Sempre atento ao que sua área de marketing e comunicação indicam, o prefeito Gilberto Kassab (DEM) errou feio na administração da crise provocada pela enxurrada das últimas semanas. Demorou para reagir no dia do temporal que parou a cidade a ponto de ter aceitado participar de evento de lançamento do torneio internacional de futebol feminino, enquanto milhares de paulistanos eram reféns da falta de estrutura da cidade. Ao falar, já quase ao meio-dia quando boa parte dos moradores havia perdido a terça-feira, tentou negar o que as imagens escandalosamente mostravam na televisão: a cidade vivia um caos.
Dias depois, novo tropeço de comunicação. Abandonou o Jardim Pantanal a sua própria sorte e ao ser cobrado pela sua ausência justificou que havia visitado a área três vezes. De helicóptero. Pior é que olhando lá de cima, avaliou errado ao sugerir uma impossível estratégia de sugar a água que teve de ser cancelada um dia após sugerida.
“Economista e engenheiro, Kassab reagiu de acordo com os parâmetros dessas profissões e com a mentalidade de sua classe social. Ao fazê-lo, expôs o abismo que não raro separa o poder e o povo”
A opinião é do professor da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP José de Souza Martins publicada em artigo no caderno Aliás, do jornal O Estado de São Paulo, deste domingo.
Martins também compara o comportamento de Kassab com o do presidente Lula que disse querer “tirar o povo da merda”, durante evento em São Luis do Maranhão, tendo sido ovacionado apesar de se valer de expressão pouco apropriada para o discurso do maior mandante do País .
“Kassab se revelou mau ator porque seguiu à risca o roteiro de seu desempenho como prefeito, pois não compreendeu em tempo que o cenário havia sido mudado, dominado agora pelas apreensões e emoções do desastre. Nem sempre os governantes entendem com a rapidez necessária a pauta cambiante do poder para falar e agir de conformidade com a conduta que o momento pede e a única que pode ter sentido naquela circunstância. Lula, por seu lado, revelou-se bom ator, ainda que incorreto na expressão que usou, justamente porque violou o roteiro prescrito para quem governa”.
O prefeito de São Paulo cometeu o mesmo erro de sua antecessora Marta Suplicy (PT) que no último ano de governo, em 2004, estava de férias em Paris, enquanto a cidade encarava mais um dia de enchente. Uma falha de comportamento inexplicável para a administradora que antes era elogiada por suas aparições nos cenários de crise: incêndio em favela, bairro alagado ou deslizamentos de terra.
Apenas para continuarmos em São Paulo, o governador José Serra (PSDB) também foi cobrado pelo sumiço no combate a crise no Jardim Pantanal atingido pelas águas do Tietê e pela ineficiência da Sabesp. Tinha a desculpa de que estava na Conferência do Clima, em Compenhangen, Dinamarca. Não devemos nos esquecer, porém, que em seu primeiro mês de governo também pecou pela ausência durante o acidente que matou sete pessoas no Metrô, em Pinheiros. Demorou mais de 24 horas para deixar o Palácio dos Bandeirantes e descer até o local da tragédia ali pertinho.



