Pela preservação dos jornais de bairro

 

Por Milton Ferretti Jung

 

Se estou errado,me corrijam,mas não creio que todas as zonas de Porto Alegre possam se gabar de possuir um jornal. Algumas,é verdade, contam com um jornalzinho. Já onde moro,porém, circula um jornal com tiragem de 10 mil exemplares e matérias variadas e interessantes. Trata-se do Jornal Comunidade Zona Sul. Logo abaixo do título lê-se este slogan:Mais informação,cultura e lazer. Na edição que chegou às minhas mãos, gratuita por sinal,posta à disposição dos clientes de um dos supermercado da região,chamou minha atenção a manchete de capa do jornal da comunidade,que noticia a implantação de um binário formado pelas Avenidas Borges de Medeiros e Praia de Belas,obra que visa a melhorar o trânsito que está cada vez mais complicado no setor. Acerca de trânsito,podemos ler no Jornal da Comunidade uma notícia alviçareira. Reza a manchete da últimas página: Morte por atropelamento de ônibus diminuem 46,15% na Capital do Rio Grande do Sul. Lembro que a EPTC preocupa-se também com acidentes fatais envolvendo pedestres e motociclistas.

 

Não há,no entanto, jornal que vá em frente sem contar com comerciais. Afinal,a propaganda é a alma do negócio e, quando essa se faz presente em todas as páginas do Jornal da Comunidade Zona Sul,estamos diante de um veículo aprovado pelo comércio de uma vasta região da cidade.

 

Os raros leitores dos meus textos – se é que existem – devem estar se perguntando por que resolvi escrever sobre um jornal de Zona. Ocorre que fui comentarista de futebol e outros esportes,no Correio do Povo, na época em que o seu proprietário era o Dr.Breno Alcaraz Caldas,portanto,no auge desse jornal. As demissões de pessoal de todos os níveis, tornou-se uma obrigação. O periódico famoso entrou em crise e recordo como foi ficando difícil manter o Correio e a Folha da Tarde,que acabaram mudando de dono. Difícil deve ser também um veículo como o Comunidade Zona Sul,mesmo não se tratando de um jornal diário. Torço,por isso,para que os valentes irmãos Weirich,que imagino serem proprietários do veículo,sigam apoiados pelos comerciantes dos bairros que compõem a Zona Sul de Porto Alegre.

 

Milton Ferretti Jung é jornalista, radialista e meu pai. Às quintas-feiras, publica seu texto no Blog do Mílton Jung (o filho dele)

Foto-ouvinte: arquitetura moderna

 

Favela-prédio

 

A arquitetura do prédio popular chamou atenção de um dos ouvintes-internautas do Jornal da CBN quando andava pelas ruas de São Paulo. Infelizmente, por um erro qualquer deste que publica a foto, não tenho o nome do autor nem do local onde a imagem foi feita. Apesar disso, não me contive e divulgo a fotogografia dada a curiosa engenharia usada que sustenta andar sobre andar. Se você souber onde é este local ou se o autor da foto passar por aqui, por favor, deixe a informação nos comentários abaixo.

De comunidade e saudade

 


Por Maria Lucia Solla

Ouça “De comunidade e saudade” na voz e sonorizado pela autora

Olá

Estou sentada no chão, numa almofada que fiz no ano passado, com o couro de uma saia cor de capuccino com muito leite, presente da Neyd. Entre o sofá e a mesa de centro, entro num silêncio macio, acolhedor, suspirando, aqui e ali, depois de chegar em casa, interagir com a valentina, tomar uma ducha, ler e responder e-mails.

Por mais gostoso que seja o programa, a viagem, o dia; a hora do pouso é especial. Me preparo para ele, para o ninho, como me preparo para a festa, para a praia, o inverno, o templo. Me ponho como me sinto melhor pra ocasião, e o silêncio é uma forma de sintonizar a nova frequência.

E revejo o dia.

Hoje curti a prima Magaly. Papeamos até! Vi Amanda, filha dela, linda, que desabrocha como num filme que passa rápido. Nossas energias resultam numa receita gostosa, e curtimos cada minuto. Mas chegar lá foi uma aventura! Pela estrada afora, uma reforma aqui, um afunilamento ali, razão nenhuma aparente acolá, e você nunca sabe o que vai encontrar, ou nunca acha o que esperava achar. A rua que ia até ali foi bloqueada, e a gente não chega, nem perto, na hora que pretendia chegar.

No trajeto, passei pelo inferno, pelo purgatório, e só então cheguei ao céu, ao meu destino, que era a casa dela. Falamos sobre isso, sobre os pequenos vilarejos antigos onde moravam todas as gerações das famílias, onde os alunos da escola eram a turminha miúda das mesmas famílias, e o pároco conhecia todos e o pecado de cada um.

Eu, jogada feito folha ao vento, pelo desejo incontrolável de liberdade e de vida, e pela necessidade do estável e da proteção, voltei para casa me roendo de inveja daquela gente do passado imaginado e de um passado mais recente!

Então fiz uma viagem até lá, onde já existe uma mescla esfumaçada entre o que sei por ter vivido e o que sei por ter ouvido dos que viveram. Mas isso não vem ao caso. Minha bisavó portuguesa era muito forte e temperamental, e nunca ouvi menção ao seu marido, meu bisavô, mas seguramente existia ou tinha existido porque era pai da minha avó, que eles trouxeram de Portugal. Minha avó, por sua vez, se apaixonou e se casou com meu avô, que viera, trazido pelos seus pais, da Espanha. Dessa união nasceram meu pai, meu tio e minha tia, e eventualmente eu. Pois bem, morávamos todos na mesma casa: bisavó, avô e avó, pai, mãe, tio, tia e eu. Éramos oito. A casa era grande. Minha bisavó era uma exímia cozinheira e mantinha um restaurante caseiro – que naquele tempo se chamava pensão – e alimentava os graduados de um quartel que existia no bairro. Meu pai saía na rua comigo, e todo mundo cumprimentava. Meu avô me sequestrava e me levava ao bar, para me exibir para os seus amigos, e dizia: mi neta!

Apaixonado pela música sertaneja, dava baforadas divertidas no cigarro de palha que ele mesmo enrolava com o fumo que picava na palma da mão. Tinha sotaque forte, usava um lenço de seda no pescoço, preso por um anel de ouro e nunca saía sem chapéu. Era sertanejo de coração. Minha avó pouco atuava no grupo. Ela era doente e, talvez por isso, mal-humorada. Ou seria o contrário? Meu pai era o galã do pedaço e meu tio o galã número dois – hierarquia era respeitada. Minha mãe nem se fazia ouvir, naquele plantel, e minha tia e ela eram aliadas. Lindas, as duas.

Hoje, para me aproximar de um pedacinho da minha família, para eliminar a intervenção do celular, para saber dos seus viveres, chorares e rires, atravessei obstáculos, vivi aventuras, senti meu corpo cuspir adrenalina com maior dose e frequência do que deveria para o bem dele e para o meu, para poder estar perto da minha tribo.

E você, está perto da tua?

Pense nisso, ou não, e até a semana que vem.

Maria Lucia Solla é terapeuta, professora de língua estrangeira e realiza curso de comunicação e expressão. Aos domingos, escreve no Blog do Mílton Jung

Pelo direito de ser cidadão de Paraisópolis

 

Éramos 11 na sala simples que fica no primeiro andar da sede da União dos Moradores e do Comércio de Paraisópolis, uma das maiores favelas da capital paulista. Eu, Joildo dos Santos, o coordenador, e uma garotada interessante e interessada que participa do Curso de Comunicação Comunitária. Conversamos pouco mais de uma hora sobre jornalismo e cidadania.

Pra chegar até lá, você passa por ruas estreitas, cheias de carros e gente. Tem calçamento em parte das vias de acesso mas o espaço para cruzar é pequeno. Apesar de ser mão dupla, mal passa um automóvel. Se estiver descendo uma lotação, melhor dar ré ou encostar ao máximo no meio fio.

A calçada é menor ainda. Tem lugar apenas para o poste, escadas irregulares que saem da porta da loja ou da casa, cadeiras de bares. Lugar de pedestre é na rua. Ao menos é a impressão que passa. Convenhamos, não é muito diferente do bairro que você mora. Ou vai me convencer de que por aí as calçadas são dos pedestres ?

O prédio da associação dos moradores é grande comparado com as casas que tem ao redor. Lá dentro as intenções são maiores ainda. Entre portas, salas e corredores, tem computadores e conhecimento a ser compartilhado. Tem um pessoal ajudando, e tem um pessoal aprendendo. Na sala que ocupávamos, havia os dois.

Falei de como uso o rádio, as mídias digitais e as redes sociais para fazer jornalismo. E incentivei que eles façam o mesmo. Devem explorar as ferramentas à disposição para dar dimensão ao discurso que defendem, elevar a ideia que protagonizam e conquistar espaço na mídia.

Falaram em preconceito, visão pasteurizada e imagem distorcida que transmitimos. Disseram não se reconhecer nos programas de TV de fim de tarde que alardeiam notícias das comunidades carentes de São Paulo. Aliás, não conseguem se enxergar como são também no rádio e nos jornais.

Terão oportunidade de mostrar o que entendem ser o jornalismo comunitário assim que for ao ar a Nova Paraisópolis FM 87.5. A autorização já foi recebida, o conselho formado por moradores que controlará a programação, também. Os equipamentos estão montados. Mas ainda falta uma linha que tem de ser instalada pela Telefonica. E a empresa não cede a linha porque espera o documento definitivo do Ministério das Comunicações. E o Ministério das Comunicações não envia o documento porque quer fazer cerimônia popular.

Ouça reportagem que foi ao ar no CBN SP no dia 1o de fevereiro sobre a criação da rádio comunitária em Paraisópolis.

Não sei o que consegui deixar por lá, mas levei o entusiasmo de moças e moços interessados em mostrar que merecem o título de cidadão paulistano. Cidadão que não tem vergonha de dizer que mora em Paraisópolis – como fez questão de lembrar um dos 11 que estavam naquela sala, na tarde de quarta-feira.

Em tempo: A licença definitiva para a rádio comunitária de Paraisópolis será retirada em Brasília, conforme informação que recebi nesta sexta-feira, e a expectativa é que com esta em mão a Telefonica libere a linha necessária para a emissora ir ao ar (publicado às 17:26)

Paraisópolis terá rádio comunitária

 

Das maiores favelas do País, Paraisópolis que nasceu na borda do bairro do Morumbi vai inaugurar uma rádio comunitária que será transmitida em frequência modulada, a partir de 2 de março. A União dos Moradores de Paraisópolis recebeu a concessão pública para explorar o sinal nos próximos 10 anos e criou um conselho com integrantes da comunidade para controlar a programação. Os apresentadores, repórteres e demais profissionais serão todos moradores da Paraisópolis, conforme informou Gilson Rodrigues, que dirige a entidade. Ele ressaltou que na própria favela são desenvolvidos cursos técnicos para preparação desses profissionais.

A rádio será coordenada pelo Joildo dos Santos, diretor de comunicação da União dos Moradores e por um grupo de jovens comunicadores. Joildo, aliás, é um dos integrantes do Adote um Vereador, ideia que incentiva o cidadão a acompanhar o trabalho na Câmara Municipal de São Paulo.

Ouça como será a rádio Nova Paraisópolis, na entrevista com Gilson Rodrigues ao CBN SP

A Nova Paraisópolis FM funcionará na frequencia 87.5.

A emissora faz parte de um plano de comunicação desenvolvido pela comunidade que inclui um jornal e o site www.paraisopolis.org e o jornal Paraisópolis. Em brevem os moradores pretendem lançar ainda uma revista.

Rapin Hood participa da campanha do Unicef

O Fundo das Nações Unidas para a Infância recebe inscrições das comunidades populares de São Paulo, Rio de Janeiro e Itaquaquecetuba interessadas em melhorar as condições de vida de suas crianças e adolescentes. Os inscritos receberão acompanhamento e apoio técnico do Unicef e seus parceiros por três anos, para que possam ajudar a melhorar as condições de vida dos jovens.

As favelas, cortiços e conjuntos habitacionais populares participarão de uma iniciativa que vai mobilizar todos os setores do município pela garantia dos direitos de cada menino e menina.

O rapper Rapin Hood gravou um spot convidando as comunidades a atuarem no programa do Unicef.

Ouça aqui o depoimento de Rapin Hood

Mais informações no telefone do Instituto Sou da Paz 3812-1333 ou pelo endereço plataforma@soudapaz.org 

Ouça aqui a entrevista com a coordenadora do Unicef, Anna Penido