Que o último orelhão não silencie as lições do jornalismo de rádio

Orelhão depredado
Foto: CBNSP/Flickr

A notícia da retirada definitiva dos orelhões das ruas me alcançou num daqueles momentos em que o passado resolve puxar uma cadeira e se sentar ao meu lado. Não foi a Anatel quem provocou essa viagem, e sim Edgar Lisboa, que transformou a extinção dos telefones públicos em narrativa. No texto publicado no Portal Repórter Brasília, ele recuperou episódios da vida de repórter nos tempos da rádio Guaíba, de Porto Alegre, citou o Correspondente Renner, lembrou do meu pai — Milton Ferretti Jung — e, com um detalhe que me fez sorrir, mencionou aquele adolescente de bermuda que circulava curioso pela redação: eu.

A leitura me tocou porque Edgar não apenas trouxe meu pai de volta à cena; ele resgatou um modo de fazer rádio que me formou antes mesmo de eu ter carteira de trabalho. A Guaíba, como ele escreveu, era uma escola. E foi ali que aprendi a caminhar entre pautas, microfones e silêncios. A voz firme do Renner no ar, sempre no horário, era lição diária de responsabilidade. E, antes de virar apresentador, eu era o menino que observava tudo — tentando entender como fatos viravam notícia e notícia virava confiança do ouvinte.

Edgar descreveu essa rotina com a precisão de quem esteve no front. Para quem viveu a época, o orelhão era mais que telefone: era redação improvisada. Na rua, toda entrada ao vivo começava pela busca do aparelho mais próximo. Ficha no bolso, papel na mão, o texto organizado na cabeça. Não existia botão de enviar nem de corrigir. A urgência dependia da paciência que a tecnologia impunha. Era fazer jornalismo no limite do que estava disponível.

A lembrança do Correspondente Renner reforça a dimensão desse compromisso. O programa era um marco de pontualidade e rigor. Se algo relevante acontecia no meio da edição, a última notícia entrava no ar com meu pai lendo o texto recém-redigido. Não havia atalhos. Havia trabalho sério, construído sem internet, sem redes sociais e sem a avalanche de ruídos que hoje tentam se passar por informação.

A tecnologia avançou, os orelhões desapareceram e isso é natural. O que não se perde — e Edgar captou bem — é o valor simbólico de uma época em que a rua era extensão da redação. O telefone público era o fio que ligava o repórter ao ouvinte e, muitas vezes, ao próprio entendimento da notícia.

Termino com a sensação familiar que me acompanhava quando descia do carro para procurar um orelhão: certas histórias precisam ser contadas do jeito certo. Edgar contou a dele e, no meio dela, revivi meu pai, o Renner e aquele guri de bermudas que começava a aprender o ofício observando quem sabia fazer.

E, claro, também vivi a experiência de correr para o orelhão, fichas na mão, texto na cabeça e a redação esperando do outro lado da linha. Era o que tínhamos. Era tudo de que precisávamos.

Leia “A importância dos orelhões no jornalismo”, de Edgar Lisboa, no Portal Repórter Brasília

Avalanche Tricolor: foi muito bom reencontrar os amigos

Avenida 0x4 Grêmio
Gaúcho – Estádio dos Eucaliptos, Santa Cruz do Sul (RS)

Gremio x Avenida
Roger comemora o terceiro gol. Foto: Lucas Uebel/GrêmioFBPA

Aproveitei o primeiro fim de semana “útil” do ano para visitar amigos no interior de São Paulo. Não nos víamos havia alguns meses. No Natal, eles estavam fora do país, enquanto eu cumpria plantão. No Ano Novo, fui à minha cidade natal, justo quando retornavam ao Brasil. E durante o ano… bem, você sabe como a vida corre, atropela e afasta.

Ao longo do tempo, trocamos mensagens esporádicas. Reencontros, porém, servem para outra coisa: saber das novidades e recontar histórias antigas. Muitas já conhecidas. Mesmo assim, irresistíveis. Falamos também do que acreditamos que pode acontecer em 2026 — projetos de vida, viagens, possibilidades. E lamentamos a insanidade daqueles que insistem em atrasar nossas vidas.

Voltar é reencontrar. Não foi o poeta quem disse. Foi uma frase que me veio à cabeça quando estive em Porto Alegre. Em pastas antigas, usadas como guarda-arquivo, encontrei dezenas de papéis datilografados. Eram crônicas escritas por meu pai, Milton Ferretti Jung, lidas nos primeiros programas de rádio que apresentou, ainda na Rádio Canoas. Assinava como diretor de jornalismo — ao que sei, diretor dele mesmo. Havia poucos profissionais na emissora e menos ainda no departamento.

Entre os papéis guardados por meu irmão, dentro de um baú, descobri também uma coleção de cartas trocadas entre meu pai e o vô Romualdo, quando ele estudava em um internato, na cidade de Farroupilha. Chamou atenção a formalidade da escrita do meu avô. Mais ainda: referências ao futebol. Não me lembro de tê-lo ouvido falar de esporte com os netos, tampouco com meu pai. Ainda assim, lá estava o registro de uma partida do Grêmio a que assistiu no estádio — o que, pela época, deve ter sido no saudoso Fortim da Baixada, no Moinhos de Vento.

Caro e cada vez mais raro leitor, jamais imaginei que esta Avalanche, escrita desde janeiro de 2008, pudesse ser resultado de uma paixão e de um hábito passados de pai para filho desde os anos 1950.

Mas eu falava de reencontros. E, no sábado à noite, havia mais um marcado.

O Grêmio voltava aos gramados pouco tempo depois da despedida de dezembro. Reencontrá-lo, agora sob nova direção, foi uma surpresa agradável. Mesmo levando em conta o curto período de treinos e a fragilidade do adversário, a goleada na estreia fez bem. Aliás, placar semelhante ao da partida que encerrou o ano passado.

Assim como na conversa com os amigos, o Grêmio também apresentou novidades e reacendeu esperanças para 2026.

A presença de Roger e Tiaguinho, ambos com 17 anos, foi a principal delas. Os dois participaram de gols, mostraram personalidade forte, e Roger ainda fechou sua atuação com o terceiro gol. Mais do que o desempenho, o gesto de Luís Castro ao escalá-los como titulares alimenta uma expectativa antiga: investir, de fato, nos talentos da base. Confesso que já não suporto ver nossos protótipos de craques serem vendidos antes mesmo de estrearem no profissional.

É cedo para qualquer projeção. Uma partida não define uma temporada. Ainda assim, reencontrar o Grêmio com uma goleada e algumas boas notícias é muito melhor do que começar o ano apenas relembrando velhas glórias do passado — como aquelas que meu avô contava ao meu pai, nas cartas encardidas que pretendo ler com calma nos próximos dias.

Talvez a Avalanche nunca tenha sido só futebol. Talvez sempre tenha sido, antes de tudo, uma forma de reencontro. Com a família, com os amigos, com você, caro e cada vez mais raro leitor.

Deus Sem Atalhos: uma teologia da permanência no caos

Por Caio Luizetto

Foto de eberhard grossgasteiger

Há quem repita, quase como um refrão automático: “Deus está vendo tudo.”
Mas se Deus fosse apenas um observador que assiste ao desfile interminável de injustiças, violências e misérias humanas, então Sua contemplação seria tão cruel quanto estéril.

Um Deus que apenas vê seria um Deus diminuído, reduzido a ídolo: um olhar distante pairando sobre um mundo em ruínas. Uma divindade assim não seria mais que um mito — um eco vazio projetado sobre o infinito.

Mas o Deus que faz sentido não é o Deus voyeur da dor alheia.
É o Deus vulnerável, o Deus afetado, o Deus que sofre.

Se o prazer de Deus está na reciprocidade — na chama que se acende quando seres humanos se reconhecem, se ajudam, se amam — então a ruptura dessa ordem amorosa fere o próprio coração divino.
O antagonismo do prazer é o sofrimento; onde o amor se rompe, Deus se dilacera.

Dizer que Deus “vê tudo” empobrece o drama divino-humanal.
Deus não contempla de longe: Ele participa.
Não paira em neutralidade: Ele se compromete.
Não observa as dores do mundo: Ele as incorpora.

Se a marca dos discípulos está no mandamento do amor — amai-vos uns aos outros — então cada vez que odiamos, negamos, ferimos ou abandonamos, não é apenas o outro que sofre: é Deus que sangra através dele.
O sofrimento humano não acontece à revelia do sagrado; acontece dentro de Deus.

Por isso, não é adequado imaginar um Deus que tudo vê.
Esse Deus seria estático, impermeável, imóvel.

O Deus vivo, porém — o Deus que vale a pena ser chamado Deus — é aquele que, ao ver, geme; ao testemunhar a injustiça, se contorce; ao encontrar violência, se rasga; ao perceber a fratura entre irmãos, agoniza.

Assim, Deus não está simplesmente vendo tudo.
Deus está sofrendo tudo.
E talvez aí resida a maior dignidade de Sua divindade: Ele não se exime do peso do mundo; Ele o carrega consigo.

Um Deus que sofre não é um Deus derrotado — é um Deus que ama até o limite da dor.

Caio Luizetto é teólogo e cientista da religião, pós-graduado em Missão Integral em contexto urbano. Sua produção aborda as relações entre fé, dor, sentido e maturidade espiritual na vida contemporânea. Escreve a convite do Blog do Mílton Jung.

Com que roupa eu vou?

Dra. Nina Ferreira

@ninaferreira.psiquiatra

Foto de Alexey Demidov

Apresentação importante no trabalho, festa de aniversário de um conhecido, evento social de um parceiro profissional, jantar com um amigo e amigos do amigo… A gente se pergunta: “Com que roupa eu vou?”

Existe normalmente uma preocupação, um cuidado com nossa aparência em situações sociais. Ideias como: “O que esse momento pede: vou mais formal ou mais casual? Como será que os outros estarão vestidos? Quero me destacar… ou passar despercebida?” pipocam na nossa mente, por esse desejo de agradar, de não errar, de ser aceita e bem-vista.

E como é desafiador, não? Ambientes diferentes, pessoas desconhecidas, expectativas não muito claras — são inúmeros os gatilhos que geram ansiedade e insegurança. A mente funciona “a mil”, querendo rastrear todos os riscos e todas as necessidades em poucos minutos e montar a estratégia perfeita! Pensamos juntos o quanto isso é exaustivo?

Muitas coisas acontecendo ao mesmo tempo e pessoas diferentes para agradar… Combinação desastrosa, fadada a nos levar à frustração e à exaustão. Como gerenciar tantas demandas sendo uma pessoa só, para “dar conta” de tudo isso?

Vem aqui o convite: e se formos, de verdade, “uma pessoa só” ?! 

Explico — e se escolhermos parar, perceber nossas características, definir nosso estilo (de vestir, agir, reagir, conduzir as relações e a vida) e, então, sair pelos eventos e pelo mundo sendo a pessoa que somos?

A tal autenticidade, tão famosa e pseudo-estimulada, é essa coragem de bancar quem somos e sustentar esse padrão único nas diversas situações. É definir como nos apresentar aos outros a partir do que temos dentro de nós, com a tranquilidade de estarmos sendo nossa melhor essência (nada perfeita, porém verdadeiramente nossa). 

Cheiro de liberdade no ar. Redução das múltiplas dúvidas e inseguranças. 

“Com que roupa eu vou?” — vou vestida de mim.

A Dra. Nina Ferreira (@ninaferreira.psiquiatra) é psiquiatra, psicoterapeuta e sócia fundadora da LuxVia Health Center. Escreve a convite do Blog do Mílton Jung.

O que acontece quando você deixa seu Iphone em preto e branco

Li o texto da jornalista Julia Angwin, no The New York Times, com aquela sensação incômoda de quem começa a prestar atenção em algo que sempre esteve ali, à vista, mas convenientemente ignorado. O ponto de partida dela foi simples: testar o iPhone em preto e branco. Sim, isso é possível. O efeito, segundo o relato, foi tudo menos trivial.

Confesso: eu desconhecia completamente a possibilidade de deixar o iPhone sem cor. Mais do que isso, jamais imaginei que uma mudança tão banal pudesse provocar algum tipo de alívio, ainda que acompanhada de estranhamento. A jornalista também não parecia acreditar muito na ideia. Ela mesma se dizia cética em relação ao discurso alarmista sobre celulares viciantes. Até perceber que passava horas demais mergulhada em comentários políticos e vídeos de maquiagem no TikTok. Quando desligou as cores, algo se rompeu. Um fio invisível, como ela descreve.

O celular perdeu o poder de convocação. A urgência evaporou. O gesto automático de checar a tela deixou de ser automático. O uso diário caiu cerca de 40%. Não virou abstinência nem redenção. Virou consciência. O preto e branco transformou o telefone em ferramenta, não mais em vitrine.

O texto me chamou atenção justamente por isso: não há moralismo, nem cruzada antitecnológica. Há observação. Há desconforto. Há ganhos. E há perdas também. Fotos menos encantadoras, botões confusos, jogos desinteressantes. Um pôr do sol que chega sem cor. Uma fantasia de joaninha que parece gótica. A vida continua, só que sem filtro vibrante.

Talvez o ponto mais honesto do relato esteja na explicação psicológica citada por pesquisadores: muita gente não usa o celular em busca de prazer, mas de alívio. Alívio da ansiedade. Do medo de perder algo. Da sensação de que pode haver uma crise esperando por nós. Nesse sentido, desligar as cores não resolve tudo. Mas ajuda a baixar o volume.

Para quem ficou curioso — como eu fiquei — segue o caminho das pedras.

Como deixar o iPhone em preto e branco

  1. Abra Ajustes
  2. Vá em Acessibilidade
  3. Toque em Filtros de Cor
  4. Ative a opção e selecione Escala de Cinza

Acione o botão salvador

Ainda em Acessibilidade, entre em Atalho de Acessibilidade e marque Filtros de Cor. A partir daí, três cliques no botão lateral ligam ou desligam as cores. Pense nele como um botão de primeiros socorros. Serve tanto quando o tédio da falta de cor bater, quanto quando você sentir necessidade de mais cor na vida — nem que seja por alguns segundos.

Por ora, ainda não tive coragem de atravessar definitivamente para esse mundo sem cores. Prefiro ouvir antes o que você, caro e cada vez mais raro leitor deste blog, acha dessa experiência. Teste. Observe. Conte depois.

Prometo que só então decidirei se desligo ou não as cores do meu próprio telefone.

Eu sou um cara da p****!


Diego Felix Miguel

Foto de Mo Eid no Pexels

Prezada leitora e prezado leitor,

Por favor, não me julgue precipitadamente por conta do título que escolhi para este texto. Na verdade, utilizei essa frase porque foi ela que marcou o exato momento em que recobrei minha autonomia após um longo período deprimido.

Eu estava assistindo à televisão à noite, pouco antes de dormir, como costumo fazer corriqueiramente. Não consigo lembrar exatamente o que estava assistindo, porque também uso a programação fútil para pensar sobre a vida até o sono chegar.

Naquela noite, porém, eu estava em outro momento da minha saúde mental, “enxergando sem meus óculos escuros” e analisando com mais profundidade a minha trajetória: de onde vim, o caminho que percorri, onde estou e para que direção estou caminhando.

Foi nesse momento de intensa reflexão que, como num grito que brotou da minha alma, surgiu o título que nomeia este texto.

Realmente me senti assim, como se cada poro da minha pele exalasse essa euforia que brotou da leitura das minhas conquistas — e não falo aqui apenas das conquistas materiais. Aliás, essas nem sempre representam um aspecto relevante para nomear nossas vitórias.

Falo do caminho que trilhei diante dos preconceitos e discriminações que sofri na infância e na adolescência; das violências coniventes em ambientes que, teoricamente, deveriam me proporcionar segurança e proteção, como a família sanguínea, a escola e os ambientes religiosos… Lugares que considero essenciais nessa fase da vida.

Lembro-me do primeiro emprego, dos cursos subsidiados por políticas públicas que me propiciaram uma profissão e da universidade que cursei. Por incrível que pareça, a academia também foi um ambiente hostil — não por conta dos meus colegas, mas por alguns poucos professores que reforçavam em seus discursos que “viado não seria ninguém na vida”.

Tenho amigos desse período que trouxe comigo até hoje e puderam ver de perto — e vibrar com — minhas conquistas acadêmicas, profissionais, materiais e, principalmente, pessoais: da pessoa que me tornei.

Em um mundo de trabalho competitivo, onde as relações de poder sempre nos desafiam, quando não queremos jogar esse jogo de vaidades, somos subestimados e inferiorizados. Sob essa pressão, a sensação de ser uma farsa ou uma pessoa intelectualmente desonesta fere nossa essência e reforça o lugar que alimenta a depressão, sabotando nossa autopercepção.

É nesse ponto que a reflexão se aprofunda. Chegar aos quarenta anos estudando os processos socioculturais do envelhecimento não é uma tarefa fácil. A nossa autonomia — um dos aspectos mais preciosos para um envelhecimento ativo — é frequentemente ferida e sabotada pelas vaidades alheias e pela insegurança que coloca em xeque quem realmente somos.

Felizmente, o autocuidado me proporcionou uma leitura mais distanciada desse momento. O tratamento medicamentoso, o acompanhamento nutricional e a atividade física foram essenciais para essa catarse.

Talvez não seja o caminho para todas as pessoas, mas, sem dúvida, existem muitas outras possibilidades que podem proporcionar essa mesma oportunidade.

É impressionante como os aspectos biopsicossociais, que tanto estudamos na Gerontologia, são perceptíveis na prática. Na vivência. Agora entendo o poder envolvente dos discursos das minhas professoras idosas: elas falam de ciência por meio de suas vivências pessoais. Um laboratório vivo. Que privilégio o meu ter essa consciência e honrar cada oportunidade que vivencio junto a elas.

Envelhecer não é fácil, ainda mais para pessoas que sofrem o impacto da desigualdade social, da iniquidade de acesso e da exclusão. Por isso, estou longe de generalizar. Ao falar da minha experiência, pretendo que, minimamente, possamos refletir:

O que cabe a nós?

Será que podemos representar e inspirar oportunidades para que todas as pessoas tenham vivências plenas? Acredito que sim. Ao recuperar minha voz e minha autonomia, meu papel é ser esse laboratório vivo. Utilizar a ciência da gerontologia e a minha história — do cara que superou o que disseram que ele seria — como ferramentas para que a luta por equidade e oportunidade continue a florescer.

Não pretendo aqui depositar mais responsabilidades sobre as pessoas que sofrem com a desigualdade; afinal, essa virada de chave não depende apenas delas.

Quais políticas públicas precisamos alcançar? Como os movimentos ativistas podem incorporar a longevidade em suas pautas?

Vamos conversar sobre isso?

Diego Felix Miguel é especialista em Gerontologia pela Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia e presidente do Departamento de Gerontologia da SBGG-SP. Mestre em Filosofia e doutorando em Saúde Pública pela USP. Escreve este artigo a convite do Blog do Mílton Jung

Ninguém entende

Dra. Nina Ferreira

@ninaferreira.psiquiatra

Você escolheu mudar — de casa, cidade, emprego, relacionamento, aparência.
Você emagrece — está demais; você engorda — precisa se controlar.
Quer outra carreira — está enlouquecendo? Vai desperdiçar tudo o que já fez?
Decide dizer não para uma relação — está pensando o quê, que encontrará algo melhor?

Há coisas que ninguém entende. Decisões que ninguém apoia. Atitudes extremamente solitárias.

Pessoas têm seus temperamentos, traumas de vida, experiências prévias — e, a partir desse baú todo, constroem opiniões e conceitos, inclusive sobre “o que é certo e errado”.

Quando se forma um grupo de pessoas que convivem em um espaço, chamamos de sociedade. Surgem opiniões e conceitos do grupo — as regras sociais.

Carrinho de bate-bate: muitas vezes, suas percepções e suas vontades, como indivíduo único que é, baterão de frente com essas regras sociais. Choques e mais choques. Você estará sozinho.

É… ninguém entende. Há coisas suas que ninguém entenderá. E o dilema aparece: eu entendo, mas estou sozinho nessa. O que fazer?

Há momentos que nos exigem coragem. Coragem de reconhecer e assumir nossos desejos e sonhos, apesar de.

Apesar de os outros não gostarem, não concordarem, pontuarem problemas nas suas escolhas e ações.

Não é sobre ser ofensivo ou rebelde. É sobre poder ser você, em toda sua verdadeira e única essência.

Sustentar sua autenticidade tem um preço.
Não sustentá-la tem outro preço.

Ninguém entende.
Você, sim.

A Dra. Nina Ferreira (@ninaferreira.psiquiatra) é psiquiatra, psicoterapeuta e sócia fundadora da LuxVia Health Center. Escreve a convite do Blog do Mílton Jung.

Dez Por Cento Mais: Cláudia Franco propõe uma revolução da longevidade com propósito

Foto de cottonbro studio

“Eu não preciso ter e nem quero ter a cara de 30, porque eu já tive essa cara. Eu quero ter cara de saúde.”

Cláudia Franco, Envelheça com Saúde e Propósito

A sociedade brasileira está envelhecendo em ritmo acelerado, e um fenômeno demográfico notável aponta para a feminilização da velhice: as mulheres representam a maior parte da população idosa, com 72% dos centenários sendo do sexo feminino. A tendência, no entanto, vem acompanhada de desafios como sobrecarga de trabalho, responsabilidade como cuidadora familiar e, muitas vezes, menor renda. Esse panorama do envelhecimento e a importância das escolhas individuais para uma vida longeva com qualidade são o foco da entrevista com Cláudia Franco, criadora de conteúdo digital, atleta, mentora, modelo 60+ e empresária, no programa Dez Por Cento Mais, no YouTube, apresentado pela psicóloga e jornalista Abigail Costa.

O confronto com o “Anti-Envelhecimento”

Cláudia Franco, que começou a compartilhar suas reflexões no Instagram ao se aproximar dos 60 anos, confronta a resistência social em aceitar a velhice, muitas vezes mascarada em elogios como “você não parece a idade que tem”. Para ela, essa mentalidade reflete um preconceito incutido na sociedade:

“Eu nunca vi o envelhecer como algo ruim. É o que eu estou me tornando, eu estou me transformando, o ser humano está em transformação desde quando nasce.”

A especialista defende o movimento pró-envelhecimento (pro-aging), em oposição ao termo anti-aging (anti-envelhecimento) frequentemente usado pela indústria.

“Eu sou avessa a esse termo, porque a gente tem que combater aquilo que é ruim, por exemplo, uma doença. Quando a gente fala anti-aging, a gente está combatendo o nosso envelhecimento, um processo natural do ser humano.”

O objetivo do autocuidado, explica, não deve ser o de esconder ou eliminar as marcas da idade, mas sim de garantir a saúde e a preservação da característica individual. A motivação por trás das escolhas de aparência é o ponto central. Por exemplo, cada um define se quer pintar o cabelo ou não, o importante é o seu propósito: “Essa corrida para permanecer com a cara de jovem, isso me incomoda, porque eu acho que é sofrimento. Não tem pior coisa na vida do que você estar desconfortável dentro da própria pele“, afirma.

A lição de casa da maturidade

A maturidade, segundo Cláudia Franco, traz consigo uma grande liberdade por desvincular o indivíduo da necessidade de se adequar a padrões.

“Eu não preciso estar ali encaixada em nenhum padrão, isso é a maior liberdade que uma mulher pode ter. Sabe, você ser feliz e segura com o que você é.”

No entanto, essa liberdade exige um compromisso ativo com a própria longevidade. A entrevistada destaca a importância de o indivíduo buscar autonomia — física, mental e financeira — para evitar a dependência de terceiros. Esse preparo é fundamental, visto que a fase da velhice pode ser a mais longa da vida.

“Eu posso ser longeva, mas não significa que eu vou ser saudável, eu posso ser longeva e estar na cama. Eu quero viver esses meus 20, 30, quem sabe, 40 anos, mas eu quero viver com saúde.”

Cláudia Franco, ao relatar sua própria mudança de vida de São Paulo para o litoral, exemplifica a “faxina” necessária: simplificar a vida, desapegar-se e se preparar financeiramente. Ela ressalta que a maturidade não é uma fase de descanso, mas sim de troca de demandas, mantendo-se em atividade constante.

“Não é uma fase que a gente vai parar e descansar, a gente vai trocar as demandas. A gente não pode parar, porque eu vejo que tem alguém que fala: ‘ah, se parar enferruja’. E é verdade, se você para seu corpo recente.”

A menção do envelhecimento como tema de redação na mais recente edição do ENEM trouxe a discussão para perto de gerações mais jovens, reforçando a urgência em pensar o futuro. Contudo, Cláudia Franco observa que grande parte dos jovens não está ativamente se preparando para envelhecer, enquanto uma parcela dos 50+ já despertou para a necessidade de manter o “veículo funcionando” por décadas à frente. Ao final, ela deixou uma mensagem sobre empatia e acolhimento:

“Quando a gente acolhe o envelhecimento do outro, consegue entender o nosso próprio. Envelhecer está na moda.”

Assista ao Dez Por Cento Mais

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Quem você levaria para a sua velhice?

Diego Felix Miguel

Foto de Juan García

“De repente fico rindo à toa

Sem saber por quê

E vem a vontade de sonhar

De novo te encontrar”

“Cheiro de Amor” – Maria Bethânia

Prezada leitora, prezado leitor,

Quero te fazer um convite para iniciarmos essa conversa.

Feche os olhos por alguns instantes e reflita:

Quem você gostaria de levar com você na sua velhice?

Confesso que, no meu caso, a resposta não seria singular, e sim plural.

Lembrei de Spinoza, filósofo holandês que nos ensina sobre os afetos, essas transformações que ocorrem em nós, boas ou ruins, quando estamos em contato com outras pessoas e com o mundo. Afeto é justamente isso: o ato de afetar e ser afetado, registras em nós as marcas deixadas pelas experiências.

Ao pensar nisso, vários nomes vieram à mente. Memórias que relaxaram meu rosto e abriram um riso fácil, despretensioso. São vocês que nortearam meus pensamentos e que, em minha imaginação, gostaria de ter comigo daqui a 20 ou 30 anos.

Mas será que é assim que a vida funciona?

A vida nos ensina constantemente com os imprevistos e incertezas. Até lá, será que essas pessoas permanecerão ao meu lado? Continuarão sendo capazes de me fazer sorrir apenas por existirem nas minhas lembranças?

Não sei. Talvez seja pouco provável. Afinal, a vida não é linear. tudo se transforma, novas relações surgem, vivências inéditas nos atravessam.

Somos afetados o tempo todo. Descobrimos afinidades inesperadas, criamos laços que antes nem imaginávamos. Nesse curso imprevisível da longevidade, somos também ressignificados.

Com certeza essas pessoas estarão comigo de alguma maneira, seja presencialmente na minha vida ou nos afetos que se eternizaram no curso da vida, sejam eles positivos ou negativos.

Às vezes penso que os afetos são eternos, mas isso não significa que mantenham a mesma intensidade. O importante é não nos fecharmos ao novo, às experiências que, no passado, talvez não estivéssemos prontos para viver, mas que podem se tornar significativas o suficiente para permanecerem vivas até nossos últimos dias.

Os amores e os afetos que vivenciamos são diferentes, possuem intensidades distintas. Podem coexistir ao longo das décadas. Amar uma pessoa não anula a possibilidade de amar outra. Que garantia temos de permanecer com as mesmas pessoas até a velhice?

Pois é. Muitas perguntas, poucas respostas.

Como princípio básico, vale, então, considerar: mantenha sua rede afetiva nutrida de bons encontros e memórias, e esteja aberto a ressignificar as possibilidades de afeto conforme cada experiência. Não desperdice os vínculos que são verdadeiramente significativos para sua vida, eles podem, sim, ser eternos.

E você? Quem levaria para a sua velhice?

Diego Felix Miguel é especialista em Gerontologia pela Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia e presidente do Departamento de Gerontologia da SBGG-SP. Mestre em Filosofia e doutorando em Saúde Pública pela USP. Escreve este artigo a convite do Blog do Mílton Jung

O Cerimonial da Gentileza

Por Christian Müller Jung

Foto: Mauricio Tonetto / SecomRS

Não planejei a profissão que tenho hoje. Cheguei a ela pelos caminhos que a insatisfação abre quando percebemos que algo já não nos serve. Aproveitei o patrimônio biológico que carregava desde sempre: a voz. Fiz o curso de Locução, Apresentação e Animação, acrescentando uma nova formação ao diploma de Publicidade e Propaganda pela PUC-RS.

Enquanto procurava um espaço para exercitar essa nova habilidade,  surgiu a oportunidade de atuar como Mestre de Cerimônias do Governo do Rio Grande do Sul. Ali, entendi que a voz e o cerimonial tinham mais conexão com gentileza do que eu imaginava.

Chego, assim, ao tema central deste texto.

Fui instigado a falar sobre ele em um programa de televisão, no Dia Mundial da Gentileza. Recordei imediatamente a rotina do cerimonial, esse conjunto de formalidades que orienta os atos solenes e exige, antes de qualquer protocolo, lidar com seres humanos: autoridades, convidados, pessoas que entram no Palácio Piratini por razões muito distintas.

Lembro do meu amigo e ex-chefe do Cerimonail, Aristides Germani Filho, apresentando as primeiras instruções aos estagiários: “Aqui todo mundo é Senhor e Senhora.”

Era um resumo elegante do ofício de receber: tratar com atenção, preservar a delicadeza, reconhecer o espaço do outro. Em poucas palavras, ser gentil.

Com o tempo, percebi que gentileza funciona como um distintivo social. Ela aproxima da comunicação não violenta, afasta a arrogância e abre espaço para relações mais transparentes. Falar sobre o tema me fez revisitar atitudes que venho praticando nesses anos de trabalho no Palácio do Piratini: acolher quem chega, perceber angústias escondidas nos gestos, manter a relação institucional do Governo firme e respeitosa.

Falar em público também tem sua dose de gentileza. A forma como colocamos a voz revela estados de espírito. Uma articulação clara acolhe; um tom cansado distancia; a irritação fere. A voz, quando bem usada, é uma ponte — e pode ser uma ponte suave.

Gentileza com quem está acima de nós é bom senso. Com quem trabalha ao nosso lado, é cuidado para evitar ressentimentos que se acumulam em silêncio e viram sabotagens involuntárias. Na vida profissional, ela funciona como instrumento discreto e decisivo.

E há um ponto essencial: escutar. Em uma época em que todos falam com absoluta convicção, a escuta virou raridade. Quem escuta exerce gentileza, mesmo quando discorda. A escuta é o gesto mais simples e, ao mesmo tempo, o mais exigente.

Antes de tudo, precisamos ser gentis conosco. Conhecer limites, saber dizer não, recusar a ideia de que ser gentil é agradar a qualquer custo. Gentileza não é submissão. Também não é manipulação. É autoconhecimento e respeito ao espaço do outro.

Ao longo da vida, encontramos pessoas que já nos conhecem e reconhecem nossas intenções. Mas grande parte dos encontros acontece com quem nada sabe sobre nós. E é nesses encontros que a gentileza se torna cartão de visita.

Alguns estudos mostram que pessoas que cultivam a gentileza relatam níveis menores de estresse e até pressão arterial mais baixa. Há pesquisas que relacionam essa prática à ocitocina: o hormônio produzido no hipotálamo, associado ao vínculo e à empatia. É a lógica da velha metáfora:

“Quando acendo a minha vela apagada na tua vela acesa, ninguém perde; todos ganham luz.”

Gentileza é exercício diário, daqueles que amadurecem com o tempo. E, justamente por ser prática contínua, encontra pela frente muita dureza, quase sempre fruto de ignorância, que não escolhe classe social, nível de escolaridade ou aparência.

Platão escreveu que precisamos de graça e gentileza por toda a vida. Concordo.

E se você chegou até aqui, agradeço pela gentileza da leitura!

Christian Müller Jung é publicitário de formação e mestre de cerimônia por profissão. Colabora com o blog do Mílton Jung (de quem é irmão).