Conte Sua História de SP: meu casarão dos Campos Elíseos

 

Um centro sofisticado, limpo e chique. É o que se recorda Cynira Casado, que nasceu em São Paulo, em março de 1935, em pleno Carnaval. Veio ao mundo pelas mãos de uma parteira, em casa, ao som do bloco de que passava pelas ruas de Campos Elísios, na região central. Filha de paulistas, descendentes de imigrantes de espanhóis e italianos, Cynira conta que a mãe era artesã, e o pai mecânico eletricista, o que na época rendia um bom dinheiro. Por 12 anos eles viveram em um casarão, no bairro do centro, que, tinha um ar nostálgico do campo, e ao mesmo tempo, requinte e sofisticação. Ali naquele casarão, em diferentes cômodos, viviam tios, tias, primos e avós. Mas um dia a família teve que deixar o local. Era o progresso chegando com os grandes edifícios que começavam a ser contruídos.

 

No depoimento gravado pelo Museu da Pessoa, Cynira lembra cada um desses momentos e do cenário que tinha diante de sua janela, muito diferentes do atual. Havia lindos passeios públicos, lojas sofisticadas, um clássico cinema e uma praça espaçosa, com a igreja de Santa Cecília:

 

Ouça estas histórias contadas pela própria autora, editadas pela Marcela Guimarães e sonorizadas pelo Cláudio Antonio.

 


Conte você também sua história de São Paulo. Envie um texto para milton@cbn.com.br ou agende uma entrevista em áudio e vídeo no Museu da Pessoa pelo e-mail contesuahistoira@museudapessoa.net.

Conte Sua História de SP: a revolução nas minhas aulas de taquigrafia

 

Por Neide de Souza Praça
Ouvinte-internauta

 

Ouça este texto que foi ao ar na CBN, sonorizado pelo Cláudio Antonio

 

Há algumas semanas ouvi de uma participante deste quadro que, em 1968, ela presenciou as manifestações estudantis que dominaram o país naquele período. Ao contrário dela, não tive a oportunidade de ver o presidente da UNE, mas também tenho recordações daquele tempo.

 

Nasci em São Paulo na década de 1950. Em 1968, cursava o quarto ano do ginásio (atual oitava série do ensino fundamental), e morava em Itaquera, bairro do subúrbio do município de São Paulo. Na época, o bairro era servido por trens da Central do Brasil, que precedeu a CPTM. Eram trens que, partindo da estação Roosevelt, no bairro do Brás, chegavam à cidade de Mogi das Cruzes. Itaquera ficava no meio deste trajeto, a trinta minutos do Brás. Outro meio de transporte eram os ônibus que ligavam o subúrbio ao centro da cidade transitando pela Avenida Celso Garcia, como rota principal, já congestionada. Os carros ainda eram bens de poucos.

 

Com o propósito de me preparar para o futuro, frequentava o ginásio pela manhã, no mesmo bairro onde residia, e às terças e quintas-feiras, juntamente com uma colega, fazia um curso de taquigrafia, cuja escola situava-se à Rua Riachuelo, no centro da cidade. Para chegarmos até ela, íamos de trem até o Brás, e depois pegávamos um ônibus até a região central, num percurso total de aproximadamente uma hora e meia. A Rua Riachuelo se localiza exatamente atrás da Faculdade de Direito da USP, no Largo São Francisco. As aulas terminavam em torno de cinco da tarde, horário difícil para o retorno à Itaquera. Na época, meu pai era motorista em uma empresa que permitia que ele levasse para casa o carro que dirigia, de modo a facilitar seu acesso. Só que seu dia de trabalho se encerrava às sete da noite. Portanto, às terças e quintas, eu e minha colega esperávamos por ele para nos levar para casa. No intervalo entre o final da aula e a “carona”, passeávamos pelo centro da cidade visitando as lojas da Rua Direita, Rua José Bonifácio, Rua São Bento. Toda semana, calmamente, olhávamos as mesmas vitrines até que meu pai nos pegava em um determinado ponto na Rua Boa Vista.

 

Quando nosso curso de taquigrafia estava próximo do final, começaram as manifestações. Estávamos em sala de aula e ouvíamos os estrondos das bombas disparadas pelos militares contra os estudantes que se reuniam no Largo São Francisco. Os estrondos eram tão altos que pareciam que ocorriam na sala ao lado. O medo tomava conta dos alunos que teriam de sair às ruas após o término da aula, correndo o risco de se ver em meio ao tumulto. O que fazer para esperar pela carona de meu pai, por duas horas, em um clima tão hostil?

 

Tínhamos conhecimento do que estava ocorrendo, porém, ainda adolescentes, não dimensionávamos a situação. Ao sair às ruas, por várias vezes nos deparávamos com jovens correndo em várias direções e quase sempre havia muita fumaça. Não me lembro se as lojas fechavam as portas, provavelmente sim, mas não seriam lugar seguro.
Neste contexto, quando a aula terminava, eu e minha colega, rapidamente nos esgueirávamos pelas ruas menos tumultuadas e nos escondíamos no local que nos parecia o mais apropriado, pois o julgávamos livre de invasão: a Igreja de São Bento, no Largo São Bento, próximo à Rua Boa Vista onde às 19 horas meu pai nos apanharia.
Lembro-me que o interior da igreja era escuro, silencioso e sombrio, mas nos fazia sentir seguras. Ficávamos lá, de onde, por vezes, ouvíamos gritos e estrondos pelas ruas da região. Quando os grupos eram dispersos, saíamos de nosso refúgio, embora temêssemos ser abordadas pelos militares, ou cair no meio de novo conflito, que a cada semana se intensificava. Quando escurecia, o medo era ainda maior. Enfim, o curso terminou e voltamos ao nosso cotidiano em Itaquera, distantes das manifestações.
Foi dessa maneira que conheci a Igreja de São Bento. Hoje sei que ela é um marco da história da cidade.

 

O curso de taquigrafia valeu para eu captar com maior rapidez o conteúdo dos cursos que frequentei, mas por outro lado, me levou a ser um ator daquele momento histórico inesquecível do país.

 

Neide de Souza Praça é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você também mais um capítulo da nossa cidade. Escreva para milton@cbn.com.br. Ou agende uma entrevista, em áudio e vídeo, no Museu da Pessoa. Para ouvir outras histórias de São Paulo vá no blog, o Blog do Mílton Jung

Um passeio pela história no centro de São Paulo

 

Por Dora Estevam

 

Praça da Sé

 

Tenho andado pelo centro de São Paulo, em especial no que conhecemos por centro velho: praça João Mendes, praça da Sé, Largo São Francisco. Ali, tudo está muito próximo. E cada lugar com sua característica e peculiaridade. Todos imponentes: Catedral da Sé, Faculdade de Direito, Teatro Municipal. Tem ainda outros prédios que guardam na arquitetura a lembrança da São Paulo antiga e memorável. Será que os cidadãos que passeiam por ali têm ideia do significado desse patrimônio? Imagino que um estudante de arquitetura, sim. Em sua mais nova experiência de traçar as linhas para uma cidade contemporânea, deve ficar encantado e deslumbrado com tais monumentos, preciosos.

 

Santos de gesso

 

A Catedral Metropolitana, conhecida por Catedral da Sé, foi inaugurada em 1954, nas comemorações do quarto centenário de São Paulo. Passou por restauro, em 2002, respeitando as características originais da construção. Historiadores dizem que a Catedral é das maiores igrejas em estilo neogótico do mundo. Ali, nos jardins da praça, também fica o monumento “Marco Zero”, o ponto central da cidade. Para as famílias católicas há no entorno lojas especializadas em arte sacra que vendem diversos santos em gesso e vinho canônico.

 

Largo São Francisco

 

O que dizer da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo, ou a Faculdade de Direito do Largo São Francisco, ou ainda “Arcadas” em alusão a arquitetura. Chama  atenção até dos mais apressados, é impossível passar pela frente e não fazer uma foto para registrar esse pedaço da história. A faculdade foi criada pela lei imperial em 11 de agosto de 1827, poucos anos depois da Proclamação da Independência, para mais tarde ser incorporada pela USP. É considerada a faculdade mais antiga de Direito no Brasil. Inicialmente quem estudava no Largo São Francisco eram os governantes e administradores públicos.

 

Portão do Teatro Municipal

 

Minha curiosidade foi até o Teatro Municipal, que está maravilhoso, imponente. Exala cultura, glamour e história.  O teatro surgiu para suprir a necessidade da elite paulistana, formada pelos “Barões do Café”, que exigia um local de alto padrão nos moldes europeus para abrigar os espetáculos e óperas da época. O arquiteto responsável pelo projeto foi Francisco de Paula Ramos de Azevedo, que, por sua vez, foi homenageado emprestando o nome à Praça Ramos de Azevedo.

 

Sem dúvida, há inúmeros outros locais a serem visitados por essa região: Mosteiro de São Bento, Pateo do Collegio e Mercado Central, entre tantos outros igualmente importantes para a história da cidade.

 

Quem sabe me atrevo a descrever alguns desses outros pontos em um próximo post. Enquanto isso não acontece, deixo minha sugestão para quem estiver passeando na cidade ou visitando o centro da Capital: conheça estes pontos e busque informações que mostrem o real valor de cada prédio, que vai além da beleza arquitetônica. Inclua as crianças que terão uma aula da história do Brasil e do desenvolvimento de São Paulo.

 


Dora Estevam é jornalista e escreve sobre moda e estilo de vida aos sábados, no Blog do Mílton Jung

Conte Sua História de SP: caminhando, descobri a cidade

 

Por Sérgio Mendes
Ouvinte-internauta da CBN

 


Ouça o texto que foi ao ar no CBN SP sonorizado pelo Cláudio Antônio

 

Não tenho como não dizer a quem quer que me pergunte sobre esta cidade, que o centro é a parte mais bonita daqui. Foi nele a minha primeira parada. Cheguei em Junho de 1998 e além dos muitos sonhos, não tinha de minha posse mais nada. Fui morar numa kitinete na Rua Abolição, bem pertinho da CMSP.
Pra quem caminha por aquelas ruas sem pressa de chegar a lugar nenhum, ele se revela outro, muito diferente da visão que se possa ter de dentro de algum veículo, por detrás de janelas.

 

E foi por causa de longas caminhadas que descobri o que vou contar.
Daquela época para agora, nem dá pra dizer que muita coisa mudou. O centro vive sendo maquiado para agradar quem passa por ele de carro.

 

Eu tinha que caminhar a distância entre ele e a Avenida Brás Leme em Santana, e o que fiz foi aproveitar pra olhar os detalhes que todos os dias se repetiam.

 

A jornada começava atravessando o Viaduto 9 de Julho e depois dele à direita em direção ao Anhangabaú pela lateral da estação de Metrô. Uma vez no vale, dava início a maratona de verdade com a visão das duas pontes que circunscrevem o caminho através dele; o viaduto do Chá e mais a frente o Viaduto Santa Efigenia, que visto debaixo, é olhada de tirar o fôlego.

 

Pertinho do viaduto do Chá, os jardins do Teatro Municipal e mais acima ele próprio , são outra vista que sozinha vale um passeio mais frouxo. Seguindo à frente, uma disputa para os olhos; à esquerda o largo do Paiçandu e na esquina o prédio dos correios enfeitado com esfinges na sua magnífica fachada. À direita, dois outros marcos paulistanos que são os prédios do Banespa e o edifício Martinelli.

 

Na minha visão fantasiosa vejo o Anhangabaú como uma área de cafés, teatros, cinemas, bares, vida noturna ao ar livre, aproveitando também a estonteante Galeria Prestes Maia.

 

Na Tiradentes, onde outra vez encontram-se mais ícones da cidade como a Estação e o Parque da Luz, sem falar da Pinacoteca e mais adiante o Museu de arte Sacra. Na época ainda não existia a Sala São Paulo ou o Museu da Língua Portuguesa e o Memorial da Resistência, mas hoje eles também já estão lá.
Seguia até a Avenida Santos Dumont, quando numa parada, o Rio Tietê convida a uma olhada e reflexão profunda sobre o que realmente queremos da nossa cidade a partir do que fazemos com ela.

 

Nas águas sujas que já serviram a banhistas e lugar das regatas de um clube de mesmo nome do saudoso rio, as marcas do nosso descaso com a cidade. Lembranças de um tempo, quando outros paulistanos a aproveitavam melhor.
Adiante ainda pela Santos Dumont, uma Praça, homenagem como o nome da avenida a este brasileiro que é pai da aviação!

 

Depois, o Campo de Marte e finalmente a Avenida Brás Leme onde terminava a minha caminhada.

 

É certo que não somente estas partes do centro são belas. Ele não é o que é pelos edifícios ou monumentos. O centro é emblemático por conter a cidade inteira dentro dele. É também a referencia que se possa ter de qualquer lugar e São Paulo não é exceção.

 

Para dizer que pensamos esta cidade, é preciso que seu centro e toda a História que contém, estejam restaurados e reluzam a importância de tudo nele.
Hoje não moro mais lá, mas sempre que sinto falta de estar de verdade em São Paulo, arranjo uma desculpa qualquer na minha agenda, e me dou de presente uma tarde caminhando por aquelas ruas do meu melhor lugar pra se fazer História nesta cidade.

Conte Sua História de SP: meus passeios antes do Minhocão

 

Por Ivson Miranda
Ouvinte-intenrauta do Jornal da CBN

 

Ouça o texto que foi ao ar na CBN, sonorizado pelo Cláudio Antônio

 

Vista do Minhocão

 

Quem passa pela região de Santa Cecília e arredores e vê o estado de degradação, não tem ideia que lá já foi um local sofisticado, antes de o Governador Paulo Maluf cometer um atentado urbanístico, o pior que a cidade sofreu, no século 20: o Elevado Costa e Silva, vulgo Minhocão.

 

Durante um período da minha infância, morei na Barra Funda e meu pai trabalhava na Rua Rosa e Silva, travessa da Av. General Olímpio da Silveira. Ele nos levava nos fins de semana para passear naquela região.

 

Começávamos o passeio na loja Clipper, o primeiro magazine a ter escadas rolantes no Brasil, do lado da Igreja de Santa Cecília. Íamos cortar o cabelo, sentados em pequenos jeeps vermelhos. Corte curto dos lados e topete saliente, que ficava duro com um produto que era passado com ajuda do pente. Depois, o lanche, com direito a um delicioso misto quente e sorvete. Satisfeitos, saíamos caminhando pelas ruas arborizadas onde senhoras elegantes traziam no colo cachorros pequines, a raça da moda na época.

 

Na Praça Júlio de Mesquita, eu gostava de ficar procurando detalhes na Fonte Monumental, que funcionava, e ainda tinha as lagostas de bronze. Em dias de sol, os jatos d’água transformavam-se em múltiplos arco-íris. Perto dali, havia o Cine Metro, diversão era garantida nas manhãs de domingo com desenhos animados de Tom e Jerry. Confesso que mais de uma vez fiquei torcendo para que o gato finalmente pegasse o rato. De lá, visitávamos a feira de numismática e filatelia da Praça da República.

 

Passeávamos também pelos Campos Elíseos. Eu ficava admirado com os casarões, construções cheias de detalhes, de um tempo em que um mestre de obras tinha que ser um artista. Numa dessas casas havia várias camélias plantadas rente ao muro, exalando aroma muito diferente do cheiro permanente de dejetos humanos que agora persiste. E não havia uma multidão de zumbis sem controle vagando pelas ruas.

 

Fico imaginando se a minha cidade não tivesse sido profanada por aquela serpente de concreto e asfalto, se desde aquela época a opção fosse o transporte coletivo. Seria uma metrópole melhor e mais humana.

 

Ivson Miranda é personagem do Conte Sua História de São Paulo. Conte você também mais um capítulo da nossa cidade. Escreva para milton@cbn.com.br e comemore os 459 anos de São Paulo.

Foto-ouvinte: a cara de São Paulo aos 459 anos

 

Bicicleta no Pátio do Colégio

 

A ouvinte-internauta Manuela Colombo foi passear com a amiga de bicicleta pelo centro e visitou o Pátio do Colégio, local em que a cidade foi fundada. Ela, a amiga, a bicicleta e a história se encontraram nesta imagem que é uma das muitas caras de São Paulo aos 459 anos.

 

Neste aniversário da nossa cidade, você está convidado a enviar uma imagem que considere a cara de São Paulo. Confira aqui o álbum com as fotos compartilhadas pelos ouvintes-internautas do Jornal da CBN. Se inspire e participe com a gente desta festa.

Acampa Sampa: troca de afago e banheiro para o público

 

O pessoal do Acampa Sampa resiste no Vale do Anhangabau, centro de São Paulo, e o colaborador deste blog, Devanir Amâncio, da ONG EducaSP, toda vez que passeia por ali registra um momento desta ação. Para esta sexta-feira, publico dois “flagrantes” do local, assinados e fotografados pelo Devanir:

Banheiro do Ocupa Sampa

A privada do Ocupa Sampa – no Vale do Anhangabaú, centro de São Paulo – é de verdade e também poderia ser interpretada como um inteligente protesto contra a falta de banheiros públicos na cidade, e a falta de saneamento básico no Brasil e no mundo, principal causa de morte por diarréia, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS).

O sem-teto Antonio da Silva Monteiro,40,pintor e pedreiro, diz que ainda não assimilou o objetivo do Ocupa Sampa, e não sabe nada sobre os 7 bilhões de pessoas no mundo, mas levou seus préstimos ao movimento: construiu um banheiro com plástico e pedaços de madeira encontrados no lixo.

“Fiz rapidinho…Se o prefeito usasse a cabeça construiria vários desses no centro. Na hora do aperto ninguém liga pra luxo[…]

Uma turista alemã achou fantástica a ideia do sem-teto.

Tapume do amor

O Movimento Ocupa Sampa quer melhorar  a comunicação com o povo  e transmitir seus objetivos com clareza.  Projetou no tapume da Praça da Artes – em construção – no Vale do Anhangabaú, centro de São Paulo, um frase cercada de coraçõezinhos: ” Kassab, mais amor por favor”.

                                           

Foto-ouvinte: Os dois lados de São Paulo

 

Sala São Paulo

A visita a Sala São Paulo e estação Júlio Prestes rendeu boa foto e más lembranças ao ouvinte-internauta Eduardo Mucillo. Foi lá no fim de semana e ficou impressionado com o aspecto no entorno do local, onde a cultura se mistura à degradação:

O cheiro de urina por toda a praça e em frente da estação empestiava o local… fora o lixo espalhado pela rua como se há pouco tivesse acabado uma feira e, para piorar, centenas de andarilhos, isso mesmo centenas, espalhados pelas sarjetas consumindo o lixo e as drogas, pelos gestos provavelmente crack, como se nada pudesse detê-los.
E não pode!

A polêmica da Santa Cracolândia

 

Por Devanir Amâncio
ONG Educa SP

Santa Cracolândia

Usuários de crack reagiram com indignação ao serem informados sobre o apoio do cardeal dom Odilo Pedro Scherer, arcebispo de São Paulo, à obra ” Nossa Senhora do Crack”, do fotógrafo Zarella Neto. A imagem foi erguida na sexta-feira, 22/7, na parede de uma casa abandonada na rua Apa, Santa Cecília, e destruída no sábado de manhã por uma legião de viciados.

A intenção do artista era chamar atenção das autoridades para o ‘campo de concentração da Cracolândia’.

Germano Gerson,de 38 anos, o “Brasília”, viciado em crack há cinco anos, enquanto mostrava os cacos do que sobrou da imagem de gesso da Virgem Maria, acusou os envolvidos no caso da santa de zombar de Deus e da miséria humana. “Sou uma alma penada, como esta ao meu lado – enrolada num cobertor.”

A usuária Tati, 25, uma das mais exaltadas, pretende denunciar dom Odilo ao Vaticano por incentivo à profanação: “Ah, o bispo apoia .. vou na Lan House durante a semana… faço uma carta e envio por email ao Papa-, pode pegar a cópia do documento comigo… Se ele consagrou a ‘santa do crack’, ele (dom Odilo) deve ser enquadrado … Aqui não tem nenhum bobo, tem muita gente de cultura, que quer sair dessa. O pessoal está precisando é de clínica de tratamento e não de santa, e no mais, aqui tem seguidores de todas as religiões, tem até ateu… Respeito é bom! Eles esquecem que na Cracolândia vem professor, advogado, enfermeiro, jogador de futebol… em busca de crack. Eu não vendo, sou vítima, consumidora… como muita gente importante é. Fala pro bispo que a palavra… o apoio dele chegou tarde de mais, o diabo tomou conta de tudo… e o crack chega de bandeja.”