Dez Por Cento Mais: Santuza Macedo, da Diamond Viagens, diz o que buscam as mulheres que decidem viajar sozinhas

“Às vezes não é falta de companhia, às vezes até tem companhia, mas prefere ficar na solitude, conhecer algo diferente no tempo dela.”

Viajar sozinha depois dos 40 anos ainda provoca desconfiança, perguntas atravessadas e interpretações apressadas. Para muitas mulheres, a decisão de arrumar a mala sem companhia não é um sinal de crise, mas um movimento de autonomia. O tema foi discutido em entrevista no programa canal Dez Por Cento Mais, no YouTube, apresentado pela jornalista e psicóloga Abigail Costa.

Santuza Macedo, consultora de turismo e CEO da Diamond Viagens, observa que o estranhamento não é recente. Ele vem de um padrão histórico em que o homem circula e a mulher permanece. Quando esse padrão se rompe, surgem os rótulos. “Tem certeza que está tudo bem?”, relatou, ao reproduzir perguntas frequentes dirigidas a mulheres que optam por viajar sozinhas.

Autonomia feminina ainda precisa de explicação

A liberdade masculina costuma ser lida como natural. A feminina, como algo a ser justificado. Santuza aponta que essa diferença de percepção tem raízes culturais profundas e ainda influencia o olhar atual.

Segundo ela, existe uma expectativa silenciosa de que, após os 40 anos, a mulher esteja acompanhada — seja por parceiro, amigos ou família. Quando isso não acontece, surgem interpretações que associam a decisão a problemas pessoais. “Por que você está indo sozinha? Você não tem companhia?”, exemplificou.

Essa leitura, no entanto, ignora outras motivações. Muitas mulheres viajam sozinhas por escolha. Buscam tempo próprio, liberdade de roteiro e experiências no próprio ritmo. “Eu sento na hora que eu quero, eu como o que eu quero”, relatam clientes ouvidas por Santuza.

Mercado cresce, mas o preconceito persiste

O aumento do número de mulheres viajando sozinhas já é percebido pelo setor de turismo. Há crescimento na oferta de pacotes específicos, grupos femininos e serviços pensados para esse público. Mesmo assim, o preconceito ainda aparece.

Santuza destaca que o mercado tem se adaptado, inclusive com soluções intermediárias. Para quem ainda não se sente segura para viajar totalmente sozinha, há grupos organizados que mantêm a autonomia, mas oferecem suporte. “Ela vai estar sozinha, mas não vai se sentir sozinha”, explicou.

O planejamento, segundo ela, é peça central nessa experiência. Viagens bem estruturadas reduzem riscos e aumentam a confiança. “O planejamento precisa ser longo para a viagem curtinha ser excelente”, afirmou.

Mais do que turismo, um reencontro

Ao acompanhar diferentes perfis de clientes, Santuza identifica padrões. Muitas mulheres chegam a esse momento depois de mudanças importantes na vida. Filhos crescidos, carreira consolidada ou término de relacionamento aparecem com frequência.

Há também uma busca mais subjetiva. “A maioria é que se reencontrou depois dos 40 anos”, disse. A viagem solo passa a ser uma forma de reconexão com desejos que ficaram em segundo plano.

Esse movimento não exige grandes deslocamentos. Pode começar perto de casa. Uma pousada, um fim de semana em outra cidade ou um destino conhecido já funcionam como primeiro passo. Santuza recomenda essa progressão como forma de ganhar segurança.

Planejamento como rede de apoio

A autonomia não significa ausência de suporte. Ao contrário. Santuza orienta que mulheres que desejam viajar sozinhas busquem apoio profissional, especialmente nas primeiras experiências.

Agências de viagem, seguros e contatos locais funcionam como rede de segurança. Em situações imprevistas, o acesso rápido a alguém que possa ajudar faz diferença. “Você passa a mensagem e consegue resolver”, explicou.

Esse cuidado evita frustrações comuns em viagens mal planejadas. Quando algo dá errado sem suporte, a experiência pode reforçar o medo. Com estrutura, o resultado tende a ser o oposto: mais confiança para próximas viagens.

Um passo de cada vez

A decisão de viajar sozinha raramente acontece de forma abrupta. Ela costuma ser construída. Santuza compara o processo a uma escada: primeiro, experiências acompanhadas; depois, pequenas viagens solo; por fim, destinos mais distantes.

Com o tempo, desaparece a necessidade de justificar a escolha. A mulher passa a ocupar esse espaço com naturalidade. “Ela percebe que pode ir para qualquer lugar”, afirmou.

A mala continua a mesma. O que muda é o olhar sobre quem a carrega.

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Quem define o seu sucesso?

Dra. Nina Ferreira

@ninaferreira.psiquiatra

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Bater metas no trabalho, dar conta da rotina em casa, cuidar da saúde com alimentação regrada e exercícios físicos, ter higiene do sono, ler para ser uma pessoa bem informada… Ser produtivo é sinônimo de sucesso! 

Mas, afinal: o que é ser produtivo? Quem define isso?

Viver, para um ser humano, é uma experiência complexa. Reforço “para um ser humano” porque somos uma espécie animal que tem consciência  — outra coisa de difícil definição. Ou seja, sabemos dos fatos, das consequências, dos riscos, das possibilidades e isso nos dá poder e, ao mesmo tempo, angústia.

Sabemos dessa realidade dura e sentimos desejos — temos vontade de vivenciar experiências, conquistar bens materiais, ser admirados e amados. Reparou quantos movimentos acontecem ao mesmo tempo?

Unir o mundo de dentro, que é “quem somos”, com o mundo de fora, “os outros e a vida como ela é”, dá trabalho — um trabalho árduo e, muitas vezes, confuso.

Quem devo ouvir: a mim mesmo — e minhas vontades e ideias — ou aos outros — o que todos falam que é bom, o que a sociedade diz ser certo? Quem estabelece se eu “tenho sucesso”?

Ser produtivo, hoje, significa estar sempre ocupado com coisas que trazem resultado, que posso provar que fiz. Com aquilo que todos enxergam. Números, dados, imagem, soluções palpáveis ou visíveis. E isso é ruim? A verdade é que a sensação de “chegar lá” é muito prazerosa. Inclusive, a construção da nossa “autoestima” (o conceito que temos sobre nós mesmos) está muito relacionada às nossas realizações. Então, vale a pena produzir!

A grande questão aqui é: produzir o quê, quanto, por quê, para quem? 

Convido você a pensar: dentro da sua realidade hoje e dos seus parâmetros (do seu mundo interno), o que é possível fazer sem se destruir de cansaço? O que é um sucesso atingível, de forma que você se mantenha vivo, com saúde, para saborear essas conquistas?

E faço uma  última pergunta: qual conceito de “ser produtivo” você vai construir e viver?

Te desejo muitas realizações autênticas, muito sucesso, o seu sucesso!

Dra. Nina Ferreira (@ninaferreira.psiquiatra) é psiquiatra, psicoterapeuta e sócia fundadora da LuxVia Health Center. Escreve a convite do Blog do Mílton Jung.

A falácia do mercado prateado

Por Diego Felix Miguel

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Prezada leitora e prezado leitor, este texto não tem o objetivo de desqualificar o mercado como campo de estudo, ciência ou estrutura de capital fundamental da nossa sociedade. A crítica se dirige à forma como ele se apresenta para atrair consumidores, muitas vezes por meio de termos que, à primeira vista, parecem positivos, mas que acabam alimentando preconceitos e discriminações. À superficialidade do discurso que tem como atribuição gerar lucro com palavras e expressões que impressionam quem ainda não mergulhou nas águas profundas do envelhecimento humano.

Nos últimos anos, assistimos a um “tsunami” de termos que tentam qualificar uma velhice privilegiada, blindando uma minoria de homens e mulheres contra estereótipos e mitos que, paradoxalmente, os expõem ainda mais ao preconceito.

“Nolt”, “silvers”, “ageless” ou “geração prateada” nada mais são do que atualizações do que antes rotulávamos como “melhor idade”. Essas nomenclaturas impõem uma hierarquização das formas de envelhecer, ditando modelos “melhores” ou “piores” e responsabilizando, implicitamente, o indivíduo por seus sucessos ou fracassos. Trata-se de uma lógica que ignora, deliberadamente, o abismo da desigualdade social.

As estratégias desse nicho podem ser perversas. Muitas vezes, carecem de responsabilidade social ao vender uma negação romantizada da velhice,  o que chamo de idadismo cordial.

É o artifício de enganar quem ainda não aceitou o envelhecimento como uma conquista, enxergando-o apenas como um inventário de perdas.

Trata-se de uma estratégia neoliberal para ofuscar o impacto da iniquidade no acesso às políticas públicas e às estruturas de poder. Esse movimento reforça preconceitos de gênero, raciais, étnicos e geracionais, vulnerabilizando ainda mais grande parte da população, que segue sobrevivendo na invisibilidade.

A ciência do mercado e do consumo é, na verdade, muito mais profunda. Deve ser multidisciplinar, beber de muitas fontes e buscar respostas para demandas reais. Quando exercida com ética, reconhece os diferentes públicos e elabora estratégias de comunicação que não visam apenas à venda, mas contribuem para a transformação social.

Não precisamos de maquiagem para a velhice. Precisamos de dignidade para nos assumirmos velhas e velhos com orgulho, com direitos garantidos e acesso, não apenas ao Estado, mas também ao consumo com autonomia e independência. Afinal, essas são as bases para um envelhecimento verdadeiramente ativo.

Diego Felix Miguel é doutorando em Saúde Pública pela Faculdade de Saúde Pública da USP, especialista em Gerontologia pela SBGG e presidente do departamento de Gerontologia da SBGG-SP.

Como diferenciar frustração de toxicidade e proteger suas relações

Por Beatriz Breves

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Quem nunca percebeu que, ao conviver com certas pessoas, alguns sentimentos ou comportamentos parecem ganhar força; com outras, simplesmente estes sentimentos não surgem? Isso acontece porque, quando duas ou mais pessoas se encontram, seus aspectos individuais entram em interação. Elementos semelhantes ressoam e se influenciam mutuamente, moldando a forma como cada um sente, reage e se posiciona naquele vínculo.

É justamente essa dinâmica que ajuda a explicar por que há relações que evoluem para a harmonia, enquanto há aquelas que deslizam para a toxicidade. O encontro entre duas subjetividades pode tanto gerar um campo fértil para o crescimento, quanto ativar padrões que ferem, limitam e desgastam.

Muitas pessoas confundem uma relação harmoniosa com uma relação perfeita. Harmonia não é sinônimo de perfeição, e perfeição, por sua vez, está longe de ser garantia de saúde. Se imaginássemos um casal “perfeito”, provavelmente veríamos uma convivência marcada pela monotonia, pela ausência de espaço para movimento, tensão criativa ou crescimento pessoal. Isso porque o ser humano amadurece justamente nas diferenças, ou seja, nas ausências, nos desencontros e nos contrastes que geram movimento.

Usando uma metáfora musical, é no intervalo entre as notas que o corpo encontra espaço para dançar. Da mesma forma, é no espaço entre as certezas, entre os pequenos atritos, que a relação se constrói e amadurece.

As frustrações cotidianas não significam que a relação está ruim; elas apenas indicam que algo precisa ser ajustado. Podem surgir do desejo por mais atenção ou da expectativa de mudança em algum comportamento, entre outras situações. Enfim, são ocorrências comuns, que costumam se resolver com diálogo, empatia e, em certos momentos, com a aceitação madura de que nem tudo pode, ou deve, ser transformado.

As frustrações cotidianas são inevitáveis e naturais; portanto, são frustrações saudáveis. Em qualquer relação, o não atendimento ocasional das expectativas faz parte do fluxo saudável entre duas pessoas, porque ninguém consegue corresponder integralmente ao que o outro deseja o tempo todo. O que realmente importa é como cada pessoa lida com esses pequenos desencontros — se eles se transformam em espaço para o diálogo e passam a fazer parte do amadurecimento do vínculo.

A frustração tóxica não segue esse padrão. Como o próprio nome sugere, ela intoxica. Enquanto a frustração cotidiana aponta para ajustes possíveis dentro de um vínculo que permanece respeitoso, a frustração tóxica corrói, desorganiza e fere. Manifesta-se por comportamentos repetitivos gerando sofrimento psicológico constante e, por vezes, físico. Nessas relações, os conflitos se tornam a base da convivência, pois prevalecem o desrespeito, o controle e a manipulação.

Uma relação tóxica drena a vitalidade emocional, porque funciona por repetição de padrões que machucam, desgastam e desorganizam o bem‑estar de quem está envolvido. O sofrimento deixa de ser pontual e é constante, criando um ambiente de tensão, insegurança e exaustão afetiva, gerando intenso desgaste emocional.

A frustração saudável abre espaço para conversa e reajuste; a que contém toxicidade, instala medo, insegurança e perda de autonomia. A frustração cotidiana funciona como um remédio amargo que, mesmo causando incômodo, favorece o crescimento, a reorganização e a maturidade emocional. Já a tóxica age como um veneno que corrói lentamente, enfraquece a capacidade de discernimento e paralisa a iniciativa.

Transformar uma relação tóxica é um processo complexo porque exige que ambos reconheçam o padrão e se comprometam com a mudança. Esses padrões costumam estar profundamente enraizados, muitas vezes construídos ao longo de anos, e, por isso, não se desfazem somente com boa vontade ou promessas. O primeiro passo é admitir a necessidade de mudança; o segundo, identificar os comportamentos que sustentam a dinâmica tóxica; e o terceiro, buscar apoio para reconstruir a forma de pensar, sentir e se relacionar.

Entre os comportamentos tóxicos mais conhecidos estão o gaslighting, quando um dos parceiros distorce a realidade do outro a ponto de fazê‑lo duvidar da própria sanidade; o manterrupting, caracterizado por interrupções constantes e desnecessárias que impedem o outro de concluir seu raciocínio; e o mansplaining, que ocorre quando um dos parceiros fala condescendentemente, explicando o óbvio como se o outro fosse incapaz de compreender.

Estão nesta lista de comportamentos tóxicos também o love bombing, marcado pelo excesso de carinho no início da relação para, mais tarde, exercer controle; o silêncio punitivo, usado como forma de castigo que gera insegurança; e o ciúme possessivo, que funciona como controle disfarçado de cuidado.

Compreender a diferença entre frustração cotidiana e frustração tóxica ajuda a nutrir relações mais saudáveis, sensíveis e respeitosas. Essa compreensão fortalece os vínculos e amplia a nossa potência de amar.

Leia o livro Falando de Sentimentos com Beatriz Breves

Beatriz Breves é presidente da Soc. da Ciência do Sentir. Psicóloga, bacharel. licenciada com Esp. em Física (FAHUPE). Mestre em Psicologia (AWU/USA). Psicanalista (SBPRJ/IPA). Psicoterapeuta de Grupo (SPAG–E.Rio). Sócia tit. Pen Clube do Brasil. Publicou O Eu Fractal e outros livros, pela ed. Mauad.

Sobre o sentimento de abandono

Por Beatriz Breves

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O sentimento de abandono, quando vivido em sua forma mais intensa, pode fazer o tempo parecer arrastado, o espaço tornar-se áspero e a dor ocupar toda a região interna do peito. É uma experiência que pode emergir da ausência de alguém, do enfraquecimento de um vínculo ou da quebra de expectativas que sustentavam a sensação de pertencimento. Em muitos casos, sentir-se abandonado equivale a perceber o chão se desfazendo sob os próprios pés.

É natural existirem diferentes intensidades desse sentimento, variando desde pequenos abandonos até vivências mais profundas. Inclusive, experimentar pequenos abandonos se faz até necessário para que a pessoa aprenda a se cuidar melhor e a se acompanhar com mais presença de si mesma.

Há também diversas defesas para evitar o sofrimento associado ao abandono. Entre elas, observa-se quem, movido pelo medo da perda, abandona antes de ser abandonado. Há ainda quem recorra a subterfúgios externos — às vezes evidenciados por excessos de ação — na tentativa de não entrar em contato com a dor, defesa que vale para qualquer forma de sofrimento.

Ainda assim, o abandono costuma vir acompanhado do desamparo, que ressoa em solidão, angústia, desespero, insegurança e tantos outros sentimentos. Acrescenta-se ser comum a sensação de um vazio interno que revela o quanto a pessoa se sente só diante da própria existência. A gravidade desses sofrimentos dependerá da intensidade com que se manifestam e do quanto paralisam a vida de quem os vivencia.

Fato é que sentir-se só pode nos afastar de nós mesmos e nos levar a perder nossas referências internas. É nesse movimento que pode emergir um abandono ainda mais sofrido: a renúncia de nós por nós mesmos.

É fácil compreender que, quando nos abandonamos, atropelamos a dor que sentimos, silenciamos necessidades legítimas e seguimos adiante sem nos escutar. Aspectos importantes de quem somos são colocados à margem, deixando-nos em desamparo e sem acolhimento, promovendo uma grande desarmonia interior. A desconexão interna então se impõe.

Entretanto, quando percebemos que nossas lágrimas não são somente pelo que perdemos, mas também pelo que deixamos de ser para nós mesmos, pelas palavras gentis que não nos oferecemos e pela atenção que deixamos de nos dedicar, compreendemos que o sentimento de abandono não diz respeito somente ao que se foi, mas também ao que nós mesmos nos negamos. É justamente aí que surge a possibilidade de resgate: ao percorrermos nossos caminhos internos pela via do autoacolhimento, temos a chance de recuperar nossa presença em nosso próprio mundo e voltarmos a nos acompanhar.

Ao nos cuidarmos com atenção e gentileza, abrimos um espaço interno onde a dor não precisa dominar, podendo ser vivida com mais lucidez e menos solidão. Nesse gesto de autoacolhimento, descobrimos uma força cuidadora que habita em cada um de nós, uma força que sustenta, reorganiza e nos permite seguir adiante, amparados pela presença mais constante que temos em nossas vidas: nós mesmos. Afinal, se nós não nos tornarmos o nosso melhor amigo, dificilmente alguém poderá ocupar esse lugar.

Beatriz Breves é presidente da Soc. da Ciência do Sentir. Psicóloga, bacharel. licenciada com Esp. em Física (FAHUPE). Mestre em Psicologia (AWU/USA). Psicanalista (SBPRJ/IPA). Psicoterapeuta de Grupo (SPAG–E.Rio). Sócia tit. Pen Clube do Brasil. Publicou O Eu Fractal e outros livros, pela ed. Mauad.

Mundo Corporativo: Patrícia Macedo, CMO da Suzano, diz que marcas não devem esperar os sinais para se reposicionar

Patrícia Macedo, Suzano
Entrevista com Patrícia Macedo no estúdio de podcast da CBN Foto: Priscila Gubiotti CBN

“Para mim, essa observação constante da necessidade do consumidor, das motivações do consumidor é que fazem com que a marca suba as escadas.”

Nos últimos anos, a Suzano transformou um projeto estratégico em operação prática e levou seus produtos para dentro da casa de milhões de brasileiros. A empresa, historicamente associada à celulose e ao papel, consolidou uma unidade de bens de consumo com marcas como Neve, Mimo e Max. A mudança de lógica — de uma companhia voltada essencialmente à indústria para uma organização que dialoga diretamente com o consumidor final — foi tema de entrevista de Patrícia Macedo, CMO da unidade de bens de consumo da Suzano, ao programa Mundo Corporativo, da CBN.

Segundo a executiva, o movimento combinou inquietação interna e resposta ao mercado. “Nos últimos 7 ou 8 anos, a gente fala que tirou do PowerPoint e virou um projeto concreto que está na casa aí de muitos milhões de brasileiros o que a gente chama da unidade de bens de consumo”, afirmou.

Ela explica que a companhia passou a complementar a gestão baseada em ativos com uma visão centrada no consumidor. “Eu não vou só gerenciar ativos e pensar em escala, em produtividade, mas eu vou olhar necessidade. Eu vou olhar como esse consumidor pensa, qual é a lógica de comportamento e de necessidades desse consumidor.”

Reposicionamento além da estética

O exemplo mais visível dessa estratégia foi o reposicionamento da marca Neve, com mais de 53 anos de mercado. Para Patrícia Macedo, não se trata apenas de mudar embalagem ou campanha. “É uma mudança de olhar para esse consumidor”, disse.

A empresa mapeou novos hábitos e rituais ligados ao banheiro e ao autocuidado. “Tem mais de oito comportamentos que a gente mapeou dentro do banheiro e a partir disso a gente se reposiciona.” O produto passou a dialogar não apenas com atributos funcionais, mas também com significados simbólicos. “A gente começa a falar também não de forma só funcional, mas de forma simbólica também, sobre as camadas do que acontecem na vida do consumidor.”

O desenvolvimento envolveu pesquisas, testes e ajustes técnicos. “Quando a gente testa papel higiênico dentro das nossas fábricas, além dos equipamentos, a gente testa na mão, que é o que a gente chama de handfeel, que é o toque da mão.” A executiva ressalta que a entrega precisa acompanhar o discurso. “Não adianta eu falar, escutar e não entregar.”

Tecnologia e sensibilidade

A estratégia inclui o uso de tecnologia e inteligência artificial, tanto na produção quanto na comunicação. “A inteligência artificial entra também não só nas ferramentas que a gente tem no dia a dia, mas também na produção dos nossos conteúdos”, afirmou.

Ela, no entanto, faz uma ressalva. “Eu não posso perder sensibilidade, porque a sensibilidade humana, a intuição, o discernimento têm que estar a favor do ser humano.” Para Patrícia Macedo, tecnologia e empatia precisam caminhar juntas.

Não esperar o sinal vermelho

Perguntada sobre o momento certo de reposicionar uma marca, a executiva defende acompanhamento contínuo do consumidor. “Para mim não tem que esperar um sinal, você tem que acompanhar o consumidor.” E complementa: “Você não precisa esperar perder share.”

Ela reforça que marcas consolidadas devem preservar seus pilares, mas atualizar conexões. “Uma marca não vai ficar flat para o resto do tempo.” O cuidado é não abandonar a identidade construída ao longo dos anos. “Eu posso preservar os ícones, posso preservar os valores dessa marca, mas as conexões dessa marca vão ser atualizadas de acordo com o movimento do consumidor.”

Carreira e comportamento

Ao falar sobre liderança em marketing, Patrícia Macedo destacou duas características que considera essenciais. “Ele precisa ser uma pessoa de negócio e não dá para ser só uma pessoa de comunicação.” E acrescentou: “Que escute, que veja e que se use os nossos sentidos humanos a favor da estratégia.”

No conselho final aos profissionais, resumiu a postura que defende: “Esteja aberto 100% do tempo a enxergar o que está acontecendo.” Para ela, acompanhar comportamento é tarefa permanente. “Se eu não ficar conectado com a missão interna de observar os comportamentos, as motivações 100% do tempo e ser incansável, eu não consigo seguir.”

Assista ao Mundo Corporativo

O Mundo Corporativo pode ser assistido, ao vivo, às quartas-feiras, 11 horas da manhã, pelo canal da CBN no YouTube. O programa vai ao ar aos sábados, no Jornal da CBN, e aos domingos, às 10 da noite, em horário alternativo. Você pode ouvir, também, em podcast. Colaboram com o Mundo Corporativo: Carlos Grecco, Letícia Valente, Rafael Furugen, Débora Gonçalves e Priscila Gubiotti.

Dez Por Cento Mais: Carol Campos, do Vozes da Educação, fala da culpa que atravessa a maternidade

“Nasce alguém, nasce a culpa.”

A cada geração, a régua da maternidade muda — e quase sempre sobe. Se antes o desafio era garantir a sobrevivência dos filhos, depois veio a exigência de fazê-los trabalhar, formar família ou conquistar independência. Hoje, soma-se a tudo isso a pressão por desempenho profissional, equilíbrio emocional e presença constante. A culpa, diz Carol Campos, acompanha essa trajetória histórica e se instala como parte do modo de existir feminino. O tema foi discutido em entrevista ao programa Dez Por Cento Mais, apresentado pela jornalista e psicóloga Abigail Costa.

Professora, advogada, mestre em políticas públicas e diretora executiva do Vozes da Educação, Carol analisa como a culpa atravessa a maternidade contemporânea, a escola e o esgotamento feminino.

Culpa que não depende do erro

Para Carol, a culpa não surge apenas quando algo dá errado. Ela aparece, inclusive, quando tudo parece funcionar. “Quando tudo está funcionando, a gente pensa: ‘Nossa, por que que eu não tô fazendo melhor?’ E aí a culpa vem ainda mais forte.”

Segundo ela, mulheres foram socializadas para se cobrar permanentemente. “A gente aprendeu na nossa sociedade que nós nunca somos bons o suficiente.” No ambiente profissional, relata, a exigência é elevada. “Enquanto profissionais, a gente tem que se provar 10 vezes mais do que um homem.” Em casa, a cobrança se amplia: sucesso não é apenas carreira consolidada, mas também família harmoniosa.

Carol observa esse padrão na própria empresa, formada apenas por mulheres. “Não tem uma que fale para mim: Eu acho que eu não fiz bem o suficiente.” Ela compara com experiências anteriores em equipes mistas e afirma que o nível de detalhamento e autocobrança costuma ser maior entre elas. Para a entrevistada, trata-se de um traço aprendido desde a infância.

Escola, mães e a sobrecarga invisível

A escola, na avaliação de Carol, ainda reforça essa sobrecarga. Comunicados, cobranças e convites são, em geral, direcionados às mães. “Mensagem na agenda ou no aplicativo, vai para a mãe.” Ela questiona a ausência paterna nas interações formais: “O grupo de WhatsApp da escola é de mães, é o grupo das mães. Cadê os pais?”

A crítica não ignora a responsabilidade masculina, mas aponta um padrão institucional. Para ela, pequenas mudanças — como incluir pai e mãe igualmente nas comunicações — já alterariam a dinâmica.

Carol também chama atenção para a tendência de famílias buscarem escolas com perfis semelhantes aos seus. “Escola é espaço de diversidade.” Ao restringir a convivência a grupos com valores e condições socioeconômicas parecidos, perde-se a oportunidade de ampliar repertórios. A diversidade, argumenta, faz parte do processo formativo.

Falha ou esgotamento?

Quando se fala em crise da parentalidade, Carol vê dois fatores combinados. De um lado, a comparação constante entre mães. “Existe uma culpa velada.” De outro, o isolamento na criação dos filhos. “A gente entendeu que cada um tinha que criar seu filho.” Para ela, isso contraria a história humana. “Crianças sempre foram criadas no coletivo.”

A ausência de rede de apoio gera esgotamento. Carol defende a construção de comunidade, seja presencial ou à distância. “Se a gente faz tudo sozinha, a gente vai esgotar, não tem jeito.”

Ela também aborda o conceito de “mãe suficientemente boa”. A expressão, conhecida na psicologia, ganha contornos práticos em sua fala. “Eu tive que aprender que tava tudo bem eu ser essa mãe.” Mãe que trabalha, que esquece a cartolina, que compra pão de queijo na padaria para a festa da escola. Para ela, reconhecer limites é parte do processo.

Aprender a mudar

Um episódio pessoal marca essa virada. Ao ajudar o filho a lidar com uma frustração escolar, Carol percebeu, dias depois, que ele reproduziu a mesma estratégia para acalmá-la. “Mãe, vamos tomar uma aguinha, vamos respirar três vezes.” A cena, segundo ela, redefiniu sua forma de maternar.

Carol ressalta que o conhecimento sobre desenvolvimento humano é recente e ainda pouco presente na formação docente. “Criança tem manual de instrução.” Para ela, compreender o funcionamento do cérebro e das emoções transforma a relação entre adultos e crianças.

Vozes da Educação

À frente do Vozes da Educação, Carol atua com redes públicas e privadas em situações de emergência, como violência, bullying e crises climáticas. Também desenvolve projetos para fortalecer o vínculo entre família e escola. O objetivo, afirma, é criar ambientes mais seguros e harmoniosos.

Para encerrar, ela deixa duas recomendações. Às escolas, investir no relacionamento com as famílias. Às famílias, buscar informação qualificada sobre parentalidade. “Tem jeito certo e tem jeito errado de criar filho. E é muito bom quando a gente vai pelo certo.”

Assista ao Dez Por Cento Mais

Inscreva-se agora no canal Dez Por Cento Mais no YouTube e receba alertas sempre que um novo episódio estiver no ar. Você pode ouvir, também, em podcast no Spotify. A apresentação é de Abigail Costa e a produção de Amanda Alves Costa.

Mundo Corporativo: Augusto Drumond, da Nestlé, defende que diversidade com “olhar intencional” gera resultado

Augusto Drummond  head de diversidade e inclusão da Nestlé no Brasil
Entrevista no estúdio de podcast da CBN com Augusto Drumond Foto: Priscila Gubiotti/CBN

“Você não precisa ser do time de diversidade e inclusão para ter esse olhar intencional sobre o tema … Tendo esse olhar intencional sobre o tema, você ajuda a fazer do Brasil uma sociedade melhor, mas você também ajuda o seu negócio a evoluir.”

A Nestlé está presente em 99% dos lares brasileiros e decidiu que, para continuar relevante, precisava se tornar o “espelho do Brasil” também dentro de casa. A estratégia da empresa para essa transformação foi discutida em entrevista no Mundo Corporativo, da CBN, com Augusto Drumond, head de Diversidade e Inclusão da Nestlé no Brasil.

Segundo ele, a agenda de diversidade ganhou força a partir de uma métrica de negócio. “A gente quer, por estar presente em 99% dos lares com os nossos produtos e com as nossas marcas, espelhar essa sociedade brasileira internamente em todos os níveis hierárquicos”, afirmou. O diagnóstico indicava distâncias entre a composição demográfica do país e a da empresa. Reduzir esse descompasso passou a ser estratégia.

Hoje, 48% dos colaboradores da companhia são pessoas negras. Nos últimos anos, 200 profissionais negros passaram a ocupar cargos de liderança. A empresa também registra 45% de mulheres na liderança e mais de mil pessoas com deficiência no quadro de funcionários.

Grupos de afinidade e transformação cultural

A estratégia se apoia em cinco frentes prioritárias: pessoas negras, mulheres, pessoas com deficiência, população LGBTQIA+ e gerações — tanto jovens com menos de 29 anos quanto profissionais com mais de 50.

Cada grupo conta com um comitê interno. São cerca de 25 integrantes por grupo, responsáveis por propor ações e influenciar decisões. “Esses grupos, eles atuam, claro, como um espaço de acolhimento, mas principalmente esses grupos também ajudam a transformar Nestlé”, explicou.

É nesse ponto que ganha força o conceito de “olhar intencional”, repetido por Drumond ao longo da conversa. Para ele, não basta apoiar a pauta em tese; é preciso incorporá-la nas escolhas do dia a dia. O gestor que revisa seus critérios de contratação, o líder que observa quem tem voz nas reuniões, a equipe que questiona se uma campanha realmente representa o público que pretende alcançar — tudo isso faz parte desse movimento. Sem intenção clara, a diversidade corre o risco de ficar restrita ao discurso. Com intenção, passa a orientar decisões concretas e a influenciar resultados.

Um exemplo é o projeto “Rótulos que Falam”, criado para tornar embalagens mais acessíveis a pessoas com deficiência visual ou dificuldade de leitura. A iniciativa surgiu a partir da experiência de uma colaboradora cega. “Quando ela chegou no time e ela deu essa declaração muito simples de que ela não tinha acessível todas as informações que estão ali naquela embalagem, a gente começou a ir atrás da solução”, contou.

Em parceria com um aplicativo, as informações dos produtos passaram a ser disponibilizadas em áudio por meio do celular. A medida responde a uma realidade expressiva: estima-se que mais de 17 milhões de brasileiros tenham algum tipo de deficiência visual ou dificuldade de leitura.

Outro caso é a fábrica de chocolates Garoto, em Vila Velha (ES), que se tornou referência na inclusão de pessoas surdas. São mais de 100 colaboradores surdos e uma estrutura adaptada com intérpretes e comunicação acessível. 

O “olhar intencional”, expressão usada por Drumond ao longo da entrevista, significa sair da neutralidade confortável e assumir responsabilidade direta sobre as decisões. Não é esperar que a área de diversidade resolva o tema. É o gestor revisar o processo seletivo, questionar a composição do time, observar quem fala — e quem não fala — nas reuniões, analisar se a campanha representa de fato o público consumidor. Para ele, sem essa intenção clara, a diversidade vira discurso. Com intenção, vira critério de decisão.

Diversidade como decisão de negócio

Para Augusto Drumond, a pauta não se sustenta apenas por uma razão ética. “E para as empresas, independente de tamanho, é olhar para isso novamente para além do imperativo moral, para além dessa questão de que é o certo a ser feito, porque na Nestlé a gente tem visto que isso tem resultado positivo para o negócio. E se tem resultado positivo para o negócio para a Nestlé, tenho certeza que tem resultado positivo para o negócio para outras empresas também.”

Ele destaca que a diversidade influencia desde campanhas publicitárias até desenvolvimento de produtos e posicionamento de marca. “Então, através desses diferentes aspectos, seja campanha, desenvolvimento de produto, posicionamento da empresa, a gente a gente tem tentado se aproximar dos nossos consumidores usando essa lente e a ótica da diversidade e inclusão.”

A lógica é simples: consumidores tendem a se conectar com marcas nas quais se reconhecem. Representatividade, nesse caso, deixa de ser discurso e passa a ser prática.

Liderança inclusiva e próximos passos

Criada há cerca de cinco anos, a área de Diversidade e Inclusão da Nestlé agora concentra esforços em ampliar a presença de pessoas negras na liderança e desenvolver o conceito de liderança inclusiva.

“A gente continua olhando para a diversidade como uma das top prioridades dentro dos temas de RH”, afirmou, ao comentar o cenário global de reestruturação da companhia. Para ele, o tema permanece estratégico.

Ao final da entrevista, Drumond deixou uma recomendação que nasce da própria experiência. Ele contou que, ao longo da carreira na empresa, sempre “levantou a mão” quando queria aprender algo novo ou migrar de área — chamou gestores para conversar, declarou seus objetivos e buscou exposição interna, mesmo quando isso causava desconforto. Foi assim que transitou do marketing para o planejamento estratégico e, depois, para a área de Diversidade e Inclusão. Por isso, resume o conselho em uma frase direta: “Levanta a mão, né? Levanta a mão, é sempre importante.” 

O conselho vale tanto para profissionais que buscam espaço quanto para empresas que desejam avançar. Segundo ele, é preciso intencionalidade e coragem para transformar cultura e resultados.

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O Mundo Corporativo pode ser assistido, ao vivo, às quartas-feiras, 11 horas da manhã, pelo canal da CBN no YouTube. O programa vai ao ar aos sábados, no Jornal da CBN, e aos domingos, às 10 da noite, em horário alternativo. Você pode ouvir, também, em podcast. Colaboram com o Mundo Corporativo: Carlos Grecco, Letícia Valente, Rafael Furugen, Débora Gonçalves e Priscila Gubiotti.

O nada onde tudo pode acontecer

Dra. Nina Ferreira

@ninaferreira.psiquiatra

Foto de Canvy Mockups on Pexels.com

Terra arrasada. Vazio. Falta.

Quando erguemos o olhar e vemos um terreno em que nada há: não há o namoro; não há mais o emprego; o dinheiro acabou; o casamento desmoronou … a autoestima inexiste.

Há momentos na vida que parecem filme de guerra: tragédia atrás de tragédia, recursos esgotados, tristeza profunda. Tudo cinza(s).

Há momentos em que parece não haver vida. Como pode dar tanta coisa errada? O que fazer com esse desespero e essa desesperança?

Onde nada há, pode existir tudo.

Quando não temos mais o que perder, podemos olhar para dentro de nós e fazer a pergunta: como seguir daqui pra frente?

Reflexões que nos ajudam: quem são as pessoas que ainda estão do meu lado (são aquelas que eu imaginava que permaneceriam)? O que antes eu odiava e que não quero voltar a suportar? Como posso construir uma rotina que não seja um inferno ou uma prisão sufocante?

Claro, nem sempre cabe tudo o que desejamos, queremos. Mas sempre cabe algo de bom, melhor que antes. Um hábito novo que fazemos só porque é gostoso, ainda que “não sirva pra nada”; um descanso em um momento do dia que “deixar tudo arrumado” era obrigação; o distanciamento de alguém que nos fazia tanto mal.

Está aí: o nada traz a permissão de refazer, reescolher, redecidir.

O que você quer de novo para sua vida? O que você pode incluir no seu dia a dia que te fará mais leve, mais alegre, com mais energia para sentir, pensar e agir?

Então — nessa sua terra arrasada — que castelo você construirá? Que história você contará e viverá?

A Dra. Nina Ferreira (@ninaferreira.psiquiatra) é psiquiatra, psicoterapeuta e sócia fundadora da LuxVia Health Center. Escreve a convite do Blog do Mílton Jung.