O que o ouvinte da CBN faz quando está no carro

 

 

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O carro ainda é extensão de nossas vidas e dentro dele passamos parte do dia em deslocamento nas cidades, mesmo que uma série de inovações e campanhas por mudanças de hábito estejam em andamento. Interessada em descobrir o que costumamos fazer enquanto dirigimos – e dedicamos parcela importante do nosso dia nesta tarefa – a Citroen realizou estudo mundial no ano passado e pretende usar este conhecimento para direcionar o desenvolvimento interior dos seus novos modelos.

 

 

Apesar de a pesquisa ter sido divulgada em setembro de 2016, sites brasileiros voltaram a tratar do tema nesta semana e o assunto foi motivo de conversa, nesta terça-feira, no Hora de Expediente, quadro que apresento com Dan Stulbach, José Godoy e Luis Gustavo Medina, no Jornal da CBN. Além de uma bate papo divertido, o assunto mexeu com os ouvintes da rádio que compartilharam conosco o que costumam fazer enquanto estão no trânsito.

 

 

Conforme a pesquisa da montadora, os brasileiros são os que mais tempo ficam dentro dos veículos ao longo da vida: 4 anos e 11 meses. E refém desta situação, a maioria passa o tempo cantando suas músicas favoritas, o que não surpreende. Como o resultado é baseado em respostas de motoristas e caronas, talvez seja motivo de melhor investigação a informação que a segunda atividade que mais realizamos enquanto dirigimos é agradecer a outros motoristas. Você acredita nessa? Em terceiro lugar no ranking nacional, muito mais crível, apareceu o hábito de falar sozinho. Quem não faz isso?

 

 

Se você quer o resultado completo do trabalho realizado pela Citroen, pode acessar este link. Mas, antes, siga até o fim do texto porque vou apresentar agora o resultado da enquete que realmente nos interessa, que foi realizada com os nossos ouvintes e da qual participaram 141 pessoas.

 

 

E como são nossos ouvintes o que mais eles poderiam dizer que costumam fazer enquanto dirigem: ouvem a CBN, lógico. Que baita orgulho, hein! Com variações sobre o mesmo tema, 36% disseram que acompanham nossa programação como atividade preferencial:

 

 

“Amo conversar com o rádio, principalmente com vc Milton e com a CBN. Participo de todas as entrevistas, dou opinião, sugiro o que tem que ser feito, porém, é uma pena que não sou ouvida …. rsrs” – Adriana Natale Cera

 

“Acho muito bom quando você o Dan, o Luiz Gustavo e José Godoy se reúnem! O humor sarcástico de seus convidados me diverte muito! Respondendo sua pergunta, é disparado que o que mais faço quando estou em meu carro de manhã é ouvi-los aí na CBN e conversar com vocês ao mesmo tempo, ainda que não saibam disso. Já, no período da tarde, é escutar música, xingando ao mesmo tempo a “cambada” de mal educados no trânsito aqui de Goiânia. Que stress, viu!” – Raquel Canella

 

Os motoristas cantores também apareceram em destaque na enquete, ficando em segundo lugar com 14% das preferências.

 

“Além de cantar muito e alto, eu toco vários instrumentos imaginários, principalmente bateria e guitarra!” – Victor Triverio

 

“Eu danço sertanejo, então eu pego batidas com as mãos e com as viradas de cabeça….isto é viciante kkkkk” –  Felipe Mattos

 

Em terceiro um empate entre respostas politicamente corretas e outras nem tanto: 10% dos ouvintes disseram que quando estão no carro apenas dirigem e ficam atento ao trânsito em função dos muitos riscos que enfrentam; já outros 10% garantem que o melhor a se fazer é “limpar o salão” – se é que você me entende. Isso mesmo, ficam cutucando o nariz. Só não explicaram onde a sujeira vai parar. Será que as montadoras tem uma solução para este hábito?

 

“Sem dúvida, cutucar o nariz, tirar meleca e fazer bolinhas” Cláudio Santana

 

Falar sozinho que pode ser tão estranho quanto cantar apareceu em quinto lugar na nossa classificação com 8,5% da preferência dos motoristas:

“Vou falando o trajeto tipo GPS humano” – Rita Loureiro

 

“Geralmente eu tento conversar com meu marido, mas ele fala pouco então é meio que estressante…” – Daniele

 

No elenco de respostas encontramos ainda ouvintes religiosos que passam o tempo no trânsito rezando ou conversando com Deus; os vaidosos que lixam as unhas e passam o rímel; os apaixonados, que aproveitam para beijar; os irritados que xingam motoristas que consideram mal-educados; e as celebridades:

 

“Tiro selfies ! – Deylor Pires

 

Aliás, está é uma curiosidade: apesar de sabermos que hoje é comum assistirmos aos motoristas consultando o celular ao mesmo tempo que rodam na cidade, exceção a um ouvinte ninguém mais se entregou cometendo esta irregularidade.

 

No estudo de comportamento da Citroen, o hábito também não apareceu, porque a montadora francesa preferiu deixar a resposta fora da pesquisa com a intenção de não incentivar um costume extremamente perigoso.

 

Uma coisa que descobri ao ler atentamente cada uma das mensagens enviadas ao Jornal da CBN foi que alguns motoristas – no caso, algumas motoristas – aproveitam para “dar uma cantada”.

 

Depois de ouvir que o Dan Stulbach, enquanto dirige, gosta de dar beijos, hábito que aparece entre os cinco mais comuns entre os motoristas brasileiros, leia o que escreveu a Cynthia:

 

O Dan quer uma carona? – Cynthia Santos

 

Beijos a vocês todos que aceitaram participar desta brincadeira no Jornal.

 

Amanhã tem mais!

Os meus carros e algumas transgressões

 

Por Milton Ferretti Jung

 

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Promessa é dívida. Se alguém leu o texto que produzi, na semana passada, postado na última quinta-feira,dependendo da idade do leitor,talvez nunca tenha visto, nas ruas de Porto Alegre,o carro francês que ilustrou o que escrevi. Tratava-se de um Citröen,novinho em folha,com o qual os meus pais,para minha surpresa, foram visitar-me no Colégio São Tiago, em Farroupilha,onde estava internado. Eu estudava em uma escola marista,em Porto Alegre. Essa,no meio do ano, costumava dar apenas quinze dias de férias aos seus alunos, coisa que me irritou e levou-me a concordar em ser internado. Seja lá como tenha sido, arrependimento à parte, tive o meu primeiro contato com o automóvel novo do meu pai no São Tiago. Fui e voltei nele de casa para a escola e vice-versa.

 

Todas as vezes que ia para casa por pouco tempo, na hora de retornar à escola eu sempre criava um caso. O seu Aldo,meu pai.descobriu um modo de me levar para Farroupilha sem choradeira:me deixava dirigir o Citroën.

 

Não se espantem: eu sentava bem perto dele,o suficiente para que pudesse lidar com a direção. Depois de um ano e meio,voltei para casa. Aos poucos,o meu pai foi me deixando controlar o acelerador, depois, passar para o lugar dele,eu no lado esquerdo,ele, como carona,no direito. Aos domingos,consegui tomar conta do carro com a desculpa de que iria apenas até a Igreja do Sagrado Coração de Jesus para assistir à missa. Se o seu Aldo soubesse que eu ia para a Carlos Gomes correr com o Citroën de uma ponta à outra, ida e volta,não acreditaria.

 

Sempre passava pela igreja no fim da missa para não gerar desconfiança ao meu pai. Em um certo domingo,vi uma vizinha saindo da missa e resolvi lhe dar carona. Vai daí que, ao abordar o último cruzamento antes da minha casa,um táxi, cuja marca não lembro,mas um carro bem forte,bateu no para-lama traseiro do Citroën. Quando parei em casa,papai estava na porta. Precisei mostrar-lhe o estrago,que não chegou a ser grande,mas… O meu pai me deixou um bom tempo sem o “francesinho”,como eu havia apelidado o nosso carro.

 

Na ocasião, eu ainda não possuía carteira de motorista porque estava somente me aproximando dos dezoito anos. A primeira providência que tomei ao completar a maioridade foi pedir ao papai que me emprestasse o Citroën a fim de que eu pudesse ir até o Palácio da Polícia. Em uma de suas dependências os candidatos a tirar carteira de motorista mostravam se estavam aptos para dirigir um veículo.

 

Não se espantem,novamente: ninguém me acompanhou,coisa que tive de fazer quando os meus filhos prestaram exame de sinais e mostraram que sabiam dirigir. Um guarda aproximou-se de mim e mandou que eu entrasse no Citroën. Obedeci e ele me ordenou que desse uma volta na quadra ou algo assim,não lembro bem. Recordo-me –isso jamais esquecerei– que após rodar muito pouco, o inspetor tirou do bolso um livreto no qual estavam impressos os sinais de trânsito. Pensei:agora,ficarei sabendo se passei no exame ou rodei. O policial civil, calmamente, passou o livreto às minhas mãos,disse-me quanto esse custava e me encaminhou para um gabinete em que a minha carteira estava prontinha para ser usada.

 

Faz algum tempo,quem pretendia seguir dirigindo,era obrigado a fazer um exame, proposto em um computador,visando a saber se continuava apto para ter sua carta aprovada.Sofri mais nesta do que no meu primeiro exame.E saibam que me exercitei muito para não cometer erros fatais.

 

Volto ao Citroën para recordar que o “francesinho” morou vinte anos na casa paterna. Já casado e pai de três filhos,comprei-o do avô deles em módicas prestações e levei o automóvel para pintar e recuperar a parte mecânica. O meu pai nunca decidiu dar a segunda mão na pintura opaca com a qual ele desembarcou e foi direto para a revenda de um “cavalheiro” que ficou de pintar o Citroën com o preto brilhante. Seria a sua tinta original,não fosse o fato de o Snizek, essa a revenda Citroën e esse o sobrenome do empresário, “esquecer” da pintura capaz de deixar o automóvel bem mais bonito. Seja lá como tenha sido,após o “tratamento” que deram na oficina especializada em chapeamento e pintura, deixei-o em uma oficina especializada em radiadores. Rodei mais um pouco com o carro e tive de parar na Rua Washington Luiz: abri o capô e o automóvel foi coberto pela fumaça provocada pelo excessivo calor do motor. O seu Aristides, mecânico, que era nosso vizinho e onde eu guardava o Citroën,deu um jeito visando a minimizar o estrago sofrido pela máquina.

 

Só então,após ter perdido a paciência com o já velhote “francesinho” e seus muitos percalços,pus o Citroën à venda. Um dos técnicos da Rádio Guaíba e meu colega,resolveu comprar o automóvel,mesmo sabendo que seria arriscado. Não me perguntem por quanto o vendi. Nessa altura,o meu pai já havia concordado em comprar um Volks novinho em folha. As trocas por Volks zero quilômetros foi quase anual. O seu Aldo Jung dirigiu automóvel até perder a confiança em si próprio. Ah,desulpem-me: ia esquecendo que, se não estou enganado,a cada ano ou pouco mais do que isso,o meu pai comprava um Volks novo e eu ficava com os que, agora, são chamados de seminovos.

 

Antes,porém,dessas rápidas trocas de um Volks por outro Volks e assim por diante,Pedro Pereira,que aprovei na condição de chefe dos locutores da Rádio Metrópole e,mais tarde,facilitei o seu ingresso na Guaíba,depois que ele trabalhou na Difusora,levou-me à Copagra,onde achei um Gordini que me agradou e o qual comprei. Fiquei com esse carrinho por um tempo razoável e não me arrependi. Era valente e me serviu direitinho.

 

Tenho mais assuntos sobre carros novos e usados,mas vou pedir ao Mílton,comandante deste blog,que me dê um descanso (risos). Vou,com Malena,ver o que o homem que está assumindo a Presidência da Argentina e que já deu um trato em Buenos Aires,quando foi prefeito da Capital,fará para o seu país. Gostei de saber que,antes mesmo de comandar o seu país,não vai aceitar que a Venezuela continue fazendo parte do Mercosul,algo sem nenhum sentido,principalmente por ser governado por um ditador.

 


Milton Ferretti Jung é jornalista, radialista e meu pai. Às quintas-feiras, escreve no Blog do Mílton Jung (o filho dele)

Os carros de meu pai e algumas transgressões

 

Por Milton Ferretti Jung

 

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Meu pai teve automóveis mesmo antes de eu me conhecer por gente.O primeiro dos quatro carros que ele adquiriu foi um DKW.Que eu saiba, arriscou-se a dirigir sem haver chegado a tirar carteira de motorista. Na época em que ele estreou na direção, o número de automóveis era bem menor e,segundo imaginei,somente se papai não tivesse sorte ao cometer a transgressão de trânsito, seria parado por um policial. Não tenho ideia,porque estava com menos de cinco anos quando tomei conhecimento desse episódio, do que moveu o meu velho a “desafiar” a lei. O seu Romualdo Alcides,nome que lhe deram os seus pais e que era por ele odiado,tanto que logo passou a ser reconhecido por seu Aldo, faço questão de dizer, era um homem que não cometia irregularidades. Apenas cheguei a conhecer o DKW porque o meu pai possuía uma Agfa,excelente máquina fotográfica alemã,que guardaria para a posteridade ótimas fotos da minha família. Muito mexi nela,mas nunca me atrevi a usá-la. Era guardada a sete chaves,num armário cheio de livros,alguns deles rigorosamente proibidos para alguém que era visto como criança. A máquina fotográfica durou,na família Jung,bem mais do que o DKW. Esse perdeu a vez quando foi vencido por uma lomba de barro vermelho,que eram muitas naquele tempo,em Porto Alegre, Hoje,nem consigo adivinhar onde se situavam. Quem conheceu a capital do Rio Grande do Sul na mesma época em que nasci – 1935 – talvez consiga se lembrar das lombas que se transformaram em bairros.

 

Minha irmã nasceu quatro anos depois de mim – 1939 -, ao mesmo tempo,mais ou menos,o seu Aldo comprou um flamante Chevrolet,zero quilômetro. Possuo fotos tiradas por meu pai, da minha irmã rechonchudinha,sentada no capô do carro paterno, novinho em folha,e eu ao lado do automóvel. A Segunda Grande Guerra começou quando Mirian mal tinha nascido. O Chevrolet,como todos os veículos automotores,não poderia circular pela cidade tendo gasolina como combustível. A guerra cortou esse “barato”:quem quisesse rodar tinha de se valer do gasogênio. Tal combustível necessitava de uma ventoinha para que começasse a funcionar. No frio,era um horror: a geringonça não tinha pressa. E,ainda por cima,não era bem-vinda pelos veículos motorizados. O meu pai se negou a usar gasogênio em um carro recém importado dos Estados Unidos. O coitado foi posto sobre cavaletes mirins e,com alguma frequência,punha-se para virar o motor à gasolina. Em 1945 a Segunda Grande Guerra terminou.

 

Não sei quem inventou que os automóveis pudessem ser vendidos pelos americanos por bons preços. Não era verdade. O seu Aldo,que havia vendido o Chevrolet e pensava comprar um carro dos Estados Unidos,não sei por qual razão,voltou-se para o mercado automobilístico francês. Vai daí, que comprou um Citroën do ano, ou seja,1947. Eu estava no Colégio São Tiago,internado e,em consequência,revoltado. Somente na Páscoa era permitido que eu visitasse meus pais e meu irmão e a irmã. A decisão de me manter,mesmo na Páscoa,em Farroupilha,sede do internato,foi tão mal recebida por mim,que os meus pais decidiram rever a situação.

 

Dali para a frente,sempre que eu tivesse de retornar ao colégio depois de algum volta à casa paterna,era levado de Citroën. O meu pai – não pensem mal dele porque os tempos eram outros – me dava a direção do carro. Para tanto,tinha de ficar no meio dos bancos e assumir a direção do carro. Depois disso,comigo já de volta a Porto Alegre,sempre que se viajava para cidades próximas,eu dominava um pouco mais o “francesinho”. Isso durou algum tempo,mas,bem antes dos 18 anos,mesmo que sempre acompanhado pelo pai,eu dirigia o Citroën. Fico por aqui porque restaram mais episódios nos quais os carros paternos – uma série de Fuscas – tiveram de me aturar.

 


Milton Ferretti Jung é jornalista, radialista e meu pai. Às quintas-feiras, escreve no Blog do Mílton Jung (o filho dele)

A pracinha em frente de casa e o Citroën de cano reto

 

Milton Ferretti Jung

 

Recém havia sentado e preparado o meu computador a fim de escrever o texto para o blog do Mílton, que não é uma obrigação,mas,isso sim, uma satisfação para um pai aposentado cujo único compromisso,nos últimos tempos,é visitar médicos das mais variadas especialidades. Aliás, são tantos que deixo parte da organização dessa tarefa à Maria Helena,minha mulher,filha de farmacêutico, que trabalhou alguns anos na farmácia paterna e é bem mais afeita,por isso, a lidar com os que cuidam da minha saúde. Este escriba de Facebook que,talvez,alguém leia,seja por curiosidade ou amizade,sempre acha assim tempo para redigir esta coluna,nem sempre nas quintas-feiras,conforme minha combinação com o filho,este sim um escritor de verdade. Por falar nisso,recentemente,ele lançou um livro em parceria com a fonoaudióloga Lenny Kyrillos,com este título:”Comunicar para liderar”.Recomendo a sua leitura e não é por corujice paterna,mas porque já o estou lendo e é muito bom.

 

Não era bem este o meu assunto,mas os caminhões que durante um dia inteiro subiram e desceram a rua onde moro. Acontece que os tais caminhões passaram fazendo isso por pelo menos dez dias. Retiravam terra e restos de árvores de um terreno baldio,o último existente, por sinal,na Dr.Possidônio da Cunha, em Porto Alegre. Um pensamento,às vezes,corre atrás do outro ou mesmo dos outros. Este me veio à cabeça ao assistir à azáfama dos caminhões,que chegavam vazios ao terreno que limpavam e saíam carregadíssimos,fazendo um barulho ensurdecedor. Não são eles,porém,os protagonistas da historiazinha que vou contar e da qual me lembrei quando escrevi que os monstrengos ruidosos levavam o que chegou a ser um espaço arborizado e não um simples barral. Ainda,no entanto,tergiverso e,com isso,deixo entrar no que interessa ou pode interessar.

 

Na minha infância e até casar,morei com os meus pais em uma rua que,bem na frente da casa paterna,se unia a outra. A minha era a 16 de Julho,a vizinha dela,Zamenhoff. As duas,por muito tempo,possuíam,entre as suas casas,terrenos baldios. Os terrenos baldios eram os locais onde brincávamos de esconde-esconde e,principalmente,jogávamos as nossas peladas.Para desespero dos nossos pais, chegávamos em casa com os sapatos em pandarecos. Naquela época não haviam ainda inventado sequer as alpargatas e os sapatos não eram baratos. Os espaço livres foram terminando.Recebiam casas modernas e acabavam, principalmente,com o futebol que a gente jogava. A única bola que usávamos – bola de tento – como eram conhecidas,tinha um dono,o Airton Stein. No bom do jogo,a mãe do dono da bola o chamava para tomar café ou dar um pulo no armazém para comprar isso ou aquilo.

 

Escrevi que os espaço livres para se brincar foram,aos poucos,virando casas.Sobrou a “pracinha” que ficava na junção das duas ruas a que já me referi. Em roda da “pracinha”,ficavam as casas mais próximas dela.Volta e meia,a bola do Airton ia parar dentro de uma dessas casas. E a bronca do residente era imediata. Alguns faziam de conta que nos deixariam sem bola.

 

Encontrávamos,entretanto,novos “esportes”. Bola de gude,bolinhas de tênis muito usadas,etc. A “pracinha”,que a prefeitura tentava transformar em praça de verdade, nunca passou do diminutivo. As flores da prefeitura nunca chegaram a crescer e inventávamos,a casa dia ou durante algum tempo,toda a espécie de “esportes”. Jogou-se nela desde futebol,vôlei e até tênis,com rede e tudo.

 

A “pracinha” teve,inclusive,os seus personagens. Um deles,de repetente,sofria um ataque e o remédio era lhe pôr na mão a bola do Airton. O outro menino problemático não jogava. Apenas nos olhava e segurava entre dois dedos folhas de trepadeiras e as sacudia incansavelmente. Era na minha casa que a turma pedia licença para beber água da pena. No Dia de São João,os esportes davam lugar a uma imensa fogueira. Lembro-me que o meu pai enchia de água a banheira,o tanque,enfim,todos os baldes da residência,temendo que a fogueira soltasse fagulhas capazes de incendiar a nossa casa.

 

Crescemos quase todos e continuamos morando nas casas que nossos pais haviam construído. Um vizinho,que morava no fundo da minha casa,numa rua paralela chamada São Pedro,bem mais velho do que eu,tinha comprado um Citroën e colocado nele um cano de descarga reto. Esse fazia um ruído tão encorpado que parecia uma Ferrari.Fiquei doidinho por ter um carro com tal tipo de descarga e consegui convencer meu pai a me deixar imitar o cano do Citroën que ele comprara direto da fábrica, na França e era igualzinho ao do Valnei Law. O cano reto foi um presente por eu ter passado de ano,no colégio. Eu retirava uma tampa da boca do cano reto (o original era mantido e ficava depois de uma curva que deixava a descarga fluir pelo lado esquerdo do carro). O meu pai me emprestava o Citroën para ir às missas dominicais. Nunca fui. Em um desses domingos um carro de praça (assim chamavam os carros de aluguel na época), em um cruzamento perto da minha casa, bateu no paralama traseiro do Citröen. Como não tinha carteira dispensei o taxista e fiquei sem poder dirigir por um bom tempo.

 

Contei todas essas histórias,a partir do dia de hoje e daí para trás por uma razão:não suporto mais ler ou ouvir notícias de crimes,estupros e de mortos por balas perdidas,afora o inesgotável Lava-Jatos e safadeza de políticos.

As aulas de direção do guri friorento

Por Milton Ferretti Jung

 

Quinta-feira da semana passada escrevi, neste blog, que a saudade é um sentimento permanente na cabeça das pessoas idosas. Referia-me, especialmente, àquela que sinto das Kombis da Companhia Jornalística Caldas Júnior. Se é que alguém leu o meu texto, ficou sabendo que viajei por várias cidades brasileiras, revezando-me com alguns companheiros da Rádio Guaíba (os possuidores de carteira de motorista) na pilotagem de um desses veículos. Se, antes de escrever sobre Kombi, eu tivesse consultado a Wikipédia, tomaria conhecimento do seu nome completo, no idioma alemão. Sugiro respirar fundo antes de tentar pronunciá-lo: Kombinationsfahrzeug.

 

Volto a tratar, nesta quinta-feira, se me permitem, do tema saudade. Ocorre que o inverno gaúcho tem sido duro de suportar. As pessoas fazem de tudo para enfrentá-lo ou, em certos casos, para sobreviver a ele. Anda-se quase de maneira permanente com os pés e as mãos gelados. Houvessem meus pais me mantido em Caxias do Sul durante a minha infância, talvez tivesse me acostumado ao frio intenso. Como me trouxeram para Porto Alegre com uma semana de vida, sou, como a maioria dos nascidos na capital gaúcha, um baita friorento.

 

Fiquei pouco mais de um ano internado em um colégio da cidade serrana de Farroupilha. Resolvi ir ao encontro do desejo de meus pais ao concordar com eles na troca do Colégio Roque Gonzales, em Porto Alegre, pelo Ginásio São Tiago. Sabem por quê? Porque, nesse, as férias de julho duravam trinta dias e não quinze, como no internato. Se eu disser que sinto saudade do tempo em que passei internado e em que era liberado apenas para visitar a casa paterna no feriado prolongado da Páscoa, os supostos leitores têm todo o direito de duvidar. Justifico, porém: minha saudade refere-se somente ao curto período no qual me permitiam permanecer em casa. Então, me reencontrava com os amigos, jogávamos futebol nos terrenos baldios da Rua 16 de Julho, que eram muitos na época, ou futebol-de-mesa no quintal da minha casa.

 

Para falar a verdade, tenho saudade até mesmo das minhas dramáticas voltas ao internato depois das feriazinhas de Páscoa. É que o meu pai me deixava dirigir o Citroën dele. Não se espantem. Eu tinha direito de pegar somente o guidão do carro. Pena, entretanto, que lá em Farroupilha, o inverno, meu tema desta quinta-feira, era bem mais duro do que o de Porto Alegre. Acordávamos cedinho, descíamos o declive existente entre o São Tiago e a Igreja Matriz, em geral escorregando na geada, e assistíamos à missa rezada pelo Monsenhor Brambilla.

 

Milton Ferretti Jung é jornalista, radialista e meu pai. Às quintas-feiras, escreve no Blog do Mílton Jung (o filho dele)