Os carros de meu pai e algumas transgressões

 

Por Milton Ferretti Jung

 

citroen[5]_Fotor

 

Meu pai teve automóveis mesmo antes de eu me conhecer por gente.O primeiro dos quatro carros que ele adquiriu foi um DKW.Que eu saiba, arriscou-se a dirigir sem haver chegado a tirar carteira de motorista. Na época em que ele estreou na direção, o número de automóveis era bem menor e,segundo imaginei,somente se papai não tivesse sorte ao cometer a transgressão de trânsito, seria parado por um policial. Não tenho ideia,porque estava com menos de cinco anos quando tomei conhecimento desse episódio, do que moveu o meu velho a “desafiar” a lei. O seu Romualdo Alcides,nome que lhe deram os seus pais e que era por ele odiado,tanto que logo passou a ser reconhecido por seu Aldo, faço questão de dizer, era um homem que não cometia irregularidades. Apenas cheguei a conhecer o DKW porque o meu pai possuía uma Agfa,excelente máquina fotográfica alemã,que guardaria para a posteridade ótimas fotos da minha família. Muito mexi nela,mas nunca me atrevi a usá-la. Era guardada a sete chaves,num armário cheio de livros,alguns deles rigorosamente proibidos para alguém que era visto como criança. A máquina fotográfica durou,na família Jung,bem mais do que o DKW. Esse perdeu a vez quando foi vencido por uma lomba de barro vermelho,que eram muitas naquele tempo,em Porto Alegre, Hoje,nem consigo adivinhar onde se situavam. Quem conheceu a capital do Rio Grande do Sul na mesma época em que nasci – 1935 – talvez consiga se lembrar das lombas que se transformaram em bairros.

 

Minha irmã nasceu quatro anos depois de mim – 1939 -, ao mesmo tempo,mais ou menos,o seu Aldo comprou um flamante Chevrolet,zero quilômetro. Possuo fotos tiradas por meu pai, da minha irmã rechonchudinha,sentada no capô do carro paterno, novinho em folha,e eu ao lado do automóvel. A Segunda Grande Guerra começou quando Mirian mal tinha nascido. O Chevrolet,como todos os veículos automotores,não poderia circular pela cidade tendo gasolina como combustível. A guerra cortou esse “barato”:quem quisesse rodar tinha de se valer do gasogênio. Tal combustível necessitava de uma ventoinha para que começasse a funcionar. No frio,era um horror: a geringonça não tinha pressa. E,ainda por cima,não era bem-vinda pelos veículos motorizados. O meu pai se negou a usar gasogênio em um carro recém importado dos Estados Unidos. O coitado foi posto sobre cavaletes mirins e,com alguma frequência,punha-se para virar o motor à gasolina. Em 1945 a Segunda Grande Guerra terminou.

 

Não sei quem inventou que os automóveis pudessem ser vendidos pelos americanos por bons preços. Não era verdade. O seu Aldo,que havia vendido o Chevrolet e pensava comprar um carro dos Estados Unidos,não sei por qual razão,voltou-se para o mercado automobilístico francês. Vai daí, que comprou um Citroën do ano, ou seja,1947. Eu estava no Colégio São Tiago,internado e,em consequência,revoltado. Somente na Páscoa era permitido que eu visitasse meus pais e meu irmão e a irmã. A decisão de me manter,mesmo na Páscoa,em Farroupilha,sede do internato,foi tão mal recebida por mim,que os meus pais decidiram rever a situação.

 

Dali para a frente,sempre que eu tivesse de retornar ao colégio depois de algum volta à casa paterna,era levado de Citroën. O meu pai – não pensem mal dele porque os tempos eram outros – me dava a direção do carro. Para tanto,tinha de ficar no meio dos bancos e assumir a direção do carro. Depois disso,comigo já de volta a Porto Alegre,sempre que se viajava para cidades próximas,eu dominava um pouco mais o “francesinho”. Isso durou algum tempo,mas,bem antes dos 18 anos,mesmo que sempre acompanhado pelo pai,eu dirigia o Citroën. Fico por aqui porque restaram mais episódios nos quais os carros paternos – uma série de Fuscas – tiveram de me aturar.

 


Milton Ferretti Jung é jornalista, radialista e meu pai. Às quintas-feiras, escreve no Blog do Mílton Jung (o filho dele)

12 comentários sobre “Os carros de meu pai e algumas transgressões

  1. O vô teve Corcel72? Curiosamente só lembro do Citroen e do Fusca, Corcel só mesmo meu pai. E foram vários, se não me engano. Todos os carros valem uma boa lembrança, afinal fomos ensinados a gostar deles de forma tão intensa que hoje quando pensamos em largá-los quase temos uma revolução.

    • Sim, branco. Comprou influenciado por mim. Eu andava num Corcel 69, vermelho, que era da minha sogra, e eu falava muito bem dele. Foi então que o pai resolveu comprar um, que acabou vendendo pra mim, em 79.
      Já eu não me lembro de teu pai ter tido Corcel…

  2. Os primeiros Corcel foram comprados graças a um interessante desconto de preço. Saímos juntos com eles.novinhos em folha,da Ribeiro,Jung,firma especializada na venda do Ford. Se não me engano,o Aldo acabou ficando com o Corcel do nosso pai e ,se bem me lembro,o meu irmão ficou com ele até “o amargo fim” de todos os veículos dessa marca:a ferrugem. Aldo que me corrija se estou equivocado.

    • Estás certo, Se bem que, além da ferrugem, o Corcel 72 sofreu com a queda de um m² de reboco — do 9º andar de um prédio — sobre ele e, logo depois, de uma manobra imprudente e negligente de um outro motorista, barbeiro, que lhe arrancou o paralama esquerdo e causou outras escoriações. Acabei vendendo-o “no estado”, por 150 dinheiros, que não me foram integralmente pagos…

  3. Pingback: Os meus carros e algumas transgressões | Mílton Jung

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