Conte Sua História de São Paulo: no cortiço, os melhores dias da minha infância

 

No Conte Sua História de São Paulo, o texto de Mariza Christina, de 60 anos, moradora da Água Funda, que preferiu escrever uma carta à mão em lugar de nos enviar um e-mail, pois assim se sente mais próxima das pessoas:

 

 

Em 1961, eu estava com 7 anos e minha irmã, 5. Meus pais passavam por dificuldades financeiras, não podiam pagar mais o aluguel da casa onde morávamos, no bairro da Ponte Rasa, onde nasci, por isso decidiram que iríamos morar com a minha avó materna até a situação melhorar. Ela morava na Rua da Glória, entre a Rua Conselheiro Furtado e a Rua Lava-pés, bem no centro de São Paulo. Era um terreno longo e estreito com vários quartos. Imagine seis pessoas num quarto 6×3, mais ou menos, era um aperto danado, bem diferente da casa grande e confortável que vivíamos, mas para mim e minha irmã era novidade e nos divertíamos muito.

 

Naquela época era comum quartos como aquele por serem baratos e fáceis de alugar, eram popularmente chamados de ‘cortiços’. E foi nesse quarto tão simples e apertado que passei os melhores dias da minha infância. Moramos lá um ano, mas o suficiente para deixar muitas lembranças.

 

Fiquei encanada quando vi pela primeira vez o bonde, aquele carro grande que andava sobre trilhos carregando pessoas, e fiquei intrigada como elas não se molhavam quando chovia, pois não tinham portas! Será que elas abriram o guarda-chuvas?! Corri para contar à minha avó, tão curiosa e ofegante que mal podia falar. Assim que pude, a enchi de perguntas. Quanto ela me disse que os bondes iriam acabar, pois estavam sendo substituídos por ônibus, fiquei muito triste: eles eram tão bonitos! Às vezes, ficava horas no portão só para vê-lo passar, queria gravar aquela imagem na memória.

 

Todos os dias, as duas horas da tarde, saía uma fornada de pão da padaria que havia em frente a nossa casa, o cheiro era inebriante e tão delicioso que até hoje quando me lembro posso sentir aquele cheirinho maravilhoso. É inesquecível!

 

O Carnaval estava próximo. A ansiedade era grande, eu nunca tinha assistido a um desfile. Ao lado da nossa casa tinha uma lojinha que vendia de tudo; fantasias, plumas, máscaras, adereços, etc … O movimento na loja era enorme, pessoas que entravam e saíam alegres com fantasias que iriam vestir. Meus olhos brilhavam com tantas coisas bonitas e coloridas. Meus pais também iam desfilar e deixaram que eu ajudasse a escolher suas fantasias. Compraram ainda confetes, serpentinas e bisnagas de água, para mim e minha irmã.

 

Ainda não existiam blocos ou escolas de samba, eram cordões. As fantasias simples, sem luxo, porém, muito bonitas e criativas. Os cordões se concentravam na Rua Lava-pés e de lá saíam cantando marchinhas que até hoje são lembradas, subiam a rua da Glória e outras ruas do bairro. Quem não desfilava acompanhava jogando confetes e serpentinas. No ar, exalava um perfume delicioso de lança-perfume. Ao fim do desfile ia-se atrás do cordão preferido.

 

Apesar das dificuldades foram os dias mais felizes das nossas vidas e, com certeza, deixou muitas saudades em todos nós.

 

Mariza Christina é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você também mais um capítulo da nossa cidade. Escreva para milton@cbn.com.br. Ou mande um carta como fez dona Mariza.

Conte Sua História de SP: pássaros, cheiros e sabores da cidade

 

Por Elisabeth Cury

 

 

Nasci em São Paulo e aqui estou até hoje. São anos e anos!

 

Vou puxar pela memória, buscar acontecimentos. Mas não vou puxar muito, não. Drummond dizia que o que for preciso de esforço para lembrar é que não foi importante.

 

Sei de uma coisa: desde muito cedo me deixei impressionar pelos sentidos. Foi meu jeito de captar o mundo, a vida, esta cidade. Então vai ser fácil.

 

Eu morava na periferia, quando ainda havia trechos de mata – a Atlântica – no caminho para o centro, para a “cidade” como se dizia.. Procurava ver, ouvir, sorver os aromas, saborear, pegar, vendo tudo que podia com minhas próprias mãos. – sentir.

 

Que céu! O ar transparente: de dia, quando havia sol, nuvens espetaculares, sobre azul, com formatos que eu queria sempre associar a bichos, gente, coisas, como fazem as crianças. À noite, estrelas no azul-marinho. Nessa hora, meu pai, que fora pescador marítimo em sua terra, me dava aula de céu – o que era estrela, o que era planeta, constelações e o nosso Cruzeiro do Sul.

 

O cheiro da terra molhada, quando chovia. Delícia! Natureza. Nas trovoadas, minha mãe punha-nos, a mim e a meu irmão, debaixo de uma mesa, embrulhava a tesoura que usava nas costuras em um pano, toda a casa ficava fechada. Ninguém podia fazer nada, até que o mau tempo passasse. Então podíamos sair. Era hora de ver a enxurrada em ruas e terrenos de bairro que principiava.. Era pôr o pé na água, sem ninguém falar às crianças que podia dar leptospirose. Era muito divertido molhar os pés, soltar barquinhos de papel.

 

Revoada de pardais no amanhecer e no entardecer. É que nos fundos do meu quintal havia um riozinho, ainda limpo naquele tempo, e, na beirada, uma touceira de bambu, opulenta. Era dormitório de um sem número de pardais. O dia acordava com uma cantoria inesquecível. À tardinha, eles iam chegando. O movimento deles nessa hora era curioso: não chegavam e iam quietinhos para o abrigo noturno. Não. Em bandos incontáveis, pousavam e logo saíam em revoada, descreviam um círculo e voltavam. Outro bando partia. Assim ia até ir escurecendo e eles se aquietando em seus lugarezinhos.

 

Os parentes que iam em casa – nesse tempo usava-se receber e fazer visitas – desfrutavam desse acontecimento. Era até uma atração turística da minha casa. Além dos pardais, os bem-te-vis, os sabiás, as rolinhas e o arrulho dos pombos da comadre, vizinha, que mantinha um pombal.
Perfumes. Principalmente o de gardênia, que minha mãe chamava de jasmim-do-cabo e que ela conservou em nosso jardim por muito tempo, quase sempre.

 

Sabores: de uva, azedíssima e de mexerica, já que havia nove pés no quintal. Eu só tinha uma pena: eu queria que elas dessem no verão, que eu ia aproveitar mais. Elas ficavam prontas no outono, quando já estava frio.

 

Era a São Paulo da garoa, muitos meses do ano em cinza. Que frio!… Acho que é por isso que eu estou sempre pronta para o inverno, foi meu princípio, foi como conheci o meu lugar no mundo.

 

Saudades dessa São Paulo!

 

O Conte Sua História de São Paulo vai ao ar aos sábados, logo após às 10 e meia da manhã, no CBN SP. A sonorização é do Cláudio Antonio. Você pode contar outros capítulos da nossa cidade, escrevendo seu texto e enviando para milton@cbn.com.br

Conte Sua História de SP: serei parte desse teu chão

Por Valdeni da Silva
Ouvinte da rádio CBN

 

 

Minha história inicia-se nos anos sessenta em um patrimônio chamado Aricanduva que pertence ao município de Arapongas que se localiza no norte no Estado do Paraná.

 

Cresci livre correndo entre as matas e cafezais, nadando nos límpidos riachos e se alimentando com carne fresca de porco e galinha e de frutas e legumes fresquinhos colhidos na horta e nos pomares que havia em todas as propriedades rurais, a minha infância foi de intensa felicidade, pois não conhecia o mal nem a malícia e a perversidade que assediam as crianças de hoje.
Cresci ouvindo a voz do Brasil e ouvindo falar na tal ditadura que papai nos explicou que era proibido falar mal do governo e só havia dois partidos o MDB que era dos pobres e a Arena que era do governo e dos patrões. Papai era o MDB, mas a gente não podia dizer isso na escola, nos dias de eleições no Ginásio Júlio Junqueira em Aricanduva a gente via o medo estampado no rosto das pessoas e os eleitores não ousavam nem cochichar pois eram vigiados o tempo todo e ao final das eleições que foram regulamentadas pelo AI 15 – este ato institucional impôs a data das eleições nos municípios para 15 de novembro de 1970 -quem vencia era sempre o candidato do governo.

 

Ditadura à parte, a vida continuava ótima na roça, os porcenteiros e sitiantes festejavam um ano de safra recorde de café até que chegou o fatídico ano de 1975. Talvez a melhor maneira de descrever este fato seja narrando-o do ponto de vista pessoal. Para os que viveram no Norte do Paraná naquela época, aquele inverno significou uma tragédia ao mesmo tempo coletiva e particular, algo que o Brasil praticamente não percebeu o verde dos campos foi substituído por um cinza funesto e os incêndios se alastraram pelo estado que teve a cafeicultura e hortaliças dizimadas pelo gelo. Foi essa geada de 1975 que quebrou a hegemonia do Estado do Paraná na produção brasileira de café, cedendo essa posição para Minas Gerais.

 

A exemplo de muitos, esperanças congeladas, lavradores frustrados, papai resolveu que viríamos para São Paulo, o Eldorado dos aventureiros, terra onde se ganha dinheiro e sucesso, aqui compramos casa em Vila Curuçá, encontramos emprego e com muita garra e luta nos estabilizamos. Fui Office boy, entregador, carteiro, metalúrgico e hoje sou um educador, profissão que amo de paixão, funcionário público com muito orgulho.

 

Se perguntarem se fui feliz na infância e adolescência digo que sim, pois tive o prazer de lutar pelas Diretas Já, fui ao Anhangabaú onde havia mais de dois milhões de pessoas reivindicando por um país democrático e eleições.

 

Sou hoje paulistano por adoção e amo São Paulo que tanto contribuiu para minha emancipação financeira e deu a minha amada querida esposa – também Educadora -, filhos e neto, enfim São Paulo é de todos, de negros, de brancos, de crentes, de católicos, de sulistas, nordestinos, estrangeiros… Se eu fosse ficar falando bem de São Paulo essa história quase não teria fim.

 

Ah São Paulo tão amada, cultuada e cantada em versos e prosa, símbolo da América do Sul, locomotiva que puxa o país, como eu te amo. Chão abençoado que como imã atrai os povos de todos os lugares.

 

Quando meu corpo tombar serei parte desse teu chão e meu corpo em teu corpo se tornará um só corpo e seremos sempre felizes.

 

O Conte Sua História de São Paulo vai ao ar aos sábados, no CBN SP, logo após às 10 e meia da manhã. A sonorização é do Cláudio Antonio.

Conte sua história do rádio

 

Por Milton Ferretti Jung

 

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Sou fã de carteirinha do Conte Sua História de São Paulo. Não se trata de corujice do pai do Mílton. Não perco os textos que ele posta com este nome no seu blog. Caxiense por nascimento e porto-alegrense por adoção,as pessoas de outros estados do Brasil e mesmo estrangeiros que desembarcam em SP,em geral,ainda crianças,têm sempre boas histórias para relatar dos seus primeiros anos na capital paulista.

 

Nestes tempos em que,por motivos para lá de importantes, as mídias de toda espécie estão voltadas para os escândalos protagonizados por políticos e/ou funcionários governamentais,meus textos pareceriam ter virado samba-de-uma-nota-só,contaminado pela fartura de notícias do mesmo tipo. O Mílton que me desculpe,mas me obriguei a dar um tempo nos textos das quintas-feiras que escrevo,normalmente,no blog por ele capitaneado.

 

Talvez meu débito com o Mílton,quem sabe o único leitor das páginas que posto neste blog,aumentaria consideravelmente,se eu não tivesse lido o mais recente episódio do Conte Sua História de SP. Encontrei analogias entre a chegada de Dina Gaspar – este o nome dela – e a minha infância, apesar de a menina assustada com os estranhos barulhos que ouvia ao ter de entrar naquela que seria sua segunda casa, ”agarrava-se fortemente ao pescoço da prima Ercília visando a não entrar no seu novo lar”.

 

Dina não deixava de ter razão. Os autores da barulhada sequer falavam a sua língua. Afinal,ela vinha de uma “pobre aldeia argentina”. E o barulho soava,contou,como perigo iminente. Mal sabia que estava – palavras dela – sendo apresentada ao rádio,”aquela caixa de madeira escura de uns 60cm x 40cm”. Adorei a frase de Dina Gaspar no seu texto:”No mundo infantil não existiam apenas vozes sem corpo”. Não deixava de estar certa.

 

Dina Gaspar,se a minha matemática não está errada, diz no belo texto que escreveu, ”que, dessa intensa e intrincada vivência, os 70 anos seguintes nos mudaria a ambas: a mim e a São Paulo!”.

 

Falei na minha analogia com Dina porque,apesar dos 10 anos de diferença entre nós,na casa paterna,em Porto Alegre,de certa forma descobrimos, ainda muito cedo, que o rádio não faz mal a ninguém. Bem pelo contrário. Ouvi rádio desde pequeno, depois já adolescente. Meus avós,que moravam conosco,eram pagos para controlar se,no rádio,os anúncios de determinadas firmas íam ao ar nos horários combinados. Foi em um serviço de rádio escuta desses que tomei conhecimento de que uma pequena emissora havia aberto testes para candidatos a locutor. Fui um dos três que passaram no teste na Rádio Canoas.

 

Muito mais longe de sua casa paterna foi o Mílton Jr. que,com uma feliz combinação entre nós,passou a ser conhecido com Mílton Jung. Mais corajoso que o pai,ele fez teste na TV Globo. E passou. Acho que a história dele em São Paulo bem que poderia ser contada pelo próprio.

 


Milton Ferretti Jung é jornalista, radialista e meu pai. Escreve às quintas-feiras no Blog do Mílton Jung (o filho dele)

Conte Sua História de SP: aqui fui apresentada ao rádio

 

Por Dina Gaspar

 

 

Não, não, não, gritava eu… não quero entrar… tenho medo, tenho medo … tem muito barulho … tem gente brigando aí dentro, tem muita gente brigando …. E mais me agarrava fortemente com as pernas ao corpo e com os braços ao pescoço de minha prima Ercília. E a empurrava para trás para não me levar para dentro de sua casa… Era fim de tarde, noitinha …

 

Apesar de seus 16 anos completados naquele dia, Ercília era muito maior e muito mais forte, que o dobro da diferença de nossa idade, naquele ano. Eu era muito pequena e mal tinha completado oito anos de idade, no dia 20 de janeiro de 1953, num navio argentino chamado Corrientes, do qual desembarcamos, minha mãe e minha irmã dois anos mais velha, em Santos, no dia 26 de janeiro.

 

No colo de minha prima, ainda que desconhecida até aquele dia, mais a proximidade de meu pai – que reencontrávamos depois de um ano -, minha mãe e minha irmã, não foram suficientes para me dar confiança e coragem de enfrentar aquelas vozes. Vozes que eu não sabia de onde vinham, não as reconhecia e, mais, não falavam a minha língua… Soavam apenas como perigo iminente!

 

Fui assim apresentada ao rádio!

 

De onde eu vinha, uma pequena e pobre aldeia chamada Avelãs da Ribeira, na Beira Alta, meu mundo era outro. Foi como sair da Idade Média diretamente para um mundo totalmente desconhecido e séculos à frente: a modernidade do Brasil, da grande cidade de São Paulo. E, também para o populoso e operário bairro de Vila Maria, onde morava uma grande colônia de portugueses e, no meu caso, a família de minha mãe.
Mal podia acreditar que dentro daquela caixa de madeira escura de uns 60cm x 40cm, sobre o guarda-louça, estivessem todas aquelas vozes… E que lá coubessem tantas pessoas! Aé então para mim tudo era concreto, racional e lógico… e distante das modernidades do mundo! Acreditava que se a estátua de um menino na Igreja de minha aldeia, que segurava um globo numa das mãos, caísse e se quebrasse, o mundo acabaria.

 

Além de poucas pessoas, todas familiares, só conhecia a natureza e com ela tinha toda intimidade. Conhecia todos os recantos de minha pequena aldeia e todas as demais onde meus parentes moravam. Andava pelos campos sem medo nem desconfiança. Explorava a floresta com a certeza de que apenas os homens e os animais e os insetos por ali andavam, ou viviam…

 

E na natureza, vozes não identificadas causavam medo e precisavam de explicação e comprovação visual. Sempre! Ou pertenciam às histórias que os adultos, à beira da fogueira, contavam, as quais enchiam as crianças de medo. Eram os fenômenos ou acontecimentos que o aldeão não conseguia explicar. Já faziam parte de sua cultura.

 

No mundo infantil não existiam apenas vozes, sem corpo!

 

E despertei, em São Paulo, para o mundo complexo e onde tudo era novidade. Não foi fácil adaptar-se à cidade grande que para mim era o próprio Brasil, inteirinho na cidade de São Paulo. Ou melhor, ao redor de minha casa na Vila Maria.

 

No ano seguinte, no dia 25 de janeiro de 1954, da casa comunitária que dividíamos com mais duas famílias, na Rua Mére Amedea, já na direção da Vila Maria Alta, São Paulo continuava me surpreendendo com suas inúmeras e cotidianas novidades. E, naquela noite, olhando ao longe e do alto para o perfil dos grandes prédios do centro de São Paulo, destacado pelo maior arranha céu da época, hoje, Banco do Estado de São Paulo, vi uma chuva prateada ou dourada cair em comemoração do Centenário da Cidade de São Paulo. O céu brilhava! Não eram estrelas verdadeiras que caíam. Porém, no meu mundo infantil, eram ainda mais bonitas, brilhantes e misteriosas…

 

Nesse dia em que a cidade de São Paulo completava 400 anos de fundação, eu, com apenas nove de vida, ainda não sabia, mas, teríamos pela frente muitos anos juntas e de intensa vivência … Veríamos o progresso mútuo, acompanharíamos uma à outra em nosso cotidiano e faríamos parte das novidades do mundo … E que, dessa intensa e intrincada vivência, os 70 anos seguintes nos mudaria a ambas: a mim e a São Paulo!

 

E para muito melhor! Seria o resultado dos milhares de estrelas cadentes daquela noite de aniversário de São Paulo ?

 


Dina Gaspar é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte mais um capítulo da nossa cidade. Envie seu texto para milton@cbn.com.br.

Conte Sua História de SP: licença para ser paulistano

 

Por Silvio Afonso Almeida

 

 

Minha paixão pela cidade de São Paulo começou bem cedo e cada vez aumenta mais. Cheguei de Minas Gerais aos três anos de idade e minha família foi morar em Diadema e depois em São Bernardo do Campo no ABC paulista.

 

Na minha adolescência tinha o sonho de ir a São Paulo para comprar roupas, pois era comum ouvir as pessoas contarem o quanto era legal fazer compras na “cidade”. Na primeira vez me assustei, mas a sensação foi inesquecível: subir a General Carneiro entupida de gente foi uma visão incrível. No entanto, era difícil fazer aquilo sempre. Aos 19 anos vim morar na zona Leste de São Paulo sem ter outra opção, já que minha família encontrava-se numa tremenda crise e eu já era seu arrimo. O bairro não era exatamente o panorama de meus sonhos dessa maravilhosa cidade e foi difícil me acostumar. Mas com o tempo meu coração foi encontrando seu lugar aqui. Me recordo do dia em que passando em frente a Bolsa de Valores, vi um homem muito bem vestido falando em um aparelho móvel colado ao ouvido eu não acreditei no que via, era um celular, embora não tivesse noção exata disso. Tudo ao meu redor me provocava encantamento e fui me apaixonando.

 

O apogeu dessa minha paixão foi no dia em que tive a oportunidade de fazer um voo panorâmico pela cidade. Era uma promoção de um fornecedor da empresa em que eu trabalhava. Foi arrebatador! Decolamos do Campo de Marte e logo o horizonte infinito de São Paulo foi se desdobrando diante de minha vista. Como era imensa! Linda! Todas aquelas sensações iam como que consolidando dentro mim a minha ligação com essa cidade. O medo do aparelho voador ficou em último plano. Sobrevoamos o Ibirapuera, depois tive a impressão de estarmos sendo engolidos pelos telhados até pararmos bem encima da maravilhosa Avenida Paulista. Ciente do quanto eu gostava da cidade, o comandante fez questão de girar a aeronave em 360° e eu quase perdi o fôlego diante daquele espetáculo. Em seguida, nos dirigimos ao edifício Itália para onde iríamos mais tarde para um jantar. Dalí, fomos para Perdizes e pairamos sobre o Parque Antártica onde eu costumava assistir o verdão jogar. Infelizmente era um dezembro escuro do ano de 2001 e estávamos em plena crise de energia elétrica e o racionamento apagou as luzes do natal.

 

Do alto do Terraço Itália, saboreando uma trança de salmão com um legítimo vinho italiano, contemplávamos a cidade e eu tinha uma certeza: São Paulo é realmente a minha cidade e tive licença de me considerar um paulistano.

 

Silvio Afonso Almeida é personagem co Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Você participar com história enviadas, em texto, para milton@cbn.com.br

Conte Sua História de SP: aquela família que a gente forma por opção

 

Por Laura Hokama
Ouvinte da rádio CBN

 

 

São Paulo em que nasci, vivo profundamente todo o caos urbano e agradeço aos meus avós que vindo se aventurar de Okinawa- Japão, passaram por outras cidades e… pararam em São Paulo!!! Ê…Ê…Ê…Ê… São Paulo … Ê ….. São Paulo, São Paulo da garoa, São Paulo da terra boa!

 

Nos meus 50 e tralala…. morei no Tatuapé cuja referência é a rua Jacirendi, travessa da avenida Celso Garcia…. rua em frente ao prédio do Banco do Brasil, este construído com pastilhas brancas e azuis que na época era super Chic!

 

Na lembrança os vizinhos: dona Mercedes que morava num casarão chic e tinha telefone na casa dela! Ah! A dona Higínia também tinha sua casa muito chic e telefone! Esta por gostar muito da minha mãe, oferecia, quando se fosse por necessidade, o uso de seu telefone, mas a dona Guida, minha mãe, educadamente, sempre agradecia e quando precisávamos corríamos na farmácia do Megale para telefonar e não incomodar a dona Higínia!

 

A dona Léa, também com seu acolhimento humanamente amoroso, abria a sessão de sua super TV para os amigos de seu filho, o qual era o meu amigo rico!! As lembranças das tardes que chegávamos em sua casa, tirávamos os chinelos no quintal e entrávamos na sua cheirosa casa, íamos para a sala e assistíamos a TV, não lembro a marca, mas era linda, ficava embutida num armário com duas portas que se abriam para ser ligada e nos entretíamos por horas!

 

Tinha o barzinho do “ seu Zé” que, vez ou outra com os trocadinhos que guardávamos, íamos lá para escolher os doces de sua vitrine. Eu adorava o suspiro cor de rosa! São muitas as lembranças desta rua que ainda residem em minha memória!

 

Crescida, morei em outros bairros, fui morar em outras cidades do interior, e, agraciada, voltei para São Paulo!

 

Hoje, resido na Água Branca! Aqui era uma região com muitas fábricas e casas. Infelizmente ou felizmente, estão chegando os prédios, um deles onde moro. No prédio, vão chegando os novos vizinhos, todos se conhecendo e, passado um ano de convivência, formamos uma família! É, aquela família que a gente forma por opção! Afinidades por pensamentos, crenças e atitudes! Alguns, às vezes, se estranham, mas arrumam um jeitinho para conviver.

 

Percebo que estamos fazendo parte da mudança da região, fábricas saindo e chegando as moradias residenciais. Sabe, já está previsto uma linha do metrô, que ficará a poucos metros do prédio.

 

É a nossa São Paulo se modificando, crescendo e se expandindo para acolher os filhos da Terra!

 

Laura Hokama é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Envie a sua história para milton@cbn.com.br

Conte Sua História de SP: 50 anos de uma incrível amizade

Por Elisabete Parra

 

 

Meu nome é Elisabete Parra, nasci em Catanduva, em setembro de 1956. Sou filha única e convivi com meus pais, avós e tios naquela cidade até meus sete anos, quando então meus pais resolveram mudar-se para São Paulo, para que eu pudesse estudar, pois a escola mais próxima do sítio que morávamos ficava a uns 4 km de distância, e não havia condução.

 

Chegamos em São Paulo em novembro de 1963. Pra todos nós e principalmente pra mim foi um choque, em todos os sentidos. Vivia numa casa simples, sem luz elétrica, mas confortável, onde não havia cercas, vizinhos próximos, somente verde e animais.

 

Fomos para a Vila Industrial na Zona Leste, morar em um quarto e cozinha nos fundos da casa do meu avô materno, numa rua de terra com muitas casas e cheia de crianças. O que me consolava é que meu pai para me agradar comprou um rádio, onde conheci as músicas do Roberto Carlos, e o sucesso da época era Calhambeque.

 

 

No inicio de 1964 fui pra escola, Escola Estadual Prof.Maria da Gloria da Costa e Silva, primeira escola de alvenaria da região. A escola ficava um pouco distante, então as mães tinham que levar e buscar as crianças a pé, e nessas idas e vindas três mulheres se conheceram, ficaram amigas e então começaram a se revezar para buscar suas filhas, entre elas minha mãe: D.Ermelinda; a D.Carmen, mãe da Rosa; e Roseli e a D.Enedina, mãe da Lala, Nice e Edna.

 

As crianças ficaram muito amigas, e os pais também. Frequentávamos as casas, comíamos juntas e conhecíamos toda a família. Brincávamos na rua, sem medo, conhecemos as primeiras paqueras, que também moravam no bairro, fazíamos bailinhos nas casas, íamos ao cinema, comprávamos nossas roupas e calçados na feira livre, participávamos das procissões da Igreja N.Sra de Fátima, no Bairro Sapopemba. Era tudo muito divertido, apesar de sermos muito pobres, não tínhamos noção disso, pois éramos muito felizes com o que tínhamos.
Essa amizade ficou tão forte, que já dura 50 anos. Desde aquela época passamos os Natais sempre juntos, pois consideramos essa a nossa grande família, família não de laços sanguineos, mas de laços fraternos, laços de amor.

 

Em setembro do ano passado, fizemos uma grande festa para comemorar meio século dessa amizade, com nossos filhos, que são amigos e se consideram primos.

 

Eu só tenho que agradecer a essa cidade que acolheu tão amorosamente aquela menina assustada, e me deu essa grande família de amor.

 


Para comemorar os 50 anos de amizade, foi produzido o vídeo que você assiste neste post. Delicie-se com a histórias das amigas eternas.

 

O Conte Sua História de São Paulo é sonorizado pelo Claudio Antonio. Você participa com textos enviados para milton@cbn.com.br.

Conte Sua História de São Paulo: Sampa City, minha cidade!

 

Por Fran Girão
 


 

 

Tem a igreja de Santa Cecília, onde fui batizado, batizei minha afilhada e fiz a primeira comunhão. Vi os Harlem Globetrotters, o Real Madrid, a seleção brasileira de futebol, de vôlei, de handebol.

 

 
Empolguei-me com o Cirque du Soleil e com a sinfônica da cidade no Teatro Municipal. 
Frequentei trupes de teatro em Pinheiros. Matei uma tarde no Ibira e outra no Museu da Língua Portuguesa.

 

 
Cruzei a Ipiranga e a avenida São João – e pude ver que, sim, alguma coisa acontece.
No alto do edifício do Banespa, colhi uma fruta no pomar e olhei para o fim do mundo.

 

 
Comprei um quimono na Liberdade, um narguilé no Bom Retiro e muambei na Vinte e Cinco. Almocei numa churrascaria porteña e, depois de uma peça no Sergio Cardoso, fui a uma cantina no Bixiga. Tudo, tudo, no mesmo dia.
 

 

Juro: voltei para casa numa noite e vi duas meninas se beijando no metrô, sem causar espanto. Quando saí da estação, vi um piano (!) deixado no meio da praça, com um cartaz convidativo: “Toque-me”. Alguns passos adiante, uma jovem vestida de branco, olhos fechados e braços abertos, segurando uma vela. Entre os três acontecimentos, menos de dez minutos.
 

 

Um momento marcante da minha vida, em algum lugar especial de São Paulo?
 

 

Ôrra, meu.
 

 


Fran Girão é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Você participa com textos enviados para milton@cbn.com.br

Conte Sua História de SP: Meu pai, seu Geremias, o mecânico dos multiplus instrumentos

 

Por José Geremias Caetano

 

 

Corria a década de l940 e chegava a cidade de São Paulo, vindo da pequena Santa Lúcia na região de Araraquara, o senhor Geremias Caetano.

 

Como tantos, ele trazia na bagagem, sonhos, ilusões e o que mais coubesse. A “Terra da Garoa” logo mostrava a esse homem simples, que a vida por aqui não seria simples, mas ele estava disposto a mostrar a que veio e lutar era com ele mesmo , pois para quem vendia pamonha pelas ruas de São Carlos,na infância,(0 slogam era “olha a pamonha quente, quem não come fica doente” e nem pensar em trabalho de exploração infantil) cidade pela qual ele passou antes de se mudar em definitivo para São Paulo, a luta era só um item da vida e do dia a dia. Faço a ressalva que as pamonhas eram feitas pela minha avó, dona Benta. Consta que minha avó, dona Benta, chegou a enfrentar até uma pequena onça, com a pequena espingarda confiada a ela pelo meu avô Benedito. Por falar na família, não posso me esquecer da avó Rosalina, mãe de dona Yolanda, minha mãe. . .mulheres de fibra e de muito valor!

 

Voltando ao nosso personagem principal, já deu para percebeu que ele se casou, no inicio da década de 50, com dona Yolanda, minha mãe.

 

Se a vida já era difícil, os anos 50 se mostram bastante duros e nessa época, nosso personagem já começava a ao título fazer lastro, ao titulo acima, pois ele já trabalhava como mecânico em duas oficinas, na Secretaria da Educação de São Paulo e em uma transportadora que tinha por nome Nova União Portuguesa. Tudo isso durante o dia, pois a noite, meu Pai tocava seu saxofone e também a clarineta, vez por outra arranhava também o violão, nos bailes populares da época conhecidos como “gafieiras”. Imaginem vocês que meu Pai chegou a fazer parte de uma famosa orquestra da época, conhecida como Orquestra do Bem(um maestro muito popular nessa época em que era muito comum se copiar as “big bands ” americanas.). Papai chegou até a tocar com o conhecido maestro Erlon Chaves(sem querer ser maldoso, cada vez que o carro do maestro dava algum probleminha, lá vinha ele atrás de papai, não pelo seu lado musical, mas pelo seu lado mecânico!).Dinheiro ?! Só para se ter uma idéia, eram comuns os “bate bocas” no carnaval, pois mamãe queria papai em casa nessa época e ele afirmava que o carnaval “era o l3º do músico” e lá ia ele “pelos bailes da vida”ganhar o “seu 13º” ! São Carlos, Rio Claro, Araraquara e até outros estados, eram seus destinos frequentes na época do carnaval. Aliás esse bailes eram “empresariados” pelo tio João Francisco, que era de São Carlos e não se deixou seduzir pelo sonho da vinda a São Paulo Capital, e olhem, a qualidade de vida do tio João Francisco, foi bem melhor do que a de papai, que veio para São Paulo Capital, mas isso é uma outra história que vamos deixar para outra ocasião.

 

E a vida seguia seu curso, Na época do material escolar, tanto meus quanto de meus irmãos, papai se desdobrava nos seus múltiplos empregos e lá vinha ele com o dinheiro para comprarmos o material escolar!

 

As queixas de mamãe, tomavam vulto, mas papai não ficava em casa, tocando nos bailes, nem no Natal, Ano Novo ou aniversários tanto nossos como de casamento ! Nós não entendiamos que ele não poderia falta aos bailes, pois a concorrência era cada vez maior.

 

Mas, a vida e as tragédias não se desligam umas das outras. . .em um dos salões que papai tocava na época, o “28”, houve um grande incêndio em que dezenas de pessoas perderam a vida !

 

A romaria de pessoas em casa não cessava, , , elas vinham prestar solidariedade e saber notícias, já que alguns dos mortos eram músicos da orquestra !

 

Mas. . . As pessoas eram recebidas por um sorridente Geremias Caetano, que resolveu nesse dia, atender aos reclamos de dona Yolanda, não indo trabalhar e ficando com a família !

 

O Conte Sua História de São Paulo vai ao ar aos sábados, logo após às 10 e meia da manhã, no programa CBN SP. A sonorização é do Cláudio Antonio. Você pode participar com textos enviados ao e-mail milton@cbn.com.br ou agendando entrevista no Museu da Pessoa no e-mail contesuahistoria@museudapessoa.net