Como diferenciar frustração de toxicidade e proteger suas relações

Por Beatriz Breves

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Quem nunca percebeu que, ao conviver com certas pessoas, alguns sentimentos ou comportamentos parecem ganhar força; com outras, simplesmente estes sentimentos não surgem? Isso acontece porque, quando duas ou mais pessoas se encontram, seus aspectos individuais entram em interação. Elementos semelhantes ressoam e se influenciam mutuamente, moldando a forma como cada um sente, reage e se posiciona naquele vínculo.

É justamente essa dinâmica que ajuda a explicar por que há relações que evoluem para a harmonia, enquanto há aquelas que deslizam para a toxicidade. O encontro entre duas subjetividades pode tanto gerar um campo fértil para o crescimento, quanto ativar padrões que ferem, limitam e desgastam.

Muitas pessoas confundem uma relação harmoniosa com uma relação perfeita. Harmonia não é sinônimo de perfeição, e perfeição, por sua vez, está longe de ser garantia de saúde. Se imaginássemos um casal “perfeito”, provavelmente veríamos uma convivência marcada pela monotonia, pela ausência de espaço para movimento, tensão criativa ou crescimento pessoal. Isso porque o ser humano amadurece justamente nas diferenças, ou seja, nas ausências, nos desencontros e nos contrastes que geram movimento.

Usando uma metáfora musical, é no intervalo entre as notas que o corpo encontra espaço para dançar. Da mesma forma, é no espaço entre as certezas, entre os pequenos atritos, que a relação se constrói e amadurece.

As frustrações cotidianas não significam que a relação está ruim; elas apenas indicam que algo precisa ser ajustado. Podem surgir do desejo por mais atenção ou da expectativa de mudança em algum comportamento, entre outras situações. Enfim, são ocorrências comuns, que costumam se resolver com diálogo, empatia e, em certos momentos, com a aceitação madura de que nem tudo pode, ou deve, ser transformado.

As frustrações cotidianas são inevitáveis e naturais; portanto, são frustrações saudáveis. Em qualquer relação, o não atendimento ocasional das expectativas faz parte do fluxo saudável entre duas pessoas, porque ninguém consegue corresponder integralmente ao que o outro deseja o tempo todo. O que realmente importa é como cada pessoa lida com esses pequenos desencontros — se eles se transformam em espaço para o diálogo e passam a fazer parte do amadurecimento do vínculo.

A frustração tóxica não segue esse padrão. Como o próprio nome sugere, ela intoxica. Enquanto a frustração cotidiana aponta para ajustes possíveis dentro de um vínculo que permanece respeitoso, a frustração tóxica corrói, desorganiza e fere. Manifesta-se por comportamentos repetitivos gerando sofrimento psicológico constante e, por vezes, físico. Nessas relações, os conflitos se tornam a base da convivência, pois prevalecem o desrespeito, o controle e a manipulação.

Uma relação tóxica drena a vitalidade emocional, porque funciona por repetição de padrões que machucam, desgastam e desorganizam o bem‑estar de quem está envolvido. O sofrimento deixa de ser pontual e é constante, criando um ambiente de tensão, insegurança e exaustão afetiva, gerando intenso desgaste emocional.

A frustração saudável abre espaço para conversa e reajuste; a que contém toxicidade, instala medo, insegurança e perda de autonomia. A frustração cotidiana funciona como um remédio amargo que, mesmo causando incômodo, favorece o crescimento, a reorganização e a maturidade emocional. Já a tóxica age como um veneno que corrói lentamente, enfraquece a capacidade de discernimento e paralisa a iniciativa.

Transformar uma relação tóxica é um processo complexo porque exige que ambos reconheçam o padrão e se comprometam com a mudança. Esses padrões costumam estar profundamente enraizados, muitas vezes construídos ao longo de anos, e, por isso, não se desfazem somente com boa vontade ou promessas. O primeiro passo é admitir a necessidade de mudança; o segundo, identificar os comportamentos que sustentam a dinâmica tóxica; e o terceiro, buscar apoio para reconstruir a forma de pensar, sentir e se relacionar.

Entre os comportamentos tóxicos mais conhecidos estão o gaslighting, quando um dos parceiros distorce a realidade do outro a ponto de fazê‑lo duvidar da própria sanidade; o manterrupting, caracterizado por interrupções constantes e desnecessárias que impedem o outro de concluir seu raciocínio; e o mansplaining, que ocorre quando um dos parceiros fala condescendentemente, explicando o óbvio como se o outro fosse incapaz de compreender.

Estão nesta lista de comportamentos tóxicos também o love bombing, marcado pelo excesso de carinho no início da relação para, mais tarde, exercer controle; o silêncio punitivo, usado como forma de castigo que gera insegurança; e o ciúme possessivo, que funciona como controle disfarçado de cuidado.

Compreender a diferença entre frustração cotidiana e frustração tóxica ajuda a nutrir relações mais saudáveis, sensíveis e respeitosas. Essa compreensão fortalece os vínculos e amplia a nossa potência de amar.

Leia o livro Falando de Sentimentos com Beatriz Breves

Beatriz Breves é presidente da Soc. da Ciência do Sentir. Psicóloga, bacharel. licenciada com Esp. em Física (FAHUPE). Mestre em Psicologia (AWU/USA). Psicanalista (SBPRJ/IPA). Psicoterapeuta de Grupo (SPAG–E.Rio). Sócia tit. Pen Clube do Brasil. Publicou O Eu Fractal e outros livros, pela ed. Mauad.

Sobre o sentimento de abandono

Por Beatriz Breves

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O sentimento de abandono, quando vivido em sua forma mais intensa, pode fazer o tempo parecer arrastado, o espaço tornar-se áspero e a dor ocupar toda a região interna do peito. É uma experiência que pode emergir da ausência de alguém, do enfraquecimento de um vínculo ou da quebra de expectativas que sustentavam a sensação de pertencimento. Em muitos casos, sentir-se abandonado equivale a perceber o chão se desfazendo sob os próprios pés.

É natural existirem diferentes intensidades desse sentimento, variando desde pequenos abandonos até vivências mais profundas. Inclusive, experimentar pequenos abandonos se faz até necessário para que a pessoa aprenda a se cuidar melhor e a se acompanhar com mais presença de si mesma.

Há também diversas defesas para evitar o sofrimento associado ao abandono. Entre elas, observa-se quem, movido pelo medo da perda, abandona antes de ser abandonado. Há ainda quem recorra a subterfúgios externos — às vezes evidenciados por excessos de ação — na tentativa de não entrar em contato com a dor, defesa que vale para qualquer forma de sofrimento.

Ainda assim, o abandono costuma vir acompanhado do desamparo, que ressoa em solidão, angústia, desespero, insegurança e tantos outros sentimentos. Acrescenta-se ser comum a sensação de um vazio interno que revela o quanto a pessoa se sente só diante da própria existência. A gravidade desses sofrimentos dependerá da intensidade com que se manifestam e do quanto paralisam a vida de quem os vivencia.

Fato é que sentir-se só pode nos afastar de nós mesmos e nos levar a perder nossas referências internas. É nesse movimento que pode emergir um abandono ainda mais sofrido: a renúncia de nós por nós mesmos.

É fácil compreender que, quando nos abandonamos, atropelamos a dor que sentimos, silenciamos necessidades legítimas e seguimos adiante sem nos escutar. Aspectos importantes de quem somos são colocados à margem, deixando-nos em desamparo e sem acolhimento, promovendo uma grande desarmonia interior. A desconexão interna então se impõe.

Entretanto, quando percebemos que nossas lágrimas não são somente pelo que perdemos, mas também pelo que deixamos de ser para nós mesmos, pelas palavras gentis que não nos oferecemos e pela atenção que deixamos de nos dedicar, compreendemos que o sentimento de abandono não diz respeito somente ao que se foi, mas também ao que nós mesmos nos negamos. É justamente aí que surge a possibilidade de resgate: ao percorrermos nossos caminhos internos pela via do autoacolhimento, temos a chance de recuperar nossa presença em nosso próprio mundo e voltarmos a nos acompanhar.

Ao nos cuidarmos com atenção e gentileza, abrimos um espaço interno onde a dor não precisa dominar, podendo ser vivida com mais lucidez e menos solidão. Nesse gesto de autoacolhimento, descobrimos uma força cuidadora que habita em cada um de nós, uma força que sustenta, reorganiza e nos permite seguir adiante, amparados pela presença mais constante que temos em nossas vidas: nós mesmos. Afinal, se nós não nos tornarmos o nosso melhor amigo, dificilmente alguém poderá ocupar esse lugar.

Beatriz Breves é presidente da Soc. da Ciência do Sentir. Psicóloga, bacharel. licenciada com Esp. em Física (FAHUPE). Mestre em Psicologia (AWU/USA). Psicanalista (SBPRJ/IPA). Psicoterapeuta de Grupo (SPAG–E.Rio). Sócia tit. Pen Clube do Brasil. Publicou O Eu Fractal e outros livros, pela ed. Mauad.

O universo que vibra em nós

Por Beatriz Breves

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Vamos imaginar que a espécie humana, ao longo de sua evolução, não tivesse desenvolvido o sentido da visão. Como perceberíamos o mundo? Como teria se desenrolado a história da humanidade se pudéssemos falar, ouvir, tocar, sentir o paladar e o cheiro, mas jamais enxergar?

Fica difícil imaginar esse cenário porque as pessoas com deficiência visual de hoje vivem em um mundo projetado por quem enxerga. Por isso, aprendem conceitos moldados pela experiência visual. Ainda assim, algumas desenvolvem técnicas próximas à ecolocalização — o mesmo mecanismo usado por morcegos para identificar objetos por meio do eco de sons de alta frequência. Esse fato revela que, mesmo sem a visão, a humanidade encontraria caminhos próprios de desenvolvimento, ainda que muito diferentes dos que conhecemos.

Ampliando esse exercício, no que diz respeito à audição, imaginemos que a espécie humana, que evoluiu percebendo sons entre 20 e 20 mil ciclos por segundo, tivesse adquirido a capacidade auditiva de um cachorro, capaz de alcançar até 50.mil ciclos por segundo. Ou de certas mariposas, sensíveis a frequências que ultrapassam 100 mil ciclos por segundo? Como teria evoluído nossa cultura, nossa linguagem, nosso conhecimento científico, enfim, a nossa percepção de mundo?

Os limites da percepção humana

Não é difícil concluir que cada ser vivo percebe o universo a partir de um campo sensorial próprio, moldado pela evolução. Assim, um cachorro vive na dimensão C; uma mariposa, na dimensão M; e o ser humano, na dimensão H. Essas dimensões não são lugares, mas modos de recortar o real, filtros que determinam o que existe para cada espécie.

A dimensão H, portanto, não é o universo em si, mas um fragmento do que conseguimos captar. A solidez da matéria, a estabilidade dos objetos, a separação entre o visível e o invisível, tudo isso é, em grande parte, uma construção da nossa forma de perceber.

Para tornar essa ideia ainda mais clara, imaginemos o inverso: e se tivéssemos evoluído para perceber diretamente o microcósmico — o domínio quântico, onde partículas, campos e interações fundamentais constituem a base de tudo? Nesse nível, a realidade não aparece como objetos sólidos, mas como oscilações, probabilidades, padrões vibratórios. O quântico não descreve “coisas”, mas processos vibracionais.

Se esse fosse o nosso campo perceptivo natural, a incerteza não estaria no subatômico, mas nas células, nos genes e nos processos internos do corpo. O que hoje chamamos de “material” seria somente uma manifestação ampliada, ou reduzida, de uma realidade vibracional mais profunda.

Assim, quando dizemos que cada espécie vive em sua própria dimensão, estamos reconhecendo que o universo é um só, mas a natureza que cada ser experimenta é profundamente diferente.

Como escrevi em O Homem Além do Homem (2001):

“A dimensão H é o ponto de origem da criação de todas as concepções humanas, ou seja, a matemática, as ciências, a filosofia, os mitos, tudo o que o ser humano concebeu e ainda irá conceber.” (p. 46, RJ: Mauad X)

Cabe ressaltar que, além da dimensão H, observa-se a dimensão h, aquela que, individualmente, cada ser humano, em sua subjetividade, com os recursos que a natureza lhe concedeu, concebe e interpreta a si e o mundo à sua volta.

Essa perspectiva nos leva a compreender que divisões como massa e energia, psíquico e corpo, início e fim, são efeitos da nossa percepção limitada. É a própria evolução humana que cria a fronteira entre o visível e o não visível, o material e o não material, o macro e o microcósmico. 

Do paradigma material ao paradigma vibracional

Frente a essa constatação, a crítica ao paradigma cartesiano‑materialista se torna inevitável. Ele descreve a realidade como composta por entidades separadas, sólidas e independentes, privilegiando aquilo que é mensurável e visível.

O paradigma vibracional, por outro lado, parte da premissa de que a vibração é o fundamento comum a todos os níveis da realidade — seja da ordem quântica, biológica, psíquica ou cosmológica. Enquanto o paradigma materialista fragmenta e reduz o real a objetos isolados, o paradigma vibracional compreende a realidade como um sistema — um conjunto de processos em constante interação — no qual nada existe isoladamente, mas somente em relação, movimento e ressonância.

Sob esse olhar, o ser humano, em seus níveis material e quântico, revela‑se como um complexo vibracional macromicro uno, inteiro e indivisível, uma totalidade à qual não temos acesso direto. Da mesma forma, soma e psique deixam de ser causa e efeito, sendo duas expressões distintas de uma mesma realidade vibratória.

Esse é justamente o princípio que fundamenta a Ciência do Sentir: compreender o sentir como a experiência vivenciada da vibração que somos e com a qual interagimos. Assim, ao acessarmos a totalidade da natureza, não o fazemos pela visão, pela audição ou por qualquer sentido isolado, mas pela capacidade do nosso sistema perceptivo de captar vibrações que se expressam, no sentir, como sensações, sentimentos e pensamentos.

Em última instância, a Ciência do Sentir reconhece que, para compreender a totalidade vibracional que somos, precisamos aprender a sentir o universo que vibra em nós. 

Leia, também, aqui no blog, “A ciência do sentir: uma nova compreensão vibracional do ser humano”

Beatriz Breves é presidente da Soc. da Ciência do Sentir. Psicóloga, bacharel. licenciada com Esp. em Física (FAHUPE). Mestre em Psicologia (AWU/USA). Psicanalista (SBPRJ/IPA). Psicoterapeuta de Grupo (SPAG–E.Rio). Sócia tit. Pen Clube do Brasil. Publicou O Eu Fractal e outros livros, pela ed. Mauad.

Stanford mandou avisar que ainda não sou velho; alguém pode contar para o plano de saúde?

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Acordei nesta manhã um pouco mais jovem. E não foi a sequência de exercícios, com musculação e bicicleta, a que tenho me dedicado nos últimos anos, que me concedeu esse prêmio. Nem a alimentação, que ainda precisa de um controle maior — desde que a Dra. Márcia não se atreva a mexer na minha taça de vinho. A juventude fora de hora me foi oferecida em formato de notícia.

Quando o dia está amanhecendo e estou à mesa de café da manhã, a Letícia Valente, produtora do Jornal da CBN, me envia pelo WhatsApp sugestões de assuntos para o bate-papo que faço na passagem do programa Primeiras Notícias para o Jornal da CBN. Uma das mensagens que chegaram hoje, publicada em O Globo, se destacava pela manchete: “Quando começa a velhice? Estudo indica marco biológico aos 78 anos”.

Sério? Faz uns dois anos que dizem que sou velho porque passei a marca dos 60. Agora vem essa novidade: velho mesmo só aos 78.

A reportagem fala de um estudo da Universidade de Stanford sobre o desenvolvimento biológico do envelhecimento. A conclusão dos pesquisadores veio da observação de mudanças bruscas nas proteínas plasmáticas, moléculas que circulam no sangue e indicam o estado geral de saúde do organismo. Essas proteínas são como ajudantes de bastidor: mantêm o equilíbrio de líquidos, carregam nutrientes, defendem o corpo de infecções. Quando mudam de comportamento — aos 34, 60 e 78 anos — sinalizam que o corpo virou a página e entrou em outra fase.

Se, do ponto de vista biológico, eu ainda não sou velho, do ponto de vista burocrático o sistema já me carimbou faz tempo. Ser 60+ nos oferece algumas vantagens: prioridade no recebimento da restituição do Imposto de Renda, gratuidade no transporte coletivo, meia-entrada em espetáculos, vaga privilegiada no estacionamento e fila preferencial nos serviços de atendimento (e no embarque do avião, também). Quem não gosta? Por outro lado, com o aumento dessa população — já somos milhões de pessoas acima dos 60 — tudo isso gera mais custos para quem concede essas vantagens.

Já assistimos a movimentos para que os direitos concedidos a idosos sejam limitados a pessoas um pouco mais velhas, tipo 65+. O estudo talvez possa ser usado para radicalizar ainda mais e convencer legisladores a adiar os benefícios apenas para aqueles que tiverem atingido os 78 anos.

A depender de mim, sem problema. Posso abrir mão de furar fila no embarque e no caixa — desde que os planos de saúde também abram mão de tratar quem tem 60 como se estivesse à beira do fim. Se biologicamente a velhice começa aos 78, a tabela de preços bem que podia acompanhar.

Avalanche Tricolor: terapia para tempos difíceis

Grêmio 1×1 Alianza Lima
Sul-Americana – Arena do Grêmio, Porto Alegre RS

Foto: Lucas Uebel/GrêmioFBPA

Escrevo pouco antes de começar mais uma sessão de terapia. Retomei os encontros com a psicóloga em meio à pandemia, depois de alguns anos distante da análise. Sou adepto da ideia de que não precisamos, necessariamente, apresentar problemas aparentes para nos submetermos ao escrutínio de um profissional da mente humana. Revisões de pensamento e comportamento devem ser constantes, especialmente diante da velocidade com que o mundo se transforma ao nosso redor.

Antes que a psicóloga me chame — sim, as minhas sessões são virtuais —, decidi “pagar a conta” dessa Avalanche, que originalmente era publicada minutos após o apito final do árbitro. Era a oportunidade de enaltecer os feitos e relativizar os defeitos do Grêmio ainda na emoção da partida recém-encerrada. Desde sempre defendi a ideia de que não caberia, neste espaço, a crítica exagerada do torcedor da arquibancada, muito menos o ataque virulento a jogadores que, por ventura, não estivessem à altura da nossa camisa. Foi graças a essa intenção que fui convidado, no passado, a republicar meus textos em um blog de gremistas — perdi o espaço quando o titular do blog arrefeceu diante da incapacidade de resistir aos ataques que a polarização que vivemos provocou em sua saúde mental. Uma pena!

Há algum tempo, especialmente devido aos meus compromissos profissionais, não tenho cumprido com a proposta inicial e as Avalanches passaram a ser publicadas quando encontro espaço na agenda. Escrever logo após os jogos me ajudava a distensionar, expressando minhas emoções, nomeando meus sentimentos e buscando, sempre que possível, justificativas para o que assisti em campo — especialmente nos momentos mais difíceis do nosso time (momentos como os atuais). Era uma terapia. Mais recentemente — e isso não começou neste ano — tenho me revelado mais amargurado do que gostaria. Alguns comportamentos do clube e de seus integrantes passaram a me incomodar, e perdi em parte a ilusão que sempre me moveu.

Este ano não tem sido fácil para os torcedores gremistas. Os resultados em campo estão aquém do que buscávamos (não me atrevo a escrever “aquém do que merecemos”). Perdemos o Campeonato Gaúcho, fomos eliminados da Copa do Brasil e, agora, da Sul-Americana, que já era um consolo por não termos conseguido, no ano passado, vaga na Libertadores. Levantar a Recopa Gaúcha, convenhamos, não leva ninguém a desfilar com a bandeira na Goethe (o pessoal ainda vai para lá, caro e raro leitor?).

A persistirem os sintomas, nossas pretensões no Campeonato Brasileiro serão bastante humildes — e humildade não costumava vestir nossa camisa, considerando a alcunha de Imortal. A não ser que alguma contratação extraordinária ocorra na próxima janela de transferências, será heroico se alcançarmos vaga na pré-Libertadores. A partida de ontem à noite, na Nossa Arena (com letras maiúsculas porque agora temos estádio próprio), foi uma demonstração de que existe uma limitação técnica que nos distancia das vitórias. Claramente, o time fez um esforço brutal para alcançar o resultado que nos classificaria às oitavas de final da Sul-Americana. Difícil apontar o dedo para algum jogador que não tenha se redobrado em campo para dar a fugaz felicidade que buscávamos em uma data tão especial para a história do clube. Mesmo assim, faltaram em muitos momentos o passe apurado, o deslocamento necessário e o chute certeiro ao gol adversário. Jogar futebol tem sido uma sofrência para os nossos jogadores.

A comemorar, apenas a retomada da Arena, com uma estratégia de compra e doação que ainda causa desconfiança — principalmente entre aqueles que buscam na lógica uma explicação que só o coração de um torcedor (bilionário) é capaz de justificar. Escrevi recentemente sobre o significado da atitude do empresário Marcelo Marques e de como a ideia de sermos donos do próprio estádio mexe com as emoções de um torcedor que, desde pequeno, pulava nas arquibancadas de cimento do Olímpico. A presença de mais de 40 mil torcedores na noite de ontem, em Porto Alegre, mostrou o orgulho que temos desse momento — sentimento que é confrontado com a frustração dos resultados em campo.

Terminei a partida com a impressão de que o Grêmio tem uma torcida e tem um estádio. Precisa, agora, de um time. A partir de agora, sermos competitivos e estarmos na disputa por títulos será uma exigência não apenas porque nos acostumamos com os grandes feitos ou pela dimensão do Grêmio na história do futebol. É improvável que a engenharia financeira criada para termos a Nossa Arena se sustente diante de desempenhos pífios da equipe — o que seria uma decepção sem tamanho.

Precisamos urgentemente nos desvencilhar da armadilha que criamos ao acreditarmos na imortalidade futebolística. De que tudo se realizará por obra divina. Se algo conquistamos, mesmo em momentos dos mais árduos, é porque fizemos por merecer. Recentemente, deparei com um pensamento que compartilho com você, caro e cada vez mais raro leitor desta Avalanche, extraído do excelente Imortalidades, de Eduardo Giannetti:

Crer e ser — Crer-se imortal não torna imortal; ignorar-se mortal não torna imortal. Crer-se mortal não torna mortal; ignorar-se imortal não torna mortal. Fleumático ou sanguíneo, rebelado ou reconciliado, não importa: o mesmo faz quem se crê ou ignora. O que será, será.

Depois dessa, acho melhor me preparar, porque a sessão de terapia está para começar.

O encontro de Alois Alzheimer e Karl Popper

Dr Renan Domingues

@renandominguesneurologia

“Várias vezes ao dia, ela diz:

Eu perdi a mim mesma’.”

Alois Alzheimer, sobre sua paciente Auguste Deter,

o primeiro caso descrito da Doença de Alzheimer

“Se uma teoria lhe parece ser a única possível,

tome isso como um sinal de que você não entendeu

nem a teoria nem o problema que ela pretendia resolver”

Karl Popper, filósofo da ciência

Alois Alzheimer (1864–1915) foi um médico psiquiatra e neurologista alemão que contribuiu decisivamente para os primórdios da neurociência moderna. Em 1906, durante uma conferência, apresentou o caso de Auguste Deter, uma paciente com perda progressiva de memória, desorientação, dificuldades de linguagem e comportamento, além de um declínio cognitivo que avançava sem trégua. Após o falecimento de Auguste, Alzheimer analisou seu cérebro e descobriu três alterações patológicas inéditas até então: placas fora das células, denominadas amiloides; depósitos dentro dos neurônios, conhecidos como emaranhados neurofibrilares; e uma perda neuronal generalizada. As alterações descritas por ele foram consideradas responsáveis pelo quadro de demência observado e, posteriormente, a doença passou a levar seu nome.

Mais tarde, descobriu-se que as placas amiloides são compostas por uma proteína anormal, a beta amiloide 42, que parece ter um papel central nos estágios iniciais da Doença de Alzheimer. O acúmulo dessa substância no cérebro parece iniciar uma sequência de eventos patológicos, a chamada cascata amiloide, que inclui a formação dos emaranhados neurofibrilares, levando à morte neuronal e, com o tempo, à atrofia cerebral. Esse acúmulo da beta amiloide 42 pode ocorrer em função de mutações genéticas que aumentam sua produção, ou por falhas nos seus mecanismos naturais de eliminação.

Com base na teoria da cascata amiloide, recentemente desenvolveram-se anticorpos monoclonais capazes de remover a beta amiloide 42 acumulada. E de fato, os estudos mostraram uma redução eficaz das placas amiloide com estes medicamentos. A lógica parecia infalível: remover a causa, deter a doença. Mas a clínica frustrou a expectativa e os benefícios cognitivos para os pacientes foram modestos, quase sempre abaixo do impacto esperado.

É nesse ponto que o conhecimento iniciado por Alois Alzheimer se encontra com a filosofia de Karl Popper (1902–1994). Um dos maiores pensadores da ciência no século XX, Popper argumentava que o conhecimento científico não avança por confirmações, mas sim por tentativas de refutação. Uma teoria só é científica se ela é testável. Se ela resiste a esses testes, ela é provisoriamente aceita, mas jamais considerada definitiva. A ciência, para Popper, é feita de hipóteses ousadas que precisam ser colocadas à prova, sempre com a consciência de que toda explicação é temporária.

Aplicando esse olhar à teoria da cascata amiloide, a constatação de que os pacientes não melhoram, mesmo após a remoção da proteína anormal, poderia ser interpretada como uma refutação da hipótese. Mas Popper adverte: “A ciência será sempre uma busca e jamais uma descoberta. É uma viagem, nunca uma chegada. O conhecimento é uma aventura em aberto.” Em outras palavras: calma! A ausência de melhora clínica não encerra a questão, pode apenas indicar que chegamos tarde demais. Talvez o acúmulo de beta amiloide 42 ocorra décadas antes dos primeiros sintomas, e sua remoção, uma vez iniciada a cascata degenerativa, seja insuficiente para reverter os danos. Ou talvez existam outros processos igualmente importantes em ação, como a inflamação, o papel de outras proteínas e fatores ainda desconhecidos.

A lição de Popper permanece atual: a certeza é inimiga do pensamento científico. A verdade não é algo que se possui, mas algo que se persegue com humildade e abertura ao erro. Se estamos convencidos de que a teoria da cascata amiloide é a única explicação possível, talvez já tenhamos caído na armadilha. E como sair, diante dos dados que agora desafiam aquilo em que acreditamos com convicção?

É justamente quando temos certeza demais que, como Auguste Deter, corremos o risco de nos perder. Porque lucidez, no fim das contas, não é saber exatamente onde estamos, mas é reconhecer o que não sabemos e, ao mesmo tempo, formular as perguntas certas para mais adiante estarmos um pouco menos perdidos.

Renan Domingues é neurologista e doutor pela Universidade de São Paulo (USP), doutorado pela Universidade do Alabama em Birmingham, EUA, e pós-doutorado pela Universidade de Lille, França. Escreve a convite do Blog do Mílton Jung

Fernando Nobre lança o livro “Homem Médico” que une coração, ciência e conhecimento.

Dr. Fernando Nobre, cardiologista e mestre na arte da comunicação, é a personificação do médico que todos almejamos ter. Convicto de que o conhecimento quando compartilhado pode salvar vidas, ele excede o papel tradicional do médico ao esclarecer e educar, fazendo da linguagem um instrumento de cura. Seu talento para transmitir informações de saúde de maneira compreensível tem o poder de prevenir doenças e de transformar o cenário médico como um todo. É o que chamo de médico comunicador!

No consultório, Nobre transforma complexidades médicas em diálogos claros, fortalecendo o vínculo entre médico e paciente e aumentando significativamente a eficácia do tratamento. Na CBN Ribeirão Preto, onde apresenta o quadro CBN Saúde, sua voz ganha novas dimensões e se espraia pelos diversos rincões alcançados pelas ondas do rádio. Nos livros, usa de sua escrita qualificada para traduzir a complexidade da medicina em palavras que encantam e informam. Foi um dos editores do “Tratado de Cardiologia SOCESP”, que ganhou o mais prestigiado prêmio de literatura do Brasil: o Jabuti, na categoria “melhor livro de ciências da saúde”, em 2006.

Agora, com “Homem Médico” (Novo Século), Dr. Nobre se aventura ainda mais profundo no tecido da existência humana. Mais do que um relato, o livro é uma odisseia que celebra a resiliência, a empatia e os valores éticos que formam a espinha dorsal da medicina. Acompanhamos a jornada de Dr. Reinaldo, um médico cuja vida e prática são um espelho da própria alma da medicina – cheia de desafios, mas também repleta de triunfos silenciosos.

A escolha de Dr. Reinaldo de tratar pessoas e não doenças ressoa com um apelo por uma medicina mais compassiva, que vê cada paciente como um universo único de necessidades e histórias. Através da narrativa de Fernando Nobre, somos convidados a entender que a medicina é tanto uma arte quanto uma ciência – um equilíbrio delicado que poucos conseguem sustentar com tanta graça.

Dr Fernando Nobre, seu personagem Dr Reinaldo e o livro esperam você na Livraria da Vila, do Shopping Eldorado, nesta quinta-feira (dia 21 de março), a partir das 18h30.

Observações de um sesamóide quebrado

Foto: Pexels

Um fratura nos minúsculos sesamóides, dois ossinhos tão ridículos quanto necessários do dedão, me proporcionou uma série de experiências baseadas em observações e agitou a semana que prometia ser de pasmaceira no noticiário e entediada no cotidiano. A começar pela prova de quanto o corpo humano pode ser frágil e o ser humano, dependente. 

Com a necessária imobilização do local fraturado, perde-se o movimento de uma das mãos e se restringe uma série de atividades para as quais damos pouca importância mas que podem se transformar em desafios que exigem malabarismo e súplicas de solidariedade. Tente amarrar o cadarço do sapato com uma só mão ou abotoar o punho da manga da camisa sem a mão do lado oposto – sim, eu sei, a humanidade tem coisas mais importantes com que se preocupar. 

Eu também, tenho. Trabalhar, por exemplo.

Por isso me espantaram dois dos profissionais de saúde que me atenderam nesses dias. O primeiro insistia que eu aceitasse o atestado médico me dispensando por uma semana. O outro, depois de saber que eu seguia dando expediente, concluiu: “então você é o dono”. Nem do meu nariz! Que, aliás, tentei coçar à noite e arranhei com a órtese de mão que estou “vestindo” em substituição ao gesso desproporcional que o hospital me obrigou a colocar por ser o procedimento mais barato.

Observei também a reação dos amigos e parentes diante do incidente. Foi reveladora de como temos dificuldades de encontrar a forma mais apropriada de solidariedade. Um, antes de eu terminar minha triste história – e eu só queria ter o direito de externalizar minha dor -, começou a falar dos acidentes que ele sofreu. Todos muito piores do que o meu. Sai da conversa arrasado: os casos dele eram insuperáveis. 

Teve o que exercitou a empatia, sempre recomendável nas relações humanas. Ao explicar que havia quebrado o sesamóide, ele logo se uniu a mim para dizer que é a “pior coisa que podia acontecer”. Ao deixar a conversa passei a cogitar a morte no próximo tombo que levar.

Um terceiro lamentou meu azar de ter caído quando faltavam apenas três degraus para chegar ao chão. Teria sido melhor que eu caísse da parte mais alta, então? 

Experiência pior foi o que os exames laboratoriais me proporcionaram. Nem tanto pelo exame em si, nem pelo atendimento recebido – todos os funcionários eram muito simpáticos. Enquanto esperava as imagens da tomografia computadorizada feita em equipamentos ultramodernos, me vi na posição de observador de um diálogo do período jurássico, protagonizado por dois clientes na sala de espera. 

Após a TV anunciar que o governo reduziria o tempo para a terceira dose da vacina contra Covid, o senhor, que parecia mais velho do que eu,  balbuciou algo para a moça, que parecia mais jovem do que eu. Foi a senha para o início de uma conversa que me faz saber que ambos tinham contraído a doença e tomado as duas doses da vacina. Daí pra frente foi uma sequência de absurdos. Ela reclamou que ninguém sabe o que está fazendo porque a orientação sobre número de doses e tempo de intervalo muda a todo momento: “eu vou esperar uns sete meses antes da terceira dose pra ver o que vai acontecer com quem tomou”. Ele contra-atacou: “conheço uma monte de gente que passou mal, eu não vou tomar o reforço. Até já peguei Covid!”.

No segundo episódio da conversa, os dois passaram a relatar sequelas deixadas pela doença. E o senhor, do alto de sua sabedoria, recomendou a ela um chá sei-lá-do-que que tem o mesmo “princípio ativo” de um remédio que está sendo desenvolvido na Alemanha para conter os males deixados pela Covid-19. A moça que havia revelado descrença na ciência que desenvolve vacinas, arregalou os olhos e, antes de se despedir, comentou: “se esse chá funciona mesmo, será uma revolução”. Pegou os exames, despediu-se e foi embora batendo firme os saltos no piso, levando a tiracolo a crença na sabedoria popular e o negacionismo à ciência.

Confesso meu desejo de ter intervindo na conversa ao menos para saber o nome do chá milagroso que resolve o que conhecemos por Covid longa. Preferi resguardar-me em minha própria ignorância. E resignei-me ao papel de observador, apesar de estar convencido de que se eu prestasse mais atenção na minha vida do que na dos outros, talvez tivesse percebido que havia um degrau no meio do caminho. E meus sesamóides estariam intactos.

Livro traz evidências para você combater o negacionismo que desinforma e mata

Carlos Orsi e Natália Pasternak Foto: Instagram

O cético exige evidências robustas para corroborar um fato ou um achado científico. O negacionista nega os fatos e o achado científico sem oferecer evidências robustas. 

Bem mais do que um jogo de palavras, as duas frases que iniciam este texto estabelecem de forma definitiva o campo de ação de cada um desses comportamentos; e os coloca em lados extremamente opostos. Fazer essa diferença é fundamental porque há um enorme esforço de parcela da sociedade —- menos mal que não é tal parcela significativa —- em negar a verdade apenas porque ela não lhe convém; e chama isso de ceticismo. Não o é. Tem nome próprio: negacionismo. E negacionismo prejudica, deseduca, desinforma e mata. 

Exemplos não nos faltam nem exigem voltar ao tempo: quantos morreram porque não acreditaram na existência de que estávamos em uma pandemia; quantos foram mortos porque líderes políticos e gestores públicos negaram as evidências que a ciência havia encontrado desde o surgimento dos primeiros focos de contaminação pelo SarsCov-2; quantos lerão essa história lá na frente, quando nós não estaremos mais por aqui, e dirão que aquela suposta tragédia humana dos anos 2020 foi uma estratégia de governos dominadores em conspiração com laboratórios de ciência que teriam ficado de joelhos diante do império chinês que se estabelecia —- e não me peça para explicar a lógica desta frase porque ela só existe na mente de negacionistas.

Essa conversa que tenho com você agora, se iniciou hoje cedo na “Conversa de Primeira”, que faço todas as terças-feiras com uma cética que trava batalha diária contra o negacionismo. Cética e com orgulho como ressaltou a doutora Natália Pasternak, que não requer crachá nem apresentações; mas que faço questão de registrar ser  a primeira brasileira com nome inscrito no Comitê para a Investigação Cética, criada pelo astrônomo Carl Sagan, nos anos de 1970.  Ela está lançando com o jornalista científico (e marido) Carlos Orsi, o livro “Contra a realidade — a negação da ciência, suas causas e consequências” (Papirus 7 Mares)

“É um tema que a gente vem explorando há muito tempo por causa do nosso trabalho no Instituto Questão de Ciências. Principalmente por causa do negacionismo em ciência e que durante a pandemia a gente presenciou de camarote — vimos acontecer no Brasil de uma maneira que é difícil de acreditar.  Mas não apenas em ciências”.

Eis aí na explicação de Natália outro fato incontestável. O negacionismo ataca a verdade construída pela ciência, mas não se contenta em atuar apenas nessa área. Vai além. Vai para a história quando nega a existência do holocausto, a despeito da robustez de registros  e testemunhos. Uma teoria que se torna ainda mais absurda quando se tem a exposição da verdade diante dos nossos olhos em locais como o United States Holocaust Memorial Museum, em Washington DC, que, por coincidência ou não, foi visitado pela doutora Natália e a filha dela, nesta semana. Um programa que só a fez ratificar a ideia de que enfrentar o negacionismo é fundamental para evitarmos erros históricos que podem se transformar em novas tragédias humanas.

No livro, são identificados alguns aspectos que movem esses grupos a atrapalhar o desenvolvimento humano, com campanhas contrárias a vacinação ou rejeição à tese de que a ação do homem impacta o ambiente e leva ao aquecimento global. Para Natália e Carlos deve-se considerar o fato de que ao aceitar algumas dessas ideias, mesmo que tenham comprovação científica, precisamos necessariamente mudar nossos comportamentos —- algo nem sempre muito fácil. Em um dos capítulos, somos lembrados da negação aos malefícios do tabaco:

“Se eu aceito que tabaco dá câncer, eu tenho de parar de fumar. Se eu aceito que o aquecimento global é real e prejudica o meio ambiente, tenho de mudar meu estilo de vida. Para não mudar o meu comportamento, eu nego essa realidade porque é mais confortável”.

O negacionismo se constrói em diversas dimensões e inspirado por diferentes motivações — ideológicas, sem dúvida. Basicamente, é uma atitude de negar fatos estabelecidos ou consensos científicos, a despeito das evidências. E pode vir combinado com outros métodos, tais como o ilusionismo —- com o devido respeito aos profissionais da área. 

Foi isso, por exemplo, que assistimos na “batalha da cloroquina”, liderada pelo chefe supremo da nação. As crenças de que uma droga para a doença viral transmitida por mosquitos teria eficácia em tratamentos precoces da Covid-19 e sua distribuição em rede pública conteria o avanço da doença eram manipulações, alterações da realidade, para escamotear a incompetência de se gerir uma crise. Chamei isso de ilusionismo? A CPI da Covid, parece, preferir batizar de charlatanismo. Que seja!

Negar a eficácia da cloroquina, da hidroxicloroquina ou da ivermectina no tratamento da Covid-19 não é negacionismo? Não. É ceticismo! Porque céticos fazem questionamentos saudáveis, como nos ensina Natália Pasternak:

“(ceticismo) é exigir evidências para então aceitar um consenso ou um fato. Exigir evidências de que a cloroquina funciona para a Covid-19 é ceticismo. Opa, essa afirmação que você esta fazendo tem de ser baseada em evidências científicas. Onde estão as evidências, as provas? Me mostra as evidências que aí a gente pode conversar”.

Para saber como podemos colaborar com a ciência e o conhecimento combatendo os negacionistas, leia o livro “Contra a realidade — a negação da ciência, suas causas e consequências” e ouça a nossa conversa — minha e da Marcella Lourenzetto — com a doutora Natália Pasternak, no quadro “A Hora da Ciência”, do Jornal da CBN.

Neurossexismo, um infeliz legado de Darwin

Por Simone Domingues

@simonedominguespsicologa

Foto de @gerdaltmannpixabay

William James (1842-1910) foi o pioneiro da psicologia científica desenvolvida nos Estados Unidos, tendo fundado o primeiro curso de psicologia naquele país, na Universidade de Harvard, em 1876. Foi um dos grandes estudiosos sobre a consciência humana, com ênfase nos aspectos não racionais, destacando que as emoções determinariam as crenças e que as necessidades e os desejos humanos influenciariam a formação da razão e dos conceitos.

O impacto dos estudos de James no avanço científico da psicologia americana foi muito além de suas pesquisas desenvolvidas, contribuindo na superação de barreiras discriminatórias e preconceituosas impostas a Mary Whiton Calkins (1863-1930), aceitando-a em seus seminários e pressionando a universidade a conceder-lhe a graduação, que, até então, lhe fora negada.

Calkins foi a primeira mulher a completar todos os cursos, exames e pesquisas requisitados para um doutorado, mas a Universidade de Harvard se recusou, na época, a conceder o título a uma mulher, não aceitando sua matrícula formal. A razão alegada para essa restrição era a crença generalizada na chamada superioridade intelectual masculina. A partir desse argumento, embora certas mulheres recebessem as mesmas oportunidades educacionais dadas aos homens, as deficiências intelectuais femininas, que seriam inatas, não permitiam que obtivessem benefícios do processo acadêmico.

Parte desse mito sobre a superioridade intelectual do homem surgiu da hipótese de variabilidade, baseada nas ideias de Darwin a respeito da variabilidade masculina. Estudando diversas espécies, Darwin descobriu que o macho tinha uma variedade mais ampla de desenvolvimento das características físicas e das habilidades do que as fêmeas. Esse dado foi extrapolado para a humanidade, e passou-se a atribuir às mulheres a qualidade de inferioridade aos homens, tanto nas questões mentais como nas físicas, embasando o discurso que, posteriormente, seria usado por Harvard.

Essa ideia de desigualdade funcional entre os sexos foi considerada tão óbvia na época que dispensava comprovações científicas. Naquele momento, uma teoria popular a respeito dessa desigualdade afirmava que, se as mulheres fossem expostas à educação superior, sofreriam de danos físicos e emocionais que colocariam em risco as condições biológicas necessárias para a maternidade.

No início do século XX, duas psicólogas desafiaram a ideia de desigualdade funcional entre os sexos e desenvolveram estudos consistentes que demonstraram que Darwin e outros cientistas da época estavam equivocados a respeito das capacidades cognitivas da mulher. 

Embora estudos de relevância científica não apontem diferenças funcionais para o cérebro de homens e mulheres, ainda hoje observamos o neurossexismo, uma tendência pautada em pseudociência e práticas metodológicas falhas, que visa a reforçar diferenças intrínsecas entre os sexos. 

No livro The Gendered Brain, a neurocientista Gina Rippon chama a atenção para o neurossexismo, que tem sua origem no século XVII, e ainda se perpetua. A autora destaca diversos estudos mal-conduzidos que geraram resultados precários ou conclusões precipitadas, mas que foram amplamente veiculados na mídia como “finalmente a verdade” sobre os cérebros masculinos e femininos.

No entanto, diversos estudos, que seguem o rigor científico e que se baseiam em exames de imagem, neurociências sociais e em dados obtidos com recém-nascidos, apontam cada vez mais que o desenvolvimento do cérebro está muito mais entrelaçado com as experiências de vida do que meramente ligadas a fatores biológicos, demonstrando a sua plasticidade e a sua vinculação com os fatores ambientais. 

Se Harvard não permitia que lá estudassem as mulheres, se Darwin propôs que elas seriam inferiores aos homens… o que será que ainda estamos tentando demonstrar através dessas explicações pseudocientíficas?

Não precisamos de estudos que apontem as diferenças. Precisamos de oportunidades que permitam às mulheres viverem a igualdade. 

Saiba mais sobre saúde mental e comportamento no canal 10porcentomais

Simone Domingues é Psicóloga especialista em Neuropsicologia, tem Pós-Doutorado em Neurociências pela Universidade de Lille/França, é uma das autoras do perfil @dezporcentomais no Youtube. Escreveu este artigo a convite do Blog do Mílton Jung