A antítese e a síntese de todas as coisas

Por Simone Domingues

@simonedominguespsicologa

Foto de Life Of Pix

“Medir-se por seu menor feito é calcular o poder

 do oceano pela fragilidade de sua espuma”

Khalil Gibran

Na Grécia Antiga, a dialética era considerada um método de argumentação de ideias opostas com o objetivo de se alcançar a verdade. Atualmente, é considerada o modo de compreendermos a realidade como essencialmente contraditória e em permanente transformação. Sua ideia básica é que toda posição contém sua antítese, ou seja, sua posição oposta.

O filósofo alemão Friedrich Hegel, um dos criadores dos sistemas filosóficos do final do século XVIII e início do século XIX, indicava a importância de se reconhecer a inter-relação entre as partes e das partes com o todo, afirmando que a busca pela verdade seria possível se conseguíssemos ter uma visão do todo, caso contrário, poderíamos atribuir valores exagerados a verdades limitadas.

Outro dia, caminhando na beira da praia, aliás uma das coisas que mais gosto de fazer, fiquei pensando na dialética da natureza: o oceano, com toda a sua potência, vai mudando suas características ao se aproximar da costa, e chega à praia numa ondulação rasteira, num vai e vem constante que se assemelha à uma dança.

Talvez seja mais fácil compreender a dialética na natureza e nas coisas, como dia e noite, som e silêncio… Mais difícil, aceitar que ela também está presente em nós.

Aprendemos muito precocemente que não podemos evidenciar nossas fragilidades. Aprendemos que precisamos mostrar apenas as nossas conquistas, escondendo e mascarando os nossos erros, ou então, seremos vistos como incompetentes. 

Nessa busca polarizada, enfrentar um desafio e errar, ou não conseguir fazer algo, pode gerar um rótulo autoatribuído de que somos falhos, fracassados, inúteis. Isso não se refere apenas a ações, mas em nossa sociedade, parece se estender aos aspectos emocionais. 

Muitas pessoas se sentem inadequadas por experimentarem emoções, como a raiva ou a tristeza, como se existisse um padrão exato do que se pode ou não sentir. 

Como se olhássemos através de lentes de aumento, as situações difíceis parecem nos sequestrar para um olhar enviesado, unilateral, capaz de medir a nossa força justamente quando nos sentimos mais fragilizados. Assumindo uma posição estanque, recusamos o convite da vida para entrarmos em sua dança e nos recolhemos.

Por receio de ser isso ou aquilo? Pois somos isso e aquilo, antíteses somadas, inter-relacionadas, expressas em situações diversas que mudam, se atualizam, se renovam. 

Somos isso, aquilo e o que ainda está por vir!

Talvez em alguns dias você se sinta fraco, quase como uma marola, aquela onda pequena que está na beira da praia. Recorde-se sobre a dialética de todas as coisas. Feche os olhos. Respire fundo. Perceba a ação dos ventos que batem na superfície das águas e mudam as suas direções. Respire fundo novamente. Concentre-se no ir e vir das ondas e lembre-se: mesmo nesses dias, você continua sendo o oceano!

Simone Domingues é psicóloga especialista em neuropsicologia, tem pós-doutorado em neurociências pela Universidade de Lille/França, é uma das autoras do canal @dezporcentomais, no YouTube. Escreveu este artigo a convite do Blog do Mílton Jung. 

Dez Por Cento Mais: o caminho para relações interpessoais e tomada de decisões conscientes

Foto de Pixabay

A tomada de decisões em um mundo marcado pela incerteza é um desafio que se impõe diante de todos nós, seja na vida pessoal seja no âmbito corporativo. Luciano Salamacha, consultor, empresário, mentor de executivos e presidentes, falou ao programa Dez Por Cento Mais, no You Tube, sobre como as emoções desempenham um papel fundamental em nossas escolhas e comportamentos. 

Na entrevista à jornalista Abigail Costa e à psicóloga Simone Domingues, Luciano mergulha na relevância do autoconhecimento e da autogestão. Em sua análise, destaca quatro etapas essenciais para aprimorar nossas interações humanas:

  • Autoconhecimento
  • Autogestão
  • Interrelação
  • Ação.

As seis emoções básicas que precisamos identificar

O consultor ainda detalha as seis emoções básicas – tristeza, raiva, desprezo (ou nojo), medo, surpresa e alegria – e a partir de suas descrições desvenda como essas emoções podem moldar nossa conduta. Por exemplo, ressalta que a tristeza pode nos levar ao isolamento, enquanto outras emoções podem desencadear reações impulsivas.

Além disso, Luciano explora o conceito de controle inibitório e como ele pode facilitar decisões mais ponderadas e sensatas. Ele observa que o autocontrole é uma habilidade valiosa a ser cultivada.

A diferença de decisões instintivas e intuitivas

Na entrevista, com base na experiência que adquiriu orientando grandes executivos nas tomadas de decisão, lembra da importância de discernir entre decisões instintivas e intuitivas. Enfatiza que as decisões instintivas frequentemente estão enraizadas em emoções intensas, resultando em impulsividade, ao passo que as decisões intuitivas buscam um equilíbrio emocional, levando em conta o bem a longo prazo.

No ambiente corporativo, Luciano sublinha a necessidade de manter um equilíbrio entre proximidade nas relações profissionais e a preservação do profissionalismo. O excesso de intimidade, adverte Salamacha, pode comprometer a dinâmica profissional.

Use a razão para promover o bem

Esta entrevista nos oferece uma compreensão profunda da influência das emoções e do autocontrole na tomada de decisões, iluminando o mundo corporativo e as relações pessoais. Luciano Salamacha nos lembra que a razão não deve apenas guiar nossas decisões, mas também ser aplicada de maneira construtiva para promover o bem, tanto em ambientes de trabalho quanto nas esferas pessoais. Ele enfatiza a necessidade de reconhecer e regular nossas emoções ao tomar decisões, impedindo que elas obscureçam nosso discernimento.

Além disso, Salamacha discute a ideia intrigante de que as decisões podem ter diferentes prazos de validade, dependendo das circunstâncias, e ressalta a importância de considerar quem detém o poder de negociação ao determinar o tempo disponível para a tomada de decisão.

Dica 10% Mais

Luciano também compartilha uma valiosa dica: reserve 10% do seu tempo para o silêncio e a reflexão. Ele destaca como o silêncio pode ser uma ferramenta poderosa para encontrar clareza e aprimorar o desempenho, oferecendo um caminho para uma vida mais consciente e relacionamentos mais harmoniosos.

O programa Dez Por Cento Mais apresenta, toda quarta-feira, às 20 horas, uma entrevista inédita com temas como comportamento e saúde mental, no You Tube. 

Assista à entrevista completa com Luciano Salamacha

Mundo Corporativo: André Luis Soares Pereira, empresário e consultor, destaca que a excelência no atendimento é reflexo da felicidade no trabalho

“Uma empresa só funciona bem se todos tiverem consciência do que tem que fazer e estiverem engajados com o propósito da empresa”

André Luis Soares Pereira, empresário

Criar ambientes saudáveis no trabalho é um dos desafios das empresas interessadas em engajar seus funcionários, melhorar a performance dos colaboradores, aumentar a produtividade e gerar novas conexões com os parceiros de negócio. Para André Luis Soares Pereira, fundador do Grupo Soares Pereira, entrevistado no programa Mundo Corporativo, da CBN, apesar de algumas empresas já terem desenvolvido, há algum tempo, práticas nesse sentido, houve uma mudança significativa por influência da pandemia e fica evidente que agora um maior número de organizações revela preocupação em proporcionar um ambiente mais amistoso para seus colaboradores.

A felicidade e o bem-estar no trabalho, porém, não são apenas de responsabilidade da empresa, mas também do indivíduo. André Luis ressalta a importância de cuidarmos da mente, corpo e espírito para garantir um ambiente de trabalho positivo.

“Se você não trabalhar internamente a sua pessoa — mente, corpo e espírito —, você acaba chegando, às vezes, no ambiente de trabalho que, por melhor que ele seja, você não vai dar o resultado, você não vai fazer com que essa esse trabalho seja bem feito”

A Satisfação Profissional nos Resultados de Vendas no Varejo

O Grupo Soares Pereira, fundado em 1995, atua no setor de consultoria e serviços empresariais com a expansão de marcas no segmento de shoppings e franquias. Diante da experiência na área, André Luis lembra que no setor de varejo, onde o contato direto com os clientes é fundamental, a satisfação dos colaboradores desempenha um papel crucial nos resultados de vendas. Ele chama atenção para o fato de a felicidade no trabalho afetar a experiência do cliente.  

“Você ter um produto bom é obrigatório, hoje. Não adianta você entrar na concorrência, se você não tem um produto satisfatório. Então, para você poder oferecer e se diferenciar no mercado tem que ter cada vez mais uma excelência no atendimento e essa excelência do atendimento é reflexo da de você ser feliz do trabalho”.

Fatores que Influenciam o Bem-Estar no Trabalho

Pesquisa realizada pela consultoria Robert Half, no Brasil, neste ano, mostra que 89% das companhias reconhecem que bons resultados estão diretamente ligados à motivação e à felicidade dos colaboradores. E existem cinco principais fatores que promovem esse sentimento:  

Gostar muito da profissão (69%)  

Bom equilíbrio entre vida pessoal e profissional (62%)  

Ser tratado com igualdade e respeito (58%)  

Sentir orgulho da organização (53%) 

Sentir-se realizado com o trabalho (51%) 

Como se percebe, a maior parte desses argumentos que geram satisfação está relacionada à sintonia entre o propósito das empresas e dos seus funcionários. André Luiz enfatiza a necessidade de uma comunicação interna eficaz e como o entendimento do propósito da empresa é fundamental para inspirar e engajar a equipe. Ele salienta a necessidade de se estabelecer claramente a missão, visão e valores da organização:

“Todo mundo precisa de dinheiro. A gente precisa vender, a gente precisa ter resultado. Mas se a gente focar só no resultado e não pensar na estrutura como um todo, você não vai chegar nesse resultado, entendeu? Então, são coisas que tem que caminhar juntas e a gente aqui faz muita questão de pregar isso diariamente no nosso cotidiano”. 

Identificando Problemas de Saúde Mental no Trabalho 

André Luis reconhece que o mercado de trabalho pode ser uma fonte de problemas de saúde mental, como burnout, ansiedade e depressão. Ele enfatiza a importância de se administrar a carga de trabalho e dar pausas quando necessário para evitar sobrecarregar os funcionários. Para isso é preciso estar muito atento ao comportamento das pessoas e aberto a ouvi-las. Por isso, ao discutir os erros comuns na gestão de empresas, André Luis aponta os papeis da liderança eficaz, comunicação transparente e valorização da equipe. Ele alerta contra líderes que não dão feedback ou que focam apenas em seus próprios interesses, destacando a necessidade de um ambiente colaborativo.

Flexibilidade no Ambiente de Trabalho

A flexibilidade no ambiente de trabalho precisa ser debatida internamente, a medida que pesquisas demonstram que esse é um fator relevante para os funcionários. No Grupo Soares Pereira, após a pandemia, os colaboradores retornaram ao trabalho presencial, ao passo que a maioria dos clientes prefere um contato direto. Porém, André Luis diz que há casos e situações específicas em que o ideal é que o funcionário possa trabalhar em casa. Deu o exemplo de uma colega que está grávida e se sentia mais confortável no home-office neste momento.

Investimento em Treinamento e Desenvolvimento

A criação de uma escola de negócios é um dos investimentos do Grupo Soares Pereira para o desenvolvimento contínuo dos colaboradores. André Luiz ressalta a importância do treinamento para o sucesso da empresa.

“A gente tem filosofia de treinar, treinar e treinar. Se você não treinar as pessoas você nunca evolui, você nunca melhora os resultados”

André Luiz recomenda os líderes empresariais a fazerem o que se ama, a manter atitude, entusiasmo, movimento e vibração para promover a felicidade no ambiente de trabalho. 

Assista ao vídeo completo do Mundo Corporativo que tem as colaborações de Renato Barcellos, Letícia Valente, Priscila Gubiotti, Débora Gonçalves e Rafael Furugen:

Dez Por Cento Mais: na prevenção ao suicídio, a conversa que importa

A sociedade está passando por mudanças rápidas e os adolescentes enfrentam uma montanha-russa de desafios emocionais. Estamos em uma era de constantes conexões digitais, pressões acadêmicas e sociais, e uma exposição sem precedentes a informações e estímulos. Mas, ao mesmo tempo, testemunhamos uma mudança positiva: o aumento das conversas sobre saúde mental e a prevenção ao suicídio

A Dra. Nina Ferreira, médica psiquiatra, colaboradora deste blog, foi entrevistada no programa Dez Por Cento Mais, no YouTube, quando falou do Setembro Amarelo, mês dedicado a prevenção ao suicídio. Na conversa mediada pela jornalista Abigail Costa e a psicóloga Simone Domingues, que também escrevem aqui no blog, os desafios enfrentados pelos adolescentes foi um dos destaques.

A necessidade de uma abordagem empática

É crucial adotar uma abordagem empática ao lidar com adolescentes e suas famílias, de acordo com Nina Ferreira, que é especialista em terapia do esquema, neurociências e neuropsicologia. Para ela, compreender as necessidades emocionais, oferecer apoio genuíno e fornecer orientação apropriada são passos fundamentais na promoção da saúde mental dos jovens.

Um ponto essencial destacado na entrevista é que desafios emocionais fazem parte da jornada de todos nós. Sofrimento e incertezas são sentimentos comuns, e buscar ajuda profissional não é sinal de fraqueza, mas de coragem e responsabilidade consigo mesmo.

A responsabilidade pela saúde mental é compartilhada

A importância da família e da comunidade também foi ressaltada. A base de apoio fornecida por entes queridos e pela comunidade desempenha um papel vital na saúde mental dos adolescentes. A comunicação aberta, o respeito pelas emoções dos jovens e o compartilhamento de preocupações são cruciais.

Além disso, devemos lembrar que a responsabilidade pela saúde mental não recai apenas sobre os ombros dos profissionais de saúde mental. É uma responsabilidade compartilhada que abrange toda a sociedade. Todos nós temos um papel a desempenhar na construção de uma cultura de apoio.

É preciso criar uma cultura de apoio

Outro ponto importante é a necessidade de criar um ambiente em que os adolescentes se sintam à vontade para falar sobre suas emoções e buscar ajuda quando necessário. Conversas sobre saúde mental devem ser encorajadas, e o estigma associado a esses tópicos deve ser superado.

Na entrevista, a Dra. Nina Ferreira destacou a importância da comunicação. Na dúvida, devemos falar sobre questões relacionadas à saúde mental. A comunicação é a ponte que nos liga aos outros, e é fundamental para compreender e apoiar aqueles que estão passando por momentos difíceis.

Busque tratamento adequado

Histórias de superação e recuperação também foram compartilhadas pelas pessoas que assistiram ao programa, ao vivo. Elas nos lembram de que, com a ajuda adequada, é possível encontrar esperança e melhorar a qualidade de vida. Ter uma rede de apoio composta por amigos, familiares e profissionais de saúde é uma parte fundamental desse processo.

Prevenir problemas de saúde mental e buscar tratamento adequado quando necessário são aspectos vitais de nossa jornada. A Dra. Nina enfatizou que a saúde mental é a base para a saúde como um todo, e cuidar de nossa mente é essencial para uma vida plena e saudável. 

Sugestões para falar sobre suicídio 

  • Seja empático e compreensivo.
  • Evite julgamentos ou culpabilização.
  • Ofereça apoio e solidariedade.
  • Reforce que o suicídio é uma doença que pode ser tratada.
  • Incentive a pessoa a procurar ajuda profissional. 

Se você está pensando em suicídio, procure ajuda imediatamente.

Ligue para o CVV no telefone 188 ou acesse o site do Centro de Valorização da Vida

Assista aqui à entrevista completa com a Dra Nina Ferreira. O programa Dez Por Cento Mais, apresentado por Abigail Costa e Simone Domingues, vai ao ar, todas às quartas-feiras, oito horas da noite, ao vivo, no YouTube:

Uma foto antes de comer: entre o apetite e a aprovação social

Por Mia Codegeist

Mia saiu de férias e ficou impressionado com a quantidade de pessoas que antes de saborear o prato no restaurante, saca o celular e publica a foto nas redes sociais. Assim que voltou ao Brasil, pediu ajuda à IA para refletir sobre esse comportamento humano.

Imagem produzida no Dall-E 2

Desde os tempos antigos, a humanidade é fascinada pela estética da comida. Comer com os olhos não é algo novo. Como Brillat-Savarin já escreveu em 1825: “o descobrimento de um novo prato faz mais pela felicidade da humanidade do que o descobrimento de uma estrela”. Essa é uma afirmação que ressoa até hoje. No entanto, o advento das redes sociais digitalizou esse apetite visual.

A comida deixou de ser apenas uma necessidade física e tornou-se também um instrumento de expressão, uma forma de identidade e, inegavelmente, uma busca insaciável por validação. Quem nunca se deparou com um feed do Instagram repleto de pratos coloridos, sobremesas opulentas e copos de café artístico? A verdade é que a fotografia gastronômica tornou-se um fenômeno cultural. Mas, por que essa obsessão em documentar o que comemos?

Primeiramente, temos de admitir: somos criaturas visuais. Desde os tempos primordiais, somos atraídos por cores e formas que indicam a promessa de sabor e nutrição. O prazer estético associado à comida não é novidade; ele remonta a festins renascentistas e pinturas barrocas. No entanto, o ato de fotografar a comida é uma maneira moderna de expressar essa apreciação.

Contudo, há uma camada mais profunda nessa prática. Com a revolução das redes sociais, cada indivíduo pode agora projetar uma versão idealizada de si mesmo para o mundo. Cada foto de comida compartilhada torna-se um testemunho de um estilo de vida, uma escolha, uma identidade. “Olhe para mim”, diz a imagem, “Eu valorizo a boa comida”, ou “Eu sei como viver bem”. Assim, o ato de fotografar e compartilhar não é apenas sobre comida, mas sobre projeção de status e pertencimento.

Além disso, o imediatismo e a temporalidade das redes sociais intensificam o desejo de capturar momentos. A comida, em sua natureza efêmera, torna-se o símbolo perfeito para esse carpe diem digital. Não importa se a refeição foi verdadeiramente saborosa, o que importa é o impacto visual e a reação instantânea que ela pode gerar.

Contudo, essa incessante busca por validação através da fotografia gastronômica traz consigo um lado sombrio. Ela pode desviar a atenção do verdadeiro propósito da comida: nutrição, prazer e comunhão. Em vez de saborear o momento e a companhia, estamos muitas vezes mais preocupados em como a refeição vai aparecer online.

Em suma, o fenômeno de tirar fotos de pratos de comida é uma complexa mistura de estética, expressão de identidade e busca por aprovação. Enquanto não há nada inerentemente errado em querer documentar e compartilhar as alegrias da vida, é essencial refletirmos sobre nossas motivações e nos perguntarmos: estamos realmente saboreando nossas refeições ou apenas consumindo-as para o apetite insaciável das redes sociais?

Mia Codegeist é autor que abusa da inteligência artificial para compartilhar conhecimento sobre temas relevantes à sociedade. E se satisfaz vendo fotos de pratos de comida nas redes sociais.

O peso do que não existe

Por Nina Ferreira

@psiquiatrialeve

Carregar o que não é verdadeiro… pesa.

Dizer que adora rock, quando se gosta é de pop.

Usar roupas coladas no corpo, quando se gosta é de moletom.

Comer salmão, quando se gosta é de frango frito e linguiça calabresa.

O que não existe é chato de manter – as aparências podem até reluzir, mas são ocas e pesadas, te deixam vazio e te inundam de angústia… Nunca está bom o suficiente!

O que não é seu, mas você se propõe a carregar e expor na sua vitrine, te rouba horas e dias preciosos de vida. É tanta preocupação e esforço para manter… que cansa. Vida chata. Quando isso vai acabar mesmo?

Pode acabar agora.

Olha aí dentro e me diz: o que realmente é seu?

Quais ideias você que pensou? Quais gostos foi você que descobriu que tem? Quais sonhos e ambições fazem seu coração se encher de alegria?

Pronto – isso existe. Tudo isso é seu e, portanto, é mais leve. Não existe esforço em construir e manter – existe entusiasmo, persistência, coragem… verdade pura que te move para frente e pra cima!

Esquece o que não existe, para de carregar peso que não é seu.

Para de carregar o peso da aparência.

Viva o que, realmente, existe em você – viva feliz e leve.

Dra. Nina Ferreira (@psiquiatrialeve) é médica psiquiatra, especialista em terapia do esquema, neurociências e neuropsicologia. Escreve este artigo a convite do jornalista Mílton Jung.

Quem cuidará de nós?

Por Diego Felix Miguel

Foto de Georgy Druzhinin

Quantas vezes tivemos a oportunidade de refletir sobre como estamos envelhecendo? Ou ainda, sobre as condições que teremos na velhice? E aqui tomo a liberdade de problematizar um pouco mais, em não limitar essa reflexão a uma visão estritamente biológica.

Com quem chegaremos na velhice e será que essa ou essas pessoas estarão dispostas ou terão condições de cuidar de nós em caso de necessidade?

O aumento da expectativa de vida é uma conquista e talvez a maior evidência do quanto crescemos cientificamente e em estruturas socioculturais que foram fundamentais para a longevidade.

Relações e cuidados na velhice

Muitas mudanças aconteceram nos últimos anos e não necessariamente foram ruins, muito pelo contrário, comprovam que evoluímos e questionamos condicionamentos que reforçam a desigualdade nas relações de poder, o preconceito e a discriminação. 

As novas composições familiares que não atendem um padrão tradicional e heterossexual, o ingresso da mulher no mercado de trabalho, a migração dos filhos motivados por novas oportunidades de trabalho e estudo, são apenas alguns exemplos desse novo contexto social, que torna diferente o olhar e a vivência sobre o cuidado na velhice. 

Desigualdade social na velhice

Infelizmente, no Brasil, não conseguimos resolver um problema que nos submete a um cenário de insegurança e vulnerabilidade: a desigualdade social; aspecto que nos últimos anos têm preocupado a Organização Pan-americana de Saúde, por considerar que na velhice podem surgir demandas complexas que necessitem de cuidados de longa duração, seja em âmbito domiciliar, em serviços de saúde ou de assistência social.

Os cuidados de longa duração, de modo geral, são os cuidados que demandam uma atenção especializada ou de auxílio de outras pessoas – em caráter de cuidadores, atuando no controle de doenças crônicas, reabilitação, residência e demais assistências que garantam a independência, a autonomia e uma maior qualidade de vida na velhice.

Políticas públicas e família

Por outro lado, políticas públicas com foco nos cuidados de longa duração caminham lentamente, e muitas vezes, com discursos que reforçam uma ideia pejorativa sobre os serviços, atribuindo à família a responsabilidade do cuidado, desconsiderando sua composição, a intensidade das relações e os vínculos afetivos constituídos ao longo da vida entre seus membros. Como mencionado na Constituição Cidadã de 1988:

“Art. 229. Os pais têm o dever de assistir, criar e educar os filhos menores,

e os filhos maiores têm o dever de ajudar

e amparar os pais na velhice, carência ou enfermidade.

Art. 230. A família, a sociedade e o Estado têm o dever de

amparar as pessoas idosas, assegurando sua participação

na comunidade, defendendo sua dignidade e

bem-estar e garantindo-lhes o direito à vida.

§ 1o Os programas de amparo aos idosos

serão executados preferencialmente em seus lares.”

Cuidados de longa duração

Um exemplo disso são as Instituições de Longa Permanência para Idosos (ILPI) – que antes eram conhecidas por “asilos”, e que trazem em sua história um estigma associado ao abandono, pobreza, solidão e incapacidade.

Além dos aspectos culturais que nos distanciam desses serviços, ainda nos deparamos com fatores econômicos, pois são serviços caros por demandarem um cuidado especializado.

No Mapa das ILPI do Ministério Público de São Paulo, consta que existem cerca de 2257 instituições no estado de São Paulo que acolhem aproximadamente 42 mil pessoas idosas, porém somente 498 dessas instituições são filantrópicas – a maioria de caráter religioso e 48 instituições são públicas.

Desafios do cuidado domiciliar

Ao pensarmos no cuidado da pessoa idosa em casa, também enfrentamos outros desafios, e neste sentido, darei ênfase a dois deles: como estamos vivendo mais, já é uma realidade conhecermos pessoas idosas que cuidam de outras pessoas idosas. Sejam cônjuge ou filhos que cuidam de pais – e vice e versa. Sabemos que há poucas estruturas de apoio para essas pessoas, que muitas vezes sofrem por sobrecarga de atividades e estresse.

Por outro lado, aumentaram significativamente empresas e profissionais que se dedicam ao cuidado de pessoas idosas, porém além de envolver um custo que muitas famílias não possuem condições de arcar, ainda não há a regulamentação dessa profissão, assim como, uma estrutura formal mínima pedagógica que padronizem a formação profissional.

Nos últimos anos, as questões relacionadas ao cuidado a pessoas dependentes, principalmente de pessoas idosas, estão tomando uma maior notoriedade pública, muitas dessas, que emergiram em decorrência da pandemia de covid-19 onde revelou o Brasil como um país idadista, que não valoriza as pessoas mais velhas, em especial, as que demandam de cuidados de longa duração e que vivem em ILPI, que, ainda estão invisíveis paras as políticas públicas brasileiras, conforme aponta a Carta-manifesto “Quem vai cuidar de nós quando envelhecermos?”, lançada em maio de 2023, em menção ao Decreto nº 11.460 de 30 de março de 2023, que instituiu o Grupo de Trabalho Interministerial com o objetivo de elaborar a Política Nacional de Cuidados e o Plano Nacional de Cuidados, onde, de acordo com governo, serão consideradas as desigualdades sociais, com recortes relacionados a raça e classe social.

Engajamento e futuro da velhice

Pensar sobre quem cuidará de nós, caso tenhamos essa necessidade em algum momento da vida, é fundamental, assim como, nos engajarmos politicamente, enquanto sociedade civil, para garantir que num futuro próximo, possamos vivenciar a velhice de uma forma digna, com acesso garantido aos cuidados especializados.

Diego Miguel é especialista em Gerontologia pela Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG) e membro da Diretoria da SBGG-SP, mestre em Filosofia e doutorando em Saúde Pública pela Universidade de São Paulo

Hoje o tempo voa, amore!

Por Abigal Costa

@abigailcosta

Foto de Isabella Mendes

Quantos papeis você já interpretou na vida desde o seu nascimento? Quem foi você nesses anos todos? 

Um ou vários personagens?

Se às vezes você pensa “quando eu era criança agia de tal modo”, ou “na adolescência gostava de certas músicas”, ou, ainda, “agora como adulta tenho mais obrigações”, de certa maneira está reproduzindo a ideia de  William Shakespeare que em ‘As you like it’ refere-se as sete idades do homem. Na peça que foi publicada em português com o título “Como gostais”, ele se refere ao mundo como um grande palco e a todos nós como atores que têm hora certa para entrar e sair de cena em sua trajetória de vida, começando pela criança. 

Shakespeare me faz pensar em quantos de nós paramos em um determinado personagem e dele resistimos em sair. Quantos não repetimos a mesma cena, a mesma fala e de forma mecânica? É como se os anos passassem apenas no calendário e não para o sujeito.

Se é certo que nós nos transformamos a cada acontecimento, como caber nas mesmas roupas, nas mesmas ideias, nos mesmos hábitos de criança quando a gente já tem CPF, carteira de habilitação e, muitas vezes, já trocamos a certidão de nascimento pela de casamento. Já funcionamos no modo “Pais” e esquecemos de trocar o figurino.

Dia desses conversando com uma amiga falei da morte como sequência natural para que o palco da vida seja ocupado por novos talentos. Até agora não sei qual a interpretação dela a respeito. Depois da minha fala  tão eloquente fiquei até sem graça em perguntar: e aí o que você pensa a respeito disso? 

De volta a troca natural de papeis e a relação com Shakespeare. O que fica para gente é a necessidade de viver cada personagem como ele é, único e efêmero, embora alguns pensem ao contrário. É saber saborear as transições como rito de passagem para o novo, não como perdas. 

Em “As you like it”, Shakespeare dá luz a reflexão da passagem do tempo e da urgência em aproveitarmos esse tempo vivendo em seus personagens adequados, justos. 

“Agora são dez horas e você pode ver como o mundo oscila; há uma hora em nove, dentro de uma hora serão onze; a cada hora que passa nós amadurecemos; a cada hora apodrecemos; nisso há toda uma história.”

Vamos lá! Pra que você não saia dessa conversa pensando que “nossa, a Big pegou pesado na relação tempo-vida”, vamos trazer o poeta Lulu Santos pra deixar o final mais leve:

“… Hoje o tempo voa, amor 

Escorre pelas mãos

Mesmo sem se sentir

Não há tempo que volte, amor

Vamos viver tudo que há pra viver

Vamos nos permitir”. 

Em outras palavras, Lulu e Bardo dizem a mesma coisa: tua vida está passando! 

Quantos personagens mesmo você ja interpretou até aqui?

Abigail Costa é jornalista, apresenta o programa Dez Por Cento Mais no YouTube, tem MBA em Gestão de Luxo, é estudante de Psicologia na FMU, faz pós-graduação em Gerontologia, no Hospital Albert Einstein e especialização na Escola Paulista de Psicodrama, e escreve como colaboradora a convite do Blog do Mílton Jung.

Existir significa escolher

Por Abigail Costa

@abigailcosta

Estou naquele momento em que começo a pensar no rumo da minha vida. Estou perto de deixar a carreira de estudante para virar “gente grande” — como se grande já não fosse desde muito tempo — e colocar em prática o que aprendi nos últimos anos. 

Há quatro anos, quando entrei para o curso de psicologia foi só uma maneira que encontrei para dar um sentido para a minha vida, de certa forma de voltar a me importar comigo mesmo. Como? Lendo, escrevendo, fazendo novos relacionamentos e ganhando um tiquinho a mais de ansiedade. Hoje, mais amadurecida, percebo como tendo sido um fato normal na minha história.

Nesse tempo todo, ouvi muitas pessoas me perguntando: “e aí vai trabalhar depois?”. Pergunta que não me deixava sem resposta. E nunca escondi minhas intenções atrás de palavras objetivas como: “veja bem, quero atender clientes XYZ sob a abordagem XPTO, num consultório localizado na zona tal”. Nada disso!. 

Não foi preciso pensar muito. Era coisa decidida comigo mesmo. A resposta vinha de bate pronto: me interessa o caminho, a jornada, as pessoas que estou encontrando pela frente e ainda, o que uma graduação está me acrescentando aos 56, 57, 58, 59 anos de idade. 

Assim fui passando pelos semestres e sigo neles aprendendo, me encantando e me desafiando. Até que chega os primeiros dias do último ano e me vem à cabeça uma frase dita por um professor no inocente propósito de agradar: ”olhem para vocês, já perceberam que estão mais perto do fim? “. Professor eu não precisava disso! 

Não é que agora dei pra fazer contas ?!? Último ano, mais dois semestres de quatro meses cada um —  sim, tirando férias e afins dá isso —, mais alguns estágios supervisionados e chegarei ao fim. E lá vem nova pergunta: “está flertando com alguma abordagem psicológica?”. 

Quem pergunta sempre espera algo objetivo —- foi o que aprendi em décadas de jornalismo realizado. Quer algo como “vou seguir a TCC — Terapia Cognitivo Comportamental”, “quero a Humanista numa linha mais Existencialista”,  ou “veja bem, a psicanálise é uma quase dezena de outras tantas vertentes de teorias e técnicas aplicadas nas psicoterapias”. Diante da pergunta, fato é que de repente soltei uma fala qualquer só para me livrar da questão e me enfiar em questionamentos próprios que até então não faziam parte da minha rotina de pensamentos.

Qual o sentido que vou dar para a minha vida daqui a pouco quando eu não estiver mais no meu papel de estudante? Sei que logo mais entro num capítulo de escolhas, e estas provavelmente me trarão angústia. Para isso já comecei fazendo amizades com aqueles que me darão uma força com suas obras. Caso do filósofo dinamarquês Sören Kierkegaard (1813-1855): ele diz que escolher implica em renunciar, e que ser livre é vivenciar essa tensão.  

Kierkegaard #tamujunto !

Abigail Costa é jornalista, apresenta o programa Dez Por Cento Mais no YouTube, tem MBA em Gestão de Luxo, é estudante de Psicologia na FMU, faz pós-graduação em Gerontologia, no Hospital Albert Einstein, e escreve como colaboradora a convite do Blog do Mílton Jung.

Fora-da-Lei

Dra. Nina Ferreira

@psiquiatrialeve

Photo by Andre Furtado on Pexels.com

Quer conhecer o verdadeiro caminho da sua felicidade?

Seja Fora-da-Lei. Corra das Leis Sociais.

“Tem que tirar carteira de motorista aos 18”;

“Tem que ter casa própria”;

“Tem que casar e viajar de lua de mel”;

“Tem que ter o primeiro filho antes dos 30, e engatar o segundo logo – porque não é bom ter um filho só”;

“Tem que subir de cargo na empresa”;

“Tem que juntar dinheiro pra aposentadoria”;

“Tem que viajar 1 vez por ano porque isso é curtir a vida”…

Nossa, quanta lei, quanta regra! Quando isso acaba???

A resposta é: nunca.

A sociedade humana adora criar ideias do que é certo e errado e todo mundo se sente pressionado a seguir porque… “Vai que me criticam? O que vão falar de mim? E se todo mundo me odiar e me abandonar?”

Entre na onda das Leis Sociais e pronto – sua felicidade acabou.

Tem como ser feliz fazendo coisas que você nem sabe se gosta nem sabe se vai conseguir e se sente pressionado o tempo todo pra fazer? Quem consegue ser feliz assim?

Seja Fora-da-Lei.

Dirija carros ou não; compre uma casa ou não; tenha filhos ou não…

Antes de fazer qualquer coisa, pare e pense: “Por que vou fazer isso? O que vou ganhar? Vale a pena o esforço, a dedicação, o tempo de vida?”

Quebre as Leis Sociais.

Crie suas próprias Leis.

Eu, do alto do poder sobre minha própria vida, determino que minhas Leis são: … (preencha como quiser, como gostar, como fizer sentido pra você – use sua liberdade)”

Seja Fora-da-Lei.

Seja Dentro-das-Suas-Leis.

Seja, verdadeiramente, você;

seja, verdadeiramente, feliz

Dra. Nina Ferreira (@psiquiatrialeve) é médica psiquiatra, especialista em terapia do esquema, neurociências e neuropsicologia. Escreve este artigo a convite do jornalista Mílton Jung