“É claro que me viro sozinho, sou o filho gay”

Diego Felix Miguel

Imagem criada no Dall-E

Nos últimos tempos, uma frase específica tem circulado nas redes sociais, sempre acompanhada de vídeos leves e irônicos de homens gays realizando tarefas cotidianas: “É claro que me viro sozinho, sou o filho gay”. À primeira vista, o tom humorístico parece inofensivo, mas para muitos da minha geração, essa frase carrega um peso histórico e emocional que não pode ser ignorado.

Para as novas gerações, talvez essa expressão de autossuficiência tenha ganhado um novo significado, marcado por maior aceitação e liberdade para construir identidades dissidentes. No entanto, para aqueles que cresceram antes dos anos 2.000, a realidade foi – e ainda é – muito mais complexa. Longe de querer generalizar, é claro que existem diferentes configurações familiares e sociais que podem ter permitido uma vivência mais leve e acolhedora para algumas pessoas LGBT. Mas a verdade é que, para a maioria, a jornada foi (e é) marcada por iniquidades, exclusão e desafios que não são facilmente superados.

Dizer que “me viro sozinho” pode soar como um motivo de orgulho para quem observa de fora, e talvez até para aqueles que internalizaram a resiliência como forma de sobrevivência. Mas a verdade é que, por trás dessa aparente força, existe um preço alto a ser pago. Um preço que envolve a solidão, a ausência de redes de apoio e o constante esforço para se adequar a padrões normativos que oferecem apenas uma falsa sensação de segurança.

Parece fácil, quando visto da poltrona do privilégio.

Para quem nunca precisou se esconder, suprimir quem realmente é, ou lutar por aceitação dentro de sua própria família, talvez seja difícil entender a profundidade desse sofrimento. Construir uma identidade que se alinhe às expectativas sociais pode até proporcionar algum conforto temporário, mas a que custo? Para muitos de nós, a vida foi uma constante batalha para manter distância da violência, da discriminação e das estruturas que perpetuam a desigualdade.

A consequência disso é evidente nos alarmantes índices de depressão, ansiedade e até suicídio entre a população LGBT, especialmente entre aqueles que não encontram acolhimento e suporte social adequados. A falta de políticas públicas específicas, somada à incapacidade de muitos profissionais de saúde e assistência social em lidar com a diversidade sexual e de gênero, agrava ainda mais essa realidade. Mesmo que esses números sejam subnotificados, eles revelam uma ferida social que precisa ser urgentemente tratada.

Resistência e resiliência: até que ficamos bons nisso!

Mas será mesmo?

Envelhecer sob a constante necessidade de resistência e autossuficiência é desgastante e, no fim, doentio. Essa autocobrança para ser independente o tempo todo, para manter-se distante da violência e alcançar alguma forma de aceitação familiar ou social, pode se estender por toda uma vida. E a quem recorrer, se até a família sanguínea muitas vezes se torna uma ameaça?

Que tipo de velhice estamos construindo quando percorremos um caminho marcado por iniquidade, violência e solidão?

Não pretendo generalizar, caro leitor e cara leitora, mas ao observar a população idosa LGBT, especialmente as pessoas mais pobres, percebo como elas estão sendo empurradas para as margens das políticas públicas. Aqueles que, ao longo da vida, tiveram menos acesso à educação e ao trabalho formal em condições seguras e acolhedoras, agora enfrentam uma velhice ainda mais vulnerável e invisibilizada, com agravos na saúde, sem garantia de aposentadoria, sem um lar confortável e uma rede de suporte social fragilizada.

E para essas pessoas, espera-se que continuem carregando o peso da frase que nomeia este texto: “É claro que esperam que eu me vire sozinho, sou o velho gay”.

Diego Felix Miguel é especialista em Gerontologia pela Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia e presidente do Depto. de Gerontologia da SBGG-SP, mestre em Filosofia e doutorando em Saúde Pública pela USP. Escreve este artigo a convite do Blog do Mílton Jung.

Até onde ir?

Dra. Nina Ferreira

@psiquiatrialeve

Encruzilhadas. Existem situações na vida que nos colocam em uma dúvida angustiante: fazer ou não fazer?

Existem situações na vida que testam nossas certezas. Para conseguir mais destaque, mais elogios, mais dinheiro, mais poder… até onde ir?

A pergunta é difícil porque a resposta certa não foi pré-definida por ninguém até hoje.

Quando limites são colocados, consequentemente existem perdas. Perda do contato de alguém importante para a carreira; perda do afeto de um amigo ou familiar; perda de uma chance de ganhar mais dinheiro ou fazer mais sucesso.

E o que você está disposto a perder para manter sua fidelidade a você mesmo?

Viver para agradar aos outros ou para ser bem visto e elogiado pela sociedade costuma ser um buraco sem fim. Queremos entrar nesse buraco? Queremos viver nesse buraco?

As sensações que temos no dia a dia – alegria, angústia, saudade, tristeza, raiva, serenidade, cansaço, bem-estar – dependem dessa decisão: escolher que vida quer viver e ter coragem de fazer acontecer.

Até onde ir? Até onde fizer sentido pra você. Até onde você entender que vale a pena, que te ajuda a construir uma vida boa de viver.

Ultrapassar esses limites cobra um preço pesado, destruidor, caro. Ultrapassar esses limites nos joga no tal buraco sem fim – escuro e cada vez mais profundo e difícil de sair.

Cuide por onde anda. Ande até onde for saudável para você.

A Dra. Nina Ferreira (@psiquiatrialeve) é médica psiquiatra, especialista em terapia do esquema, neurociências e neuropsicologia.

Nunca estamos prontos

Dra. Nina Ferreira

@psiquiatrialeve

Foto de Mabel Ambert

Nascemos. Aprendemos a nos alimentar, a andar, a falar. Vamos pra escola para aprender a ler e a escrever; depois, aprender a fazer contas de matemática, entender sobre a história das civilizações, conhecer mais sobre a natureza e o corpo humano…

Desde que nascemos, precisamos aprender algo novo para sobreviver e existir no mundo.

E, o mais desafiador: precisamos aprender a ser um ser humano.

Como vencer o medo e a preguiça?! Como tolerar a frustração e o desconforto?! Como lidar com as dores profundas que vêm e passam e voltam… estão, insistentemente, sempre à espreita?!

A gente cai o tempo todo e tem que reaprender – como levanto dessa, como volto a caminhar?

A gente acredita que “agora vai” e, de repente, se sente perdido e confuso: “Vou pra onde? E se der errado?”

Parece um treinamento eterno. Quando parece que chegamos onde precisávamos, aparece outro problema, uma novidade, um desafio… E lá vamos nós de novo: aprender.

Então, quando acaba? Quando poderemos dizer: “Agora sim – já passei por muita coisa, tenho bagagem, sei tudo o que preciso e terei uma vida em paz.”?

Quando ficamos prontos?

“Ficar pronto” é concluir, é não precisar mais evoluir ou acrescentar, é chegar ao ápice do seu potencial. Um bolo fica pronto quando todas as etapas da receitas foram concluídas. Um carro fica pronto quando todas as estruturas foram agregadas e ele funciona para nos transportar. E uma pessoa… quando “fica pronta”?

Do pouco que sabemos e percebemos… Não fica. Nenhum de nós sabe até onde um ser humano é capaz de chegar. Não sabemos todo o potencial que um ser humano precisa e pode atingir.

Então, pelo menos por hora, esqueçamos o tal “ficar pronto”. Vamos fazendo, aprendendo, desconstruindo pra reconstruir melhor, caindo e levantando e caminhando e vivendo…

Ao invés de “ficar prontos”, vamos “estando em construção”. Vamos nos dedicar a estar presentes no dia de hoje, no momento do agora, e fazer o que sentimos ser possível, necessário, impactante.

Nosso objetivo, portanto, não será “chegar lá” – esse “lá” que nem sabemos onde é. Nosso objetivo, portanto, é existir, experienciar, desenvolver habilidades, vivenciar a chance de estar aqui, agora.

Não estamos nem estaremos prontos… Atenção: somos seres humanos em obra, em construção.

Dra. Nina Ferreira (@psiquiatrialeve) é médica psiquiatra, especialista em terapia do esquema, neurociências e neuropsicologia. Escreve a convite do Blog do Mílton Jung.

Dia do Solteiro: um casado se metendo onde não é chamado

Foto: Pexels

Neste 15 de agosto em que se comemora o Dia do Solteiro, aqui no Brasil, me pego refletindo sobre um marco pessoal: com 61 anos completados recentemente, já vivi mais tempo casado do que solteiro. E isso me faz pensar: será que ainda tenho a habilidade de falar sobre a vida dos solteiros, ou perdi essa “licença poética” ao adotar de vez a camiseta dos comprometidos?

Lembro-me em parte de quando era solteiro, tempos em que a vida parecia uma mistura de liberdade e busca constante. Liberdade para sair a hora que quisesse, viajar sem planejar muito, tomar decisões sem precisar consultar ninguém. Mas a busca – e como ela podia ser exaustiva! Nos bares, nas festas, nos eventos sociais. Sempre à procura daquela conexão que fosse além da superficialidade.

Hoje, a tecnologia tornou tudo isso diferente. O que antes demandava esforço e presença física, agora cabe na palma da mão. Aplicativos, redes sociais, um mundo de possibilidades ao alcance de um deslize do dedo. Será que essa facilidade compensa? Fico me perguntando se, ao reduzir as interações a cliques e likes, não estamos perdendo algo essencial. A conversa que flui, o olhar que diz mais do que palavras, o toque que reforça a conexão – será que isso tudo se preserva no mundo digital?

Os números me surpreendem. O Brasil, com seus 81 milhões de solteiros, superando os 63 milhões de casados. Um fenômeno global, dizem. E nas redes sociais, o que já foi um assunto pessoal, quase íntimo, virou tema de conversa aberta. Leio na newsletter Cartograma que a Statista detectou um aumento de 4.000% nas discussões sobre relacionamentos entre 2022 e 2023. Parece que todo mundo tem algo a dizer sobre estar ou não estar em um relacionamento. Aliás, cá estou eu a dar palpite neste assunto.

Apesar de aparentemente não ter lugar de fala no tema em questão, vamos aos fatos. E fatos científicos. Estudos mostram que o estado civil impacta diretamente na saúde física e mental. Pessoas casadas tendem a apresentar melhores indicadores de saúde física e mental comparadas aos solteiros, mas isso depende muito da qualidade do casamento. Um estudo publicado no *Journal of Marriage and Family* revelou que pessoas em casamentos saudáveis relatam menos depressão e maior satisfação com a vida. Contudo, em casamentos disfuncionais, esses benefícios desaparecem, tornando os efeitos tão negativos quanto estar solteiro.

Por outro lado, solteiros frequentemente possuem uma rede social mais ativa, o que contribui para uma maior sensação de liberdade e autonomia. Eles também tendem a buscar novas experiências e a investir mais em suas habilidades pessoais. A tecnologia, ao facilitar as conexões iniciais, pode não substituir a profundidade de um relacionamento, mas certamente redefine as regras do jogo.

Uma vantagem inegável de estar casado é não ser alvo de certos preconceitos que os solteiros enfrentam. Frases como “Você é tão bonito, por que ainda está solteiro?” ou “Não vai arrumar ninguém?” continuam a incomodar e reforçar estigmas. Essas perguntas podem gerar desconforto e sugerir que estar solteiro é uma condição transitória ou indesejável, o que nem sempre é o caso.

Sem sequer ser capaz de descobrir por que no Brasil se comemora o Dia do Solteiro em 15 de agosto — na China é 11 de novembro e já se transformou em um sucesso comercial, enquanto nos Estados Unidos é em 15 de fevereiro —, sigo minha jornada, refletindo que, no fim das contas, seja casado ou solteiro, o que realmente importa é estar em paz consigo mesmo. A verdadeira realização vem de uma conexão genuína com quem somos, sem importar o estado civil que nos define no papel. Afinal, a vida é feita de escolhas, e a mais importante delas é ser feliz do jeito que for melhor para você.

Cansados do cansaço!

Dra. Nina Ferreira

@psiquiatrialeve

Foto de Neslihan Ercan

“Que cansaço”; “Não aguento, estou cansado”; “O cansaço não me deixa”; “Vai você, estou cansado”; “Durmo, durmo, mas estou sempre cansado!”

Uma sociedade sem energia. Uma humanidade à caça de motivação, vontade, disposição.

Olhos caídos, ombros caídos, corpo lento… O cansaço transborda na imagem, na postura, no tom de voz – transborda no silêncio, inclusive: “Ah Estou cansado demais pra falar, pra brigar, pra conviver… Deixa pra lá.”

O cansaço, muitas vezes, transborda também na irritação à flor da pele, no pavio curto, na falta de paciência pra esperar – e, assim, traz mais problemas pra lidar e… quem diria, mais cansaço.

Para onde foi a energia das pessoas? Onde está a gana, a garra, a habilidade de tentar e fazer e cair e levantar?!?

Para onde foi a vida das pessoas? Porque energia é vida, energia é o que movimenta, o que gera ação, o que constrói e empurra pra frente. Qual será o destino de pessoas tão cansadas?

Os motivos, provavelmente, são diversos – depende de cada indivíduo, cada forma de pensar e sentir, cada forma de agir (ou não agir no mundo) …

Mas como podemos REagir?

Como podemos começar a sair desse lugar de tão pouco, tão escasso, tão frágil?!

Alegrias. O cérebro humano precisa de alegrias, de pílulas de cor e brilho! Não há quadro bonito com pura tela branca. Não há vida feliz com “puro” trabalho + pagamento de contas + resolução de problemas + sofá + cama.

É necessário mais. Colocar pitadas de amarelo e azul e vermelho e verde! É preciso luz do Sol enquanto descansa alguns minutos; é preciso azul do lago ou do Céu enquanto o olhar se acalma; é preciso amor do abraço ou do cafuné no cabelo; é preciso os tons de verde das árvores e plantas que enfeitam e merecem ser admiradas num silêncio passageiro…

Alegrias. Traga momentos de alegrias para sua vida, para sua rotina, para os “seus dias comuns”.

As alegrias empurram o cansaço para o lado e te preenchem de energia, de motivação, de vida.

Vamos ser uma humanidade viva!

A Dra. Nina Ferreira (@psiquiatrialeve) é médica psiquiatra, especialista em terapia do esquema, neurociências e neuropsicologia. Escreve a convite do Blog do Mílton Jung.

É preciso rever nossos acordos com o tempo

Por Diego Felix

Foto: Pexels

Às vésperas de completar 40 anos, me deparei com reflexões que me tiraram da zona de conforto, levando-me a um aprofundamento sobre uma questão intrínseca à vida: a velhice.

Não a velhice por uma perspectiva cronológica ou biológica, mas enquanto construção social, a mesma que Simone de Beauvoir apresenta em seu livro “A Velhice”: “nada deveria ser mais esperado e, no entanto, nada é mais imprevisto que a velhice”.

O início da inquietação

Permita-me, prezado leitor e prezada leitora, antes de compartilhar minhas inquietações, apresentar uma breve introdução de como isso se iniciou.

Na minha experiência, considerando as duas décadas que atuo profissionalmente com pessoas idosas e me dedico ao estudo sobre o envelhecimento humano, posso dizer com franqueza: “é preciso rever nossos acordos com o tempo”. Essa frase não é minha. Tomo-a emprestada do dramaturgo Ricardo Corrêa, autor e diretor do espetáculo “Bichados” – da Cia. Artera de Teatro.  Aliás, foi nesse espetáculo que minha “ficha caiu”.

“Bichados” conta a história de William, um homem gay às vésperas de completar 45 anos, que conduz a plateia por passagens interessantes da sua vida: sua relação com a sexualidade, sua família, o encontro com o homem que posteriormente seria seu marido, que o fez experimentar um verdadeiro amor, assim como vivenciar o luto na mesma intensidade, após sofrer um infarto.

Na história de William, a solidão, a invisibilidade social do luto e a discriminação são pontos que me tiraram totalmente do “prumo”. Ela conta também sobre o silenciamento que muitos de nós vivenciamos ao longo da vida, principalmente após os 40 anos, onde experimentamos uma dupla, tripla ou tantas quantas sejam necessárias, invisibilidades.

A invisibilidade e discriminação

São nas situações comuns à maioria das pessoas que nós, homens gays, experimentamos o gosto amargo do preconceito e da discriminação. Reproduções da sociedade tentam incessantemente invalidar nossos sentimentos e recorrentemente anular nossa existência, afinal, as estruturas sociais deslumbram e se organizam numa perspectiva heterossexual e cisgênera. Cabe a nós  caminhar sobre as fissuras dessa estrutura rígida do preconceito, tentando seguir na vida sendo quem somos.

Desafios ao envelhecer

A  prova disso é quando chegamos à velhice, seja ela aos 40, 50, 60 anos, percebemos mais uma vez que não nos encaixamos nas normatizações postas. Seja para atender um perfil esperado da velhice, ou nas características que ainda sustentam o estigma do gay padrão: musculoso, masculino e com inúmeros estereótipos que traduzem um perfil aceitável num mundo predominantemente machista, numa falsa ilusão de aceitação e privilégio.

Essa tentativa de sentir-se pertencente a um grupo social, a fim de ser acolhido e estabelecer relações baseadas em afinidades, é uma luta quase que diária para alguns homens gays, talvez a maioria, especialmente para as gerações que hoje estão com mais de 30 anos.

Desde o momento que identificamos nossa orientação sexual dissidente, existe uma cobrança pessoal para encontrarmos, mesmo que ilusoriamente, um ponto de segurança e conforto: ser bom em tudo que fazemos.

A necessidade de excelência

É uma forma de chamar atenção às qualidades que levamos, a fim de ofuscar nossa sexualidade e estabelecermos relações possíveis, nem sempre sinceras em sua completude. É a necessidade de ser o “melhor em tudo”, seja na busca de uma segurança financeira, ou minimamente conquistar relações que possam nos apoiar, considerando que nem sempre temos uma família que nos aceita e acolhe.

No final, estamos tão focados em garantir nossa existência e representatividade, buscando um futuro digno e sem discriminação, que nos sobra pouco tempo para refletirmos sobre o nosso envelhecimento. E esse desafio se soma a tantos outros, numa tentativa de nos mantermos íntegros e seguros, para no fim, desfrutarmos de uma velhice incerta, ou como nas palavras de Beauvoir, imprevista.

É preciso rever nossos acordos com o tempo e, com isso, avaliarmos atitudes que reproduzimos e talvez pouco ressoem com quem realmente somos.

Envelhecer para os homens gays, e estendo essa reflexão a toda comunidade LGBTQIA+, é como resistir a uma sociedade que diariamente tenta nos manter nas fissuras, sem ocupar espaços sociais e de representatividade que são nossos por direito.

Diego Felix Miguel, doutorando em Saúde Pública pela USP, membro da diretoria da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia – Seção São Paulo e Gerente do Convita – serviço de referência para atendimento de pessoas idosas imigrantes e descendentes de italianos. Escreve a convite do Blog do Mílton Jung.

Mundo Corporativo: Alana Leguth, da KondZilla, reforça o valor da autenticidade na comunicação

Alana Leguth em entrevista ao Mundo Corportivo Foto: Letícia Valente

“Se você não fizer o seu produto se destacar de alguma forma, ele vai ser só mais um lá na estante e a estante é bem grande.”

Alana Leguth, Kondzilla

No cenário do funk e nas comunidades das favelas brasileiras, o desafio de comunicar-se com diversos públicos é enorme, mas essencial. Alana Leguth, cofundadora da KondZilla, holding de entretenimento de renome mundial, partilhou sua experiência e estratégias no programa Mundo Corporativo, da CBN. A entrevista revela a trajetória de uma empresa que começou em um quarto no litoral paulista e se transformou em uma potência global de entretenimento.

A KondZilla, que conta com mais de 67 milhões de inscritos no YouTube, ilustra como identificar e abraçar oportunidades, mesmo sem conhecimento prévio, pode levar ao sucesso. “Conforme foram aparecendo as demandas, a gente foi aproveitando as oportunidades, mesmo que a gente não soubesse fazer. A gente aprendia a fazer”, explica Alana. Esse espírito empreendedor permitiu que a empresa se expandisse e se consolidasse no mercado.

Alana e seu marido, Konrad Dantas, criaram a KondZilla em 2011, quando ainda moravam no Guarujá, litoral paulista. Ela formou-se em farmácia, mas não seguiu carreira, pois decidiu apoiar Konrad desde o início do empreendimento.

A autenticidade na comunicação

A autenticidade é um elemento central na estratégia de comunicação da KondZilla. Alana destaca que a conexão verdadeira com o público é essencial: “Se você não souber se comunicar com esse público pode soar forçado, pode soar de forma pejorativa.” A KondZilla se estabeleceu como uma autoridade no meio por entender e respeitar a cultura da favela, comunicando-se de maneira natural e autêntica.

A força dessa comunicação se manifesta em diversas áreas. No mundo da moda, por exemplo, as tendências muitas vezes nascem nas favelas. Segundo Alana, um caso típico desse fenômeno são os chinelos Kenner, populares entre os jovens de favela do Rio de Janeiro e que influenciam a moda mainstream. Essa conexão com o público jovem de classes C e D mostra o potencial econômico que muitas vezes é subestimado.

Dar voz às mulheres do funk

Alana também é a criadora do selo HERvolution, um projeto dedicado a fortalecer a voz feminina na indústria musical. A iniciativa surgiu de uma percepção de desigualdade: “A mesma atenção que era dada aos artistas homens não era dada às artistas mulheres.” O HERvolution oferece oportunidades para artistas mulheres gravarem e distribuírem suas músicas, sem necessidade de contrato de agenciamento.

A trajetória da KondZilla e de Alana Leguth é uma inspiração de como a inovação, autenticidade e capacidade de aproveitar oportunidades podem transformar desafios em grandes sucessos. A experiência dela e de sua equipe oferece valiosas lições para empresas e indivíduos que desejam se destacar no mercado e se comunicar eficazmente com diversos públicos.

Assista ao Mundo Corporativo

O Mundo Corporativo pode ser assistido, ao vivo, às quartas-feiras, 11 horas da manhã pelo canal da CBN no YouTube. O programa vai ao ar aos sábados, no Jornal da CBN e aos domingos, às 10 da noite, em horário alternativo. Você pode ouvir, também, em podcast. Colaboram com o Mundo Corporativo: Carlos Grecco, Rafael Furugen, Débora Gonçalves e Letícia Valente.

O fim da falta

Dra. Nina Ferreira

@psiquiatrialeve

Foto de PNW Production

Não tenho O carro, não tenho O celular, não fiz Aquela viagem.

Não tenho beleza suficiente, não tenho sucesso suficiente, não sou destaque.

A falta – dos bens materiais do momento, das experiências “imperdíveis”, dos títulos e rótulos desejados. Como pode um buraco (já que é falta) preencher tanto?!? Preencher de angústia, de tristeza, de raiva, de inveja… de vazio.

Que complexo. Todos correndo, procurando, se esforçando… os dias passando e ninguém percebendo: “Nossa, como o tempo está voando!” – porque nessa busca alucinante pelo que falta, não se percebe o que já É, o que já TEM, o que ESTÁ aqui e agora.

Você saboreia seus momentos de vida? Você sente felicidade por ter a vida que tem?

Chega de olhar a falta. Chega de se preencher de dor pelo que não existe. Chega de escolher correr e perder Vida.

Sente-se e curta seu pão com manteiga e seu café. Comece seu trabalho e aproveite a chance de ajudar as pessoas e receber o dinheiro do seu sustento. Chegue em casa e converse sobre qualquer coisa com sua família, seu cachorro, seu gato… ou com você mesmo – sua melhor e mais constante companhia!

Preencha-se do que você tem. Inunde-se de felicidade pura e simples.

Rebele-se. Decrete o fim da falta.

Chega de correr. Pare, olhe, sinta… preencha-se com o que já tem.

A Dra. Nina Ferreira (@psiquiatrialeve) é médica psiquiatra, especialista em terapia do esquema, neurociências e neuropsicologia. Escreve a convite do Blog do Mílton Jung.

Sobre esquecer o passado

Por Simone Domingues

@simonedominguespsicologa

“Às vezes é preciso parar e olhar para longe,

para podermos enxergar o que está diante de nós”

John Kennedy

O filme “Brilho eterno de uma mente sem lembranças” (2004) traz a história de Joe e Clementine, um casal que após diversas tentativas para que o relacionamento dê certo, opta por esquecer um ao outro. Para isso, eles contratam uma empresa com tecnologia especializada em apagar as lembranças dolorosas. Porém, no meio do processo, Joe percebe que também tem boas memórias sobre Clementine e não quer perdê-las, apesar do rompimento atual.

Na ausência de uma tecnologia que nos permita tal feito e embalados pela ficção, se você pudesse apagar da sua mente as lembranças indesejadas, você o faria?

Me desculpe a insistência das perguntas, mas você desejaria apagar apenas as lembranças “ruins”? E por que não as “boas” memórias?

A resposta pode parecer óbvia, mas se assim for, compreendo que o desejo não é pelo esquecimento das experiências ou aprendizagens, mas sim, para evitar o sofrimento que essa lembrança evoca.

Nossas memórias, sejam de experiências boas ou dolorosas, falam da nossa história. Falam sobre quem somos. E se somos quem somos, é porque nossas experiências nos permitiram as aprendizagens sobre a vida, sobre o mundo e sobre nós mesmos, constituindo a nossa identidade, isso que nos torna únicos.

Não é possível registrar apenas o lado bom da vida. Porque isso não seria a vida real… Isso não significa que precisamos viver afunilados pelas situações dolorosas. Porque isso também não exprime tudo o que vivemos. Mas é preciso olhar além…

Onde estamos quando tantos sofrem os horrores da guerra?

Onde estamos quando tantos sofrem a devastação causada pelas mudanças climáticas?

E se apagássemos isso da nossa memória, numa busca desenfreada para mantermos apenas as lembranças positivas?

Só poderemos agir de maneira diferente e construir uma vida mais significativa, se olharmos para as nossas vivências e compreendermos o que elas nos ensinam.

Viver exige que estejamos de olhos bem abertos. Não me refiro, obviamente, à capacidade visual. Viver exige que estejamos presentes em nossas próprias vidas. E estar presentes em nossas vidas significa viver o momento atual, esse mesmo que muda o tempo todo e não nos pede permissão.

Diante dos desafios em vivermos o momento presente, muitos buscam em medicamentos as soluções para driblar o cansaço da rotina extenuante. Muitos buscam em medicamentos as soluções para esquecer os problemas e dificuldades que se apresentam, como num entorpecimento da realidade, fugindo de suas vidas, mergulhados num sono que de tão rápida a sua chegada nem permite reflexões.

E assim, enveredamos pelos caminhos do não sentir: não queremos experimentar a tristeza, o medo, a solidão…

Evitar situações ou eventos que desencadeiam emoções difíceis não tem nenhum efeito permanente no nosso bem-estar. A evitação pode até diminuir temporariamente as emoções dolorosas, mas não terá nenhum efeito na maneira que reagiremos a essas situações ou eventos no futuro, porque cada emoção tem a sua função, mesmo aquelas que são mais difíceis. Elas nos comunicam sobre o que acontece a nossa volta, sobre o que nos acontece e nos motivam para a ação. Se desejamos esquecer algo, é porque sabemos que podemos construir algo melhor, mais significativo. Mas como saberíamos se nos esquecêssemos disso?

Sendo assim, espero que aquela pergunta inicial se torne obsoleta, porque como dizia o professor Iván Izquierdo:

“O passado contém o acervo de dados, o único que possuímos, o tesouro que nos permite traçar linhas a partir dele, atravessando o efêmero presente que vivemos, rumo ao futuro”.

Simone Domingues é psicóloga especialista em neuropsicologia, tem pós-doutorado em neurociências pela Universidade de Lille/França, é uma das fundadoras do canal @dezporcentomais, no YouTube. Escreveu este artigo a convite do Blog do Mílton Jung. 

Mundo Corporativo: Amilcar e Renato Sá, da MC Tintas, falam de como fazer da inovação uma tradição familiar

Reprodução do vídeo da entrevista ao Mundo Corporativo

“Quer ter sucesso? Trate bem o fornecedor, trate bem seu funcionário, muito bem seu funcionário e trate bem o seu cliente.”

Amilcar Sá, MC Tintas

O mundo dos negócios pode ser um terreno árido e desafiador, especialmente para aqueles que desejam empreender e inovar. Entretanto, a história da MC Tintas, que se iniciou há 60 anos, mostra que o caminho para o sucesso pode ser trilhado com uma boa dose de respeito e dedicação aos principais pilares de uma empresa: fornecedores, funcionários e clientes. É no que acreditam Amilcar Sá e Renato Sá entrevistados no Mundo Corporativo, da CBN. Amilcar começou aos 16 anos com os dois irmãos, fundadores da empresa, e Renato assumiu o comando da MC Tintas, em 2020.

Com mais de 220 unidades no Brasil, a companhia faturou R$ 563 milhões, em 2023. Para 2024, a meta é chegar a R$ 680 milhões, com 20% de crescimento no número de unidades. Desde 2017, a marca trabalha no sistema de franquia, uma estratégia que Renato Sá quer ampliar. Atualmente, são 120 franqueados. Entender o potencial de cada um desses empreendedores é importante na construção da rede. Renato ressalta que “o sucesso de um empreendedor depende muito mais dele do que do franqueador”, destacando a importância da iniciativa individual no mundo dos negócios.

Inovação e Crescimento

A inovação sempre foi uma característica da MC Tintas. Uma tradição familia, pelo que se ouve nas histórias contadas por Amílcar e Renato. Desde a criação da empresa, a visão de Amilcar e seus irmãos foi transformar as lojas de tintas em ambientes agradáveis e acessíveis para todos os públicos, especialmente às mulheres, que, tradicionalmente, não frequentavam esses estabelecimentos. Amilcar recorda: “As lojas eram muito pesadas, sujas. Não tinha aquele tratamento gostoso. Nós fomos os primeiros a mudar isso”.

Renato complementa que a empresa continua a se adaptar às mudanças do mercado e do comportamento do consumidor: “Hoje temos muito mais ferramentas do que eles tinham lá atrás. A empresa estuda o novo consumidor, contrata pesquisas e tenta inovar constantemente”. Esse olhar inovador levou a MC Tintas a desenvolver um aplicativo chamado Toc Toc, que conecta consumidores a profissionais de pintura, facilitando o acesso a serviços de qualidade.

Sucessão Familiar e Liderança

A transição de liderança na MC Tintas é um exemplo de como a sucessão familiar pode ser bem-sucedida. Amilcar enfatiza que a preparação foi fundamental: “Não foi porque o Renato é meu filho que ele se tornou CEO. Ele foi apontado como a pessoa mais adequada por uma consultoria externa”. Renato, por sua vez, destaca a importância do preparo e da contínua busca por conhecimento: “Liderar é não parar nunca. É estudar, fazer cursos e ter vontade de passar a cultura da empresa”.

A relação pai e filho dentro da empresa é um equilíbrio de aprendizado e liderança compartilhada. Renato reconhece o papel crucial de seu pai como mentor: “Tenho uma grande oportunidade de ter meu pai do meu lado, meu espelho, e meu mentor”.

Ouça o Mundo Corporativo

O Mundo Corporativo pode ser assistido, ao vivo, às quartas-feiras, 11 horas da manhã pelo canal da CBN no YouTube. O programa vai ao ar aos sábados, no Jornal da CBN e aos domingos, às 10 da noite, em horário alternativo. Você pode ouvir, também, em podcast. Colaboram com o Mundo Corporativo: Carlos Grecco, Rafael Furugen, Débora Gonçalves e Letícia Valente.