Quarenta anos depois

Texto originalmente escrito para o LinkedIN

Faz exatamente 40 anos que subi ao palco do teatro da PUC, em Porto Alegre, para receber meu diploma de jornalista. Era o orador da turma. Na plateia, os amigos, os sonhos e uma esperança desajeitada de quem acreditava que podia mudar o mundo com palavras.

O trabalho de conclusão — aquele que hoje chamariam de TCC — foi escrito em uma Remington verde-clara, no meu quarto, nos fundos da casa onde morava. Um teclado barulhento, sem “desfazer” nem corretor automático. Reescrevi tudo depois que minha orientadora, professora Dóris Hausen, com generosidade e firmeza, apontou: o conteúdo estava ótimo, mas o texto, entregue às pressas, tropeçava nas teclas. Era um documento importante demais para ficar arquivado com erros de datilografia. Eu, mesmo contrariado, datilografei tudo outra vez. Ela tinha razão.

Naquela época, computador era coisa de ficção científica. Celular não existia. Rede social era sinônimo de amigos de verdade — aqueles que nos ajudavam a carregar equipamento, gravar programas no estúdio improvisado da faculdade e, se tudo desse certo, entregar fitas para algum jornalista de rádio ou TV disposto a nos escutar. Distribuir nossas reportagens era um desafio técnico e financeiro. Muitas ficavam guardadas na gaveta, à espera de uma chance.

Hoje, qualquer pessoa pode abrir uma câmera, escrever um texto ou publicar um áudio e alcançar o mundo inteiro. Não precisa mais ser jornalista para contar uma história — e isso, longe de ser uma ameaça, é uma conquista da sociedade. Ganhamos vozes. Ganhamos perspectivas. Perdemos o monopólio da informação, e ainda bem.

Mas justamente porque vivemos mergulhados num tsunami de conteúdos, verdades parciais e versões distorcidas, o jornalismo profissional nunca foi tão necessário. Somos ainda aqueles que vão atrás do que está escondido, que checam antes de publicar, que dão nome aos fatos e contexto às manchetes. Somos os que erram e corrigem. Os que incomodam. Os que resistem.

Quarenta anos depois, ainda carrego o mesmo orgulho daquele diploma. O mesmo compromisso com a ética, com a escuta, com a palavra bem dita. E a mesma certeza de que escolhi o caminho certo — mesmo quando o caminho é difícil.

Afinal, poucas profissões têm o poder de iluminar o mundo com perguntas bem feitas.

Sua Marca Vai Ser Um Sucesso: o uso ético da IA na publicidade é inegociável

Foto de Chee KahHay

A cassação de prêmios concedidos a uma campanha brasileira no Festival de Cannes deste ano acendeu um alerta sobre os limites éticos e a responsabilidade no uso da inteligência artificial na publicidade. A campanha da marca Consul perdeu o Grand Prix e um Leão de Bronze após denúncias e uma investigação da organização, que concluiu que conteúdos gerados por IA simularam eventos e resultados como se fossem reais.

Esse é o tema do comentário de Jaime Troiano e Cecília Russo no quadro Sua Marca Vai Ser Um Sucesso, no Jornal da CBN. O episódio colocou em xeque não apenas a seriedade de uma peça publicitária, mas atingiu a imagem da publicidade brasileira como um todo. “De certa forma, quase que se confirma uma impressão que se tem de que é uma atividade criativa, mas abre mão de ser séria”, afirmou Cecília Russo. Ela também apontou o impacto na imagem do país: “Colocamos luz em traços da nossa identidade nacional que há anos tentamos afastar — de um país menos sério, não confiável”.

Jaime Troiano vê nessa crise uma possível inflexão positiva, ainda que provocada por um tropeço: “O trabalho ficou mais complexo, mas eu acho que vai ficar muito mais sólido, mais profissional”. Para ele, a partir de agora, os anunciantes estarão mais atentos aos cases enviados a festivais e à comunicação cotidiana, exigindo embasamento e idoneidade. Troiano destaca que a inteligência artificial não é o problema em si, mas sim o uso que se faz dela. “A inteligência humana é hoje mais do que nunca necessária. Esse é um grande alerta que a crise de Cannes acabou por estampar”.

A marca do Sua Marca

A mensagem central do comentário é clara: o uso ético da inteligência artificial é inegociável. A credibilidade da publicidade — e da marca — depende do compromisso humano com a verdade, com o caráter e com a responsabilidade profissional. Como resume Cecília Russo, “isso se tornou mandatório agora”.

Ouça o Sua Marca Vai Ser Um Sucesso

O Sua Marca Vai Ser Um Sucesso vai ao ar aos sábados, logo após às 7h50 da manhã, no Jornal da CBN. A apresentação é de Jaime Troiano e Cecília Russo.

A IA chega sem cerimônias: o que restará aos MCs? 

Por Christian Müller Jung

Foto de Allie Reefer

Dizer que a chegada da Inteligência Artificial representa uma mudança no mercado de trabalho é chover no molhado. A essa altura, todos nós já fomos impactados, seja de maneira positiva ou negativa. De um lado, essa tecnologia é bem-vinda: facilita atividades e agiliza processos. De outro, transforma profissões, elimina algumas funções e cria novas.

Tenho me perguntado até onde a IA irá impactar a minha área: a de Mestre de Cerimônias. E, por consequência, o campo em que atuo em conjunto, o cerimonial e o protocolo.

Neste artigo, quero me concentrar apenas na figura do Mestre de Cerimônias.

Vamos lá.

A voz é um ponto crucial na atuação do MC. Ela funciona como uma identidade, quase como uma impressão digital. Lembro sempre daquele velho exemplo do lobo tentando se passar pela vovozinha para enganar a Chapeuzinho Vermelho. Não colou!

Acontece que a IA já consegue estudar nossas características e criar vozes muito convincentes. E aqui encontramos outra área impactada diretamente: locução e dublagem.

Ainda que a IA consiga replicar a voz com perfeição, falta-lhe entender as nuances humanas. As variações de tom estão diretamente ligadas ao que acontece no momento, ao ambiente, à emoção que surge ali, ao vivo, durante uma solenidade.

Além disso, a função de mestre de cerimônias exige percepção aguçada para ler o público. Na relação humana, conseguimos captar se um conteúdo agrada ou não, se a forma como atuamos está de acordo com o que o público espera. Muitas vezes, basta um olhar rápido para perceber. Claro que, pensando em tecnologia e no potencial de aprendizado da IA, é possível imaginar que, num futuro próximo, ela também consiga fazer essa leitura. Mas ainda não.

Outro ponto dessa tecnologia que poderia ser vantajoso — se é que podemos dizer assim — é que a IA não se cansa. É constante, não lida com exaustão, problemas pessoais ou variações de temperatura. Poderia ser utilizada em vários lugares ao mesmo tempo, eliminando conflitos de agenda. Além disso, seria uma opção interessante do ponto de vista de custo-benefício.

Porém, como toda tecnologia, está sujeita a falhas — assim como o microfone que não funciona, o vídeo que trava ou o gerador que falha bem na hora do evento. E isso é algo que já vivi algumas vezes.

Lembro do dia em que tivemos de conduzir uma solenidade sem equipamento de áudio, porque alguém teve a brilhante ideia de montar o palco ao lado de uma UTI do hospital. O evento aconteceu “a capela”.

Em eventos, especialmente no cerimonial público, a improvisação é constante. Falta de equipamento, mudanças de roteiro, alterações na ordem das falas. Coisas que fariam uma IA, mesmo na sua forma mais avançada, questionar em que ano realmente estamos. MC com Inteligência Artificial combina com ambientes totalmente programados, estruturados, preparados para o uso da tecnologia.

Tudo bem, vamos supor um universo perfeito. Ainda assim, acredito que existe algo que mantém os humanos em um patamar acima da IA: a nossa história de vida. Não somos escolhidos apenas por uma voz bonita ou pela clareza na dicção. Somos escolhidos também pelo que carregamos: experiências, memórias, sensibilidade. Moldados por nossos arquétipos.

Reagimos a partir do que vivenciamos. Sabemos, com precisão, o peso de uma perda, a alegria de um nascimento, a força silenciosa de um abraço ou o significado de olhos avermelhados prestes a deixar uma lágrima escorrer.

No meu ponto de vista, a IA não substituirá o Mestre de Cerimônias. Tornar-se-á, isso sim, um excelente assistente, sempre pronto a apoiar e aprender mais.

Existe algo poético no ser humano que nos torna insubstituíveis. Mesmo nossos defeitos e desvios nos fazem únicos. Por sermos falíveis, somos sensíveis, capazes de compreender algo fundamental na relação humana: a empatia.

A despeito de a tecnologia avançar, dar a impressão de que vai “comendo pelas beiradas”, como quem espera a sopa esfriar, nos cabe desenvolver o poder de adaptação e fortalecer as habilidades que nos diferenciam. Afinal, não é de hoje que novas tecnologias causam inquietação. O poeta Mário Quintana já nos alertava sobre um dispositivo essencial para a vida moderna:

“O mais feroz dos animais domésticos é o relógio de parede: conheço um que já devorou três gerações da minha família.”

Christian Müller Jung é publicitário de formação e mestre de cerimônia por profissão. Colabora com o blog do Mílton Jung.

Nos bastidores da política, entre discursos e ações

Por Christian Müller Jung

Trabalhar na política — ou com políticos — me ensinou a relativizar o que se diz e o que, de fato, se faz. Essa é uma constatação que vale tanto para quem ocupa cargos públicos quanto para quem os critica. No ambiente político, a palavra e a prática nem sempre caminham juntas, e essa distância costuma aumentar nos períodos de maior polarização — que, diga-se, sempre existiu, mas ganhou um novo fôlego com o formato inflamável das redes sociais.

É impressionante a quantidade de comentários distorcidos sobre governantes que circulam por aí. E não me refiro apenas aos exageros dos militantes ou às narrativas fabricadas, mas também às críticas mal embasadas, que ignoram a complexidade do processo público. Não estou aqui para defender A ou B. Se boa parte da população pensa mal da política, é porque continua a assistir a verdadeiras barbeiragens administrativas — para não falar das falcatruas escancaradas.

Mesmo assim, a vida em sociedade segue seu curso. E isso só é possível porque há muita gente séria atuando nos bastidores. O problema não está na política em si, nem na função pública, mas na condição humana. A corrupção não nasce do cargo, mas da escolha de quem o ocupa — inclusive de quem julga, acusa e, por vezes, também comete seus deslizes pela vida afora.

Estar próximo do dia a dia político permite enxergar o que muitas vezes passa despercebido: a quantidade de projetos, estudos, articulações e superações de barreiras burocráticas que existem por trás de cada ação governamental. Processos que, idealmente, servem para proteger o contribuinte, mas que, em muitos casos, acabam travando o próprio serviço público. E quando esses projetos chegam à ponta, nem sempre a população percebe sua origem.

Há uma ineficiência estrutural na forma como a política se comunica. As propagandas eleitorais, por exemplo, contribuem pouco para a compreensão do que se faz — e muito para a confusão sobre o que se promete. Parte dessa falha, aliás, vem dos próprios políticos, que, ao assumir o papel de oposição, muitas vezes desconstroem o trabalho de colegas que atuam na mesma esfera. E isso vale, inclusive, para aqueles que já estiveram no poder. É o jogo político. Mas esse jogo, que alimenta uma eleição, também corrói a credibilidade de quem trabalha de verdade.

Aristóteles definia a política como o instrumento para promover a felicidade dos cidadãos. O que vemos hoje, no entanto, é uma performance superficial, marcada por discursos fabricados. Muitos políticos que conheço, com conhecimento técnico e vivência legítima, se transformam em robôs lendo teleprompter — com textos genéricos, escritos por agências que parecem desconectadas da realidade de quem atua na linha de frente.

Esse distanciamento impede que a comunicação política cumpra seu papel: aproximar, esclarecer, criar vínculos. O que chega ao eleitor, no fim das contas, é um discurso raso, repetido ano após ano, como se nada tivesse mudado — ainda que algo tenha mudado. E mesmo quando se apresentam realizações concretas, há sempre quem diga que tudo não passa de autopromoção. A crítica até faz sentido. Mas também revela um paradoxo: para sobreviver na política, é preciso comunicar. E para comunicar, é necessário visibilidade.

No meio disso tudo, há quem siga acreditando que política é, sim, uma ciência nobre — voltada ao bem comum. E que vale a pena dedicar tempo, energia e inteligência para desenvolver programas de governo que façam a diferença na vida das pessoas. O desafio é mostrar isso sem ser engolido pela caricatura do “mais do mesmo”. Porque há uma diferença entre estar na política e fazer política. Quem vive os bastidores sabe.

Christian Müller Jung é publicitário de formação e mestre de cerimônia por profissão. Colabora com o blog do Mílton Jung.

Mundo Corporativo: Carol Dias, da Kraft Heinz, propõe um novo modelo de líderes

Carol Dias na gravação online do Mundo Corporativo Foto: Priscila Gubiotti/CBN

“A gente precisa aprender, reaprender para aprender de novo.”

Carol Dias, Kraft Heinz

A imagem do líder como alguém focado apenas em números, prazos e metas já não se sustenta nas grandes organizações. O que tem ganhado espaço, segundo Carol Dias, diretora de People & Performance da Kraft Heinz Brasil, é um novo modelo de liderança: mais conectado com as pessoas, aberto ao diálogo e consciente de seu papel no desenvolvimento humano.

Liderar é inspirar, não apenas gerir

Na entrevista ao Mundo Corporativo, da CBN, Carol defende que, embora a gestão continue sendo necessária, o verdadeiro papel do líder está na capacidade de impulsionar pessoas. “Você convida as pessoas a fazerem a gestão junto com você, mas o seu foco tem que ser muito mais na conversa, em como impulsionar os outros a pensarem diferente.”

Esse novo líder precisa desenvolver competências socioemocionais, como presença, atitude e resiliência. “Não dá mais para separar a pessoa que está em casa daquela que está no trabalho”, diz Carol, ao apontar a importância da autenticidade no ambiente corporativo.

A Kraft Heinz tem apostado em três pilares para construir esse perfil de liderança: mentorias estruturadas, projetos de autoconhecimento e repertório ampliado por meio de experiências diversas. “É difícil exigir de uma liderança algo que ela ainda não tem. Por isso, é preciso oferecer suporte, formação e espaço para crescimento.”

A Amazônia como sala de aula

Um dos exemplos marcantes trazidos por Carol foi o projeto Liderança do Futuro, que levou executivos da empresa para uma imersão de cinco dias na Amazônia. O objetivo não era apenas desconectar do cotidiano — mas reconectar-se com a própria humanidade. “Você sai do WhatsApp, do e-mail e passa a se observar, a entender como se comunica e como se relaciona com o outro”, contou.

Segundo ela, essa vivência fortaleceu o pilar do autoconhecimento e ofereceu uma nova perspectiva sobre o papel da liderança no mundo. “A gente começou a perguntar: você é líder só da sua equipe ou também da sua família, dos seus amigos, da sociedade?”

Diversidade, tecnologia e o desafio de ser mais humano

Na conversa, Carol também abordou o compromisso com diversidade e inclusão. “Ter diversidade sem inclusão não basta. É preciso letramento, representatividade e políticas claras desde o processo de recrutamento.” Para ela, diversidade é um caminho para a performance: “Você só consegue provocar e inovar quando convive com o diferente.”

Outro ponto discutido foi o papel da inteligência artificial nas estratégias corporativas. Carol vê a tecnologia como aliada: “Ela vai liberar tempo para que possamos ter outro tipo de conversa — mais humana e mais estratégica. O desafio não é a IA. O desafio é o que vamos fazer com esse tempo que ela nos devolve.”

Ao final, deixou um recado direto aos jovens que ingressam no mercado: “Não se distraiam achando que já sabem tudo. Tenham humildade cognitiva para estar sempre curiosos e a disciplina para aprender algo novo.”

Assista ao Mundo Corporativo


O Mundo Corporativo pode ser assistido, ao vivo, às quartas-feiras, 11 horas da manhã pelo canal da CBN no YouTube. O programa vai ao ar aos sábados, no Jornal da CBN e aos domingos, às 10 da noite, em horário alternativo. Você pode ouvir, também, em podcast.
Colaboram com o Mundo Corporativo: Carlos Grecco, Rafael Furugen, Débora Gonçalves e Letícia Valente.

Francisco, o papa que falava como a gente

“A beleza da vida nos pequenos gestos de amor.” Essas palavras encerraram, simbolicamente, a trajetória pública de Francisco. Estavam na mensagem de Páscoa escrita por ele, lida pelo cardeal Angelo Comastri, ao fim da missa celebrada neste domingo na Praça de São Pedro. Francisco, já enfraquecido, apareceu na sacada da Basílica, acenou para os fiéis, abençoou a multidão e disse com voz baixa, mas firme: “Caros irmãos e irmãs, Boa Páscoa”. Pediu então que um colaborador lesse o restante do discurso, no qual abordava temas centrais de seu papado: a defesa da paz, o combate à desigualdade, a liberdade de expressão e a solidariedade com os que sofrem.

Mesmo sem conseguir conduzir pessoalmente a celebração, o gesto de aparecer, cumprimentar e se mostrar presente foi, em si, um ato de comunicação — e coerência. Francisco sempre entendeu que a força de uma liderança está tanto na palavra quanto no silêncio; tanto no que se diz quanto no modo como se diz.

O papa que morreu nesta segunda-feira (21), aos 88 anos, não será lembrado apenas pelas reformas internas ou pelas viagens internacionais. Seu legado está profundamente vinculado à forma como se comunicava. Francisco não discursava do alto de um púlpito inatingível. Preferia a conversa direta, o tom acolhedor, a linguagem acessível. Não erguia muralhas com palavras. Construía pontes. Ligava o sagrado ao cotidiano, a doutrina à vida, o Vaticano ao povo.

Ao contrário de seu antecessor, que simbolizava uma Igreja marcada por ostentação, lentidão, burocracia e subordinação, Francisco comunicava com o corpo o que pregava com a voz: simplicidade, agilidade, bom senso, liderança. A imagem de Bento XVI remetia à autoridade cerimonial. A de Francisco, à autoridade carismática. Um parecia paramentado pelo peso da tradição; o outro, leve — mesmo carregando nos ombros o peso do mundo.

Sua escolha de nome foi uma declaração de intenções. Ao adotar “Francisco”, evocou o santo de Assis: humilde, avesso a ostentações, comprometido com os pobres e com o diálogo. Era uma forma de dizer ao mundo: a Igreja precisava se reconectar com a essência da fé. E ele fez isso em gestos, mais do que em decretos. Recusou o trono dourado, escolheu viver na Casa Santa Marta, lavou os pés de presidiários, visitou refugiados e distribuiu doces para crianças — como fez, inclusive, poucos dias antes de morrer.

Em sua autobiografia, Esperança, publicada pouco antes da morte, Francisco revelou-se ainda mais transparente. Quis deixar, com as próprias palavras, um legado que não fosse um dogma, mas um testemunho. Falou de futebol e de fé, de chocolate e de política, de amor e de morte. Citou Borges, Bauman, Brecht e Baden Powell. Deu à palavra pontífice — aquele que constrói pontes — sua tradução mais literal.

Ao escrever sobre si mesmo, escreveu sobre todos. E nos lembrou que a autoridade espiritual não está em falar alto, mas em ser compreendido.

O que a IA não sabe sobre a linguagem humana

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A linguagem é a morada do ser”, escreveu o filósofo Martin Heidegger, e poucos conceitos me parecem tão essenciais quanto este. Nossa relação com as palavras define o mundo que habitamos. Elas moldam nosso pensamento, aproximam ou afastam, constroem e destroem. São, ao mesmo tempo, ferramenta e espelho de quem somos. Talvez por isso eu tenha ficado tão surpreso ao ler uma reportagem do jornal La Nación, publicada em janeiro, sobre uma análise de inteligência artificial que classificou ‘basicamente’, ‘óbvio’ e ‘simplesmente’ como três das seis palavras usadas por pessoas com menor capacidade intelectual.

Basicamente, fiquei perplexo.

Óbvio que fui conferir se havia algum fundamento na pesquisa.

Simplesmente, não encontrei.

A reportagem afirma que essas palavras são usadas por pessoas ‘menos inteligentes’ ou que tendem a fazer generalizações constantes sobre tópicos que não conhecem.

Fiquei imaginando um escritor, um professor ou até um grande cientista sendo julgado por um algoritmo por ousar resumir uma ideia com um ‘basicamente’. Será que Stephen Hawking jamais teria usado um ‘simplesmente’ para tornar uma explicação mais acessível? Ou será que Einstein, entre suas reflexões sobre espaço e tempo, nunca disse que algo era ‘óbvio’?

Intrigado, e nada convencido, busquei nos textos de meu poeta preferido argumentos para derrubar essa “tese artificial”.  Abri o arquivo com as poesias completas de Mário Quintana, um mestre das palavras simples e profundas. Passei os olhos pelas páginas (de verdade, usei o recurso de busca de meu computador) e lá estava ela: ‘simplesmente’. Não uma, nem duas, mas 59 vezes. E em um de seus versos, a palavra surge duas vezes, com uma força que só a poesia é capaz de dar:

A arte de viver
É simplesmente a arte de conviver…
Simplesmente, disse eu?
Mas como é difícil! …

Se ‘simplesmente’ fosse um indicador de menor capacidade cognitiva, teríamos que reavaliar a genialidade de Quintana. Mas a verdade é que vivemos uma época em que dados são tratados como verdades absolutas e, pior, quando esses dados vêm de uma inteligência artificial, a tendência é aceitar sem questionar. Se a IA afirma, deve ser real. Se uma análise estatística sugere um padrão, deve haver um significado profundo. Mas, na pressa de transformar palavras em evidências de QI, esquecemos que a linguagem não é uma equação. Ela é viva, mutável, cheia de nuances que nenhum algoritmo consegue capturar por completo.

E, por favor, não me entendam mal. O avanço da inteligência artificial é fascinante. Mas precisamos lembrar que, no fim das contas, a máquina só reflete aquilo que ensinamos a ela. Se dermos a ela um dicionário reduzido, ela nos devolverá uma visão limitada. Se programarmos para que encontre padrões onde eles não existem, ela os criará.

As palavras, todas elas, são bem-vindas. Desde que usadas apropriadamente, não há expressão inútil, insignificante ou indigna. O segredo não está em proibi-las, mas em saber quando e como utilizá-las. Porque o que define nossa inteligência não é a palavra que escolhemos, mas o pensamento que conseguimos expressar com ela. 

O poder da comunicação verbal

Na certificação internacional de comunicação estratégica, que apresento em parceria com a WCES, a importância da palavra bem dita é um dos destaques quando falamos dos três recursos da comunicação: o verbal, o não verbal e o vocal. 

Participe do nosso curso, on-line; faça agora sua inscrição e se surpreenda com o potencial da sua comunicação.

O impacto da IA na comunicação

Na edição revista e ampliada de “Escute, expresse e fale – domine a comunicação e seja um líder poderoso”, analisamos o impacto que a IA tem na comunicação e na forma como os líderes fazem a gestão de suas equipes nas empresas. A nova versão do livro escrito por mim, António Sacavém, Leny Kyrillos e Thomas Brieu está disponível no site da editora Rocco.

O que The Bear nos ensina sobre escutar e falar

Cheguei tarde à série de TV The Bear (O Urso), uma das mais premiadas dos últimos anos. Antes tarde do que nunca. Aproveitei as férias e engatei um capítulo após o outro. Adorei o que assisti. Cheguei nesta semana ao fim da terceira temporada e alguém me contou que a quarta está prestes a estrear. Haja ansiedade! 

Não me atrevo a uma sinopse, menos ainda a uma crítica sobre a qualidade do trabalho do roteirista, produtor e diretor Christopher Storer e do elenco que reuniu. Os muitos prêmio que a série recebeu falam por si. Trago para esse espaço a experiência que tive ao assistir The Bear e dividir com você duas lições que considero fundamentais para uma comunicação qualificada. Ambas aparecem no capítulo em que o restaurante The Bear vai inaugurar, na segunda temporada.

A equipe se reúne para ouvir as orientações antes da abertura das portas. É uma espécie de preleção para motivar e alinhar todos com o padrão de excelência no atendimento que buscam alcançar. Richie, interpretado pelo ator Ebon Moss-Bachrach, responsável pelo salão, faz um pergunta instigante: o que Vasudeva disse a Sidarta, às margens do rio Ganges? Uma referência ao romance de  Herman Hesse, de 1922, que nos convida a refletir sobre escolhas, desapegos e caminhos que nos levam à sabedoria. 

Diante dos olhares de dúvida da equipe, Richie responde com a frase de Vasudeva: “Listen better” ou “escute melhor”. No livro, Sidarta percebe que a verdadeira sabedoria não se ensina com palavras, mas se vive e se sente. A escuta, nesse contexto, é uma metáfora para a abertura interior necessária ao autoconhecimento. No seriado, a intenção é mais prática:os funcionários devem devem escutar os clientes não apenas pelas palavras, mas pelas atitudes e reações. 

A prática da escuta é transformadora nas relações interpessoais. Arrisco dizer: é diferencial competitivo. Quando você aceita escutar o outro, se diferencia, aprende mais, entende melhor e constrói diálogos mais ricos e qualificados. Meu colega e coautor do livro Escute, expresse e fale! , Thomas Brieu, ensina  escutar é, por si só, uma forma poderosa de expressão. 

Na sequência da cena, em The Bear, Natalie “Sugar” Berzatto, protagonizada por Abby Eliott, reforça outra mensagem essencial: “Last reminder: ABC – always be communicating”.  O tradutor adaptou como “aplicar boa comunicação” apesar de, ao pé da letra, a expressão significar “esteja sempre se comunicando”. No original ou no esforço do tradutor, o recado é direto: comunicar-se é essencial para manter a equipe alinhada e informada sobre objetivos, mudanças e avanços. 

Escutar melhor e comunicar-se sempre são como os ingredientes básicos de um restaurante de sucesso: sem eles, o cardápio pode ser impecável, mas o serviço ficará abaixo do esperado. Escutar é como decifrar o pedido nas entrelinhas, e comunicar-se é servir a mensagem no ponto certo. No fim, são esses dois itens que transformam experiências, seja à mesa ou na vida. Inclua-os no seu cardápio diário. 

E se ainda não assistiu a The Bear, corre lá na Disney+ antes que a quarta temporada estreie.

Leia a nova edição de “Escute, expresse e fale”

A edição revisada e ampliada de Escute, expresse e fale! Domine a comunicação e seja um líder poderoso(Rocco), que escrevi com António Sacavém, Leny Kyrillos, Thomas Brieu, foi lançada nesta semana e tem dois capítulos inéditos: um que trata do impacto da IA na comunicação e outro que apresenta o método do storytelling ao vivo.

Conheça a certificação sobre comunicação estratégica

Aproveite que o ano está começando e se inscreva na Certificação Internacional de Comunicação Estratégica em Ambiente Profissional que lancei em parceria com a WCES, uma startup de consultoria e educação, com sede em Utah, nos EUA.

O curso que oferecemos é on-line e gravado, com todas as aulas e masterclasses já disponíveis. Além das aulas que preparei ao lado de Thiago Quintino, fundador da WCES, temos masterclasses com professores-convidados: Luiza Helena Trajano, Mário Sérgio Cortella, Leny Kyrillos, Martha Gabriel, Arthur Igreja, Michel Alcoforado, e Thomas Brieu.

Junte-se a nós !

O retorno de Donald Trump e o perigo dos líderes tóxicos: mentiras, manipulações e um rastro de destruição

A volta de Donald Trump à Casa Branca, nessa segunda-feira, está permeada pelas incertezas e temores do que o líder populista americano fará com o poder reconquistado, nos Estados Unidos. Das certezas, a repetição de uma das marcas de seu primeiro governo, o uso da mentira como estratégia de comunicação e liderança. O comportamento de Trump na presidência foi motivo de uma série de estudos, alguns deles usei como referência no livro “Escute, expresse e fale!”, escrito com meus colegas António Sacavém, Leny Kyrillos e Thomas Brieu, pela editora Rocco.

No capítulo sobre líderes tóxicos citamos uma pesquisa que codificou quatrocentas mentiras proferidas por Trump, no primeiro mandato. Identificou-se que ele pode dizer sete vezes mais mentiras em seu benefício do que em benefício dos outros. Para ter ideia do que isso significa, as pessoas, por padrão, dizem duas vezes mais mentiras em benefício próprio do que mentiras em benefício dos outros.

De acordo com a  pesquisadora  Bella DePaulo, doutora em Harvard, apenas de 2% a 3% das mentiras contadas por pessoas comuns são cruéis, ou seja, têm o objetivo de prejudicar terceiros. No caso do presidente Trump as mentiras cruéis chegam a 50%.  Apenas 10% das mentiras de Trump são consideradas bondosas. Entre nós, “mentirosos comuns”, esse tipo de mentira chega a 25% — sim a gente também mente para o bem. Portanto, além de mentir muito, Trump mente para se beneficiar e para destruir os outros.

Um outro trabalho comparou os traços de personalidades e os estilos utilizados na campanha política por Trump, assim como os de mais 21 líderes mundiais considerados populistas. O resultado é impressionante. Mesmo quando colocado ao lado de figuras políticas narcisistas e agressivas, ele se destaca como um extremo entre os extremados. 

Conforme o psicanalista John Zinner, ex-chefe da Unidade de Estudos de Terapia Familiar do Instituto Nacional de Saúde Mental (NIMH), em entrevista ao site Raw Story em 2020, Donald Trump é considerado perigoso por conta da fragilidade de seu senso de valor pessoal. Segundo Zinner, qualquer crítica ou demonstração de desprezo é vivenciada por Trump como uma humilhação profunda e uma ameaça à sua autoestima. Para lidar com esse vazio emocional, ele recorre ao que os especialistas chamam de “raiva narcisista”, reagindo de forma agressiva. Além disso, ele demonstra incapacidade de assumir responsabilidade por erros ou falhas, preferindo culpar terceiros e atacar aqueles que considera responsáveis por sua humilhação. 

No livro “Escute, expresse e fale!”, Trump ilustrou o capítulo dos líderes tóxicos em que explicamos também porque as pessoas seguem esses profissionais que persistem a frente de algumas organizações. Chamamos atenção para a forma como manipulam seus colaboradores, seduzem os colegas e forjam resultados imediatos, sem compromisso com o futuro. Encerramos o capítulo com um alerta que permanece atual: líderes tóxicos podem conquistar admiradores e alcançar resultados momentâneos, mas deixam um rastro de destruição que compromete instituições, relações e a confiança necessária para construir um futuro sustentável.

Conheça a versão ampliada e revisada de “Escute, expresse e fale!”, publicado pela editora Rocco.

Nova edição de ‘Escute, expresse e fale!’ destaca o impacto da IA na comunicação e storytelling ao vivo

A editora Rocco lança, nesta semana, a nova edição de “Escute, Expresse e Fale!” que destaca o impacto da Inteligência Artificial na comunicação e ensina como construir um storytelling ao vivo.


A comunicação é a base das relações humanas e o pilar para liderar em tempos de transformação. Por isso, a versão revista e ampliada de “Escute, Expresse e Fale!” (Rocco) chega com novidades indispensáveis para líderes e profissionais que desejam aprimorar suas habilidades comunicativas.

António Sacavém, Leny Kyrillos, Thomas Brieu e eu apresentamos dois novos capítulos que respondem às demandas contemporâneas: Inteligência Artificial (IA) e Storytelling ao Vivo.

IA e a comunicação do futuro


A revolução da IA está transformando a maneira como nos conectamos e lideramos. Sistemas como ChatGPT e tecnologias de personalização estão remodelando interações, e trazem dilemas éticos: como equilibrar o uso de dados sem comprometer a privacidade? Como manter a humanidade no centro das decisões?

Neste novo capítulo, exploramos o conceito do “Líder AI-Driver”, um perfil que combina habilidades tecnológicas e humanas para liderar de forma ética e empática. É um convite para navegar pelos desafios e oportunidades da IA sem perder de vista a essência da comunicação: o fator humano.

Storytelling ao vivo: comunicação em tempo real


Histórias sempre foram uma ferramenta poderosa, mas o storytelling ao vivo eleva isso a outro nível. É uma abordagem dinâmica, em que narrador e público cocriam experiências únicas no momento.

Essa técnica dissolve conflitos, promove empatia e engaja equipes como nenhuma outra. No livro, apresentamos ferramentas práticas para aplicar o storytelling ao vivo em contextos corporativos e interpessoais, transformando simples conversas em experiências memoráveis.

Por que ler a nova edição?



Seja você líder, educador ou profissional, esta obra é um guia para quem deseja navegar com impacto pelas mudanças do mundo atual. A integração dos temas de IA e storytelling reflete as novas demandas de comunicação e liderança.

“Escute, Expresse e Fale!” é um mapa para fortalecer conexões humanas e transformar palavras em ações poderosas.

Está pronto para dominar a comunicação e liderar com propósito?

Compre aqui a nova versão de “Escute, expresse e fale!”