Mundo Corporativo: Rodrigo Rubido, do Elos, defende uma liderança distribuída nas empresas

Rodrigo Rubido, do Instituto Elos
Rubido em entrevista no estúdio de podcast da CBN. Foto: Priscila Gubiotti/CBN

“A gente deveria começar a trabalhar para que a gente tenha uma vida de interdependência.”

A discussão sobre saúde mental no ambiente de trabalho ganhou força nos últimos anos, mas convive com um fenômeno menos visível e cada vez mais presente: a solidão. Empresas investem em programas de bem-estar, falam sobre pertencimento e estimulam integração entre equipes, enquanto profissionais relatam isolamento, dificuldade de convivência e perda de vínculos humanos. O tema foi discutido por Rodrigo Rubido, arquiteto, cofundador e diretor do Instituto Elos, em entrevista ao Mundo Corporativo, da CBN.

Rubido relacionou esse processo à cultura de individualismo construída ao longo das últimas décadas. Segundo ele, a sociedade passou de uma lógica comunitária para uma dinâmica centrada na autonomia individual. Essa transformação trouxe avanços importantes, mas também enfraqueceu relações de convivência e colaboração. “O ser humano não estaria aqui se não fosse sua capacidade de viver em comunidade”, afirmou.

Para o diretor do Instituto Elos, as empresas acabam reproduzindo esse comportamento ao transformar competitividade em modelo dominante de gestão. Ele observa que muitos ambientes corporativos ainda estimulam disputas internas e dificultam relações de confiança e cuidado mútuo. Na visão dele, organizações ainda desconhecem o potencial que existe quando equipes passam a atuar verdadeiramente como comunidade.

A reflexão ganhou contornos mais concretos quando Rubido relembrou uma viagem que fez à Suécia, em 2007. Encantado inicialmente com o padrão de desenvolvimento social do país, acabou impactado ao descobrir um problema crescente de solidão entre idosos. Segundo contou, bombeiros instalavam sensores em residências para identificar se pessoas que moravam sozinhas continuavam vivas. O episódio serviu como contraste em relação às comunidades periféricas brasileiras com as quais o Instituto Elos trabalhava naquele período. Enquanto em países desenvolvidos a autonomia individual chegava ao extremo do isolamento, nas periferias brasileiras ainda existiam vínculos de vizinhança, troca e interdependência.

O valor da comunidade dentro e fora das empresas

O Instituto Elos nasceu nos anos 1990, quando um grupo de estudantes de arquitetura decidiu se aproximar das periferias urbanas para compreender melhor os desafios sociais das cidades. Rubido contou que havia uma inquietação em relação ao ensino tradicional da arquitetura, muito concentrado nas estruturas físicas e pouco atento à dimensão humana dos territórios.

A aproximação com comunidades periféricas acabou mudando o rumo do trabalho desenvolvido pelo grupo. Em vez de olhar apenas para carências e problemas, eles passaram a identificar potencialidades locais, formas de colaboração e capacidades coletivas já existentes. Essa percepção se transformou na base metodológica do Instituto Elos.

“A gente se dedicou a pesquisar o que tinha de melhor nesses lugares”, disse.

A metodologia desenvolvida pela organização parte justamente desse princípio: reconhecer potencialidades antes de tentar corrigir deficiências. O trabalho envolve fortalecimento de vínculos, construção de pertencimento e mobilização comunitária em torno de objetivos comuns. Segundo Rubido, o protagonismo coletivo surge quando pessoas passam a compartilhar sonhos, valores e responsabilidades.

Essa lógica também passou a ser aplicada dentro das empresas. Inicialmente, o Instituto Elos era procurado por organizações interessadas em apoiar projetos sociais. Com o tempo, as companhias começaram a solicitar treinamentos de liderança e apoio em conflitos com comunidades vizinhas às suas operações.

Rubido afirmou que muitas empresas ainda chegam aos territórios como estruturas isoladas, sem compreender que fazem parte de uma rede social mais ampla. Para ele, a ideia não deve ser apenas obter autorização para operar, mas construir relações permanentes de convivência e colaboração com as comunidades locais.

“A empresa precisa conhecer seus vizinhos, precisa entender os interesses, as necessidades, os desafios daquele bairro onde ela tá inserida”, afirmou.

Segundo ele, boa parte dos conflitos corporativos com comunidades surge justamente pela ausência de escuta e diálogo desde o início da operação. O resultado, muitas vezes, aparece em prejuízos financeiros, desgaste institucional e deterioração das relações locais.

Liderança, escuta e colaboração

Outro eixo central da entrevista foi a formação de lideranças. Rodrigo Rubido criticou modelos excessivamente hierarquizados, nos quais decisões estratégicas são tomadas por pessoas distantes da operação cotidiana das empresas. Ele defende uma lógica de “liderança distribuída”, em que a condução dos projetos circula de acordo com a experiência e a capacidade de realização de cada integrante da equipe.

Na prática, isso exige líderes menos concentrados em controle e mais preparados para escutar, dialogar e construir soluções compartilhadas. Rubido argumenta que fomos educados para identificar falhas e problemas, mas pouco treinados para reconhecer potencialidades humanas.

“A gente foi muito bem educado para identificar problemas”, observou.

Na metodologia aplicada pelo Instituto Elos, antes de qualquer ação prática existe um processo de fortalecimento de vínculos afetivos, identificação de valores comuns e definição coletiva de objetivos. Só depois dessas etapas acontece a execução do projeto.

Segundo Rubido, muitas organizações operam abaixo de seu potencial porque trabalham com pessoas desconectadas entre si, executando projetos nos quais não se reconhecem. Para ele, ambientes mais colaborativos produzem não apenas melhores relações humanas, mas também resultados concretos para os negócios.

Ao fim da entrevista, deixou uma provocação às lideranças empresariais: “O convite é que a gente aposte em melhorar as pessoas, ao invés de controlar as pessoas.”

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O Mundo Corporativo pode ser assistido, ao vivo, às quartas-feiras, 11 horas da manhã, pelo canal da CBN no YouTube. O programa vai ao ar aos sábados, no Jornal da CBN, e aos domingos, às 10 da noite, em horário alternativo. Você pode ouvir, também, em podcast. Colaboram com o Mundo Corporativo: Carlos Grecco, Letícia Valente, Karen Lemos, Débora Gonçalves e Priscila Gubiotti.

Dez Por Cento Mais: Padre Simone Bernardi fala da reconstrução da dignidade no Arsenal da Esperança

Na pandemia, o sentido de comunidade se expressou no Arsenal

“A gente percebe que uma pobreza do nosso tempo é não ter mais comunidade.”

Mais de 1.200 pessoas dormem diariamente no Arsenal da Esperança, no Brás, em São Paulo. Ali, o acolhimento começa com uma cama limpa, comida quente e um endereço onde alguém volta a ser chamado pelo nome. O espaço, instalado na antiga Hospedaria dos Imigrantes, tornou-se um dos maiores centros de acolhida para pessoas em situação de rua da América Latina. O que se passa lá dentro e o que se percebe do mundo lá fora foram assuntos que pautaram a entrevista do Padre Simone Bernardi ao programa Dez Por Cento Mais, apresentado pela jornalista e psicóloga Abigail Costa, no YouTube.

Missionário italiano, Padre Simone dirige o Arsenal da Esperança há mais de duas décadas. Durante a conversa, ele explicou que o projeto nasceu da transformação de um antigo arsenal militar, em Turim, na Itália, em um espaço voltado à paz e ao acolhimento. A inspiração chegou ao Brasil pelas mãos de Dom Luciano Mendes de Almeida, que enxergou na antiga Hospedaria dos Imigrantes um lugar capaz de recuperar vidas invisibilizadas pela cidade.

Muito além de cama e comida

Ao descrever a rotina do Arsenal, Padre Simone deixou claro que o trabalho vai muito além da assistência básica. “Cama e comida é o começo”, afirmou. “Se você começa a oferecer algo verdadeiramente digno, começa a criar um laço também.”

Todos os dias, a instituição prepara centenas de refeições, lava toneladas de roupas e mantém uma estrutura que funciona 24 horas. Há psicólogos, assistentes sociais, educadores, nutricionistas e voluntários envolvidos em um processo que busca reconstruir vínculos e devolver identidade às pessoas acolhidas.

“Às vezes nem os documentos têm”, relatou o padre. “Então, por exemplo, a rotina do nosso trabalho é ajudar as pessoas a tirar de novo todos os documentos, que é uma maneira de voltar a existir.”

Segundo ele, o perfil das pessoas atendidas também mudou ao longo dos anos. Se antes predominavam homens mais velhos, vindos de outros estados em busca de trabalho, hoje a população acolhida é mais jovem, formada majoritariamente por moradores do próprio estado de São Paulo e marcada por problemas mais complexos, como dependência química, depressão e transtornos psicológicos.

Regra e organização como sinais de cuidado

Ao falar sobre convivência dentro do Arsenal, Padre Simone defendeu a importância das regras como instrumento de cuidado coletivo. “A regra é uma maneira de amar”, disse. “A organização também é uma maneira de querer bem as pessoas.”

A instituição mantém horários, rotinas e protocolos para garantir segurança e convivência entre os acolhidos. Um dos exemplos citados foi o cuidado com pessoas sob efeito de álcool. Em vez de exclusão, o Arsenal criou espaços específicos para acolher essas pessoas sem colocar em risco quem tenta se recuperar.

“Para nós, se a pessoa chega alcoolizada ou não, continua sendo uma pessoa”, afirmou.

Durante a pandemia de Covid-19, a organização precisou reinventar completamente sua rotina. O Arsenal transformou-se em uma grande quarentena coletiva. Dos 1.200 acolhidos, 1.026 aceitaram permanecer isolados dentro da instituição.

“Ou aqui a gente se conscientiza e se organiza ou é o fim”, relembrou Padre Simone sobre o clima daqueles dias.

A reconstrução começa pelas pequenas coisas

Um dos trechos mais marcantes da entrevista surgiu quando o padre descreveu o momento em que alguns acolhidos pedem para trocar a foto do crachá. “Depois de duas semanas, tem pessoas que vão até o serviço social e falam: ‘Posso trocar a foto do meu crachá?’ Porque já não se reconhecem mais naquele rosto.”

Para ele, a transformação acontece aos poucos, em gestos simples que ajudam a pessoa a recuperar autoestima e pertencimento. Ler um livro, cuidar do espaço coletivo, participar de um campeonato ou simplesmente voltar a tomar banho diariamente tornam-se sinais concretos de reconstrução da vida.

“Acho que o nosso primeiro trabalho é produzir memórias boas”, afirmou. “Construir histórias boas para serem lembradas.”

A falta de comunidade como pobreza contemporânea

Na reflexão final da entrevista, Padre Simone ampliou o olhar para além da situação de rua. Segundo ele, a maior pobreza atual talvez não seja apenas a ausência de moradia, mas o enfraquecimento dos vínculos humanos.

“Não ter comunidade é pior”, afirmou.

O Arsenal da Esperança passou a desenvolver ações comunitárias no entorno do bairro, como mutirões de limpeza e atividades coletivas em espaços públicos. O objetivo é criar oportunidades de encontro entre pessoas que vivem cada vez mais isoladas.

“Tivemos uma senhora que abriu o portão da vila dela e ofereceu um bolo”, contou. “Ao redor daquele bolo se criou aquilo que deveria ser normal: as pessoas conversaram.”

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Mundo Corporativo: Vinícius Mendes, da Besouro, prega a transformação social por meio do empreendedorismo

Vinicius Mendes em foto de Priscila Gubiotti

“Não bastava trabalhar, não bastava ter boa vontade de correr e ter uma boa ideia; e, sim, também, de educação.”

Vinícius Mendes, Besouro de Fomento Social

Imagine começar um negócio do zero antes mesmo de ter uma ideia do que você pode oferecer ou criar. Esse é o desafio que Vinícius Mendes lança às pessoas que vivem nas comunidades mais carentes do país, a partir do trabalho que realiza na Besouro de Fomento Social, empresa que reúne um instituto sem fins lucrativos e uma agência que busca o lucro, criada, em Porto Alegre, em 2009. No programa Mundo Corporativo da CBN, ele compartilha como transcendeu as dificuldades iniciais para impulsionar outros a empreender, revelando que o sucesso vai além da mera inovação ou esforço – é fundamentalmente ancorado na educação.

A educação como alicerce para o empreendedorismo

Vinícius Mendes enfatiza que, para realmente prosperar e transformar uma ideia em um empreendimento de sucesso, é essencial possuir não apenas a visão ou o ímpeto, mas uma sólida compreensão dos fundamentos de negócios e uma educação empreendedora.

“O empreendedor tem muita chance de dar certo, tem riscos, mas tem muita chance mais rápido de dar certo”. 

Ele ilustra essa perspectiva com sua trajetória, desde as primeiras experiências vendendo crepes na frente de escolas, passando pela criação de uma empresa de eventos, até a fundação da Besouro de Fomento Social. Sua história é um testemunho da transformação que a educação empreendedora pode engendrar, especialmente em comunidades vulneráveis.

O empreendedorismo como vetor de transformação social

A atuação da Besouro no campo da educação empreendedora visa, sobretudo, capacitar indivíduos em situação de vulnerabilidade social, oferecendo-lhes as ferramentas necessárias para identificar oportunidades de mercado e transformá-las em negócios sustentáveis. A pesquisa realizada por Mendes, tanto na Rocinha quanto em favelas da Argentina, revelou que o conhecimento específico em gestão de negócios e estratégias de mercado é crucial para o sucesso empreendedor, mesmo (ou especialmente) em contextos de recursos limitados.

“Não tenho dúvida de que o empreendedorismo já faz a diferença no nosso país e fará ainda mais quando estas pessoas compreenderem o poder que têm delas serem empresárias e empreendedoras”. 

A Besouro de Fomento Social desenvolveu uma metodologia que considera as particularidades de cada indivíduo e comunidade, focando na criação de oportunidades reais de negócios que podem gerar renda sustentável e, consequentemente, promover o desenvolvimento local.

A abordagem da Besouro, ao capacitar pessoas a partir de suas próprias casas e realidades, demonstra que o empreendedorismo pode ser um caminho viável para a autonomia financeira e o empoderamento. Vinícius reflete sobre o impacto dessa capacitação na vida das pessoas, destacando que a educação empreendedora não apenas alimenta sonhos, mas os torna tangíveis e realizáveis.

“O empreendedor tem muita chance de dar certo, tem riscos, mas tem muita chance mais rápido de dar certo. Quando a gente expõe isso para quem precisa o hiperfoco toma conta e a chance de dar certo é enorme”. 

Assista ao Mundo Corporativo

O Mundo Corporativo pode ser assistido, ao vivo, às quartas-feiras, 11 horas da manhã pelo canal da CBN no YouTube. O programa vai ao ar aos sábados, no Jornal da CBN e aos domingos, às 10 da noite, em horário alternativo. Você ouve, também, em podcast. Colaboram com o Mundo Corporativo: Carlos Grecco, Rafael Furugen, Débora Gonçalves, Priscila Gubiotti e Letícia Valente.

Pela preservação dos jornais de bairro

 

Por Milton Ferretti Jung

 

Se estou errado,me corrijam,mas não creio que todas as zonas de Porto Alegre possam se gabar de possuir um jornal. Algumas,é verdade, contam com um jornalzinho. Já onde moro,porém, circula um jornal com tiragem de 10 mil exemplares e matérias variadas e interessantes. Trata-se do Jornal Comunidade Zona Sul. Logo abaixo do título lê-se este slogan:Mais informação,cultura e lazer. Na edição que chegou às minhas mãos, gratuita por sinal,posta à disposição dos clientes de um dos supermercado da região,chamou minha atenção a manchete de capa do jornal da comunidade,que noticia a implantação de um binário formado pelas Avenidas Borges de Medeiros e Praia de Belas,obra que visa a melhorar o trânsito que está cada vez mais complicado no setor. Acerca de trânsito,podemos ler no Jornal da Comunidade uma notícia alviçareira. Reza a manchete da últimas página: Morte por atropelamento de ônibus diminuem 46,15% na Capital do Rio Grande do Sul. Lembro que a EPTC preocupa-se também com acidentes fatais envolvendo pedestres e motociclistas.

 

Não há,no entanto, jornal que vá em frente sem contar com comerciais. Afinal,a propaganda é a alma do negócio e, quando essa se faz presente em todas as páginas do Jornal da Comunidade Zona Sul,estamos diante de um veículo aprovado pelo comércio de uma vasta região da cidade.

 

Os raros leitores dos meus textos – se é que existem – devem estar se perguntando por que resolvi escrever sobre um jornal de Zona. Ocorre que fui comentarista de futebol e outros esportes,no Correio do Povo, na época em que o seu proprietário era o Dr.Breno Alcaraz Caldas,portanto,no auge desse jornal. As demissões de pessoal de todos os níveis, tornou-se uma obrigação. O periódico famoso entrou em crise e recordo como foi ficando difícil manter o Correio e a Folha da Tarde,que acabaram mudando de dono. Difícil deve ser também um veículo como o Comunidade Zona Sul,mesmo não se tratando de um jornal diário. Torço,por isso,para que os valentes irmãos Weirich,que imagino serem proprietários do veículo,sigam apoiados pelos comerciantes dos bairros que compõem a Zona Sul de Porto Alegre.

 

Milton Ferretti Jung é jornalista, radialista e meu pai. Às quintas-feiras, publica seu texto no Blog do Mílton Jung (o filho dele)

Foto-ouvinte: arquitetura moderna

 

Favela-prédio

 

A arquitetura do prédio popular chamou atenção de um dos ouvintes-internautas do Jornal da CBN quando andava pelas ruas de São Paulo. Infelizmente, por um erro qualquer deste que publica a foto, não tenho o nome do autor nem do local onde a imagem foi feita. Apesar disso, não me contive e divulgo a fotogografia dada a curiosa engenharia usada que sustenta andar sobre andar. Se você souber onde é este local ou se o autor da foto passar por aqui, por favor, deixe a informação nos comentários abaixo.

De comunidade e saudade

 


Por Maria Lucia Solla

Ouça “De comunidade e saudade” na voz e sonorizado pela autora

Olá

Estou sentada no chão, numa almofada que fiz no ano passado, com o couro de uma saia cor de capuccino com muito leite, presente da Neyd. Entre o sofá e a mesa de centro, entro num silêncio macio, acolhedor, suspirando, aqui e ali, depois de chegar em casa, interagir com a valentina, tomar uma ducha, ler e responder e-mails.

Por mais gostoso que seja o programa, a viagem, o dia; a hora do pouso é especial. Me preparo para ele, para o ninho, como me preparo para a festa, para a praia, o inverno, o templo. Me ponho como me sinto melhor pra ocasião, e o silêncio é uma forma de sintonizar a nova frequência.

E revejo o dia.

Hoje curti a prima Magaly. Papeamos até! Vi Amanda, filha dela, linda, que desabrocha como num filme que passa rápido. Nossas energias resultam numa receita gostosa, e curtimos cada minuto. Mas chegar lá foi uma aventura! Pela estrada afora, uma reforma aqui, um afunilamento ali, razão nenhuma aparente acolá, e você nunca sabe o que vai encontrar, ou nunca acha o que esperava achar. A rua que ia até ali foi bloqueada, e a gente não chega, nem perto, na hora que pretendia chegar.

No trajeto, passei pelo inferno, pelo purgatório, e só então cheguei ao céu, ao meu destino, que era a casa dela. Falamos sobre isso, sobre os pequenos vilarejos antigos onde moravam todas as gerações das famílias, onde os alunos da escola eram a turminha miúda das mesmas famílias, e o pároco conhecia todos e o pecado de cada um.

Eu, jogada feito folha ao vento, pelo desejo incontrolável de liberdade e de vida, e pela necessidade do estável e da proteção, voltei para casa me roendo de inveja daquela gente do passado imaginado e de um passado mais recente!

Então fiz uma viagem até lá, onde já existe uma mescla esfumaçada entre o que sei por ter vivido e o que sei por ter ouvido dos que viveram. Mas isso não vem ao caso. Minha bisavó portuguesa era muito forte e temperamental, e nunca ouvi menção ao seu marido, meu bisavô, mas seguramente existia ou tinha existido porque era pai da minha avó, que eles trouxeram de Portugal. Minha avó, por sua vez, se apaixonou e se casou com meu avô, que viera, trazido pelos seus pais, da Espanha. Dessa união nasceram meu pai, meu tio e minha tia, e eventualmente eu. Pois bem, morávamos todos na mesma casa: bisavó, avô e avó, pai, mãe, tio, tia e eu. Éramos oito. A casa era grande. Minha bisavó era uma exímia cozinheira e mantinha um restaurante caseiro – que naquele tempo se chamava pensão – e alimentava os graduados de um quartel que existia no bairro. Meu pai saía na rua comigo, e todo mundo cumprimentava. Meu avô me sequestrava e me levava ao bar, para me exibir para os seus amigos, e dizia: mi neta!

Apaixonado pela música sertaneja, dava baforadas divertidas no cigarro de palha que ele mesmo enrolava com o fumo que picava na palma da mão. Tinha sotaque forte, usava um lenço de seda no pescoço, preso por um anel de ouro e nunca saía sem chapéu. Era sertanejo de coração. Minha avó pouco atuava no grupo. Ela era doente e, talvez por isso, mal-humorada. Ou seria o contrário? Meu pai era o galã do pedaço e meu tio o galã número dois – hierarquia era respeitada. Minha mãe nem se fazia ouvir, naquele plantel, e minha tia e ela eram aliadas. Lindas, as duas.

Hoje, para me aproximar de um pedacinho da minha família, para eliminar a intervenção do celular, para saber dos seus viveres, chorares e rires, atravessei obstáculos, vivi aventuras, senti meu corpo cuspir adrenalina com maior dose e frequência do que deveria para o bem dele e para o meu, para poder estar perto da minha tribo.

E você, está perto da tua?

Pense nisso, ou não, e até a semana que vem.

Maria Lucia Solla é terapeuta, professora de língua estrangeira e realiza curso de comunicação e expressão. Aos domingos, escreve no Blog do Mílton Jung

Pelo direito de ser cidadão de Paraisópolis

 

Éramos 11 na sala simples que fica no primeiro andar da sede da União dos Moradores e do Comércio de Paraisópolis, uma das maiores favelas da capital paulista. Eu, Joildo dos Santos, o coordenador, e uma garotada interessante e interessada que participa do Curso de Comunicação Comunitária. Conversamos pouco mais de uma hora sobre jornalismo e cidadania.

Pra chegar até lá, você passa por ruas estreitas, cheias de carros e gente. Tem calçamento em parte das vias de acesso mas o espaço para cruzar é pequeno. Apesar de ser mão dupla, mal passa um automóvel. Se estiver descendo uma lotação, melhor dar ré ou encostar ao máximo no meio fio.

A calçada é menor ainda. Tem lugar apenas para o poste, escadas irregulares que saem da porta da loja ou da casa, cadeiras de bares. Lugar de pedestre é na rua. Ao menos é a impressão que passa. Convenhamos, não é muito diferente do bairro que você mora. Ou vai me convencer de que por aí as calçadas são dos pedestres ?

O prédio da associação dos moradores é grande comparado com as casas que tem ao redor. Lá dentro as intenções são maiores ainda. Entre portas, salas e corredores, tem computadores e conhecimento a ser compartilhado. Tem um pessoal ajudando, e tem um pessoal aprendendo. Na sala que ocupávamos, havia os dois.

Falei de como uso o rádio, as mídias digitais e as redes sociais para fazer jornalismo. E incentivei que eles façam o mesmo. Devem explorar as ferramentas à disposição para dar dimensão ao discurso que defendem, elevar a ideia que protagonizam e conquistar espaço na mídia.

Falaram em preconceito, visão pasteurizada e imagem distorcida que transmitimos. Disseram não se reconhecer nos programas de TV de fim de tarde que alardeiam notícias das comunidades carentes de São Paulo. Aliás, não conseguem se enxergar como são também no rádio e nos jornais.

Terão oportunidade de mostrar o que entendem ser o jornalismo comunitário assim que for ao ar a Nova Paraisópolis FM 87.5. A autorização já foi recebida, o conselho formado por moradores que controlará a programação, também. Os equipamentos estão montados. Mas ainda falta uma linha que tem de ser instalada pela Telefonica. E a empresa não cede a linha porque espera o documento definitivo do Ministério das Comunicações. E o Ministério das Comunicações não envia o documento porque quer fazer cerimônia popular.

Ouça reportagem que foi ao ar no CBN SP no dia 1o de fevereiro sobre a criação da rádio comunitária em Paraisópolis.

Não sei o que consegui deixar por lá, mas levei o entusiasmo de moças e moços interessados em mostrar que merecem o título de cidadão paulistano. Cidadão que não tem vergonha de dizer que mora em Paraisópolis – como fez questão de lembrar um dos 11 que estavam naquela sala, na tarde de quarta-feira.

Em tempo: A licença definitiva para a rádio comunitária de Paraisópolis será retirada em Brasília, conforme informação que recebi nesta sexta-feira, e a expectativa é que com esta em mão a Telefonica libere a linha necessária para a emissora ir ao ar (publicado às 17:26)

Paraisópolis terá rádio comunitária

 

Das maiores favelas do País, Paraisópolis que nasceu na borda do bairro do Morumbi vai inaugurar uma rádio comunitária que será transmitida em frequência modulada, a partir de 2 de março. A União dos Moradores de Paraisópolis recebeu a concessão pública para explorar o sinal nos próximos 10 anos e criou um conselho com integrantes da comunidade para controlar a programação. Os apresentadores, repórteres e demais profissionais serão todos moradores da Paraisópolis, conforme informou Gilson Rodrigues, que dirige a entidade. Ele ressaltou que na própria favela são desenvolvidos cursos técnicos para preparação desses profissionais.

A rádio será coordenada pelo Joildo dos Santos, diretor de comunicação da União dos Moradores e por um grupo de jovens comunicadores. Joildo, aliás, é um dos integrantes do Adote um Vereador, ideia que incentiva o cidadão a acompanhar o trabalho na Câmara Municipal de São Paulo.

Ouça como será a rádio Nova Paraisópolis, na entrevista com Gilson Rodrigues ao CBN SP

A Nova Paraisópolis FM funcionará na frequencia 87.5.

A emissora faz parte de um plano de comunicação desenvolvido pela comunidade que inclui um jornal e o site www.paraisopolis.org e o jornal Paraisópolis. Em brevem os moradores pretendem lançar ainda uma revista.

Rapin Hood participa da campanha do Unicef

O Fundo das Nações Unidas para a Infância recebe inscrições das comunidades populares de São Paulo, Rio de Janeiro e Itaquaquecetuba interessadas em melhorar as condições de vida de suas crianças e adolescentes. Os inscritos receberão acompanhamento e apoio técnico do Unicef e seus parceiros por três anos, para que possam ajudar a melhorar as condições de vida dos jovens.

As favelas, cortiços e conjuntos habitacionais populares participarão de uma iniciativa que vai mobilizar todos os setores do município pela garantia dos direitos de cada menino e menina.

O rapper Rapin Hood gravou um spot convidando as comunidades a atuarem no programa do Unicef.

Ouça aqui o depoimento de Rapin Hood

Mais informações no telefone do Instituto Sou da Paz 3812-1333 ou pelo endereço plataforma@soudapaz.org 

Ouça aqui a entrevista com a coordenadora do Unicef, Anna Penido