Conte Sua História de São Paulo 472 anos: de madrugada, entregava pão quente em casa

Lucio Urbano

Ouvinte da CBN

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Dezembro de 1972. Aos 11 anos, comecei a trabalhar como entregador de pão e leite na Vila Mariana. Naquela época, não existiam muitas padarias. As fornadas começavam a sair de madrugada e a última era por volta das sete e meia da manhã. Depois disso, só no dia seguinte.

Os entregadores eram comuns em bairros mais nobres e de classe média. Às três da madrugada, eu chegava a Padaria Cruzeiro, no Largo Ana Rosa — onde havia uma enorme cratera para a construção do metrô. Carregávamos pão e leite na Variant do meu pai. No começo, eram mais bengalas do que pãezinhos; com o tempo, isso foi se invertendo. O leite vinha em garrafas de vidro, transportadas em engradados de ferro. Depois, passou a ser vendido em sacos plásticos.

Por volta das três e meia da manhã começavam as entregas nas casas e prédios da região. Cada residência tinha uma caixa de ferro ou uma sacola de pano pendurada em local previamente combinado, onde deixávamos os produtos.

Perto das seis horas, eu retornava à padaria para a “segunda volta”: mais pão, mais leite e seguíamos até concluir o atendimento da freguesia, por volta das oito da manhã. Aí era hora de ir para casa, tomar café, fazer a lição da escola, ir ao curso de datilografia, almoçar e assistir às aulas no colégio à tarde.

Em 1980, um dos donos da padaria, o senhor Luís, conseguiu para mim uma carta de apresentação com o gerente do Banco Itaú. A ideia era tentar uma vaga, afinal eu já tinha curso de datilografia. Consegui. Fui trabalhar como escriturário em uma agência na Rua Luís Góes.

Passei por várias funções: conferente, somador e separador de documentos, operador de telex, caixa, tesoureiro. Fui crescendo e saí de lá na gerência. Trabalhei em outras agências e deixei o banco em 1991. Já havia concluído a Faculdade de Economia quando fui convidado por um cliente do banco para ser gerente financeiro em sua empresa.

Foi uma experiência marcante, que redirecionou minha carreira. Trabalhei em multinacionais na área administrativa e financeira e, nos últimos anos antes da aposentadoria, atuei no mercado corporativo na área de Recursos Humanos. Um campo que exige preparo, experiência e discernimento, afinal, a matéria-prima é complexa, desafiadora e, ao mesmo tempo, a mais gratificante e preciosa com a qual se pode trabalhar.

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Lucio Urbano é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Participe desta série especial em homenagem aos 472 anos da nossa cidade. Envie o seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos visite meu blog miltonjung.com.br e o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Conte Sua História de São Paulo 472 anos: os cicerones da cidade

Vera Lucia Curtu

Ouvinte da CBN

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São Paulo era sempre cinza… a vida sempre acontecendo sob uma garoa fina… Os táxis eram grandes e todos pretos, de portas pesadas, daqueles carros antigos como dos filmes. Duraram pouco, para mim… fiquei menina e logo todos viraram fuscas, por dentro e por fora geralmente assustadores: velhos, quebrados, sujos, barulhentos que davam medo. 

Há tempos são carros novos, todos brancos e com motoristas profissionais e educados: conhecem a cidade, perguntam qual caminho preferimos, os carros sempre limpos e fazem o que for preciso para te deixar, com calma, pertinho e não do outro lado da calçada. 

Se tem uma classe paulistana que é “dez” é a dos motoristas de táxis. Não são apenas motoristas, são verdadeiros cicerones da cidade. 

Quanto aos ônibus? Você acha os de hoje são lotados? Ah! isso é porque você nunca tomou um Penha-Lapa nos anos 1970… o pior é que a gente achava normal! 

Bom, é muita coisa para uma sexagenária contar sobre sua cidade na sua rádio preferida, a CBN. Mas, fica aqui esse registro sobre uma pequenina parte de nossa “cidade maravilhosa, cheia de encantos mil, cidade maravilhosa, coração do meu Brasil”. Ops, desculpa aí, Rio !

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Conte Sua História de São Paulo 472 anos: para quem domina idiomas e aceita ganhar pouco

Evandro Gimenez

Ouvinte da CBN

Photo by Beto Mendes on Pexels.com

Cheguei a São Paulo em 2003. Vim sem ter onde morar. Contei com a ajuda de um amigo do meu irmão, que vivia na Santa Cecília, na Rua Major Sertório. Ele praticamente morava com a namorada e me emprestou o quarto onde dormia.

O “quarto” era uma dispensa de 2,5 metros quadrados. Um colchão no chão, um armário embutido e pouco espaço para eu me deitar — só na diagonal. Ali moravam mais três rapazes, cada um com seu quarto. Fiquei cerca de três meses até encontrar outro lugar para dividir, dessa vez com pessoas que eu nunca tinha visto.

Logo me acostumei ao caos da cidade. O cheiro de gás nas ruas. Metrô e ônibus lotados. Desci do lado errado incontáveis vezes, errei ponto, comi em padarias perto do Minhocão e esperei ônibus no Terminal Princesa Isabel. Hoje rio disso tudo.

São Paulo me ensinou a confiar em mim. Eu não conhecia ninguém. Meus pais ficaram em Jales e eram contra minha vinda. Mandavam 300 reais por mês, só para o básico. Consegui subempregos, lavei banheiro, dormi três horas por noite durante meses. Chegava às 11 da noite e acordava às 4h40. Pela formação em tradução, fazia trabalhos indicados por amigos do interior. Isso ajudava a pagar aluguel, comida e transporte. Trabalhei muitas vezes de segunda a segunda.

Nesse caminho, conheci pessoas que me abriram portas. Comecei a dar aulas de inglês, francês e italiano. Foi assim que surgiu uma proposta inesperada: trabalhar em Alphaville, num ambiente corporativo. “A empresa precisa de alguém jovem, que fale vários idiomas e aceite ganhar mal”, disseram, rindo. Fiz a entrevista. Um mês depois, entrei como assistente de vendas, pegando ônibus intermunicipal pela Castelo Branco.

Nessa época eu morava em Pinheiros, na Teodoro Sampaio, perto da Benedito Calixto. O bairro tinha outro clima: gente despojada, feirinha de antiguidades, jazz saindo das escolas de música. Depois, por necessidade, fui morar sozinho numa quitinete na Rua Castro Alves, em frente ao Hospital do Servidor Municipal. Pagava 300 reais. Era o que dava.

Aos poucos, fui crescendo. Mudando de emprego. Errando e acertando. Discuti com chefes por convicções, fui demitido, consegui trabalhos melhores. Fiz amigos, vivi amores e desamores. Hoje empreendo, unindo música, tecnologia e design.

São Paulo me deu trabalho, profissão, renda e amigos que viraram família. Sou quem sou porque decidi sair do interior e enfrentar a cidade. Apesar de tudo o que dizem, São Paulo me fez mais feliz e mais realizado.

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Conte Sua História de São Paulo 472 anos: a telefonista que conectava o Brasil

Maria Dusolina Rovina Castro Pereira

Ouvinte da CBN

Foto: Wikipedia/Domínio Público

Comecei a trabalhar aos 12 anos, em Piracicaba, onde morava. Fui babá, manicure, balconista, auxiliar de escritório até que, aos 17, surgiu um teste para telefonista na Companhia Telefônica Brasileira. Passei. Estava ali meu primeiro emprego formal.

Era o fim dos anos 1960. Todas as ligações interurbanas dependiam da intervenção de uma telefonista. Para falar com outra cidade, o usuário ligava para a CTB, informava o destino, o número e o nome da pessoa. Dependendo do local, do horário e da conexão, a ligação podia ser imediata ou entrar numa fila que durava horas — às vezes, dias. De Piracicaba para a Capital, não era diferente.

Com o pedido em mãos, começava nosso trabalho. Muitas conexões passavam por várias cidades. Ainda me lembro que, da nossa mesa de operação para alguma localidade no Mato Grosso, por exemplo, Piracicaba chamava Jaú, que chamava Bauru, que chamava Cuiabá, até chegar ao destino. Tudo era feito manualmente, com plugues — as “pegas” — encaixados em painéis cheios de luzes. As ligações eram caras, cobradas por minuto. Falava-se apenas o necessário.

Com o tempo, desenvolvi uma verdadeira agenda telefônica na cabeça. Muitas vezes eu já sabia o número solicitado antes mesmo de o cliente dizer. Gostava muito da profissão. Trabalhei ali por três anos, enquanto concluía a Escola Normal — o sonho da minha mãe era ter uma filha professora. Depois fiz cursinho para o vestibular. Aprovada, vim para São Paulo com uma bolsa que pagava apenas o pensionato e o transporte. Quando o auxílio terminou, precisei trabalhar para continuar na cidade.

Bati à porta da Telefônica, na Rua Sete de Abril. A recontratação não era comum, mas insisti. Em 1973, já com o DDD implantado em muitos lugares, o sistema era mais ágil. Eu saía da central às 11 da noite e caminhava rápido até a Praça da Sé para pegar o ônibus rumo à Aclimação. Jovem, sozinha, vinda do interior, sentia medo — mesmo numa São Paulo muito mais segura do que hoje.

Fiquei ali por apenas três meses. Fui chamada para trabalhar em um hospital, já na minha área de formação. Cheguei até esse novo emprego de uma forma inusitada, mas isso já é outra história. 

Hoje, quando falamos com o mundo inteiro em segundos, é difícil imaginar o que significava fazer um interurbano. Mas eu — e tantas outras telefonistas — guardamos com carinho a lembrança de uma profissão que ajudou a conectar pessoas, empresas e caminhos de vida na nossa São Paulo.

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Conte Sua História de São Paulo 472 anos: a caneta vermelha do revisor de texto

Mário Curcio

Ouvinte da CBN

Foto de João Saplak

Sempre morei em Santo Amaro, mas meu primeiro trabalho com carteira assinada foi na FC Editora, no bairro Santa Cecília. O ano era 1992. Para chegar lá eu pegava um ônibus até a Praça da Bandeira e depois o metrô até a estação Marechal Deodoro. Uma hora e vinte minutos de deslocamento.

Consegui o emprego enviando uma carta para o então diretor da revista Autoesporte, Fernando Calmon, que continua firme e forte como um dos jornalistas mais admirados do setor automotivo. Na carta eu expliquei que era formado pela Faculdade Anhembi Morumbi e sabia muito sobre carros porque lia todas as revistas do gênero.

Dias depois me chamaram para um teste. Fui contratado como revisor de textos. Lembro que meu pai ficou tão feliz quanto eu. A revisão era uma das portas de entrada do jornalismo. Usávamos uma caneta vermelha para apontar os erros, um dicionário Aurélio, uma gramática e o Manual do Estadão.

Dia sim, dia não, chegava algum carrão na garagem da editora. As importações tinham sido reabertas no começo dos anos 1990 e a Autoesporte testava todos.

Em 1998, mudamos de mala e cuia da Santa Cecília para o Jaguaré. Foi quando a Editora Globo adquiriu a Autoesporte e também a Casa&Jardim. Como parte do acordo de venda, todos os funcionários foram desligados de uma empresa e recontratados pela outra. No novo prédio passamos a dividir espaço com outras revistas como Galileu, Pequenas Empresas, Globo Rural, Época e também o jornal Valor.

Saí da editora em 2002 com a profissão já encaminhada, atuando como repórter e também como redator em outras empresas. Hoje, tenho 60 anos e percebo que o jornalismo passa por grandes mudanças. A profissão de revisor perdeu espaço nas redações faz mais de 20 anos, mas ainda resiste na publicação de livros e de outros conteúdos em que não se pode escorregar no português.

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Conte Sua História de São Paulo 472 anos: fui estafeta do Dr. Waldemar

José Luiz da Silva

Ouvinte da CBN

Foto do bonde reproduzida do site São Paulo Antiga

Quando eu tinha oito anos, por volta de 1940, morávamos na Rua Octavio Nébias com a Rua Maria de Figueiredo, entre o Ibirapuera e a Avenida Paulista. Minha mãe era governanta e cozinheira da família do Dr. Waldemar Mercadante, famoso médico da cidade. Meu pai era funcionário da RAE, Repartição de Água e Esgoto, atual Sabesp. 

O sobrado que habitávamos era enorme, com grandes varandas, porão, sótão com vista para o Ibirapuera, seus lagos, campos de futebol, muito verde no qual cavalos, vacas e cabras pastavam. Não tinha a estrutura de hoje, mas era lindo e despoluído.

O Dr. Waldemar tinha a rotina de solicitar que eu fosse buscar um carro de aluguel na Av. Paulista e também pegar soro no Instituto Pasteur.

Certa vez, após muitas explicações, principalmente sobre disciplina ambiental, fui incumbido de levar uma carta para um colega dele de medicina. Deu-me duas moedas para pegar o bonde. 

Lembro-me bem do bonde camarão com almofadas em vinil e lustres; motorneiro e condutores impecavelmente vestidos. Peguei o bonde na confluência da Av. Paulista com Brig. Luiz Antonio, onde erguia a estátua do índio Caçador. O bonde deslizava sobre os trilhos e dividia a rua estreita com alguns automóveis. 

Enfim, cheguei ao destino; desci perto do Trianon; localizei a mansão cuja frente era igual as demais: os portões eram enormes, feitos de bronze com bocas de onça e carrancas talhadas em ferro batido; a sinaleta era muito alta para o meu um metro de altura; subi colocando os pés entre os vãos e puxei a corrente; ouvi o badalar do sino ao fundo. Adiante, um verdadeiro bosque com árvores, matas, plantas e flores, hoje só vista na região do Parque Trianon.  E assim seguiam os meus dias de menino — fazendo as vezes de estafeta.

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Conte Sua História de São Paulo 472 anos: os caminhos que me levaram a ser economista

João Oswaldo Esotico

Ouvinte da CBN

Impostômetro
Fachada de prédio na rua Boa Vista Foto: CBNSP/Flickr

O que é do homem o bicho não come. Esta expressão representa muito bem aquilo que está destinado a alguém e, que, nos chega por meios estranhos; aquilo que parece ser coincidência, na realidade é, talvez, o universo trabalhando em seu favor.

Eu era office boy, numa pequena indústria de tintas, ali no Jabaquara. Era um emprego simples sem grandes aprendizados nem muito esforço da minha parte. No fim de 1968, eu precisava me dedicar aos estudos. Estava no cursinho Visconde de Cairu, na confluência da rua Quirino de Andrade com a Ladeira da Memória, próximo ao Vale do Anhangabaú.

Combinei com meu pai que largaria o emprego até entrar na faculdade. Vieram os exames vestibulares e consegui uma vaga na Álvares Penteado. Em economia.

Estudava pela manhã e meu tio me ajudou a encontrar um emprego no Banco da Bahia, na rua Boa Vista. Fui ser operador de lançamento de FGTS nas fichas de funcionários da Volkswagem. O trabalho, de seis horas, era de produção incessante e extenuante. Me sobressai como operador de máquina e fui promovido: transferido para o departamento de controle de contas correntes da sucursal do banco. Entrava às cinco da tarde e saía quando o trabalho terminava, pura mamata. Trabalhava em média quatro horas por dia. No fim do mês apertava: de oito a nove horas, saindo de madrugada.

Certo dia, meu chefe disse que queriam falar comigo lá na sede da sucursal do Banco. Cheguei e me apresentei ao gerente. Uma figura magra, simpática e com olhar penetrante, Benedito Otaviano. Queria que eu trabalhasse no departamento dele com análise de balanços, algo que não me era todo estranho, pois foi matéria do curso de contabilidade.

Transferência feita, para tristeza do outro chefe, comecei a rever conceitos de análise de balanços diretamente com o Benê, e ele já tinha contratado outro colega o Paulo Nashiro. Depois de algum tempo o Benê, contente com o meu desenvolvimento no trabalho, me contou que eu não estava na lista de estudantes de Economia e Contabilidade que o RH do banco lhe fornecera. Eu, intrigado, perguntei, como ele havia me encontrado em outro departamento.

Aí é que a gente vê que o universo conspira a nosso favor. O Benê havia entrevistado um colega meu da faculdade que ao sair da entrevista perguntou se ele chamaria, também, o Esotico. Foi então que o Benê pediu para o RH encontrar o tal de Esotico dentro do banco. 

Este foi o pontapé inicial para me deslanchar na carreira de economista, fazendo análises para investimentos e empréstimos bancários.

E pensar que tudo isso se desenrolou nessas ruas que agora completam 472 anos. O mesmo Anhangabaú que eu atravessava apressado para o cursinho, a mesma Rua São Bento onde minha vida profissional mudou de rumo.

O que é do homem o bicho não come.

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Conte Sua História de São Paulo 472 anos: os cortiços da Vila Carioca receberam as famílias da usina de cana


Fábio J. Orenhas

Ouvinte da CBN

Esquina da Vila Carioca Foto: Google Street View

São Paulo, década de 1940. Primeiro vieram os Carinalli, que saíram de uma pequena cidade do interior, Cosmópolis, para tentar a sorte em São Paulo. Eram moradores de colônias construídas na fazenda para abrigar os trabalhadores da Usina Ester, produtora de açúcar e álcool. Depois vieram os Baron, Rosa, Tejeda. Todos atraídos pela força da cidade grande.

O local escolhido não por consenso, mas por decisão do primeiro que chegou: Ipiranga, Vila Carioca. Moravam em um espaço de dois ou três quarteirões, tendo como centro a Rua Lício de Miranda. Viviam em cortiços ou em casas, próximos uns dos outros. Formavam a comunidade da Usina Ester, em São Paulo.

Minha mãe que herdou o nome da usina de açúcar, Dona Esther,  chegou no fim dos anos 1940. Da família Todero, viúva, veio com a filha mais velha, morar no mesmo quarteirão dos Rosa, do marido falecido. Conheceu meu pai, que era de Birigui. Foi aí que nasci, e passei a morar na comunidade da Usina Ester.

Lembro dos casamentos, muitos entre famílias que vieram da Usina.  Eu mesmo casei com minha esposa, também de Cosmópolis, e continuei morando na Vila Carioca. Quando vinha alguém lá da usina ou da cidade natal era uma festa — oportunidade de lembrar as histórias de antigamente. 

Estas comunidades duraram até os anos 1990. Perderam-se, substituída pelos barracões e pelo crescimento da cidade. Os cortiços já não estão mais lá, a comunidade se espalhou por outros lugares — eu estou morando em Paulínia, pertinho de Cosmópolis. As ruas Licio de Miranda, Albino de Moraes, Brás de Pina e Colorado resistem bravamente, assim como o calçamento de paralelepípedo e um solitário portão de uma das antigas casas. 

Sobraram saudades que tentamos passar para as novas gerações; lembranças deste tempo que se foi na garoa e na neblina de São Paulo. O progresso levou embora as colônias da Usina Ester. 

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Conte Sua História de São Paulo 472 anos: comecei minha carreira como arquivista

Suzana de Lourdes Silva

Ouvinte da CBN

Década de 1970. Ano de 1974 para ser mais precisa.

Meu primeiro emprego: arquivista. Foi na fábrica de violões Tranquillo Giannini — luthier italiano que imigrou para o Brasil no início do século XX. Ficava na rua Carlos Weber, na Vila Leopoldina, muito diferente de hoje com seus restaurantes badalados, cafés e prédios de alto padrão. De arquivista a supervisora de contas a pagar, passei por todas as etapas de evolução.

Lembro  de uma colega, Joana. Um arraso na datilografia. Ficávamos todos babando com a rapidez dela, movendo os dedos nos teclados e a haste de metal que trocava de linha. Na época não havia a expressão “agora a NASA vem”, mas certamente alguém teria dito, pois achávamos que a máquina levantaria voo a qualquer momento.

Os borderôs acompanhavam as faturas direto para o banco, uma papelada do caramba, levada por algum motoboy. Ops, office-boy — na época a expressão motoboy sequer existia. Também tínhamos a máquina de telex – uma esfinge que nos convidava a entender como aquela fita perfurada se transformava em mensagem em algum lugar do planeta.

Ah! E os salários pagos aos funcionários? Isso era um evento à parte. No dia do pagamento, alguns se trancavam na sala da diretoria, contavam as cédulas e moedas e, de posse dos envelopes, depositavam, lacravam e nos entregavam ao fim do dia. E, não, ninguém ficava pelado como se espalhava na época dizendo ser o único jeito de não haver desvio na contagem.

Outra que nos chamava atenção era a telefonista. Uma espécie de  DJ, comandando uma caixa com inúmeros pinos de variadas cores, conectando a ligação externa com o ramal desejado. Mais um enigma, pois não atinávamos como tudo funcionava.

Aposentei-me aos 46 anos porque na época as mulheres precisavam contribuir por apenas 30 anos. Mas nunca parei. Hoje, aos 65, sou gestora financeira de uma agência de comunicação. E posso dizer que passei e estou passando por todas as melhorias ocorridas desde à época da datilografia e da maquina do telex.

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Conte Sua História de São Paulo 472 anos: nos Correios, trabalhei com telegrama fonado

Giuseppe Nardelli

Ouvinte da CBN

Unidade do Telex em Ponta Grossa, no Paraná. Museu Nacional dos Correios

Aos 19 anos, eu precisava arrumar um emprego para ter minha independência financeira. Eu já queria alçar voos mais altos e morar sozinho. Ao passar pelo centro da cidade, vi uma placa no prédio dos Correios: “Precisa-se de funcionário para fonegramia, mesmo sem experiência”

Criei coragem. Falei com a recepcionista sobre a vaga e logo ela me levou ao primeiro andar do prédio. Era uma sala gigantesca com vários terminais e muitas pessoas. Um barulho infernal de telex. 

O funcionário que me atendeu perguntou se eu pretendia fazer um teste e se falava outros idiomas, além do português. Disse que falava inglês e italiano fluentemente e estava disposto a fazer o teste. Ele me levou para um terminal e começou a ditar um texto em português. Eu precisava traduzi-lo para o inglês e o italiano. Estava bem nervoso, mas respirei fundo e cumpri a árdua tarefa. Encerrado o teste, esperei meia hora até o funcionário retornar e dizer que eu estava contratado. 

O serviço era atender os telefonemas de clientes que queriam enviar um telegrama  fonado.  Naquela época só nos Correios existiam telex. Era a única forma de mandar telegramas para dentro e fora do país. Passei uma semana em treinamento com outras pessoas que também foram aprovadas no teste. Fiz muitas amizades e sem sem perceber o tempo passar, ganhei meu terminal para começar a atender os telefonemas. 

Foi muito bom aprender a mexer com telex. A máquina imprimia fitas amarelas perfuradas que depois iam para central de transmissão. Foi uma primeira experiência de trabalho fascinante, levando em conta que o “telegrama fonado” era o meio de comunicação mais moderno da época — uma profissão que acabou com a chegada do fax.

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