Avalanche Tricolor: Eram outros tempos

 

Juventude 2 x 1 Grêmio
Gaúcho – Caxias do Sul

 

 

Fossem as férias de inverno fossem as de verão, subir a Serra Gaúcha era programa obrigatório na época em que ainda era um guri de Porto Alegre. Em Caxias do Sul vivia boa parte dos Ferretti – tios, tias e primos de meu pai que nasceu por lá, em 1935, conforme ele próprio contou semana passada no texto semanal que escreve aqui no Blog. Pelo que consigo lembrar, as primeiras viagens foram a bordo do Gordini azul da família, no qual eu me espremia no banco de trás com meu irmão e minha irmã. Nos aventuramos de Fusca, também, por algum tempo, e somente mais tarde encaramos a estrada sinuosa com motores potentes. O mais importante não era a viagem, mas a estada no casarão da Avenida Júlio de Castilhos com três andares e um número razoável de quartos. O prédio era todo de madeira e eu sempre ficava impressionado com o tamanho das portas e das fechaduras. O poço que havia no quintal atiçava minha curiosidade, pois era quase sempre impedido de chegar perto devido ao risco de uma queda que seria fatal. As janelas se transformavam em camarotes VIPs no período da Festa da Uva, pois o desfile de carros alegóricos, em que o principal sempre trazia no topo a Rainha, passava bem diante de nós. Naquele tempo, a cidade serrana já tinha tradição no futebol e seus clubes se destacavam no cenário estadual, impondo dificuldades para os times da capital, apesar de não serem capazes de conquistar títulos – isto só foi acontecer muitos anos depois. Atualmente, não é mais surpresa chegar ao Alfredo Jaconi, estádio do Juventude, e ao Centenário, do S.E.R Caxias, e sair de lá derrotado como aconteceu neste domingo. Confesso, porém, que tenho saudade, muita saudade, daqueles tempos.

Avalanche Tricolor: A lenda e o quero-quero

 

Grêmio 2 x 1 Caxias
Gaúcho – Olímpico Monumental

Quero-quero foi condenado por Nossa Senhora a cantar a mesma música pela imprudência cometida quando acompanhava a passagem pelo deserto da Sagrada Família, que fugia da ordem do rei Herodes para que fossem mortos. Diz a lenda que a família do Menino Jesus estava parada num oásis cercada de aves e animais quando soldados inimigos se aproximaram. Todos se aquietaram a pedido de Nossa Senhora, menos o danado do quero-quero que por pouco não revelou o esconderijo de João, Maria e Jesus.

É por isso que o quero-quero, até hoje, mesmo que queira, não pode dizer outra coisa, escreveu Roque Callage (1888 – !931) em história que teve origem no imaginário popular rio-grandense e reencontrei, neste sábado, no livro “Lendas Gaúchas” que me chamava atenção ao lado do aparelho de TV, enquanto o Grêmio suava em bicas em mais uma partida pelo Campeonato Gaúcho.

O sufoco tricolor tinha origem muito mais na temperatura – batia nos 40 graus – do que no adversário. Apesar deste ter chegado ao Olímpico Monumental envergando a bandeira de melhor campanha da competição, líder do seu grupo e com o goleador do Campeonato em seu ataque. Banca esta que se desfez antes mesmo dos primeiros 10 minutos.

Com uma defesa segura, saída rápida para o ataque, bola sendo passada com velocidade, e jogadores se movimentando por todos os lados, o Grêmio resolveu a partida ainda no primeiro tempo, mesmo que em campo estivesse apenas parte de seu time titular. O torcedor ainda teve oportunidade de assistir à estreia do zagueiro Rodolfo e o retorno do atacante Borges. Bote nesta conta, também, os gols de Douglas e Vilson.

O calor era tal que nem a família de quero-quero – já tradicional nos jogos em Porto Alegre – se arriscava a bater asa no gramado do estádio Olímpico. Quando muito dava uma corridinha sem-vergonha para o lado do campo para escapar da bola. Gritar seu grito tradicional, nem pensar. Melhor calar.

Foi o quero-quero que apareceu na TV e a falta de fôlego dos jogadores no segundo tempo que me levaram a passar a mão no livro de Lendas e, por coincidência, abri-lo na página em que Callage descreve a saga do passarinho matraqueador. Muito mais interessante do que o jogo modorrento que se desenrolava.

Ainda bem que os jogos do Campeonato Gaúcho ainda servem para alguma coisa: lembrar as boas histórias contadas nos Pampas.

A propósito: sabe quem já tem a melhor campanha da competição e com uma partida a menor é líder de sua chave ?

Poderia dizer que é o Grêmio responsável por escrever algumas das maiores lendas já vistas no Sul do País, mas achei melhor ficar quieto, senão ainda haverá alguém para publicar nos comentários aí embaixo que eu sou um falastrão igual ao quero-quero.

Avalanche Tricolor: Ele é o goleador

 

 

Grêmio 3 x 2 Caxias
Gaúcho – Olímpico Monumental

Foi o André Sanchez ou o Deva Pascovicci, não lembro mais. No Esquina do Esporte, um deles apostou na qualidade superior de Washington como atacante na comparação com Borges que havia estreado no Grêmio, no fim de semana. Aceitei compará-los, jogo a jogo, gol a gol. Mesmo porque o atacante do Imortal Tricolor havia começado em vantagem.

Logo na primeira partida fez um daqueles gols com personalidade de atacante. Daqueles que recebe a bola de costas, gira sobre o zagueiro, dispara com força para dentro da área e bate firme no gol. Pouco antes, havia desperdiçado uma boa oportunidade. O desempenho de seu adversário virtual no jogo de estreia na temporada se resumiu a três chances perdidas de gol.

Nesta noite, lá estava Borges mais uma vez com a camisa do Grêmio. Joga com cara de satisfação, mostra talento no toque de bola, se dá bem com o companheiro de frente, Jonas. E voltou a marcar, o segundo gol em dois jogos. Desta vez com oportunismo, bem colocado, na posição de quem está a espera para matar. Matou, correu para a torcida, deu cambalhotas, abriu os braços e foi recebido com a paixão da Avalanche.

Borges está na frente desta disputa de dois grandes atacantes brasileiros que até o ano passado jogavam em um mesmo time, mas não conseguiam ser parceiros em campo.

Mais a frente deles, porém, está Jonas, um cara estranho, difícil de entender, que comemora os gols com uma dança esquisita. Foi taxado de o pior goleador do mundo ano passado. Já havia deixado o Grêmio há algum tempo. Voltou sem prestígio e terminou a temporada como goleador. Neste ano, começou no banco, depois de uma polêmica com o presidente do clube que admitiu colocá-lo em uma negociação qualquer. Entrou, virou o jogo e ouviu seu nome ser festejado pelo torcedor.

Nesta noite, saiu como titular e marcou mais dois gols. Um deles o árbitro vai registrar para o zagueiro que desviou a bola para o próprio gol, não levando em consideração o esforço do atacante e a esperteza de chutar forte e cruzado na pequena área a espera de um esbarrão.

Estou desconfiado que entre Borges e Washington, eu, o Deva e o André ainda iremos bater palmas mesmo é para Jonas. Ele merece.

Nos descontos: o Grêmio completou hoje 40 partidas sem derrota dentro do Olímpico Monumental. Não perde por lá desde setembro de 2008. Quem se atreve!