Avalanche Tricolor: incontestável, meninos

 

Flamengo 5×0 Grêmio
Libertadores — Maracanã, RJ

 

Gremio x Flamengo

Everton em foto de LUCASUEBEL/GRÊMIOFBPA

 

Meninos,

 

Vocês nunca viveram o que vivi. Não sabem o que foram os anos na fila sem um só campeonato para comemorar. Em uma época em que os campeonatos se limitavam a um só —- ao estadual. Nosso horizonte não se estendia além da fronteira do Rio Grande. Era ser campeão gaúcho ou não se era nada.

 

O pai passou por longos e intermináveis anos sem um só título. Sofrendo no cimento do Olímpico. Amargando o sabor da sequência de derrotas. Chorando no ombro do vô. Era ele quem me abraçava, passava a mão no cabelo molhado pelo suor, beijava minha testa e sempre tinha uma palavra de consolo. Sempre era capaz de me estimular a acreditar que no ano que vem seria diferente. Foi um ano, foram dois, três, quatro …. oito anos sem qualquer motivo para comemorar.

 

Nas manhãs após a derrota, eu acordava e pedia para a mãe para não ir a aula. Alegava uma dor no estômago. Uma indisposição qualquer. Ela, solidária, me mandava de volta para a cama com olhar de compaixão. Compreendia que a dor era no coração. Um coração apaixonado e forjado no sofrimento.

 

Vocês, meninos, nunca viveram o que vivi.

 

Quando apresentei o Grêmio a vocês já não cabíamos mais no Rio Grande. Havíamos conquistado o Brasil, a América e o Mundo. Verdade que o primeiro título que festejamos lado a lado foi aquele da Batalha dos Aflitos —- mesmo assim vocês só se aprochegaram ao time no momento mais épico da temporada. Não tiveram a amargura de ver nossa camisa nos campos da Segunda Divisão.

 

Vocês, meninos, descobriram o Grêmio quando a Imortalidade já havia migrado do hino para a nossa história, com vitórias incríveis, impossíveis. Por isso, não devem ter entendido bem o que aconteceu nessa quarta-feira, no Maracanã, especialmente depois dessa sequência de anos em que nos acostumamos a dar a volta olímpica, levantar troféus e comemorar títulos após títulos. Como é possível perder de forma tão acachapante como nesta semifinal? —- imagino que seja o que passa na cabeça de vocês nesta noite quando me olham em silêncio. Respeitosamente.

 

Meninos, vocês não viveram o que eu vivi.

 

E por viver o que eu vivi, posso lhes dizer com toda a segurança que o resultado desta noite foi a vitória de uma equipe que soube ser superior —- muito superior —-, que investiu muito mais do que qualquer um dos seus adversários, que se estruturou para chegar onde chegou, que pensou grande e jogou como os grandes. Uma equipe que merece nosso aplauso pelo que faz.

 

A superioridade neste momento é incontestável, meninos. E reconhecer essa superioridade é necessário, por mais dolorosa que uma derrota como esta possa ser para cada um de nós —- para o pai principalmente, né!

 

Agora, se tudo que vivi com o Grêmio até hoje realmente valeu a pena — seja vibrando, seja sofrendo, seja chorando —- é porque aprendemos no revés, identificamos as falhas, soubemos levantar a cabeça, corrigimos os erros e fomos resilientes ao enfrentar os piores de nossos momentos. E assim será mais uma vez, tenho certeza — mesmo que hoje eu esteja me sentindo como aquele menino, lá dos tempos de Porto Alegre, com vontade de pedir licença para a mãe para não sair da cama e esperar a dor passar. 

 

Avalanche Tricolor: acabou o faz de conta

 

Fortaleza 2×1 Grêmio
Brasileiro — Arena Castelão, Fortaleza/CE

 

GRÊMIO x FORTALEZA

 

Lá se foram quase três semanas em que fizemos de conta que estávamos mesmo preocupados com o Campeonato Brasileiro. Comemoramos uma goleada, festejamos a aproximação do G4, desdenhamos de um empate e desgraçamos alguns dos nossos em duas derrotas. Criticamos bolas mal divididas, passes curtos demais, a demora para chegar na marcação e os gols desperdiçados. Cruzamos os dedos para que nenhuma lesão ocorresse e pedimos aos céus para que os lesionados se recuperassem.

 

Reclamamos do juiz e do VAR como se os erros deles mudassem nosso destino nesta temporada. Maldizemos os adversários apenas porque fizeram sua parte —- sem entender que eles não tem outra coisa a fazer neste ano do que jogar toda sua sorte e suor no Brasileiro.

 

Fizemos até projeções para a quarta-feira que vem com base no que assistimos em campo nesses dias todos —- como se não soubéssemos que uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa. Arriscamos falar em mudança de posicionamento, troca de jogadores e experiências nunca antes experimentadas na esperança de que algo mágico seja capaz de nos garantir a classificação à final da Libertadores.

 

Passamos todo esse tempo entre uma decisão e outra com conversas diversionistas, enganando a si próprio, neste jogo de faz de conta apenas para disfarçar a tensão diante do que realmente nos interessa. E o que nos interessa é a Libertadores. É a decisão desse meio de semana que pode nos colocar em uma final inédita de jogo único, disputada em campo neutro contra um argentino qualquer que se capacite a chegar até lá, também.

 

Nada do que aconteceu nesses dias que se passaram foi suficientemente significativo para nos dar a resposta que buscamos e o resultado que almejamos. Acreditar que o intervalo entre as duas decisões seria definitivo é não entender a maneira de ser do Grêmio. Não lembrar do que já fomos capazes de fazer nesta mesma temporada.

 

Refresque sua memória. Pense nos prognósticos da fase de grupos da Libertadores quando emendamos um tropeço atrás do outro e muita gente já nos considerava carta fora do baralho. Em três jogos, apenas um ponto. Nos três seguintes, três vitórias e a classificação. Nas oitavas até que foi fácil, com um 5 a 0 contra o Libertad, no placar agregado. Nas quartas, porém, perdemos em casa, e na casa do adversário saímos atrás no placar.

 

Fizemos um primeiro jogo ruim na semifinal da Libertadores, em especial no primeiro tempo. E mesmo assim, chegamos vivos e fortes para a segunda partida, graças aquele gol aos 42 minutos do segundo tempo, de Pepê —- quando mais uma vez muita gente já previa o pior.

 

Nosso desempenho até aqui não nos dá nenhuma garantia de que seremos competentes a ponto de superar nosso adversário e sua torcida. Assim como nossos resultados até agora não dão a ninguém o direito de desmerecer nossa capacidade. Quem quiser arriscar qualquer palpite que o faça por sua conta e risco. De minha parte, estarei onde sempre estive nesse tempo todo: torcendo pelo Grêmio, sempre, em qualquer circunstância e diante de qualquer adversidade! 

Avalanche Tricolor: nada está decidido

 

Grêmio 1×1 Flamengo
Libertadores — Arena Grêmio, Porto Alegre/RS

 

Gremio x Flamengo

Pepê comemora gol que nos mantém na luta, em foto de LUCASUEBEL/GRÊMIOFBPA

 

O caro e raro leitor desta Avalanche talvez não perceba, mas o título que se destaca no alto deste post é o mesmo da Avalanche escrita em 21 de agosto, quando iniciávamos a disputa por um vaga à semi
final da Libertadores.

 

Você haverá de lembrar que, assim como hoje, fizemos o primeiro jogo em casa, diante de nossa torcida e contra o time considerado sensação do Brasil naquele momento. Um time com grandes nomes e um técnico de primeira, que conhecia como poucos a história do Grêmio.

 

E não sei como anda sua memória, mas registro que naquela oportunidade deixamos o gramado com o placar adverso. Não bastasse ter tomado um gol em casa —- o tal gol qualificado que prevalece na Libertadores —-, ainda tivemos a infelicidade, mesmo sendo superior no segundo tempo, de não marcar nenhum.

 

Apesar de todas as desvantagens, o que aconteceu na partida de volta você ainda lembra: o Grêmio foi a São Paulo, encarou um estádio lotado e fervilhante, venceu e se qualificou para a semi-final da Libertadores, driblando as expectativas de comentaristas, adversários e até de alguns dos nossos torcedores.

 

Se reproduzo hoje o mesmo título daquela Avalanche, garanto-lhe que não é por falta de criatividade. Essa até nos faltou no primeiro tempo da partida desta noite quando fomos dominados pelo adversário e nos safamos de algo pior graças a tecnologia que está aí para isso mesmo: impedir irregularidades em campo.

 

Recorro ao “NADA ESTÁ DECIDIDO” porque esta é a mais pura verdade nesta semifinal, especialmente após o Grêmio ter voltado a ser o Grêmio no segundo tempo da partida —- obra de total responsabilidade de Renato que no vestiário soube colocar o time no seu devido patamar, ajeitou as peças, redistribuiu funções e impôs marcação mais forte com a participação de todos os jogadores, inclusive os do ataque que tinham passado a maior parte do primeiro tempo isolados na frente.

 

Não bastasse a conversa de vestiário, ele ainda soube recorrer às melhores peças que tinha no banco para se recuperar da desvantagem no placar. Foi Maicon, que entrou no lugar de Michel, quem teve visão para virar a jogada iniciada pela esquerda com Luan. E foi Pepê, que havia substituído Alisson, quem empurrou a bola para dentro de gol após o cruzamento de Everton. Renato voltou a ser genial.

 

Seja por Renato, seja pela capacidade de recuperação deste time, finalizo esta Avalanche com as mesmas palavras que encerrei aquela de agosto quando estávamos apenas iniciando a caminha para a semifinal da Libertadores:

 

“Nada está decidido. E se alguém acreditar que está, cuidado. Melhor não subestimar nossa imortalidade”.

Avalanche Tricolor: obrigado, pai!

 

Palmeiras 1×2 Grêmio
Libertadores — Pacaembu-SP

 

 

Gremio x Palmeiras

Everton dispara para o segundo gol em foto de LUCASUEBEL/GRÊMIOFBPA

 

Eu pedi para você, pai. Antes do jogo começar. Eu pedi para você, pai. Sabia que você não poderia estar mais ao meu lado. Mas eu pedi, pai. Sei lá por onde você andava. Mas quis acreditar que você estava por aí. Em algum lugar qualquer. Prestes a me ouvir. Perto de mim, mesmo que em uma distância eterna. Uma distância que ainda me faz sofrer, sentir dor no coração. Uma dor que amanhã completará um mês.

 

Mas eu precisava que você estivesse comigo em mais essa, pai. Você nunca me faltou quando precisei. Me incentivou a não desistir jamais, mesmo quando percebia que eu não era capaz de fazer mais. Você acreditava. Você me ensinou a acreditar. E, por isso, eu pedi para você, pai: “nesta noite, me dá só essa vitória”.

 

Você sabe o que é estar sozinho por aqui. Isolado em São Paulo. Ouvindo desde cedo a provocação do adversário. Vendo o olhar desconfiado dos que não conhecem a nossa história. Recebendo a mensagem às vezes agressivas. Outras jocosas. Nesta noite nem os meninos estavam ao meu lado, pai.

 

Só não imaginava que você fosse me testar dessa maneira. Aquele gol contra logo no início era para ter me levado para cama mais cedo. Baixado a cabeça. Me preparado para a dureza do amanhã. Mas eu voltei a pedir a você, pai. “Você tá comigo aí, né!?!”, pensei em voz baixa enquanto o grito da vizinhança feria meus ouvidos.

 

Lembrei de quantas vezes você me abraçou nas arquibancadas do Olímpico. Enxugou minhas lágrimas. Mandou eu lavar o rosto, porque estava na hora da reviravolta. E a volta por cima se dava.

 

Demorou pouco para você me mostrar que, sim, você estava por aí. Prestes a me ajudar. Atento ao que eu pedia. Que eu não estava sozinho, não. E o primeiro sinal veio naquela bola jogada para dentro da área e escorada com a categoria de Everton. E se consumou com os dribles incríveis do mesmo Everton. E a conclusão do preciso Alisson.

 

Você não parou por aí, pai. Você se expressou em Geromel, o nosso Mito. Na raça de Kannemann, o nosso Gigante. No talento de Jean Pyerre, o Filósofo da Bola. Em cada um daqueles que vestiram a nossa camisa nesta noite, no Pacaembu, lá estava você, pai. Estava jogando para me fazer feliz, mesmo sabendo a tristeza que ainda sinto pela sua perda.

 

Pai, obrigado!

Avalanche Tricolor: nada está decidido

 

 

Grêmio 0x1 Palmeiras
Libertadores — Arena Grêmio

 

Gremio x Palmeiras

Everton em mais uma tentativa de ataque, em foto de LUCASUEBEL/GRÊMIOFBPA

 

Foi uma noite dedicada a prêmios, da qual participou a elite do empresariado brasileiro e algumas das duas maiores autoridades política e econômica do país. Coube a mim ser o Mestre de Cerimônia da entrega do Valor 1.000, premiação criada há 19 anos pelo Valor Econômico. Encontrar no palco gente que faz o Brasil andar, com seu trabalho na iniciativa privada, é sempre interessante. Saber que boa parte desta gente está na sua audiência, é gratificante.

 

Um aperto de mão aqui, um abraço acolá. Trocas de palavras amigáveis. Uma brincadeira com coisas do programa de rádio. Outra com o time de futebol. E a noite foi se estendendo. As autoridades, você sabe como são, gostam de vender o seu peixe. E se esforçaram para isso. Às vezes, indo além do tempo previsto —- o que, no fim das contas, já era previsto.

 

A acompanhar-me no púlpito de apresentação a tela do telefone celular que às vezes piscava para me chamar atenção para alguma informação de última hora—- aquelas notícias da política, da economia, do meio ambiente e do esporte, que costumam dominar sites e jornais, programas de TV e de rádio.

 

Foram por esses alertas que me foi contada a história do jogo desta noite pela Libertadores. Sem muitos detalhes, apenas com frases curtas que resumiam nossa situação. Perdemos logo cedo um dos nossos laterais. E isso deixa o lado esquerdo capenga como sabemos bem. De repente, sou informado do prejuízo maior: um gol adversário ainda no primeiro tempo.

 

Do início do segundo tempo para o fim, meu celular não parava de acender. Everton tentou. Everton driblou. Everton se esforçou. Jean Pierre, chutou. Foi falta mas o árbitro não marcou. Foi falta e expulsou. Infelizmente, só não recebi o aviso que mais esperava nesta noite. O Grêmio não marcou.

 

Imagino que muitos dos meus que assistiram ao jogo na Arena ou na televisão saíram incomodados com o resultado e alguns cabisbaixos. Sabem que o desafio na semana que vem será barra pesada, diante da torcida adversária e contra um técnico forjado na nossa casa, que merece todo nosso respeito.

 

Curiosamente, minha sensação é bem diferente — seja porque o jogo me foi contado a conta gotas seja porque a história do Grêmio já me foi ensinada há muito tempo. Cheguei agora há pouco em casa e ainda tirei tempo para escrever essa Avalanche, apesar do adiantado da hora, com a tranquilidade de quem conhece nossas façanhas. E sabe que estamos capacitados a buscar o melhor resultado contra tudo e contra todos.

 

Nada está decidido. E se alguém acreditar que está, cuidado. Melhor não subestimar nossa imortalidade.  

Avalanche Tricolor: um jogo para reescrever a história dessa Libertadores

 

Grêmio 2 x 0 Libertad
Libertadores — Arena Grêmio

 

Gremio x Libertad

Geromel em lance flagrado por LUCASUEBEL/GRÊMIOFBPA

 

 

Há coisas que marcam toda uma campanha. Que fazem a diferença. Que mudam um destino. A expulsão de Geromel foi uma dessas. Nosso Mito se foi e por ele muita gente deve ter baixado a cabeça, dado as costas ao jogo e desistido de lutar.

 

O Grêmio, não! O Grêmio jamais desiste.

 

Nesta mesma Libertadores já houve quem tenha apostado na nossa desclassificação. Traçado o pior dos cenários. Como se não soubesse dos Aflitos, das Batalhas e das histórias heróicas que marcaram nossa trajetória.

 

O Grêmio sempre acreditou!

 

Com um a menos em campo, o Grêmio não recuou. Kannemann e Matheus Henrique se desdobraram em campo. E com eles todo o restante do time se multiplicou. Cada um valia por dois. Solidários, ninguém deixava um só espaço do campo livre para o adversário atacar.

 

O Grêmio se superou!

 

Sem nosso Mito, coube a Renato mitar. Tirou André e colocou David Braz. Tirou Jean Pyerre e colocou Diego Tardelli. E seus pupilos fizeram história no segundo tempo.  

 

O Grêmio é copeiro!

 

Sem medo de jogar, manteve o controle da bola, arriscou dribles e escapadas. Foi em uma delas que conseguimos o escanteio que deu início ao primeiro gol, de Tardelli. Foi em outra, que conseguimos a falta que nos levou ao segundo, de Braz.

 

O Grêmio se agigantou!

 

Com a dupla vantagem no placar e de olho no regulamento, sabia que sair de campo sem levar gol era fundamental. E lutou como um gigante atrás de cada bola que se aproximava de nossa área. Na rara chance de gol do adversário, Paulo Victor foi ágil para impedir qualquer prejuízo — ciente de que era mais um protagonista daquela incrível história que estávamos reescrevendo. 

 

O Grêmio é Imortal!

 

 

 

 

Avalanche Tricolor: a capacidade de levar fé onde houver dúvida

 

Grêmio 2×0 Universidad Católica
Libertadores — Arena Grêmio

 

Gremio x Universidad Catolica

A festa com os torcedores em foto de LUCASUEBEL/GRÊMIOFBPA

 

Há pouco mais de um mês saímos de campo derrotados, no Chile, pelo mesmo adversário desta noite. Um derrota pesada, pois fechava o primeiro turno da fase de classificação muito aquém da nossa expectativa. Era o terceiro jogo e somávamos um só ponto na tabela, conquistado apenas na primeira rodada. Já havíamos registrado até uma derrota dentro da Arena. E a combinação de resultados com os demais concorrentes às duas vagas da chave era desfavorável.

 

Nas reportagens havia lamento; na troca de olhar de alguns torcedores, desconfiança; nas mensagens que recebia de amigos, um tom de deboche; e nas palavras da crítica esportiva, muitas críticas. Os estatísticos remexiam nos números e na história para revelar que ninguém, ou quase ninguém, havia se recuperado de campanha tão pífia em uma largada de Libertadores.

 

Incrédulos! Parece que não conhecem a história que nos fez Imortal. Parece que esqueceram de nossas façanhas. E até hoje não entenderam que se há uma só esperança, nela nos agarraremos. Por ela lutaremos.

 

E aí de quem duvidar dessa nossa capacidade: será driblado como são driblados os marcadores de Everton; será desarmado como são desarmados todos que se atrevem a enfrentar Geromel e Kannemann.

 

Escrevo hoje com a tranquilidade de quem nunca desacreditou. E registrou em palavras essa crença. Sim, releia a Avalanche daquela noite de 5 de maio e procure nas linhas e entrelinhas qualquer desespero ou desesperança deste escrevinhador.

 

Mesmo diante daquele cenário, mesmo consciente do que estava acontecendo, mesmo sabendo que não tínhamos feito o combinado até então, jamais pensei em desistir. Inspirado na fala de Everton ao fim daquele jogo, que lembrou que a partir daquele momento “era vida ou morte”, não tive dúvida em cravar no alto da Avalanche: “Se é vida ou morte então é com a gente!”.

 

E assim a história se fez mais uma vez, confirmando nosso poder de recuperação. Nossa capacidade de encontrar esperança, onde houver desespero. De levar luz onde houver treva. De levar alegria onde houver tristeza. De levar fé onde houver dúvida — e aqui me inspiro nas palavras de Padre Zezinho, em sua Oração de São Francisco.

 

A cada nova rodada, o Grêmio revelava-se. Fizemos a lição de casa, ao vencer o Rosário por 3 a 1. Desacreditamos as previsões negativas ao fazer 2 a 0 no Libertad, fora de casa. E não bastassem esses placares, os resultados paralelos conspiravam a nosso favor. Chegamos a decisão de hoje apenas precisando de um empate e diante de nossa torcida.

 

O Grêmio jogou muito sério nesta noite de quarta-feira. Sabia do tamanho de sua responsabilidade. Marcou forte e eliminou qualquer risco que o adversário pudesse apresentar. Foi pragmático sem abrir mão do talento. Mesmo sem o espetáculo de outras partidas, buscou em sua qualidade técnica a solução para a classificação.

 

O lançamento de Michel, que colocou Alisson no caminho do gol, foi magistral. O drible de Alisson, primeiro ajeitando a bola com o peito e depois desviando do goleiro, foi incrível. A entrega de Leonardo, que de marcador virou atacante, roubou a bola, foi ao fundo e cruzou para o segundo gol, foi impressionante. E a chegada veloz de Thaciano para concluir a jogada, foi fulminante.

 

Incrédulos e crentes, o Imortal voltou!

Avalanche Tricolor: carta para o meu filho

 

Libertad 0x2 Grêmio
Libertadores — Assunção/Paraguai

 

Gremio x Libertad

Everton marcou os dois gols. Foto de LUCAS UEBEL/GRÊMIOFBPA

 

Oi, Greg

 

Tudo bem por aí?

 

Tenho certeza que a experiência do outro lado do mundo vai ser incrível. Se sentir saudades da gente, não se preocupe. É da vida. Eu também já morro de saudades, mas sei que daqui a alguns meses você estará de volta. E de volta com muito mais experiência, conhecimento, amizades, maturidade e aquele sorriso bonito que você costuma dar — um sorriso que nos revitaliza.

 

Estou escrevendo para contar que aqui nas nossas bandas, o Grêmio segue provando sua imortalidade.

 

Lembra que quando você estava fazendo as malas, a coisa andava feia para o nosso lado?

 

Tinha gente até que apostava que deixaríamos a Libertadores bem antes da hora. Falavam em crise. Em queda de produção. Problemas no vestiário —- é o que dizem quando querem espalhar que o grupo de jogadores não está se entendendo.

 

Aí vencemos na rodada passada da Libertadores.

 

Mesmo assim o pessoal questionava nossa chance de seguir em frente. Fazia projeções. Combinava resultados. E olhava com desconfiança para nossa capacidade de recuperação. Gente incrédula essa, não é mesmo? Parece até que jamais ouviu falar das nossas façanhas.

 

Chegou a final do Campeonato Gaúcho e ganhamos mais uma vez.

 

Eu e você vibramos juntos as defesas do Paulo Victor tanto quanto os gols marcados nas cobranças de pênalti. Lembra?

 

Você talvez não tenha percebido, mas quando corri para dar-lhe um abraço e comemorar o título gaúcho era um abraço de despedida. Quase que querendo que você ficasse por aqui. Mas consciente que não seria justo segurá-lo, diante das oportunidades que a vida lhe oferecia.

 

Hoje à noite, sabia que você não estaria mais por aqui. Sabia que não poderia contar com meu companheiro de sofrimento e de torcida. Sabia que não teria como lhe abraçar mais uma vez.

 

Mas também sabia que o Grêmio não nos deixaria na saudade.

 

Que voltaria a ser o Grêmio que me fez cobrir seu berço com camisa tricolor quando você recém havia nascido e nós conquistávamos o bicampeonato brasileiro, em 1996. Que lhe forjou gremista na histórica Batalha dos Aflitos, em 2005. Que nos encheu de orgulho enquanto assistíamos da arquibancada à presença do Tricolor no Mundial de Clubes, nos Emirados Árabes, em 2017.

 

E foi assim, Greg, que na noite de hoje, todos aqueles momentos que curtimos lado a lado voltaram à memória.

 

Desde os primeiros momentos da partida decisiva desta noite —- sim, era decisiva porque qualquer revés nos tiraria da competição —- estava na cara que aquele Grêmio que conhecemos estava em campo. Domínio total do jogo, bola de pé em pé, passes velozes e precisos, jogadores se deslocando de um lado ao outro para confundir os marcadores e aquela turma lá de trás acabando com a partida — sem dar chance aos adversários.

 

Você não imagina a defesa salvadora que o Paulo Victor fez no segundo tempo. Você não tem ideia o que jogaram Geromel e Kannemann. Gigantes!

 

E lá no ataque?

 

Bem, lá a gente tinha o Everton. E esse você conhece bem. Nós dois —- aliás, nós três, porque o Lorenzo estava com a gente na arquibancada —- vimos o Everton fazendo aquele gol no Mundial bem na nossa frente. Lembra?

 

Hoje, aquele Everton estava de volta.

 

No primeiro gol, ainda no primeiro tempo, ele tirou os marcadores e o goleiro para dançar  — confere na internet que vale à pena.

 

No segundo gol, com a ajuda do Pepê — sim, o Renato em lugar de trancar o time na defesa, o deixou ainda mais ofensivo no segundo tempo, colocando um dos nossos guris em campo —-, Everton driblou um, trançou a bola nas pernas do outro, limpou para a direita e bateu firme, definindo a nossa vitória.

 

Fizemos 2 a 0 contra o líder do grupo, que estava invicto na Libertadores, e na casa do adversário. Fomos superiores no primeiro tempo. E insuperáveis nos segundo. Com o resultado, estamos na luta mais uma vez, a uma vitória da classificação que será decidida em casa, na rodada final.

 

Para a festa ficar completa, só faltou você. Mas fique tranquilo porque sei que você tem um desafio super legal pela frente. E nós estamos torcendo muito para que tudo de certo aí do outro lado do mundo.

 

Vai em frente, curta cada momento da sua experiência. Eu me comprometo a manter você atualizado com as coisas que acontecem por aqui. Contando as façanhas do Imortal Tricolor —- que nesta noite revelou mais uma faceta da sua imortalidade.

 

Beijos e até mais!

Avalanche Tricolor: de volta à Libertadores

 

Grêmio 3×1 Rosário Central
Libertadores – Arena Grêmio

 

Gremio x Rosario Central

Comemorando mais um gol, em foto de LUCASUEBEL/GRÊMIOFBPA

Vamos Grêmio tu és copeiro
E hoje temos que ganhar
Eu te sigo desde pequeno
Já não posso mais parar

Tu és a vida, tu és a paixão
O sentimento vai além da razão
E não importa se perder ou ganhar
O tempo inteiro eu vou te apoiar!

Cantar, cantar e cantar. É o que me resta neste resto de noite quando voltamos à Libertadores.

 

Driblamos os piores prognósticos com o talento de Everton, a elegância de Jean Pyerre e o poder de decisão de Leonardo Gomes. Tivemos Matheus Henrique, Maicon, Tardelli e André, também. E quando foi preciso lá estavam Paulo Victor, Geromel, Kannemann e Cortez.

 

Mais do que cada um deles, tivemos um time disposto a mostrar à América (e aos descrentes) que somos Imortais porque construímos essa história dentro de campo — na luta, na garra e, especialmente, no futebol muito bem jogado.

 

Uma história que acompanho desde que mal sabia assoviar os acordes de nosso hino. Porque, como diz o título da música que embala esta Avalanche, Grêmio “eu te sigo desde pequeno”. E confiarei sempre na tua redenção!

Avalanche Tricolor: se é “vida ou morte”, então é com a gente

 

Universidad Católica 1×0 Grêmio
Libertadores – Santiago do Chile

 

Gremio x Universidad Catolica

Kannemann,  o melhor do nosso time, é destaque em foto de LUCASUEBEL/GRÊMIOFBPA

 

A experiência em assistir, ao vivo,  à uma partida pelo Facebook começou muito mal — em todos os sentidos. Meus computadores da Apple me deixaram na mão.  A bola já estava rolando e em nenhum dos meus equipamentos, em nenhuma das minhas contas e em nenhum dos links que os amigos gremistas me enviaram fui capaz de ver o futebol gremista.

 

Cheguei a pensar que era uma conspiração das máquinas — logo elas que sempre haviam me tratado bem e oferecido facilidades para trabalhar e me divertir ao longo do tempo. Demorei para perceber que aqueles computadores estavam apenas querendo me alertar. Mandavam recados do tipo “não insista”, “hoje nada vai funcionar” ou “quem sabe quando a transmissão for pela televisão?”. Não entendi a mensagem. Insisti.

 

Busquei a salvação no Windows de um dos filhos. Mas quando descobri que ali estava a solução, já tínhamos quase meia hora de jogo. E, sim, o pior já havia acontecido. Não, minto. Pior mesmo foi ver o que vi na sequência. Já com a imagem tomando conta de todo o super-monitor que um dos meus guris joga seu games e disputa suas partidas virtuais, ficou muito claro que não seríamos capazes de sequer operar um milagre em campo, nesta noite de quinta-feira.

 

O atraso comum no sinal da internet — coisa de 30 segundos, não muito mais do que isso —, mesmo com uma banda larga de qualidade aqui em casa, refletia o atraso do futebol que apresentávamos. A bola chegava atrasada no pé do companheiro, o marcador chegava atrasado no atacante adversário, o passe saia para trás. 

 

Mesmo com a boa conexão que gerava uma imagem de qualidade, não fui capaz de ver o futebol gremista em campo, simplesmente porque o futebol gremista não se apresentou em campo, nesta terceira partida da Libertadores. 

 

Para ter ideia, a melhor notícia da noite foi saber que tanto nosso técnico  quanto nossos jogadores — e jamais desconfiei que agiriam diferente — saíram de campo conscientes de seus erros, em lugar de buscar desculpas naqueles elementos que geralmente os times que jogam mal se debruçam para justificar uma derrota. 

 

Foi ali, ainda ao lado do gramado, que ouvi de Everton a frase: “agora é vida ou morte”. Como sou um eterno torcedor e otimista, voltei ao meu Apple, abri a calculadora, fiz as projeções, somei três pontos aqui, mais três ali, menos três do adversário acolá, e cheguei a conclusão de que está muito difícil mas ainda temos chance nesta Libertadores. 

 

Até porque, caro e raro leitor desta Avalanche, se “agora é vida ou morte”, chegou a nossa hora. Que venham os próximos compromissos, mas , por favor, que sejam só na televisão, porque esse negócio de Facebook dá um baita azar.