Avalanche Tricolor: a vitória do Gre-Nal

 

Inter 0x0 Grêmio
Gaúcho — Beira-Rio, Porto Alegre/RS

Pai

 

Cada um tem o seu Gre-Nal. E neste domingo, eu ganhei o meu em particular. Foi fora dos gramados e bem distante do campo de jogo. Não foi necessário marcar gols, dar carrinho para impedir o avanço do adversário e menos ainda peitar o árbitro para que ele mudasse de decisão. Foi uma vitória pessoal. Mais do que isso, emocional.

 

Em meio ao jogo corrido que se desenrolava no Beira Rio, fui agraciado com uma foto de um torcedor gremista —- enviada pelo meu irmão, o Christian. Não era um torcedor qualquer. Era o pai. Sim, o meu pai, Milton Ferretti Jung. Aquele que me forjou gremista. Que usou de estratégias pouco ortodoxas —- acho que já falei delas por aqui — e outras mais corriqueiras para me fazer torcer pelo time que ele sempre torceu.

 

O pai, poucos devem saber, segue sua saga pela vida, mesmo que na maior parte do tempo não tenha consciência do mundo que gira em torno dele. Em seu apartamento, onde recebe todos os cuidados e os carinhos que sua história merece e onde é abraçado pelos filhos e filha, por noras e netos, por toda a família, além de um grupo incrível de pessoas generosas, voltou a vestir a camisa do Grêmio, neste domingo.

 

Sentado na poltrona da sala, diante da televisão e com com seu corpo franzino e resiliente, fixou o olhar na tela e assistiu ao Gre-Nal. Foi como se tivesse reencontrado-se naquela realidade da qual foi um dos protagonistas através da crônica esportiva.

 

O pai vivenciou o futebol gaúcho com intensidade. Sempre esteve muito próximo do Grêmio, é lógico. Frequentava os corredores e bastidores do estádio Olímpico. Visitava o gramado durante os treinos. Era confidente de alguns treinadores e respeitado por todos os outros que passaram pelo clube. Diretoria e jogadores também o reverenciavam. Nos dias de jogos, recebia aplauso de torcedores a caminho do Olímpico, para onde seguia a pé, pois morou na vizinhança a maior parte da vida.

 

Nas muitas vezes em que fiz essa caminhada ao lado dele, ouvia gritos de “gol-gol-gol”, que ecoavam no Largo dos Campeões —- portão principal de acesso ao Olímpico. Eram admiradores que o saudavam repetindo o grito de gol que marcou sua carreira. Você deve imaginar como aquelas cenas me enchiam de orgulho.

 

Apesar de sua relação íntima com o Grêmio, tratava o adversário com muito respeito e em suas narrações fazia a voz vibrar e o torcedor se emocionar independentemente de quem fosse o gol. Foi dele um texto produzido pela rádio Guaíba de Porto Alegre e lido pelo narrador Pedro Carneiro Pereira, em homenagem a inauguração do Beira-Rio, em 1969. De tão belo e nobre ficou gravado em placa de bronze no estádio. Um texto escrito por um gremista que sabia reconhecer os méritos do adversário.

 

O pai sempre viveu neste mundo, como radialista, como cronista e como torcedor. E, na tarde deste domingo, deu sinais de que se reconectava à vida diante daquele espetáculo proporcionado pelas duas equipes.

 

Ao vê-lo em fotografia, tive a impressão de que havia voltado no tempo, quando ele descrevia com precisão cada lance de uma partida. Ou quando comemorava os gols gremistas ao meu lado nas cadeiras cativas, do Olímpico.

 

Mais do que isso: o pai estava com cara de moleque —- como a do guri que escapava das salas de aula do internato, que subia no telhado para ler os gibis proibidos, que fazia brilhar os metais da bicicleta que o acompanhava nas corridas pela 16 de Julho, no bairro São João.

 

O Gre-Nal aproximou o pai da realidade. E o clássico me proporcionou, mesmo sem gols, a alegria de uma vitória conquistada. Vitória que compartilho com o Christian e a Jacque, meus irmãos. E com você, caro e raro leitor desta Avalanche. Porque essa é uma vitória de vida. Daquelas de dar lágrimas nos olhos.

Avalanche Tricolor: clássico de muita disputa e pouco futebol

 

 

Grêmio 0x0 Inter
Brasileiro – Arena Grêmio

 

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Torcedores a espera do Gre-Nal em foto de LUCASUEBEL/GRÊMIOFBPA

 

Se você não é da terra, dificilmente será capaz de entender o sentimento que move os gaúchos em um domingo de Gre-nal. Esse clássico extrapola os interesses do futebol, vale mais do que três pontos na tabela e talvez um título não seja capaz de superar o desejo da vitória.

 

Já assisti ao meu time vencer uma partida final por 3 a 1, na casa do adversário, e apesar de o resultado não ser suficiente para o título, comemorarmos como se a conquista do jogo fosse maior do que a do campeonato. Do outro lado, a festa foi constrangida, sem graça. O contrário também deve ter ocorrido, mas prefiro não lembrar coisa ruim.

 

O resultado do Gre-nal define a segunda-feira, a semana, às vezes a temporada que se segue. Pergunte a eles se já esqueceram do 5 a 0?

 

Quando era guri, fingia uma dor qualquer para não ir a aula no dia seguinte em caso de derrota. E quando não havia a conivência da mãe, vestia a camisa tricolor e tomava um copo de leite quente misturado a uma dose extra de coragem para encarar os colegas encarnados. Aí deles, porém, se a vitória fosse minha. O dia começaria cedo com direito a homenagem já na porta da escola. E seria longo, capaz de durar até o próximo clássico.

 

Estou mais velho e vivido do que naqueles tempos de guri em Porto Alegre; e a distância do Rio Grande reduz o impacto do resultado. Mas, acredite, o Gre-nal ainda importa muito.

 

Hoje cedo, como sempre faço aos domingos, fui à Igreja perto de casa, onde a missa das 9 da manhã é rezada por um padre gremista – e isso, como já expliquei nesta Avalanche, é apenas uma feliz coincidência.

 

Padre José sabe que temos coisas mais importantes durante o ato religioso, mas é incapaz de se despedir sem uma palavra de graça: “é hoje”, disse-me de forma simpática. E imagino que a expressão foi ouvida em todo o Rio Grande, a cada troca de cumprimento na padaria, no passeio na Redenção ou a caminho da Arena.

 

“É hoje” significa muita coisa. É quando vamos vencer ou vamos derrotar. É quando, com certeza, vamos sofrer. É quando vamos viver emoção que não se encontra igual em nenhuma outra partida de futebol pelo mundo – e deixemos que os torcedores de outros clássicos pensem igual de suas disputas. Mas este é o nosso clássico a disputar.

 

“É hoje” tem a capacidade de resumir tudo que pensamos sobre o Gre-nal. E dá o clima deste jogo de características singulares no futebol brasileiro.

 

Mexe a tal ponto com os ânimos que o torcedor comemora até recorde de público, como na festa feita pelos gremistas diante da informação de que havia 53.287 pessoas assistindo ao jogo, o maior número já registrado na curta história da Arena.

 

É este ambiente que fez o gringo Kannemann se transformar em jogador de rugby ao se atirar na grama para disputar com as mãos a bola que sequer estava em jogo, e provocar a agressão do adversário. Mesmo motivo que o levou a se jogar como pode para impedir o contra-ataque que poderia ter sido fatal, quase ao fim da partida.

 

É esta sensação que nos faz vibrar (sem que isso signifique comemorar) ao assistir a cena de pugilismo travada no campo e provocada por Edílson. Soca-se o ar e depois bate uma baita vergonha, pois se percebe que nada daquilo é justificável. É uma sensação animal que toma conta da pessoa e tem de ser contida.

 

O “É hoje” de hoje só não foi capaz de levar as equipes a fazerem um jogo mais bem jogado. Apesar de a bola ter rolado muito e por boa parte do tempo, foi mal rolada e isso deixou os times muito parecidos em campo, um prejuízo para nós que estamos mais bem arrumados e ainda disputando vaga para a Libertadores.

 

PS: diante do pouco futebol jogado, o melhor do clássico foi o pedido de casamento de um torcedor gremista para a colorada que estava ao seu lado na área destina à torcida mista. É a prova de que apesar de todas as provocações e indignações, a convivência é possível e muito bem-vinda. Imagino que o casal ao sair de casa se olhou e disse um ao outro:”é hoje” – cada um com o seu significado!

Avalanche Tricolor: #GrêmioÉClassico

 

Grêmio 3×1 Aimoré
Gaúcho – Estádio do Vale/Novo Hamburgo

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Luan e Everton, craques do Grêmio. Foto de Lucas Lebel/GrêmioFBPA

 

“Estadual é clássico” diz a hashtag do Canal Premiere, que transmite as partidas do Campeonato Gaúcho, no sistema “pagou-para-ver”. Parece-me que a intenção é valorizar as competições estaduais, há algum tempo enfraquecidas pelo número excessivo de times inscritos, muitos sem qualquer qualificação, fórmulas mirabolantes para encaixar as datas no apertado calendário do futebol brasileiro, e estrutura acanhada de estádios e cidades que recebem os jogos.

 

A campanha publicitária do canal também faz questão de mostrar que os estaduais costumam ser decididos por lances e jogadores inusitados, que fazem a diferença. O Grêmio é representado pelo atacante Pedro Junior e o gol de cabeça que garantiu o título de 2006, em um time que tinha como principal estrela o meio campista Tcheco e era treinado por Mano Menezes.

 

No Grêmio atual de Roger, porém, os protagonistas são mesmo os craques do time. Jovens talentos que têm desempenhado futebol acima da média e oferecido ao torcedor lances de excelência. Na noite desta quinta-feira, assistimos mais uma vez à movimentação incrível dos garotos Everton, Luan, Pedro Rocha e, no segundo tempo, Lincoln – uma turma que não tem medo de jogar futebol refinado, assim como não foge à luta, quando necessário (às vezes até exagera, não é Luan?).

 

Seria injusto creditar apenas aos meninos a segunda vitória seguida na competição, pois se são capazes de tocar a bola com precisão e se deslocar com velocidade para recebê-la de volta, isto se deve ao trabalho de uma equipe muito bem treinada que consegue equilibrar a juventude e a experiência nos diversos setores do time: Maicon e Wallace como volantes e os laterais Oliveiras, mostram isso com clareza. Sem contar Douglas, o veterano do time, que encaixa passes como poucos no futebol brasileiro.

 

Mesmo saindo atrás no placar, o que sempre pode causar desajustes na equipe, o Grêmio tem conseguido “voltar para o jogo”, como dizem os entendidos em futebol, colocado a bola no chão e oferecido ao torcedor (ao menos para mim) a certeza de que, em pouco tempo, retomará o domínio da partida, passará à frente e consagrará mais uma vitória.

 

Mesmo considerando que é apenas o início da temporada e temos coisa bem mais importante a fazer neste ano, arrisco a dizer que o Grêmio já está jogando um futebol de muita classe. O Estadual, não sei, mas o Grêmio 2016, este sim, tem tudo para ser um clássico.

Avalanche Tricolor: uma paixão que não se apaga

 

Inter 2 x 2 Grêmio
Brasileiro – Centenário/Caxias (RS)

 

 

O clássico Gre-Nal, como é conhecida a disputa entre Grêmio e Internacional, no Rio Grande do Sul, sempre foi apaixonante. Não por acaso, pesquisa recente que mediu o fanatismo dos torcedores, citada na última Avalanche deste blog, colocou o Grêmio em primeiro lugar, seguido de seu rival mais direto. As torcidas dos dois clubes gaúchos superaram até mesmo a paixão daquelas que são consideradas as maiores do Brasil. A vitória no Gre-Nal é capaz de se sobrepor a qualquer campanha sofrível na temporada. Ao fim e ao cabo, mesmo com resultados capengas, o torcedor vitorioso olha para o adversário e tasca: “da gente vocês não ganharam”.

 

Estes 22 anos vividos em São Paulo, me distanciaram dessa que é a maior rivalidade no futebol brasileiro. Cheguei a ensaiar a tese de que, para mim, muito pior é enfrentar o Corinthians, pois moro na cidade em que o rival predomina. Um revés que seja é suficiente para ter de suportar a flauta do adversário. Onde você pisa por aqui vai encontrar um corintiano devidamente paramentado com camisa, bandeira ou seja lá qual for o adereço fazendo alusão ao seu time. É dose para mamute. Claro que uma vitória como aquela da semana passada e a que espero que aconteça na próxima quarta-feira, pela Copa do Brasil, oferecem um sabor especial a este gaúcho refugiado em São Paulo.

 

Acreditei na ideia de que estava imune às pressões de um Gre-Nal até a bola começar a rolar neste domingo. Diante de um estádio acanhado para a dimensão da partida e indevidamente tomado pela torcida adversária, já que a pequenez de nossos dirigentes (e me refiro a todos eles) impediu que se colocasse número maior de ingressos à disposição dos gremistas, logo percebi que as mais de duas décadas de distância do Rio Grande do Sul não seriam suficientes para amainar essa paixão. O gol tomado logo no início do jogo, o gol contra que serviu para empatar ainda no primeiro tempo, a belíssima troca de passes que levou a virada no placar no início do segundo tempo e o pênalti convertido pelo adversário serviram para mostrar a emoção que esse clássico ainda exerce sobre mim. As disputas de bola, leais ou não, a marcação do árbitro, equivocada ou não, a reação dos técnicos ao lado do campo e dos jogadores no gramado, fiéis aos fatos ou não, me fizeram explodir de desejo. Gritei e esbravejei como não fazia há muito tempo. Como sempre fiz diante do clássico Gre-Nal nos tempos em que vivi em Porto Alegre.

 

A qualidade da partida, acima da média desse campeonato, e o fato de o empate ter nos mantido isolados na vice-liderança do Brasileiro talvez fossem suficientes para me deixar satisfeito neste fim de domingo. Sem dúvida, porém, minha maior felicidade está em saber que a paixão que alimentei pelo clássico Gre-Nal segue muito viva neste coração que bate gremista dentro do peito.

 

Em tempo: independentemente do sabor de um Gre-Nal, a vitória contra o Corinthians na próxima quarta-feira vai me deixar bem feliz, tenha certeza.

Avalanche Tricolor: É sempre especial

 

Corinthians 3 x 2 Grêmio
Brasileiro – Pacaembu


Falei com você, caro e raro leitor, por mais de uma vez, sobre a importância do Gre-Nal na emoção do torcedor. Uma vitória, como aquela do fim de semana passado, anima qualquer um. Um resultado negativo (deixe-me bater três vezes no tampo da mesa, antes de continuar escrevendo) leva muita gente, lá no Rio Grande do Sul, a ficar em casa no dia seguinte. É melhor desligar o celular e não ler o jornal de esportes. Desde que deixei Porto Alegre, em 1991, a distância do clássico e a probabilidade menor de se deparar com um torcedor colorado na rua ou na redação trazem um certo alívio. Em compensação, novas rivalidades surgiram no meu dia a dia. E a com Corinthians é, sem dúvida, a maior delas. Seja pelo histórico dos dois times, que têm DNA parecido, acostumados a grandes reações e performances heróicas (as tais raça e determinação); seja pelo fato de ambos terem disputados finais memoráveis como aquele que deu o título de campeão da Copa do Brasil, para o Grêmio, em 2001; seja pela quantidade de colegas e amigos corinthianos.

O dia seguinte de uma partida contra o Corinthians é especial, para o bem ou para o mal. Haverá sempre um ouvinte disposto a brincar (alguns não sabem fazer isso de maneira bem humorada, infelizmente) ou um colega pronto para falar – nem sempre estão lá quando têm de ouvir. Por isso, essa quinta-feira vai ser daquelas, apesar de tudo que ocorreu em campo, e me refiro aqui às injustiças cometidas pelo árbitro, muito mais por fraqueza do que por malvadeza. Nenhuma justificativa convencerá o vencedor de que houve equilíbrio de forças em campo e a vitória ocorreu por uma interferência indevida. É do futebol. É dos torcedores do futebol.

Independentemente disso, cabe ao gremista, nesta hora, além da humildade para reconhecer que houve um vencedor (e o que mostra o placar), a tranquilidade de que aos poucos o time volta a jogar bola, mesmo com suas várias carências, em especial no ataque. E admitir que não se pode querer tudo. No domingo, já ganhamos o Gre-Nal, em Porto Alegre. O que pode ser melhor do que isso, mesmo quando se vive em São Paulo e se está rodeado de amigos corinthianos?

A foto deste post é do site Gremio.Net