Conte Sua História de São Paulo 472 anos: a telefonista que conectava o Brasil

Maria Dusolina Rovina Castro Pereira

Ouvinte da CBN

Foto: Wikipedia/Domínio Público

Comecei a trabalhar aos 12 anos, em Piracicaba, onde morava. Fui babá, manicure, balconista, auxiliar de escritório até que, aos 17, surgiu um teste para telefonista na Companhia Telefônica Brasileira. Passei. Estava ali meu primeiro emprego formal.

Era o fim dos anos 1960. Todas as ligações interurbanas dependiam da intervenção de uma telefonista. Para falar com outra cidade, o usuário ligava para a CTB, informava o destino, o número e o nome da pessoa. Dependendo do local, do horário e da conexão, a ligação podia ser imediata ou entrar numa fila que durava horas — às vezes, dias. De Piracicaba para a Capital, não era diferente.

Com o pedido em mãos, começava nosso trabalho. Muitas conexões passavam por várias cidades. Ainda me lembro que, da nossa mesa de operação para alguma localidade no Mato Grosso, por exemplo, Piracicaba chamava Jaú, que chamava Bauru, que chamava Cuiabá, até chegar ao destino. Tudo era feito manualmente, com plugues — as “pegas” — encaixados em painéis cheios de luzes. As ligações eram caras, cobradas por minuto. Falava-se apenas o necessário.

Com o tempo, desenvolvi uma verdadeira agenda telefônica na cabeça. Muitas vezes eu já sabia o número solicitado antes mesmo de o cliente dizer. Gostava muito da profissão. Trabalhei ali por três anos, enquanto concluía a Escola Normal — o sonho da minha mãe era ter uma filha professora. Depois fiz cursinho para o vestibular. Aprovada, vim para São Paulo com uma bolsa que pagava apenas o pensionato e o transporte. Quando o auxílio terminou, precisei trabalhar para continuar na cidade.

Bati à porta da Telefônica, na Rua Sete de Abril. A recontratação não era comum, mas insisti. Em 1973, já com o DDD implantado em muitos lugares, o sistema era mais ágil. Eu saía da central às 11 da noite e caminhava rápido até a Praça da Sé para pegar o ônibus rumo à Aclimação. Jovem, sozinha, vinda do interior, sentia medo — mesmo numa São Paulo muito mais segura do que hoje.

Fiquei ali por apenas três meses. Fui chamada para trabalhar em um hospital, já na minha área de formação. Cheguei até esse novo emprego de uma forma inusitada, mas isso já é outra história. 

Hoje, quando falamos com o mundo inteiro em segundos, é difícil imaginar o que significava fazer um interurbano. Mas eu — e tantas outras telefonistas — guardamos com carinho a lembrança de uma profissão que ajudou a conectar pessoas, empresas e caminhos de vida na nossa São Paulo.

Ouça o Conte Sua História de São Paulo

Maria Dusolina é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Participe desta série especial em homenagem aos 472 anos da nossa cidade. Envie o seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos visite meu blog miltonjung.com.bre o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Os empregos em alta em 2026 e a habilidade silenciosa que conecta todos eles

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A lista de “Empregos em Alta” do LinkedIn para 2026 confirma algo que já percebíamos nas conversas com executivos e gestores: nenhuma carreira avança sozinha. Tecnologia, finanças, saúde e relações humanas dividem o mesmo palco e a comunicação atravessa todas elas.

As funções ligadas à Inteligência Artificial ocupam o topo da lista. Engenheiros, cientistas de dados e especialistas em modelos generativos passaram de promessa a necessidade diária das empresas. No outro extremo, profissões tradicionais seguem firmes: planejamento financeiro, enfermagem, engenharia de processos e segurança industrial continuam essenciais. A economia muda, mas não abandona suas bases.

Outro destaque é o crescimento dos cargos voltados ao relacionamento. Especialistas em contas e gestores de relações corporativas viraram peças-chave. São eles que evitam ruídos, alinham expectativas e protegem reputações em ambientes mais sensíveis.

Essas três frentes — tecnologia, finanças/saúde e relações humanas — revelam o mesmo padrão: as empresas precisam de profissionais capazes de transformar complexidade em clareza.

E é aqui que a comunicação volta ao centro da conversa.

O engenheiro de IA precisa explicar riscos e limites dos modelos que cria. O planejador financeiro deve traduzir jargões em orientações compreensíveis. O técnico de enfermagem lida diariamente com situações que exigem escuta atenta e empatia. O gestor de relações corporativas sabe que uma frase mal colocada abre conflitos desnecessários.

Comunicação é habilidade transversal. Defendo isso há anos nas palestras e nos livros que escrevo.  Essa lista só reforça a tese. Não importa se você programa máquinas, trata pacientes, conduz investimentos ou negocia contratos: todos estamos sendo convocados a falar melhor, ouvir melhor e traduzir melhor.

O profissional de 2026 precisará unir técnica e clareza; análise e empatia; dados e narrativas. Vence quem conecta. Vence quem simplifica. Vence quem entende que comunicar não é só transmitir informações, mas criar sentido em meio ao barulho constante que nos atravessa.

Comunicar bem é estratégico para crescer na carreira, liderar equipes, tomar decisões inteligentes e navegar num ambiente em que a tecnologia corre à frente e nós tentamos acompanhá-la sem perder o rumo.

Mundo Corporativo: Thiago César, da Samsung, destaca como o marketing precisa se tornar mais humano

Reprodução do vídeo do Mundo Corporativo com Thiago César

“Não adianta mais gritar com campanhas caríssimas se você não tiver um estímulo que seja relevante para o consumidor.”
Thiago César, Samsung

A disputa pela atenção do consumidor nunca foi tão desafiadora. Cercado de telas, mensagens e estímulos, ele tem diante de si inúmeras opções de escolha, mas pouco tempo para se interessar de verdade por uma marca. Nesse cenário, ganha força a necessidade de escutar mais e falar menos. Esse foi um dos temas da conversa com Thiago César, diretor de marketing da divisão de Consumer Electronics da Samsung no Brasil, no programa Mundo Corporativo.

Escuta ativa e microcomunidades

Segundo César, as marcas já não têm o protagonismo que tinham quando bastava colocar uma campanha no ar para impactar grandes audiências. Hoje, a centralidade está no consumidor. “Ou eu escuto de fato o meu consumidor, ou não vou conseguir ser relevante. Se a marca não for relevante, ela vira paisagem.”

Esse processo passa pela análise de comportamentos em pequenos grupos. “Pensar em grandes massas hoje em dia está muito difícil. Você precisa ter claro que existem núcleos, culturas, subculturas que a marca precisa entender para poder chegar mais próximo e relevante ao consumidor.”

Na prática, isso levou a Samsung a reposicionar produtos como a TV The Frame. Mais do que um televisor, o aparelho se tornou parte da decoração da casa, dialogando com artistas e comunidades ligadas à arte. “Deixamos de falar apenas de tecnologia para conversar com microcomunidades que valorizam estética e estilo.”

Reagir rápido e com humildade

Para César, lançar uma campanha não é mais o fim do trabalho, mas o começo. “No momento em que você lança, você vai ouvir, coletar, entender e reagir.” A velocidade da resposta, afirma, pode ser um ativo criativo, já que mostra ao consumidor uma marca atenta ao diálogo.

Ele destaca ainda que admitir erros é parte do processo. “Assumir de maneira humana e visceral quando algo não sai como esperado pode ser tão potente quanto uma campanha caríssima de 60 segundos.”

Inteligência artificial como apoio

Apesar do debate sobre o impacto da inteligência artificial no marketing, César a enxerga como suporte para aprofundar a dimensão humana da comunicação. “Vejo a inteligência artificial muito mais no sentido de nos apoiar a sermos mais humanos. Quando você consegue automatizar parte de um processo de construção de marca ou de leitura de pesquisa, pode focar realmente no que importa: o comportamento das pessoas.”

Essa visão é reforçada pela experiência do executivo ao longo de mais de duas décadas de carreira, em empresas como Itaú, Netflix e, hoje, Samsung. Formado também em psicologia, ele lembra que não se trata apenas de entender dados, mas de compreender os desejos e símbolos que movem escolhas de consumo.

Assista ao Mundo Corporativo

O Mundo Corporativo pode ser assistido, ao vivo, às quartas-feiras, 11 horas da manhã pelo canal da CBN no YouTube. O programa vai ao ar aos sábados, no Jornal da CBN e aos domingos, às 10 da noite, em horário alternativo. Você pode ouvir, também, em podcast.

Colaboram com o Mundo Corporativo: Carlos Grecco, Rafael Furugen, Débora Gonçalves e Letícia Valente.

Dez Por Cento Mais: Gabi Roncatti fala do poder transformador do riso nos hospitais

Foto Divulgação


“O hospital é um palco pouco iluminado, mas grandiosamente iluminado pelo resultado que ele dá.”

Gabi Roncatti

Pode um nariz azul abrir portas que uma expressão séria jamais conseguiria? Para Gabi Roncati, atriz, humorista e fundadora do projeto Humor Riso, essa é uma certeza construída em anos de trabalho em hospitais, onde a arte se transforma em companhia, escuta e cuidado. Gabi leva o riso como terapia a pacientes em situação de fragilidade, transformando ambientes marcados pela dor em espaços de acolhimento. Essa experiência foi o centro da conversa com Abigail Costa no programa Dez Por Cento Mais.

Nariz azul, escuta ativa e um show particular

Formada em risoterapia, Gabi desenvolveu um modo próprio de atuação nos corredores hospitalares. Tudo começa com o respeito: “A gente sempre vai pedir licença para entrar no quarto. Se o paciente disser não, a gente agradece e vai embora. Isso devolve a ele o direito de dizer o que quer.” É o primeiro passo de uma abordagem sensível, pensada em cada detalhe — da maquiagem suave ao nariz azul — para não assustar, mas conectar.

A escuta ativa, mais do que o riso em si, é um dos pilares do trabalho. “Tem dias em que a pessoa só precisa falar. O desabafo já é um alívio enorme. E quando você vê, já está batendo um papo muito mais risonho do que no começo.” Gabi entende que, antes de provocar uma gargalhada, é preciso se fazer presente: “A presença ativa também cura.”

Cada encontro é único. Não há roteiro. “O riso é singular, é cultural. O que funciona com um não funciona com o outro.” É por isso que Gabi prefere dizer que sua metodologia é intuitiva, alimentada por conhecimentos em psicologia, neurociência, arte e espiritualidade. “Eu testo tudo em mim antes de testar nos outros. Acordar sorrindo muda o seu dia. Eu garanto.”

Felicidade é treino

Segundo Gabi, o riso é uma musculação da alma. “Você precisa praticar. Ele pode ser provocado, mesmo sem estímulo externo. Seu cérebro não distingue se é uma risada genuína ou forçada — os benefícios são os mesmos.” E completa: “Se você escolher encarar seus problemas com mau humor, seu dia vai ser insuportável. Se encarar com bom humor, ele vai ser muito mais leve.”

Essa filosofia a acompanha mesmo diante dos momentos mais difíceis. Como quando visitou uma menina em estado terminal que, com esforço, sentou na cama e sorriu. “A mãe dela chorava, emocionada por ver a filha brincar mais uma vez. Isso me marcou profundamente. Às vezes, o que a gente faz ali é só permitir que o último sorriso aconteça.”

Assista ao Dez Por Cento Mais

O Dez Por Cento Mais, apresentado pela jornalista e psicóloga Abigail Costa, pode ser assistido, ao vivo, às quartas-feiras, ao meio-dia, pelo YouTube. Você pode ouvir, também, no Spotify.

Quarenta anos depois

Texto originalmente escrito para o LinkedIN

Faz exatamente 40 anos que subi ao palco do teatro da PUC, em Porto Alegre, para receber meu diploma de jornalista. Era o orador da turma. Na plateia, os amigos, os sonhos e uma esperança desajeitada de quem acreditava que podia mudar o mundo com palavras.

O trabalho de conclusão — aquele que hoje chamariam de TCC — foi escrito em uma Remington verde-clara, no meu quarto, nos fundos da casa onde morava. Um teclado barulhento, sem “desfazer” nem corretor automático. Reescrevi tudo depois que minha orientadora, professora Dóris Hausen, com generosidade e firmeza, apontou: o conteúdo estava ótimo, mas o texto, entregue às pressas, tropeçava nas teclas. Era um documento importante demais para ficar arquivado com erros de datilografia. Eu, mesmo contrariado, datilografei tudo outra vez. Ela tinha razão.

Naquela época, computador era coisa de ficção científica. Celular não existia. Rede social era sinônimo de amigos de verdade — aqueles que nos ajudavam a carregar equipamento, gravar programas no estúdio improvisado da faculdade e, se tudo desse certo, entregar fitas para algum jornalista de rádio ou TV disposto a nos escutar. Distribuir nossas reportagens era um desafio técnico e financeiro. Muitas ficavam guardadas na gaveta, à espera de uma chance.

Hoje, qualquer pessoa pode abrir uma câmera, escrever um texto ou publicar um áudio e alcançar o mundo inteiro. Não precisa mais ser jornalista para contar uma história — e isso, longe de ser uma ameaça, é uma conquista da sociedade. Ganhamos vozes. Ganhamos perspectivas. Perdemos o monopólio da informação, e ainda bem.

Mas justamente porque vivemos mergulhados num tsunami de conteúdos, verdades parciais e versões distorcidas, o jornalismo profissional nunca foi tão necessário. Somos ainda aqueles que vão atrás do que está escondido, que checam antes de publicar, que dão nome aos fatos e contexto às manchetes. Somos os que erram e corrigem. Os que incomodam. Os que resistem.

Quarenta anos depois, ainda carrego o mesmo orgulho daquele diploma. O mesmo compromisso com a ética, com a escuta, com a palavra bem dita. E a mesma certeza de que escolhi o caminho certo — mesmo quando o caminho é difícil.

Afinal, poucas profissões têm o poder de iluminar o mundo com perguntas bem feitas.

Sua Marca Vai Ser Um Sucesso: o uso ético da IA na publicidade é inegociável

Foto de Chee KahHay

A cassação de prêmios concedidos a uma campanha brasileira no Festival de Cannes deste ano acendeu um alerta sobre os limites éticos e a responsabilidade no uso da inteligência artificial na publicidade. A campanha da marca Consul perdeu o Grand Prix e um Leão de Bronze após denúncias e uma investigação da organização, que concluiu que conteúdos gerados por IA simularam eventos e resultados como se fossem reais.

Esse é o tema do comentário de Jaime Troiano e Cecília Russo no quadro Sua Marca Vai Ser Um Sucesso, no Jornal da CBN. O episódio colocou em xeque não apenas a seriedade de uma peça publicitária, mas atingiu a imagem da publicidade brasileira como um todo. “De certa forma, quase que se confirma uma impressão que se tem de que é uma atividade criativa, mas abre mão de ser séria”, afirmou Cecília Russo. Ela também apontou o impacto na imagem do país: “Colocamos luz em traços da nossa identidade nacional que há anos tentamos afastar — de um país menos sério, não confiável”.

Jaime Troiano vê nessa crise uma possível inflexão positiva, ainda que provocada por um tropeço: “O trabalho ficou mais complexo, mas eu acho que vai ficar muito mais sólido, mais profissional”. Para ele, a partir de agora, os anunciantes estarão mais atentos aos cases enviados a festivais e à comunicação cotidiana, exigindo embasamento e idoneidade. Troiano destaca que a inteligência artificial não é o problema em si, mas sim o uso que se faz dela. “A inteligência humana é hoje mais do que nunca necessária. Esse é um grande alerta que a crise de Cannes acabou por estampar”.

A marca do Sua Marca

A mensagem central do comentário é clara: o uso ético da inteligência artificial é inegociável. A credibilidade da publicidade — e da marca — depende do compromisso humano com a verdade, com o caráter e com a responsabilidade profissional. Como resume Cecília Russo, “isso se tornou mandatório agora”.

Ouça o Sua Marca Vai Ser Um Sucesso

O Sua Marca Vai Ser Um Sucesso vai ao ar aos sábados, logo após às 7h50 da manhã, no Jornal da CBN. A apresentação é de Jaime Troiano e Cecília Russo.

A IA chega sem cerimônias: o que restará aos MCs? 

Por Christian Müller Jung

Foto de Allie Reefer

Dizer que a chegada da Inteligência Artificial representa uma mudança no mercado de trabalho é chover no molhado. A essa altura, todos nós já fomos impactados, seja de maneira positiva ou negativa. De um lado, essa tecnologia é bem-vinda: facilita atividades e agiliza processos. De outro, transforma profissões, elimina algumas funções e cria novas.

Tenho me perguntado até onde a IA irá impactar a minha área: a de Mestre de Cerimônias. E, por consequência, o campo em que atuo em conjunto, o cerimonial e o protocolo.

Neste artigo, quero me concentrar apenas na figura do Mestre de Cerimônias.

Vamos lá.

A voz é um ponto crucial na atuação do MC. Ela funciona como uma identidade, quase como uma impressão digital. Lembro sempre daquele velho exemplo do lobo tentando se passar pela vovozinha para enganar a Chapeuzinho Vermelho. Não colou!

Acontece que a IA já consegue estudar nossas características e criar vozes muito convincentes. E aqui encontramos outra área impactada diretamente: locução e dublagem.

Ainda que a IA consiga replicar a voz com perfeição, falta-lhe entender as nuances humanas. As variações de tom estão diretamente ligadas ao que acontece no momento, ao ambiente, à emoção que surge ali, ao vivo, durante uma solenidade.

Além disso, a função de mestre de cerimônias exige percepção aguçada para ler o público. Na relação humana, conseguimos captar se um conteúdo agrada ou não, se a forma como atuamos está de acordo com o que o público espera. Muitas vezes, basta um olhar rápido para perceber. Claro que, pensando em tecnologia e no potencial de aprendizado da IA, é possível imaginar que, num futuro próximo, ela também consiga fazer essa leitura. Mas ainda não.

Outro ponto dessa tecnologia que poderia ser vantajoso — se é que podemos dizer assim — é que a IA não se cansa. É constante, não lida com exaustão, problemas pessoais ou variações de temperatura. Poderia ser utilizada em vários lugares ao mesmo tempo, eliminando conflitos de agenda. Além disso, seria uma opção interessante do ponto de vista de custo-benefício.

Porém, como toda tecnologia, está sujeita a falhas — assim como o microfone que não funciona, o vídeo que trava ou o gerador que falha bem na hora do evento. E isso é algo que já vivi algumas vezes.

Lembro do dia em que tivemos de conduzir uma solenidade sem equipamento de áudio, porque alguém teve a brilhante ideia de montar o palco ao lado de uma UTI do hospital. O evento aconteceu “a capela”.

Em eventos, especialmente no cerimonial público, a improvisação é constante. Falta de equipamento, mudanças de roteiro, alterações na ordem das falas. Coisas que fariam uma IA, mesmo na sua forma mais avançada, questionar em que ano realmente estamos. MC com Inteligência Artificial combina com ambientes totalmente programados, estruturados, preparados para o uso da tecnologia.

Tudo bem, vamos supor um universo perfeito. Ainda assim, acredito que existe algo que mantém os humanos em um patamar acima da IA: a nossa história de vida. Não somos escolhidos apenas por uma voz bonita ou pela clareza na dicção. Somos escolhidos também pelo que carregamos: experiências, memórias, sensibilidade. Moldados por nossos arquétipos.

Reagimos a partir do que vivenciamos. Sabemos, com precisão, o peso de uma perda, a alegria de um nascimento, a força silenciosa de um abraço ou o significado de olhos avermelhados prestes a deixar uma lágrima escorrer.

No meu ponto de vista, a IA não substituirá o Mestre de Cerimônias. Tornar-se-á, isso sim, um excelente assistente, sempre pronto a apoiar e aprender mais.

Existe algo poético no ser humano que nos torna insubstituíveis. Mesmo nossos defeitos e desvios nos fazem únicos. Por sermos falíveis, somos sensíveis, capazes de compreender algo fundamental na relação humana: a empatia.

A despeito de a tecnologia avançar, dar a impressão de que vai “comendo pelas beiradas”, como quem espera a sopa esfriar, nos cabe desenvolver o poder de adaptação e fortalecer as habilidades que nos diferenciam. Afinal, não é de hoje que novas tecnologias causam inquietação. O poeta Mário Quintana já nos alertava sobre um dispositivo essencial para a vida moderna:

“O mais feroz dos animais domésticos é o relógio de parede: conheço um que já devorou três gerações da minha família.”

Christian Müller Jung é publicitário de formação e mestre de cerimônia por profissão. Colabora com o blog do Mílton Jung.

Nos bastidores da política, entre discursos e ações

Por Christian Müller Jung

Trabalhar na política — ou com políticos — me ensinou a relativizar o que se diz e o que, de fato, se faz. Essa é uma constatação que vale tanto para quem ocupa cargos públicos quanto para quem os critica. No ambiente político, a palavra e a prática nem sempre caminham juntas, e essa distância costuma aumentar nos períodos de maior polarização — que, diga-se, sempre existiu, mas ganhou um novo fôlego com o formato inflamável das redes sociais.

É impressionante a quantidade de comentários distorcidos sobre governantes que circulam por aí. E não me refiro apenas aos exageros dos militantes ou às narrativas fabricadas, mas também às críticas mal embasadas, que ignoram a complexidade do processo público. Não estou aqui para defender A ou B. Se boa parte da população pensa mal da política, é porque continua a assistir a verdadeiras barbeiragens administrativas — para não falar das falcatruas escancaradas.

Mesmo assim, a vida em sociedade segue seu curso. E isso só é possível porque há muita gente séria atuando nos bastidores. O problema não está na política em si, nem na função pública, mas na condição humana. A corrupção não nasce do cargo, mas da escolha de quem o ocupa — inclusive de quem julga, acusa e, por vezes, também comete seus deslizes pela vida afora.

Estar próximo do dia a dia político permite enxergar o que muitas vezes passa despercebido: a quantidade de projetos, estudos, articulações e superações de barreiras burocráticas que existem por trás de cada ação governamental. Processos que, idealmente, servem para proteger o contribuinte, mas que, em muitos casos, acabam travando o próprio serviço público. E quando esses projetos chegam à ponta, nem sempre a população percebe sua origem.

Há uma ineficiência estrutural na forma como a política se comunica. As propagandas eleitorais, por exemplo, contribuem pouco para a compreensão do que se faz — e muito para a confusão sobre o que se promete. Parte dessa falha, aliás, vem dos próprios políticos, que, ao assumir o papel de oposição, muitas vezes desconstroem o trabalho de colegas que atuam na mesma esfera. E isso vale, inclusive, para aqueles que já estiveram no poder. É o jogo político. Mas esse jogo, que alimenta uma eleição, também corrói a credibilidade de quem trabalha de verdade.

Aristóteles definia a política como o instrumento para promover a felicidade dos cidadãos. O que vemos hoje, no entanto, é uma performance superficial, marcada por discursos fabricados. Muitos políticos que conheço, com conhecimento técnico e vivência legítima, se transformam em robôs lendo teleprompter — com textos genéricos, escritos por agências que parecem desconectadas da realidade de quem atua na linha de frente.

Esse distanciamento impede que a comunicação política cumpra seu papel: aproximar, esclarecer, criar vínculos. O que chega ao eleitor, no fim das contas, é um discurso raso, repetido ano após ano, como se nada tivesse mudado — ainda que algo tenha mudado. E mesmo quando se apresentam realizações concretas, há sempre quem diga que tudo não passa de autopromoção. A crítica até faz sentido. Mas também revela um paradoxo: para sobreviver na política, é preciso comunicar. E para comunicar, é necessário visibilidade.

No meio disso tudo, há quem siga acreditando que política é, sim, uma ciência nobre — voltada ao bem comum. E que vale a pena dedicar tempo, energia e inteligência para desenvolver programas de governo que façam a diferença na vida das pessoas. O desafio é mostrar isso sem ser engolido pela caricatura do “mais do mesmo”. Porque há uma diferença entre estar na política e fazer política. Quem vive os bastidores sabe.

Christian Müller Jung é publicitário de formação e mestre de cerimônia por profissão. Colabora com o blog do Mílton Jung.

Mundo Corporativo: Carol Dias, da Kraft Heinz, propõe um novo modelo de líderes

Carol Dias na gravação online do Mundo Corporativo Foto: Priscila Gubiotti/CBN

“A gente precisa aprender, reaprender para aprender de novo.”

Carol Dias, Kraft Heinz

A imagem do líder como alguém focado apenas em números, prazos e metas já não se sustenta nas grandes organizações. O que tem ganhado espaço, segundo Carol Dias, diretora de People & Performance da Kraft Heinz Brasil, é um novo modelo de liderança: mais conectado com as pessoas, aberto ao diálogo e consciente de seu papel no desenvolvimento humano.

Liderar é inspirar, não apenas gerir

Na entrevista ao Mundo Corporativo, da CBN, Carol defende que, embora a gestão continue sendo necessária, o verdadeiro papel do líder está na capacidade de impulsionar pessoas. “Você convida as pessoas a fazerem a gestão junto com você, mas o seu foco tem que ser muito mais na conversa, em como impulsionar os outros a pensarem diferente.”

Esse novo líder precisa desenvolver competências socioemocionais, como presença, atitude e resiliência. “Não dá mais para separar a pessoa que está em casa daquela que está no trabalho”, diz Carol, ao apontar a importância da autenticidade no ambiente corporativo.

A Kraft Heinz tem apostado em três pilares para construir esse perfil de liderança: mentorias estruturadas, projetos de autoconhecimento e repertório ampliado por meio de experiências diversas. “É difícil exigir de uma liderança algo que ela ainda não tem. Por isso, é preciso oferecer suporte, formação e espaço para crescimento.”

A Amazônia como sala de aula

Um dos exemplos marcantes trazidos por Carol foi o projeto Liderança do Futuro, que levou executivos da empresa para uma imersão de cinco dias na Amazônia. O objetivo não era apenas desconectar do cotidiano — mas reconectar-se com a própria humanidade. “Você sai do WhatsApp, do e-mail e passa a se observar, a entender como se comunica e como se relaciona com o outro”, contou.

Segundo ela, essa vivência fortaleceu o pilar do autoconhecimento e ofereceu uma nova perspectiva sobre o papel da liderança no mundo. “A gente começou a perguntar: você é líder só da sua equipe ou também da sua família, dos seus amigos, da sociedade?”

Diversidade, tecnologia e o desafio de ser mais humano

Na conversa, Carol também abordou o compromisso com diversidade e inclusão. “Ter diversidade sem inclusão não basta. É preciso letramento, representatividade e políticas claras desde o processo de recrutamento.” Para ela, diversidade é um caminho para a performance: “Você só consegue provocar e inovar quando convive com o diferente.”

Outro ponto discutido foi o papel da inteligência artificial nas estratégias corporativas. Carol vê a tecnologia como aliada: “Ela vai liberar tempo para que possamos ter outro tipo de conversa — mais humana e mais estratégica. O desafio não é a IA. O desafio é o que vamos fazer com esse tempo que ela nos devolve.”

Ao final, deixou um recado direto aos jovens que ingressam no mercado: “Não se distraiam achando que já sabem tudo. Tenham humildade cognitiva para estar sempre curiosos e a disciplina para aprender algo novo.”

Assista ao Mundo Corporativo


O Mundo Corporativo pode ser assistido, ao vivo, às quartas-feiras, 11 horas da manhã pelo canal da CBN no YouTube. O programa vai ao ar aos sábados, no Jornal da CBN e aos domingos, às 10 da noite, em horário alternativo. Você pode ouvir, também, em podcast.
Colaboram com o Mundo Corporativo: Carlos Grecco, Rafael Furugen, Débora Gonçalves e Letícia Valente.

Francisco, o papa que falava como a gente

“A beleza da vida nos pequenos gestos de amor.” Essas palavras encerraram, simbolicamente, a trajetória pública de Francisco. Estavam na mensagem de Páscoa escrita por ele, lida pelo cardeal Angelo Comastri, ao fim da missa celebrada neste domingo na Praça de São Pedro. Francisco, já enfraquecido, apareceu na sacada da Basílica, acenou para os fiéis, abençoou a multidão e disse com voz baixa, mas firme: “Caros irmãos e irmãs, Boa Páscoa”. Pediu então que um colaborador lesse o restante do discurso, no qual abordava temas centrais de seu papado: a defesa da paz, o combate à desigualdade, a liberdade de expressão e a solidariedade com os que sofrem.

Mesmo sem conseguir conduzir pessoalmente a celebração, o gesto de aparecer, cumprimentar e se mostrar presente foi, em si, um ato de comunicação — e coerência. Francisco sempre entendeu que a força de uma liderança está tanto na palavra quanto no silêncio; tanto no que se diz quanto no modo como se diz.

O papa que morreu nesta segunda-feira (21), aos 88 anos, não será lembrado apenas pelas reformas internas ou pelas viagens internacionais. Seu legado está profundamente vinculado à forma como se comunicava. Francisco não discursava do alto de um púlpito inatingível. Preferia a conversa direta, o tom acolhedor, a linguagem acessível. Não erguia muralhas com palavras. Construía pontes. Ligava o sagrado ao cotidiano, a doutrina à vida, o Vaticano ao povo.

Ao contrário de seu antecessor, que simbolizava uma Igreja marcada por ostentação, lentidão, burocracia e subordinação, Francisco comunicava com o corpo o que pregava com a voz: simplicidade, agilidade, bom senso, liderança. A imagem de Bento XVI remetia à autoridade cerimonial. A de Francisco, à autoridade carismática. Um parecia paramentado pelo peso da tradição; o outro, leve — mesmo carregando nos ombros o peso do mundo.

Sua escolha de nome foi uma declaração de intenções. Ao adotar “Francisco”, evocou o santo de Assis: humilde, avesso a ostentações, comprometido com os pobres e com o diálogo. Era uma forma de dizer ao mundo: a Igreja precisava se reconectar com a essência da fé. E ele fez isso em gestos, mais do que em decretos. Recusou o trono dourado, escolheu viver na Casa Santa Marta, lavou os pés de presidiários, visitou refugiados e distribuiu doces para crianças — como fez, inclusive, poucos dias antes de morrer.

Em sua autobiografia, Esperança, publicada pouco antes da morte, Francisco revelou-se ainda mais transparente. Quis deixar, com as próprias palavras, um legado que não fosse um dogma, mas um testemunho. Falou de futebol e de fé, de chocolate e de política, de amor e de morte. Citou Borges, Bauman, Brecht e Baden Powell. Deu à palavra pontífice — aquele que constrói pontes — sua tradução mais literal.

Ao escrever sobre si mesmo, escreveu sobre todos. E nos lembrou que a autoridade espiritual não está em falar alto, mas em ser compreendido.