Eu morava na rua Amâncio de Carvalho, perto do ponto final do ônibus 48, linha Paraíso-Anhangabaú. Estudava no Colégio Maria Imaculada bem perto da Praça Osvaldo Cruz.
É na praça que começa a avenida mais famosa de São Paulo: a Paulista. Alguns saudosos podem contestar porque a Avenida São João também é um local muito admirado pelos paulistanos até em música.
A Osvaldo Cruz era uma linda praça onde havia a escultura de um índio com sua lança, pronto para pescar algum peixe do pequeno lago que ali existia. Muitas vezes, após as aulas, eu e minhas colegas chegávamos até perto da água para nos refrescar.
A grande novidade naquela região foi a inauguração da loja Sears Roebuck, onde hoje funciona o Shopping Paulista. Seu slogan era impactante: “satisfação garantida ou seu dinheiro de volta”. Sensacional! Tendo chegado em 1949, a Sears revolucionou o varejo na cidade.
O acontecimento gerou uma revolução na disciplina do Colégio Maria Imaculada. As alunas cabulavam as aulas para visitarem a Sears. No térreo, o cheiro de amendoim torrado e açucarado, rescendia pela loja. Nenhuma de nós resistia a um pacote.
No andar inferior onde se vendia discos havia uma pequena cabine na qual se ouvia as novidades do Rock and Rool. Logo, as irmãs da escola proibiram que ouvíssemos aquele ritmo. As freiras nos seguiam e éramos obrigadas a ouvir reprimendas em plena loja. Assim que elas apareciam, era um correria só para fugir da punição que seria certa.
O Maria Imaculada ainda está lá. Hoje atende meninas e meninos. A Sears, o cheirinho de amendoim, os produtos que ficavam a mostra e a música dos discos permanecem na minha memória.
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Bete Marum é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Juliano Fonseca. Escreva a sua história de São Paulo e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite o novo site da CBN – cbn.com.br —, o meu blog miltonjung.com.br ou o podcast do Conte Sua História de São Paulo
Soteldo é destaque em foto de Lucas Uebel/Grêmio FBPA
No dia em que escrevo esta Avalanche é feriado em São Paulo. 25 de Janeiro é a data de fundação da cidade que completa 470 anos. Vivi aqui meus últimos 33 anos e agradeço sempre pelas oportunidades que recebi. Sinto-me paulistano e digo isso sem nenhum demérito à cidade em que nasci. Porto Alegre é parte crucial de minha história. Nela tenho os registros da infância e da adolescência, as marcas do início da carreira, parte da família e, claro, o clube do coração. Foi lá que o meu “gremismo” foi forjado. É do Grêmio, aliás, que falo neste espaço como bem sabe o caro e cada vez mais raro leitor desta Avalanche.
Ontem, dia 24 de Janeiro, foi dia de muita festa para o torcedor gremista. À noite, reencontrou-se com o time na Arena, pela primeira vez nesta temporada. Depois do revés na estreia do Campeonato Gaúcho, jogando fora, o Grêmio se impôs e goleou seu adversário em casa. Quem mas se divertiu foi o venezuelano Soteldo que, a persistirem os sintomas, tende a ser o ponto forte da equipe. Driblou como poucas vezes vimos, fez a festa com a bola no pé para desespero de seus marcadores, deu assistência para o gol que abriu a goleada e marcou pela primeira vez com a nossa camisa.
Agustin Marchesín, goleiro argentino contratado este ano, também fez boa estreia, apesar de o lance do pênalti, mal sinalizado pelo árbitro, ter sido motivado por uma falha dele. Foi seguro em todas as demais oportunidades em que o adversário ameaçou nosso gol e demonstrou personalidade forte para comandar o setor defensivo que precisa evoluir muito neste ano de 2024. Aliás, no que se refere à defesa, que alegria ver Geromel e Kannemann lado a lado mais uma vez.
Nessa quarta-feira, havia gremistas com motivos ainda mais especial para festejar. O paraguaio Mathias Villasanti, um dos melhores volantes em atividade no futebol brasileiro, completou 27 anos com mais uma atuação segura. 24 de Janeiro também é aniversário do uruguaio Luis Suárez, que pelo que fez em um ano com a camisa tricolor será nosso eterno craque.
Aliás, os astros merecem ser investigados porque todas as vezes que se alinharam nesta data nos ofereceram grandes nomes. Foi o que fizeram, por exemplo, em 1945, quando lá na pequena Brochier, interior do Rio Grande do Sul, nascia Loivo Ivan Johann, que anos depois se consagraria como o “Coração de Leão” pela forma valente e impetuosa com que jogava com a camisa 11 do Grêmio. Ponta esquerda raiz, com chute forte e ídolo de todos nós torcedores, Loivo completou ontem 79 anos de vida muito bem vivida.
O aniversário de Loivo, ontem, me levou a escrever texto em que compartilhei a experiência que o craque me proporcionou quando eu ainda era um guri de calção curto e camisa tricolor esturricada: o dia em que entrei de mãos dadas com ele no gramado do Olímpico. O relato que, com outras palavras, havia sido contado nesta Avalanche publiquei em grupo de WhatsApp no qual gremistas ilustres participam, dentre eles o próprio Loivo.
Foi então que a minha festa particular se iniciou: o celular tocou e do outro lado era o craque a falar e a agradecer pela história que contei. Imagine a emoção deste escrevinhador que teve de controlar a batida do coração, a lágrima no rosto e a voz que fraquejava. O jornalista voltou a ser o guri do Olímpico, comemorou o feito com a mesma alegria infantil daqueles tempos e com o desejo de abrir a janela do apartamento e gritar: “Gol, gol, gol, gooool de Loivo, o Coração de Leão!”.
Em novembro de 1978, nasci em Jacareí, embora meus pais vivessem na capital paulista. Cresci no Ipiranga, ouvindo histórias do meu pai, um “menino de rua, sozinho no mundo”, como ele dizia. Cuja vida por São Paulo inspirou meu amor pela cidade.
Minha infância foi marcada por travessuras a caminho da escola na Praça Pinheiro da Cunha. No trajeto, andava por cima do muro mesmo sob a reprimenda de minha mãe.
Aos sete anos, iniciei a escola Teotônio Alves Pereira, lembrando sempre da tia Helenice, minha primeira professora.
Brincadeiras de rua, carrinho de rolimã e passeios de bicicleta pelo parque da independência faziam parte do meu dia-a-dia.
Na pré-adolescência, trabalhei com meu pai, entregando encomendas pela cidade, o que fortaleceu meu amor por São Paulo. Aprendi a navegar pela metrópole com um guia detalhado, antes da era do GPS. Os fins de semana eram reservados para os bailinhos, onde a moda era calça baggy, blaser com ombreiras e tênis.
Com a mudança dos meus pais para o sul de Minas nos anos 90, fiquei a 190km de São Paulo. Hoje, como marceneiro, visito a cidade frequentemente, relembrando os lugares da minha infância com carinho e nostalgia. Para mim, São Paulo não é apenas uma cidade, é o lugar que definiu minha felicidade e orgulho, a capital do meu coração.
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Álvaro Gomes Severino é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Juliano Fonseca. Esse texto foi inspirado na história contada pelo Álvaro. Agora, eu quero ouvir a sua história de São Paulo. Escreva e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite o novo site da CBN – cbn.com.br —, o meu blog miltonjung.com.br ou o podcast do Conte Sua História de São Paulo
Essa história começou em São Paulo e muitos anos depois atravessou o mundo e promoveu um encontro improvável. Nasci numa maternidade no Ipiranga e desde criança morei na região. O recém reformado Museu do Ipiranga foi parte da minha infância. Aos fins de semana, eu e meus amigos fazíamos corrida de carrinho de rolimã na descida que liga os dois extremos do parque, brincávamos de pega-pega por entre as árvores que cercam a Casa do Grito e pelos jardins de estilo francês, que sempre atraíram turistas.
Aos 18 anos, me mudei a trabalho para o Japão. Foi onde passei a praticar snowboard. Um dia, convidado por um amigo, me juntei a um grupo para visitar a uma pista de esqui famosa a umas quatro horas de carro de onde morávamos. No grupo uma garota chamou minha atenção. Apesar de ser a primeira vez que eu a via, tive a sensação de que a conhecia. Nas conversas descobri que ela também era brasileira. Descobri que éramos de São Paulo. Havíamos morado no Ipiranga e nascidos na mesma maternidade.
O destino nos uniu no Japão. Nos casamos. E voltamos para o Brasil. Perdi a conta de quantas vezes estive com nossos três filhos no Parque da Independência: andamos de skate, jogamos bola, escorregamos nos corrimãos gigantescos de mármore, observamos os macacos e pássaros que moram na mata, ao fundo do Museu.
Hoje, estamos novamente no Japão. As crianças já não são tão crianças. Têm uma vida bem diferente aqui em Yokohama. Mas cresceram com as memórias do parque e do museu do Ipiranga que seguem vivas em suas mentes.
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Alex Albergaria é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Juliano Fonseca. Venha participar das comemorações dos 470 anos da nossa cidade. Escreva seu texto e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos, visite o meu blog miltonjung.com.br , acesse o novo site da cbn CBN.com.br, e ouça o podcast do Conte Sua História de São Paulo.
Destacar um ponto especial de São Paulo não é tarefa fácil. Cada lugar, cada cantinho, cada nicho tem seus encantos próprios.
Se você for ao Brás, Liberdade ou Bela Vista terás a oportunidade de vivenciar emoções diferentes ainda hoje.
Mas o meu “cantinho” é a Mooca…ahhh como eu te amo!
E essa paixão vem dos idos de 1960 quando passava as férias na casa do tio Américo e da tia Ida.
O encanto era ainda maior porque eu vinha de Pirassununga, uma realidade totalmente diferente. Desembarcar na estação da Luz e embarcar no bonde rumo a rua Javari passando pela rua dos Trilhos já fazia aquele menino tremer na base.
Quando o motorneiro parava próximo ao Cotonifício Rodolfo Crespi, uma industria têxtil, fundada em 1897, que ocupava uma enorme área a minha pulsação disparava. Até a fumaça e o odor que ela exalava, me encantavam.
E assistir aos treinos e jogos do Juventus? Que felicidade vibrar com meu Moleque Travesso, aquele cannoli de sabor incomparável. Dá água na boca.
Dez anos depois, eu iniciei minha carreira profissional como professor.
Onde? No Colégio MMDC na rua Cuiabá. Claro, na Mooca. Destino? Se foi ou não, eu pouco me importei, a minha felicidade era estar novamente no bairro que aprendi a amar.
O bonde fora substituído pelo ônibus, que partia da Praça Clovis Beviláqua, e ao mesmo tempo que fazia seu trajeto projetava em minha memória um filme que até hoje, quando tenho a oportunidade de lá retornar, ainda vejo: a fumaça, o cheiro do Cotonifício, o sabor do cannoli, as vitórias do Moleque Travesso.
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Italo Cassoli Filho é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Juliano Fonseca. Venha participar das comemorações dos 470 anos da nossa cidade. Escreva seu texto e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos, visite o meu blog miltonjung.com.br , acesse o novo site da cbn CBN.com.br, e ouça o podcast do Conte Sua História de São Paulo.
Nem a famigerada guerra mundial nos tirava a vontade de viver. Vivíamos bem ali onde hoje chamam de Jardins. Em cada casa tinham três ou quatro meninos e meninas que seguiam a rotina de ir à escola e voltar sempre correndo, pois as mais diversas brincadeiras nos esperavam.
As meninas no seu tradicional brinquedo, a fazerem casinhas imitando suas mães, dedicadas ao que levava o nome prendas domésticas. Os meninos se entregam a acirradas lutas nos campinhos de futebol.
As casas eram quase todas iguais: um portão baixinho e flores por todos os cantos. Nos verões, os meninos mais crescidos iam às lagoas da Vila Olímpia.
Nadávamos como chegamos ao mundo, sem roupa. observados pelas andorinhas. De repente, saíamos em disparada: “quem chegar por último é o bobo”. Oitocentos metros depois estava o campo de futebol. Escalados os times, caneladas trocadas até o famoso “tô de mal”— durava pouco.
As brincadeiras ao ar livre se estendiam até o anoitecer, quando então ecoavam os sons daquela nossa cidade: os chamados das mães:. “Dito, a mãe está chamando!”, “Osvaldo, Vani, Luiz, Calu”, e todos respondíamos em coro, “tchau Calu, tchau Américo”, criando uma sinfonia de despedidas que hoje ressoa com saudade.
A Vila Olímpia agora é um bairro rico. Sem vestígios das lagoas. O Itaim Bibi evoluiu para o Jardins, e nós, os meninos, nos afastamos tanto quanto as andorinhas, talvez alcançando destinos ainda mais distantes.
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João Batista de Paula é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Daniel Mesquita. Esse texto foi adaptado para você ouvir aqui no rádio. Conheça outros capítulos da nossa cidade que estão no meu blog miltonjung.com.br. ou no podcast do Conte Sua História de São Paulo.
Nasci na maternidade de Vila Maria, na zona norte de São Paulo no dia 21 de abril de 1959.
No início dos anos 70, Giberto Gil, Bezerra da Silva, Jorge Bem Jor, Tony Tornado, Jackson Five, Billy Paul, Al Green, Stylistics, Barry White, Diana Ross, Stevie Wonder, Donna Summer, Aretha Franklin, Marvin Gaye, Roberta Flack, , entre outros cantores negros, regavam nossos bailes com suas músicas.
Dançávamos Samba Rock, hip hop, música lenta etc., chamávamos esses bailes de “Baile Black ou Baile de Preto”.
Na Vila Sabrina também zona norte de São Paulo onde eu morava, existiam os “Bailes de Garagem” que eram feitos na garagem de um amigo e nos salões de festa de nome: Sociedade Amigos de Vila Sabrina, Maracanã e Cafona. Eu participava desses bailes até nas quartas feiras, que terminavam sempre as 11 e meia da noite, pois todos tínhamos que trabalhar no outro dia.
Naquela época estava na moda calça boca de sino, sapato bicolor, camisa de tergal, uma corrente de bijuteria da mais grossa possível e o cabelo Black Power.
Apesar de eu ser pardo e meu cabelo liso, eu usava o Garfo ou Pente Africano para moldar meu cabelo para virar o famoso Black Power.
Muito raramente meus amigos e eu, participávamos de bailes em outros bairros, somente íamos quando quem convidava era o dono do baile, pois do contrário corríamos riscos.
Atualmente somente o salão da Sociedade ainda existe, mas não tem mais bailes, os outros foram demolidos, até a garagem do meu amigo não existe mais.
Quando se aprende a dançar Samba Rock, nunca se esquece, ainda danço com minha esposa, minha sobrinha e minha neta que estou ensinando.
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Odnides Pereira é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Juliano Fonseca. Seja você também personagem dos 470 anos da nossa cidade. Escreva seu texto e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos leia o meu blog miltonjung.com.br e ouça o podcast do Conte Sua História de São Paulo.
queria ouvir os sons da cidade mas a cidade não fala a cidade não grita a cidade fica silenciosa pelo meu caminho
deito à noite – quarto de hotel e não ouço a cidade o que me vem é lembrança de um som que se apagou mas não era o som da cidade
na rua andando ouço ônibus em disparada ouço buzina atormentada ouço gritos do louco perdido pela rua
(eu?)
mas é o som do ônibus o som do carro o som do louco agora na calçada não ouço a rua
e esse desejo de ouvir tijolos sobrepostos me consome e esse desejo de ouvir os paralelepípedos enterrados me alucina piso sobre eles como querendo ouvi-los gritar eles não gritam eles se calam e transformam em angústia as respostas que não tive
mesmo no cemitério da cidade
(introspecto – quarta parada – última na brincadeira do taxista)
ouço vozes uma sorrindo, outra cantando, outras pedindo clemência a Deus mas dos muros do cemitério nada se ouve
as lápides, as esculturas
pedra, bronze, marfim nada dizem quietas observam a eternidade
talvez nas construções restauradas na demão de tinta no parque preservado ouça algum barulho que não da vida (de agora) mas da vida silenciosa que construiu a metrópole talvez auscultando as paredes com outro timbre possa ouvir ruídos de histórias talvez talvez um menino que correu pela praça talvez a prostituta em gozo pela noite talvez o professor talvez o poeta que nada quis além do menino da mulher e do aluno talvez um poeta possa ouvir mas não o que canta a cidade aquele que tente ouvi-la
surdamente questiona
ouvi-la para quê?
qual o sentido de ouvir a cidade qual o sentido de petrificado ante ao Theatro municipal gritar – o que me tens a dizer!
não te procurei não te procurei não te procurei três vezes te nego e sei que jamais serei absolvido em teu silêncio
o meu pai aqui pisou minha mãe andou por tuas ruas andou em teus bondes ouviu as pessoas contou tantas histórias sei de coisas que podem me levar ao engano de dizer – ouvi a cidade
mas meu pai morreu com o pulmão cheio de nicotina
não das fumaças de tuas ruas
minha mãe morreu de tanto amor que tinha
traiçoeiramente
não em tua traição
meu irmão Toninho morreu no alto da Paulista
meu irmão Tarcísio viveu no alto da Paulista
meu sobrinho canta pelos teus bares
meus sobrinhos andam por tuas ruas
meu irmão tem casa nesta cidade
pensei que poderia ouvir-te dizer
ao menos
bom dia.
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Fernando Dezena é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Juliano Fonseca. Esse texto foi adaptado para você ouvir aqui no rádio. A poesia completa você lê no meu blog miltonjung.com.br. Seja você também um personagem dos 470 anos da nossa cidade: escreva agora para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos acompanhe o podcast do Conte Sua História de São Paulo
Viajar para São Paulo, era uma aventura. O melhor era ir de trem: Estrada de ferro da Alta Paulista. Parava nas principais cidades: Adamantina, Marilia, Bauru, Limeira, Americana, Campinas e Jundiaí. Tinham outras que hoje já não me lembro mais. A viagem demorava 14 horas. Pela janela, a cada cidade que passava, meus sonhos ficavam para trás.
Lá em Pacaembu, andávamos, descalço ou quando muito usava alpargatas, pescava e nadava num rio perto de onde morávamos. Levava o estilingue no pescoço, e minha paixão era jogar futebol.
Viemos morar com os irmãos num apartamento, na Cardeal de frente ao mercado de Pinheiros —- esse era um lugar que eu gostava: tinha verduras, uma banca que vendia animais e pássaros e aquilo me fazia lembrar dos meus tempos recém deixados para trás.
Lá em Pinheiros, tinha a Cooperativa Agrícola de Cotia. Lembro que meus pais falavam deste grande empreendimento da colônia japonesa. E para meu deleite, onde os caminhões estacionavam para carga e descarga ficava vazio nos finais de semana. Eu pegava a minha bola de futebol, corria e chutava contra o paredão. Às vezes, transmitia a partida como um speaker de rádio.
Uma figura da época era o Luizão, que morava na rua. Fazia bico ajudando na descarga dos caminhões. Quando estava embalado nos seus devaneios, Luizão gritava: “o tempo passa!”, lembrando Pedro Luis, um dos maiores locutores esportivos de todos os tempos. A voz de Luizão ecoou pelas ruas de Pinheiros onde hoje está o Largo da Batata. O mercado não existe mais. O apartamento da Cardeal foi demolido. A sede da Cooperativa deu lugar a outros prédios. Meu campinho sumiu assim como o do Sete de Setembro, no fim da Rebouças que agora é o Shopping Eldorado.
O tempo, sim, o tempo passa!
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Edison Fujiki é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Juliano Fonseca. Este texto foi adaptado para você ouvir aqui no rádio. Seja você também personagem dos 470 anos da nossa cidade. Escreva seu texto e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos leia o meu blog miltonjung.com.br e ouça o podcast do Conte Sua História de São Paulo.
Hoje o dia está chuvoso e frio; perfeito para sentar em qualquer canto, calar a voz e permitir que o peito, através das lembranças, chore e ria o quanto e como quiser.
Não será preciso nenhum toque especial, nenhum gole de álcool ou qualquer outro motivador que seja. Basta, apenas, relaxar e esperar as memórias começarem a aparecer.
Bem pensado. Imediatamente colocado em prática. Surge uma dúvida: O que lembrar?
Bem, eu queria voltar no tempo, ir para as décadas de 40/50, e lá, naquele casarão da Rua Augusta, encontrar a minha infância, encontrar meu avô Gidi, minha avó Siti, minhas tias Neide e Zazá, meus primos Sonia e Roberto, minha mãe, meu pai, meu irmão.
Queria subir pelas escadas de mármore, ganhar o corredor, entrar no quarto da frente, encontrar meu avô, já doente, lhe fazer um cigarro de palha para, depois, ler uma boa parte do jornal até ele ressonar tranquilamente.
Depois, continuar percorrendo o longo corredor, ultrapassar o primeiro quarto onde dormiam eu, meu irmão, meu pai e minha mãezinha. Passar, logo em seguida, pelo segundo dormitório que era ocupado por minha tia Neide e meus primos Sonia e Roberto e, finalmente, chegar à sala de jantar onde as reuniões familiares aconteciam. Onde a árvore de Natal era montada todos os anos, e os presentes do ”Papai Noel” eram desembrulhados a cada dia 25 de Dezembro. Onde as macarronadas dos almoços domingueiros eram realizadas, onde os pacotes de doces do Bar Viaducto, comprados por meu pai, eram abertos e os doces devorados por todos, onde nós, crianças, a cada almoço, tínhamos, divididas com justiça, garrafas de deliciosas Tubainas.
Sala onde eu presenciei ainda garoto, os bailecos promovidos por minha tia, recheados de trilhas sonoras com Fernando Albuerne, Gregório Barrios, Lucho Gatica. Bing Crosby, Frank Sinatra, Tommy Dorsey, Glenn Miller e outros sons doces e melodiosos e, depois, passados alguns anos, mudado de assistente a promotor, passei a realizar bailinhos, não de garagem, mas de sala, abrilhantados por “Pick-up e sus Negritos”, amparados por “sandubas” de “Carne-Louca” e espetinhos de Salsicha e Picles enfeitando abacaxis ou outros que tais, regados a Ponche confeccionados com muita guaraná, Cinzano, frutas picadinhas e gelo.
Sala de mil lembranças, inclusive tristes, como os velórios de meu avô e depois de minha tia, quando era transformada em morgue, forrada de panos pretos, e iluminada por velas em castiçais prateados e flores de odor doce e nauseabundo, arejada por um pequeno aparelho emissor de ozônio de barulho irritante.
Queria continuar atravessando o corredor, passando pelo pequeno quartinho ocupado por minha tia, quando de sua solteirice, passando, depois, pela porta do único banheiro da casa que, no seu interior, guardava uma antiga cômoda de madeira usada para guardar materiais de higiene e toalhas de rosto e banho. Tinha, também, uma enorme banheira de ferro fundido, usada de quando em vez, para banhos alegres das crianças que, depois de se refestelarem na água represada, usavam o chuveiro elétrico que ao centro da banheira para o desensaboamento.
Chegaria, então, ao cômodo mais importante da casa, a cozinha, onde a vida inteligente da família se reunia nos dias não festivos para consumirem os alimentos (poucos no pós-guerra), mas elaborados com carinho e maestria por Tia Neide e minha mãe. A cozinha era simples, tinha um fogão de ferro onde eram acesos, com a ajuda de cascas de laranja secas que eram penduradas na barrinha em frente para transformarem os carvões inertes dentro das bocas do fogão, em brasas vivas, e emprestarem o seu calor para uma perfeita cocção dos alimentos.
Tinha também uma mesa antiga, de madeira já bastante gasta nas bordas arredondadas, um armário para guardar pratos e copos, uma pia que, nos seus baixos, tinham sido empilhadas umas tábuas para acondicionarem-se as panelas que, por sua vez, eram escondidas por uma cortininha de pano estampada com pequenas flores azuis.
A geladeira, que chegou um dia, para gáudio de todos, estava instalada ao lado da pia e, pasmem, era alimentada por barras de gelo que recebíamos diariamente através do “geleiro” e sua carroça básica.
Finalmente, descerrar a porta da cozinha e deparar com o cenário de minha pobre, mas alegre infância o quintal que, ainda hoje, povoa minhas lembranças.
No seguimento da porta da cozinha ficava uma escada que descia pela parede até o piso do quintal. Uma pequena parte do quintal, em que estava instalado o tanque onde um dia eu mergulhei como se fora um super-herói e quase matei de susto minha mãe, o corredor lateral e todo o porão da casa eram cimentados, O resto do enorme quintal era em terra bruta, onde além dos varais de roupa, suspensos por taquaras secas existiam, também, alguns mamoeiros, uma goiabeira de frutos vermelhos, onde eu saciava minha gula, uma velha parreira de uvas vermelhas e deliciosas e algumas ervam aromáticas, um enorme e pesado pilão de cimento dos tempos de minha avó e, a minha paixão, uma touceira de hortênsias azuis que eram o meu esconderijo preferido depois de alguma travessura.
Esta era minha casa, meu mundo, minha vida, minha querência querida. Ah que bom seria poder voltar a ela e matar as saudades que hoje moram no meu coração.
Infelizmente, a realidade é cruel e sei, pesarosamente, ser impossível meu desejo, então tento amenizar estas saudades escrevendo e descrevendo o velho casarão.
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Miguel Chammas é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Juliano Fonseca. Seja você também personagem dos 470 anos da nossa cidade. O texto que você ouvirá a seguir foi adaptado para ser apresentado no rádio.
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