Foto-ouvinte: Fim de tarde paulistano

São Paulo sábado à tarde

Foi preciso desviar da congestionada Avenida Tiradentes que não tem folga para os motoristas mesmo em um sábado. No caminho até o Viaduto Aricanduva, zona leste da capital paulista, mais carros: “as pessoas correm de um lado para o outro”, diz o colaborador do blog Marcos Paulo Dias. Parece, porém, que tudo valeu a pena depois que ele conseguiu, sobre o viaduto, registrar esta imagem do fim de tarde no outono paulistano.

De céu e inferno

Por Maria Lucia Solla

Olá,

A turba alvoroçada prepara-se para um encontro com um mestre. Esperam que, num passe de mágica, ele possa lhes abrir as portas do céu. Ansiedade campeia e prolifera no ar.

A figura do mestre se aproxima sem que ninguém perceba. Nada de carruagem de fogo, helicóptero, ou nave espacial. Chega sem cortejo. Passeia o olhar pela multidão, sorri e não diz; pergunta: Quem sabe onde ficam Céu e Inferno? 

Menina entre o céu e o inferno, na AmarelinhaApós um mergulho no silêncio da surpresa, segue-se um ensurdecer de vozes descompassadas, pipocam desmaios, e alguns entram em transe, falando línguas só conhecidas no recôndito de suas próprias almas. Ninguém sai incólume. Há os que ficam imóveis, o olhar perdido num horizonte qualquer, tomando coragem para ver, e há outros, fisicamente agitados, que despejam, em público, o conteúdo de malas e malas de conceitos sufocantes, dos quais nunca haviam se separado. E endireitam a coluna, aliviados do peso. Ele olha. Sorri novamente um sorriso maroto, e vai embora. Parte como chegou. Sem Pompa e Circunstância.

Se isso aconteceu ontem, hoje, nesta realidade ou noutras paralelas; se ainda está para acontecer ou ainda se nunca aconteceu, não faz a mínima diferença.

Se eu estivesse lá, faria parte do grupo que fala mais que a boca. Diria que hoje vejo claro e cristalino que céu e inferno não ficam nem lá em cima, nem lá embaixo. À esquerda, à frente, à direita ou atrás. A gente se acostumou a olhar para fora.

Quantas vezes transitei por esses dois conceitos! Pior do que o esquizofrênico que constrói o castelo de areia e vai morar nele, eu acabava morando num castelo de areia que nem era meu. Tropeçava no céu e dizia: Inferno! Vivia um tempão ardendo no mármore do inferno, acreditando que aquilo era o mais próximo do céu que eu conseguiria chegar.

Então, fi-nal-men-te entendi, na mente e no coração ao mesmo tempo, que não fazia mais sentido continuar acreditando num céu e num inferno tamanho-único Não fazia sentido continuar a fingir que acredito que tudo acontece do lado de fora. Joguei fora a crença de que alguém pode manejar as rédeas da minha vida, enquanto eu descanso dela.

Não acredito mais que ter razão seja importante, e procuro não desperdiçar os preciosos minutos da minha vida, perseguindo sonhos que decididamente não são meus.

E você? Como andam seus conceitos de céu e inferno?

Pense nisso, ou não, e até a semana que vem.

De céu e inferno na voz da autora e com a música War cantada por Edwin Starr

Maria Lucia Solla é terapeuta, professora de língua estrangeira e autora do livro “De Bem Com a Vida Mesmo Que Doa”, publicado pela Libratrês. Todo domingo relata por aqui a experiência conquistada desde os tempos em que pulava amarelinha