Conte Sua História de SP: aqui fui apresentada ao rádio

 

Por Dina Gaspar

 

 

Não, não, não, gritava eu… não quero entrar… tenho medo, tenho medo … tem muito barulho … tem gente brigando aí dentro, tem muita gente brigando …. E mais me agarrava fortemente com as pernas ao corpo e com os braços ao pescoço de minha prima Ercília. E a empurrava para trás para não me levar para dentro de sua casa… Era fim de tarde, noitinha …

 

Apesar de seus 16 anos completados naquele dia, Ercília era muito maior e muito mais forte, que o dobro da diferença de nossa idade, naquele ano. Eu era muito pequena e mal tinha completado oito anos de idade, no dia 20 de janeiro de 1953, num navio argentino chamado Corrientes, do qual desembarcamos, minha mãe e minha irmã dois anos mais velha, em Santos, no dia 26 de janeiro.

 

No colo de minha prima, ainda que desconhecida até aquele dia, mais a proximidade de meu pai – que reencontrávamos depois de um ano -, minha mãe e minha irmã, não foram suficientes para me dar confiança e coragem de enfrentar aquelas vozes. Vozes que eu não sabia de onde vinham, não as reconhecia e, mais, não falavam a minha língua… Soavam apenas como perigo iminente!

 

Fui assim apresentada ao rádio!

 

De onde eu vinha, uma pequena e pobre aldeia chamada Avelãs da Ribeira, na Beira Alta, meu mundo era outro. Foi como sair da Idade Média diretamente para um mundo totalmente desconhecido e séculos à frente: a modernidade do Brasil, da grande cidade de São Paulo. E, também para o populoso e operário bairro de Vila Maria, onde morava uma grande colônia de portugueses e, no meu caso, a família de minha mãe.
Mal podia acreditar que dentro daquela caixa de madeira escura de uns 60cm x 40cm, sobre o guarda-louça, estivessem todas aquelas vozes… E que lá coubessem tantas pessoas! Aé então para mim tudo era concreto, racional e lógico… e distante das modernidades do mundo! Acreditava que se a estátua de um menino na Igreja de minha aldeia, que segurava um globo numa das mãos, caísse e se quebrasse, o mundo acabaria.

 

Além de poucas pessoas, todas familiares, só conhecia a natureza e com ela tinha toda intimidade. Conhecia todos os recantos de minha pequena aldeia e todas as demais onde meus parentes moravam. Andava pelos campos sem medo nem desconfiança. Explorava a floresta com a certeza de que apenas os homens e os animais e os insetos por ali andavam, ou viviam…

 

E na natureza, vozes não identificadas causavam medo e precisavam de explicação e comprovação visual. Sempre! Ou pertenciam às histórias que os adultos, à beira da fogueira, contavam, as quais enchiam as crianças de medo. Eram os fenômenos ou acontecimentos que o aldeão não conseguia explicar. Já faziam parte de sua cultura.

 

No mundo infantil não existiam apenas vozes, sem corpo!

 

E despertei, em São Paulo, para o mundo complexo e onde tudo era novidade. Não foi fácil adaptar-se à cidade grande que para mim era o próprio Brasil, inteirinho na cidade de São Paulo. Ou melhor, ao redor de minha casa na Vila Maria.

 

No ano seguinte, no dia 25 de janeiro de 1954, da casa comunitária que dividíamos com mais duas famílias, na Rua Mére Amedea, já na direção da Vila Maria Alta, São Paulo continuava me surpreendendo com suas inúmeras e cotidianas novidades. E, naquela noite, olhando ao longe e do alto para o perfil dos grandes prédios do centro de São Paulo, destacado pelo maior arranha céu da época, hoje, Banco do Estado de São Paulo, vi uma chuva prateada ou dourada cair em comemoração do Centenário da Cidade de São Paulo. O céu brilhava! Não eram estrelas verdadeiras que caíam. Porém, no meu mundo infantil, eram ainda mais bonitas, brilhantes e misteriosas…

 

Nesse dia em que a cidade de São Paulo completava 400 anos de fundação, eu, com apenas nove de vida, ainda não sabia, mas, teríamos pela frente muitos anos juntas e de intensa vivência … Veríamos o progresso mútuo, acompanharíamos uma à outra em nosso cotidiano e faríamos parte das novidades do mundo … E que, dessa intensa e intrincada vivência, os 70 anos seguintes nos mudaria a ambas: a mim e a São Paulo!

 

E para muito melhor! Seria o resultado dos milhares de estrelas cadentes daquela noite de aniversário de São Paulo ?

 


Dina Gaspar é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte mais um capítulo da nossa cidade. Envie seu texto para milton@cbn.com.br.

Um comentário sobre “Conte Sua História de SP: aqui fui apresentada ao rádio

  1. Permitam-me que pense somente no Grêmio. Temos tratado da boa fase que o Imortal Tricolor tem apresentado nos seus últimos jogos:o desse domingo permitiu-lhe manter a liderança. Isso comprova que Felipão,até mais rapidamente do que eu imaginava,está compondo,seja com jovens,seja com jogadores experientes,um time que abandonou o chutão pela busca de passes que,esses sim,o levam ao ataque com rapidez e sucesso,como manda o bom figurino. Confio no trabalho do nosso técnico.Espero que os resultados positivos não sejam chuva de palha.

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