Avalanche Tricolor: que os deuses do futebol me perdoem

 

Grêmio 1 x 2 Inter
Gaúcho – Arena Grêmio

 

 

Deus escreve certo por linhas tortas, dizia minha mãe sempre disposta a me consolar diante do revés e mostrar que teríamos de aprender com nossos erros. Seriam esses os sinais divinos enviados para amenizar a dor da derrota e lhe dar caráter pedagógico. Você, caro e raro leitor deste blog, sabe muito bem das minhas restrições quanto a misturar religião e futebol, por entender que o Cara lá em cima tem muito mais coisa para se preocupar do que interferir nos resultados em campo. Por isso, se o objetivo é escrever de bola rolando (ou rolada), como costumo fazer nesta Avalanche, melhor prestar atenção nas lições oferecidas não por aquele Deus superior que alguns de nós acreditamos (eu, inclusive), mas nos deuses do futebol, aqueles que, recentemente, foram clamados pelo técnico Mano Menezes, do Corinthians, para rogar praga sobre o arquirrival São Paulo (parece que deu certo). São eles que sempre me dão esperança de dias melhores, que me fazem acreditar na Imortalidade que marca nosso time, mesmo diante de todas as dificuldades.

 

Como tenho uma certa intimidade com os deuses do futebol, eles costumam me confidenciar segredos que devem ser guardados até a revelação final. Desta vez, porém, perdoem-me senhores, serei obrigado a contar aquilo que vocês sussurraram em meu ouvido assim que se encerrou o Gre-Nal na tarde deste domingo. E faço está inconfidência pois imagino que muitos torcedores gremistas estejam tristes com o placar desfavorável na primeira partida da final do Gaúcho, principalmente por saberem que terão duas semanas de espera até o jogo da volta – bem verdade que neste tempo todo teremos coisas bem mais importantes a fazer, como confirmarmos a classificação à próxima fase da Libertadores nos dois jogos que faltam nesta fase de grupos. Sobre isso, porém, falaremos na quarta-feira à noite. Como sei que muitos de vocês estarão cabisbaixos na segunda-feira, quebrarei meu pacto com os deuses de futebol. Eles me garantiram que o resultado ruim de hoje tinha a única intenção de convencer os dirigentes adversários a abrirem seu estádio, que será reinaugurado semana que vem, para o Gre-Nal final, coisa que não aconteceria se a conquista do título regional estivesse ameaçada. Diante da vantagem do gol qualificado e a possibilidade de perderem o título apenas se o Grêmio fizer dois gols de diferença, levarão o jogo para o Beira Rio, vão se preparar para a festa, colocarão o champanhe na geladeira, se vestirão de arrogância e, com o cenário pronto para a tragédia final, a Imortalidade Tricolor ressurgirá mais uma vez.

 

Só uma coisinha a mais da minha conversa com eles: um dos deuses que conheço, metido a dar palpites técnicos e táticos, me disse também que para a palavra deles se concretizar não podemos repetir o segundo tempo dessa tarde, pois o futebol não perdoa apáticos nem prepotentes da mesma forma, aliás, que eu não perdoo os idiotas racistas que seguem a manchar as arquibancadas. Que tirem a camisa tricolor ao tomar essas atitudes, pois nós não os queremos. E vocês não nos merecem.

Avalanche Tricolor: pelo direito de ser aquele garoto mais uma vez

 

Grêmio 2 x 1 Brasil-Pelotas
Gaúcho – Arena Grêmio

 

 

Havia um menino, desses que entram em campo de mãos dadas com os jogadores, que me chamou atenção no momento em que o Grêmio ainda cumprimentava sua torcida. Estava com a camisa tricolor, calções pretos, meias brancas, vestido de jogador. O cabelo tinha o mesmo corte (estranho) usado por Pará, e ficou ao lado dele boa parte do tempo, o que me faz crer que o lateral gremista seja um dos seus ídolos, assim como também é um dos meus. Não foi o estilo da cabeleira, porém, que fez o garotinho se destacar em meio a tantos mascotes que acompanharam o time na saudação inicial. Com o menino havia um sorriso sincero e emocionado, que brilhou ainda mais quando, com os braços erguidos, imitou o gesto dos jogadores. O olhar voltado para a arquibancada era de uma alegria contagiante. Deveria estar ali imaginando que todos os gritos e aplausos com que os torcedores recepcionaram o time fossem para ele. Deve ter por alguns segundos sonhado que assim que o árbitro soasse o apito, ele é quem estaria correndo atrás da bola, driblando os adversários, chutando a gol, livrando seu time dos perigos com cabeceios lá no alto e carrinhos rente à grama. Sei lá o que estava pensando aquele menino, mas me fez relembrar as vezes em que meu pai me ofereceu a oportunidade de ter as mesmas sensações ao entrar em campo de mãos dadas com Loivo, Anchieta e tantos outros craques que admirei.

 

De volta à arquibancada, o garotinho de cabelo estranho e rosto tomado pela alegria deve ter comemorado com seus pais ao ver Dudu, jogador com tamanho e apelido de menino, furar o mais complicado bloqueio defensivo que já enfrentamos nesta temporada e dar início a vitória que nos levou à final do Campeonato Gaúcho. Saltitou sem conter a emoção quando percebeu que o talento de Luan, outro dos nossos meninos, que já havia sido decisivo no primeiro gol, seria capaz de superar a mais violenta marcação que encarou na sua carreira com a camisa tricolor e, sem tituberar, roubar a bola, driblar dois zagueiros, o goleiro e fazer o gol que sacramentou nossa conquista. Aquele menino, o da torcida, com certeza sofreu nos minutos finais diante da possibilidade de um revés, fechou os olhos nas bolas alçadas para nossa área e vibrou com as bolas despachadas lá de dentro. E voltou a sorrir, se emocionar, quem sabe chorar, quando o jogo se encerrou e todos seus desejos (ou quase) se concretizaram nesta noite de futebol.

 

Eu, assim como ele, também me emocionei, vibrei, sofri e sonhei. Sonhei em ter o direito de ser aquele garotinho ao menos mais uma vez.

Avalanche Tricolor: três gols de Barcos e a vitória de um grande time

 

Grêmio 3 x 0 Juventude
Gaúcho – Arena Grêmio

 

 

O primeiro veio por cima após excelente cruzamento de Pará; o segundo da marca do pênalti, resultado de belo passe de calcanhar de Dudu para Wendell; e o terceiro exigiu talento para driblar o goleiro, depois de mais uma jogada de Dudu, desta vez em parceria com Luan. Barcos fez os três gols desta classificação às semifinais do Campeonato Gaúcho, e merece todo nosso aplauso e admiração, mas sabe que o mérito é da equipe. A vitória desta tarde de domingo, em Porto Alegre, foi de um elenco que tem sido capaz de superar a maratona de partidas, o cansaço e as lesões. Um time que tem muito talento com a bola no pé, troca passe com precisão, se movimenta com rapidez, varia as jogadas, tenta por um lado e pelo outro, até encontrar espaço na defesa adversária. Da mesma forma, marca com firmeza, desarma com força quando necessário, despacha a bola pela lateral se preciso e não dá chance para o adversário pelo alto. Hoje, até ter a partida decidida, Marcelo Grohe praticamente não foi exigido. E quando o foi, mostrou porque temos tanta confiança nele.

 

Estar nas semifinais do Campeonato Gaúcho não passa de obrigação, sem dúvida. Qualquer coisa que não seja o título estadual, significará muito pouco à torcida. Temos, contudo, que admitir que tem sido cada vez mais agradável ver o Grêmio jogando com talento e firmeza, reflexo da forma como o time está montado e comandado por Enderson Moreira. Os gritos do treinador ao lado do campo mesmo quando a goleada era certa, deixa evidente a seriedade e responsabilidade com que encara cada desafio. Para quem busca nesta temporada os títulos que almejamos não se pode mesmo baixar a guarda. Enderson tem nos oferecido esse entusiasmo e permitido o desfile de ótimos jogadores que muitas vezes entram no decorrer da partida para nos dar a certeza de que se for preciso reforço, não nos faltará.

Avalanche Tricolor: é de pequeno que se aprende

 

Grêmio 3 x 0 Pelotas
Gaúcho – Estádio do Vale (Novo Hamburgo)

 

 

Muitos anos depois, voltei a praticar golfe, nesse sábado. Sinceridade? Praticar não é a palavra certa. Fui lá no campo tentar acertar na bolinha com o mínimo de jeito. Foi sofrível. Algumas tacadas sem destino nem classe deixaram evidente a necessidade de treinar muito antes de me arriscar à frente de amigos e conhecidos. Um deles tentou me convencer que o fato de ter me iniciado no esporte mais tarde (mais velho, quis dizer) torna a tarefa complexa, principalmente por não me dedicar como deveria nem buscar orientação de um professor para corrigir vícios: não se preocupe, dá pra aprender ainda, me incentivou. Tenho certeza que a garotada de casa, que começou bem mais cedo a jogar golfe, mesmo sem treinar com frequência, se voltar aos tacos não encontrará dificuldade. Os jovens conseguem se adaptar muito mais rapidamente e não esquecem os gestos aprendidos quando criança. Por isso se costuma dizer que nunca se esquece como andar de bicicleta. Se aprende quando pequeno. Ao crescerem, somam ao hábito à experiência e alcançam bons resultados.

 

Vamos deixar o golfe e a bicicleta para outra oportunidade, mesmo porque o espaço aqui se dedica a falar de futebol, especialmente o do Grêmio, time que, por sinal, teve como grande mérito, na tarde deste domingo, a juventude. Decidido a descansar os titulares para a difícil tarefa do meio de semana, quando enfrentaremos o Newell’s Old Boys, na Argentina, pela Libertadores, Enderson Moreira escalou time bastante jovem com média de idade de 21 anos – segundo os cálculos do matemático Osvaldo … nada disso, segundo a minha calculadora mesmo. O adversário já rebaixado, mesmo sendo tradicional e retrancado, só foi capaz de segurar a meninada no primeiro tempo quando o esforço gremista era desperdiçado em bolas alçadas para dentro da área – muitas sem destino definido, parecendo minhas tacadas no dia anterior – para tentar encobrir o ferrolho que o técnico visitante montou. No segundo tempo, porém, colocou-se ordem na casa e os meninos brilharam, em especial Jean Deretti, 20 anos, que entrou e marcou dois gols, decidindo a classificação em primeiro lugar no grupo, o que nos permitirá decidir em casa a vaga à semifinal do Campeonato Gaúcho. No primeiro, aproveitou jogada iniciada por Everaldo, 22 anos, e no segundo de Yuri Mamute, 18 anos. Coube a um garoto mais novo ainda concluir a goleada: Everton, de apenas 17 anos, que chutou a gol depois de novas participações de Everaldo e Mamute.

 

Apesar de o jogo ter dado a aparência de treino, foi muito bom saber quantos jovens estão prontos (ou quase) para representar o Grêmio. Alguns dos que estiveram em campo com o time devem, inclusive, se juntar a delegação que vai para a Argentina e, se não saírem como titulares, podem entrar no segundo tempo. Dudu, 22 anos, Alan Ruiz, 20 anos, além do próprio Jean Deretti são exemplos de jogadores novos que têm condições de desequilibrar a partida e ajudarem o Grêmio a voltar com a liderança do Grupo da Morte, na Libertadores.

 

Seria ótimo que estes meninos aprendessem desde pequeno a serem campeões pelo Grêmio.

 

Foto: Bruno Alencastro/Agência RBS

Avalanche Tricolor: torcendo contra o racismo

 

Grêmio 3 x 1 Passo Fundo
(São Luiz 2 x 2 Grêmio)
Campeonato Gaúcho

 

 

Escrevo antes mesmo de a partida deste domingo ter se iniciado, pois, convenhamos, se é para falar de jogo jogado, o que nos interessa, nesta maratona que encaramos, é a quinta-feira, dia 13 de março, quando teremos o New’s Old Boys como adversário, na Arena Grêmio. Independentemente dos resultados desses últimos jogos, inclusive o de sexta-feira, sobre o qual sequer dediquei uma Avalanche – apesar de todo o meu respeito aos jogadores que estiveram em campo – , temos é que repetir o desempenho que entusiasmou o torcedor, na próxima rodada da Libertadores. O Campeonato Gaúcho, por enquanto, está bem resolvido com nossa presença garantida na fase eliminatória. Antecipo-me na escrita mesmo porque o assunto ao qual quero me dedicar pouco tem a ver com a bola rolando e muito mais com que nós somos ou queremos ser.

 

Hoje cedo, na missa dominical, na paróquia da Imaculada Conceição, próxima de casa, encontrei o Pe. Jose Bertoloni, meu conterrâneo e torcedor do Grêmio. E posso lhe garantir que frequentar as missas de um padre gaúcho e gremista, aqui em São Paulo, não passa de coincidência (eu juro que é uma coincidência). Ele acabara de celebrar a cerimônia e, como sempre fazemos, trocamos algumas rápidas palavras de despedida. Ao contrário das vezes anteriores, porém, o recado do Pe Bertoloni não tinha o tom otimista que sempre emprega quando se refere ao nosso Grêmio. Ele me chamou atenção para a tristeza que sentia desde que soube, pela rádio CBN, do incidente racista que havia ocorrido em Bento Gonçalves, cidade em que nasceu e onde alguns dos seus parentes ainda moram. Imagino que você tenha ouvido falar dos insultos proferidos contra o árbitro Márcio Chagas da Silva por torcedores do Esportivo, durante partida contra o Veranópolis, no estádio Montanha dos Vinhedos, pelo Campeonato Gaúcho, quarta-feira à noite. Além de chamá-lo de macaco, alguns estúpidos sujaram com bananas o carro do árbitro que estava estacionado do lado de fora do estádio. O acontecimento se deu um dia antes de torcedores do Mogi Mirim usarem as mesmas palavras ofensivas contra Arouca, do Santos, no interior paulista.

 

É bem provável que os dois casos que mancharam a semana futebolística avancem pouco, quando muito serão publicados alguns artigos reprovando a atitude dessas pessoas, proferidas palavras de apoio às vítimas e, na melhor das hipóteses, alguma punição sem consequência será anunciada. Sem precisar muito esforço, vamos nos lembrar do que aconteceu com Tinga, do Atlético Mineiro, alvo de ofensas racistas, em partida contra o Real Garcilaso, no Peru, pela Libertadores. Faz pouco mais de um mês e até agora os torcedores e o clube não sofreram nenhuma sanção. Independentemente do que vier ocorrer, porém, é fundamental que esses casos nos ajudem a refletir sobre estes atos inaceitáveis. É preciso entender que isto não é parte apenas do futebol, pois não se leva para a arquibancada comportamento diferente daquele que cultivamos no nosso cotidiano. Acreditar que existe uma conduta no estádio e outra na rua é querer esconder um desvio grave da nossa sociedade que pode ser percebido no mercado de trabalho e na sala de aula, apenas para ficar com dois exemplos mais conhecidos.

 

Como o futebol, porém, é um componente importante na formação do caráter da sociedade brasileira, e não apenas consequência deste, se poderia usar o esporte para corrigir este comportamento, assim como Nelson Mandela fez com o rugby para reduzir diferenças profundas que persistiam na África do Sul pós-apartheid. Nos discursos oficiais, há uma tentativa de transformar a Copa do Mundo no Brasil em um grito contra o racismo, mas será preciso muito mais do que isso. Os clubes poderiam começar a educar seus torcedores sobre o papel primordial dos negros na nossa história. Lá mesmo em Bento Gonçalves, cenário de cenas racistas na quarta-feira, no início do século passado, surgia o primeiro clube genuinamente negro a excursionar pelo interior gaúcho, batizado, aliás, com o nome da cidade. Como gremista me orgulho de saber que a estrela dourada que faz parte de nossa bandeira oficial é homenagem ao lateral Everaldo, tricampeão mundial pelo Brasil, assim como o hino que cantamos foi escrito por Lupicínio Rodrigues – dois ícones negros em suas artes.

 

A tristeza do Pe. Bertoloni deve ser compartilhada por todos nós que acreditamos na igualdade e no respeito ao próximo, mas tem de ser seguida por atitudes afirmativas. É preciso estarmos convencidos da ideia de que, sim, somos brancos, somos pretos, e, no caso dos gremistas, também somos azuis.

Avalanche Tricolor: torcedor está entusiasmado com o time

 

Cruzeiro 0 x 0 Grêmio
Gaúcho – Vieirão/Gravataí

 

 

O cartaz na mão da torcedora pedindo Barcos na seleção só percebi ao conferir as fotos publicadas no site oficial do Grêmio, nesta manhã. Deve ter aparecido durante a transmissão da TV, mas, confesso, não me chamou atenção, talvez porque estivesse mais preocupado em entender porque desperdiçamos tantos gols em uma só partida. De qualquer forma, a reivindicação da moça, que soa irônica diante do fato de o nosso atacante ser argentino e, claro, não ter a menor possibilidade de ser chamado pelo Felipão, demonstra o entusiasmo da torcida com o time neste início de temporada. Muitos amigos gremistas, por exemplo, não se cansam de me telefonar ou escrever por e-mail (ainda não inventamos o verbo emeiar, certo?) para elogiar Luan, que a cada partida revela-se melhor. Há os que preferem destacar o trabalho de Enderson Moreira, técnico que chegou sem tanta banca nem fama e tem imposto sua marca na forma de o time jogar.

 

A satisfação do torcedor faz sentido, pois apesar de sairmos de campo com um empate e sem marcar gols, ontem à noite, foi evidente o bom futebol demonstrado mais uma vez. Pode-se até lamentar os gols perdidos, mas é inegável que um time que finaliza 22 vezes e tem 17 oportunidades de marcar está produzindo bastante. Sem contar que no caso de ontem, o ponto conquistado foi suficiente para selar a passagem às quartas de final do Campeonato Gaúcho no momento em que estamos iniciando mais uma desrespeitosa maratona. Sim, desrespeitosa, pois um time que conquista o direito de representar o Brasil na Copa Libertadores não poderia ser punido pelo calendário como o Grêmio será, pois disputará seis jogos em apenas 15 dias. Para se ter ideia, amanhã, 48 horas após a partida com o Cruzeiro, em Gravataí, enfrenta o São Luis em Ijuí, e, no domingo, tem o Passo Fundo na Arena, antes do compromisso mais importante contra o Newell’s Old Boys, da Argentina, na quarta-feira, pela Libertadores.

 

Se por um lado nossos jogadores serão expostos a esse sacrifício, nós torcedores não temos o que reclamar: não faltarão partidas para vibrarmos com as boas jogadas do tricolor e, de preferência, com os gols que serão marcados.

Avalanche Tricolor: foi uma várzea só!

 

São Paulo 2 x 1 Grêmio
Gaúcho – Aldo Dapuzo (Rio Grande)

 

 

A mais de 300 quilômetros da capital, Porto Alegre, e bem ao extremo do Estado, Rio Grande é cidade com vida própria, personalidade conquistada talvez pela posição geográfica e pela força econômica proveniente do porto. Foi, aliás, a primeira capital do Rio Grande do Sul. Lembro das viagens até Rio Grande na época em que jogava basquete pelo Grêmio, que só não eram mais desgastantes do que enfrentar o Ipiranga, time que levava o nome da petrolífera instalada na cidade e de relevância no esporte gaúcho. É de lá, também, o mais antigo clube de futebol em atividade no Brasil, o Sport Clube Rio Grande, fundado em 1900, vinte três dias antes da Ponte Preta, de Campinas. Apesar do feito histórico, o Rio Grande disputa, atualmente, a segunda divisão do Campeonato Gaúcho e o time de destaque na cidade é o São Paulo, assim batizado para homenagear o estado de origem de um de seus fundadores. Foi campeão gaúcho em 1933, coincidentemente vencendo o Grêmio por 2 a 1, mesmo placar da partida disputada no sábado de Carnaval. Pela qualidade do estádio e do campo, imagino que ambos sejam patrimônio daquele época também, pois há muito tempo não assistia a um jogo disputado em local tão impróprio e capaz de colocar em risco a integridade de atletas profissionais.

 

As arquibancadas acanhadas e abertas para oito mil torcedores não chegam a ser um escândalo, pois devem estar a altura do público que costuma assistir às partidas dos dois principais clubes da cidade. No sábado, foram pequenas para tanta gente, especialmente os gremistas que moram na cidade e queriam ver o clube pela primeira vez em 20 anos. Não conseguiram ver muita coisa, além de estar próximo de seus ídolos, já que o alambrado fica encostado na linha lateral, e, se agiram como eu diante da televisão, torceram tanto por uma vitória quanto para que nenhum dos nossos atletas deixasse o campo machucado. O gramado, não bastasse estar enxarcado pela chuva, tem uma quantidade inimaginável de buracos que impedem a troca de passe e surpreendem os goleiros a cada chute a gol. Há um trecho da intermediária em que a grama simplesmente morreu e levou junto a qualidade técnica do futebol jogado, o que talvez explique a dificuldade que o São Paulo está tendo para escapar da zona de rebaixamento. Verdade que ambas as equipes perdem diante deste palco, mas não há como pedir aos jogadores do Grêmio, que tem pretensões que vão muito além do Campeonato Gaúcho, que se exponham a riscos. Aliás, era de se rever a escalação da equipe neste sábado, pois atletas importantes para a campanha da Libertadores estiveram em perigo.

 

Dizer que o jogo foi disputado na várzea não é exagero. Campos de futebol na periferia de São Paulo, e creio que em Porto Alegre, também, têm gramado em melhores condições do que aquele. Sem contar a presença de um árbitro que parecia estar deslumbrado com o fato de apitar jogo do Grêmio e ter entrado em campo com a pretensão de aparecer em cima do time grande da capital. Era agressivo nas marcações de falta, cobrava de forma exagerada bom comportamento dos jogadores e inventou um pênalti que deu a vitória para o São Paulo. Para a várzea ficar completa, o Canal Premier FC, a quem pago para ver às partidas do Grêmio, passou a transmitir o jogo do Atlético Paranaense quando ainda faltavam os três minutos de acréscimo. A imagem só voltou à Rio Grande no lance final de partida.

 

Uma várzea só!

Avalanche Tricolor: Barcos, Luan, Dudu e o backup garantido

 

Grêmio 3 x 0 Novo Hamburgo
Gaúcho – Arena Grêmio

 

 

Cheguei em casa minutos antes de a partida se iniciar no início desta noite de sábado. Ainda tive tempo de ver a escalação do time na tela da televisão e perceber que estávamos com uma bela equipe em campo, mesmo que o anúncio oficial fosse de que não jogaríamos com os titulares. Quase me atrasei porque tive de correr até o shopping mais próximo para comprar um substituto para o meu Airport Time Capsule, equipamento da Apple de dupla função: roteador de internet e backup automático. O anterior havia pifado após uma série de cortes de energia elétrica no bairro em que moro, em São Paulo. Por aqui é comum a luz cair quando chove e, apesar de raros neste verão, os rápidos temporais foram suficientes para causar problemas na rede elétrica que com sua fiação aérea está exposta às intempéries como chuva e fortes ventos. Não é o primeiro equipamento eletrônico que perco nesta brincadeira sem graça, recentemente tive de trocar o Sling Box, aquela caixinha mágica que me permite assistir aos jogos do Grêmio mesmo quando estou longe do Brasil. A corrida para comprar o equipamento de backup da Apple, neste sábado, se justifica, pois jamais devemos arriscar o conteúdo que desenvolvemos ao longo do tempo e armazenamos em nossos computadores. São fotos, textos, áudios, vídeos e apresentações de uso pessoal e profissional de valor inestimável. Costumo tratar este tema do armazenamento de dados tendo como inspiração uma máxima do futebol: quem tem dois, tem um; quem tem um, não tem nenhum.

 

Foi ao ver o Grêmio em campo mais uma vez com ótimo desempenho, mesmo tendo parte de seus jogadores principais descansando para a disputa mais importante que será terça-feira à noite, pela Libertadores, que lembrei do providencial ditado. Afinal, o talento de alguns de nossos “reservas” mostra que, ao contrário de todas as previsões, estamos construindo um elenco mais completo do que na temporada passada. Verdade que o maior destaque de hoje foi um titular absoluto: Barcos. O atacante fez gol de pênalti, deu passe para gol e recebeu passe para fazer gol. Ou seja, voltou a executar seu papel: marcar muitos gols, no caso um por partida e já assumiu a artilharia do Campeonato Gaúcho. Ao seu lado, Luan novamente apareceu bem e fez das jogadas mais bonitas da noite ao dar assistência para o terceiro gol. Dudu foi outro que deu gosto de ver jogar, seja pela velocidade que o levou a iniciar e concluir a jogada do segundo gol, seja pelo desejo de chutar a gol ou seja pelo toque refinado que coloca seus colegas em condições de gol. Para se ter ideia de como esta definição de quem tem capacidade ou não de sair jogando como titular é complexa, entraram no segundo tempo Max Rodrigues e Jean Dereti. Alguém colocaria em dúvida a qualidade deles?

 

Sei que não devemos nos iludir com vitórias no Campeonato Gaúcho, os adversários não estão com esta bola toda, mas convenhamos que tem sido um prazer assistir aos jogos do Grêmio. Contra esses adversários, em temporadas anteriores, não pudemos dizer o mesmo. Além da satisfação do jogo bem jogado, hoje à noite tivemos uma prova de que o elenco tem ótimas peças de reposição. O nosso backup está garantido (o meu e o do Grêmio).

Avalanche Tricolor: não dá pra não ver

 

Caxias 2 x 3 Grêmio
Gaúcho – Centenário (Caxias-RS)

 

 

Começo esta Avalanche com um pedido de desculpas. Com a quarta-feira lotada de compromissos desde às cinco horas da manhã e sem direito a adiá-los, sendo alguns extremamente complexos, já havia me comprometido a não ver o jogo do Grêmio, com horário marcado para começar às 10 da noite, momento em que deveria estar na cama, dormindo e recuperando a energia para nova maratona nesta quinta-feira. Além disso, era mais uma partida pelo Campeonato Gaúcho de pouco risco a medida que estamos muito bem obrigado na tabela de classificação. O trabalho realmente se estendeu por boa parte do dia e ao chegar em casa ainda faltavam alguns textos e projetos a serem desenvolvidos. Coincidentemente, as tarefas se encerraram às 10 da noite, quando fui para o quarto dormir. Liguei a televisão para relaxar e lá estava o Grêmio.

 

Não sei se você teve a oportunidade de assistir ao jogo. Mas desde o início viu-se uma dinâmica interessante da equipe, com nossos jogadores se movimentando de forma harmoniosa, mantendo o domínio da bola, trocando passes de pé em pé e driblando os marcadores com talento. O gol de Zé Roberto foi resultado claro desta variação de jogadas com uma conclusão de categoria desviando a bola do goleiro. Tivemos percalços na defesa, vacilos que permitiram a virada no placar após dois gols de cabeça em que o adversário estava sozinho dentro da área. Nem isso porém parecia abalar o jeito do Grêmio jogar, a ponto de termos conseguido o empate ainda no primeiro tempo com um gol e tanto do atacante Barcos. Ele queria cruzar ou chutar a gol? Pouco importa. Seja qual tenha sido a intenção, sinalizou que a sorte está mudando para o argentino. Tanto é verdade que foi o próprio Barcos quem, no segundo tempo, definiu a vitória em jogada inusitada que se iniciou com um chutão do goleiro Busatto, na cobrança do tiro de meta, que caiu atrás da defesa adversária e foi muito bem aproveitado pelo goleador redivido.

 

Como você deve ter percebido, ao contrário da minha promessa, assisti à toda partida, sem tirar o olho da televisão, sofrendo com a virada e vibrando com as boas jogadas. Não tive coragem de dormir antes do apito final, mesmo sabendo o preço que pagaria nesta quinta-feira. Aí você deve se perguntar, então, por que o Mílton pede desculpas? Peço desculpas ao Grêmio, a este Grêmio que nos tem admirado nos últimos jogos, por ter levantado a possibilidade de não ver a partida de ontem à noite. Com o futebol que o time de Enderson Moreira está apresentando, mesmo diante de algumas falhas como ontem, não dá para ficar sem o Grêmio.

Avalanche Tricolor: programa de domingo

 

Esportivo 1 x 3 Grêmio
Gaúcho – Bento Gonçalves (RS)

 

 

A costela foi salgada e levada à churrasqueira pouco fora do horário, o que se justifica pelo desacerto entre o relógio biológico e de parede, que teve de ser atrasado ontem à noite para se adaptar ao fim do horário de verão. Depois de 199 dias tentando se acertar com a hora que foi tirada no fim de outubro, precisamos de alguns dias para voltar ao normal. Por isso, ninguém se incomodou ao ver o fogo sendo feito mais tarde. O importante era acertar o ponto da carne, desafio bem mais complicado a medida que costela não é minha especialidade. Prefiro imensamente a que é feita pelo meu irmão Christian, um comandante e tanto de churrasqueira, até porque, apesar de gaúcho, sou quase um forasteiro ao lidar com carnes. Seja para dar apoio moral a este churrasqueiro seja porque sou um cara de sorte, todos (mulher e filhos) elogiaram a carne servida. E, sinceramente, também curti roer o osso que estava com sabor especial. Aliás, esse domingo estava com um jeito especial. Além da carne e do fim do horário de verão, ficamos livres do calor absurdo que tomou conta da cidade de São Paulo nestes dois primeiros meses do ano. Não apenas a temperatura ficou amena como choveu boa parte do dia. Para completar havia o Grêmio na televisão, de volta da Libertadores e disposto a se manter na liderança do grupo no Campeonato Gaúcho.

 

Verdade que não era nenhum jogo especial, o adversário era o Esportivo, tradicional time do interior gaúcho, que passa por fase bastante complicada. O estádio Montanha dos Vinhedos, onde já tive oportunidade de cobrir partidas pelo Gauchão, nos tempos de repórter de campo, é acanhado e tem gramado irregular, capaz de atrapalhar o domínio de bola dos mais talentosos. E o Grêmio entrou com time misto, misto quente, formado por titulares, que estavam em Montevidéu, na quinta-feira à noite, e reservas, alguns bem qualificados, mas desacostumados a jogarem juntos. Mesmo diante desse cardápio, a simplicidade com que o Grêmio decidiu o jogo transformou a partida em excelente programa de domingo (principalmente para quem precisava resistir ao sono provocado pela carne que ainda pesava no estômago). Sem forçar muito, ensaiando alguns bons lances e dribles, deixando a marcação mais frouxa do que de costume, marcamos três gols de forma bem interessante pelo desenho das jogadas. O pênalti cobrado por Maxi, antes dos cinco minutos de partida, foi resultado da movimentação e talento de Luan que aproveitou passe perfeito de Riveros. O gol de cabeça de Werley veio depois de falta cobrada por Alán Ruiz, que havia sido derrubado após driblar dois adversários na lateral do campo. E a confirmação da vitória chegou com a triangulação entre Maxi Rodriguez, Moisés e Everaldo, que concluiu no gol.

 

Depois do sofrimento da quinta à noite, que só se encerrou no início da madrugada de sexta, merecíamos mesmo um fim de semana tranquilo e sem preocupação. Por falar nisso, Alán Ruiz deu sinais de que pode ser bastante útil na temporada e se tornar em grande preocupação para os adversários.