Carteira de motorista e carro próprio deixam de ser símbolo de liberdade para os jovens

 

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(texto escrito originalmente no meu perfil do Medium)

 

Com 18 anos mal completados, lá estava eu na porta do centro de avaliação para fazer o teste que me permitiria receber a carteira de motorista — ou carta, como dizem aqui em São Paulo. Apenas algumas manobras depois, o fiscal perguntou se eu já dirigia anteriormente dado os cacoetes que apresentava na condução do carro. Sem muito constrangimento e até com uma ponta de orgulho, respondi que sim, pois fazia alguns anos que era testado pelo meu pai, inicialmente sentado no banco do carona e tendo o direito de segurar a direção enquanto ele controlava os pedais e a marcha. Demorou um pouco para o pai me dar a chance de trocar as marchas no câmbio manual e, muito mais do que eu gostaria, para assumir o comando do carro definitivamente.

 

As oportunidades costumavam surgir aos sábados à noite quando nós saíamos de casa, no bairro do Menino Deus, em direção a sede da rádio Guaíba, centro de Porto Alegre, onde o pai apresentava o Correspondente Renner. O passeio à noite era estratégico, pois o caminho estava geralmente livre.

 

O prazer de sentar no banco do motorista, engatar a primeira marcha e comandar o carro por conta própria só apareceu mais tarde nas ruas praticamente vazias da praia que frequentávamos nos períodos de férias e mesmo assim sob o olhar atento e preocupado dele.

 

Na realidade, o pai repetiu comigo a mesma experiência que teve com meu avô quando aprendeu a dirigir. Apesar de um pouco ansioso, foi um excelente professor tendo me passado uma série de recomendações que mantenho até hoje. Por exemplo, foi ele quem me chamou atenção para quando tiver de ultrapassar um ônibus que esteja parado no ponto: “sempre há o perigo de um passageiro cruzar na frente do ônibus e atravessar a rua sem prestar atenção” — alertava. Para o motorista não ser surpreendido e reduzir o risco de atropelamento, ele ensinou-me a olhar por baixo do ônibus e ver se não havia nenhum pé se aventurando por ali.

 

Nós dois somos de gerações diferentes mas ambos nascidos em uma época em que o carro era objeto reverenciado e a carteira de motorista, sinal de liberdade. Não por acaso a minha primeira habilitação foi expedida três dias depois de completar 18 anos. Hoje, ele ainda admira mais os automóveis do que eu. Apesar de me considerar um “carro-dependente”, sou defensor do uso da bicicleta e do transporte público sempre que possível, impactado por uma mudança de consciência que vem surgindo em diferentes sociedades. E, claro, pelos enormes congestionamentos que tiram qualquer um do sério.

 

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Pesquisas não faltam para provar nosso desperdício de tempo:

 

Em outubro de 2015, a Confederação Nacional da Indústria (CNI), divulgou que pelo menos 31% das pessoas passam mais de uma hora no trânsito diariamente, percentual que chega a quase 40% nas cidades com mais de 100 mil habitantes.

 

Um mês depois, a Rede Nossa São Paulo e a Fecomercio mostraram que quem vive em São Paulo e dirige automóvel tende a perder, em média, 2h38 minutos, nos deslocamentos de casa para o trabalho, para a escola, para o mercado e para qualquer outro canto que se fizer necessário, no decorrer de um dia.

 

Metodologias à parte, uma e outra pesquisa ressaltam o que eu, você e toda a torcida do …. vá lá, toda torcida do Grêmio já perceberam: não dá mais para darmos continuidade a esta apologia do automóvel que marcou nossas gerações. E talvez por isso mesmo, não repeti a experiência do rito de “passagem do volante do carro” para os meus filhos.

 

Tenho a impressão, pelo que vejo em alguns jovens, incluindo os meus dois meninos — o mais velho já com a carteira de habilitação na gaveta e nenhuma intenção de dirigir, ao menos por enquanto -, de que atual geração começa a enxergar a relação com o carro de maneira diferente. Hoje, temos muito mais informações dos malefícios que os automóveis provocam no meio ambiente com aumento dos níveis de poluição e prejuízos à qualidade de vida.

 

Segundo o médico Paulo Saldiva, da Universidade de São Paulo, os gases tóxicos e a fuligem do escapamento dos veículos matam 4.600 pessoas por ano na capital paulista.

 

Se não mata, engorda — dizia minha mãe.

 

Isso mesmo, a poluição provocada pela circulação de carros e pela fumaça de cigarro, também, com suas partículas minúsculas e agressivas provocariam inflamações generalizadas e atrapalhariam a capacidade do corpo de queimar calorias. Ao menos é o que tenta nos convencer estudo do qual fez parte o professor Hong Chen, da Universidade de Toronto, no Canadá.

 

A preocupação com a saúde não é única justificativa para afastar os jovens dos carros. Eles também estão muito mais conectados, o que, em tese, reduziria a exigência de tantos deslocamentos pela cidade. E, a despeito da qualidade do transporte público, temos maior oferta de metrô e ônibus, além de os aplicativos terem deixado os táxis e os motoristas privados mais acessíveis.

 

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A dar respaldo para o que penso sobre a redução da dependência do carro, temos ainda trabalho apresentado durante o Simpósio de Engenharia Automotiva, realizado em São Paulo, em agosto do ano passado.

 

Após ouvir 404 estudantes, entre 18 e 25 anos, da capital e de Ribeirão Preto (SP), o jornalista Lupércio Tomaz, da rede social Campus Universitário, informou que 59% dos jovens entrevistados ainda não tinham carteira de habilitação. Verdade que desses, 95% disseram que pretendiam tirá-la um dia. Levando em consideração que todos já tinham idade para pegar sua carteira, os dados me levam a pensar que ao menos eles já não demonstram a mesma pressa que a turma da minha idade.

 

Dois outros aspectos interessantes que nos dão esperança de que começa a surgir um novo olhar entre os jovens quando o assunto é o automóvel:

 

Mesmo que tivessem dinheiro suficiente, antes de pensar em comprar um carro, os jovens que participaram da pesquisa disseram que preferiam fazer intercâmbio cultural, participar de algum outro projeto e viajar para estudar. Ou seja, colocaram o desenvolvimento pessoal acima do sonho do carro próprio que moveu muitos da minha geração (eu, inclusive!)

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Para 51% deles, o carro é visto como meio de transporte, portanto, se o querem é porque têm necessidades práticas. O melhor é que a maioria não cultiva mais a ideia de que o veículo simboliza a liberdade — apenas 18% concordaram com esse pensamento -, o que demonstra que estão buscando essa expectativa em outros caminhos.

 

Com todas as ponderações que se deve fazer diante de estudo que se restringe a um grupo de pessoas, em duas localidades apenas, o que impede que se conclua que esta seja a visão de toda população jovem brasileira, me parece evidente que há mudanças na relação dos mais novos com o automóvel. A velocidade com que essa transformação ocorre no Brasil apenas não é maior porque o investimento em transporte público ainda é baixo e a política de incentivo do uso do carro prevalece na maior parte das cidades brasileiras.

SP: moradores com carro são conservadores

 

Por Carlos Magno Gibrail

 

 

A pesquisa Datafolha sobre o uso dos carros, publicada segunda-feira, mostra posição radical contra mudanças por parte dos proprietários de veículos. O pedágio urbano, uma das soluções apontadas por especialistas é a alternativa mais rechaçada. 80% são contra, embora apenas 5% tenham certeza que não haverá melhoria. Como se sabe é uma opção adotada por várias cidades com resultados satisfatórios. Ressalvando, contudo, que em condições de transporte público mais favorável que a nossa.

 

A extensão do atual sistema de rodízio para dois dias tem 65% dos usuários de carro contrários. E 56% da população em geral, com renda acima de 10 salários mínimos. Enquanto apenas 40% dos de baixa renda a desaprovam. Quanto maior o poder aquisitivo mais acentuada a reação. O rodízio estendido em um dia da semana é reprovado por 57% dos usuários de carros. É aprovado por 49% da população em geral.

 

Essas avaliações indicam conservadorismo dos paulistanos usuários de carro. Comportamento que deixa São Paulo atrás de grandes cidades da América. A Cidade do México, Santiago e Bogotá já possuem sistemas mais restritivos que os de São Paulo. Todas com dois dias de rodízio estendido. E, pelo que consta, não houve nenhuma revolta da população.

 

Ao que tudo indica aquela máxima de que o cidadão brasileiro se transfigura ao volante em personalidade e comportamento está se estendendo até aos momentos imaginários ou opinativos. É difícil entender esta posição, conservadora e imatura, tendo em vista que São Paulo já parou por várias vezes. Se o poder público, foi o responsável pelo desequilíbrio viário de hoje, todos temos a responsabilidade. O voto e o modus vivendi trouxeram as consequências de agora. É hora de encarar e não de refugar. Ou, parar.

 

Carlos Magno Gibrail é mestre em Administração, Organização e Recursos Humanos. Escreve no Blog do Milton Jung, às quartas-feiras.

Nem os deuses do trânsito salvam

 

Por Milton Ferretti Jung

 

Sei que há quem se dá ao trabalho de ler o que escrevo no blog do Mílton. Não penso que sejam muitos esses abnegados.Tenho por eles (ou ele?),como não poderia deixar de ser,grande respeito. Por isso,afora outros cuidados,lembro que digito o texto nas terças-feiras,mas esse somente é postado nas quintas.Assim,sou obrigado,dependendo do assunto,a correr o risco de que ele fique defasado. Vou usar,no do dia 26,um subterfúgio. Isto é,morador que sou de Porto Alegre,só não sofro com o trânsito caótico dos dias de jogos da Copa do Mundo na Arena da Beira-Rio,porque fico acoitado – ou quase isso -em minha casa. Morador,que sou,da Zona Sul,sofro com a proibição de ir,pelas vias normais,ao Centro da cidade. Já as anormais,que aumentam o trajeto uma enormidade e não contribuem em nada com a velocidade do deslocamento,só podem ser utilizadas por quem tem necessidade de chegar,depois de gastar muito combustível e torrar a paciência,ao local de destino.

 

Nesta terça-feira,estou redigindo o meu texto e lendo na Zero Hora,jornal gaúcho,esta manchete: “PARA (TENTAR) EVITAR O CAOS NO TRÂNSITO”

 

Explica o matutino que,”depois dos congestionamentos no dia de Austrália x Holanda,a EPTC – Empresa Pública de Transportes – preparou ações para tentar aliviar a vida dos motoristas porto-alegrenses”. Afora essa providência,Prefeitura e Estado – leio na ZH – apenas para os seus servidores em Porto Alegre ,anunciou ponto facultativo. Tomo a liberdade de duvidar que essas e outras decisões tenham obtido o esperado efeito (ou seria o desesperado efeito)adotado pelas autoridades ditas competentes,visando a ter evitado,na quarta-feira,25/6,a repetição do caos. Tenho pena dos moradores de prédios,alguns luxuosos,situados nas proximidades do Beira-Rio:eles nunca imaginaram que bem à frente de suas residências,o que era um estádio clubista, viraria Arena.Lembro isso porque,nos dias de jogos da Copa, os proprietários de apartamentos,no local, têm de mostrar documento oficial comprovando que residem na área com entrada restrita. Oxalá,me engane,mas creio que somente os deuses do trânsito podem ter evitado um novo caos na Zona Sul de Porto Alegre,suas adjacências e as supostas vias de mobilidade para quem tem urgência de ir ao Centro Histórico desta cidade.

 


Milton Ferretti Jung é jornalista, radialista e meu pai. Às quintas-feiras, publica seu texto no Blog do Mílton Jung (o filho dele). Desta vez, porém, dado o tema escrito, o editor (seu filho) antecipou a publicação em um dia e, pelo descrito na imprensa gaúcha, a expectativa de que haveria grande congestionamento nesta quarta-feira, antes do jogo da Argentina, estava correta.

Conte Sua História de SP: minha cidade caleidoscópica

 

Por Carolina de Medeiros Cecatto

 

A São Paulo em que nasci é a cidade onde vou trabalhar desde os meus vinte anos. Não que eu tenha longeva idade, mas desde pequena já dava meus passinhos por ela. Aos 7, fazia exames na Vila Mariana, bairro em que nasci por sinal, porque logo precisei usar óculos e tampão. E minha nossa! Ia com minha mãe de metrô, e como eu adorava aquilo! Nunca achei em minha vida que entenderia os entremeios das linhas daquela lombriga de ferro – assim como nunca imaginei que essas linhas cresceriam tanto como agora, tanto como eu cresci.

 

Hoje, domino e escolho as plataformas, guiada às vezes pelo instinto das grandes massas, costurando entre elas, vislumbrando pessoas, paisagens e concretos: são os violinistas das estações de metrô, é aquela avenida de uma vida inteira chamada Paulista, são os adolescentes de cabelos coloridos e fãs de mangá nas escadarias da Liberdade, é o verde imperial do Parque da Independência, é o corre-corre, o compra-compra da 25 de Março, é a miscelânea abençoada de coisas que vejo e reparo e que me fazem sentir mais deslumbrada.

 

O lugar mais cosmopolita, de gente mais desconfiada, é a cidade mais acolhedora, acredite! Nos dias de chuva fica mais poética, mais indiferente e triste, mas é esse o seu charme. É de se ver o colorido da noite nas baladas, corpos e sinestesia e fluidos, é nelas que vinga um pouco de Sampa. Bate também o coração dessa cidade com o tráfego diário de carros, buzinas e xingamentos, e aquela palavrinha que todo paulistano detesta já é praxe: congestionamento.

 

Vibra a cidade com seus vários times valentes e pioneiros, além de tudo tradicionais, que jogam bola e dão brilho e paixão nos olhos da gente. Permeiam seus muros os grafites psicodélicos, sem contar as calçadas e as ruas com várias pernas malabares sobre seus skates e patins, a correria para pegar o ônibus – o lindo caos diário que tudo isso encerra!

 

É a cidade cheia de registros, de mistura fina, de seriedade, de inegável disposição, de comércio, da pizza mais gostosa, dos edifícios mais audazes e cinzas, da gente mais diversa e colorida. É a cidade que não desliga, nem pisca. É a minha São Paulo caleidoscópica.

 

Querem inventar mais um jeito de espoliar os motoristas

 

Por Milton Ferretti Jung

 

O jornal gaúcho Zero Hora,nessa segunda-feira,dia 29 de abril,a propósito de uma matéria assinada por Marcelo Gonzatto que tinha como título “opção para desafogar o trânsito”,em um box ao pé da página,deu chance aos leitores de manifestarem sua opinião sobre a tal de Lei de Mobilidade Urbana, aprovada em 2012. Eis a pergunta:

 

“Você considera viável e oportuno cobrar para usar automóvel nas grandes cidades em determinados dias e horários?

 

Minha opinião: sou contra o que se pode chamar de pedágio urbano. Já não basta o pedágio que somos obrigados a pagar em várias rodovias,querem inventar mais um jeito de espoliar os motoristas. Os defensores da Lei citam exemplos bem sucedidos,por exemplo,em Milão,Roma,Londres e Cingapura,cidades que cobram taxas de motoristas que circulam por áreas centrais,com a finalidade de diminuir os congestinamentos. É claro,esses provocam,além de diminuir a mobilidade dos veículos,diminui a poluição em diversos níveis.

 

As cidades citadas possuem,porém, algo inexistente nas brasileiras (me avisem se existe uma exceção):transporte público qualificado. No meu caso,se não fosse o meu carro levar-me para o centro da minha Porto Alegre,teria de andar a pé longa distância,seja para sair,seja para retornar. Moro num bairro que é atendido, exclusivamente,por ônibus. Nenhum passa perto da minha casa.

 

Zero Hora lembra,na matéria,o que aconteceu em Estocolmo. Lá, 80% da população não aceitou bem o projeto-piloto da taxa. Em referendo feito sobre a cobrança, 52% acabaram mudando de ideia. Ora,isso se verificou na capital da Suécia, país exemplar em muitas coisas. A diferença entre os prós e os contras, porém, foi de apenas 4% por cento,muita pequena para justificar a existência dessa,insisto,espécie de pedágio urbano. Não bastasse isso,duvido que o transporte público em Estocolmo não fique entre os melhores do mundo.

 

No Brasil, sei quem adora um congestionamento: Maria das Graças da Silva Foster, presidente da Petrobras.Ela pode ter feito essa confissão de brincadeira,mas falou sério quando declarou que o negócio dela é vender gasolina. Veículos que se metem em engarrafamentos gastam mais combustível.

 


Milton Ferretti Jung é radialista, jornalista e meu pai. Às quintas-feiras, escreve no Blog do Mílton Jung (o filho dele)

Como impedir que SP gaste R$ 50 bi em congestionamentos

Texto publicado originalmente no Blog Adote São Paulo no site da revista Época SP

 

Dia Mundial Sem Carro na 23 de Maio

 

Os congestionamentos já custam R$ 50 bilhões por ano para a cidade de São Paulo e o bolso dos paulistanos, conforme estudo da Fundação Getúlio Vargas. A instituição calculou o que deixamos de fazer e produzir enquanto estamos travados no trânsito, assim como os gastos com combustível, manutenção de veículos, poluição gerada e doenças provocadas. O incrível na conta é que o custo tem dobrado a cada quatro anos, coincidentemente período completo de uma gestão no Executivo. O difícil é saber que um prefeito só jamais dará conta do recado, sendo necessárias ações de longo prazo. Antes que Fernando Haddad, que assume em janeiro, veja na afirmação anterior uma justificativa para deixar a coisa como está, deixo claro que as soluções que nos levaram a uma mudança no futuro têm de começar imediatamente.

 

No plano de governo, aprovado por parcela da população, há a previsão de se construir o que foi batizado de Arco do Futuro, conjunto de ações que pretendem mudar a lógica de crescimento de São Paulo aproximando a casa dos paulistanos do local de trabalho. A intenção é criar esta oportunidade a cerca de 1,3 milhão de moradores dos bairros entre São Mateus e Itaquera. A principal mudança deve ocorrer na Avenida Jacu-Pessego, na zona leste, que seria transformada em pólo comercial e industrial. Haddad acredita que com isenções fiscais conseguirá levar empresas para a região. Avaliar o tipo de emprego a ser criado para atender as demandas das novas economias e do conhecimento que circula nos extremos da cidade é fundamental, sob o risco de criar vagas para uma mão de obra que não existe..

 

Vai ter de ir além.

 

Ampliar o sistema de trilhos na cidade – e para tal precisará planejar a extensão ao lado do Governo do Estado -, abrir corredores de ônibus sem medo de estreitar a passagem de carros, rever a entrada de veículos em algumas regiões, oferecer espaços saudáveis para a circulação de bicicletas e pedestres, investir em tecnologia para melhorar a engenharia de trânsito, são apenas algumas das soluções que fazem parte deste elenco de medidas.

 

Este projeto exigirá coragem, compromisso e dinheiro.

Tem graça feriado com estrada congestionada ?

 

Por Milton Ferretti Jung

 

É cada vez maior – e isto que me refiro apenas ao Rio Grande do Sul – o número de veículos, especialmente automóveis, caminhonetes e utilitários, que transportam as pessoas que, principalmente nos feriados prolongados de verão, dirigem-se, visando a fugir do calor, às praias não só deste estado, mas da vizinha Santa Catarina. Fico a me perguntar qual a graça que encontram em se atrever a pegar estradas congestionadas e, portanto, perigosas, para passar alguns dias no litoral. Será que vale a pena o sacrifício? Elas devem achar que vale, caso contrário, não iriam. Levam vantagem, principalmente as que permanecem em Porto Alegre. A razão é simples: a metrópole, pode-se dizer sem exagero, com tanta gente motorizada saindo dela, esvazia-se como num passe de mágica. Sei que isso também acontece, proporcionalmente, claro, em São Paulo.

 

Talvez aí (quando digito aí, se trata de São Paulo|), seja até pior do que aqui, porque duvido que essa cidade, somente por força de um feriadão ou outro, ficará, em matéria de veículos nas ruas, tão vazia quanto minha Porto Alegre. Observem estes números: nos dias 17 e 18 deste mês, nas principais rodovias do Rio Grande do Sul – BR-101, Estrada do Mar,Free-Way e ERS-040 – registraram-se congestionamentos monumentais. Pela Free-Way e pela Viamão-Cidreira, 185 mil veículos partiram rumo às praias. É mole? Esse número superou todas as expectativas. Quem quis ir até Santa Catarina, sofreu muito mais: gastou 12 horas para cumprir o percurso Porto Alegre-Florianópolis. Normalmente, leva-se a metade desse tempo para viajar até a capital catarinense. Sei de quem tirou uma bela soneca antes que os veículos andassem.

 

Podem me chamar de saudosista, mas morro de saudade dos tempos em que havia duas estradas para as praias gaúchas: uma por São Sebastião do Caí, outra, por Viamão. Quem buscava as praias do norte, ia por uma; quem queria ir às do sul,pela outra. Houve até, durante alguns anos, uma prova automobilística que começava em Gravataí e terminava nas areias de Capão da Canoa. Durante uma época, a velocidade nas duas estradas era controlada, por um cartão que se recebia ao sair e tinha de ser mostrado, na chegada, à Polícia Rodoviária Estadual. Os apressadinhos eram multados porque chegavam ao fim fora do tempo que o cartão marcava.

Estou concluindo este texto antes da volta do feriado prolongado. Fico, porém, imaginando como estarão as rodovias no retorno.

 


Milton Ferretti Jung é jornalista, radialista e meu pai. Às quintas, escreve no Blog do Mílton Jung (o filho dele)

Megaengavetamento: testemunho e apelo

 

Por Carlos Magno Gibrail

Quinta feira eu estava na Serra do Mar no exato momento em que ocorreu o maior engavetamento da história do caminho do mar bandeirante.

Salvo pelo GPS que indicou a Via Anchieta, testemunho que a cena da Imigrantes não se repetiu ali porque a estrada já estava congestionada. Ainda assim pude vivenciar a sensação de total horror ao perceber que as carretas carregadas que vinham atrás quase colidiram com o meu veículo.

Não se enxergava nada, calcula-se apenas 10m, e não havia acostamento suficiente. A solução era andar muito devagar e manter uma distância dos gigantes que lotavam o leito da rodovia. Mesmo porque nas pequenas arrancadas era visível a impaciência dos motoristas, coisa de doido, ou de cegos, porque quem não enxergasse que visibilidade não havia boa visão não podia ter.

Neste quadro não ficou nenhuma dúvida que a velocidade, tão combatida no ambiente urbano, é fatal nas rodovias. Mesmo porque ficamos diante do absurdo de habilitar motoristas sem treinamento para rodovias. Muito menos para situações de extrema dificuldade como grandes temporais e cerrações agudas.

As placas de advertência, o alerta dos policiais, não irá resolver. O apelo sério é que haja habilitação específica. Embora a solução definitiva seja desmitificar a generalidade da habilidade de dirigir. Quem disse que todos os cidadãos estão aptos para o volante? Ao mesmo tempo em que cada vez mais se cuida para que o trabalho, seja manual ou intelectual esteja sendo executado por pessoas potencialmente capazes e de personalidade adequada ao seu desempenho, entregamos habilitação e uma arma feroz, para qualquer um que passe num exame incompleto.

E, a técnica está propondo outro modelo, pois a Abramet (Associação Brasileira de Medicina de Tráfego) avaliou através do seu diretor e chefe do departamento de medicina de tráfego ocupacional Dirceu Rodrigues Alves, que o principal fator negligenciado no acidente foi a velocidade. Assim como a não exigência aos motoristas, de habilidades em situações desfavoráveis.

A complexidade do trânsito de hoje não pode ignorar o preparo para enfrentá-lo.

Carlos Magno Gibrail é doutor em marketing de moda e escreve no Blog do Mílton jung, às quartas-feiras.

SP: Demanda reprimida liberada

 

Por Carlos Magno Gibrail

Cruzamento insano

São Paulo conseguiu proeza e tanto. Gastou aproximadamente 10 bilhões de reais no sistema viário urbano, e vive hoje uma explosão de consumo imobiliário e automotivo. É só atentar aos jornais e TVs, e escolher apartamentos e carros com ofertas infindáveis e financiáveis.

Entretanto, ao lado desta força econômica, quem mostrou a nova cara foi a demanda reprimida. Agora, utilizando o espaço viário recém inaugurado, se apresentando como liberada, e ocupando as novas vias de tráfego.

A resultante destas façanhas foi estampada na mídia da semana, quando realçou a inusitada igualdade dos quilômetros de congestionamento no centro expandido da capital paulista. De manhã ou de tarde há gigantesca paralisação do tráfego. E, se houver previsão de chuva o placar indica goleada para o período matutino.

Como as chuvas têm continuado, a inversão do congestionamento permanece, o que tem levado parte da população a mudar a rotina diária.

Se o paulistano, já refém da síndrome de Estocolmo em relação a aceitação da lentidão no tráfego ainda não distingue a razão desta mudança, os especialistas já apontam a causa.

As obras da Marginal idealizadas e executadas por Serra e Kassab melhoraram o trânsito nas marginais, a tal ponto que animaram paulistanos que não usavam o carro, e passaram a trafegar pelas novas vias.

Este aumento não pôde ser absorvido pelas demais ruas secundárias, além de coincidir com o período matutino que converge em poucas horas, das 7 às 9, o maior fluxo.

O especialista em transportes, Sérgio Ejzenberg, entrevistado pelo jornal O Estado de São Paulo explicou: “É igual ir a um evento em estádio. A chegada é sempre mais difícil, pois os caminhos são poucos e todos vão para o mesmo lugar. Depois que você sai do furacão, a volta é mais tranqüila.”

Na mesma reportagem do Estado o consultor de transportes Horácio Figueira declarou: “Como o trânsito melhorou, muita gente que evitava usar a Marginal por causa dos congestionamentos acabou voltando a utilizar a via. Assim, o efeito das novas pistas acabou sendo parcialmente dissipado. Mas, como a Marginal já era mais saturada à tarde, a piora acabou concentrada na parte da manhã.”

De outro lado a Folha de São Paulo ressaltou que a Marginal Pinheiros está pagando preço alto pela maior vazão dada a Marginal Tietê, e é a grande responsável pelos recordes de congestionamento matinais.

Enquanto o trânsito da tarde não aumenta, esperamos que o mesmo prefeito e o novo governador não tenham a mesma idéia de gastar mais 10 bilhões de reais para tentar resolver o problema do automóvel, quando o problema é o automóvel.


Carlos Magno Gibrail é doutor em marketing de moda e escreve, às quartas-feiras, no Blog do Mílton Jung