Sua Marca Vai Ser Um Sucesso: o retrato do brasileiro e os pilares que conectam marcas às pessoas

Cristo Redentor no RJ Foto: Oliver Schmid on Pexels.com

Uma pesquisa nacional com mais de 10 mil entrevistas reforça três forças que organizam a vida do brasileiro: família, fé e música. O tema foi analisado no comentário Sua Marca Vai Ser Um Sucesso, no Jornal da CBN, a partir de um estudo encomendado pela Globo à Quaest.

O levantamento, batizado de Brasil no Espelho, mostra como esses pilares influenciam decisões, expectativas e vínculos. Para 96% dos entrevistados, a família é a coisa mais importante da vida. O dado não apenas confirma uma percepção comum, como dá escala ao sentimento. Cecília Russo observa que “só constrói marca forte quem entende de gente” e lembra que, quando os números aparecem, “fica ainda mais claro” o peso da família nas relações e escolhas do dia a dia.

Esse centro familiar orienta sonhos e comportamentos. O maior desejo declarado é ver a família feliz. No campo das marcas, a consequência é direta: ignorar esse valor custa caro. “Qualquer marca que fira o sentido de família tem altas chances de ser descartada”, afirma Cecília. Não se trata de romantizar, mas de reconhecer um vetor real de decisão.

Ao lado da família, a fé aparece com força semelhante. Também para 96% dos brasileiros, Deus está no comando da vida; mais de 80% dizem ter fé em algo. A religiosidade ajuda a explicar a positividade apontada pela pesquisa e pede cautela na comunicação. Jaime Troiano reforça que “no campo da fé, as marcas precisam de muito respeito”, sem uso oportunista, traduzindo crença em mensagens de confiança e futuro.

O terceiro pilar é a música. Quase a totalidade da população ouve música, com preferência majoritária pela produção nacional. Aqui, identidade fala alto. “No Brasil, música não é fundo, é protagonismo”, diz Jaime. Quando marcas escolhem trilhas, artistas e ritmos com atenção ao território, comunicam pertencimento: “estão dizendo ‘eu entendo quem você é’”.

Da análise emerge um recado simples e exigente. Marcas não podem ser apenas funcionais; precisam ser simbólicas. “Marcas que entendem o brasileiro não vendem apenas produtos, vendem proteção, cuidado, esperança e pertencimento”, resume Jaime. Por isso cenas de mesa cheia, riso solto e pequenas celebrações funcionam: vendem o que está no coração.

A marca do Sua Marca

Entender pessoas vem antes de vender produtos. O comentário mostra que estratégias eficazes partem do reconhecimento de valores centrais — família, fé e música — tratados com respeito e coerência.

Ouça o Sua Marca Vai Ser Um Sucesso

O Sua Marca Vai Ser Um Sucesso vai ao ar aos sábados, logo após às 7h50 da manhã, no Jornal da CBN. A apresentação é de Jaime Troiano e Cecília Russo.

Mundo Corporativo: o consultor Guilherme Athia olha para o que não aparece nas planilhas das fusões

Mundo Corporativo com Guilherme Athia, consultor, e apresentação de Mílton Jung
Bastidor da entrevista online com Guilherme Athia no estúdio da CBN Foto: Priscila Gubiotti/CBN

“A parte humana é fundamental. Eu diria que ela está acima dos números na maioria dos casos, tanto para o sucesso, quanto para um eventual problema dessa fusão ou aquisição.”

Renault e Nissan, Daimler-Benz e Chrysler, Dow Chemical e DuPont, ou ainda, Brahma e Antarctica. São marcas e empresas que participaram de algumas das maiores ou mais conhecidas fusões e aquisições no mundo. A despeito disso, cerca de 30% desses processos no Brasil estão concentrados no setor de tecnologia, o que demonstra que este é um tema que interessa também às pequenas e médias empresas.

Na entrevista ao Mundo Corporativo, da CBN, o consultor Guilherme Athia identifica um erro recorrente nos processos de M&A — sigla inglesa para Mergers and Acquisitions. Muitas dessas operações são conduzidas como exercícios de planilhas, contratos e valuation, quando o que realmente define o sucesso ou o fracasso das integrações está fora da matemática: cultura, relações e confiança entre as pessoas.

Quando o contrato fecha e o trabalho começa

Consultor em confiança, governança e assuntos públicos, Athia afirma que o impacto dessas operações aparece rapidamente no dia a dia das equipes. Medo de perder espaço, insegurança e quebra de referências fazem parte do processo. Ele ilustra com um exemplo direto: “imagina que você é um empregado de um hospital aí em São Paulo ou lá em Brasília e esse hospital foi adquirido por um outro grupo e esse outro grupo tem uma pessoa que faz a mesma coisa que você faz. Você pode se sentir ameaçado em termos do seu emprego.”

As consequências não se limitam às pessoas. Clientes e produtos também sentem os efeitos. “Às vezes os produtos são mudados, alterados dados, às vezes são cancelados.” Por isso, ele defende uma estratégia clara para lidar com os principais stakeholders antes e depois do anúncio do negócio.

Ao tratar da diligência prévia, Athia propõe ampliar o olhar técnico com uma etapa adicional, que chama de trust due diligence. “Se eu estou comprando uma empresa que tem um problema de confiança com empregados, como é que eu meço isso?”, questiona, ao descrever o risco de assumir um negócio sem legitimidade interna para liderar.

Liderança: rumo claro, escuta e ego sob controle

Perguntado sobre a taxa de sucesso das fusões e aquisições, Athia evita números absolutos. “Esse dado não existe.” Para ele, o erro mais comum é medir apenas o que cabe na planilha. “A questão é como é que a gente mede outras questões que não são apenas essas de gestão de caixa e valor de mercado.”

Na prática, isso exige um tipo específico de liderança. “É preciso ter uma liderança que saiba para onde está indo, mas que também saiba ouvir atentamente as informações ao longo do processo. É preciso tirar o ego.” Em negociações carregadas de história e emoção, o alerta é direto: “ego nos negócios é como na vida: atrapalha muito mais do que ajuda”.

Confiança como método, não como discurso

Athia recorre à própria história para explicar seu trabalho. Filho temporão, conta que precisava chegar ao jantar com assunto para ser ouvido. “Eu tinha que ler jornal, ouvir rádio, ver televisão para trazer alguma coisa que eles pudessem me ouvir.” A lembrança sustenta a ideia central da consultoria: confiança nasce da capacidade de escutar e de ser levado a sério.

Grande parte de seus projetos envolve “stakeholders não transacionais”, como imprensa, governos e ONGs. Nessas relações, não há troca comercial, mas circulação de ideias e dados. Por isso, ele separa conceitos que costumam aparecer misturados: “As relações governamentais são reais, elas existem. Lobby existe. E existe a corrupção, que a gente é completamente contra.”

A partir daí, ele amplia o raciocínio e trata a confiança como condição básica de convivência. Não é apenas um tema corporativo. É também um tema humano, de pertencimento: “sem confiança você vive sozinho. Sem confiança em si mesmo, na vida não tem muito sentido. E sem confiança nas pessoas, você está sozinho, não tem solidão maior do que a desconfiança.”

O livro Get the M.E.M.O., que terá versão em português lançada em breve, inspira-se em uma expressão em inglês que significa: olha, presta atenção, o mundo mudou. A obra ensina líderes organizacionais a tomar decisões responsáveis diante do que Athia chama de “era da opinião”. Para ele, falas isoladas podem ganhar proporções maiores do que antes. E dá um exemplo do impacto desse ambiente: “um comentário errado, equivocado, fora de contexto, pode levar a demissão de um CEO”. .

Ao tratar de governança, o autor propõe uma síntese própria: “quatro P’s: pessoas, processos, performance e propósito”, organizados no método MEMO: “mapear, executar, mensurar e otimizar”.

Inteligência artificial e a insegurança acelerada

A confiança, segundo Athia, enfrenta um novo desafio com o avanço da inteligência artificial. “Nós não sabemos aonde isso vai dar”, afirma, ao alertar para o crescimento exponencial da tecnologia. Ele observa que o uso da IA já ultrapassou o apoio operacional e começa a interferir em decisões, na memória e, no futuro, nas emoções.

Ao fim, deixa uma orientação prática para líderes: “confiança começa por si mesmo”. E conclui com a ideia que atravessa toda a conversa: “não vai existir 100% certo ou errado. Errar é humano. Aprender é o que um líder faz”.

Assista ao Mundo Corporativo

O Mundo Corporativo pode ser assistido, ao vivo, às quartas-feiras, 11 horas da manhã, pelo canal da CBN no YouTube. O programa vai ao ar aos sábados, no Jornal da CBN, e aos domingos, às 10 da noite, em horário alternativo. Você pode ouvir, também, em podcast. Colaboram com o Mundo Corporativo: Carlos Grecco, Letícia Valente, Rafael Furugen, Débora Gonçalves e Priscila Gubiotti.

Não é egoísmo, é autocuidado


Diego Felix Miguel

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Nem sempre desconsiderar a dor do outro é uma atitude de egoísmo.

Prezada leitora e prezado leitor, talvez a ideia que abre este texto soe cruel ou desumana. Não falo de apatia nem de distanciamento emocional, mas de um autocuidado que, muitas vezes, é negligenciado. O que tenho aprendido no meu percurso pela longevidade é simples e, ao mesmo tempo, difícil de aceitar: nem todas as pessoas merecem nossa dedicação.

Nossa cultura euro-cristã nos faz acreditar em uma dedicação intensa e exclusiva às outras pessoas, sobretudo quando as amamos ou quando existem vínculos sanguíneos. Com isso, passamos a colocá-las em um grau de importância superior às nossas próprias prioridades e desejos, muitas vezes à custa da nossa própria anulação, apenas para estarmos em conformidade com uma norma social.

Enquanto homem gay, vivenciei isso desde a infância. Posso afirmar que essa autocobrança se multiplica inúmeras vezes. Trata-se de uma tentativa falível de não ser percebido pela orientação sexual, mas por características como bondade, capacidade e dedicação acima da média. Essa realidade não é só minha; é a de inúmeras outras pessoas LGBT+, pessoas negras, pessoas com deficiência e de outros grupos historicamente minorizados em suas possibilidades de poder e reconhecimento.

No auge dos meus quarenta anos, percebi que não precisava mais sustentar todo esse esforço para demonstrar excelência nas relações. Permiti-me, enfim, decepcionar expectativas que não são as minhas.

Os tempos são outros. Pautas sociais e de direitos humanos vêm sendo cada vez mais difundidas e aprofundadas. Esse movimento contribui para tal posicionamento, assim como as conquistas de direitos, as políticas públicas afirmativas e a própria maturidade — que defino aqui como aquilo que aprendemos e carregamos ao longo da vida por meio das vivências.

Talvez essa seja a beleza da longevidade e, ao mesmo tempo, um de seus maiores desafios: lutar pela autonomia. Não a autonomia moldada por padrões normativos, que limitam nossa expressão e nossa vivência identitária, mas aquela que nasce da essência genuína de quem somos. Priorizar-se é o caminho, e ele nos conduz ao autocuidado.

Não é fácil. Aprendi que, antes de qualquer resposta ou ação que me cobram, tenho o direito de pausar, respirar e aprofundar meus sentimentos e vontades.

É isso mesmo que quero? Se sim, por que quero? Se não, por que isso me incomoda a ponto de eu não querer realizá-lo?

Para um envelhecimento ativo e saudável, precisamos repensar quais de nossas ações surgem, de fato, da nossa autonomia genuína e quais são impostas socialmente — aquelas que, mesmo ferindo nossos desejos, garantem um suposto conforto que, na prática, não tem nada de confortável.

Diego Felix Miguel é especialista em Gerontologia pela Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia e presidente do Departamento de Gerontologia da SBGG-SP. Mestre em Filosofia e doutorando em Saúde Pública pela USP. Escreve este artigo a convite do Blog do Mílton Jung

Dez Por Cento Mais: psiquiatra Maria Carol Pinheiro pede atenção para o “corpo que para” com a mente em alerta

“Saúde mental não é sobre estar feliz, é sobre estar inteiro.”

Maria Carol Pinheiro, psiquiatra

Janeiro costuma ser vendido como recomeço, lista de metas e agenda em branco. Para muita gente, ele chega com outro pacote: exaustão. O corpo desacelera, o calendário vira a página, e a cabeça continua correndo, como se não tivesse recebido o aviso de que o ano mudou. Esse descompasso — entre o que a gente faz e o que a gente sente — é o centro da conversa com a psiquiatra e psicoterapeuta Maria Carol Pinheiro no programa Dez Por Cento Mais, apresentado pela jornalista e psicóloga Abigail Costa.

Maria Carol propõe uma pergunta simples, que costuma desorganizar certezas: quando falamos de saúde mental, o que separa “estar saudável” de “estar doente”? Para ela, o ponto de virada não está na ausência de tristeza ou angústia, e sim na liberdade. “Se eu posso escolher, isso é saudável. Agora, se eu estou aprisionado, se eu não consigo escolher, aí seria o adoecimento”, afirma.

A ideia contraria uma fantasia comum: a de que saúde mental seria viver sem oscilações. Na prática clínica, ela diz encontrar o oposto. “Eu já conheci pessoas que não têm angústia, que não encostam na tristeza… Essas pessoas não têm saúde mental.” Na visão dela, a vida psíquica inclui sentir e atravessar emoções — sem paralisar nelas.

Quando a dor faz parte da saúde

A psiquiatra chama atenção para um erro frequente: tratar sofrimento como sinônimo de doença. “Às vezes a gente está passando por períodos de sofrimento que nos tornam mais nós mesmos.” O problema, para ela, é a interrupção do movimento interno: “O adoecimento é a paralisação disso.”

É nesse ponto que Maria Carol critica a pressa em etiquetar sentimentos. Ela defende que o primeiro passo não é colecionar diagnósticos, e sim perceber o básico: “A gente precisa fazer dois diagnósticos: tudo vai bem comigo; algo não vai bem comigo. É isso que importa.” O nome técnico, se for necessário, entra depois — com acompanhamento profissional.

Ao falar do excesso de informação (especialmente nas redes), ela descreve um tempo em que “estamos adoecidos do tempo” e resume a consequência: “A gente tem desaprendido de descansar.” Descansar, para ela, não é só dormir. Existem cansaços diferentes: “cansaço social”, “cansaço sensorial”, “cansaço mental”, “cansaço emocional”, “cansaço criativo” e “cansaço espiritual”. A chave prática, ela diz, é observar funcionalidade e recuperação: “Quando eu descanso, passa? Eu realmente consigo descansar e passar?”

A conversa também toca numa confusão atual: o impulso de anestesiar o que dói — e, com isso, perder algo importante do próprio viver. Maria Carol lembra que “tirar a dor é tirar a vida” e cita uma medida simples para checar exageros: “Fique atento a tudo aquilo que é desproporcional ao tempo presente.” Quando a reação é grande demais para o fato de agora, pode haver “emoção de outro tempo” pedindo investigação.

No fim, ela amarra janeiro a uma metáfora antiga: Janus, o deus romano de duas faces, olhando passado e futuro. A ideia é direta: recomeço sem revisão vira repetição. E a revisão, segundo ela, passa por uma espécie de liderança interna — disciplina sem brutalidade. “Não existe liberdade sem disciplina”, afirma. E cita Kant: “Liberdade é também fazer o que não se quer.”

Assista ao Dez Por Cento Mais

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Que o último orelhão não silencie as lições do jornalismo de rádio

Orelhão depredado
Foto: CBNSP/Flickr

A notícia da retirada definitiva dos orelhões das ruas me alcançou num daqueles momentos em que o passado resolve puxar uma cadeira e se sentar ao meu lado. Não foi a Anatel quem provocou essa viagem, e sim Edgar Lisboa, que transformou a extinção dos telefones públicos em narrativa. No texto publicado no Portal Repórter Brasília, ele recuperou episódios da vida de repórter nos tempos da rádio Guaíba, de Porto Alegre, citou o Correspondente Renner, lembrou do meu pai — Milton Ferretti Jung — e, com um detalhe que me fez sorrir, mencionou aquele adolescente de bermuda que circulava curioso pela redação: eu.

A leitura me tocou porque Edgar não apenas trouxe meu pai de volta à cena; ele resgatou um modo de fazer rádio que me formou antes mesmo de eu ter carteira de trabalho. A Guaíba, como ele escreveu, era uma escola. E foi ali que aprendi a caminhar entre pautas, microfones e silêncios. A voz firme do Renner no ar, sempre no horário, era lição diária de responsabilidade. E, antes de virar apresentador, eu era o menino que observava tudo — tentando entender como fatos viravam notícia e notícia virava confiança do ouvinte.

Edgar descreveu essa rotina com a precisão de quem esteve no front. Para quem viveu a época, o orelhão era mais que telefone: era redação improvisada. Na rua, toda entrada ao vivo começava pela busca do aparelho mais próximo. Ficha no bolso, papel na mão, o texto organizado na cabeça. Não existia botão de enviar nem de corrigir. A urgência dependia da paciência que a tecnologia impunha. Era fazer jornalismo no limite do que estava disponível.

A lembrança do Correspondente Renner reforça a dimensão desse compromisso. O programa era um marco de pontualidade e rigor. Se algo relevante acontecia no meio da edição, a última notícia entrava no ar com meu pai lendo o texto recém-redigido. Não havia atalhos. Havia trabalho sério, construído sem internet, sem redes sociais e sem a avalanche de ruídos que hoje tentam se passar por informação.

A tecnologia avançou, os orelhões desapareceram e isso é natural. O que não se perde — e Edgar captou bem — é o valor simbólico de uma época em que a rua era extensão da redação. O telefone público era o fio que ligava o repórter ao ouvinte e, muitas vezes, ao próprio entendimento da notícia.

Termino com a sensação familiar que me acompanhava quando descia do carro para procurar um orelhão: certas histórias precisam ser contadas do jeito certo. Edgar contou a dele e, no meio dela, revivi meu pai, o Renner e aquele guri de bermudas que começava a aprender o ofício observando quem sabia fazer.

E, claro, também vivi a experiência de correr para o orelhão, fichas na mão, texto na cabeça e a redação esperando do outro lado da linha. Era o que tínhamos. Era tudo de que precisávamos.

Leia “A importância dos orelhões no jornalismo”, de Edgar Lisboa, no Portal Repórter Brasília

Avalanche Tricolor: foi muito bom reencontrar os amigos

Avenida 0x4 Grêmio
Gaúcho – Estádio dos Eucaliptos, Santa Cruz do Sul (RS)

Gremio x Avenida
Roger comemora o terceiro gol. Foto: Lucas Uebel/GrêmioFBPA

Aproveitei o primeiro fim de semana “útil” do ano para visitar amigos no interior de São Paulo. Não nos víamos havia alguns meses. No Natal, eles estavam fora do país, enquanto eu cumpria plantão. No Ano Novo, fui à minha cidade natal, justo quando retornavam ao Brasil. E durante o ano… bem, você sabe como a vida corre, atropela e afasta.

Ao longo do tempo, trocamos mensagens esporádicas. Reencontros, porém, servem para outra coisa: saber das novidades e recontar histórias antigas. Muitas já conhecidas. Mesmo assim, irresistíveis. Falamos também do que acreditamos que pode acontecer em 2026 — projetos de vida, viagens, possibilidades. E lamentamos a insanidade daqueles que insistem em atrasar nossas vidas.

Voltar é reencontrar. Não foi o poeta quem disse. Foi uma frase que me veio à cabeça quando estive em Porto Alegre. Em pastas antigas, usadas como guarda-arquivo, encontrei dezenas de papéis datilografados. Eram crônicas escritas por meu pai, Milton Ferretti Jung, lidas nos primeiros programas de rádio que apresentou, ainda na Rádio Canoas. Assinava como diretor de jornalismo — ao que sei, diretor dele mesmo. Havia poucos profissionais na emissora e menos ainda no departamento.

Entre os papéis guardados por meu irmão, dentro de um baú, descobri também uma coleção de cartas trocadas entre meu pai e o vô Romualdo, quando ele estudava em um internato, na cidade de Farroupilha. Chamou atenção a formalidade da escrita do meu avô. Mais ainda: referências ao futebol. Não me lembro de tê-lo ouvido falar de esporte com os netos, tampouco com meu pai. Ainda assim, lá estava o registro de uma partida do Grêmio a que assistiu no estádio — o que, pela época, deve ter sido no saudoso Fortim da Baixada, no Moinhos de Vento.

Caro e cada vez mais raro leitor, jamais imaginei que esta Avalanche, escrita desde janeiro de 2008, pudesse ser resultado de uma paixão e de um hábito passados de pai para filho desde os anos 1950.

Mas eu falava de reencontros. E, no sábado à noite, havia mais um marcado.

O Grêmio voltava aos gramados pouco tempo depois da despedida de dezembro. Reencontrá-lo, agora sob nova direção, foi uma surpresa agradável. Mesmo levando em conta o curto período de treinos e a fragilidade do adversário, a goleada na estreia fez bem. Aliás, placar semelhante ao da partida que encerrou o ano passado.

Assim como na conversa com os amigos, o Grêmio também apresentou novidades e reacendeu esperanças para 2026.

A presença de Roger e Tiaguinho, ambos com 17 anos, foi a principal delas. Os dois participaram de gols, mostraram personalidade forte, e Roger ainda fechou sua atuação com o terceiro gol. Mais do que o desempenho, o gesto de Luís Castro ao escalá-los como titulares alimenta uma expectativa antiga: investir, de fato, nos talentos da base. Confesso que já não suporto ver nossos protótipos de craques serem vendidos antes mesmo de estrearem no profissional.

É cedo para qualquer projeção. Uma partida não define uma temporada. Ainda assim, reencontrar o Grêmio com uma goleada e algumas boas notícias é muito melhor do que começar o ano apenas relembrando velhas glórias do passado — como aquelas que meu avô contava ao meu pai, nas cartas encardidas que pretendo ler com calma nos próximos dias.

Talvez a Avalanche nunca tenha sido só futebol. Talvez sempre tenha sido, antes de tudo, uma forma de reencontro. Com a família, com os amigos, com você, caro e cada vez mais raro leitor.

Deus Sem Atalhos: uma teologia da permanência no caos

Por Caio Luizetto

Foto de eberhard grossgasteiger

Há quem repita, quase como um refrão automático: “Deus está vendo tudo.”
Mas se Deus fosse apenas um observador que assiste ao desfile interminável de injustiças, violências e misérias humanas, então Sua contemplação seria tão cruel quanto estéril.

Um Deus que apenas vê seria um Deus diminuído, reduzido a ídolo: um olhar distante pairando sobre um mundo em ruínas. Uma divindade assim não seria mais que um mito — um eco vazio projetado sobre o infinito.

Mas o Deus que faz sentido não é o Deus voyeur da dor alheia.
É o Deus vulnerável, o Deus afetado, o Deus que sofre.

Se o prazer de Deus está na reciprocidade — na chama que se acende quando seres humanos se reconhecem, se ajudam, se amam — então a ruptura dessa ordem amorosa fere o próprio coração divino.
O antagonismo do prazer é o sofrimento; onde o amor se rompe, Deus se dilacera.

Dizer que Deus “vê tudo” empobrece o drama divino-humanal.
Deus não contempla de longe: Ele participa.
Não paira em neutralidade: Ele se compromete.
Não observa as dores do mundo: Ele as incorpora.

Se a marca dos discípulos está no mandamento do amor — amai-vos uns aos outros — então cada vez que odiamos, negamos, ferimos ou abandonamos, não é apenas o outro que sofre: é Deus que sangra através dele.
O sofrimento humano não acontece à revelia do sagrado; acontece dentro de Deus.

Por isso, não é adequado imaginar um Deus que tudo vê.
Esse Deus seria estático, impermeável, imóvel.

O Deus vivo, porém — o Deus que vale a pena ser chamado Deus — é aquele que, ao ver, geme; ao testemunhar a injustiça, se contorce; ao encontrar violência, se rasga; ao perceber a fratura entre irmãos, agoniza.

Assim, Deus não está simplesmente vendo tudo.
Deus está sofrendo tudo.
E talvez aí resida a maior dignidade de Sua divindade: Ele não se exime do peso do mundo; Ele o carrega consigo.

Um Deus que sofre não é um Deus derrotado — é um Deus que ama até o limite da dor.

Caio Luizetto é teólogo e cientista da religião, pós-graduado em Missão Integral em contexto urbano. Sua produção aborda as relações entre fé, dor, sentido e maturidade espiritual na vida contemporânea. Escreve a convite do Blog do Mílton Jung.

Com que roupa eu vou?

Dra. Nina Ferreira

@ninaferreira.psiquiatra

Foto de Alexey Demidov

Apresentação importante no trabalho, festa de aniversário de um conhecido, evento social de um parceiro profissional, jantar com um amigo e amigos do amigo… A gente se pergunta: “Com que roupa eu vou?”

Existe normalmente uma preocupação, um cuidado com nossa aparência em situações sociais. Ideias como: “O que esse momento pede: vou mais formal ou mais casual? Como será que os outros estarão vestidos? Quero me destacar… ou passar despercebida?” pipocam na nossa mente, por esse desejo de agradar, de não errar, de ser aceita e bem-vista.

E como é desafiador, não? Ambientes diferentes, pessoas desconhecidas, expectativas não muito claras — são inúmeros os gatilhos que geram ansiedade e insegurança. A mente funciona “a mil”, querendo rastrear todos os riscos e todas as necessidades em poucos minutos e montar a estratégia perfeita! Pensamos juntos o quanto isso é exaustivo?

Muitas coisas acontecendo ao mesmo tempo e pessoas diferentes para agradar… Combinação desastrosa, fadada a nos levar à frustração e à exaustão. Como gerenciar tantas demandas sendo uma pessoa só, para “dar conta” de tudo isso?

Vem aqui o convite: e se formos, de verdade, “uma pessoa só” ?! 

Explico — e se escolhermos parar, perceber nossas características, definir nosso estilo (de vestir, agir, reagir, conduzir as relações e a vida) e, então, sair pelos eventos e pelo mundo sendo a pessoa que somos?

A tal autenticidade, tão famosa e pseudo-estimulada, é essa coragem de bancar quem somos e sustentar esse padrão único nas diversas situações. É definir como nos apresentar aos outros a partir do que temos dentro de nós, com a tranquilidade de estarmos sendo nossa melhor essência (nada perfeita, porém verdadeiramente nossa). 

Cheiro de liberdade no ar. Redução das múltiplas dúvidas e inseguranças. 

“Com que roupa eu vou?” — vou vestida de mim.

A Dra. Nina Ferreira (@ninaferreira.psiquiatra) é psiquiatra, psicoterapeuta e sócia fundadora da LuxVia Health Center. Escreve a convite do Blog do Mílton Jung.

O que acontece quando você deixa seu Iphone em preto e branco

Li o texto da jornalista Julia Angwin, no The New York Times, com aquela sensação incômoda de quem começa a prestar atenção em algo que sempre esteve ali, à vista, mas convenientemente ignorado. O ponto de partida dela foi simples: testar o iPhone em preto e branco. Sim, isso é possível. O efeito, segundo o relato, foi tudo menos trivial.

Confesso: eu desconhecia completamente a possibilidade de deixar o iPhone sem cor. Mais do que isso, jamais imaginei que uma mudança tão banal pudesse provocar algum tipo de alívio, ainda que acompanhada de estranhamento. A jornalista também não parecia acreditar muito na ideia. Ela mesma se dizia cética em relação ao discurso alarmista sobre celulares viciantes. Até perceber que passava horas demais mergulhada em comentários políticos e vídeos de maquiagem no TikTok. Quando desligou as cores, algo se rompeu. Um fio invisível, como ela descreve.

O celular perdeu o poder de convocação. A urgência evaporou. O gesto automático de checar a tela deixou de ser automático. O uso diário caiu cerca de 40%. Não virou abstinência nem redenção. Virou consciência. O preto e branco transformou o telefone em ferramenta, não mais em vitrine.

O texto me chamou atenção justamente por isso: não há moralismo, nem cruzada antitecnológica. Há observação. Há desconforto. Há ganhos. E há perdas também. Fotos menos encantadoras, botões confusos, jogos desinteressantes. Um pôr do sol que chega sem cor. Uma fantasia de joaninha que parece gótica. A vida continua, só que sem filtro vibrante.

Talvez o ponto mais honesto do relato esteja na explicação psicológica citada por pesquisadores: muita gente não usa o celular em busca de prazer, mas de alívio. Alívio da ansiedade. Do medo de perder algo. Da sensação de que pode haver uma crise esperando por nós. Nesse sentido, desligar as cores não resolve tudo. Mas ajuda a baixar o volume.

Para quem ficou curioso — como eu fiquei — segue o caminho das pedras.

Como deixar o iPhone em preto e branco

  1. Abra Ajustes
  2. Vá em Acessibilidade
  3. Toque em Filtros de Cor
  4. Ative a opção e selecione Escala de Cinza

Acione o botão salvador

Ainda em Acessibilidade, entre em Atalho de Acessibilidade e marque Filtros de Cor. A partir daí, três cliques no botão lateral ligam ou desligam as cores. Pense nele como um botão de primeiros socorros. Serve tanto quando o tédio da falta de cor bater, quanto quando você sentir necessidade de mais cor na vida — nem que seja por alguns segundos.

Por ora, ainda não tive coragem de atravessar definitivamente para esse mundo sem cores. Prefiro ouvir antes o que você, caro e cada vez mais raro leitor deste blog, acha dessa experiência. Teste. Observe. Conte depois.

Prometo que só então decidirei se desligo ou não as cores do meu próprio telefone.

Eu sou um cara da p****!


Diego Felix Miguel

Foto de Mo Eid no Pexels

Prezada leitora e prezado leitor,

Por favor, não me julgue precipitadamente por conta do título que escolhi para este texto. Na verdade, utilizei essa frase porque foi ela que marcou o exato momento em que recobrei minha autonomia após um longo período deprimido.

Eu estava assistindo à televisão à noite, pouco antes de dormir, como costumo fazer corriqueiramente. Não consigo lembrar exatamente o que estava assistindo, porque também uso a programação fútil para pensar sobre a vida até o sono chegar.

Naquela noite, porém, eu estava em outro momento da minha saúde mental, “enxergando sem meus óculos escuros” e analisando com mais profundidade a minha trajetória: de onde vim, o caminho que percorri, onde estou e para que direção estou caminhando.

Foi nesse momento de intensa reflexão que, como num grito que brotou da minha alma, surgiu o título que nomeia este texto.

Realmente me senti assim, como se cada poro da minha pele exalasse essa euforia que brotou da leitura das minhas conquistas — e não falo aqui apenas das conquistas materiais. Aliás, essas nem sempre representam um aspecto relevante para nomear nossas vitórias.

Falo do caminho que trilhei diante dos preconceitos e discriminações que sofri na infância e na adolescência; das violências coniventes em ambientes que, teoricamente, deveriam me proporcionar segurança e proteção, como a família sanguínea, a escola e os ambientes religiosos… Lugares que considero essenciais nessa fase da vida.

Lembro-me do primeiro emprego, dos cursos subsidiados por políticas públicas que me propiciaram uma profissão e da universidade que cursei. Por incrível que pareça, a academia também foi um ambiente hostil — não por conta dos meus colegas, mas por alguns poucos professores que reforçavam em seus discursos que “viado não seria ninguém na vida”.

Tenho amigos desse período que trouxe comigo até hoje e puderam ver de perto — e vibrar com — minhas conquistas acadêmicas, profissionais, materiais e, principalmente, pessoais: da pessoa que me tornei.

Em um mundo de trabalho competitivo, onde as relações de poder sempre nos desafiam, quando não queremos jogar esse jogo de vaidades, somos subestimados e inferiorizados. Sob essa pressão, a sensação de ser uma farsa ou uma pessoa intelectualmente desonesta fere nossa essência e reforça o lugar que alimenta a depressão, sabotando nossa autopercepção.

É nesse ponto que a reflexão se aprofunda. Chegar aos quarenta anos estudando os processos socioculturais do envelhecimento não é uma tarefa fácil. A nossa autonomia — um dos aspectos mais preciosos para um envelhecimento ativo — é frequentemente ferida e sabotada pelas vaidades alheias e pela insegurança que coloca em xeque quem realmente somos.

Felizmente, o autocuidado me proporcionou uma leitura mais distanciada desse momento. O tratamento medicamentoso, o acompanhamento nutricional e a atividade física foram essenciais para essa catarse.

Talvez não seja o caminho para todas as pessoas, mas, sem dúvida, existem muitas outras possibilidades que podem proporcionar essa mesma oportunidade.

É impressionante como os aspectos biopsicossociais, que tanto estudamos na Gerontologia, são perceptíveis na prática. Na vivência. Agora entendo o poder envolvente dos discursos das minhas professoras idosas: elas falam de ciência por meio de suas vivências pessoais. Um laboratório vivo. Que privilégio o meu ter essa consciência e honrar cada oportunidade que vivencio junto a elas.

Envelhecer não é fácil, ainda mais para pessoas que sofrem o impacto da desigualdade social, da iniquidade de acesso e da exclusão. Por isso, estou longe de generalizar. Ao falar da minha experiência, pretendo que, minimamente, possamos refletir:

O que cabe a nós?

Será que podemos representar e inspirar oportunidades para que todas as pessoas tenham vivências plenas? Acredito que sim. Ao recuperar minha voz e minha autonomia, meu papel é ser esse laboratório vivo. Utilizar a ciência da gerontologia e a minha história — do cara que superou o que disseram que ele seria — como ferramentas para que a luta por equidade e oportunidade continue a florescer.

Não pretendo aqui depositar mais responsabilidades sobre as pessoas que sofrem com a desigualdade; afinal, essa virada de chave não depende apenas delas.

Quais políticas públicas precisamos alcançar? Como os movimentos ativistas podem incorporar a longevidade em suas pautas?

Vamos conversar sobre isso?

Diego Felix Miguel é especialista em Gerontologia pela Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia e presidente do Departamento de Gerontologia da SBGG-SP. Mestre em Filosofia e doutorando em Saúde Pública pela USP. Escreve este artigo a convite do Blog do Mílton Jung