Conte Sua História de São Paulo: doce de banana em casquinha de sorvete

Vera Helena Gasparotti Praxedes

Ouvinte da CBN

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Classificado de jornal Foto: Guilherme Appolinário Flickr

Em 1958, terminei o primário no interior e, no fim do ano, voltamos para São Paulo. Éramos uma família grande: meus avós, tios e primos, além de nós seis — meu pai, minha mãe e quatro meninas. Eu era a mais velha.

Depois de um ano sem estudar, fui fazer o quinto ano no Grupo Escolar Caramuru, que tinha classes espalhadas pela Vila Nova York. Naquela época, era preciso fazer cursinho para entrar no ginásio. Como era muito difícil conseguir vaga em escola pública, entrei no Ginásio Comercial Excelsior.

Minha mãe trabalhava como copeira no Hospital Emílio Ribas, e pagar a mensalidade era uma luta. No fim do mês, muitas vezes faltava dinheiro até para a condução. À mesa, também era preciso escolher: às vezes havia arroz, mas não feijão; a mistura era uma verdura do quintal, couve ou almeirão. De vez em quando, íamos à horta do senhor Sakamoto, um japonês que plantava perto do rio Aricanduva. Ele fazia um maço de brócolis por dois cruzeiros — o mesmo preço de um doce de abóbora ou de um copinho de sorvete com doce de banana, servido numa casquinha e com pazinha de madeira, no bar da esquina.

Fiz o primeiro e o segundo anos do ginásio com boas notas. Quando passei para o terceiro, decidi procurar emprego nas férias para juntar o dinheiro da matrícula. Eu já tinha feito um curso de datilografia perto de casa. No domingo, comprei o Diário Popular, recortei anúncios de auxiliar de escritório e recepcionista, colei numa folha e organizei o roteiro. Na segunda-feira, saí cedo para procurar trabalho no centro.

Na terça, já estava empregada numa agência de publicidade na Rua Dom José de Barros. O prédio tinha uma linda entrada de mármore branco, em estilo art nouveau. Anos depois, reconheci aquela entrada no filme A Dama do Cine Shanghai, com Maitê Proença. Uma pena que não exista mais.

Comecei em janeiro. Recortava anúncios publicados nos jornais, atendia telefonemas e encaminhava os anúncios dos clientes. Saía cedo de casa e almoçava na Liga das Senhoras Católicas, nos baixos do Viaduto do Chá. Quase sempre, minha refeição era sopa. Às vezes, sobrava dinheiro para um copo de leite.

Naquele verão, chovia muito. Eu usava uma sapatilha chamada maria-mole, feita de napa, inclusive no solado. Um dia, desci do ônibus no Parque Dom Pedro, subi a Rua Rangel Pestana, atravessei a Rua Direita e o Viaduto do Chá. Na Barão de Itapetininga, virei à direita, na Dom José de Barros. A chuva deixou a sapatilha escorregadia. Eu avançava dançando pelas ruas, como bailarina numa pista de gelo, sem patins.

Cheguei ao escritório aos prantos. Era sábado, e trabalhávamos até o meio-dia. Contei o que tinha acontecido ao office-boy. Solidário, ele encontrou um par de sapatos de crochê, grandes para os meus pés, mas que me permitiram voltar para casa em segurança. Prometi devolvê-los na segunda-feira: eram da secretária da agência.

Trabalhei o mês inteiro. Quando chegou a hora de receber, pedi as contas para fazer a matrícula. Minha avó, que tinha vindo do interior para tratar da saúde, estava muito doente.

Ao sair do escritório, encontrei minha mãe e minhas três irmãs à minha espera. Ela me disse: “Verinha, vou pegar o seu dinheiro e comprar sapatos para suas irmãs. No começo do mês, recebo meu salário e devolvo o dinheiro da matrícula”.

Voltamos pela Ladeira General Carneiro e paramos numa loja de calçados. Todas saímos de sapatos novos, pagos com o meu salário.

Poucos dias depois, minha avó faleceu. No começo de março, minha mãe me devolveu o dinheiro. Mas, quando cheguei à escola, me disseram que não havia mais vagas. Voltei para casa triste e desconsolada. Para mim — e talvez também para minha mãe — parecia que não existia outro colégio onde eu pudesse estudar.

Não voltei à escola naquele momento. Só muitos anos depois concluí o primeiro e o segundo graus. Afinal, sempre há tempo para os desígnios de Deus. 

Ouça o Conte Sua História de São Paulo

Vera Helena Gasparotti Praxedes  é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Envie o seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos visite meu blog miltonjung.com.br e o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Conte Sua História de São Paulo: fiz concurso para a Light

Francisco J. Camilo Hernandes 

Ouvinte da CBN

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À direita, o Shopping Light no Centro de São Paulo. Foto Fernando Stankuns

Era o começo dos anos 1970. Eu com 14 anos estudava pela manhã, na quarta série ginasial, no colégio Augusto Meirelles, no bairro do Imirim, na zona norte. Estava na casa do meu primo Jonas, filho da tia Joana, irmã mais nova da minha mãe Tereza. O Jonas me disse que participaria de um concurso na Light. 

Eu já havia trabalho nas férias escolares. No início de 1971, na padaria do Seu Lucas cortando pão de forma e na CID Ferreira Comissária de Despachos, como office boy.

Fiz a inscrição no concurso da Light e como eu era um bom aluno passei com facilidade. Meu primo não conseguiu e isso definiu a minha carreira profissional e a dele, também.

No fim daquele ano eu já tinha fechado as notas em todas as matérias. Então, enquanto esperava ser chamado pela Light, fui trabalhar como office-boy na Construtora e Imobiliária Lutfalla da família Maluf, na Praça da Sé. Foi lá que conheci a transferência de documento contábil através da impressão com gelatina.  

Logo que 1972 se iniciou, chegou a convocação para assumir o meu cargo de aprendiz de caixa na Light. Ganhava um salário mínimo, tinha duas horas de almoço e a alimentação era fornecida pela empresa. Na época, isso não era obrigatório: ou você comia nos restaurantes e lanchonetes ou então levava marmita de casa.

Na Light a nossa seção era a Apuração da Arrecadação. Éramos 60 meninos — não havia mulheres —, todos chefiados por três senhores na faixa dos 50 anos: senhor Esteves, Amadeu e Pereira. Cada um com uns 30 anos de empresa.

Os rapazes éramos divididos em dez grupos de quatro pessoas cada um. Cada grupo representava uma zona de 1 a 10 que eram as regiões de São Paulo. O nosso serviço era colocar as contas de luz que os bancos haviam recebido no dia anterior em ordem numérica. Após os lotes de contas terem sido organizados, aos demais 20 garotos cabia fazer a soma final, conferindo os valores enviados pelos bancos. 

Depois de três anos sai dessa seção para atuar como eletrotécnico na própria Light, pois havia me formado na escola técnica Albert Einstein no bairro da Casa Verde. A curiosidade é que quando deixei a seção estava se iniciando o sistema de leitura ótica das contas de luz.

Ouça o Conte Sua História de São Paulo

Francisco Camilo Hernandes é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Participe desta série especial em homenagem aos 472 anos da nossa cidade. Envie o seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos visite meu blog miltonjung.com.br e o podcast do Conte Sua História de São Paulo.