Conte Sua História de São Paulo: a editora de livro que se transformou em apresentadora de live

May Parreira

Ouvinte da CBN

foto arquivo pessoal

Se alguém me dissesse, em abril de 2020, que eu faria monólogos ou entrevistas ao vivo na internet, eu responderia com uma gargalhada, que não dou faz tempo. Sempre quis estar a par do mundo digital, pelo menos o suficiente para acompanhar os netos, mas vencer a inibição das câmeras, ah, isso era impossível.  Só que não. 

Temos uma editora — a Ofício das Palavras —, e no fim de 2019 percebemos a necessidade de um incentivo, algo que nos fizesse sair da mesmice, da acomodação. Precisávamos inventar alguma coisa que chamasse novos talentos para nossos livros e oficinas. Nos inscrevemos  numa mentoria de Marketing Digital. Aprendemos como postar, quando, quantas vezes. E o ano começou com bastante trabalho, nosso trabalho. E começou a dar resultados. Mais pessoas engajadas, mais visitas ao site. 

Resolvi que daria as caras na rede todos os dias sob o risco de não ter ninguém do outro lado. Estranha sensação essa. Você olhar para uma espelho e falar sozinha, ser sua própria interlocutora, um misto de narciso e vergonha alheia.

As pessoas que vivem de selfies já foram bastante estudadas pela psicologia. Nada me resta dizer. Mas se tem de ser, que seja. Vamos com a cara e coragem.

Um dia, chamei uma amiga para entrar ao vivo. Ela estava na praia. Tinha acabado de sair do mar. No susto, topou! Conversamos como se estivéssemos no terraço de sua casa. Dia seguinte, outra amiga, e outra, e outra. 

Foi a força necessária para saber que sim, eu, May Parreira e Ferreira, paulista, 68 anos, quatro netos, três gatas e um pastor alemão, posso fazer ao vivo e em cores. E as presenças são sempre pra lá de especiais. Continuo não gostando de me assistir. Mas está tão gostoso receber os convidados. Tem sido tão animador, tenho me sentido tão bem acompanhada, que só posso agradecer. 

Um projeto, é tudo que precisamos na vida.

O que nos falta de contato físico está sendo compensado pela alegria, companheirismo e empatia entre todos os que vêm conversar ou participar. A espécie humana só chegou até aqui, só sobrevivemos, porque nos unimos. Foi por sermos gregários que conseguimos nos desenvolver. Foi o grupo em volta da fogueira que nos levou à roda e à eletricidade. A contação de histórias, boca a boca, virou ebook. Com amor e empatia. 

May Parreira e Ferreira é personagem do Conte Sua História de São Paulos. A sonorização é do Claudio Antonio. Envie seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite meu blog miltonjung.com.br e assine o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Mundo Corporativo: José Salibi Neto decifra o algoritmo da vitória

Foto de Pixabay no Pexels

“Eu acredito muito no potencial do ser humano. Eu já fui transformado alguma vezes. Mas você precisa ter alguém junto para te ajudar em alguma situação. E nesse caso é o grande treinador, o grande coach”, José Salibi Neto

O algoritmo é uma sequência de instruções bem definidas. Mas nas relações humanas, regras e procedimentos não são perfeitamente definidos. Então, para fazer esse algoritmo rodar com resultados satisfatórios é essencial a figura do coach ou do treinador que tem de adaptar esse sistema a quem ele treina, ter engenhosidade para conectar essas duas pontas  — algoritmo e esportista — e converter problemas maiores em partes menores e mais simples de resolver.

Essa é a ideia central do trabalho desenvolvido por José Salibi Neto, ex-tenista, cofundador da HSM e dos maiores especialistas em gestão no país, e Adriana Salles Gomes, admiradora de esportes, especialmente dos cavalos de corrida, jornalista e craque em economia e negócios. Juntos, escreveram o livro ‘O algoritmo da vitória” (Planeta Estratégia), após cinco anos de muita pesquisa, leitura e entrevistas com alguns dos melhores técnicos esportivos do mundo. 

José Salibi Neto falou do resultado deste projeto e de como aplicá-lo na gestão de negócios, no programa Mundo Corporativo, da CBN. E falou  com o mesmo entusiasmo da época em que, jovem e estudante na Universidade da Carolina do Sul, entrava em quadra com o sonho de ascender ao topo do ranking mundial. Na época nem tudo saiu como ele planejava, por isso teve se transformar algumas vezes —- como destacado na frase que abre este texto. O esporte, no entanto, virou lição e metáfora para a sua carreira:

“O CEO na verdade é o técnico do time dele, ele é o grande coach. Tem que colocar os jogadores certos nas posições certas. Desenvolver a cultura do time. Fazer o treinamento. Analisar cada um dos seus comandados para ver quais são os seus pontos fortes e os seus pontos fracos. Então, esses grandes treinadores, eles são muito cuidadosos nisso porque eles não podem errar”

Um líder de excelência é capaz potencializar os talentos que têm em seu time. Foi o que fez Larri Passos com Gustavo Kuerten, um jovem de grande talento mas que tinha sua vida marcada por uma série de intempéries que poderiam tirá-lo completamente do foco da carreira vitoriosa que construiu. 

“O caso mais dramático foi o caso do Guga, porque ele tinha tudo para dar errado, perdeu o pai em uma quadra de tênis, aos nove anos, a mãe era assistente social, o irmão necessidade de ajuda constantes devido a problemas de saúde e ele vivia em uma cidade sem tradição no esporte”. 

Para se entender o algoritmo da vitória explorado por técnicos de grande sucesso nos mais diversos esportes, José Salibi e Adriana o dividiram em oito etapas:

  1. Encantar — aqui contam os critérios para recrutar talentos, desenvolver atletas, criar neles autônoma e amor pelo que fazem
  2. Kaizen mental — é preciso balancear foco e relaxamento, e trabalhar tanto mente como corpo: “no mundo empresarial ninguém se importa com isso”
  3. Time escalador — é necessário montar um time com pessoas complementares, em talento, em personalidade, em experiência e em energia; e saber construir confiança e controlar o ego
  4. Código de Comunicação —- palavras, imagens e gestos são códigos que precisam ser criados com seus atletas; entender qual o momento adequado para transmitir a mensagem: “às vezes você mata o talento na maneira de se comunicar”
  5. Estrategizar — o técnico precisa pensar estrategicamente, planejaras diversas etapas, priorizar resultados e competições ao longo da temporada, identificar alternativas
  6. Ambiente de crescimento —- tem de alternar estabilidade e mudança para que os atletas aprendam e cresçam; pensar em processos, relacionamentos, estruturas etc
  7. Aprendizado — o algoritmo dos técnicos precisam ser constantemente atualizados
  8. Algoritmo —- é preciso criar o próprio algoritmo, etapa por etapa, e saber rodá-lo no ‘hardware’ que é onde entrar o dono da equipe e os dirigentes que precisam estar alinhados, acima de tudo, culturalmente.

O algoritmo da vitória virou uma metodologia que pode ser aplicar a qualquer empresa e a qualquer técnica, de acordo com José Salibi Neto:

“No mundo empresarial tem de desenvolver essa mentalidade de coach. O Jorge Paulo Lemann faz isso muito bem. Veja quantos líderes ele conseguiu desenvolver. Ele se considera muito mais um diretor de recursos humanos do que CEO. Se você não desenvolver as pessoas, você não tem resultado”

O Mundo Corporativo pode ser assistido às quartas-feiras, às 11 da manhã, no site da CBN, no canal do YouTube e no Facebook. O programa vai ao ar aos sábados, no Jornal. da CBN; aos domingos, às dez da noite; e pode ser ouvido a qualquer momento em podcast. Colaboram com o Mundo Corporativo: Juliana Prado, Bruno Teixeira, Rafael Furugen e Priscila Gubiotti. 

Conte Sua História de São Paulo: em dois meses de vida, a quarentena

Juliana Marchettis

Ouvinte da CBN

Par de pés de bebê sobre a colcha vermelha
Foto de Designecologist no Pexels

Minha história começa em 21 de janeiro de 2020. Na maternidade da Vila Mariana, bairro charmoso, situado na zona sul de São Paulo. Arborizado, com muitas opções de lazer para a toda família. Não entendi bem o que acontecia. Depois de nove meses envolvo em líquidos e fluidos, em temperatura agradável, o espaço já não era suficiente. Era hora de partir. E fui convidado a deixar aquele local agradabilíssimo para iniciar nova fase na vida.

Algum esforço depois, lá estava nos braços da mamãe, acalentado no seio dela e rodeado de pessoas uniformizadas —- soube que eram médicos e enfermeiros. Os primeiros dias foram repletos de novas experiências, visitas, exames … até iniciar nova partida: para a casa, na zona leste da cidade.

Vergueiro, Juntas Provisórias, avenida do Estado. Trânsito intenso até São Matheus. Na voz da mamãe, a narração por onde passávamos: “aqui é o parque”, “ali é o shopping”, “tem espaço cultural, ali na frente”. Não demorou muitos dias para iniciar outra viagem: agora de São Mateus para Água Branca. Era lá que mamãe me levava na barriga para as consultas com o pediatra, por isso ouvir o som do Parque da Água Branca parecia familiar.

Duraram pouco essas viagens: em dois meses, tudo mudou drasticamente. Ninguém mais visitava ninguém, ninguém mais era visitado por mim. Meu espaço limitou-se aos quatro cômodos da casa onde viviam papai e mamãe. 

Era a quarentena em vigor.

Foi então que descobri outro mundo: tios, tias, primas e avós que antes me abraçavam e apertavam dentro de casa, surgiram na tela eletrônica. E a tecnologia se tornou minha aliada. Foi através dela, que meus avós assistiram ao meu desenvolvimento, dia após dia. 

Demoraram alguns meses até as portas se abrirem novamente. Eram passeios curtos, no carrinho, em volta do quarteirão. Suficientes para entender que havia muito a ser explorado. Apresentaram-me à natureza, mesmo que nas raras árvores floridas do Jardim Santa Adélia. Assustei-me e me diverti com cães, de diversos tamanhos e cores. Assisti à passagem de ônibus, carros, motos e caminhões. 

Dia desses, papai e mamãe me permitiram uma aventura distante: passear no Parque Vila Lobos e no Jardim Botânico, enquanto faziam planos para quando a pandemia passar. Eles sabem que vai passar.

Meu nome é Luigi Hiroki e eu tenho 1 ano de idade.

Luigi é personagem do Conte Sua História de São Paulo. O texto foi escrito pela mamãe Juliana. A sonorização é de Cláudio Antonio. Envie o seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite meu blog miltonjung.com.br e assine o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Mundo Corporativo: Paula Morais, da Intera, sempre pronta para ‘hackear’ os sistemas

Foto: Divulgaçao/Intera

“Existe sim uma barreira que a gente precisa quebrar. E a gente está nesse processo de quebrar, com o advento de ter cada vez mais mulheres nesse mundo de inovação e tecnologia, e de empreendedorismo”

Paula Morais, intera

Mulher, jovem e empreendedora. No passado, essas três palavras não cabiam em uma mesma frase — aliás, se para você seguem não cabendo, você está ultrapassado. Não significa que as barreiras de gênero tenham caído. Aparecem a todo momento no local de trabalho, nas reuniões de negócios ou  nas discussões corporativas. Muitas vezes de forma inconsciente, como descreve Paula Morais —- mulher, jovem e empreendedora, entrevistada pelo programa Mundo Corporativo da CBN:

“Quando fui falar com um fundo de investimento, em 2019, fui com o meu sócio que é homem. Todos esses fundos, a maior parte é composta por homens. Muitas vezes, eu fazia o discurso, mas a pergunta ao final era para ele e não para mim. É quase que uma descrença no processo”.

Para Paula, fundadora da Intera, que atua no setor de recursos humanos e recrutamento digital de profissionais, esse comportamento é pautado no histórico de uma sociedade machista e patriarcal que influencia na confiança em negócios que são liderados por mulheres. E na confiança da própria mulher em querer ser empreendedora. Acostumada a superar essas dificuldades ou a ‘hackear’ esse sistema — para usar um termo mais apropriado para os negócios em que Paula Morais atua — a recomendação dela é que o foco seja na busca de soluções  para necessidades que existem no mercado — e isso deve servir para quem sofre por questões de gênero, de raça e de idade, também:

“Empreender é resolver problema, então isso é independente de qualquer um desse vieses. Não tem muito a ver com idade. Tem muito mais a ver com a fome que você tem em de fato resolver um problema e trazer uma solução que melhora o mercado do que que com qualquer outro marcador. 

Foi por pensar assim que Paula Morais encontrou o caminho para criar uma série de negócios, a começar pelo primeiro marketplace de aluguel de itens do Brasil. Em 2018, ela fundou a Intera ao lado de Augusto Frazão e Juliano Tebinka: eles desenvolveram tecnologia para desconstruir o modelo tradicional de recrutamento de talentos, tornando o processo mais assertivo e ágil — ou para ‘hackear’ o sistema de recrutamento. A ideia recebeu recentemente um aporte de R$ 2,5 milhões de investidores anjos que permitirá a criação de soluções tecnológicas que poderão ser usadas diretamente pelas empresas, transformando o que hoje é serviço em um produto.

“O Brasil é um grande terreno fértil para empreendedores. Uma vez que nós temos um monte de problemas. Todo mundo me pergunta: “ah, porque você não vai para fora, porque você não mora fora?”. Não tem lugar melhor no mundo, hoje, para você empreender por causa  da quantidade de problemas que a gente tem aqui. Empreender é isso: é você resolver uma dor. Você trazer uma solução que resolve uma dor de alguém. E você cria um negócio a partir disso”.

Na entrevista ao Mundo Corporativo, Paula conta que muito mais do que há cinco anos, o cenário de venture capital —- ou de capital de risco —- que aposta em negócios inovadores cresceu no Brasil. Para aproveitar esse momento é preciso que se considere o que ela chama de ‘market fit’,  ou seja, se a solução que você tem resolve a dor de alguém e se este público está disposto a pagar por isso:

“Muita gente quer colocar uma solução em pé da sua própria cabeça, quando quem tem de dizer é o seu cliente. Meu conselho é ouvir o cliente, testar e  jogar de novo até você fazer o ‘fit’. A gente foi treinado aqui no Brasil pra não errar. A gente tem essa cultura do não-erro. E o empreender é errar. Você erra muito mais do que você acerta, principalmente no começo”

Três características para ser empreendedor, segundo Paula Morais

  • Resiliência — “estar disposto a passar perrengue, a viver um período que não vai ser fácil e ser capaz de sair dele de cabeça em pé”
  • Foco — “para evoluir, se você disser sim para tudo, tentar fazer tudo, não faz nada; tem de saber qual é a sua meta principal”.
  • Verdade — “saber assumir quando você consegue e quando não consegue, porque isso, mesmo que você não ganhe no curto prazo, gera confiança no longo prazo”

O Mundo Corporativo pode ser assistido, ao vivo e em vídeo, no Youtube, no Facebook e no site da rádio CBN, às quartas-feiras, 11 horas da manhã. O programa vai ao ar aos sábados, no Jornal da CBN; aos domingos, às 10 da noite; e pode ser ouvido a qualquer momento em podcast. Colaboram com o Mundo Corporativo: Juliana Prado, Bruno Teixeira, Matheus Meirelles e Priscila Gubiotti.

Conte Sua História de São Paulo: encontrei minha antiga professora no Facebook e dancei … foi mágico!

Juliana Malik

Ouvinte da CBN

Foto: Pexel

Dançar sempre fez parte da minha vida … Melhor, sempre não. Parei de dançar quando me tornei mãe. A maternidade sempre foi um sonho e sou uma mãe feliz, mas é inegável que a agenda de uma mãe tem menos tempo. Cresci em São Paulo e quando criança, dancei balé clássico. Nos anos de 1980, dancei break. Lembra? Era moda. Fiz até um comercial de TV com meus tênis quadriculados como a época exigia. 

De São Paulo fui para Jerusalém, onde vivi por vários anos e lá, também, fiz parte de um grupo de dança. Depois morei em Paris e me juntei à comunidade latino-americana. Fiz amizades com dominicanos e colombianos quando me encantei pelos ritmos caribenhos. 

Fui morar em Londres onde fiz meu mestrado. Um dia, saindo da estação King’s Cross, vi um anúncio da BBC de que precisavam de dançarinos de salsa para uma novela. Lá fui eu para o casting e fui selecionada! Foi um dia apenas de gravação, era um capítulo de uma novela que se passava em Havana. Uma experiência interessante e muito diferente da minha rotina de estudante de economia. 

De volta ao Brasil, em 2005, encontrei uma escola de dança com uma professora incrível! Foram três anos dançando com ela até que vieram meus filhos. Dois meninos: de 9 e 11 anos. Parei de dançar e, confesso, nem dei conta do quando me fazia falta esta arte. Até que 2020 chegou. Com isolamento, quarenta. E vida remota na tela do computador. Em um passeio pelo Facebook, encontrei o perfil de minha antiga professora. Descobri que ela estava dando aula pelo Zoom. 

“Será que consigo fazer?” 

“Aqui em casa?”.

“Com meus filhos fazendo barulho?”

“Uhhh. Sei não”

Tomei coragem, falei com ela, marquei uma aula, afastei os móveis, vesti roupa confortável, conectei o Zoom. … e foi mágico. Voltei no tempo. De repente, não estava mais na sala da minha casa. Recuperei aquela sensação que a dança sempre me ofereceu, a qual nem lembrava o quando me fazia falta aquela antiga arte na qual nos expressamos sem palavras, ue une a todos em uma linguagem universal —  um esperanto de nossos primórdios. 

Juliana Malik, a dançarina, é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Envie o seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite meu blog miltonjung.com.br e assine o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

A generosidade do destino e o direito de chorar

Foto Priscila Gubiotti

Foi um dia intenso. De trabalho e de emoção. Tão intenso que só me despedirei da segunda-feira que se iniciou ontem, às 4h30 da manhã, assim que der o ponto final neste texto. E a entenderei encerrada neste adiantado da hora porque para concluí-la de forma justa era preciso antes agradecer a todas as pessoas que carinhosamente me escreveram ou gravaram depoimentos para marcar meus dez anos de Jornal da CBN.

Comecei na CBN em dezembro de 1998 e assumi o comando do principal jornal da emissora em 28 de fevereiro de 2011, em lugar de Heródoto Barbeiro. Uma baita responsabilidade. Não fosse apenas um dos fundadores da rádio, ainda era jornalista referência para meu trabalho e conduta.

Leia aqui o texto que escrevi na minha estreia como âncora do Jornal da CBN.

Foi um dos meus filhos quem lembrou, em reportagem que foi ao ar nessa segunda-feira, o dia em que Mariza Tavares, diretora de jornalismo, me convidou por telefone para o cargo. Na cadeira do escritório coletivo que temos em casa, com o encosto jogado para trás e olhando para o alto, ao desligar contei a novidade. Ele, ainda bem jovem e diante da minha cara de espanto, perguntou: “e isso é bom, não é?”. Meu “sim” não passou confiança, segundo ele. Teria sido a primeira vez que me viu inseguro diante de uma decisão. Mal sabe ele. 

Pouco tenho a reclamar das oportunidades que surgiram em minha carreira desde que a iniciei, em agosto de 1984, na rádio Guaíba de Porto Alegre. O destino me foi generoso. O primeiro passo teve influência do pai. Foi ele quem pediu para que me aceitassem em uma vaga não-remunerada de estagiário. Dali pra frente, foi por minha conta e risco. No Correio do Povo, no jornalismo do SBT, na rápida passagem na rádio Gaúcha e na vinda para São Paulo, quando fui contratado pela TV Globo. Por aqui, trabalhei na TV Cultura, na Rede TV, no portal Terra e na CBN.

Meu colega Marcelo Lins, na “Conversa de Primeira” de terça-feira, comentou que todo o profissional que tenha tido a oportunidade de estar por dez anos à frente de um mesmo produto jornalístico é merecedor de respeito. Confesso que nunca havia pensado nessa longevidade, talvez porque assisti ao meu pai permanecer por ao menos 50 anos apresentando o mesmo noticiário de rádio. O que significa uma década nesta linha do tempo, não é mesmo?!?

Fiquei feliz. Sensibilizado. Chorei. Talvez porque o tempo que vivemos nos deixe mais frágil —- a mim com certeza. Estou muito mais vulnerável. Não daquele jeito que me senti quando fui convidado para encarar o desafio do Jornal da CBN. Aquela vulnerabilidade —- do “será que serei capaz?” ou “se não der certo?”— é diferente desta que estamos experimentando. Aquela vem acompanhada pela satisfação profissional; a de agora, pela tristeza profunda das vidas perdidas na pandemia. 

Verdade, também, que meu choro veio por motivos diferentes. 

Nesses dez anos de Jornal da CBN, engoli seco para contar a história da tríplice tragédia no Japão, ocorrida dez dias depois de assumir o programa; solucei e sofri diante do microfone enquanto levávamos ao ar notícias do acidente de avião da Chapecoense; gaguejei durante os relatos do incêndio no Ninho do Urubu, no Rio; e tive de interromper minha fala quando anunciei a morte de José Paulo de Andrade.

Ao completar dez anos, chorei ao ouvir a voz de minha mulher e meus filhos, ao reconhecer a fala de colegas que respeito e admiro muito, de amigos que fiz nessa caminha. e ao ler mensagens de ouvintes generosos. Chorei por entender que a insegurança do início foi recompensada; me impediu que a arrogância se sobrepusesse; me fez querer aprender e corrigir; errar e pedir desculpas —- à audiência e aos companheiros de redação.

Chorei porque se aprendi alguma coisas nestes dez anos foi que não devemos ter vergonha de nossos sentimentos e desejos. 

A todos que me ensinaram essa lição, e me ajudaram a percorrer esse caminho, obrigado!

Ouça a reportagem completa que a rádio CBN produziu para lembrar meus dez anos no Jornal da CBN.

Conte Sua História de São Paulo: aos 70 anos, foi a tecnologia que me deu conforto na cidade

Durval Pedro da Silva Junior

Ouvinte da CBN

Foto: Pixabay

Sou paulistano do Bexiga. Neste janeiro de 2021 completo 70 anos, cada dia mais amante desta cidade. São Paulo, como poucas no mundo, tem a capacidade de oferecer o que há de melhor em grande escala —- e em poucas situações o que há de pior. 

Amá-la não é sacrifício. Isso ficou latente nesses quase um ano de pandemia, em que os recursos tecnológicos amenizaram algumas das nefastas consequências do coronavírus.  A quarentena ficou mais fácil de enfrentar porque se existe tecnologia de ponta em grandes cidade, existe também em São Paulo.

Aos 70 anos não ser um craque no mundo digital não é pecado. Tive de aprender muita coisa enquanto experimento esse isolamento que ainda me imponho pela faixa de risco que estou. 

Em março e abril, quando vivíamos uma cegueira geral e medo de tudo, foi a tecnologia que me deu esperança, alívio, conforto e qualidade de vida. Aprendi a comprar comida e remédio. Fiz consultas diversas. Tudo pelos aplicativos do celular —- os quais jamais havia usado. 

Bater papos com os filhos e netos por uns instrumentos que nunca tinha sequer ouvido falar: Zoom, Webex, Teams, Whereby, Google Meet. Fora os vídeos do Whatsapp e FaceTime. Ter feito reunião com os colegas de faculdade —- com os quais estou junto há 50 anos e sou o caçula da turma —- não teve preço.

Só mesmo a cidade de São Paulo me permite matar a vontade de comer uma coxinha ou um bauru e tudo ser entregue em casa com todo o cuidado. E, ao mesmo tempo, acompanhar em tempo real o atendimento médico a amigos em um dos hospitais de ponta da cidade.

Também viajei por aqui: em visitas virtuais apreciei obras do Masp e da Pinacoteca —- que estão entre os melhores museus do mundo. Jamais imaginei que iria me divertir com as imagens de um drone: o da CBN, me mostrando logo cedo mais do que detalhes do trânsito e acontecimentos da cidade. Sem falar das lives com Márcio Atalla e Cássia Godoy. E até com o Mílton Jung que, apesar de ser bem mais novo do que eu, é um parceiro ideal para quem não faz muito exercício.

Esta é São Paulo, a cidade que esta digitalizada no meu coração

Durval Pedro da Silva Junior é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva agora o seu texto e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade visite o meu blog miltonjung.com.br e assine o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Mundo Corporativo: Ricardo Neves diz que líderes tem de usar a comunicação para dar sentido aos negócios e exemplo às pessoas

Angela Merket foto: arquivo

“O líder é aquele que sabe conversar, o líder é aquele que sabe influenciar socialmente. A arte da liderança é a comunicação”

Ricardo Oliveira Neves, consultor

De Wilson Churchill a Angela Merkel. De Steve Jobs a Laurence Fink. Todos são líderes, cada um a seu jeito e ao seu tempo, que ajudam a entender o conceito que sustenta a nova ordem dentro das empresas: a da liderança por propósito ou a da criação de sentido e significado que possam ser valiosos para o indivíduo. Em entrevista ao programa Mundo Corporativo, Ricardo Oliveira Neves, consultor de estratégias, comunicação e marketing, falou de modelos de liderança essenciais para as empresas se adaptarem às transformações do século 21, em que vivemos uma complexidade exponencial. 

Autor do livro “Sensemaking: liderança por propósito”, Ricardo lembra que essa complexidade que gera incerteza e abala estruturas, não se resume a pandemia —- começa bem antes. Passa por uma série de outras mudanças que ocorrem há algum tempo como a do clima, as que têm colocado em xeque instituições democráticas e as que expressam ainda mais a  desigualdade social.

Ricardo diz que hoje existe uma caixa de ferramentas de comunicação que precisa ser aberta pelos líderes para que se afaste de vez o modelo de comando e controle, baseado na ‘Arte da Guerra’, que pautou as corporações por muitos anos:

“É preciso se libertar de uma mentalidade que é a do comando-controle, que ainda predomina nas grandes organizações, aquela do eu mando e você obedece. A diferença é que o líder agora passa a ser um facilitador de entendimento do que está acontecendo … tem de ajudar as pessoas a sair dessa zona de terror.”

Para ele a comunicação tem de ser baseada em quatro Cs: calma, coragem, conversa e colaboração. São elementos, por exemplo, que aparecem em Churchill que liderou os britânicos na Segunda Guerra Mundial. Que são encontrados no primeiro discurso dele à nação quando assumiu o cargo de primeiro-ministro, notabilizado pela frase: “eu só tenho a oferecer sangue, suor e lágrima”.  

De Merkel, primeira-ministra da Alemanha, onde Ricardo vive atualmente, o consultor destaca a condução que ela está tendo na crise provocada pelo coronavírus e lembra o discurso que fez às vésperas do Natal alertando às famílias para o risco de insistirem em se reunirem em confraternizações: teve coragem e clareza. A premier alemã também usa muito bem o que Ricardo chama de autocomunicação:

“Merkel é mestra disso. Lembra as pessoas de uma maneira sutil a usar máscara. Ela tem um ritual com a máscara, em público, que está sempre lembrando a todos desta necessidade”.

A autocomunicação também era praticada por Steve Jobs, de acordo com o consultor, o que explica o fato de a empresa ter, em lugar de clientes, fãs, porque se identificavam com o líder da Apple e seus produtos. Outro exemplo de comunicação eficiente e capaz de enfrentar a complexidade exponencial, segundo Ricardo, é a estratégia de Larry Flink, CEO da BlackRock, líder mundial em gestão de investimentos. Ele publica, todo ano, uma carta aberta aos clientes em que apresenta sua visão dos negócios de forma transparente. Flink é uma das principais vozes no mercado de capitais a defender o capitalismo consciente, mais preocupado com as questões sociais, ambientais e de governança.

“Propósito é uma coisa, sim, tangível que a liderança tem que aprender a falar, para quando ela vai conversar com seus pares e com a sociedade como um todo. Não existe mais a empresa que só por ter lucro tem licença para sobreviver”

Para Ricardo, o recado que todos precisam entender é que há necessidade de se encontrar propósitos individuais, e conscientes dessa mentalidade buscar nas empresas uma sintonia desses objetivos. O colaborador que acredita que ter segurança no emprego é vender a alma para o diabo vai se surpreender, porque em algum momento o diabo vai cobrar o preço que pediu na assinatura do contrato.

O Mundo Corporativo pode ser assistido, ao vivo, às quartas-feiras, 11 horas da manhã, no site da CBN e nas páginas da CBN no Facebook e no Youtube. Colaboram com o programa Juliana Prado, Bruno Teixeira, Rafael Furugen e Priscila Gubioti.

Mundo Corporativo: cultura organizacional foi fundamental para enfrentar a pandemia, diz Marcelo Pimentel, CEO da Lojas Marisa

“Ao não dar a devida importância à cultura, toda a estratégia desmorona com muita facilidade”

Marcelo pimentel, ceo da lojas marisa

A cultura organizacional foi primordial para as empresas enfrentarem quase um ano de pandemia. A opinião é de Marcelo Pimentel, CEO da Lojas Marisa, uma das principais redes de varejo de moda do País, que, no início desse crise, em março de 2020, teve de fechar todas as suas lojas físicas. Em entrevista ao programa Mundo Corporativo, da CBN, Marcelo lembrou frase clássica de Peter Drucker, referência global em administração de empresas: “a cultura come a estratégia no café da manhã”.

Para impedir que a estratégia desmoronasse, diante das restrições iniciais, das transformações necessárias e da retomada das atividades, ainda com clientes inseguros, Marcelo diz que a transparência na relação com os colaboradores foi um dos pontos principais. Segundo ele, todas as ações planejadas estavam baseadas em quatro pilares:

  • cuidar dos colaboradores
  • cuidar da saúde financeira da organização
  • cuidar da comunicação com os clientes
  • criar grupo para planejar a reabertura das lojas

Ainda dentro da questão cultural, o executivo, que assumiu o comando do grupo em julho de 2019, explica que foi possível construir com os colaboradores a ideia de co-participação na gestão, fazendo com que eles trabalhassem com a cabeça do dono do negócio:

“A grande maioria das melhores ideias não vai vir de nós líderes, vão vir deles que estão lá no dia a dia, na ponta, na frente de batalha. Não desperdice todo esse conhecimento e, junto com os colaboradores, traga uma decisão que seja do time. Muitas vezes, o time tem problemas de aceitar o direcionamento quando ele não participa desse processo, ele não é minimamente ouvido”

Para que prospere a ideia de os funcionários atuarem como a mentalidade do dono do negócio, Pimentel recomenda:

“Quando você olha para empresas consolidadas um dos grandes aprendizados que a gente tem com elas é exatamente o fato de ‘erra pequeno, erra rápido, corrige e cresce’. É isso que a gente tem promovido. O medo de errar muitas das vezes é maior do que a vontade de acertar, e isso emperra o crescimento das empresas”

Das mudanças que surgiram na pandemia, o CEO da Lojas Marisa acredita na ideia de que a transformação tecnológica avançará ainda mais, pois muitos clientes que nunca tinham feito uma compra online foram conquistados por essa experiência. Quanto a tipos de produtos, ele identifica que as roupas confortáveis ganharam protagonismo em relação as roupas de trabalho. Um exemplo é que a venda de sapato alto caiu, enquanto a de tênis, chinelos e rasteirinhas aumentou.

Mesmo com o crescimento do comércio eletrônico, Marcelo Pimentel entende que as lojas físicas seguem sendo relevantes, mas com experiências distintas e novos elementos. A jornada dentro do espaço físico será mais rápida com o funcionamento do sistema ‘clique e retira’ —- mais de 45% da venda digital é nesse modelo, informa —-, checkout móvel e compra digital na própria loja, com entrega na residência.

Na entrevista, o CEO da Lojas Marisa anunciou que, no segundo semestre, será lançada uma nova plataforma digital da rede de varejo. Como o foco desse espaço será a “autoestima da mulher brasileira”, Marcelo contou que o grupo decidiu abrir mão de produtos que mais vendem para mulheres —- os de higiene da casa, por exemplo —- porque não faziam sentido para o propósito do negócio. 

Para uma rede de varejo de moda feminina, que tem como lema “de mulher para mulher”, chama a atenção o fato de o comando está sob responsabilidade de um homem. Quanto a isso, Marcelo Pimentel, apesar de surpreendido com o questionamento, lembra que é filho de uma mulher, casado com uma mulher e pai de duas mulheres. Já na Lojas Marisa, mãos de 78% da liderança é feminina, mais da metade das cadeiras do conselho de administração é ocupada por mulheres, e mais de 30% da liderança executiva, também:

“A pergunta é super justa, talvez um dos meus desafios e legados seja achar uma transição para uma CEO mulher; e fica uma dica importante para mim e eu agradeço”.

O Mundo Corporativo pode ser assistido ao vivo às quartas-feiras, 11 horas, no site da CBN, na página do Facebook e no canal da CBN no Youtube. O programa vai ao ar aos sábados, às 8h10 da manhã, no Jornal da CBN e aos domingos, às 10 da noite, em horário alternativo. Está disponível, também, em podcast. Colaboram com o Mundo Corporativo: Juliana Prado, Bruno Teixeira, Priscila Gubioti e Rafael Furugen.

Mundo Corporativo: Andreia Roma, da Leader, explica como o RH se transformou de uma sala escura a setor estratégico

“Os RHs tiveram de transformar o seu 2020 olhando para eles, olhando para dentro de si e se transformando em profissionais mais humanos dentro do contexto RH”

Andreia Roma, CEO da Editora Leader

O setor de recursos humanos por muito tempo era a sala escura que ninguém queria entrar. Essa imagem mudou ao longo dos últimos 20 anos e, hoje, o RH é estratégico dentro das empresas. Uma transformação protagonizada por mulheres que encontraram nessa área o espaço para influenciar nos rumos das organizações. É assim que Andreia Roma, CEO da Editora Leader, enxerga a influência feminina no segmento que sempre foi o responsável por cuidar das pessoas. Andreia é coordenadora, ao lado de Tania Moura, do livro “Mulheres do RH — o poder feminino na gestão de pessoas”.

Em entrevista ao programa Mundo Corporativo, Andreia explica que o livro reúne a história de 31 mulheres que atuam com recursos humanos e a linha mestra que uniu esses textos foi a ideia de que por mais simples que possam parecer suas histórias, o fato de relatarem a experiência desenvolvida vai inspirar as mais jovens a seguir carreira neste setor.

“Elas conseguem conectar aprendizados, erros e acertos, ou seja, o que precisa ser mudado, o que precisa ser ajustado, tanto no quesito pessoal, como no profissional”

Essas mulheres do RH também têm papel significativo no combate à discriminação de gênero, destaca Andreia:

 Eu acho que não é parar e olhar para discriminação; é realmente ressignificar e falar o que é que eu vou fazer com este aprendizado; o que é que eu vou ensinar para jovens que vão vir através deste aprendizado; então a gente precisa começar a ensinar e aprender até mesmo com este momento difícil que existe dentro das organizações, relacionados à discriminação.

De acordo com a editora, um dos desafios enfrentados pelas empresas e as profissionais de RH, durante a pandemia, foi o distanciamento das equipes de trabalho e a realidade de cada uma dessas profissionais que tiveram de cuidar de gente das suas empresas sem se descuidar de suas famílias. A ideia de deixar a empresa fora do trabalho perde o sentido no instante em que muitos de nós tivemos de levar o trabalho para dentro da família, diante das restrições sanitárias que impactaram o mundo inteiro:

“A pandemia tem nos ensinado a pegar todos nossos certificados e colocá-los  no bolso. O RH começou a olhar para outros setores, entender que uma empresa é a união de muitas pessoas.”

Para Andreia Roma a crise provocada pelo coronavírus tornou as realizações ainda mais incertas, mas serviu para influenciar o comportamento dos profissionais desta área nas empresas:

“Esse futuro incerto pode trazer o olhar de muitas mulheres, trazendo este lado humanizado de profissionais que entenderam que ser o RH estratégico, hoje, nas organizações, passou a ser humano.”.

O Mundo Corporativo pode ser assistido, ao vivo, às quartas-feiras, 11 horas, no site, no perfil do Facebook e no canal da CBN no Youtube. O programa vai ao ar no Jornal da CBN, às 8h10 da manhã ou ais domingos. às 10 da noite, em horário alternativo. Colaboraram como programa Juliana Prado, Bruno Teixeira, Débora Gonçalves