Avalanche Tricolor: a capacidade de levar fé onde houver dúvida

 

Grêmio 2×0 Universidad Católica
Libertadores — Arena Grêmio

 

Gremio x Universidad Catolica

A festa com os torcedores em foto de LUCASUEBEL/GRÊMIOFBPA

 

Há pouco mais de um mês saímos de campo derrotados, no Chile, pelo mesmo adversário desta noite. Um derrota pesada, pois fechava o primeiro turno da fase de classificação muito aquém da nossa expectativa. Era o terceiro jogo e somávamos um só ponto na tabela, conquistado apenas na primeira rodada. Já havíamos registrado até uma derrota dentro da Arena. E a combinação de resultados com os demais concorrentes às duas vagas da chave era desfavorável.

 

Nas reportagens havia lamento; na troca de olhar de alguns torcedores, desconfiança; nas mensagens que recebia de amigos, um tom de deboche; e nas palavras da crítica esportiva, muitas críticas. Os estatísticos remexiam nos números e na história para revelar que ninguém, ou quase ninguém, havia se recuperado de campanha tão pífia em uma largada de Libertadores.

 

Incrédulos! Parece que não conhecem a história que nos fez Imortal. Parece que esqueceram de nossas façanhas. E até hoje não entenderam que se há uma só esperança, nela nos agarraremos. Por ela lutaremos.

 

E aí de quem duvidar dessa nossa capacidade: será driblado como são driblados os marcadores de Everton; será desarmado como são desarmados todos que se atrevem a enfrentar Geromel e Kannemann.

 

Escrevo hoje com a tranquilidade de quem nunca desacreditou. E registrou em palavras essa crença. Sim, releia a Avalanche daquela noite de 5 de maio e procure nas linhas e entrelinhas qualquer desespero ou desesperança deste escrevinhador.

 

Mesmo diante daquele cenário, mesmo consciente do que estava acontecendo, mesmo sabendo que não tínhamos feito o combinado até então, jamais pensei em desistir. Inspirado na fala de Everton ao fim daquele jogo, que lembrou que a partir daquele momento “era vida ou morte”, não tive dúvida em cravar no alto da Avalanche: “Se é vida ou morte então é com a gente!”.

 

E assim a história se fez mais uma vez, confirmando nosso poder de recuperação. Nossa capacidade de encontrar esperança, onde houver desespero. De levar luz onde houver treva. De levar alegria onde houver tristeza. De levar fé onde houver dúvida — e aqui me inspiro nas palavras de Padre Zezinho, em sua Oração de São Francisco.

 

A cada nova rodada, o Grêmio revelava-se. Fizemos a lição de casa, ao vencer o Rosário por 3 a 1. Desacreditamos as previsões negativas ao fazer 2 a 0 no Libertad, fora de casa. E não bastassem esses placares, os resultados paralelos conspiravam a nosso favor. Chegamos a decisão de hoje apenas precisando de um empate e diante de nossa torcida.

 

O Grêmio jogou muito sério nesta noite de quarta-feira. Sabia do tamanho de sua responsabilidade. Marcou forte e eliminou qualquer risco que o adversário pudesse apresentar. Foi pragmático sem abrir mão do talento. Mesmo sem o espetáculo de outras partidas, buscou em sua qualidade técnica a solução para a classificação.

 

O lançamento de Michel, que colocou Alisson no caminho do gol, foi magistral. O drible de Alisson, primeiro ajeitando a bola com o peito e depois desviando do goleiro, foi incrível. A entrega de Leonardo, que de marcador virou atacante, roubou a bola, foi ao fundo e cruzou para o segundo gol, foi impressionante. E a chegada veloz de Thaciano para concluir a jogada, foi fulminante.

 

Incrédulos e crentes, o Imortal voltou!

Avalanche Tricolor: carta para o meu filho

 

Libertad 0x2 Grêmio
Libertadores — Assunção/Paraguai

 

Gremio x Libertad

Everton marcou os dois gols. Foto de LUCAS UEBEL/GRÊMIOFBPA

 

Oi, Greg

 

Tudo bem por aí?

 

Tenho certeza que a experiência do outro lado do mundo vai ser incrível. Se sentir saudades da gente, não se preocupe. É da vida. Eu também já morro de saudades, mas sei que daqui a alguns meses você estará de volta. E de volta com muito mais experiência, conhecimento, amizades, maturidade e aquele sorriso bonito que você costuma dar — um sorriso que nos revitaliza.

 

Estou escrevendo para contar que aqui nas nossas bandas, o Grêmio segue provando sua imortalidade.

 

Lembra que quando você estava fazendo as malas, a coisa andava feia para o nosso lado?

 

Tinha gente até que apostava que deixaríamos a Libertadores bem antes da hora. Falavam em crise. Em queda de produção. Problemas no vestiário —- é o que dizem quando querem espalhar que o grupo de jogadores não está se entendendo.

 

Aí vencemos na rodada passada da Libertadores.

 

Mesmo assim o pessoal questionava nossa chance de seguir em frente. Fazia projeções. Combinava resultados. E olhava com desconfiança para nossa capacidade de recuperação. Gente incrédula essa, não é mesmo? Parece até que jamais ouviu falar das nossas façanhas.

 

Chegou a final do Campeonato Gaúcho e ganhamos mais uma vez.

 

Eu e você vibramos juntos as defesas do Paulo Victor tanto quanto os gols marcados nas cobranças de pênalti. Lembra?

 

Você talvez não tenha percebido, mas quando corri para dar-lhe um abraço e comemorar o título gaúcho era um abraço de despedida. Quase que querendo que você ficasse por aqui. Mas consciente que não seria justo segurá-lo, diante das oportunidades que a vida lhe oferecia.

 

Hoje à noite, sabia que você não estaria mais por aqui. Sabia que não poderia contar com meu companheiro de sofrimento e de torcida. Sabia que não teria como lhe abraçar mais uma vez.

 

Mas também sabia que o Grêmio não nos deixaria na saudade.

 

Que voltaria a ser o Grêmio que me fez cobrir seu berço com camisa tricolor quando você recém havia nascido e nós conquistávamos o bicampeonato brasileiro, em 1996. Que lhe forjou gremista na histórica Batalha dos Aflitos, em 2005. Que nos encheu de orgulho enquanto assistíamos da arquibancada à presença do Tricolor no Mundial de Clubes, nos Emirados Árabes, em 2017.

 

E foi assim, Greg, que na noite de hoje, todos aqueles momentos que curtimos lado a lado voltaram à memória.

 

Desde os primeiros momentos da partida decisiva desta noite —- sim, era decisiva porque qualquer revés nos tiraria da competição —- estava na cara que aquele Grêmio que conhecemos estava em campo. Domínio total do jogo, bola de pé em pé, passes velozes e precisos, jogadores se deslocando de um lado ao outro para confundir os marcadores e aquela turma lá de trás acabando com a partida — sem dar chance aos adversários.

 

Você não imagina a defesa salvadora que o Paulo Victor fez no segundo tempo. Você não tem ideia o que jogaram Geromel e Kannemann. Gigantes!

 

E lá no ataque?

 

Bem, lá a gente tinha o Everton. E esse você conhece bem. Nós dois —- aliás, nós três, porque o Lorenzo estava com a gente na arquibancada —- vimos o Everton fazendo aquele gol no Mundial bem na nossa frente. Lembra?

 

Hoje, aquele Everton estava de volta.

 

No primeiro gol, ainda no primeiro tempo, ele tirou os marcadores e o goleiro para dançar  — confere na internet que vale à pena.

 

No segundo gol, com a ajuda do Pepê — sim, o Renato em lugar de trancar o time na defesa, o deixou ainda mais ofensivo no segundo tempo, colocando um dos nossos guris em campo —-, Everton driblou um, trançou a bola nas pernas do outro, limpou para a direita e bateu firme, definindo a nossa vitória.

 

Fizemos 2 a 0 contra o líder do grupo, que estava invicto na Libertadores, e na casa do adversário. Fomos superiores no primeiro tempo. E insuperáveis nos segundo. Com o resultado, estamos na luta mais uma vez, a uma vitória da classificação que será decidida em casa, na rodada final.

 

Para a festa ficar completa, só faltou você. Mas fique tranquilo porque sei que você tem um desafio super legal pela frente. E nós estamos torcendo muito para que tudo de certo aí do outro lado do mundo.

 

Vai em frente, curta cada momento da sua experiência. Eu me comprometo a manter você atualizado com as coisas que acontecem por aqui. Contando as façanhas do Imortal Tricolor —- que nesta noite revelou mais uma faceta da sua imortalidade.

 

Beijos e até mais!

Avalanche Tricolor: de volta à Libertadores

 

Grêmio 3×1 Rosário Central
Libertadores – Arena Grêmio

 

Gremio x Rosario Central

Comemorando mais um gol, em foto de LUCASUEBEL/GRÊMIOFBPA

Vamos Grêmio tu és copeiro
E hoje temos que ganhar
Eu te sigo desde pequeno
Já não posso mais parar

Tu és a vida, tu és a paixão
O sentimento vai além da razão
E não importa se perder ou ganhar
O tempo inteiro eu vou te apoiar!

Cantar, cantar e cantar. É o que me resta neste resto de noite quando voltamos à Libertadores.

 

Driblamos os piores prognósticos com o talento de Everton, a elegância de Jean Pyerre e o poder de decisão de Leonardo Gomes. Tivemos Matheus Henrique, Maicon, Tardelli e André, também. E quando foi preciso lá estavam Paulo Victor, Geromel, Kannemann e Cortez.

 

Mais do que cada um deles, tivemos um time disposto a mostrar à América (e aos descrentes) que somos Imortais porque construímos essa história dentro de campo — na luta, na garra e, especialmente, no futebol muito bem jogado.

 

Uma história que acompanho desde que mal sabia assoviar os acordes de nosso hino. Porque, como diz o título da música que embala esta Avalanche, Grêmio “eu te sigo desde pequeno”. E confiarei sempre na tua redenção!

Avalanche Tricolor: se é “vida ou morte”, então é com a gente

 

Universidad Católica 1×0 Grêmio
Libertadores – Santiago do Chile

 

Gremio x Universidad Catolica

Kannemann,  o melhor do nosso time, é destaque em foto de LUCASUEBEL/GRÊMIOFBPA

 

A experiência em assistir, ao vivo,  à uma partida pelo Facebook começou muito mal — em todos os sentidos. Meus computadores da Apple me deixaram na mão.  A bola já estava rolando e em nenhum dos meus equipamentos, em nenhuma das minhas contas e em nenhum dos links que os amigos gremistas me enviaram fui capaz de ver o futebol gremista.

 

Cheguei a pensar que era uma conspiração das máquinas — logo elas que sempre haviam me tratado bem e oferecido facilidades para trabalhar e me divertir ao longo do tempo. Demorei para perceber que aqueles computadores estavam apenas querendo me alertar. Mandavam recados do tipo “não insista”, “hoje nada vai funcionar” ou “quem sabe quando a transmissão for pela televisão?”. Não entendi a mensagem. Insisti.

 

Busquei a salvação no Windows de um dos filhos. Mas quando descobri que ali estava a solução, já tínhamos quase meia hora de jogo. E, sim, o pior já havia acontecido. Não, minto. Pior mesmo foi ver o que vi na sequência. Já com a imagem tomando conta de todo o super-monitor que um dos meus guris joga seu games e disputa suas partidas virtuais, ficou muito claro que não seríamos capazes de sequer operar um milagre em campo, nesta noite de quinta-feira.

 

O atraso comum no sinal da internet — coisa de 30 segundos, não muito mais do que isso —, mesmo com uma banda larga de qualidade aqui em casa, refletia o atraso do futebol que apresentávamos. A bola chegava atrasada no pé do companheiro, o marcador chegava atrasado no atacante adversário, o passe saia para trás. 

 

Mesmo com a boa conexão que gerava uma imagem de qualidade, não fui capaz de ver o futebol gremista em campo, simplesmente porque o futebol gremista não se apresentou em campo, nesta terceira partida da Libertadores. 

 

Para ter ideia, a melhor notícia da noite foi saber que tanto nosso técnico  quanto nossos jogadores — e jamais desconfiei que agiriam diferente — saíram de campo conscientes de seus erros, em lugar de buscar desculpas naqueles elementos que geralmente os times que jogam mal se debruçam para justificar uma derrota. 

 

Foi ali, ainda ao lado do gramado, que ouvi de Everton a frase: “agora é vida ou morte”. Como sou um eterno torcedor e otimista, voltei ao meu Apple, abri a calculadora, fiz as projeções, somei três pontos aqui, mais três ali, menos três do adversário acolá, e cheguei a conclusão de que está muito difícil mas ainda temos chance nesta Libertadores. 

 

Até porque, caro e raro leitor desta Avalanche, se “agora é vida ou morte”, chegou a nossa hora. Que venham os próximos compromissos, mas , por favor, que sejam só na televisão, porque esse negócio de Facebook dá um baita azar.

 

 

 

 

 

 

Avalanche Tricolor: o dia do “não”

 

Grêmio 0x1 Libertad
Libertadores — Arena Grêmio

 

 

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Renato não estava com cara de bons amigos na foto de LUCASUEBEL/GRÊMIOFBPA

 

 

Lembra do guri de camisa tricolor com listras desbotadas da última Avalanche de Libertadores? Esteve de volta nesta noite de terça-feira, aqui em São Paulo — de onde curto à distância as façanhas do meu Grêmio. Estava sentado no sofá, diante da televisão. Sofrendo como naquela época. Com as mãos esfregando o rosto de cima a baixo. E os dedos escorrendo sobre a cabeça e empurrando os cabelos para trás — bem menos cabelo, é verdade do que antigamente.

 

Assim como aquele guri, esteve de volta também a lembrança de uma conversa que tive com meu padrinho por adoção,  Ênio Andrade — um dos maiores técnicos que já passaram pelo meu time. Dos tempos em que ele colocava a mão sobre meu ombro e me convidava a passear pelo Largo dos Campeões, no entorno do saudoso estádio Olímpico.

 

Seu Ênio, naquelas semanas em que o resultado em campo estava aquém do esperado por ele e sonhado por mim, costumava dizer que o futebol tem algumas coisas curiosas: “Tem o dia do “sim” e o dia do “não”, Alemão!”.

 

Quando o dia é do “não”, esquece! — me ensinou.

 

A bola que sempre rola redonda no gramado, pipoca para um lado e escapa pelo outro. Acostumada a chegar no pé do colega, vai parar na altura da canela. O movimento sincronizado se transforma em correria desordenada. O cruzamento nunca encontra a cabeça amiga. A defesa que espanta até fantasma se atrapalha. Sofre o drible e deixa espaço.

 

No dia do “não”, quem está melhor em campo sente dores e tem de ser substituído. E depois de o técnico já ter feito todas as substituições, sempre haverá mais alguém para se lesionar. Com tudo conspirando contra, com certeza não será o árbitro que vai ajudar. Não vê pênalti quando podia ter visto, vê menos ainda quando o pênalti realmente acontece. Deixa o cronômetro correr até a conclusão do ataque adversário. E, claro, é nesse lance que vamos tomar o gol.

 

Hoje, foi o dia do “não” para o Grêmio na Libertadores. Mas como o guri aprendeu com o Seu Ênio, não adianta se desesperar. Porque se o trabalho está sendo bem feito — e este é o nosso caso —, melhores dias virão. Até lá.

 

Avalanche Tricolor: o guri que vestia a camisa 3 está de volta

 

Rosário Central 1×1 Grêmio
Libertadores – Gigante de Arroyito/Rosário ARG

 

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Todos querem a camisa de Geromel, como se vê na foto de LUCAS UEBEL/GRÊMIOFBPA

 

A estreia na Libertadores 2019 me colocou diante de uma das raras fotos que consegui preservar da época em que jogava na escolinha de futebol do Grêmio. Perfilado, com os braços soltos ao longo do corpo, sobre a linha lateral do gramado do saudoso estádio Olímpico, fui flagrado por um dos fotógrafos esportivos que aguardavam o time principal entrar em campo. Não tenho o nome do autor da foto, mas se o fez, tenho certeza, foi para presentear meu pai, que deveria estar orgulhoso de ver o guri naquela posição.

 

Naquele tempo, não tínhamos acesso ao uniforme oficial dos clubes de futebol. Comprava-se as camisetas na lojinha do bairro. A minha era de um tecido mais grosso, com o azul, o preto e o branco desbotados pelas inúmeras lavagens feitas por minha mãe. Com a gola em vê e sem direito a emblema do Grêmio no peito, o único adereço que havia —- e não aparece na foto —- era o número 3 nas costas, que mais do que minha posição preferida, revelava a admiração por um dos maiores zagueiros que já vestiram nossa camisa, Atilio Genaro Anchieta — capitão da seleção do Uruguai e do próprio Grêmio. Uma espécie de Geromel dos anos de 1970.

 

Ver aquela foto me fez voltar para um tempo em que a Libertadores era sonho distante para os gremistas. Nos satisfazíamos com o aguerrido campeonato gaúcho. Nos orgulhávamos das vitórias sobre times do eixo Rio—São Paulo. Ganhar um campeonato brasileiro seria uma façanha. Foi lá, porém, que forjamos o caminho que nos levou ao topo do Mundo e nos coloca, hoje, entre os maiores times do futebol do planeta.

 

Em campo, o Grêmio é respeitado mesmo pelos arquirrivais argentinos, contra quem travamos alguns dos grandes e heróicos clássicos sulamericanos. Afinal, estamos em nossa décima nona participação de Libertadores, competição que já vencemos três vezes — a última em 2017, ou seja, coisa recente, que segue na memória dos adversários. Sem contar o futebol qualificado que temos jogado há três anos, desde o retorno de Renato ao comando técnico do time —- futebol reconhecido aqui e lá fora.

 

Nossa reputação, contudo, não significa vida fácil contra nossos adversários. Ao contrário. Eles transformam a partida em uma guerra. Como se ganhar do Grêmio fosse um troféu à parte na competição. Por isso, não surpreende a maneira até violenta com que fomos recebidos em campo na noite de ontem, na Argentina — boa parte dessa violência ocorreu sem qualquer punição por parte do árbitro.

 

Pelas fotos feitas por Lucas Uebel —- fotógrafo oficial do Grêmio e autor das imagens que costumo reproduzir nesta Avalanche —, o árbitro não apenas deixou de advertir o adversário com a rigidez necessária como também não viu um pênalti sobre Geromel, no qual teve sua camiseta de número 3 agarrada pelo marcador. Foi um pouco antes do entrevero que ocorreu entre o mesmo Geromel e o atacante adversário, já na área gremista, ao fim do primeiro tempo.

 

Independentemente da marcação mais forte do que as regras esportivas recomendam ou da disposição do adversário para nos superar —- e isso são apenas motivos de mais orgulho para esse gremista —-, o Grêmio foi maduro em campo. Não perdeu a cabeça, mesmo tendo sofrido gol logo no segundo minuto de partida. Evitou cair em provocações. Colocou a bola no chão, trocou passes, esperou brechas na marcação adversária e chegou ao empate.

 

O gol que marcou foi resultado dos muitos méritos que essa equipe leva a campo, além da própria maturidade para encarar reveses. Após pressionar muito, ameaçar jogadas por um lado e por outro, contamos com a visão de jogo e a precisão do passe de Marinho. Ele estava marcado pelo lado direito e teve capacidade de enxergar Everton lá do outro lado. A partir daí, ficamos por conta do talento de nosso atacante que driblou dois marcadores dentro da área e completou a jogada colocando a bola no fundo do poço.

 

Não tenho mais aquela camiseta desbotada da foto antiga. As que me acompanham em casa estão emolduradas ou dobradas no armário a espera de um espaço na parede — ainda quero ter uma de Geromel, um Anchieta redivivo e melhorado pelo tempo. Mas o guri com a camisa 3, sem emblema, lá do gramado no estádio Olímpico, voltou a se revelar na noite dessa quarta-feira de cinzas, ao vibrar como louco, com os punhos cerrados e o grito de gol que nos garantiu o primeiro ponto na estreia da Libertadores, jogando fora de casa naquele que é conhecido por Grupo da Morte.

Avalanche Tricolor: o futebol foi justo com o Grêmio

 

Monagas 1×2 Grêmio
Libertadores – Venezuela

 

 

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O gol da justiça em foto de LUCASUEBEL/GRÊMIOFBPA

 

O Grêmio foi a Venezuela em busca dos três pontos e jogou o necessário para trazer para casa a liderança do grupo A, na Libertadores. Entrou em campo com com a defesa titular, o meio de campo — que teve o reforço de Ramiro – e o ataque alternativos 

 

Cícero que costuma jogar boa parte das partidas, geralmente no segundo tempo, foi escalado. Alisson, nossa espécie de 12o titular, também — mas com pouco minutos de jogo sentiu lesão na perna e teve de ser substituído.

 

Renato montou a equipe de forma calculada. Sabia que o time não poderia render o mesmo que vem rendendo nas partidas em que jogam todos os titulares — mas tinha consciência que os 11 escalados estavam aptos a superar o adversário.

 

E fomos melhores durante praticamente 90 minutos de jogo. Dominamos a partida, anulamos as jogadas de ataque, ocupamos o meio de campo e tocamos bola com a precisão que o gramado permitia — aliás, um gramado muito aquém do que se deve exigir no futebol profissional.

 

Se no primeiro tempo arriscamos uma ou outra jogada na frente, no segundo, a pressão aumentou, especialmente pela esquerda. Curiosamente, foi do outro lado direito que surgiu o gol, após Ramiro arriscar de fora da área e pegar a defesa de surpresa.

 

Com a vitória parcial, a intenção era deixar o tempo passar reduzindo ao máximo os riscos lá atrás.

 

O adversário realmente fez muito pouco para merecer o empate. Na primeira vez que chegou ao nosso gol, Grohe fez o que sabe fazer — defendeu de maneira espetacular. Na segunda, quando o ponteiro já girava nos acréscimos, a injustiça: Kannemann tentou tirar a bola e marcou contra.

 

O empate nos deixaria em segundo no grupo e em função da tabela dificilmente conseguiríamos chegar à liderança na última rodada, mesmo com um vitória na Arena. Parecia que o futebol nos pregaria mais uma peça, cometendo uma injustiça contra o time mais qualificado do grupo e que se mostrava muito superior ao adversário.

 

Sabemos bem que o futebol tem dessas coisas. Nem sempre o melhor vence. A bola que você chuta bate no travessão, o passe final é desviado por um buraco no campo e o drible que deixaria o atacante na cara do gol é desperdiçado. De repente, um descuido aqui e um tropeço ali e o gol adversário se realiza. O futebol está cheio de injustiça e por muitas vezes já fomos vítimas desses eventos.

 

Quando parecia que nada mais restava fazer, além de lamentar o empate, lançamos a bola para dentro da pequena área e Cícero que estava prestes a dominá-la foi derrubado. Entre o empurrão sofrido e o pênalti assinalado foram milésimos de segundos — tempo suficiente para me passar pela cabeça as injustiças cometidas contra o Grêmio pelo árbitro do fim de semana passado, que não marcou ao menos duas penalidades a nosso favor.

 

Desta vez foi diferente — o juiz estava bem colocado e não titubeou. Pênalti marcado quando o relógio estava fechando o tempo extra. Confesso que, mesmo assim, as injustiças de outros tempos voltaram a me atormentar.

 

Quando vi Jailson pronto para a cobrança cheguei a pensar quanto as circunstâncias de um jogo podem ser injustas com um jogador como ele, que vem tentando reconquistar o lugar no time.

 

Errar em um momento tão decisivo não me surpreenderia. É muita pressão e emoção — pois o Grêmio acabara de levar um gol e aquele seria o último e definitivo lance da partida.

 

Jailson teve personalidade, bateu forte e distante do goleiro — fez o gol que colocaria o Grêmio em primeiro lugar no grupo A e nos deixaria próximo da melhor campanha de todos os demais times que disputam a Libertadores.

 

O futebol que já nos ofereceu tantas injustiças desta vez foi justo!

Avalanche Tricolor: na goleada, uma homenagem ao goleiro que conta a história do Grêmio

 

Grêmio 5×0 Cerro Porteño-PAR
Libertadores – Arena Grêmio

 

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Era meio-dia quando deixei Porto Alegre, onde estive durante o feriado prolongado. Havia bons motivos para estar na capital gaúcha, não bastasse sempre ser a oportunidade de conviver com a família. No avião que me levaria de volta a São Paulo, pouco antes de eu embarcar, desceram passageiros com a camisa do Grêmio — era uma turma que tinha destino certo: a Arena gremista, a poucos minutos do aeroporto Salgado Filho.

 

Quase lamentei a necessidade de retornar mais cedo devido aos compromissos profissionais do dia seguinte. Mas já me acostumei com esses desencontros de agenda: a tabela de jogos do Grêmio e minhas obrigações como jornalista poucas vezes se acertam. Portanto, assistir ao meu time na televisão tem sido a opção mais razoável diante das responsabilidades impostas pela profissão.

 

E lamentar qualquer que seja o fato relacionado ao Grêmio nestes últimos anos sequer é justo de minha parte. São tantas coisas boas acontecendo por nós que prefiro não reclamar desses detalhes.

 

A cada partida que assistimos, é um espetáculo à parte. Independentemente do adversário, seja qual for a competição — se o time titular está em campo, é satisfação garantida.

 

Mesmo quando o placar não é o que buscávamos — e isso aconteceu recentemente no Brasileiro, quando empatamos na Arena —, o resultado do futebol jogado é gratificante.

 

Vê-se uma defesa tão firme quanto eficiente, com Geromel e Kannemann dominando pelo alto e desmontando o adversário — hoje eles não deram chance de reação aos atacantes.

 

Nossos dois laterais, Léo Moura e Cortez, se aproveitam de um sistema defensivo bem estruturado e reforçado pelo retorno da turma da frente: vão à linha de fundo, dando opção de jogadas abertas sempre que a entrada da área está congestionada.

 

Maicon e Arthur são os dois volantes mais talentosos em atividade no Brasil. A chuteira que calçam desliza sobre a bola e a trata com um carinho pouco comum aos jogadores que atuam na posição deles. Enquanto carregam a bola, o olhar almeja um companheiro mais bem colocado. E é no pé desses companheiros que ela é entregue com uma precisão muito acima da média.

 

Compõem esse setor do campo Luan e Ramiro.

 

Um é o craque reverenciado pela América — dribla com facilidade e se desloca com elegância à frente dos marcadores. Tecer elogios a ele é redundância.

 

O outro, é o meio de campo adorado pelo torcedor — com a mesma humildade com que aparece para desarmar na defesa, agradece as oportunidades que surgem para marcar seus gols. Com seu 1,68 metro de altura, transforma-se em gigante quando veste a camisa do Grêmio, como no segundo gol, feito de cabeça.

 

No ataque, temos Jael e Everton — é a fome com a vontade de comer, como costumava dizer minha mãe.

 

Um briga com os zagueiros para garantir a bola em seu pé e não se importa de ser o homem da assistência, mesmo que sua principal função devesse ser o gol. Luta de forma tão obstinada e se entrega para o time de tal maneira — como no lance que permitiu a abertura do placar, ainda no primeiro tempo —, que o destino acaba lhe oferecendo também essa alegria — como vimos no terceiro gol, no qual se atirou para escorar a bola, já no início do segundo tempo.

 

O outro está endiabrado. Sai em disparada pela direita, dribla pelo meio, corre pela esquerda e dribla novamente se for preciso. Parte sempre em direção ao gol para desespero de seus marcadores. Se antes os desperdiçava, hoje consegue concluir cada vez com mais precisão: fez dois da goleada desta noite. Fará muito mais ainda, mesmo com o olho gordo dos clubes do exterior.

 

Poderia descrever outros jogadores que fazem parte deste elenco, como Alisson e Cícero — esse último ainda se deu o direito de completar a goleada de 5 a 0, também de cabeça.

 

Mas quero encerrar essa Avalanche enaltecendo a figura séria e simbólica de Marcelo Grohe, o nosso goleiro — o que pode ser uma contradição, sendo esta Avalanche sobre um jogo em que goleamos.  

 

Consta na estatística que ao fim da partida de hoje, Grohe completou 840 minutos sem ser vazado — nunca antes havia ficado tanto tempo sem saber o que é tomar um gol. Tenho sempre receio desses recordes, pois acaba-se ficando refém deles.

 

Portanto, mais importante do que o número, é a consistência com que tem se apresentado a cada jogo, especialmente nos momentos cruciais — como nos primeiros minutos em que uma bola traiçoeira foi alçada para nossa área.

 

Grohe além de firme e competente no que faz, ainda está aí para nos lembrar que se hoje somos capazes de sorrir a cada passe realizado, drible registrado e gol marcado; se podemos nos divertir cantando “olé” já aos 12 minutos do segundo tempo, em plena Libertadores; se a alegria de levantar uma taça tem se repetido com exagerada frequência; tudo isso só foi possível graças a um clube que lutou muito para construir sua história.

 

Nosso goleiro começou nas categorias de base, em 2000, transformou-se em profissional em 2005, teve de suportar a reserva por muitos anos e mesmo depois de ter assumido como titular, em 2012, sofreu novo revés com a chegada de goleiros de renome.

 

Suportou nariz torto de torcedor e desconfiança de parte da crônica — além de críticas maldosas e sem lógica de gente influente. A falta de títulos importantes na carreira pesava sobre suas costas, mesmo diante de algumas defesas incríveis. Passou por momentos de dificuldade, em que a cobrança era intensa e os resultados muito distantes do que desejávamos.

 

Perseverou! E venceu!

 

Grohe, além do talento embaixo do gol — e também por este talento —, com sua carreira marcada pela coragem em enfrentar as dificuldades que surgiam no seu caminho e em saber superar todo e qualquer obstáculo sem jamais desistir é a figura em campo, atualmente, que personifica a história do Grêmio. 

 

Obrigado, Grohe!

 

Avalanche Tricolor: futebol muito bem ajustado

 

Cerro Porteño 0x0 Grêmio
Libertadores – Estadio Nueva Olla/Assunção- Paraguai

 

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GeroMito foi o melhor em campo (foto de LUCASUEBEL/GRÊMIOFBPA

 

O Grêmio jogou para o jogo que tinha de ser jogado.

 

Havia um adversário forte do outro lado, motivado por estar na liderança do grupo e empurrado por sua torcida.

 

Gostaria da vitória, mas não se precipitou em campo, pois sabe como poucos disputar a Libertadores.

 

Tinha que manter a cabeça no lugar, acalmar os ânimos e reduzir os riscos.

 

A defesa foi firme, forte e precisa quando pressionada.

 

E defesa aqui não se resume a dupla de área que é genial por si só — e você sabe disso. É o sistema defensivo muito bem ajustado por Renato. Que não deixa espaço para o adversário.

 

Contida a correria inicial e normal, o meio de campo colocou a bola no chão e com toques justos  arrefeceu o ânimo do adversário.

 

O ataque arriscava algumas jogadas, assustava a defesa paraguaia e os mantinha sob atenção. Poderia ter feito mais se o árbitro tivesse sido justo e marcasse o pênalti sobre Everton ainda no primeiro tempo.

 

No segundo tempo, o Grêmio já se sentia em casa e dominou a partida, passou a ficar com a bola no pé muito mais do que o adversário e reduziu qualquer risco de tomar gols.

 

Ao contrário, quase fez.

 

Em um lance que seria mitológico, Geromel pegou o rebote de costas para o gol e a bola foi bater no poste. Depois de tudo que já havia feito dentro da nossa área, parando o ataque adversário, só faltava mesmo ele marcar um gol.

 

Foi premiado ao final como o jogador da partida. Justa a escolha dos organizadores.

 

Poderíamos ter vencido, mas o empate está na medida certa para o time que precisará confirmar a classificação à próxima fase jogando duas das três partidas que faltam em casa.

 

 

Avalanche Tricolor: o Grêmio-Show está em campo!

 

Grêmio 4×0 Monagas-VEN
Libertadores – Arena Grêmio

 

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Jael marca o primeiro do jogo: cruel! (reprodução SportTV)

 

É colocar a bola no chão, trocar passe pra cá e pra lá, esperar o companheiro se deslocar, controlar a paciência e esperar os espaços surgirem. Às vezes demora mais, às vezes demora menos. Mas o gol aparece. E quando aparece um, vem outro e outro e, como no início da noite desta quarta-feira, mais outro.

 

É um show de bola!

 

O adversário bem que ensaiou uma retranca e pensou em dar alguns sustos no contra-ataque. Mas a resistência não foi além do primeiro tempo. Bastaram os minutos de conversa de Renato no vestiário para o Grêmio voltar diferente para o segundo tempo.

 

E quando o futebol do Grêmio que admiramos entra em campo, é outro show!

 

Com a entrada de Alisson, como tem ocorrido com frequência nos últimos jogos, o time fica ainda mais solto, a quantidade de jogador que aparece para receber a bola aumenta e deixa os marcadores completamente perdidos.

 

Até as jogadas pelo lado esquerdo apareceram, com Cortez chegando na linha de fundo e cruzando na área. Esse tipo de lance valoriza ainda mais nosso homem de frente.

 

Jael costuma jogar como pivô, de costas para os zagueiros e por isso é o rei da assistência. Mas quando vem o cruzamento, ele vira o centroavante clássico.

 

Show de Jael!

 

Um gol de cabeça que marcou o início do domínio pleno da partida. Dali para frente, a dúvida era quantos mais gols marcaríamos.

 

E aí vieram os shows de Everton e Luan.

 

O Rei da América corre elegante com a bola no pé, escapa do marcador, limpa o lance, serve os companheiros, chuta a gol e marca gols. É o nosso goleador na temporada.

 

Um show à parte!

 

Já Everton – escrevi isso na última Avalanche – segue a mesma trajetória de seu antecessor Pedro Rocha, que por algum tempo era criticado devido aos desperdícios nas finalizações.

 

Ele ganha cada vez mais confiança, cria oportunidade atrás de oportunidade, investe na velocidade e no talento. Hoje, deu dribles que deixaram seus marcadores desnorteados. E dribles em direção ao gol, produtivos.

 

Everton é outro show!

 

Foi de cabeça e com Cícero, que havia recém-chegado ao jogo, que completamos a goleada. Aliás, mais uma goleada nessa trajetória gremista. Foi assim nas partidas decisivas do Campeonato Gaúcho, foi a assim na Libertadores, esta noite.

 

Virou padrão.

 

Ou, como diria aquele famoso locutor esportivo: virou passeio.

 

O Grêmio-Show está em campo!