulho na gente gremista.

Independentemente da qualidade do adversário, é animador começar com uma goleada a temporada 2021. E, a persistirem o sintoma, o WhatsApp do Teco vai bombar neste ano.

Avalanche Tricolor: uma carta ao Greg

Santos 4×1 Grêmio

Libertadores — Vila Belmiro, Santos/SP

Thaciano comemora o único gol do Grêmio, em foto de Lucas Uebel/Grêmio FBPA

 

Greg,

Há três anos, nesta mesma data, estávamos juntos a caminho do Zayed Sports City, em Abu Dhabi. Em algumas horas, disputaríamos a final do Mundial de Clubes contra o Real Madrid. Em um momento daquela caminhada, diminuí o passo e você e o Lô seguiram firme em direção ao estádio. Ver os dois vestindo a camisa tricolor com o nome do vovô às costas, em uma homenagem àquele que nos colocou nesta jornada mas que já não tinha mais condições de estar ao nosso lado naquela aventura, foi uma das mais belas imagens que o Grêmio me proporcionou em todos esses anos em que sou um fanático torcedor.

Você e o mano, lado a lado, felizes pela oportunidade que nos foi proporcionada de disputar uma final de Mundial —- mesmo admitindo a superioridade do rico futebol europeu —-, foram o meu troféu. Qualquer que fosse o resultado daquele partida, eu já me sentia vitorioso e recompensado por todos os tempos de sofrimento que enfrentei na minha infância e adolescência. Imagine que só soube o que era ser campeão, quando já estava com 14 anos, e o título que conquistei naqueles tempos era um Estadual — igual a esse que ganhamos em 2020. A primeira taça nacional só venho quando estava com 18 anos. E as duas primeiras internacionais, aos 20 anos.

Nesta noite de quarta-feira, em que desperdiçamos a oportunidade de estar em outra semifinal da Libertadores, mais do que para o jogo, perdido nos primeiro segundos, olhei para você ao meu lado, no sofá e diante da televisão. Pode parecer estranho o que vou dizer. Ver sua reação, seu incômodo frente a malemolência da nossa marcação, esbravejando pela bola perdida, maldizendo o jogador que errou o passe, o chute, o escanteio, o cabeceio, o bote … tudo isso me fez sentir uma ponta de alegria. Orgulho. Não pelo time. Por você.

Hoje, você, Greg, me fez reviver o Miltinho das arquibancadas de cimento que seguia para o Olímpico de mãos dadas com o pai — o vovô. Que mesmo ciente do tamanho e da impossibilidade de vencer o desafio que se avizinhava, caminhava com convicção para o campo. Que vibrava a cada lance, apesar dos pesares. Que ficava a espera do milagre, mesmo sabendo que o que precisava era de um futebol mais bem jogado. Que suava a camisa de nervoso. Que molhava a camisa de tanto chorar. Que era consolado por amigos, pelo pai —- o vovô —-, pelo técnico e até por jogadores no vestiário. Em seu benefício e antes que seus amigos leiam esta Avalanche, registro que você não chegou a chorar como eu, mas sofreu tanto quanto.

Posso lhe garantir: aqueles eram tempos bem mais difíceis. Hoje, o Grêmio só se dá o direito de perder como perdeu —- diante de um grande time de futebol —-, porque se credenciou e se acostumou a disputar finais das principais competições nacionais e internacionais. Foi assim ano passado na semi; foi assim agora nas quartas da Libertadores. E muitas outras vezes sofreremos juntos pelo revés alcançado, porque não nos contentamos com posições intermediárias. Queremos sempre estar no topo. Com os vencedores. Entre os maiores do Brasil, da América e do Mundo.

E se queremos sempre mais e mais, saiba que é preciso apanhar, sofrer, errar, encarar a derrota … chorar se preciso —- eu choro agora enquanto escrevo. E amanhã acordar, juntar os trapos, ser resiliente à corneta do inimigo e dos amigos, aguentar firme, forte e crente de que somos capazes de dar a volta por cima. Porque somos gremistas e Imortais, graças a Deus — e ao vovô.

Avalanche Tricolor: faz assim, não, que eu apaixono

Grêmio 1×1 Santos

Libertadores — Arena Grêmio

Diego Souza marca nos acréscimos, foto de Lucas Uebel/Grêmio FBPA

 

Não me faz sofrer, não! Joga, Grêmio, como tu sabes jogar. Respeita o adversário, sem desrespeitar o jeito bonito que gostamos de ti ver jogando. Segura a bola o quanto puder, vai na boa, não arrisca, mas não me faz sofrer, não Troca passe lá atrás, leva para frente, se movimenta no ataque. E chuta uma, duas, três, quantas vezes precisar para me fazer comemorar o teu gol.

Faz quanto tempo que sofremos juntos? Desde que me conheço por gente, com certeza. Então, pra que estender este sentimento por 180 minutos se tudo pode ser resolvido nos primeiros 90? Mas tu parece que gostas de me ver sofrer, não é?!? Precisa tomar um gol ainda no primeiro tempo, bobear na defesa, errar passe no meio mais do que o normal, ameaçar uma expulsão no ataque e levar um, dois, três sustos na sequência. 

Deixa pra resolver tudo depois. Nos acréscimos. Na partida de volta. Como foi ano passado nas quartas-de-final. Como tantas outras vezes nessa nossa longa convivência. Nem posso reclamar muito, porque hoje ainda te saístes bem com o gol de pênalti, além da hora. Ah, isso, também. Já que era para empatar tinha que ser desse jeito, né?!? Sofre-se porque o árbitro não enxergou a irregularidade. Sofre-se porque o VAR demora para convencê-lo da penalidade. Sofre-se porque é pênalti, e, neste ano, convenhamos, não tem sido o melhor caminho para chegarmos ao gol. 

Parece até que tu sabes que por mais que eu te peça “não me faças sofrer”, foi assim que fui forjado na tua torcida. Foi padecendo na arquibancada de cimento e nas cadeiras de ferro frio do Olímpico. Foi ao lado do radinho de pilha, lá na Saldanha. Foi diante da TV —-  como nesta noite de quarta-feira. Foi na sofrência de cada lance mal lançado, de cada bola desperdiçada e de resultados impossíveis alcançados. No gol marcado no minuto final, que me faz acreditar mais uma vez na volta por cima. Parece até que tu saber que foi assim que me apaixonei por ti. 

Avalanche Tricolor: voando alto!

Grêmio 2×0 Guarany 

Libertadores — Arena Grêmio

Rodrigues comemora e Renato sorri em foto de Lucas Uebel/GrêmioFBPA

 

A classificação do Grêmio a mais uma quarta de final da Libertadores começou a ser construída lá no Chaco e se materializou no Humaitá. Do Paraguaia trouxemos o resultado. E, em Porto Alegre, sacramentamos a classificação com um gol logo cedo, que o auxiliar tentou impedir, mas acabou confirmado no ‘photochart’ —- é assim que chamam o dispositivo eletrônico que determina diferenças milimétricas entre os cavalos na linha de chegada da corrida e passou a ser usado no futebol com o advento do VAR.

Ferreirinha ganhou a posição na reta final: 15 minutos antes  de a partida se iniciar foi alçado a titular para substituir Luis Fernando que se machucou no aquecimento. Em menos de três minutos de bola rodando, na correria, já apareceu na cara do gol para completar a jogada que se iniciou com toque de calcanhar de Pepê, um passe preciso de Jean Pyerre e um cruzamento irretocável de Cortez. 

Quem também encontrou fôlego para correr até o fim foi Rodrigues, nosso zagueiro que surpreende a cada partida em que é chamado para substituir um dos dois insubstituíveis da nossa zaga: Geromel e Kannemann. Costuma resolver bem as coisas lá atrás. Atrapalha-se às vezes na própria juventude. Tem 23 anos e precisa rodar muito para chegar próximo a seu ídolo — sim, ele já declarou ser fã de Geromel. A seu favor, tem o atrevimento.

Ele já havia feito um dos gols que nos colocaram no topo da tabela de classificação na fase de grupos da Libertadores, quando vencemos por 2 a 0 o Universidad Católica —- foi o primeiro gol dele como profissional. O guri gosta de uma Libertadores que vou te contar. Saiu como titular nesta noite porque Renato poupou Geromel, e Kannemann ainda está em fase de recuperação. Fez bem o papel que lhe cabia na defesa e arriscou algumas saídas de bola. Aos sete minutos de acréscimo disparou no contra-ataque ao lado de Diego Souza que o presenteou com mais uma assistência.

Enquanto Rodrigues comemorava fazendo cara de mau para as câmeras, Renato sorria alto e forte ao lado do gramado. O Grêmio está invicto há 15 partidas, das quais venceu 12, se aproximou do topo da tabela de classificação do Brasileiro, chegou à semifinal da Copa do Brasil e às quartas de final da Libertadores. Seu time não está correndo, não. Está voando alto!

Avalanche Tricolor: vitória no Chaco e homenagem a Maradona

Guarany 0x2 Grêmio

Libertadores

Defensores del Chaco, Assunção/Paraguai

 

Foto de Lucas Uebel/Grêmio FBPA

 

Na Guerra do Chaco, os paraguaios enfrentaram bolivianos e 100 mil caíram mortos dos dois lados. Batizado com nome histórico, o estádio, palco da partida desta noite, também foi protagonista naquela batalha, abrigando soldados recém-recrutados e prisioneiros inimigos. O tempo se foi, a mística ficou. Naquele gramado foram decididas ao menos dez Libertadores, além de disputas acirradas terem sido travadas entre adversários sul-americanos. 

De nome bélico e histórico futebolístico semelhante, o estádio quase sempre foi cenário de bons resultados para o Grêmio — talvez porque nossa saga guerreira  e imortal esteja sintonizada com aquele ambiente. A conquista do Tricampeonato da Libertadores passou por lá quando jogamos com um time reserva para empatar com o mesmo adversário desta noite, em 2017. Ano passado, ganhamos duas vezes de outro time local.

Hoje, mantivemos a jornada vitoriosa no Chaco em uma partida que se não foi uma batalha daquelas típicas do futebol sul-americano, marcada por violência e deslealdade, foi, certamente, um jogo difícil de se vencer, mesmo que o domínio tenha sido quase todo gremista. 

Nossos guris se impuseram em campo com talento e bom futebol. Por muito pouco, no primeiro tempo, deixamos de abrir o placar. Na defesa, a presença de Geromel eliminava qualquer risco. Nossos volantes triangulavam com Jean Pyerre e lá na frente, Pepê, o Menino Maluquinho, enlouquecia os marcadores. Faltava acertar o “último passe”, como costumam dizer os boleiros e comentaristas.

No segundo tempo, curiosamente, foi quando mais sofremos — momentos em que Vanderlei se agigantou no gol, novamente. A primeira grande defesa foi daquelas de guardar no DVD, em um tiro a queima roupa que ele evitou que chegasse ao nosso gol. Na segunda, encenou uma ponte para a alegria dos fotógrafos e alívio do torcedor gremista. Não bastasse a segurança dele lá atrás, ainda ajudou a colocar o time na frente. Com duas bolas lançadas por Vanderlei, o Grêmio chegou rapidamente ao ataque, surpreendeu a marcação e fez os dois gols que nos deixam muito próximos de mais uma quarta de final da Libertadores.

No primeiro, Pepê, de tão veloz, deixou o marcador com a  cara no chão e Jean Pyerre, de tão técnico, paralisou o goleiro, que teve apenas a oportunidade assistir à bola entrando no fundo do poço, sem se mexer. No segundo, Churín lutou pelo alto e na sobra de bola e com a cabeça conseguiu colocar Pepê na frente do goleiro. A categoria de nosso guri completou para as redes.

A vitória nos dá tranquilidade para o segundo jogo, na Arena. E mostra que o time está amadurecendo no momento certo —- mérito de Renato Portaluppi que completou 383 partidas como técnico do Grêmio, igualando o recorde de Oswaldo Rolla. Nosso treinador, além de deixar sua marca no time, também foi destaque ao lado do campo: vestiu a  camisa 10 da Argentina para homenagear outro craque e seu amigo, Diego Armando Maradona, que se fosse brasileiro jogaria no Grêmio — duvida? Eu não!

Avalanche Tricolor: só pode ser coisa dos deuses do futebol

Grêmio 1×1 America de Cali

Libertadores — Arena Grêmio

A festa do gol em foto de LUCASUEBEL/GRÊMIOFBPA

 

Foi sofrido, não foi? Não que nunca seja. Sempre é. 

Sofremos menos porque a bola não entrou ou por algum risco na classificação —- que não havia até porque uma das duas vagas já era nossa. 

Sofremos mais porque o futebol não encaixou como gostaríamos. Quer dizer …, até se ajeitou naqueles primeiros minutos do segundo tempo, depois da conversa de Renato no vestiário e as primeira mudanças do meio para a frente. Em pouco tempo vimos um time mais móvel, toque de bola mais veloz e chegada na área do adversário —- a ponto de termos provocado um pênalti a nosso favor,

Dali pra frente, foi aquilo que você viu. Erramos o quinto pênalti em oito até então cobrados na temporada. Tomamos o contra-ataque e, em uma bola na qual o atacante adversário sequer pulou, nosso zagueiro desviou para as redes. Santa infelicidade de Kannemann que já havia tomado um amarelo no primeiro tempo, fez um gol contra e levou o segundo  amarelo já nos acréscimos, sendo expulso de campo e suspenso da próxima partida das oitavas-de-final.

Nada mais funcionava e quanto mais velocidade se tentava dar ao jogo, mais rapidamente cometíamos erros. Até mesmo Pepê, sempre uma saída de escape quando a coisa está feia, era incapaz de reter a bola em seus pés. Chegou a tropeçar nela —- coisa rara desde que assumiu a titularidade do time. 

Renato esbravejava, bufava, sentava e levantava irritado com o que via. Olhava para o céu como se pedisse uma ajuda dos deuses do futebol. Olhava como se perguntasse: o que eu fiz para merecer isso? Mudou quem tinha para mudar e parecia que nada daria certo nesta noite de quinta-feira.

Nas redes sociais a corneta tocava alto. Para muitos dos corneteiros os réus tinham sido julgados e considerados culpados, sem direito de defesa. Sem refletirmos pelo passado que nos trouxe até aqui. 

Só faltava o co-irmão vencer o jogo lá fora, a gente ficar em segundo no grupo e no sorteio pegar um daqueles adversários encrenqueiros! Fecha tudo! Bota todos para fora! Começa tudo de novo! Derrube-se a estátua na esplanada da Arena. Quem contratou esses pernas de pau? Impeachment já!

A bola, o adversário e o árbitro conspiravam contra. O anti-jogo, coisa da Libertadores, como costumam dizer, reinava no gramado. O risco de perdemos mais jogadores para a próxima etapa só aumentava com os nervos a flor da pele. 

Foi então que uma luz se fez. Sei lá de onde. Só pode ser coisa do divino que veio para inocentar os pecadores. Não bastasse nos dar de mãos beijadas o primeiro lugar no grupo com a derrota do adversário direto pela liderança na outra partida, ainda nos ofereceu a benção de mais um pênalti com quase dez minutos de acréscimo. Tinha de ser um pênalti.

Diego Souza ajeitou a bola, correu, parou, dançou, balançou e nosso coração paralisou. Quando bateu em gol, o goleiro adversário já estava caído de joelhos. E de joelhos ficamos nós, agradecendo aos deuses pela justiça que se faz a história de Renato e deste time que não anda em boa fase, mas que mesmo assim termina em primeiro lugar em seu grupo.

Os deuses decidiram nos dar mais uma chance. Saibamos aproveitá-la! Renato saberá!

Avalanche Tricolor: prazer, Antônio Josenildo Rodrigues de Olivera do Grêmio!

Grêmio 2×0 Universidad Católica

Libertadores — Arena Grêmio

A festa de Rodrigues na foto de LUCAS UEBEL/GRÊMIO FBPA

 

A notícia de que Geromel e Kannemann foram abatidos pela Covid-19 ecoou nas arquibancadas vazias da Arena do Grêmio e fez correr um frio na espinha do torcedor, momentos antes de a partida pela Libertadores se iniciar. Nós sabemos o que essa dupla representa no futebol sul-americano — no do Sul, então, nem se fala. Tricolores, incrédulos e crentes, olharam para o céu a se perguntar: o que acontece com o meu time? Os resultados não saem como gostaríamos (sim, nesta hora ninguém, lembra da vitória no Gre-nal), o futebol não rola a bola com o talento que conhecemos, jogadores importantes se lesionam e quando mais precisamos da nossa dupla imbatível vem esta peste fazer com nossos zagueiros o que os adversários não foram capazes.

Renato —- que conhece o grupo como ninguém —- apostou na dupla Rodrigues e David Braz para substituir os insubstituíveis. Braz é experiente, conhece os atalhos no campo, e leva o jogo na conversa. Apesar de nem sempre estar no lugar que gostaríamos quando a bola é cruzada na nossa área, gosto de vê-lo comemorando com os punhos cerrados sempre que a despacha para longe de nosso gol. Rodrigues é uma incógnita. Ou era. Foi elevado ao time titular em maio do ano passado, no Campeonato Brasileiro, em situação de emergência. Recomendação que ouviu do técnico: joga simples. 

Há duas semanas, Rodrigues e Braz tinham feito uma atuação desastrada na derrota para o Universidad Católica, em Santiago do Chile. Braz saiu jogando no lugar de Kannemann e foi expulso; Rodrigues substituiu Geromel, que se lesionou durante a partida, e os dois gols do adversário passaram por ele. Assim que a escalação foi confirmada com a dupla de zagueiros, tive a impressão de ter visto os corneteiros de plantão afinarem seus instrumentos, prontos para fazê-los soar alto e forte.

Foi nesse clima que entramos na Arena para a partida decisiva na temporada —- isso mesmo, da temporada, não apenas na Libertadores. Nossos jogadores davam sinais de que desconfiavam de sua força e revelavam o sofrimento pela pressão dos desempenhos anteriores. Por mais que o DJ elevasse o som da torcida, a bola queimava no pé de cada um deles. Quando era cruzada na nossa área, contávamos mais com a sorte do que com o juízo. 

Antes de o intervalo chegar, equilibramos o jogo; mas foi no vestiário que Renato ajustou as peças e convenceu a equipe de que em campo a nossa imortalidade tem de falar mais alto. Em dois minutos uma movimentação pela direita de Orejuela, Alisson e Robinho fez a bola chegar pelo alto para Diego Souza desviar e deixar Pepê em condições de marcar. Gol de Pepê, o Menino Maluquinho do Grêmio.

Maluquice mesmo foi o que vimos mais à frente.

O zagueiro que estreou no Grêmio com a recomendação ‘faça simples’ desembestou e complicou a vida do adversário. Na primeira arrancada, ergueu a cabeça, passou para Pepê e foi completar a jogada dentro da área — o goleiro defendeu. Na segunda, aos 17 minutos do segundo tempo, novamente foi ele quem levou o time ao contra-ataque, passou para Alisson, que deu uma meia-lua de cinema no defensor e entregou de bandeja para o nosso zagueiro concluir em gol. Gol de Rodrigues, o Tonhão do Grêmio.

Antônio Josenildo Rodrigues de Oliveira nasceu em Arez, no Rio Grande do Norte. Grandalhão, logo ganhou o apelido de todos os Antônios de estatura alta: Tonhão. E como Tonhão chegou ao Grêmio, em 2017, disposto a escrever sua própria história. Para escapar do estigma de zagueiro grosso e sem talento, assumiu o sobrenome da mãe e deu uma incrementada: incluiu o Z no final de Rodriguez, quase tão espanhol quanto Kannemann, apesar de ser fã mesmo de Geromel.

Da mesma forma que buscava o melhor nome para ser considerado, se esforçava em campo para se manter entre os profissionais. Desde que estreou sempre foi visto com ressalvas pelo torcedor.  Tinha muito mais cara de Tonhão do que de Rodrigues —- já com o S recuperado em mais uma tentativa de ser protagonista em campo.  

A poucos dias de completar 23 anos —- nasceu em 10 de outubro de 1997 —, Tonhão, ou melhor Rodriguez, digo Rodrigues, colocou o seu nome na privilegiada lista de jogadores que marcaram gols em Libertadores com a camisa do Grêmio — e sem medo do azar, vestindo a camisa 13 (da qual sou um admirador em particular).

Foi o primeiro dele desde que chegou aos profissionais. E não poderia ter sido mais importante. Porque o gol de Tonhão, ops, Rodrigues, colocou o Grêmio na próxima fase da Libertadores tanto quanto mostrou a resiliência de Renato e sua equipe. Um grupo capaz de superar as adversidades, driblar seus limites, aguentar firme as cornetas e se mostrar forte no momento em que mais precisamos na competição. 

Rodrigues é a cara do Grêmio!

Avalanche Tricolor: Fora Renato!

Inter 0x1 Grêmio

Libertadores — Beira Rio, Porto Alegre/RS

Renato cumprimenta Pepê Foto: LUCASUEBEL/GRÊMIOFBPA

 

Vai Renato! 

Vai embora! 

Vai comemorar mais esta conquista na tua história. 

Dez Grenais sem perder não é para qualquer um.

 

Vai festejar com os amigos.

Vai abraçar teus pupilos.

Vai pro abraço porque tu és o cara.

Vai montar bem um time assim lá pras bandas do Humaitá.

 

Vai pra praia jogar futevôlei.

Vai pra rede se deitar.

Vai descansar pra preguiçar passar. 

(eles não te chamam de preguiçoso?!?)

 

Vai Renato!

Vai embora

Porque tá perdendo a graça jogar Gre-nal.

 

Vai tirar onda dos que te criticaram.

Vai ver a turma engolindo o que disse.

Vai rir da cara dos que gritaram: 

Fora Renato!

 

Vai, vai ser Renato para sempre no coração de quem é tricolor.