Mundo Corporativo: primeiro a metodologia, depois a tecnologia, ensina Hendel Favarin, da escola de negócios Conquer

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“Construa o produto com o cliente e não para o cliente” 

Hendel Favarin, Conquer

Fechar a porta das salas de aula e abrir acesso às salas virtuais. Levar o conteúdo para a internet. Planejar com os professores como essa migração deveria ocorrer. E contar com a experiência de alunos. O desafio que a escola de negócios Conquer encarou em março do ano passado foi o mesmo de todas as demais instituições de ensino, no Brasil. Com a pandemia decretada não era mais possível manter a mesma estrutura de ensino e foi necessário agilidade dos gestores e capacidade de adaptação diante do cenário de incerteza que surgia. 

Algumas escolas tiveram mais sucesso do que outras nessa transformação digital. Um dos motivos para isso, segundo Hendel Favarin, co-fundador da Escola Conquer, entrevistado no programa Mundo Corporativo, foi entender que primeiro vem a metodologia e depois a tecnologia:

“Nossa taxa de desistência foi de cerca de 1,5%. A falta de engajamento (em algumas escolas) não foi por causa da tecnologia, mas porque a metodologia foi colocada à prova e o aluno não estava no centro da experiência”.

A Conquer foi fundada, em 2016, por Hendel Favarin, Josef Rubin, e Sidnei Junior, em Curitiba, a partir da insatisfação dos três jovens empreendedores com o ensino tradicional. Para eles,  especialmente as faculdades e os cursos de pós-graduação tinham conteúdo desconectado do mercado de trabalho, metodologia ultrapassada e professores muito teóricos e com pouca experiência no dia a dia dos negócios. 

“Nós surgimos para desenvolver softskills que fazem toda a diferença para um profissional alavancar seus resultados, independentemente da sua formação”

Hendel conta que a Conquer tinha 2 mil alunos em aulas presenciais até o início da pandemia. Com o conteúdo online, criação de cursos gravados e a oferta de graça de um curso sobre inteligência emocional, a escola passou a atender 30 mil alunos nos meses seguintes e, desde sua fundação, já conseguiu alcançar 1 milhão de pessoas de 80 países:

“O alcance e o impacto dos cursos digitais durante a pandemia proporcionaram maior acesso, maior democratização, porque os preços naturalmente caíram. Os cursos digitais permitem uma redução de preço, não têm todo aquele custo da infraestrutura presencial. Então os cursos acabaram diminuindo o seu tíquete médio e aumentando o alcance. É muito interessante porque hoje a gente vê alunos não só de todo o Brasil, mas também de muito mais classes sociais”.

A maior perda com o ensino à distância, de acordo com Hendel, foi com a criação de redes de relacionamento que é incomparavelmente maior no presencial do que no digital. O trabalho remoto também trouxe novas demandas aos líderes e gestores, aspectos que têm sido levado em consideração nos diversos cursos oferecidos pela escola: 

“As empresas que se destacaram foram as empresas que priorizavam a gestão pautada em pessoas, focada na conexão e empatia para as pessoas O líder fez toda a diferença. Gerando empatia, compartilhando suas vulnerabilidades, falando de suas falhas, seus acertos, seu aprendizado. A humanização líder: esse é o grande pulo do gato para se conectar à distância com suas equipes”. 

Com apenas 30 anos, Hendel, assim como seus dois sócios fundadores, também usam de sua experiência no empreendedorismo para ajudar outras pessoas a alavancarem os seus negócios. No programa Mundo Corporativo, ele deixou algumas sugestões para quem pretende iniciar seu empreendimento:

  • Construa o seu produto com o cliente e não para o seu cliente
  • Experimente, não tenha medo de errar
  • Esteja disposto a testar
  • Lance o MVP ou o Produto Mínimo Viável
  • Leve para o mercado o mais rápido possível
  • Observe, escute, aprenda e mude

O Mundo Corporativo pode ser assistido, ao vivo, às quartas-feiras, 11 horas, no canal da CBN no Youtube, no Facebook e no site da CBN. O programa vai ao ar aos sábados, no Jornal da CBN, aos domingos, às 10 da noite, em horário alternativo, e pode ser ouvido a qualquer momento em podcast. Colaboram com o Mundo Corporativo: Izabela Ares, Bruno Teixeira, Rafael Furugen e Priscila Gubiotti.

Mundo Corporativo: Paulo Castello, da Fhinck, diz que pandemia mostra que trabalhamos mais do que precisamos

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“Nós fomos treinados a trabalhar em fábrica. Você  tem de repetir procedimentos. Agora tem uma migração para personalização. O trabalho vai ser pessoal, você vai ser o seu próprio CNPJ.”

Paulo Castello, Fhinck

Com o uso de recursos digitais, a empresa percebeu que um dos departamentos sempre apresentava queda de produtividade e foco no trabalho, no fim da tarde. Por cerca de um mês fizeram quatro testes para entender como melhorar o desempenho do grupo. Trocaram a disposição dos colaboradores, mexeram no desenho do escritório,  reduziram o expediente de oito para seis horas e depois para quatro horas. Tudo devidamente medido, a conclusão foi de que com apenas seis horas de trabalho, o grupo renderia melhor, manteria a mesma produtividade em todo o expediente e ainda ganharia duas horas de lazer.

Paulo Castello, CEO e fundador da Fhinck, contou essa história ao Mundo Corporativo, para sustentar a ideia de que trabalhamos mais do que necessitamos, uma tese que vem sendo defendida ao longo do tempo, desde que se passou a questionar o processo fabril que ainda molda as relações de trabalho em boa parte do mundo. O empresário sempre esteve conectado ao tema da inovação que, pelo que se percebe, não se restringe a tecnologia, apesar desta ser essencial nesses tempos.

Foi para encontrar soluções tecnológicas que permitissem a medição do desempenho operacional, da produtividade e da qualidade de vida dos colaboradores, que Paulo fundou a Fhinck Business Solution, em 2014, uma “startup brasileira”, como faz questão de ressaltar:

“A gente usa inteligência artificial. Nosso software coleta dados enquanto você trabalha, o tempo de cadeira, fora da cadeira, sistemas que usa, tendências e comportamentos”.

Uma das mudanças identificadas com a pandemia em que a maior parte das empresas mandou seus colaboradores para casa foi o aumento de até 22% do foco dos colaboradores no trabalho. Estudos desenvolvidos na Universidade de Harvard e pelo MIT já haviam mostrado essa tendência. Após o investimento em ‘open space’, que são os ambientes corporativos abertos, sem salas ou cubículos funcionando como estações de trabalho, aumentou a interação das pessoas e o fluxo de ideias. Por outro lado, as distrações cresceram na mesma proporção. Em casa, o profissional concentra-se por mais tempo e de forma mais efetiva. 

O problema é que a maioria dos profissionais não foi preparada para o home office e acaba perdendo o controle sobre a sua jornada, com danos psicológicos e físicos. Paulo conta que na própria Fhinck, um mês depois de todos os funcionários estarem em trabalho remoto, descobriu-se que a maioria não estava almoçando direito:

“Com nossa tecnologia travamos as agendas de trabalho de todos, do meio-dia às duas da tarde. Aumentamos o horário de almoço, porque em casa precisamos preparar a comida, ao contrário de quando estamos no escritório, que se vai ao restaurante”. 

Os dados ajudam a entender de uma forma mais ampla todas as tendências e padrões da jornada de trabalho, inclusive riscos trabalhistas:

“Se os RHs não prestarem muita atenção ou terão problemas trabalhistas ou terão problema de evasão de talentos para outras empresas que vão propiciar um ambiente de trabalho mais regular. Com uma rotina mais estruturada”

A previsão é que um dos legados da pandemia e do ‘home office’ forçado será o modelo híbrido na forma de trabalho, com parte das funções sendo realizadas em escritórios e outra à distância. No futuro, não muito distante, Paulo entende que os contratos terão de de se adaptar porque haverá uma mudança radical no formato atual, com expediente em horário comercial, das 8 da manhã às 5 da tarde. Haverá a possibilidade de os profissionais não serem exclusivos de uma empresa, mas fazerem aquilo que gostam e como gostam, em tarefas a serem contratadas através de plataformas digitais, com demandar específicas. 

“É importante não ficar preso a modelos do passado”

O Mundo Corporativo pode ser assistido ao vivo, às 11 da manhã, pelo site da CBN e pelas páginas da rádio no Facebook e no Youtube. O programa vai ao ar aos sábados, no Jornal da CBN; domingo, às dez da noite, em horário alternativo, e pode ser ouvido a qualquer momento em podcast.

Mundo Corporativo: Carolina Utimura, uma ativista disposta a inspirar a jovem potência, no Brasil

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“Acho que o que eu sempre tive foi humildade de saber que eu preciso aprender com essas gerações mais velhas, mais experientes … E algo que eu sempre trouxe para mim é que eu vou tentar completar essa falta de experiência com muito estudo” Carolina Utimura

Iniciar uma reportagem com Carolina Utimura sem dar destaque para a idade dela parece impossível. Não é sempre que se conversa com uma Chief Executive Officer de apenas 26 anos. Cargo, aliás, que ocupa na Eureca, desde o ano passado, ou seja, desde que tinha 25. Eu tentei, na entrevista que fiz no programa Mundo Corporativo e vai ao ar nesse sábado, no Jornal da CBN. E o fiz já na primeira pergunta.

Ao me responder se o “seu mérito é a sua idade?”, Carolina de cara revelou a maturidade que a levou ao posto de comando da empresa especializada na seleção e desenvolvimento de jovens para vagas de estágio e trainee: 

“Tive um monte de privilégio na minha formação. Fazer uma faculdade pública. Tenho uma família me ajudou a investir na formação. Fazer um trabalho voluntário dentro de uma empresa júnior. Eu acho que foi uma sequência de coisas que me ajudaram a acelerar um pouco mais a carreira”. 

Uma carreira para a qual se preparou desde os tempos da universidade, quando conheceu o movimento de empresas júnior, que reúne alunos de diversas áreas e interesses em organizações e ações empreendedoras que prestam serviços para pequenos negócios. É uma enorme oportunidade de desenvolver habilidades de comunicação, liderança e trabalho em equipe.  Já entre os mais novos, Carolina se destacou como ativista da juventude e, no último ano da faculdade, foi eleita presidente da Federação Brasileira de Empresas Júnior. 

“Desde quando entrei no primeiro ano havia o desafio de cuidar de uma empresa de verdade, fazer projetos reais para clientes reais, atendíamos microempresas da região. No meu caso em Bauru. Temos metas financeiras, de projetos e qualidade destes projetos. E conseguimos nos conectar com pessoas de todo o Brasil”

Com a pandemia, o número de jovens desempregados aumentou consideravelmente e programas de estágio e treinamento também não cresceram a ponto de absorver essa mão de obra e oferecer a experiência que necessitam para entrarem no mercado de trabalho. 

O Brasil tem hoje 50 milhões de pessoas com idade entre 15 e 29 anos, um número que equivale a toda a população da Argentina e cinco vezes a de Portugal. Cerca de 30% desses jovens estão desempregados e sem estudar, o que leva técnicos a identificá-los como a geração ‘nem-nem’ — uma expressão que é rechaçada por Carolina Utimura (e por este jornalista, também):

“…porque não transmite a causa raiz desse problema. Especialmente depois da pandemia, vemos um movimento muito forte de evasão escolar, evasão universitária, do desemprego juvenil, também. A gente vê que tem causas muito atreladas a ele conseguir ingressar ao ensino superior, conseguir terminar seus estudos, a ter acesso a boas vagas de trabalho, a própria  composição da família. São alguns pontos que acabam dificultando essa potencia dos jovens”.

O impacto do momento atual, de acordo com Carolina, deverá ser percebido na mudança de comportamento dos mais jovens:

“Eu gosto de falar de juventudes, com s, no plural, trazendo a diversidade que temos dentro desse público. Alguns comportamentos que a gente trazia dos milênios, da geração Z, de serem impacientes, não quererem ficar muito tempo no trabalho, vão mudar, porque a instabilidade financeira pode ser um item do cenário que a gente está vivendo”.

Na Eureca, a busca de candidatos a vaga de estágio ou trainee não passa pelo que chamam de “jovem de prontidão”, o de melhor faculdade e de melhores escolas, mas pelos que têm de potencial. Algumas das características que se destacam são o de ser questionador, ter visão crítica, empatia, que permite entender os colegas de trabalho, clientes e consumidor. Com a pandemia cresceu, também, a necessidade de se saber fazer a autogestão emocional para enfrentar os momentos de volatilidade e inconstância.

Além, de atuar na colocação dos candidatos, a empresa desenvolve uma série de trabalho para a capacitação dos jovens. Para aqueles interessados em se beneficiar das oportunidades oferecidas, é possível encontrar as vagas de trabalho disponíveis no site Eureca.me.

Para Carolina Utimura, a verdadeira potencia dos jovens brasileiros somente será percebida quando se melhorar a gestão e qualidade do ensino, adaptando-o às necessidades do mundo atual:

“Boa parte dos jovens passa pela escola sem ter habilidade de interpretação de texto, sem habilidade de fazer contas mais básicas da matemática; então, quando a gente fala muito sobre transformação digital e indústria 4.0, a gente também tem de falar sobre uma revolução educacional 4.0”.

O Mundo Corporativo vai ao ar aos sábados, às 8h10 da manhã, no Jornal da CBN, e aos domingos, às 10 da noite, em horário alternativo. O programa também está disponível em podcast. Colaboram com o Mundo Corporativo: Juliana Prado, Bruno Teixeira, Débora Gonçalves e Rafael Furugen.

Mundo Corporativo: Armando Lourenzo da EYU sugere investimento em comunicação para reduzir distâncias do trabalho remoto

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“Tem duas competências que são chaves: a accountability é uma; a capacidade de aprendizado contínuo e ágil é outra. Então a gente precisa se atualizar constantemente. A gente tem de ter prontidão para aprender.”

Armando Lourenzo, EYU

Ao assumir o cargo de liderança você descobre que para alcançar as metas propostas pela empresa dependerá das outras pessoas. Diante dessa realidade, muitos profissionais acabam centralizando as ações, acreditando que com o controle nas mãos a performance vai melhorar e os resultados serão alcançados. Ledo engano, pensa Armando Lourenzo, diretor da EYU no Brasil e América Latina, entrevistado do programa Mundo Corporativo da CBN. Para ele, ao agir dessa maneira, deixa-se de oferecer experiências aos colaboradores, e o líder não cumpre uma de suas funções: agregar valor às pessoas.

“Existe um mantra na sociedade de que ‘eu trato as pessoas como eu gostaria de ser tratado; eu não concordo com isso, eu acho que a gente tem de tratar as pessoas como elas gostariam de ser tratadas. Aí é você praticar a empatia. É você se colocar não no lugar da outra pessoas, mas entender como ela funciona”

Autor do livro ‘Liderança na prática — como liderar pela primeira vez’, Armando ensina que ter conhecimentos técnicos, tanto do próprio negócio como da função que exerce, são importantes mas não, suficientes:

“Para liderar equipes é crucial desenvolver soft skills. Assumir um cargo de liderança pela primeira vez será, provavelmente uma das fases mais desafiadoras da sua vida profissional”.

Imagine esse desafio sendo assumido em um cenário totalmente incerto e complexo como este imposto pela pandemia. Ao líder —- novato na função ou não —- as exigências são ainda maiores. Na EY, tradicional no setor de consultoria e auditoria, os 300 mil colaboradores foram trabalhar remotamente, em março de 2020. Segundo Armando Lourenzo, o braço acadêmico da instituição ofereceu programas de desenvolvimento pessoal para melhorar a produtividade do trabalho à distância,  para resolução de problemas complexos e liderança remota:

“Você tem uma serie de aspectos que estão mudando. A gente está passando por um processo de transformação digital, com uma economia compartilhada, as pessoas querem mais flexibilidade no trabalho, as pessoas querem mais qualidade de vida. O ambiente é totalmente diferente. Se você tiver uma postura de chefe como no século passado, na década de 50,  não consegue sobreviver nos dias de hoje”

Algumas sugestões que podem tornar o ambiente virtual mais produtivo e saudável, com base na experiência da EY são:

  1. Gestão de emails, com seleção apenas daqueles que realmente devem ser respondidos;
  2. Estabelecimento claro dos meios de comunicação por onde serão feitos os contatos
  3. Agilidade no feedback, para impedir que ‘fantasmas’ apareçam na comunicação interna dos colaboradores —- o que antes era resolvido no bate-papo de corredor agora pode demorar e se transformar em uma crise em pouco tempo.

Armando Lourenzo chama atenção em especial para os problemas de comunicação que devem ser atacados firmemente. Da mesma forma que é importante fazer cursos de oratória, aprender a se expressar e desenvolver a capacidade de se apresentar por meios virtuais, o diretor da EYU recomenda que se aprenda a escutar:

“Talvez seja o mais relevante a aprender. Muitas vezes, em uma reunião, todo mundo está falando e tem uma pessoa que observa a todos. É ela quem tende a fazer a pergunta que vai mudar por completo o rumo da reunião”. 

O Mundo Corporativo pode ser assistido, ao vivo, às quartas-feiras, 11 horas, pelo site e nas páginas da CBN no Facebook  e no Youtube. O programa tem a colaboração de Juliana Prado, Bruno Teixeira, Rafael Furugen e Priscila Gubiotti.

Mundo Corporativo: ao deixar cargo de presidente da L’Oréal no Brasil, An Verhulst-Santos diz que legado é uma empresa mais diversa, digital e próxima das pessoas

Foto: Divulgação

“Vai precisar ter muita resiliência. Nós estamos vivendo um momento difícil. Muita criatividade, muita fé que as coisas vão melhorar. Eu acho que cada um se sente mais conectado com os outros. E vamos sair muito mais fortes do que entramos”


An Verhulst-Santos, L’Oréal no Brasil

“Como você está?” passou a ser a pergunta chave nas conversas corporativas, desde o início da pandemia, nos escritórios e fábrica da L’Oréal no Brasil. Pergunta que pouco se fazia na época em que todos dividiam o mesmo espaço físico; e na pressa de dar início as reuniões de trabalho, era esquecida, sem considerar que o colega ao lado levava à empresa sentimentos e emoções. 

De acordo com An Verhulst-Santos, presidente da multinacional francesa aqui no Brasil, a forma de conversar e ouvir o outro  foi uma das mudanças de comportamento necessárias para que gestores e colaboradores superassem o desafio imposto pelas restrições sanitárias que levaram ao distanciamento e ao trabalho remoto. Uma mudança que permanecerá influenciando as relações com colegas, parceiros de negócio e clientes:

“Nesse momento, nunca fomos tão perto das nossas equipes, dos nossos parceiros e das nossas consumidoras para ouvir suas necessidades … ’Como você está? virou algo muito importante para conectar”.

No último dia como presidente da L’Óreal no Brasil, An Verhulst-Santos conversou com o Mundo Corporativo e demonstrou muita satisfação com os resultados alcançados nesta segunda passagem pelo país. Ela segue agora para o Canadá onde assumirá outro posto de comando na empresa, na qual trabalha há 30 anos:

“O Brasil é um país extremamente especial para mim, é meu pais do coração. Eu sou uma líder muito colaborativa, com muita empatia, que trabalha muito a inclusão. E nós deixamos um trabalho lindo, reforçado  com uma equipe maravilhosa e de excelência. E um grande trabalho sobre a digitalização, sobre a sustentabilidade e sobre a diversidade e inclusão”.

An também deixa uma empresa que investiu alto na transformação digital para se adaptar às necessidades das clientes, no último ano. Ela calcula que em cinco meses foram implantadas mudanças que estavam previstas para os próximos cinco anos, acelerando a ideia que tem movido a L’Oreal de ser a empresa número um de ‘beauty tech’ no mundo. Uma das inovações foi para atender a demanda de clientes acostumadas a experimentar os produtos antes de comprá-los: uma ferramenta na qual é aplicado o conhecimento de ‘realidade aumentada’ que permite que as consumidoras façam simulações com os produtos, sem sair de casa.

Ao mesmo tempo que algumas soluções vieram de experiências no exterior, outras foram caseiras, graças a relação da L’Oréal com startups do setor que atuam no Brasil. De acordo com a executiva, um exemplo foi a plataforma que permitiu o uso de WhatsApp para as clientes tirarem suas dúvidas e receberem conselhos de funcionárias da empresa, o que resultou em 20% mais conversões de venda do que o acesso pelo site. A realização de live-streaming  no qual a cliente podia comprar o produto ao mesmo tempo em que participa do evento foi outro projeto criado no Brasil.

“A consumidora brasileira é uma consumidora extremamente exigente, uma consumidora que tem demandas sobre a vivência, necessidades muito particulares. E quando você consegue trazer produtos para o mercado brasileiro, você consegue convencer qualquer consumidor no mundo inteiro”

Sobre diversidade, um dos aspectos que chama atenção na troca de comando é que a primeira mulher a assumir a presidência da empresa no Brasil será substituída por um homem, Marcelo Zimet, quando a expectativa era de que continuasse sob uma liderança feminina, especialmente porque a L’Oréal tem como sua clientela principal as mulheres. An nega que isso seja um retrocesso e lembra que as mulheres são 64% dos colaboradores da empresa e 55% dos cargos de liderança:

“Por que seria um recuo? Marcelo é um homem extraordinário, um brasileiro não só de coração, mas também de nascimento, que conhece super bem o Brasil e trabalha há bastante tempo na empresa e que conhece bem o consumidor. O assunto não é só de ser homem ou mulher para trabalhar na beleza. O assunto é de tentar entender, de ter a empatia de escutar o consumidor e de escutar a necessidade que essa pessoa tem … Não é, ser homem ou mulher, é a complementaridade de todas essas pessoas juntas que faz essa empresa mais forte.”

Apesar do crescimento que teve dentro da L’Oréal, An lembra que sua trajetória, sim, enfrentou dificuldades e barreiras inerentes ao mundo corporativo. Para superá-las, exercitou a resiliência – característica que por várias vezes citou durante a entrevista –, especialmente quando teve de convencer os outros de seu ponto de vista. Em relação a liderança feminina, ela diz que, por tudo que passam na vida, as mulheres criam uma força que as capacita a encarar os desafios da profissão:


“Uma mulher que seja CEO ou não seja CEO é CEO da vida dela. Porque nós temos uma força tão grande, as mulheres, de fazer este multitask. Nós somos capazes de fazer nosso trabalho, ser mãe, ser parceira, fazer muitas coisas ao mesmo tempo, eu acho que isso é que faz as mulheres o CEO da vida dela”

O Mundo Corporativo pode ser assistido ao vivo, às quartas-feiras, 11 horas da manhã, no canal da CBN no Youtube, no Facebook e no site www.cbn.com.br. O programa vai ao ar aos sábados, às 8h10, no Jornal da CBN, domingo, às 10 da noite, e em podcast. Colaboram com o Mundo Corporativo: Juliana Prado, Izabela Ares, Bruno Teixeira, Débora Gonçalves e do Matheus Meirelles.

Mundo Corporativo: José Salibi Neto decifra o algoritmo da vitória

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“Eu acredito muito no potencial do ser humano. Eu já fui transformado alguma vezes. Mas você precisa ter alguém junto para te ajudar em alguma situação. E nesse caso é o grande treinador, o grande coach”, José Salibi Neto

O algoritmo é uma sequência de instruções bem definidas. Mas nas relações humanas, regras e procedimentos não são perfeitamente definidos. Então, para fazer esse algoritmo rodar com resultados satisfatórios é essencial a figura do coach ou do treinador que tem de adaptar esse sistema a quem ele treina, ter engenhosidade para conectar essas duas pontas  — algoritmo e esportista — e converter problemas maiores em partes menores e mais simples de resolver.

Essa é a ideia central do trabalho desenvolvido por José Salibi Neto, ex-tenista, cofundador da HSM e dos maiores especialistas em gestão no país, e Adriana Salles Gomes, admiradora de esportes, especialmente dos cavalos de corrida, jornalista e craque em economia e negócios. Juntos, escreveram o livro ‘O algoritmo da vitória” (Planeta Estratégia), após cinco anos de muita pesquisa, leitura e entrevistas com alguns dos melhores técnicos esportivos do mundo. 

José Salibi Neto falou do resultado deste projeto e de como aplicá-lo na gestão de negócios, no programa Mundo Corporativo, da CBN. E falou  com o mesmo entusiasmo da época em que, jovem e estudante na Universidade da Carolina do Sul, entrava em quadra com o sonho de ascender ao topo do ranking mundial. Na época nem tudo saiu como ele planejava, por isso teve se transformar algumas vezes —- como destacado na frase que abre este texto. O esporte, no entanto, virou lição e metáfora para a sua carreira:

“O CEO na verdade é o técnico do time dele, ele é o grande coach. Tem que colocar os jogadores certos nas posições certas. Desenvolver a cultura do time. Fazer o treinamento. Analisar cada um dos seus comandados para ver quais são os seus pontos fortes e os seus pontos fracos. Então, esses grandes treinadores, eles são muito cuidadosos nisso porque eles não podem errar”

Um líder de excelência é capaz potencializar os talentos que têm em seu time. Foi o que fez Larri Passos com Gustavo Kuerten, um jovem de grande talento mas que tinha sua vida marcada por uma série de intempéries que poderiam tirá-lo completamente do foco da carreira vitoriosa que construiu. 

“O caso mais dramático foi o caso do Guga, porque ele tinha tudo para dar errado, perdeu o pai em uma quadra de tênis, aos nove anos, a mãe era assistente social, o irmão necessidade de ajuda constantes devido a problemas de saúde e ele vivia em uma cidade sem tradição no esporte”. 

Para se entender o algoritmo da vitória explorado por técnicos de grande sucesso nos mais diversos esportes, José Salibi e Adriana o dividiram em oito etapas:

  1. Encantar — aqui contam os critérios para recrutar talentos, desenvolver atletas, criar neles autônoma e amor pelo que fazem
  2. Kaizen mental — é preciso balancear foco e relaxamento, e trabalhar tanto mente como corpo: “no mundo empresarial ninguém se importa com isso”
  3. Time escalador — é necessário montar um time com pessoas complementares, em talento, em personalidade, em experiência e em energia; e saber construir confiança e controlar o ego
  4. Código de Comunicação —- palavras, imagens e gestos são códigos que precisam ser criados com seus atletas; entender qual o momento adequado para transmitir a mensagem: “às vezes você mata o talento na maneira de se comunicar”
  5. Estrategizar — o técnico precisa pensar estrategicamente, planejaras diversas etapas, priorizar resultados e competições ao longo da temporada, identificar alternativas
  6. Ambiente de crescimento —- tem de alternar estabilidade e mudança para que os atletas aprendam e cresçam; pensar em processos, relacionamentos, estruturas etc
  7. Aprendizado — o algoritmo dos técnicos precisam ser constantemente atualizados
  8. Algoritmo —- é preciso criar o próprio algoritmo, etapa por etapa, e saber rodá-lo no ‘hardware’ que é onde entrar o dono da equipe e os dirigentes que precisam estar alinhados, acima de tudo, culturalmente.

O algoritmo da vitória virou uma metodologia que pode ser aplicar a qualquer empresa e a qualquer técnica, de acordo com José Salibi Neto:

“No mundo empresarial tem de desenvolver essa mentalidade de coach. O Jorge Paulo Lemann faz isso muito bem. Veja quantos líderes ele conseguiu desenvolver. Ele se considera muito mais um diretor de recursos humanos do que CEO. Se você não desenvolver as pessoas, você não tem resultado”

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Mundo Corporativo: “o ciclo de olhar para a carreira nunca vai ter fim mas sempre vai ter um começo”, diz Gustavo Leme, especialista em RH

Gustavo Leme e Mílton Jung em entrevista no Mundo Corporativo

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O ambiente organizacional carece de uma cultura onde as pessoas tenham opinião, onde a construção seja feita com as pessoas e não para as pessoas; esse ambiente onde as pessoas podem contribuir, na medida que entendem a direção da empresa, as educa a terem opinião”

— Gustavo Leme, direto de RH

Fomos educados para não perguntar e não expressar nossas dúvidas, e isso nos coloca na contramão  das necessidades corporativas. É preciso criar espaços na empresa nos quais a aprendizagem seja incentivada, em que se desenvolva um repertório mais rico e não-linear. É o que pensa Gustavo Mançanares Leme, diretor de Gente, Gestão e Cultura do Grupo Pasquini, que atua no setor de moda. Ele é  autor do livro “O acaso não existe – ou você constrói a carreira dos seus sonhos ou alguém vai te contratar para construir a dele”.  

Em entrevista ao Mundo Corporativo, Gustavo explica que os profissionais têm de se dedicar a construir uma plataforma de carreira em lugar de um plano de carreira, que costuma ser mais comum. O plano, segundo ele, remete a um caminho mais linear, com variáveis mais conhecidas. A plataforma é onde o ecossistema se conecta com diferentes fontes, é o caminho de vida e de profissão em diferentes variáveis. 

“O que a gente mais precisa é gente que lê cenário e propõe soluções, muitas vezes não convencionais, que sejam artistas. É isso que eu sinto: faltam dentro do mercado corporativo pessoas que tragam soluções e para as pessoas trazerem solução têm de ter um conhecimento muito mais generalista, na minha visão, do que um conhecimento especialista”

A arte, para Gustavo, está conectada com a realização, por isso ele sugere que os profissionais se conectem con a arte deles, podendo escolher onde vão trabalhar, o que ocorre em 70% a 80% dos casos.  O executivo se diz surpreendido com as novas gerações porque muitos ainda entram no mercado de trabalho com o conceito de terceirizar à empresa a decisão da sua vida, talvez porque tenhamos sido educado por pais que viveram essa realidade. Gustavo explica que se o tempo comum de longevidade de uma empresa era de 40, 50 anos, atualmente está reduzido a 18 anos.

“Se a média é essa, a gente não consegue ficar na mesma empresa …. isso vai fazer que a gente mude de emprego ou porque o mercado quer ou porque essa geração está querendo fazer o que faz sentido para ela: então, temos menos tempo de empresa, dinamismo de mercado e busca de propósito.”

Perguntado por um dos ouvintes do Mundo Corporativo sobre quando se deve começar a pensar no plano de carreira (ou na plataforma de carreira) e o período em que este projeto deva ser reavaliado, Gustavo respondeu:

“Esse ciclo de você olhar para a carreira nunca vai ter fim mas sempre vai ter um começo, e esses começos não podem esperar, esse ciclo de “ah virou o ano eu vou emagrecer, vou voltar a fazer exercício” não cabe com carreira: ela é dinâmica. Nós somos donos da própria carreira. E eu acredito mesmo que o acaso não existe”

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O Mundo Corporativo vai ao ar aos sábados, às 8h10 da manhã, aos domingos, 10 da noite em horário alternativo e pode ser ouvido a qualquer momento em podcast. O programa é gravado às quartas-feira, 11 da manhã, com participação dos ouvintes pelo e-mail milton@cbn.com.br. Colaboram com o Mundo Corporativo Juliana Prado, Bruno Teixeira, Débora Gonlçaves e Rafael Furugen.

Mundo Corporativo: Marcelo Melchior, da Nestlé, diz que o grande desafio é reimaginar a empresa no pós-pandemia

 

 

“A atitude é uma coisa que faz a diferença entre o sucesso e o fracasso e não só profissional” — Marcelo Melchior, CEO da Nestlé Brasil.

Funcionários das butiques de café foram transferidos para áreas em que a pressão sobre o trabalho aumentou devido as adaptações exigidas pelos impactos da pandemia. As missões colaborativas foram uma das ações desenvolvidas pela Nestlé Brasil para evitar a demissão de profissionais nos setores que tiveram de paralisar suas atividades. Em entrevista ao programa Mundo Corporativo, o CEO no Brasil, Marcelo Melchior, disse que a agilidade nas tomadas de decisão e a diversidade das equipes ajudaram a empresa a encontrar soluções para os desafios impostos:

“Uma das coisas que ajudam muito é ter todo tipo de diversidade internamente, em termos de idade, em termos de backround, em termos de nacionalidade, em termos de religião, raça; e tudo tudo isso permite você ter todos os ângulos de um de mesmo tema e poder trabalhar de uma forma melhor”

Ter aprendido com a experiências de outras unidades no exterior — na Ásia e na Europa, por exemplo — que enfrentaram antes a chegada da crise do coronavírus, ajudou na reação da empresa aqui no Brasil, de acordo com Marcelo Melchior.

 

Além de planejar como manter o distanciamento entre as pessoas nas unidades da empresa, criar espaços com divisões para evitar o máximo possível de contato, determinar a obrigatoriedade de máscaras em todas as dependências, e fazer a medição da temperatura, na área da saúde houve preocupação quanto ao apoio psicológico dos funcionários. Para Marcelo Melchior, colaborou nessa jornada o esforço para que a comunicação fosse a mais clara possível, com trocas de informações frequentes em um ambiente em que muitas mensagens circulavam pela internet.

“Nós imediatamente entendemos que não poderíamos parar. Então, nós definimos duas prioridades muito importantes. A primeira foi a segurança e a saúde de todos os nossos colaboradores, das famílias deles e de toda nossa cadeia de fornecedores —- caso de caminhoneiros e pessoas doc campo ….. A segunda é que nos não poderíamos desabastecer o mercado no qual temos a presença de nossas marcas em 99% dos lares brasileiros”.

Uma das estratégias usadas pela Nestlé, explicou Marcelo, foi contar com a colaboração, também, de uma rede de 90 empresários locais que atuam como distribuidores da empresa, que são responsáveis pela venda e depósito dos produtos da fabricante, permitindo que se alcance uma capilaridade maior e em pequenas localidades do país. Por conhecerem de maneira particular cada uma das áreas em que atuam, isso deu agilidade para que esses empresários — que funcionam como uma espécie de força de vendas terceirizada — decidissem suas ações conforme mudavam as regras de restrições nas diversas cidades.

 

Curiosamente, a mesma tecnologia que alavancou vendas e permitiu o trabalho remoto de profissionais, passou a ser usada com parcimônia em outros setores, porque segundo o executivo da Nestlé Brasil houve uma ruptura nos dados :

“A tecnologia perdeu os seus dados históricos, porque a tecnologia são algoritmos que orientam, por exemplo, que se faça uma promoção de um produto em determinado lugar e o quanto de vendas isso vai representar. Como teve uma disrupção muito grande no mercado, a tecnologia… você tinha de ter muito cuidado. Mais do que se basear em modelos estatísticos, nos tivemos de nos basear muito na flexibilidade de jogar as coisas de uma lado par ao outro através da experiência da equipe.”

Para o CEO da Nestlé Brasil, o grande desafio agora é reimaginar a organização, aproveitando o que se aprendeu durante essa crise, o que pode se fazer que seja perene e não voltar aos vícios do passado.

“O grupo do reimaginar é o grupo dos novos planos e com horizontes diferentes. Como eu falei, a semana era um mês, um mês era o trimestre e o trimestre era um ano, porque as coisas estão mudando muito rapidamente”.

O Mundo Corporativo vai ao ar aos sábados, no Jornal da CBN; aos domingos, às 10 da noite, em horário alternativo; no canal da CBN no You Tube; e pode ser ouvido a qualquer momento em podcast. O programa tem a colaboração de Juliana Prado, Guilherme Dogo, Rafael Furugen e Débora Gonçalves.

Há 36 anos comecei a costurar esta colcha de retalhos feita de amigos, paixão e jornalismo

 

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Reprodução de foto do jornal Zero Hora, em dezembro de 1988

 

Foi há 36 anos. Tanto tempo assim faz de nossa memória uma colcha de retalhos em que pedaços são tecidos da vida real e outros, coloridos pela imaginação. Descrever agora o que aconteceu naquele 10 de agosto de 1984 talvez não condiga com a verdade dos fatos —- mas, tenha certeza, revela a memória autobiográfica que fui capaz de armazenar ao longo dos anos.

 

Foi meu primeiro dia de trabalho como jornalista ou aprendiz de jornalista, porque viria a me formar somente um ano depois. Era o início do estágio na profissão que escolhi por inércia, admiração e paixão.

 

O jornalismo fazia parte do meu cotidiano, não escapava dele nem nos almoços de domingo com a família. Filho de jornalista, afilhado de jornalista e sobrinho de jornalista, experimentei o ritmo das redação de rádio e jornal desde muito pequeno. Em minha defesa, o fato de meu irmão e minha irmão terem experimentado o mesmo ambiente e seguido por outros caminhos.

 

Minha admiração vinha da maneira como meu pai e seus colegas de trabalho eram recebidos nos locais que frequentavam. Havia um respeito em relação a eles que me deixava feliz e orgulhoso. O impacto que as notícias divulgadas no Correspondente Renner — do qual foi o titular por muito anos —- tinham na sociedade gaúcha, impressionava. A emoção que o grito de gol dele gerava no torcedor era indescritível.

 

Cheguei a me enxergar como professor de educação física —- a ponto de estudar na federal do Rio Grande do Sul —- mas havia alguma coisa no jornalismo que se expressava de maneira mais forte no meu coração.

 

A inércia, a admiração e a paixão construíram o jornalista que teve o privilégio —- pela influência do pai —- de fazer estágio em uma das mais respeitadas redações do radiojornalismo do Brasil, a da Guaíba de Porto Alegre. Era função não remunerada. Sem carteira assinada. O pagamento vinha em créditos para a conclusão da faculdade de jornalismo, realizada na Famecos, da PUC do Rio Grande do Sul. E em experiência pela convivência com alguns dos maiores nomes do jornalismo esportivo.

 

A arquitetura do prédio, que trazia características do século 19, sede da Companhia Jornalística Caldas Júnior, era imponente. Para subir os três ou quatro andares do Edifício Hudson, ao lado da Praça da Alfândega, usava-se um elevador com porta sanfonada e maquinário à mostra —- mantido assim, apenas com algumas adaptações, até ao menos a última vez em que visitei o local. Apesar da pompa e da circunstância, era como se estivesse entrando em casa. Do elevador aos corredores, das salas de redação ao bar —- que hoje não existe mais no segundo andar —-, tudo eu já havia explorado, embalado pela curiosidade de um guri de calças curtas, solto em um parque de diversões.

 

Naquele dia 10 de agosto, entrei no prédio ao lado de meu pai —- não mais de mãos dadas como fazíamos durante minha infância —-, vestindo uma uma camisa de mangas curtas, uma calça de abrigo esportivo e calçando alpargatas. Com ele fui até a sala do departamento de esportes que ficava ao fim do corredor, com janelas voltadas para a esquina da rua Caldas Júnior com a rua dos Andradas. Seria incapaz de reproduzir aqui qualquer palavra que o pai tenha dirigido a mim naquele instante; certo mesmo, pelo que conheci do velho, é que ele estava tomado pela alegria de ver seu filho dando o primeiro passo na profissão no lugar em que se consagrou como jornalista.

 

Fui apresentado ao Alexandre Pussieldi, produtor do único programa dedicado exclusivamente ao esporte amador do rádio rio-grandense. Hoje muito mais conhecido por ‘Coach’, pelos anos em que foi treinador de natação nos Estados Unidos e agora comentarista de natação da SporTV, Pussieldi foi um baita professor. Não bastasse ter sido o criador do programa em que sempre sonhei trabalhar —- afinal joguei basquete por 13 anos e, lembre-se, imaginei seguir o curso de educação física —, Alex Pussieldi foi meu mentor naquele início de carreira. Ajudou-me a construir fontes, escrever textos, produzir reportagens, fazer entrevistas e apresentar o “Esporte Amador na Guaíba”.

 

Do esporte amador para o futebol profissional; do departamento de esportes para o de jornalismo; da redação de rádio para a de jornal. Minha carreira seguiu em frente a ponto de me trazer para São Paulo. Aqui comecei pela televisão, trabalhei na internet e fui redescoberto pelo rádio. Ganhei reconhecimento e prêmios. Sinto-me privilegiado pelo espaço que me oferecem e pelo jornalismo que realizo.

 

Nestes 36 anos de profissão, em meio a tropeços e aprendizados, memórias afetivas foram construídas e alguns nomes foram essenciais para essa jornada. Assim como o pai foi o primeiro a me abrir a porta do elevador do Edifício Hudson, em Porto Alegre, teve o Alex e a Sandra que me acolheram; o Flávio que me levou para o jornalismo; o Afonso que me apresentou à vida; o Zezo que me trouxe para São Paulo; a Dina que me encaminhou para a Globo; o Montenegro que cuidou de mim na madrugada; o Marco que me aceitou na Cultura; o Everton, a Malice, a Maria e o Tato que moderaram meu ego; o Sérgio que foi minha referência como família; o Heródoto que me convidou para a CBN; o Juca que me inventou narrador na Rede TV!; o Toledo que me ensinou como funcionava a internet; a Mariza que apostou no meu talento. E, claro, a Abigail, que é o amor da minha vida.

 

Por mais distante que esteja de muitos daqueles que me ajudaram nesses anos todos —- e de tantos outros que sequer citei neste artigo —- quero que saibam o quanto os admiro pela paciência, experiência e conhecimento que compartilharam comigo. E que a colcha que minha memória está costurando desde aquele 10 de agosto de 1984, certamente, só se faz possível por sua causa.

Uma estreia abençoada pelo Frei Damião

 

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Uma pilha de DVDs está ao lado da mesa de trabalho no aguardo do cumprimento de uma das promessas que fiz no início desta quarentena que já se estende por mais de quatro meses. A primeira foi organizar a biblioteca —cumprida pouco depois de completar um mês confinado. Mesmo que os livros não tenham sido colocados de maneira que me ajude a encontrá-los com a rapidez que gostaria, acredito ter passado no teste de aprendiz de bibliotecário.

 

Desisti da promessa seguinte, assim que percebi que a quantidade de fotografias impressas —- sou do tempo em que este era um hábito comum na família brasileira, imprimir imagens —— superava minha capacidade de colocá-las em ordem cronológica nos álbuns disponíveis. Devolvi um monte delas para o baú. Quem sabe na próxima pandemia.

 

O que hoje é DVD já foi fita magnética com gravação helicoidal, que vinha enrolada dentro de uma caixa de plástico, que “desenrolava” quando introduzida em um aparelho de videocassete —- naquela época, comprado em consórcios organizados por amigos, conhecidos ou colegas de trabalho. A vida útil das fitas de videocassete era bem menor do que a dos DVS, tendiam a perder qualidade, “enrugavam” a imagem e criavam mofo se guardadas de maneira inadequada. Com a habilidade de um amigo, todas aquelas mídias mais antigas ganharam proteção digital. Foram convertidas em DVDs e ficaram por anos guardadas no fundo de um armário.

 

Nestes dias, decidi iniciar a tarefa de assistir ao que estava armazenado em cada uma dessas mídias. Empilhei o material e comecei abrir a caixa de pandora da minha vida profissional. Lá estavam minhas participações em um tempo em que ainda era Mílton Júnior — assim mesmo, com dois acentos agudos, um nome e nenhum sobrenome. Era como me chamavam em Porto Alegre e como migrei para São Paulo, em primeiro de janeiro de 1991.

 

Cheguei aqui com emprego garantido na TV Globo, algumas semanas depois de ter feito um teste meio sem querer quando estava de passagem pela capital paulista. Minha experiência em reportagem televisiva se resumia a algumas poucas pautas feitas na época em que trabalhei no SBT, em Porto Alegre, onde havia sido contratado para participar da equipe de coordenação do novo telejornal da casa. Isso lá em 1989.

 

Apresentei-me na sede da TV Globo, ainda na praça Marechal Deodoro, no bairro da Barra Funda, pouco antes da meia-noite do dia 6 de janeiro. Nervoso, deslocado, roupa pouco alinhada e uma franja do tamanho do meu atrevimento, fui apresentado à redação —- praticamente vazia naquele horário —- pelas mãos do chefe de reportagem da madrugada, João Montenegro, uma espécie de anjo da guarda que passou na minha vida. Ajudou-me a entender a cidade, levou-me ao primeiro ensaio de uma escola de samba, sentou-se comigo em um bar qualquer da região, compartilhou alguns amigos e tentou me guiar até onde era possível nos corredores do jornalismo global.

 

A primeira madrugada de trabalho passou em branco. Nenhuma ocorrência que merecesse registro. Era uma sensação estranha, entre o alívio de não ser testado e passar vergonha logo de cara e a decepção de não emplacar uma reportagem na minha estreia. Antes do dia amanhecer, porém, veio o desafio: fui escalado para entrar ao vivo no Bom Dia São Paulo, apresentado por Carlos Tramontina —- outro mestre na minha carreira. Para quem havia trabalhado até então a maior parte do tempo em rádio, falar ao vivo não chegava a ser um drama, desde que não tivesse uma câmera ligada à sua frente e milhares de pessoas assistindo você na maior emissora de televisão do país.

 

 

Meu cenário de estreia foi a fachada do Hospital São Paulo, na Vila Mariana, onde estava internado Frei Damião —- frade capuchinho, teólogo, considerado milagreiro, especialmente no Nordeste, onde fazia suas longas e corajosas caminhadas para pregar a palavra de Deus, apesar do encolhimento da coluna vertebral que o deixava cada vez mais corcunda com o passar dos anos. Na época estava com 92 anos —- viria a morrer seis anos depois —- e todos os seus passos eram acompanhados com veneração e generosidade. O estado de saúde dele, portanto, era notícia de interesse público.

 

Informações apuradas, texto pensado e a mente travada pelo medo antecederam a minha estreia naquela manhã. Pedi a quem pudesse me ouvir lá no alto — nem quem fosse logo ali no 13º andar, onde ficava o quarto de Frei Damião — que me desse uma luz para espantar o nervosismo e cumprir a tarefa da maneira menos constrangedora possível. Ensaiei o texto uma, duas, dez vezes. Minha entrada no jornal seria pouco depois das sete e meia da manhã. Uma hora antes, recebo uma ordem pelo rádio de comunicação: é preciso gravar um boletim para a TV no Recife, terra que o frade havia adotado como sua desde que veio da Itália, em 1931. Tudo o que havia preparado para dali a pouco, seria obrigado fazer aqui e agora.

 

Sem muito tempo para pensar —- ainda bem, porque se tivesse teria saído correndo —-, o cinegrafista deu o sinal e eu tive de mandar ver. Disparei a falar o texto que estava planejado. Fui sem respirar. Do início ao fim. Mal consegui prestar atenção no que eu mesmo dizia. Só queria encerrar em segundos aquele minuto de gravação. Assim que assinei a reportagem, com um “Mílton Júnior, de São Paulo”, ouvi alguém da equipe dizer: boa, agora vamos para o ao vivo.

 

O ao vivo não chegou. Um problema técnico impediu o envio do sinal para a sede da TV. Tudo que tive de fazer foi repetir para São Paulo o mesmo boletim enviado para o Recife. E, a partir daquele momento, com a certeza de que eu era capaz — com as bençãos do Frei Damião.