O verdadeiro amor não é correspondido

Dra. Nina Ferreira

@psiquiatrialeve

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Você gosta, cuida, demonstra amor. Então, você para e espera – O que será que vem por aí, o que vou ganhar de bom?

Vazio. Silêncio. Nada.

A pessoa só segue a vida, se arrumando no espelho, com olhos fixos no celular, fazendo o relatório do trabalho… Você espera mais um pouco, mais umas horas, mais uns dias… Vazio. Silêncio. Nada.

“Que ingratidão. Não valorizou meu esforço, minha dedicação. Isso não é amor.” – Esses pensamentos pulam na sua cabeça e martelam infinitamente (é ensurdecedor). Afinal, amor de verdade é quando é correspondido, dizem… Será?

O amor nasce de um sentimento de respeitar e gostar junto de uma decisão de cuidar e desejar o bem. Sim, amor é construção da pessoa dentro de si; ela tem um objeto-alvo ou uma outra pessoa-alvo, porém, o amor é dela e quem sente é ela.

As consequências boas do amor são o peito preenchido, o suspiro doce, a sensação de um cobertor aconchegante. Então, sentir o amor é bom, porque é bom. A gente sente e saboreia!

Você não precisa ser correspondido, não precisa que criem isso dentro de você – está nas suas mãos, no seu corpo… no seu coração.

Vamos aos exemplos… 

  • Você se ama porque sabe da luta que trava todos os dias pra levantar da cama, resistir à preguiça, fazer coisas que precisa, mas não gosta; 
  • Você se ama porque sabe da luta entre o bem e o mal, a generosidade e o egoísmo, a coragem e o medo… A luta entre a luz e a sombra que trava aí dentro, quando as coisas dão errado, quando se compara com outras pessoas, quando toma decisões sobre sua carreira ou seu relacionamento. 

E, pelos mesmos motivos listados acima, você ama pessoas ao seu redor.

Você merece ser amado por resistir, por seguir tentando, por lutar pra ser melhor. As pessoas merecem ser amadas por isso também.

Não precisa de retorno. Não precisa ganhar algo em troca. É respeito, admiração, consideração: por si mesmo e pelos outros. É amor. 

Então, se você amar e não vier nada em troca… Siga amando. 

Ame soltando – Porque estar ali oprime e sufoca.

Ame colocando limites – Porque o outro precisa aprender e você precisa se manter íntegro.

Ame sendo você uma pessoa melhor – Seja compassivo, compreensivo e sábio e entregue o melhor ser humano possível, se colocando como referência e como eixo para outras pessoas que não sabem amar.

O amor verdadeiro não é correspondido. 

O amor verdadeiro é autossuficiente, se preenche e se basta – É amor e ponto. 

Não economize. Ame.

Dra. Nina Ferreira (@psiquiatrialeve) é médica psiquiatra, especialista em terapia do esquema, neurociências e neuropsicologia. Escreve este artigo a convite do jornalista Mílton Jung

Crenças disfuncionais: não é sobre ser mais ou ser menos, é sobre sermos nós mesmos

Por Simone Domingues

@simonedominguespsicologa

Foto de Anna Shvets

   “Porque os homens são anjos nascidos sem asas,

é o que há de mais bonito,

nascer sem asas e fazê-las crescer”

José Saramago

 

Um dia você acorda com uma vontade enorme de ficar na cama. Está chovendo, você tem uma apresentação para fazer na empresa, e dá um frio na barriga só de pensar! Você passou quatro semanas trabalhando nesse projeto, mas julga que não ficou tão bom como gostaria. Se recorda da apresentação de outros colegas e tem certeza de que não está à altura dos demais. Pensa que talvez fosse melhor enviar uma mensagem para seu chefe, arranjar uma desculpa… Mas isso seria ainda pior. O que os outros pensariam sobre você? Ah, sim! Teriam certeza de que você é uma farsa ou perceberiam sua incompetência. Então, decidi ir para a empresa, faz a apresentação e, apesar do ótimo feedback, julga que usou duas ou três palavras de maneira equivocada e as pessoas só não perceberam suas falhas, porque talvez estivessem dispersas ou pouco interessadas no conteúdo.

Por que será que isso acontece com tantas pessoas? Por que será que, mesmo diante de situações que evidenciam sucesso ou competência, elas se julgam incapazes ou fracassadas? 

Desde a infância, desenvolvemos determinadas ideias sobre nós mesmos, sobre os outros e sobre o mundo que nos cerca, especialmente através da interação com a família e com aqueles que estão à sua volta. Para os psicólogos Greenberger e Padesky (2017), essas pessoas ensinam coisas como “o céu é azul”, “isto é um cachorro” e “você é inútil”. Apesar de muitas mensagens serem corretas e precisas, as crianças acreditam em tudo o que é dito, mesmo que isso tenha sido uma expressão inadequada, que não corresponda à realidade.

Além disso, as crianças tiram suas próprias conclusões a partir de suas vivências. Algumas podem ouvir “você é inútil” e perceberem que uma outra criança é mais valorizada na sua família ou na sala de aula, por exemplo, por ter mais habilidades para os esportes. Essa experiência poderia gerar um entendimento de que aquelas crianças não são tão boas quanto a outra, sendo essa ideia armazenada na mete delas como “sou incompetente ou um fracasso”.

As crianças pequenas não têm habilidades mentais para pensar de maneira flexível e, ainda que essas ideias negativas não sejam reais ou precisas, serão assimiladas como verdades absolutas: as crenças sobre si mesmo.

Como essas crenças auxiliam na compreensão do mundo em fases precoces do desenvolvimento, se tornam desajustadas ou problemáticas quando são mantidas como absolutas e inflexíveis até a vida adulta, impedindo que possamos ver a nós mesmos de maneira mais realista.

Como lentes que distorcem a realidade, quando essas crenças negativas estão ativas, há uma interpretação também negativa das situações, nas quais a pessoa se vê, por exemplo, como incapaz, fracassada, incompetente, inferior às outras ou insuficiente para realizar algo.

Diante disso, alguns comportamentos são adotados como estratégias para se lidar com a carga emocional despertada, de modo a evitar ou compensar as situações que ativam essas crenças.  Alguém que acredita ser preguiçoso ou incompetente poderia evitar algumas situações, recusando desafios ou adiando o término de um trabalho, por exemplo, por temer a crítica. Outra pessoa com uma crença semelhante, poderia adotar um comportamento de supercompensação, trabalhando exaustivamente ou de maneira compulsiva, como estratégia para “mascarar” suas dificuldades.

As duas estratégias seriam desadaptadas ou desajustadas, uma vez que não solucionam o problema, não permitem testar as crenças disfuncionais negativas com novas experiências, mantendo ou reforçando a crença original.

Todos temos crenças positivas e negativas sobre nós mesmos. A diferença é onde colocamos a nossa lupa. Sim, uma lupa, que muitas vezes ignora inúmeras características positivas que temos e foca em alguns aspectos que fogem à realidade. Uma lupa distorcida, que enviesa e distorce quem somos, nos rotulando e nos reduzindo a determinados aspectos.

Atualmente, muitas pessoas se sentem frustradas por reconhecerem que não têm todas as habilidades ou que não são competentes em tudo o que gostariam de realizar, quando se comparam com outras pessoas. Mensagens são disseminadas de que basta querer e você será tudo o que desejar.

Desculpe se vou destruir ilusões, mas nunca poderemos ser tudo. Isso é muita coisa para um ser humano, falível, imperfeito. Somos assim! Mas também podemos ser muito mais do que julgamos ser, quando acreditamos que somos menos do que os outros.

Não é sobre ser mais ou ser menos. É sobre sermos nós mesmos, com nossas características que envolvem pontos fortes e fracos.

O mundo seria muito chato e monótono se todos tivessem as mesmas habilidades, as mesmas características. Somos diversos, e aí mora a beleza de sermos quem somos. Somos experiência, vastidão, sucesso. Incompetências e fracassos também, por que não? Assim, não bastamos a nós mesmos. Precisamos dos outros. Essa é a nossa natureza!

Talvez tenhamos dificuldades para reconhecer… Porque borboleta não nasce borboleta. Nasce lagarta, mas queira ou não ela será uma borboleta. E depois disso? Depois disso vai voar!

Simone Domingues é psicóloga especialista em neuropsicologia, tem pós-doutorado em neurociências pela Universidade de Lille/França, é uma das autoras do canal @dezporcentomais, no YouTube. Escreveu este artigo a convite do Blog do Mílton Jung. 

Mundo Corporativo: Reynaldo Naves, da Olivia, sugere narrativas disruptivas para que pessoas e empresas mudem

Reynaldo Naves no estúdio do Mundo Corporativo da CBN, em foto de Priscila Gubiotti

Falar de como a tecnologia impacta a sua vida é “chover no molhado” — perdão por usar uma expressão de uma época em que as mudanças ocorriam de forma bem mais lenta do que atualmente. Todos sabemos como nosso cotidiano, nossas relações, nosso trabalho e nossas empresas estão passando por uma enorme migração diante da transformação digital. A despeito disso, se a ideia é acompanhar esses processos toda e qualquer organização tem de focar suas ações no desenvolvimento das pessoas. Quem fez esse alerta foi Reynaldo Naves, sócio e gestor da Olivia, no Brasil, consultoria internacional especializada em transformação organizacional.

“É preciso fazer o que chamamos de ‘twin transformation’ que é fazer a transformação digital, fazer a transformação focada em sustentabilidade a partir das pessoas, porque no dia a dia, para as coisas acontecerem, é que a cultura aparece. Então, se você não tiver uma orquestração da tua visão, dos teus serviços e da tua arquitetura a cultura que se instala  pode estar desbalanceada”. 

Na entrevista ao programa Mundo Corporativo, da CBN, Reynaldo explicou que o risco de a estratégia e a cultura estarem desconectadas  é o de as pessoas não verem sentido nas mudanças e quando isso ocorre os colaboradores tendem a produzir menos e os talentos vão embora.

“Esse é o grande paradigma. A gente tem que perceber que a estratégia — esse como e onde a gente chega — não pode estar desconectada de comportamentos coerentes, consistentes e congruentes com isso”.

A proposta da Olivia, de acordo com Reynaldo, é buscar formas disruptivas nos projetos de transformação organizacional a partir da criação de narrativas inspiradoras, simples e objetivas. Para ele, a complexidade do mundo já é grande demais diante de tantas ferramentas e soluções que surgem a cada instante — ciência de dados, inteligência artificial e internet das coisas, por exemplo. É preciso identificar o que realmente é importante para a organização, sem a tentação de querer repetir fórmulas criadas para outras realidades. Na conversa que tivemos antes do programa se iniciar, Reynaldo havia comentado que uma das coisas que mais o incomoda é quando o gestor o procura e anuncia: “quero implantar a cultura do Google na minha empresa”.  Vai dar errado, diz ele! Você não é o Google!

“Cultura não se copia. E a outra coisa é que quando você tem essa narrativa a forma como você faz as pessoas vivenciarem essa mudança ela tem que ser vivencial, ela tem que ser inesquecível” 

Repetindo o ensinamento de um dos maiores especialistas em cultura organizacional, o americano Roger Connor — “change the culture, change the game”-, Reynaldo defende que as experiências implantadas nas empresas têm de ser disruptivas porque assim consegue-se mudar as crenças que mudam os comportamento que fazem com que você haja de forma diferente alcançando resultados diferentes: 

“Essa é a grande sacada do processo que é a partir das pessoas alavancar a tua estratégia e não top-down”.

Sim, é de baixo para cima, mas o líder é fundamental para que as mudanças aconteçam. Apesar de o processo ser bem estruturado para que as pessoas atuem na transformação, Reynaldo lembra que é “na última milha” que o sucesso se realiza. Um espaço que sequer tem um script, porque é o espaço do exemplo: 

“O sucesso de uma transformação é, quando um líder tem um plano na mão, o como ele faz isso, o como ele engaja ou o como ele escuta ou o como ele coloca no ar a contribuição dos outros”.

Quando tratamos de transformação organizacional não falamos apenas das grandes corporações. As mudanças se fazem necessárias em empresas de todos os tamanhos. Por isso, pedi para Reynaldo deixar sugestões a pequenos e médios empresários interessados em sobreviver ao atropelo causado pelas novas tecnologias e as mudanças de comportamento:

  1. A sua empresa é o seu exemplo: esteja conectado no comportamento que atrai clientes para crescer; crie um código de conduta; e mantenha a coerência entre o que diz que faz e o que realmente faz;
  2. Invista em tecnologia: existem soluções para pequenos negócios; invista em tecnologia de gestão da empresa para ter os dados
  3. Saiba se o cliente está satisfeito: ao fazer isso, não tome decisão sozinho, converse com o pessoal que está na linha de frente, veja se eles entendem o cliente, quais problemas que eles tem com os clientes e, a partir disso, faça as mudanças necessárias.

Para entender mais sobre como fazer as transformações no seu negócio para estar adaptado às demandas atuais, assista à entrevista completa com Reynaldo Naves, da Olivia:

O Mundo Corporativo tem as participações de Renato Barcellos, Letícia Valente, Priscila Gubiotti e Rafael Furugen.

A memória do amanhã

Por Simone Domingues

@simonedominguespsicologa

A nossa memória em foto de Miray Bostancu0131 on Pexels.com

“Seu futuro ainda não está escrito, o de ninguém está.

 Seu futuro será o que você quiser, então faça dele algo bom”

Frase do filme “De volta para o futuro”

No filme “De volta para o futuro”, Marty McFly (Michael J. Fox) é um jovem que aciona acidentalmente uma máquina do tempo, construída pelo cientista Dr. Emmett Brow, sendo transportado para o passado. No fim da trama, Marty volta para o ano de 1985 e tenta salvar o Dr. Brown, mas chega tarde demais para impedir que ele fosse baleado. Surpreendentemente, o cientista acorda e revela que ao tomar conhecimento da carta que o alertava sobre seu assassinato, se muniu previamente de um colete à prova de balas.

Longe da ficção e sem a possibilidade de alterarmos alguns desfechos em nossa vida, precisamos lembrar de pegar o guarda-chuva porque a previsão alertou que mais tarde o tempo muda. Precisamos lembrar que às 8:00 o remédio precisa ser tomado, que dia 10 vence o boleto da mensalidade da escola, que acabou o ovo e precisamos passar no mercado antes do jantar. E o livro que você pegou na biblioteca? Era para ser entregue ontem!

Pois é! Essa máquina do tempo que nós humanos temos, chamada memória, nos permite recordar eventos passados, mas também nos possibilita criar intenções voltadas para o futuro, nos orientando naquilo que ainda vai acontecer.

A memória prospectiva compreende um conjunto de habilidades cognitivas envolvidas na capacidade de planejar uma intenção e se recordar dessa intenção, em algum ponto do futuro, em momento ou contexto específico, possibilitando que as ações sejam realizadas.

Em outras palavras, significa “manter em mente” o que precisa ser feito e se lembrar disso no momento certo!

A memória prospectiva é um dos sistemas mais utilizados no cotidiano e envolve tarefas como se lembrar de um compromisso, como uma reunião de trabalho ou consulta médica, transmitir um recado, organizar os detalhes de uma viagem que vai acontecer e pagar as contas no dia do vencimento.

Diversas estratégias podem ser usadas para amenizar possíveis falhas na memória prospectiva, como recorrer a agendas, alarmes, realização de lista de tarefas e lembretes.

Apesar de tantos avanços tecnológicos e científicos, nossa capacidade de viajar pelo tempo só é possível – ainda – através dos nossos recursos mentais. Nossa mente tem essa capacidade incrível de retomar situações passadas e antecipar o futuro, através da imaginação.

Não sei você, mas eu fico pensando: se tivesse um jeito da gente olhar o futuro, saber o que nos aconteceria, será que a gente seria mais feliz? Será que a gente conduziria a vida de uma outra maneira?

Não temos spoiler. Não temos um bilhete nos alertando dos riscos, como no filme, o que nem sempre nos permite um colete à prova de balas, à prova de tristezas, decepções ou sofrimento. Mas temos a capacidade de olhar para o nosso momento presente e construir uma ponte com o nosso futuro, com sonhos e esperança.

Ainda é possível: A máquina do tempo pode travar, mas ela acaba ligando novamente! Não foi assim com o Marty McFly?

Então, faça as suas anotações, escreva um bilhete para você. Mas não coloque ali apenas a reunião ou a conta que você não pode esquecer. Das obrigações a gente até se lembra com mais facilidade.

Escreva aquilo que pode fazer a sua viagem para o futuro valer a pena. Aquilo que todos os dias você precisará se recordar, porque lhe é valioso. A sua memória do amanhã.

Dr. Brown estava certo: “seu futuro ainda não está escrito, o de ninguém está”. Então faça dele algo bom!

Simone Domingues é psicóloga especialista em neuropsicologia, tem pós-doutorado em neurociências pela Universidade de Lille/França, é uma das autoras do canal @dezporcentomais, no YouTube. Escreveu este artigo a convite do Blog do Mílton Jung. 

Mundo Corporativo: Gustavo Arns ensina que uma vida mais feliz no trabalho não é uma vida sem estresse

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“Se eu tento buscar a felicidade diretamente, eu corro o grave risco de me sentir ainda mais ansioso e angustiado”

Gustavo Arns, empreendedor

Tem uma parte da felicidade que é humana, portanto vale para todos os seres humanos do planeta. Tem uma parte que é cultural e por assim ser dependerá de fatores como a região e o meio em que você vive. Uma pequena parcela é individual ou seja subjetiva e vai se diferenciar de uma pessoa para outra. Quer um exemplo? Ao fazer atividade física você vai produzir hormônios como a dopamina e a endorfina que oferecem uma sensação de satisfação. Isso é humano! É do coletivo! Agora, se a atividade que vai lhe oferecer felicidade é a musculação na academia, o futebol com os colegas, a sessão de alongamento ou o yoga em casa, dependerá de uma escolha individual, daquilo que atenderá melhor suas expectativas.

Compreender as diferentes camadas que nos levam à felicidade é um dos papeis da psicologia positiva, tema para o qual se dedica Gustavo Arns, idealizador do Congresso Internacional da Felicidade. Na entrevista que fiz com ele no Mundo Corporativo da CBN, olhamos para dentro das organizações para entender se é possível ser feliz no trabalho. Antes de chegar a essa resposta, Gustavo recorre a definição de felicidade descrita por Tal Ben-Shahar, professor de Harvard e uma das maiores referências internacionais no tema. Para ele, a felicidade é a combinação de cinco elementos: o bem-estar físico, emocional, intelectual, relacional e espiritual.

“A gente pode levar esses mesmos conceitos para dentro das organizações e nós podemos, também, olhar com um pouco mais de calma para essa questão, também importante, do sentido do significado, do propósito, das realizações que são uma parte bastante tangível no trabalho”. 

O professor de pós-graduação de psicologia positiva da PUC do Rio Grande do Sul, com base em pesquisas científicas, diz que o investimento no bem-estar do colaborador tem relação direta com dois aspectos: a produtividade e a satisfação do cliente, que são fundamentais para o sucesso da empresa. Além disso, há redução do absenteísmo, maior retenção de talentos, cresce o engajamento e diminui o gasto com plano de saúde. entre muitas outras vantagens. O desafio é alcançar esse estágio conjugando vida pessoal e profissional diante da aceleração dos processos, da pressão por resultados e da comunicação instantânea que não respeita mais hora de expediente. 

É difícil ser feliz em um cenário desses? Sem dúvida! A tendência é depararmos com o estresse, a ansiedade e as angústias. Nessas situações, vale ressaltar que a ciência da felicidade não surge para encobrir esses problemas: 

“Muitas pessoas acreditam que uma vida mais feliz seria uma vida livre de tristeza ou livre de estresse ou livre de ansiedade. Isso é humanamente impossível. Todas essas emoções fazem parte da vida humana e vão nos acompanhar a vida toda. O que a ciência da felicidade nos mostra é que o bem-estar emocional está na forma como nós lidamos com cada uma dessas emoções”. 

Para tanto, Gustavo sugere que sejamos educados emocionalmente porque apenas assim saberemos lidar com essas situações complexas, caso contrário estaremos fadados a trocar de emprego diante de cada frustração na ilusão de que a felicidade está sempre na outra empresa. Ou no salário maior. Eis aqui outro aspecto que precisa ser mais bem entendido: reajuste salarial é bom mas não é a razão de ser da felicidade.  

“Aquelas pessoas que vão mudando de trabalho esperando encontrar menos ansiedade e menos estresse é pouco provável que isso aconteça, porque este é um trabalho que deve ser feito interno. Isso é um trabalho de autoconhecimento. Isso é um trabalho de autodesenvolvimento e que as empresas de alguma forma podem auxiliar os seus colaboradores”.

O papel dos líderes é fundamental para que se crie um ambiente saudável dentro das organizações, refletindo no bem-estar dos profissionais. No entanto, percebe-se que lideranças tóxicas persistem no comando de muitas empresas. Uma das opções seria trocar de chefe, possibilidade que não está à disposição de todos os profissionais. Nesses casos, Gustavo sugere que as pessoas se fortaleçam internamente de forma que a toxicidade do líder cause doença e desequilíbrio emocional:

“Você vai cuidando das condições básicas, físicas, sono, alimentação, exercícios que vão te dando disposição, vitalidade, energia pra gerir melhor essas emoções”.

Para entender outros aspectos da busca pela felicidade na vida —- incluindo a profissional — assista ao programa completo do Mundo Corporativo da CBN, com Gustavo Arns:

Colaboram com o Mundo Corporativo: Priscila Gubiotti, Rafael Furugen, Bruno Teixeira e Renato Barcellos.

Ano novo: tudo de novo!

Por Simone Domingues

@simonedominguespsicologa

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“Minha mãe me deu ao mundo
De maneira singular
Me dizendo a sentença
Pra eu sempre pedir licença
Mas nunca deixar de entrar”

Tudo de novo – Caetano Veloso

Na mitologia romana, Janus é a divindade que possui duas faces, uma sempre voltada para a frente, contemplando o futuro, e a outra para trás, olhando o que já passou. Nesse sentido, sua representação simboliza as transições, o caminho entre dois pontos e as dualidades do universo.

O deus romano costumava ser cultuado durante os períodos de colheita, em rituais de celebração nos quais se desejava o sucesso na renovação de um ciclo de plantio, e em eventos que marcavam mudanças nas fases de vida humana. Além disso, era o deus guardião das portas e dos portais de entrada e saída por onde passavam os soldados romanos em tempos de guerra.

Essa representação do passado e do futuro, e a vinculação às celebrações de início e encerramento de ciclos, fizeram com que o deus Janus fosse fortemente associado com as simbologias do ano novo, que remetem a mudanças, recomeços e esperança.

E não seriam esses os desejos que nos invadem nessa época do ano?

Desejamos que a vida nos permita recomeços. Desejamos uma vida com mais conexão, com mais encontros, com mais oportunidades e, porque não dizer, com mais felicidade.

Desejamos que as mudanças aconteçam e nos permitam uma vida melhor, mas buscamos do lado de fora o que possivelmente se alcança apenas dentro de nós mesmos. As portas que tanto desejamos que nos sejam abertas, possuem fechaduras internas.  Por vezes, elas aparecem com o nome de novos caminhos; por outras, emolduram novas pessoas e culturas, novos olhares e novas ideias.

Cabe a cada um de nós decidir se vamos ou não abri-las. Se não abrirmos, nos manteremos seguros no lugar que já conhecemos, na famosa “zona de conforto”. É menos arriscado? Talvez. Mas restaremos atrás da porta, ignorando um horizonte repleto de novidades que está ali adiante. 

É o desafio entre ter vivências ou ter certezas…

Gosto de acreditar que sempre temos os nossos recomeços, que sempre temos a oportunidade de encerrar um ciclo e começar uma nova etapa. É assim na natureza, é assim em nós: ciclos, estações, fases da vida… o nome pouco importa.

Gosto de pensar na fé como a sabedoria que nos permite reconhecer a impermanência das coisas, boas ou ruins.  

Gosto de pensar na esperança como aquela força propulsora que nos encoraja a construir novos caminhos.

Gosto de pensar num novo ano com recomeços, com fé e esperança.

E eu desejo isso a você!

Que o passado e o futuro estejam diante dos seus olhos, assim como era para Janus, e que suas decisões permitam que você faça boas colheitas.

Por fim, busco na dualidade de Caetano Veloso o que espero para o ano novo: tudo de novo!  Inspirada por sua música, desejo que você tenha coragem para abrir as portas que estão à sua frente. Peça licença, mas nunca deixe de entrar.

Simone Domingues é psicóloga especialista em neuropsicologia, tem pós-doutorado em neurociências pela Universidade de Lille/França, é uma das autoras do canal @dezporcentomais, no YouTube. Escreveu este artigo a convite do Blog do Mílton Jung. 

Qual é o Brasil que podemos ser, juntos?

Por Matheus Nucci Mascarenhas

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O BRASILEIRO PRECISA VOLTAR A ACREDITAR: a descrença generalizada em nosso país explica por que ainda passamos por um interminável ‘terceiro turno’, o qual nos provoca a refletir sobre o futuro da nação.

As eleições dividiram ainda mais um povo que jamais foi unido de fato. Já afirmava o sociólogo carioca, Sérgio Buarque de Holanda, que o brasileiro persiste em ser “um desterrado em sua própria terra”. Mas quem é o Brasil? O colonizador português, o escravizado africano, o imigrante europeu e asiático: o único verdadeiro brasileiro, o indígena, todavia hoje é um pária, vive às margens da sociedade e sob a constante lembrança do extermínio da colonização. Esse Brasil, que nunca teve um povo que se pensasse brasileiro, que se pensasse genuinamente patriota, sofre, novamente, um dos sintomas dessa sociedade estilhaçada: uma eleição de descrença.

Em termos gerais, o brasileiro atual divide-se em três categorias de descrentes.

O primeiro deles, é o descrente cético. Este, que perdeu sua esperança no fracasso das “Diretas Já”, no fracasso dos fiscais do Sarney, no fracasso do governo Collor, na corrupção do governo Lula, no fracasso do governo Dilma e no fracasso do governo Bolsonaro, agora rejeita qualquer chamado “patriótico”, tanto a se opor ou a apoiar projetos políticos.

Esse brasileiro cético é aquele que, no passado, era interessado na política nacional, acompanhava-a no noticiário e até mesmo detinha certa esperança por um Brasil melhor. Porém, quando a maré baixou e a sujeira deplorável da política desnudou-se perante seus olhos, o descrente cético escolheu se blindar. Agora, prefere aproveitar um churrasco em casa, papear com os amigos e assistir a FRIENDS, a participar da decepcionante ciranda da política brasileira. Dentre esses indivíduos, incluem-se os quase cinco milhões que votaram nulo, ou aqueles que, muito indecisos, escolheram entre uma das duas gárgulas, geralmente por terem maior raiva em uma do que na outra.

A segunda categoria, esta já mais fisiológica, barulhenta e caricata, trata-se dos descrentes fanáticos. Parece ilógico juntar a palavra “descrente”, alguém que não acredita, com “fanático”, aquele que cegamente crê.

No entanto, o descrente fanático engloba, paradoxalmente, essas duas características. Por um lado, essa porção de brasileiros é fanática por aceitar levianamente o que recebe em suas bolhas ideológicas (tanto de esquerda, direita, ou qualquer outra denominação política que seja pertinente). Por tão intensamente se colocarem passivos ao que recebem e a como se devem comportar, “Sim, meu líder, farei o que for preciso”, tornam-se servos de um “mestre”, que tem como última das suas prioridades importar-se com essa casta devota de seu eleitorado. Por outro lado, são, sim, descrentes, porque não têm mais a capacidade de, pelo menos por um momento, acreditar em si mesmo e em seu julgamento próprio. Não, não o fazem, pois, perante quaisquer evento político, tomam seus juízos não de si mesmos, mas de formadores de opinião. Tornam-se “presas intelectuais” de um sistema que os faz, pouco a pouco, mais distantes de sua própria capacidade de pensar. Nesse contexto, a esses brasileiros falta reflexão, abrir os olhos de forma tal a se apartar de vieses que confirmam diariamente, intensamente e, sobretudo, maliciosamente, sua “suposta” visão política. E digo “suposta”, porque, para que seja uma visão política, demandar-se-ia do indivíduo raciocínio e análise crítica (alguma lasca de crédito a si mesmo), não uma simples fagocitação faminta de discursos pré-fabricados, muitas vezes, divulgados na internet. Em síntese, a estes minions, stormtroopers, habitantes da Oceania de George Orwell, ou londrinos de Aldous Huxley falta a capacidade de escapar desse invólucro alienante que os condiciona a dizer “sim”, a dizer “não”, a gritar, a protestar, a quebrar, ou a matar segundo a vontade de outrem, daquele líder “virtuoso” (popular, sonhador, da esperança, ou mesmo imbrochável).

Por fim, temos a terceira categoria: os descrentes despretensiosos. Esses congregam a maioria dos brasileiros: o trabalhador informal, o profissional liberal, o vendedor ambulante, o favelado, o aposentado, o doente, o morador de rua, o trabalhador que bate ponto às 18h, o pequeno empresário, o agricultor familiar, e assim por diante.

Os descrentes despretensiosos (e me desculpem pelos sufixos repetitivos), são o mais verdadeiro retrato do Brasil. Esse povo é aquele que votou no palhaço ou no farsante, mas não por convicção, e, sim, por obrigação (para não ter que se dar ao trabalho de justificar a abstenção) ou por terem se convencido de forma rasa a escolher entre os dois “cândidos” candidatos. Os descrentes despretensiosos, diferentemente dos outros dois grupos, ainda não sabem que possuem um papel na democracia, na transformação social. Os céticos o reconheciam, mas agora desiludiram-se por completo, enquanto os fanáticos o vêem com clareza, mas somente para o lado que lhes convêm (o resto é antidemocrático, facista, comunista, censitário). Nessas eleições, o terceiro Brasil não entende que seu voto faz, e muita, diferença, muito menos entendem que o poderiam ter usado em outra alternativa, na primeira rodada do jogo eleitoral. Esse terceiro grupo não reconhece e, muitas vezes, tampouco tem acesso à sua cidadania. A exemplo, um morador de rua, um favelado, um andarilho: tais indivíduos não se enxergam como cidadãos (e, resgatando o início do texto, como verdadeiros brasileiros). Como então podem enxergar-se como transformadores da política nacional? E o padeiro, motorista, porteiro, lavrador, pedreiro? Qual é o seu papel, senão trabalhar e cuidar de sua família. Para este terceiro Brasil, esse papel é não menos do que a despretensão de atuar politicamente, pensando em seu círculo pessoal acima do cidadão. A este grupo, digo que não estão errados: há, sim, a necessidade de pensar em si e em seus próximos. Mas, quando estamos diante de problemas que afetam a vida de todos os brasileiros, é vital que o terceiro Brasil creia em sua função social de provocar mudança.

Após definir e elucidar os três Brasis que se manifestaram nesta eleição, gostaria de finalizar o texto com um convite a todos. Enquanto passarmos por momentos como esse, de descrença generalizada (seja ela no outro, em si ou no nosso papel cidadão), não devemos perder de vista nossa missão maior: formar o Brasil dos brasileiros, para os brasileiros. Nosso sonho deve ser, nas décadas que se seguirem, termos um novo intelectual brasileiro, um Sérgio Buarque de Hollanda XVIII, que escreva: “finalmente, os brasileiros dispõem de sua terra, e à sua terra dispõem-se os brasileiros”.

Bem, esse passar do “terceiro turno” eleitoral, que muito mais tem a ver conosco do que com as duas bestas, deve tornar-se um momento de autocrítica e progresso. Aos descrentes céticos, há, sim (e nunca cessará de ter), poder de transformar, protestar, cobrar, se posicionar, lutar democraticamente. Essas ações surtem efeito, mesmo que gradual e lentamente. Aos descrentes fanáticos, tenham mais respeito e admiração a si próprios! É possível pensar por si mesmo e impedir que uma lavagem cerebral irrompa doutrinas perigosas em suas mentes. E essa tarefa depende exclusivamente de vocês. Aos descrentes despretensiosos, vocês não são somente habitantes do Brasil, mas cidadãos brasileiros. Lutar pela democracia que vocês almejam, lutar por um país mais justo, igualitário, fraterno e livre está ao seu alcance. É possível mudar, basta acreditarmos no poder de ser brasileiros de verdade.

Evitando clichês finais, como “o Brasil que queremos depende de nós”, ou “a nossa nação se faz com as nossas mãos”, termino com a seguinte pergunta:

“Qual é o Brasil que podemos ser, juntos?”

Matheus Nucci Mascarenhas é estudante, ouvinte de rádio e tem 17 anos.

É sobre todas as mulheres que sofrem violência por serem mulheres

Por Simone Domingues 

@simonedominguespsicologa

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“É o início do pesadelo. Quando o marido está assim, não importa a realidade,

ele detesta tudo e qualquer coisa. É como se fosse outro homem.

Janete se encolhe toda, olha para o colo, mal se mexe.

O tempo a ensinou como reagir. Melhor não dizer nada e esperar. Só esperar.”

(Trecho do livro: Bom dia, Verônica 
de Raphael Montes e Ilana Casoy)

A violência contra a mulher é um fenômeno em todo o mundo, independentemente de fatores sociais, econômicos ou culturais, vitimizando e dilacerando milhões de vida.

No Brasil, os dados apresentados pelas Secretarias Estaduais de Segurança Pública são assustadores. Em 2021, a cada sete minutos uma mulher perdeu a vida em consequência do feminicídio e a cada 10 minutos uma menina ou mulher foi vítima de estupro. 

Segundo dados da Organização Mundial de Saúde (OMS), ao longo da vida, uma em cada três mulheres é submetida à violência física ou sexual por parte de seu parceiro ou sofre violência sexual cometida por alguém que não seja seu marido ou parceiro.

A violência física é compreendida como qualquer comportamento que ofenda a integridade ou saúde corporal da mulher, na qual o agressor fere a vítima utilizando-se da força física, tais como chutes, tapas ou queimaduras corporais, podendo provocar lesões internas e externas.

A violência sexual ocorre quando a mulher é obrigada a presenciar, manter ou participar de relação sexual não desejada, através de intimidação, ameaça ou uso da força; bem como atitudes que a impeça de usar qualquer método contraceptivo ou que a force, contra a sua vontade, ao matrimônio, à gravidez, ao aborto ou à prostituição. 

Além desses dois tipos de violência, que de certo modo são mais visíveis, outra forma de agressão à mulher pode ser mais velada, encoberta, mas os danos causados são devastadores: a violência psicológica.

A violência psicológica é caracterizada como qualquer conduta que cause danos emocionais e psíquicos à mulher, prejudicando o seu desenvolvimento, ocorrendo através de ameaças, humilhações, insultos, manipulação, isolamento, ridicularização, limitação do direito de ir e vir. Frequentemente, o agressor proíbe a mulher de trabalhar, de se relacionar com amigos e parentes e até mesmo de sair de casa, justificando que tais atitudes visam sua proteção contra os perigos do mundo ou de pessoas que possam influenciá-la, com imposições de um saber superior ao da mulher.

Esse tipo de violência, ainda que tipificado na Lei Maria da Penha (Lei nº 11.340/2006 sancionada para combater a violência contra a mulher), dificilmente é punido, entretanto, causa danos psicológicos significativos na vítima, tais como baixa autoestima, perda de confiança, apatia, tristeza, culpa, vergonha, medo, depressão, ansiedade, transtorno de estresse pós-traumático e síndrome do pânico.

A lista de consequências à saúde mental é longa, como reflexo da dor ou desesperança que muitas mulheres experimentam quando são vítimas da violência.

Quando a violência ocorre num relacionamento afetivo ou num contexto conjugal, em geral, ocorre num ciclo que é constantemente repetido, caracterizando uma relação abusiva. A psicóloga americana Lenore Walker caracterizou três ações que compreendem esse ciclo. Inicialmente, há um aumento da tensão, no qual o agressor tende a agir de maneira mais explosiva, como gritar, se alterar ou quebrar objetos. Em seguida, comete os atos de violência contra a vítima. A terceira fase do ciclo é caracterizada por arrependimento do agressor, alimentando, na vítima, a ideia de que possivelmente ele mudará o seu comportamento.

Isso gera um ciclo vicioso e perverso, no qual muitas mulheres se sentem impotentes, permanecendo ao lado dos agressores por medo, vergonha ou falta de recursos financeiros, na esperança que a violência termine.

Feliz será o dia em que minhas filhas poderão sair com a roupa curta sem que isso me gere preocupação com a vida delas. Feliz será o dia em que as mulheres possam usar os cabelos como desejarem, frequentar os lugares que quiserem e fazerem o que bem entenderem para si, sem medo de serem agredidas ou mortas.

Não é sobre o véu que deixou o cabelo à mostra. Não é sobre a roupa curta ou decotada. É sobre todas nós, mulheres, vítimas de violência pelo fato de sermos mulheres. Por todas elas, por todas nós! 

Só é possível mudar essa realidade com ações efetivas de governos e pessoas, capazes de combater e denunciar essas situações nocivas, promovendo oportunidades de acesso à informação, à proteção e a serviços.

Não se muda a violência contra a mulher esperando que um dia ela acabe. Isso é justamente o que a mantém.

Então, querida Janete, na violência contra a mulher o tempo não é um aliado. Não é possível não dizer nada. Não é possível só esperar. A espera custa a vida. 

Simone Domingues é psicóloga especialista em neuropsicologia, tem pós-doutorado em neurociências pela Universidade de Lille/França, é uma das autoras do canal @dezporcentomais, no YouTube. Escreveu este artigo a convite do Blog do Mílton Jung. 

O poder da empatia entre feras e belas

Por Simone Domingues 

@simonedominguespsicologa

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O conto de fadas “A Bela e a Fera”, escrito no século XVIII e adaptado pela Walt Disney Pictures, em 1991, narra a história de uma jovem, Bela, que aceita se tornar prisioneira do monstro, a Fera, em troca da liberdade de seu pai que está idoso. Bela fica no castelo e, apesar dos medos e desafios enfrentados, constrói um vínculo afetivo com a Fera. Ao saber que seu pai está muito doente, sentimentos de dor e preocupação tomam conta da personagem. Essa tristeza comove a Fera, que toma a decisão de liberar a sua Bela. 

Seja no conto de fadas ou na vida humana, o que possibilita que atitudes altruístas sejam adotadas? 

A empatia.

Em neurociências, a empatia está relacionada a uma capacidade de reconhecer o estado emocional das outras pessoas, compreendendo o que se passa com elas, e com a nossa capacidade de imaginar como nos sentiríamos se estivéssemos na mesma situação.   

Pesquisas apontam que a empatia pode ser baseada no sistema de neurônios-espelho, aqueles que são ativados quando observamos ou imaginamos algum movimento, ou quando imitamos outras pessoas.

Um estudo de ressonância funcional sobre o possível papel do sistema de neurônios-espelho em processos emocionais mostrou que quando as pessoas observam ou imitam expressões faciais envolvendo diferentes emoções, áreas cerebrais relacionadas às próprias emoções são ativadas, gerando os estados emocionais. Assim, o simples ato de ver fotografias de caras enojadas, por exemplo, ativa regiões cerebrais que também são ativadas quando a pessoa cheira algo desagradável. 

Isso é particularmente relevante ao considerarmos o impacto que o excesso de informações ou cenas com conteúdos negativos podem produzir em alguns indivíduos, uma vez que as pessoas não demonstram empatia da mesma forma e essa pode variar em diferentes graus de intensidade. 

Vários fatores de modulação podem afetar o nível de resposta empática ou a capacidade de perceber a dor alheia. Há uma tendência ao aumento da empatia quando a dor observada é considerada maior do que aquela que já experimentamos; em situações que ocorrem abruptamente, como um acidente; ou quando a pessoa com quem empatizamos é próxima ou semelhante a nós. 

A empatia poderia levar a um estado de caos emocional, gerado devido a incapacidade de distinguir entre as nossas emoções e a dos outros, mas isso não ocorre. Isso porque há uma tomada de perspectiva cognitiva que nos permite, inicialmente, distinguir entre nós e os outros. Em seguida, imaginamos como a outra pessoa se sente e entendemos suas intenções, desejos e crenças. Essa inferência cognitiva do estado mental da outra pessoa é conhecida como mentalização ou teoria da mente, realizada especialmente pelo córtex pré-frontal, que de certo modo nos protege do mimetismo, da imitação sem consciência.

Apesar de outras espécies também demonstrarem empatia, os humanos podem colocar suas emoções em palavras, permitindo-lhes não apenas expressar emoções, mas também relatar sobre as experiências atuais e passadas. Esses relatos oferecem uma oportunidade para compartilhar, explicar e regular a experiência emocional com os outros.

Talvez esse tenha sido o segredo para o final feliz da Bela e a Fera… 

Com a capacidade de compreender o que se passa com o outro, sem julgamentos, mas sendo capaz de imaginar como se sente, Bela olha para além das aparências do monstro, se aproxima e consegue reconhecer o seu valor. E volta para salvá-lo, quando descobre que ele também está em risco.

Longe dos contos de fada, reflito naqueles que sofrem com transtornos mentais, naqueles que estão sozinhos, abandonados. Nos doentes, nos excluídos, naqueles que sofrem por falta de amor ou oportunidade. Quanto sofrimento que passa diante dos nossos olhos… Mas será que somos capazes de ver? Será que somos capazes de compreender como se sentem? 

Talvez sejam apenas as “Feras”, os “monstros” que preferimos que fiquem em terras bem distantes… assim não nos causam medo. Não por eles, mas por nossa incapacidade de exercer verdadeiramente a empatia.

Simone Domingues é psicóloga especialista em neuropsicologia, tem pós-doutorado em neurociências pela Universidade de Lille/França, é uma das autoras do canal @dezporcentomais, no YouTube. Escreveu este artigo a convite do Blog do Mílton Jung. 

Sobre frases e livros de auto-ajuda

Por José Cascão

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Um amigo comenta com outro: “Faz mais de três meses que estou pagando a academia de ginástica e ainda não emagreci um quilo sequer. Vou ligar lá para saber o que está acontecendo.”

Sempre lembro dessa piada quando vejo a quantidade de livros de auto-ajuda que se publicam e vendem, enquanto boa parte dos leitores, entusiastas do estilo e compradores compulsivos, seguem sendo o que sempre foram, fazendo o que sempre fizeram, mas esperançosas de que um dia acordem e as suas vidas mudem para sempre.

Alguns, quando se cansam de ler (ou de comprar livros), adquirem cursos pela internet e enchem as redes sociais com frases de efeito sobre como a vida deve ser. E, para muitos, a isso se resume o autoconhecimento e a evolução pessoal.

Nada de errado com frases inspiradoras ou livros de auto-ajuda. Também os leio de vez em quando e compartilho pensamentos. Mas, como acontece com o álcool, penso que essas coisas devem ser consumidas e compartilhadas com moderação.

Duas frases que li recentemente e que me deixaram pensando por vários dias, têm relação direta com o que estou falando aqui: “Nada sairá da sua vida enquanto você não aprender o que precisa saber”. Para mim explica muito do por quê entra dia e sai dia e nada diferente acontece na vida da pessoa, parece que está sempre andando em circulo. A outra é: “Ninguém vira borboleta de uma hora para a outra. A evolução é um processo.” Esta é justamente sobre a ilusão de que apenas e simplesmente comprando livros ou reproduzindo posts de frases feitas vamos melhorar as nossas relações e viver de forma mais consciente e significativa.

Se não evoluímos, não é porque não saibamos o que temos de fazer. É porque não o fazemos!

José Cascão é publicitário, diretor de criação, copywriter on-off e ajuda a construir e valorizar o ativo mais importante da sua empresa: a sua marca.